A literatura do Outro e os Outros da literatura
Apresentação - As várias faces da escrita narrativa
Apresentação - As várias faces da
escrita narrativa
A necessidade de estarmos em permanente diálogo, explícito ou implícito, com o Outro é uma realidade cada vez mais intensa na cultura contemporânea, caracterizada pela heterogeneidade e simultaneidade de apelos vindos das mais variadas fontes. Estar em sintonia com a diversidade é abrir-se à percepção dessa outra margem com que nos confrontamos em nossa prática sociocultural, tanto mais produtiva quanto mais o jogo dialético tecer sua dinâmica de contradições.
No campo artístico, e mais especialmente na literatura, esse tecido dialógico há muito vem se configurando como caminho fértil para a construção dos objetos literários, poéticos ou narrativos, alimentados pela visão crítica encenada em suas linguagens.
Mas que Outro é esse a que nos referimos? Haveria alguma identidade ou rosto para singularizá-lo?
Ao pensarmos no Outro, com maiúscula, estamos ampliando as possibilidades de seu sentido, justamente para não reduzirmos as múltiplas esferas a que ele pode reportar: as identidades culturais, as representações ideológicas, os espaços territoriais, as práticas discursivas, as instâncias de poder, as instituições, as manifestações artísticas, as relações amorosas e familiares. Enfim, desde o âmbito confinado da individualidade àquele que se estende a domínios mais abrangentes e incapturáveis, o Outro é essa instância cujo modo de ser é o próprio devir e, assim como o Eu, propõe-se como identidade móvel, permutável, em busca de afirmação.
Os textos aqui reunidos se oferecem como possíveis leituras da problemática do Outro na literatura, pertencente a diversas esferas e recortado conforme a perspectiva crítica adotada em seu enfoque pelos autores. O propósito maior desta coletânea, portanto, é fornecer ao leitor reflexões e questionamentos sobre os aspectos implicados na relação Eu-Outro presentes nas manifestações literárias tomadas como objeto de análise. Desse modo, os gestos de escrita e leitura serão dimensões em relevo ao longo deste livro, complementando-se e coproduzindo-se no percurso crítico que vai do(s) Eu(s) ao(s) Outro(s).
Maria Celeste Ramos revisita o romance machadiano Memórias Póstumas de Brás Cubas, com o propósito de analisar como se tece na narrativa o espaço das referências à mitologia clássica, esse outro imagético-mítico por meio do qual o escritor do realismo brasileiro desestabiliza o cânone romântico pelo viés de seu olhar transgressor. A relação com a tradição, por meio do resgate da herança clássica, revela-se, a partir da análise da autora, como ambivalente: retomar corresponde a uma legitimação dessacralizadora, em que a imagem idealizada não resiste à perfeição, revelando-se, afinal, falsa e corruptível.
O livro de contos Os grão-capitães (1976), de Jorge de Sena, é o objeto colocado em foco por Orlando Nunes de Amorim, com destaque para o conto "Os salteadores", por meio do qual o estudioso trata de questões como a memória e o testemunho, examinados à luz de conceitos de Walter Benjamin. Assim, "Sobre lobos e homens: memória e testemunho em ‘Os salteadores', de Jorge de Sena" oferece ao leitor reflexões críticas que lhe permitem perceber o diálogo entre teoria e ficção presente na abordagem da narrativa do escritor português. O papel da alegoria e o posicionamento do narrador, centrais no pensamento benjaminiano, ganham relevo na análise de Orlando Amorim.
Os embates entre a História e o testemunho é o que leva Flávia Nascimento a refletir sobre a ficção e seus Outros, por meio da investigação do romance africano pós-colonial Alá e as crianças-soldados (2000), de Ahmadou Kourouma. Conforme discute a autora, a tarefa política da obra de Kourouma resulta das mediações criadas entre o "testemunho" da personagem Birahima e a alteridade que confere a esse relato um status literário. Para problematizar os significados implicados no papel de testemunha representado pela personagem, Flávia apoia-se em conceitos do filósofo italiano Giorgio Agambem, ampliando-se, assim, as relações entre os universos real e fictício.
Em seu artigo "Roberto Bolaño: conselhos sobre a arte de escrever contos", Roxana Guadalupe Álvarez estabelece uma contraposição entre o conto do escritor chileno Roberto Bolaño e a contística herdeira de Edgar Allan Poe. Se nesta linha convencional a configuração da surpresa é a grande pedra de toque dos contos, na narrativa de Bolaño há reviravoltas tecidas pela trama que desequilibram as expectativas do leitor, resultando em contos com inovações em sua estrutura ficcional. Desse modo, por meio da análise de narrativas marcadas pela dissonância, sobretudo pelo seu final não conclusivo, a autora destaca a forma transgressora com que Roberto Bolaño desafia os moldes fixados por Poe e Cortazar em relação ao conto.
Como se pode ver, os textos contidos em A literatura do Outro e os Outros da literatura recobrem um cenário literário amplo, ao focalizarem romancistas e contistas de várias procedências e que, apesar disso, apresentam narrativas que convergem para afinidades em torno do que singulariza o fenômeno literário: a consciência, tramada pela escritura ficcional, dos impasses situados entre a palavra e o mundo que ela reconfigura. Em outros termos, parece que todos os escritores, cada um com sua própria concepção textual, conforme os artigos destacam, têm como projeto estético a preocupação com os limites da ficção – espaço móvel e tensionado, em que os moldes idealizados ou estabelecidos pela convenção cedem lugar à liberdade inventiva para poder revirar os padrões.
Assim, o jogo entre História e escrita recria as faces do Eu e do Outro, ao mobilizá-los e transformá-los em figuras com identidades provisórias a se (re)traçarem permanentemente.
Maria Heloísa Martins Dias e
Sônia Helena de Oliveira Raymundo Piteri