A Pata da Gazela

José de Alencar · Capítulo 1 de 20

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A Pata da Gazela

Senio

 

A PATA DA GAZELLA

 

ROMANCE BRASILEIRO

 

RIO DE JANEIRO

 

EDITOR PROPRIETARIO

 

B. L. Garnier.—Rua do Ouvidor n. 6

 

1870

 

INDICE

 

CAPITULO I

CAPITULO II

CAPITULO III

CAPITULO IV

CAPITULO V

CAPITULO VI

CAPITULO VII

CAPITULO VIII

CAPITULO IX

CAPITULO X

CAPITULO XI

CAPITULO XII

CAPITULO XIII

CAPITULO XIV

CAPITULO XV

CAPITULO XVI

CAPITULO XVII

CAPITULO XVIII

CAPITULO XIX

 

I

 

Estava parada na rua da Quitanda, proximo a da Assembléa, uma linda victoria, puxada por soberbos cavallos do cabo.

Dentro do carro havia duas moças; uma dellas, alta e esbelta, tinha uma presença encantadora; a outra, de pequena estatura, muito delicada de talhe, era talvez mais linda que sua companheira.

Estavam ambas elegantemente vestidas, e conversavam a respeito das compras que já tinham realizado ou das que ainda pretendiam fazer.

—Daqui aonde vamos? perguntou a mais baixa, vestida de roixo claro.

—Ao escriptorio de papai: talvez elle queira vir comnosco. Na volta passaremos pela rua do Ouvidor: respondeu a mais esbelta, cujo talhe era desenhado por um roupão cinzento.

O vestido roixo debruçou-se de modo a olhar para fóra, no sentido contrario aquelle em que seguia o carro, emquanto o roupão, recostando-se nas almofadas, consultava uma carteirinha de lembranças, onde naturalmente escrevêra a nota de suas encommendas.

—O lacaio ficou-se de uma vez! disse o vestido roixo com um movimento de impaciencia.

—É verdade! respondeu distrahidamente a companheira.

Estas palavras confirmavam o que aliás indicava o simples aspecto da carruagem: as senhoras estavam á espera do lacaio, mandado a algum ponto proximo. A impaciencia da moça de vestido roixo era partilhada pelos fogosos cavallos, que difficilmente conseguia soffrear um cocheiro agalloado.

Depois de alguns momentos de espera, sobresaltou-se o roupão cinzento, e conchegando-se mais ás almofadas, como para occultar-se no fundo da carruagem, murmurou:

—Laura!... Laura!...

E como sua amiga não a ouvisse, puxou-lhe pela manga.

—O que é, Amelia?

—Não vês? Aquelle moço que está ali defronte nos olhando.

—Que tem isto? disse Laura sorrindo.

—Não gósto! replicou Amelia com um movimento de contrariedade. A quanto tempo está ali e sem tirar os olhos de mim?

—Volta-lhe as costas!

—Vamos para diante.

—Como quizeres.

Avisado o cocheiro, avançou alguns passos, de modo á tirar ao curioso a vista do interior do carro; mas o mancebo não desanimou por isso, e passando de uma a outra porta, tomou posição conveniente para contemplar a moça com uma admiração franca e apaixonada.

Simples no trajo, e pouco favorecido a respeito de belleza; os dotes naturaes que excitavam nesse moço alguma attenção eram uma vasta fronte meditativa, e os grandes olhos, pardos, cheios do brilho profundo e phosphorescente que naquelle momento derramavam pelo semblante de Amelia.

Havia minutos que percorrendo a rua da Quitanda em sentido opposto á direcção do carro, avistára a moça recostada nas almofadas, e sentira a seu aspecto viva impressão. Sem disfarce ou acanhamento, recostando-se a ombreira de uma porta de escriptorio, esqueceu-se naquella ardente contemplação.

O coração é um solo. Valle onde brotam as paixões, como os outros valles da natureza inanimada, elle tem suas estações, suas quadras de aridez ou de seiva, de estirilidade ou de abundancia.

Depois das grandes borrascas e chuvas, os calores do sol, produzem na terra uma fermentação, que fórma o humus; a semente, cahindo ahi, brota com rapidez. Depois das grandes dôres e das lagrimas torrenciaes, fórma-se tambem no coração do homem um humus poderoso, uma exhuberancia de sentimento que precisa de expandir-se. Então um olhar, um sorriso, que ahi penetre, é semente de paixão, e pulula com vigôr extremo.

O moço parecia estar nessas condições: elle trajava lucto pesado, não sómente nas roupas negras, como na côr macilenta das faces nuas, e na magoa que lhe escurecia a fronte.

Notando Amelia a insistencia do mancebo, ficou vivamente contrariada. Aquelle olhar profundo, que parecia despedir os fogos surdos de uma labareda occulta, incutia nella um desassocego intimo. Agitava-se impaciente, como uma creatura no meio de um somno inquieto ou mesmo de um ligeiro pesadello.

Até que abriu o chapeosinho de sol, para interceptar a contemplação apaixonada de que era objecto. Nesta occasião, Laura, que frequentemente se debruçava para vêr quando vinha o lacaio, retrahiu o corpo com vivacidade:

—Emfim; ahi vem!

—Felizmente! disse Amelia.

O lacaio aproximava-se á passos medidos; trazia na mão um embrulho de papel azul, que o atrito dos dedos e a oscillação dos objectos envoltos desfizera, obrigando o portador a apertal-o de vez em quando.

Julgando ao cabo de alguns instantes que o lacaio já tocava o estribo da carruagem, Amelia, tomando um tom imperativo, disse para o cocheiro:

—Vamos! vamos!

Ao aceno que lhe fez o cocheiro, o lacaio correu, chegando a tempo de apanhar o carro, que partia ao trote largo da fogosa parelha. Deitar o embrulho na caixa da victoria, rodear em dois saltos e galgar o estribo da almofada, foi para o creado, habituado a essa manobra, negocio de um instante. Não percebera elle, porém, que abrindo-se o papel com a corrida, um dos objectos nelle contidos escorregára e justamente na occasião de deitar o embrulho na caixa do carro, cahira na calçada.

Laura, que se inclinara com vivo interesse para tomar o embrulho das mãos do lacaio, tivera um presentimento do accidente, ao ver o papel desenrolado. Fechando-o rapidamente e escondendo por baixo do assento da victoria, ella debruçou-se ainda uma vez para verificar si com effeito alguma cousa havia cahido. Ao mesmo tempo acompanhava o movimento com estas palavras de contrariedade:

—Como elle manda isto? Por mais que se lhe recommende!

Laura nada viu, porque já a victoria rodava ligeiramente sobre os parallelepipedos.

Nesse momento, porém, dobrando a rua da Assembléa, se aproximára um moço elegante não só no trajo do melhor gosto, como na graça de sua pessoa: era sem duvida um dos principes da moda, um dos leões da rua do Ouvidor; mas desse podemos assegurar pelo seu parecer distincto, que não tinha usurpado o titulo.

O mancebo viu casualmente o lacaio quando passára por elle correndo, e percebeu que um objecto cahira do embrulho. Naturalmente não se dignaria abaixar para apanhal-o, nem mesmo deitar-lhe um olhar; si não visse apparecer ao lado da victoria o rosto de uma senhora, que o aspecto da carruagem indicava pertencer á melhor sociedade.