A trajetória da Democracia Socialista
Prefácio
O livro de Vitor Amorim de Angelo é o primeiro que historia e analisa a formação da tendência Democracia Socialista (DS), de viés trotskista, no interior do Partido dos Trabalhadores (PT). Portanto, é uma importante contribuição para a história política da esquerda no Brasil, não simplesmente por preencher uma lacuna bibliográfica, mas pela qualidade da pesquisa que revela um arguto analista em meio a um cipoal ideológico extremamente complexo.
O autor realizou um cuidadoso levantamento das fontes primárias, analisou toda a documentação proveniente da Democracia Socialista (livros, artigos, panfletos) e entrevistou seus líderes mais expressivos, o que lhe permitiu não só apresentar a DS, mas também as outras principais tendências no interior do PT que travaram um vigoroso combate ideológico – caso único na história da esquerda brasileira, tanto pela longevidade quanto pela liberdade e qualidade política. Deve ser recordado que as divergências políticas no interior dos partidos de viés marxista foram curtas no tempo e resolvidas pelo expurgo dos derrotados, o que não ocorreu com a DS. Mesmo vencida nos encontros ou congressos partidários, tendo ou não representação nos cargos diretivos do partido, a Democracia Socialista optou por permanecer no PT.
É analisado detidamente o duplo processo de formação da DS e do Partido dos Trabalhadores, caso único também de uma tendência – que se organizava como partido – e de um partido que se estruturaram concomitantemente. Para isso, o autor apresenta as diversas correntes que participaram do processo de formação do PT, não apenas com entrevistas, mas destacando também a imprensa alternativa, denominação pela qual ficaram conhecidos os jornais de esquerda legais publicados nas décadas de 1970 e 1980.
Em meio a um intenso debate, novas concepções foram sendo desenvolvidas sobre o tipo de partido que deveria ser criado no Brasil, a relação que deveria ser estabelecida com os movimentos sociais, como a revolução faria parte de um processo de conquista do poder, qual seria o papel da democracia na transição para o socialismo e quais alianças políticas deveriam ser estabelecidas no processo de construção de um partido de trabalhadores.
Dessa forma, a DS teve uma trajetória peculiar dentro do PT. Outras correntes trotskistas ou se dissolveram no interior do partido ou foram expulsas. A DS, pelo contrário, manteve-se como tendência, sempre respeitando a democracia interna. Por outro lado, como destaca o autor, acabou ao longo do tempo assumindo uma postura crítica, porém, conciliatória.
O reconhecimento das tendências no V Encontro Nacional do PT, em 1987, permitiu que a DS continuasse estruturada e exercendo influência no interior do partido, já que a resolução aprovada era muito próxima do que a corrente defendia. A qualidade da pesquisa e a riqueza documental e analítica, creio, deixarão o leitor interessado em saber como a Democracia Socialista respondeu aos dilemas do exercício do governo federal pelo PT a partir de janeiro de 2003, do qual faria parte. Mas isso é assunto para outro livro.
Marco Antonio
Villa Professor do Departamento de Ciências Sociais da
Universidade Federal de São Carlos