D. António Alves Martins, bispo de Viseu: esboço biográfico

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Antonio Alves Martins: bispo de

Vizeu: esboço biographico

 

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Title: D. Antonio Alves Martins: bispo de Vizeu: esboço biographico

Author: Camilo Castelo Branco

Release date: July 15, 2009 [eBook #29417] Most recently updated: January 5, 2021

Language: Portuguese

Original publication: Porto: Livraria Internacional de Ernesto Chardron Casa editora Lugan & Genelioux, successores Imprensa Internacional Victoria, 166, 1889

Credits: Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images

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*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK D. ANTONIO ALVES MARTINS: BISPO DE VIZEU: ESBOÇO BIOGRAPHICO ***

D. ANTONIO ALVES MARTINS

 

BISPO DE VIZEU

 

ESBOÇO BIOGRAPHICO

 

POR

 

CAMILLO CASTELLO BRANCO

 

SEGUNDA EDIÇÃO

 

PORTO

Livraria Internacional de Ernesto Chardron

Casa editora

LUGAN & GENELIOUX, successores

1889

Preço... 200 RÉIS

ESBOÇO BIOGRAPHICO

 

D. ANTONIO ALVES MARTINS

 

BISPO DE VIZEU

 

ESBOÇO BIOGRAPHICO

 

POR

 

CAMILLO CASTELLO BRANCO

 

SEGUNDA EDIÇÃO

 

PORTO

Livraria Internacional de Ernesto Chardron

Casa editora

LUGAN & GENELIOUX, successores

1889

Todos os direitos reservados

 

IMPRENSA INTERNACIONAL Victoria, 166

 

{5}É agradavel e não commum esboçar alguns traços da vida de um varão benemerito, cujos antepassados, praticando obscuramente o bem, nos não intimam o dever de lhes attribuir ou inventar proezas civicas. Em tempos não remotos, quando era costume inculcar ou explicar, pelo decoro da stirpe, virtudes ou heroismos, raro biographo se sahia limpa e airosamente de ao pé do berço humilde do seu heroe. É vêr o empenho pouco menos de lastimavel dos que inventaram avós fidalgos a João Pinto Ribeiro, como se o explendor de seu patriotismo fosse demasiado para um só homem, e devêsse, em vez de ir adiante afidalgar vindouros, retroceder aos passados, e lustrar-lhes as sepulturas em galardão posthumo! Donosa e bizarra fidalguia é uma que nos faz sentir que o é, por que ha{6} ahi natural fronteira entre bom e máo: é a que vêmos gerar-se, florir e fructear sem inculcadas e vans precedencias; é a que assignala os homens prestantes, allumiando-os de luz sua, a fim de que a posteridade os extreme da sombra, se os contemporaneos não poderam ou não quizeram aquilatal-os desassombradamente. Homens d'este vulto, per si mesmos nobilitados, não se procuram no berço: é em meio de nós, é desde o momento que os vimos receber da gratidão publica os titulos de sua nobreza.{7}

 

O snr. D. Antonio Alves Martins, doutor na faculdade de theologia, bispo de Vizeu, par do reino e ministro de estado honorario, nasceu na Granja de Alijó, provincia de Traz-os-montes, aos 18 de fevereiro de 1808. Modesta abundancia e laboriosa probidade—excellencias congeneres da profissão agricultora—honravam e felicitavam a familia de que procede o snr. bispo de Vizeu.

Dado que a sua iniciação a estudos superiores não levasse o intento posto em determinado destino, motivos, em que talvez seria grande parte a obediencia, moveram o moço de deseseis annos a entrar na Terceira Ordem de S. Francisco, chamada da Penitencia, cuja casa capitular era em Lisboa.

Não é já hoje em dia mui vulgar a noticia da illustração em que primacialmente se avantajava{8} aquella corporação religiosa, cujos serviços litterarios e evangelicos ahi estão consignados nas Memorias historicas do arcebispo Cenaculo e nos variados escriptos de fr. Vicente Salgado. Nenhuma ordem, digamo'l-o assim, acabou com mais brilhantes fins de existencia gloriosa, atravez de quatro seculos. Ali principalmente se ensinaram a diplomatica e as linguas orientaes; d'ali sahiram abalisados mestres de grego e hebraico, arabe e syriaco.

Muito de industria lembramos esta clausula quasi inutil, por que temos lido e ouvido inconsiderados se não indoutissimos conceitos dos Regulares da Terceira Ordem de S. Francisco. Não será pois descabido lembrar a juizes menos competentes que a livraria, actualmente chamada da Academia real das sciencias, era a d'elles.

Em 21 de maio de 1825 vestiu o snr. Antonio Alves Martins o habito de professo, e passou a estudar philosophia no Collegio do Espirito Sancto em Evora, doação de el-rei D. José á Terceira Ordem, em 1776, extincta a Companhia de Jesus. Em outubro do anno seguinte, matriculou-se no collegio das Artes, com o proposito de seguir o curso universitario, frequentando alternadamente as aulas de mathematica, philosophia e theologia.

Cursava o distincto academico o seu terceiro anno da universidade, quando as renovadas idêas de 1820 agitavam febrilmente os animos de grande numero de escolares—aquella phalange de generosa{9} mocidade, predestinada a ser tão grande parte na propaganda dos principios liberaes e na occupação dos mais eminentes postos da representação nacional. O alumno de theologia, posto que ligado a uma corporação religiosa, aliou-se aos propugnadores do governo representativo, sem todavia imparceirar-se com os injustificaveis bandos que intermetteram uma pagina de deshonra indelevel na historia dos asperos sacrificios d'aquelle periodo.

Desde tenros annos a condição do snr. Alves Martins sahiu avessa a rebuçar ou sequer temperar calculadamente as suas opiniões politicas. Este franco destemor e afouta energia foi sempre, é, e apezar da experiencia será sempre a mais relevante physionomia do snr. bispo de Vizeu. Á ousadia de manifestar-se affeiçoado á revolta militar do Porto, de 16 de maio de 1828, seguiu-se ser riscado da universidade, quando frequentava o terceiro anno theologico. Sem embargo, o snr. Alves Martins proseguiu nas aulas da sua congregação; e, concorrendo ás cadeiras de philosophia e theologia, recebeu o premio de sua applicação e creditos, sendo logo, e tanto na flôr da idade, nomeado mestre da Ordem. Os condiscipulos do estudioso mancebo ainda hoje recordam a viveza, penetração e discernimento com que elle se egualava aos mais distinctos.