Entregas Matinais

Stephen King · Capítulo 1 de 1

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Entregas Matinais

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Entregas Matinais (Leiteiro n.° 1)

Stephen King

 

O alvorecer espraiou-se lentamente pela Rua Culver.

Para os que estavam acordados dentro de casa, a noite continuava negra, porém o alvorecer estivera realmente espreitando por já quase meia hora. No grande bordo da esquina de Culver com Avenida Balfour, um esquilo vermelho pestanejou e voltou seu olhar sonolento para as casas adormecidas. Na metade do quarteirão, uma andorinha enfiou-se no pequeno chafariz para pássaros na residência dos Mackenzie e salpicou gotas peroladas sobre si mesma. Uma formiga caminhava a esmo pela sarjeta e se deparou com um diminuto fragmento de chocolate, aderido ao rejeitado papel que envolvera a barra inteira.

A brisa noturna, que rogaçara folhas e enfunara cortinas, agora se aquietara. O bordo da esquina deu um último e farfalhante estremecimento, antes de ficar quieto, aguardando a abertura plena que se seguiria a este tranqüilo prólogo.

Uma débil faixa de claridade tingiu o céu a leste. O obscuro curiango entrou de folga e os chapins fizeram uma tentativa para encarar a vida, ainda vacilantes, como que temerosos de acolher o dia por si mesmos.

O esquilo desapareceu em um beiçudo buraco na forquilha do bordo.

A andorinha agitou as asas na borda do chafariz e fez uma pausa.

A formiga também fez uma pausa diante de seu tesouro, como um bibliófilo ruminando sobre uma edição de formato in-fólio.

A Rua Culver tremeu silenciosamente na borda do planeta que o sol iluminava - aquela régua móvel a que os astronomos denominam círculo de iluminação.

Um som ganhou intensidade quietamente dentro do silêncio, intumescendo com reservas até parecer que sempre estivera ali, oculto sob os ruídos maiores da noite que findava. Ele aumentou, ganhou clareza e transformou-se no decorosamente abafado som de um furgão leiteiro.

O veículo dobrou da Balfour para a Culver. Era um belo furgão bege, com inscrições vermelhas nas laterais. O esquilo assomou como uma língua à boca de seu buraco beiçudo, observou o furgão e depois espiou para um provável pedacinho de forragem para seu ninho. Apressou-se em descer pelo tronco da árvore, de cabeça para baixo. A andorinha voou. A formiga apossou-se do chocolate que suas forças permitiam e encaminhou-se para seu montículo.

Os chapins começaram a trinar mais alto.

No outro quarteirão, um cão latiu.

Nas laterais do furgão de entrega do leite, a inscrição dizia: LATICÍNIOS CRAMER'S. Havia a figura de uma garrafa de leite e, mais abaixo, o seguinte: NOSSA ESPECIALIDADE - ENTREGAS DE MANHÃ!

O leiteiro usava um uniforme cinza-azulado e um chapéu de bicos. Havia um nome escrito sobre o bolso, em fio dourado: SPIKE. Ele assobiava, acima do confortável sacolejo de garrafas no gelo, às suas costas.

O leiteiro parou o furgão junto ao meio-fio, diante da casa dos Mackenzie, pegou o engradado com leite, no piso ao seu lado, depois o colocou na calçada. Parou um instante para cheirar o ar, fresco, novo e infinitamente misterioso. Em seguida, em largas passadas, cruzou a calçada até a porta.

Um pequeno quadrado de papel branco estava preso à caixa de correspondência, por um ímã em forma de tomate. Spike leu o que estava escrito ali, bem de perto e lentamente, como alguém leria uma mensagem encontrada em uma velha garrafa, incrustada de sal.

1 lt. leite

1 creme econ

1 suc larnj

Obrigada

Nella M.

Spike, o leiteiro, olhou pensativamente para seu engradado, colocou-o no chão e tirou dele o leite e o creme. Tornou a examinar o papel, ergueu o ímã-tomate para certificar-se de que não perdera um ponto, vírgula ou traço que modificariam o estado de coisas, assentiu, recolocou o ímã, recolheu seu engradado e voltou ao furgão.

A parte traseira do furgão de leite era úmida, escura e fria. Havia um cheiro mofado de umidade em seu ar, misturando-se desconfortavelmente ao dos laticínios. O suco de laranja estava por trás da insuportável dulcamara. Spike tirou uma caixa de papelão do gelo, tornou a assentir e retornou à calçada. Deixou a caixa de suco ao lado do leite e do creme. Depois voltou a seu furgão.

Não muito longe dali, soou o apito das cinco horas na lavanderia industrial, onde trabalhava Rocky, o velho amigo de Spike. Ele pensou em Rocky, iniciando seu trabalho por entre nuvens de vapor, em meio a um calor sufocante, e sorriu. Talvez procurasse Rocky mais tarde. Talvez essa mesma noite... depois de feitas as entregas.

Spike deu partida ao motor e seguiu em frente. Um pequeno rádio transistorizado com uma correia em imitação de couro, pendia de um gancho de açougue, manchado de sangue, que se encurvava do teto da boléia. Ele o ligou e uma música sossegada funcionava como contraponto de seu motor, enquanto rodava para a casa dos McCarthy.

A nota da Sra. McCarthy estava no lugar costumeiro, a fenda do depósito de cartas. Era concisa e direta:

Chocolate

Spike pagou sua caneta, garatujou Entrega Feita através do papel e o empurrou de volta pela fenda. Depois voltou ao furgão. O leite chocolatado ficava estocado em dois esfriadores, bem no fundo, sendo alcançado pelas portas traseiras, porque era um produto de grande saída em junho. O leiteiro olhou para os esfriadores, depois estendeu o braço sobre eles e apanhou uma das caixas vazias de papelão para o leite chocolatado, que ficavam no canto oposto. Naturalmente, a caixa era marrom, e uma alegre criança cabriolava acima da matéria impressa, informando ao consumidor que aquele era um PRODUTO DOS LATICÍNIOS CRAMER'S INTEGRAL E DELICIOSO PODE SER TOMADO QUENTE OU GELADO AS CRIANÇAS O ADORAM!

Spike colocou a caixa vazia de papelão sobre um engradado de leite. Em seguida, limpou os fragmentos degelo até poder vero pote de maionese. Apanhou-o e espiou em seu interior. A tarântula se moveu, mas entorpecidamente. O frio a dopara. Spike desenroscou a tampa do pote e o virou sobre a caixa aberta de papelão. A tarântula fez um débil esforço para engatinhar de volta, subindo pelo deslizante lado de vidro do pote, mas não foi bem sucedida. Caiu dentro da caixa de papelão vazia do leite chocolatado, com um gordo plop. O leiteiro tornou a fechar a caixa cuidadosamente, colocou-a em seu suporte e subiu apressado a calçada dos McCarthy. Aranhas eram suas prediletas, o máximo, em sua opinião. Para Spike, o dia em que pudesse entregar uma cobra, seria um dia feliz.

Enquanto subia a Culver lentamente, continuava a sinfonia do alvorecer. A faixa perolada do leste foi substituída por um crescente clarão rosado, a princípio muito pouco discernível, depois abrilhantando-se rapidamente para um escarlate que, quase em seguida, começou a desbotar-se para o azul do verão. Os primeiros raios de sol, belos como um desenho infantil em um livro de exercícios da escola dominical, agora aguardavam nos bastidores.

Na casa dos Webber, Spike deixou uma garrafa de creme comum, repleta de gelatina ácida. Na dos Jenner, deixou cinco litros de leite. Ali havia meninos crescendo. Ele nunca os vira, porém havia uma casa-de-árvore nos fundos e, por vezes, bicicletas e bastões de jogar bola esquecidos no pátio fronteiro. Na dos Collins, dois litros de leite e uma embalagem de papelão com iogurte. Na da Srta. Ordway, uma caixa de papelão com eggnog, que fora batizada com beladona.

Uma porta bateu no fim do quarteirão. O Sr. Webber, que fazia o trajeto inteiro até a cidade, abriu a porta cinza-azulada de sua garagem e entrou, balançando sua pasta. O leiteiro esperou que soasse o zumbido do pequeno Saab, dando partida ao motor, e sorriu ao ouvi-]o. A variedade é o tempero da vida, gostava de dizer a mãe de Spike -que Deus dê descanso à sua alma! -porém nós somos irlandeses, e os irlandeses preferem comer suas batatas da maneira mais simples. Seja moderado em todos os sentidos, Spike, e você será feliz. Isto era absolutamente verdadeiro, conforme ele próprio descobrira, enquanto descia a estrada da vida rodando em seu asseado furgão leiteiro bege.

Agora, faltavam apenas três casas.

Nados Kincaid, ele encontrou uma nota dizendo "Nada hoje, obrigado", mas deixou uma garrafa de leite tampada, que parecia vazia, mas continha um mortí-

tero gás de cianureto. Na casa dos Walker, deixou dois litros de leite e meio litro de creme batido.

Quando chegou à casa dos Merton, no fim do quarteirão, os raios de sol brilhavam por entre as árvores e mosqueavam a desbotada grade da amarelinha, na calçada que passava à frente do prédio.

Spike abaixou-se e apanhou o que parecia uma excelente pedra para jogar amarelinha -chata de um lado - e atirou-a. A pedra caiu sobre uma linha. Ele meneou a cabeça, sorriu e subiu a calçada, assobiando.

A leve brisa lhe trouxe o cheiro de sabão da lavanderia industrial, fazendo-o pensar novamente em Rocky. A cada momento, crescia sua certeza de que veria Rocky. Aquela noite.

Havia uma nota espetada no suporte de jornais dos Merton:

Cancelado

Spike abriu a porta e entrou.

A casa estava gelada como uma cripta e sem qualquer mobiliário. Não podia ficar mais árida, com as paredes nuas. O próprio fogão da cozinha fora retirado; havia um quadrado brilhante no chão, mostrando onde estivera o linóleo.

Na sala de estar, o menor fragmento de papel fora removido das paredes. Não havia lustre, na lâmpada pendurada por um fio. Uma lâmpada agora queimada. Uma grande mancha de sangue seco cobria parte de uma parede. Assemelhava-se à mancha de tinta de um psiquiatra. No centro dela, uma cratera aprofundava-se no reboco. Havia um punhado de cabelos emaranhados na cratera, além de algumas lascas de ossos.

O leiteiro assentiu, saiu e ficou parado na entrada por um instante. Aquele ia ser um lindo dia. O céu já estava mais azul do que um olho de bebê, salpicado de ingênuas nuvenzinhas precursoras do bom tempo... aquelas a que os jogadores de beisebol chamam de "anjos".

Retirando a nota do suporte de jornais, ele a amassou em uma bola. Depois a enfiou no bolso esquerdo frontal, em sua calça branca de leiteiro.

Voltou ao furgão, chutando a pedra da amarelinha para a sarjeta. O furgão de entrega de leite chocalhou ao dobrar a esquina e sumiu de vista.

O dia ficou ainda mais radioso.

Um menino irrompeu de uma casa, sorriu para o céu e tornou a entrar, levando o leite.

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