O Licor de Dente-de-Leão
Dedicatória
Para
Walter I. Bradbury,
nem tio nem primo,
mas, inegavelmente,
editor e amigo.
DESTE LADO DE BIZÂNCIO
Uma Introdução
ESTE livro, como a maioria de meus livros e histórias, foi uma surpresa. Comecei a conhecer a natureza dessas surpresas, graças a Deus, quando era ainda jovem como escritor. Antes disso, como todo iniciante, achava que podíamos trazer uma ideia à existência batendo nela, esmurrando-a, espancando-a. Com tal tratamento, é claro que qualquer ideia decente retirava suas peças do tabuleiro, dava as costas, fixava os olhos na eternidade e morria.
Assim, foi com grande alívio que, no início dos meus 20 anos, me envolvi em um processo de associação de palavras através do qual eu simplesmente saía da cama toda manhã, ia até minha escrivaninha e despejava qualquer palavra ou série de palavras que por acaso passasse por minha cabeça.
Depois, eu começava minha luta contra a palavra, ou a favor dela, e criava uma variedade de personagens para lhe dar peso e me mostrar o significado dela em minha própria vida. Uma ou duas horas depois, para meu encantamento, uma nova história estava pronta e acabada. A surpresa era total e agradável. Logo descobri que teria de trabalhar dessa forma pelo resto de minha vida.
Primeiro, eu vasculhava minha mente em busca das palavras que poderiam descrever meus pesadelos pessoais, meus medos noturnos e infantis, e criava histórias a partir daí.
Depois, eu observava longamente as macieiras verdes e a velha casa em que nasci e a casa vizinha, onde moravam meus avós, e todos os gramados dos anos em que cresci, e comecei a procurar palavras para tudo aquilo.
O que você tem neste livro é uma colheita dos dentes-de-leão de todos aqueles anos. A metáfora do licor, que aparece repetidas vezes nestas páginas, é maravilhosamente apropriada. Eu estava reunindo imagens de toda a minha vida, armazenando-as e me esquecendo delas. De certo modo, tive de retornar, tendo as palavras como catalisadoras, para abrir as lembranças e ver o que tinham a oferecer.
Assim, dos 24 aos 36 anos, dificilmente se passava um dia sem que eu perambulasse por alguma lembrança que tinha do gramado de meus avós no norte de Illinois, na esperança de deparar com restos meio queimados de uma bombinha, um brinquedo enferrujado ou um fragmento de carta escrita para mim mesmo em algum ano de minha juventude, esperando entrar em contato com a pessoa mais velha que me tornei para lembrá-la do passado, de sua vida, seu povo, suas alegrias e tristezas encharcadas.
Isso se tornou um jogo em que eu me envolvia com enorme prazer; ver o quanto conseguia me lembrar a respeito dos próprios dentes-de-leão ou de colher uvas-silvestres com meu irmão e meu pai, redescobrir o criadouro de mosquitos no barril de água da chuva ao lado da janela ogival, ou de procurar o cheiro das abelhas que pareciam flocos dourados e adejavam em volta da videira de nossa varanda dos fundos. As abelhas têm mesmo um cheiro, sabia? Mas, se não têm, deveriam ter, porque seus pés são polvilhados da fragrância de um milhão de flores.
E, então, eu queria recordar como era a ravina, em especial naquelas noites em que eu ia a pé para casa depois de ver a deliciosa figura horripilante de Lon Chaney em O fantasma da ópera, e meu irmão, Skip, corria na frente e se escondia sob a ponte que passava sobre a enseada da ravina, como o Solitário, dava um salto e me agarrava, com um berro, e, então, eu corria, caía e voltava a correr, tagarelando por todo o caminho para casa. Era ótimo.
Ao longo do caminho, topei e me choquei, por associação de palavras, com amizades antigas e verdadeiras. Tomei emprestado meu amigo John Huff, de minha infância no Arizona, e o embarquei para o leste, até Green Town, para que eu pudesse me despedir dele de forma adequada.
Ao longo do caminho, sentei-me para cafés da manhã, almoços e jantares com os muito amados e aqueles que há muito se foram. Pois eu era um menino que amava verdadeiramente os pais e os avós e o irmão, mesmo quando esse irmão o “rejeitava”.
Ao longo do caminho, descobri-me no porão, trabalhando no lagar para meu pai, ou na varanda da frente, na noite do feriado do Dia da Independência, ajudando meu tio Bion a carregar e disparar seu canhão de bronze caseiro.
Assim, eu me surpreendi. Ninguém me disse para me surpreender, devo acrescentar. Cheguei às velhas e melhores maneiras de escrever por intermédio da ignorância e da experimentação, e foi um susto quando as verdades saltaram dos arbustos como codornizes antes do tiro de espingarda. Andei pela criatividade tão às cegas quanto qualquer criança que aprende a andar e a ver. Aprendi a deixar que meus sentidos e meu Passado me dissessem tudo o que era, de certo modo, verdadeiro.
Então, transformei-me em um menino que corria para pegar uma concha de água limpa da chuva no barril ao lado de casa. E é claro que, quanto mais água você tira, mais flui para dentro. O fluxo nunca cessou. Depois que aprendi a voltar repetidas vezes àquela época, eu tinha muitas lembranças e impressões com que brincar, não para trabalhá-las, não, para brincar. Licor de Dente-de-Leão não passa do menino-escondido-no-homem, brincando nos campos do Senhor, no gramado verde de outros agostos, começando a crescer, a envelhecer, e a sentir a escuridão à espreita sob as árvores para semear o sangue.
Diverti-me e, de certa forma, fiquei atordoado com um crítico, alguns anos atrás, que escrevera uma resenha sobre Licor de Dente-de-Leão e as obras mais realistas de Sinclair Lewis, perguntando-se como eu poderia ter nascido e sido criado em Waukegan, que batizei de Green Town em meu romance, e não ter percebido quão feio era o porto e como eram deprimentes as docas de carvão e a malha ferroviária da cidade.
Mas, evidentemente, eu os percebi e, feiticeiro inato que era, fiquei fascinado com a beleza deles. Os trens e vagões de carga e o cheiro de carvão e fogo não são feios para uma criança. A feiura é um conceito com o qual deparamos mais tarde e do qual tomamos consciência. Contar vagões de carga é uma atividade primordial para os garotos. Os mais velhos se aborrecem, enfurecem-se e escarnecem do trem que os aguenta, mas os meninos contam e gritam alegremente os nomes dos vagões enquanto eles passam, vindos de lugares distantes.
E era dessa ferrovia supostamente feia que chegavam os parques de diversões e os circos, com elefantes que lavavam o calçamento de paralelepípedos com água quente e poderosamente ácida no escuro das cinco horas da manhã.
Quanto ao carvão das docas, eu descia a meu porão a cada outono para esperar a chegada do caminhão e de sua caçamba de metal, que pendia com um clangor e liberava uma tonelada de belos meteoros caídos do espaço longínquo em minha adega e ameaçava me sepultar sob tesouros negros.
Em outras palavras, se seu menino é um poeta, esterco de cavalo pode apenas significar flores para ele; é por elas, é claro, que o esterco de cavalo existe, afinal.
Talvez um novo poema meu explique melhor do que esta introdução o nascimento de toda a minha vida em um só livro.
Aqui está o começo dele:
Bizâncio, de onde não venho,
Mas venho de outra época e lugar
Cuja raça era simples, experimentada e verdadeira;
Como menino
Caí em Illinois.
Um nome sem amor nem graça
Era Waukegan, de lá eu vim
E não, meus bons amigos, de Bizâncio.
O poema continua, descrevendo minha relação de toda a vida com minha cidade natal:
E, ainda assim, ao olhar para trás,
Vejo, da copa da mais distante árvore,
Uma terra tão cintilante, amada e azul
Quanto qualquer Yeats considerou verdadeira.
Waukegan, visitada por mim de vez em quando, não é nem mais feia nem mais bonita do que qualquer outra cidadezinha do meio-oeste. Grande parte dela é verde. As árvores realmente se tocam no meio das ruas. A rua diante de minha velha casa ainda é pavimentada com paralelepípedos vermelhos. De que maneira, então, a cidade foi especial? Porque nasci ali. Foi lá minha vida. Tive de escrever sobre isso quando achei apropriado:
Assim, crescemos com os míticos mortos
Pegando com a colher o pão do meio-oeste
E espalhando a marmelada brilhante dos velhos deuses
Para então extinguir-se nas sombras da manteiga de amendoim,
Fingindo que ali, sob nosso céu,
Estava a coxa de Afrodite...
Enquanto, na varanda calma e destacada,
Suas palavras de pura sabedoria, seu olhar de puro ouro,
Meu avô, ele próprio um mito,
Suplantava Platão
Enquanto minha avó, na cadeira de balanço,
Costurava a manga puída do carinho,
Tricotava serenos flocos de neve, raros e brilhantes,
Para nos hibernar na noite de verão.
E os tios, reunidos com seus fumos,
Emitiam uma sabedoria mascarada de piada,
E as tias, sábias como donzelas de Delfos,
Distribuíam limonadas proféticas
A meninos ajoelhados como acólitos
À varanda grega nas noites de verão;
Depois, iam para a cama, para ali arrepender-se
Dos males da inocência;
Os menores pecados crepitando em seus ouvidos
Diziam, através das noites e dos anos,
Não Illinois nem Waukegan,
Mas o céu e o sol mais jubilosos.
Ainda que medíocres sejam nossos Destinos
E Mayor não seja tão brilhante quanto Yeats,
Mesmo assim, ainda nos conhecíamos. Em suma?
Bizâncio.
Bizâncio.
Waukegan/Green Town/Bizâncio.
Green Town existia mesmo, então?
Sim, e repito, sim.
Havia um menino real chamado John Huff?
Havia. E esse era seu verdadeiro nome. Mas ele não se afastou de mim; eu é que me afastei dele. Mas, que final feliz!, ele ainda está vivo, 42 anos depois, e se lembra de nosso amor.
Havia um Solitário?
Havia. E esse era o nome dele. E, à noite, ele andava por minha cidade natal, quando eu tinha 6 anos, apavorando a todos e nunca sendo capturado.
Mais importante: a grande casa em si, com vovô, vovó, os pensionistas, tios e tias, ela existia? Já respondi a isso.
A ravina é real, profunda e escura à noite? Era, é. Levei minhas filhas lá, alguns anos atrás, temeroso de que, com o tempo, a ravina pudesse ter ficado rasa. É um alívio e uma felicidade poder contar que ela está mais profunda, mais escura e mais misteriosa do que nunca. Mesmo agora, eu não passaria por ali, a caminho de casa, depois de ver O fantasma da ópera.
Então, aí está. Waukegan era Green Town que era Bizâncio, com toda a felicidade que isso significa, com toda a tristeza que esses nomes sugerem. As pessoas de lá eram deuses e anões e se sabiam mortais, e assim os anões andavam de cabeça erguida para não constranger os deuses, e os deuses se curvavam em sinal de reverência para que os pequenos se sentissem à vontade. E, afinal, não é disso que trata a vida, da capacidade de voltar e entrar na mente de outras pessoas para ver o milagre louco e dizer: ah, então é assim que você vê!? Bem, agora, preciso me lembrar disso.
Aqui está minha celebração, então, da morte e da vida, da sombra e da luz, do idoso e do jovem, do inteligente e do burro combinados, da súbita alegria e do completo terror escritos por um menino que um dia se pendurou de cabeça para baixo em árvores, vestido com sua fantasia de morcego e carregando presas de bala na boca, o menino que finalmente caiu das árvores quando tinha 12 anos, descobriu uma máquina de escrever de brinquedo e escreveu seu primeiro “romance”.
Uma última lembrança.
Os balões.
Raras vezes os vemos hoje em dia, embora, em alguns países, pelo que soube, ainda sejam feitos e cheios com o ar quente de uma pequena bucha de palha acesa e pendurada embaixo deles.
Mas, na Illinois de 1925, ainda os tínhamos, e uma das últimas lembranças que tenho de meu avô é a última hora da noite de 4 de julho, 48 anos atrás, quando ele e eu fomos para o gramado, acendemos uma fogueirinha e enchemos com ar quente o balão de papel listrado de vermelho, branco e azul, em formato de pera, e seguramos o anjo resplandecente e tremulante um último momento, diante da varanda, cercados de tios e tias e primos e mães e pais, e então, com muita delicadeza, deixamos a coisa que era vida, luz e mistério sair de nossos dedos para o ar de verão, sobrevoando as casas que começavam a dormir, em meio às estrelas, tão frágil, tão maravilhoso, tão vulnerável, tão adorável como a própria vida.
Vejo meu avô ali, olhando para cima, para aquela estranha luz à deriva, absorto em seus calmos pensamentos. Vejo a mim mesmo, meus olhos cheios de lágrimas, porque tudo havia acabado, a noite se fora, e eu sabia que nunca haveria outra noite como aquela.
Ninguém disse nada. Todos nós apenas olhamos para o céu e expiramos e inspiramos, e todos nós pensamos as mesmas coisas, mas ninguém falou. Entretanto, alguém, enfim, tem de falar, não tem? E esse alguém sou eu.
O licor ainda espera lá embaixo, na adega.
Minha amada família ainda se senta na varanda, no escuro.
O balão ainda vaga e arde no céu noturno de um verão até agora insepulto.
Por que e como?
Porque eu digo que é assim.
Ray Bradbury
Verão de 1974