O Mestre Inesquecível
Augusto Cury
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Análise da Inteligência de Cristo
O Mestre Inesquecível
Ele foi o maior educador a história.
Transformou o árido solo da personalidade
humana num jardim de sonhos.
Copyright©Editora Academia de Inteligência
2003
Produtora Executiva
Suleima Cabrera Farbate Cury
Capa e projeto gráfico
Daniela Moreira Maia
Revisão
Cláudia J. Alves Caetano
Editoração eletrônica
Daniel G. Jericó -Absoluto Comunicação
C982
Cury, Augusto
O Mestre inesquecível / Augusto Cury - São Paulo: Academia de Inteligência, 2003. 220p.; 21 cm.
ISBN 85-87643-10-X
1. Jesus Cristo - 2. Jesus Cristo - Ensinamentos. I. Título. CDD 232.954
SUMÁRIO
Prefácio
Capítulo 1
Características Intrigantes da Personalidade de Cristo
Capítulo 2
Um Convite Chocante, Um Chamado Irresistível
Capítulo 3
A Personalidade dos Discípulos
Capítulo 4
O Vendedor de Sonhos
Capítulo 5
O Coração dos Discípulos: Os Solos da Alma Humana
Capítulo 6
Transformando a Personalidade: A Metodologia e os Principais Laboratórios e Lições
Capítulo 7
Judas: Antes e Depois do Mestre
Capítulo 8
Pedro: Antes e Depois do Mestre - O Processo de Transformação Capítulo 9
João: Antes e Depois do Mestre - O Processo de Transformação Capítulo 10
Paulo: A Mais Fantástica Reedição das Matrizes da Personalidade Capítulo 11
Uma Carta de Amor: O Final da História dos seus Discípulos
Notas Bibliográficas
Referências Bibliográficas
Prefácio
Encerro esta coleção agradecendo a todos os leitores de todos os lugares do mundo em que estes livros estão sendo publicados. Padres e freiras têm dito que suas vidas nunca mais serão as mesmas. Pastores têm se libertado de transtornos emocionais e ajudado milhares de pessoas em seus discursos teológicos.
Psicólogos têm recomendado os livros para pacientes com síndrome do pânico e estresse. Psiquiatras os têm recomendado para pacientes deprimidos. Professores universitários os têm adotado em faculdades de psicologia, direito, pedagogia, administração, assistência social e outras.
Budistas e islamitas estão encantados com a inteligência de Cristo e têm utilizado estes livros como manual de vida. Pessoas de todas as classes, de empresários a faxineiros, de intelectuais a pessoas de baixa escolaridade, têm ampliado suas vidas ao descobrir a grandeza da humanidade de Jesus Cristo.
Mas é provável que eu tenha sido o mais ajudado durante estes estudos. Aprendi muito como psiquiatra, como cientista da psicologia e, principalmente, como ser humano. Cada vez que analiso os segredos do funcionamento da mente e procuro, a partir dessa análise, compreender a personalidade de Cristo, percebo como nossa ciência ainda é
pequena. A ciência falhou em não estudá-lo. Como comentei em outros livros, ele é a pessoa mais famosa da terra, mas é também a mais desconhecida. Aprendi com o mestre dos mestres que a arte de pensar é o tesouro dos sábios. Aprendi, pelos menos um pouco, a pensar antes de reagir, expor e não impor as idéias e a entender que cada ser humano é um ser único no palco da existência. Aprendi com o mestre da sensibilidade a navegar nas águas da emoção, a não ter medo da dor, a procurar um profundo significado para a vida e a perceber que nas coisas mais simples e anônimas se escondem os segredos da felicidade. Aprendi com o mestre da vida que viver é uma experiência única, belíssima, mas brevíssima. E por saber que a vida passa tão rápido, preciso compreender minhas limitações e aproveitar cada lágrima, sorriso, sucesso e fracasso como uma oportunidade preciosa para crescer.
Aprendi com o mestre do amor que a vida sem o amor é um livro sem letras, uma primavera sem flores, uma pintura sem cores. Aprendi que o amor acalma a emoção, tranqüiliza o pensamento, incendeia a motivação, rompe obstáculos intransponíveis e faz da vida uma agradável aventura, sem tédio, angústia ou solidão. Por tudo isso, Jesus Cristo se tornou, para mim, um mestre inesquecível.
Hoje, meus livros são publicados em mais de quarenta países e tenho sido um autor muito lido, mas não consigo me orgulhar, pois aprendi com a inteligência de Cristo que a grandeza de um homem está diretamente relacionada com sua capacidade de se fazer pequeno. Quem perdeu sua capacidade de se esvaziar deixou de aprender, deixou de pensar. Depois que descobri a personalidade da pessoa mais surpreendente que já pisou nesta terra, não consigo deixar de me encantar com ele. Esta coleção nem de longe esgota o assunto. É possível que escreva outros livros sobre Jesus. Ele esconde os tesouros mais excelentes da inteligência espiritual, multifocal, emocional, interpessoal, lógica, intrapsíquica.
Agora, neste último livro, estudaremos a face de Jesus como mestre, como educador e artesão da personalidade. Retomarei o início da sua jornada desde quando apareceu a João Batista e chamou alguns jovens galileus para o seguirem. Comentarei alguns assuntos já
tratados nos livros da coleção "Análise...", mas usarei outro foco, analisarei os fatos e eventos na perspectiva do desenvolvimento da inteligência dos seus discípulos. Os cientistas, os empresários e os políticos que entregaram suas vidas apenas para um projeto temporal morreram e sua esperança se alojou no espaço pequeno e frio de um túmulo. Os discípulos do mestre inesquecível entregaram suas vidas para um sonho que transcende o mundo físico, o sonho de viver a vida intensamente aqui e na eternidade. Os discípulos tinham muitos problemas, choravam, erravam muito, mas o sonho do mestre dos mestres os controlava. Sob o seu cuidado, aprenderam a amar a vida e cada ser humano. Viram algo além da cortina do tempo. Ao fecharmos os olhos para a vida, verificaremos se eles tinham ou não razão. A morte pode nos guardar mais surpresas do que a própria vida.
A educação do mundo todo está em crise. Estamos formando repetidores de informações e não pensadores. Até entre os mestres e doutores raramente encontramos pensadores brilhantes, criadores de idéias originais. A falência da educação exaltou a psiquiatria. Sempre houve transtornos emocionais na história, mas nunca nos níveis e na intensidade a que estamos assistindo.
Neste livro, estudaremos uma pessoa que inaugurou a mais excelente educação e o mais notável processo de transformação da personalidade. Analisarei a personalidade dos discípulos antes e depois. Os segredos do mestre dos mestres poderão ampliar os horizontes da psiquiatria, da psicologia e das ciências da educação.
Compreenderemos por que ele escolheu pessoas tão despreparadas, incultas e saturadas de conflitos emocionais e intelectuais e como ele as transformou em excelentes pensadores que revolucionaram a história.
CAPÍTULO 1
Características Intrigantes da
Personalidade de Cristo
Os sonhos surpreendentes de um homem que viveu no deserto
Há muitos séculos, um homem estranho viveu numa terra seca e sem esperança no deserto. Sua veste era bizarra, feita de pele de animal. Ela caía mal no corpo, sobravam bordas, como um longo vestido mal confeccionado. Sua dieta era mais estranha ainda, composta de insetos e da doçura do mel, não conheceu as benesses do trigo. Sua pele era seca, desidratada, maltratada pelo sol e pela sórdida poeira. Seus cabelos eram revoltos, sua barba era longa e cheia de espículas.
O vento era seu companheiro e os seus assobios eram a sua música. Deu as costas para a civilização desde a mais tenra infância. Estava preparado para morrer. Seus ossos se depositariam em qualquer canto sem nunca ter um contato estreito com a sociedade. Mas o estranho homem do deserto sonhava como qualquer ser humano. Só que seu sonho era tão grande que lhe roubava a tranqüilidade. Ele sonhava com alguém que não apenas conhecia os conflitos e as misérias sociais, mas que mudaria o mundo. Certo dia, parou de sonhar e começou a agir. Saiu da secura da areia e se aproximou da brisa de um rio. Que refrescante! Mas não havia refrigério para o homem do deserto. Nas margens do rio, ele começou a falar do homem dos seus sonhos e das mazelas humanas. Era de se esperar um homem de torpes palavras que não convenceria nem os loucos a segui-lo. Mas, para a surpresa de todos, ele era eloqüente e ousado. Falava aos gritos. As pessoas tremiam ao ouvi-lo. Suas palavras não aquietavam a alma, pois expunham as suas feridas. Ele criticava os erros, as injustiças, a manipulação dos grandes sobre os pequenos, a hipocrisia religiosa.
Os fariseus, famosos por serem moralistas e por serem versados na lei de Deus, ficaram abalados com seu discurso. Este homem bizarro julgava falsa a postura religiosa reinante. Ninguém tinha tal ousadia, mas o homem do deserto não tinha compromisso com a sociedade. Não sabia o que era status social, não tinha interesses subjacentes, queria apenas ser fiel aos seus sonhos. Dizia aos líderes religiosos que eles eram carrascos, pois aprisionavam as pessoas no pequeno mundo das suas vaidades e das suas verdades. Pela primeira vez na história, alguém chamou a casta mais nobre de religiosos de raça de víboras: belos por fora, mas venenosos por dentro (1). Eles não se importavam com as lágrimas dos outros. Faltava-lhes amor por cada miserável da sociedade. Só amavam a si mesmos.
O homem do deserto era tão ousado que não poupou nem mesmo o violento governador daquelas terras: Herodes Antipas. Tal ousadia custou-lhe caro. Não demorou muito e foi decapitado ( 2). Mas ele não se importava de morrer, queria ser fiel à sua consciência. Seu nome era João, o batista. Por fora era mais um João; por dentro, um homem que queria virar o mundo de cabeça para baixo. Ele inaugurou a era da honestidade da consciência. Uma era que se perdeu nos dias atuais, na qual a aparência vale mais do que o conteúdo. Pode se estar podre por dentro, mas se houver fama e dinheiro, há valorização. Usando apenas a ferramenta das idéias, ele afrontou o impermeável sistema religioso judaico e o intocável império romano. Suas idéias contagiaram a muitos. Dos grandes aos pequenos, as pessoas de toda a Judéia, Galiléia e da cidade de Jerusalém afluíam para ouvilo nas margens do Jordão. Ao ouvi-lo, as pessoas mudavam a sua mente e abriam o leque dos seus pensamentos.
Persuadidas por ele, elas entravam nas águas do Jordão e saíam de lá para escrever uma nova história. Tal gesto foi chamado de batismo e revelava um simbolismo psicológico fascinante, uma mudança de rota existencial a partir das águas cristalinas de um rio. Gotas de esperança escorriam pela alma das pessoas enquanto gotas de água percorriam os vincos do rosto. O sorriso havia voltado.
O homem dos seus sonhos: o marketing pessoal
As multidões ficavam fascinadas com os intrépidos discursos de João. Quando todos o valorizavam e o colocavam nas nuvens, veio a grande surpresa. João mencionou, enfim, o homem dos seus sonhos. O homem que por noites a fio ocupara o palco de sua mente. Todos ficaram paralisados com suas palavras. Haveria alguém maior do que o corajoso João?
Para surpresa dos seus ouvintes, ele disse algo assombroso sobre o homem dos seus sonhos. Comentou que tal pessoa era tão grande que ele não era digno de desatar-lhe as correias da sandália (}>. Que homem era esse a quem o destemido João deu um status que nenhum rei jamais havia tido? Pela força da expressão, parece que João não estava querendo ser humilde ao engrandecê-lo, mas verdadeiro.
No seu conceito, aquele que durante décadas ele aguardava no deserto e que não conhecia pessoalmente, era o Filho do Deus Altíssimo visitando a humanidade. O Autor da existência enviara seu filho para ter a mais enigmática experiência. Veio vivenciar a vida humana e esquadrinhar cada espaço da emoção, cada área do anfiteatro de nossa mente, cada beco do consciente e do inconsciente humano.
O homem do deserto não tinha medo de nada e de ninguém. Ele sabia que, por confrontar sem armas e publicamente o sistema político e religioso, poderia morrer a qualquer momento. Mas esse medo não o perturbava. Revelava, assim, uma ousadia que dava calafrios em seus ouvintes. Todavia, ao citar o homem dos seus sonhos ele mostrava o outro lado da sua personalidade: uma reverência fascinante. Ele se postulava apenas como propagandista de um homem que veio resgatar a humanidade e mudá-la para sempre. As palavras de João abriam as comportas da imaginação dos seus ouvintes. Algumas pessoas enviadas pelos sacerdotes e fariseus foram indagar sobre a identidade de João. Sua resposta estava cheia de enigmas. "Eu sou a voz que clama no deserto, endireitai o caminho do Senhor" (4>. Todos ficaram mais confusos do que esclarecidos. Como o "Senhor", que os israelitas julgavam o Deus Onipotente, precisaria de um ser humano, e em particular de um homem estranho e sem cultura, para lhe preparar o caminho?
O homem do deserto era um enigma e o homem dos seus sonhos era uma caixa de segredos. Nunca duas pessoas foram tão incompreensíveis ao nosso mundo intelectual. João nasceu e cresceu fora do sistema social. Não estava contaminado com as vaidades, arrogâncias e injustiças desse sistema. Quando veio para o sistema, ele o condenou veementemente. O caminho que ele foi incumbido de preparar não era físico. Era o caminho do coração e do espírito humano. João era um trator sem freios que veio arar os solos compactados da alma humana, preparando-os para receber o mais fantástico, delicado e gentil semeador: Jesus de Nazaré.
João indicava que o homem aguardado há décadas queria entrar num lugar em que a ciência jamais conseguira penetrar, nas entranhas da psique humana. O mestre da vida desejava desempenhar um papel jamais alcançado pela ciência: transformar a personalidade humana, reeditar o filme do inconsciente e reorganizar as matrizes da memória que nos tecem como seres que pensam.
Para Jesus, a humanidade não era um projeto falido. Apesar das guerras, dos estupros, dos assassinatos, da violência e das loucuras sociais deporem contra a humanidade, ele investiu toda a sua vida nesse projeto. O mestre da vida queria atingir um alvo que os tranqüilizantes e os antidepressivos mais modernos não conseguem atingir. Ele não veio reformar o homem, dar um manual de conduta ou produzir uma paz temporária. Ele veio produzir um novo ser humano. Nunca alguém teve uma ambição tão grande. Jamais alguém apostou tanto em nós.
A imagem formada no inconsciente coletivo
Tempos depois da morte de João, Jesus o elogiou eloqüentemente. Ele disse aos seus discípulos que entre os nascidos de mulher, ou seja, entre os seres humanos, ninguém havia sido igual a ele em capacidade, coragem, determinação, paciência e na utilização do psicológico para remover as pedras da alma humana (5>. Antes de Jesus aparecer, os ouvintes de João desenhavam no seu imaginário o Messias, o "ungido" de Deus que libertaria o homem do seu cativeiro exterior e interior. Há
mais de sete séculos, o respeitado profeta Isaías havia comentado que um dia o Messias viria, mas o tempo passou e muitas gerações tombaram sem vê-lo. As palavras de Isaías se transformaram em um delírio para Israel. Israel era uma nação escrava. De todas as nações, Israel era a única que não se submetia facilmente ao controle de Roma. Israel era um corpo estranho para o império e precisava de um cuidado especial. Eles faziam freqüentes motins e o império reagia com violência. Os israelitas sonhavam com um grande Messias, sonhavam cora um grande libertador.
As palavras de João Batista alimentavam esse ardente desejo. Cada citação que João fazia era registrada no centro da memória dos seus ouvintes, gerando no inconsciente coletivo a imagem de um super-herói.
O homem dos sonhos de João se tornou o homem dos sonhos de milhares de pessoas. As pessoas castigadas pela fome e doentes na sua alma estavam ansiosas para conhecê-lo. A dor criou a esperança e a esperança se apaixonou, anteviu dias felizes e acreditou que a felicidade não era uma miragem.
João representava os frágeis raios solares que inauguram o mais belo amanhecer. Depois de uma longa noite de medo e inseguranças, muitos judeus voltaram a suspirar e a sorrir. Mas o tempo passava e o Messias não aparecia. Quando se produz intensa expectativa há três conseqüências. Se as expectativas não correspondem, gera-se frustração. Se as expectativas correspondem, gera-se ura tímido prazer. Se as expectativas ultrapassam o que foi inscrito no inconsciente, gera-se exultação.
O que Jesus provocou? Os dois extremos. Gerou frustração, porque não se colocou como super-herói, mas como filho do homem. Gerou também exultação porque nunca alguém fez o que ele fez ou falou o que falou.
O grande e singelo aparecimento
Pensar não é uma opção do homo sapiens, mas uma atividade inevitável. Ninguém consegue parar de pensar, apenas consegue desacelerar o pensamento. Até a tentativa de interrupção do pensamento já é um pensamento. Nem quando dormimos os pensamentos deixam o palco de nossa mente. Por isso sonhamos. Existem quatro fenômenos que lêem a memória e constróem cadeias de pensamentos. Todos os dias produzimos milhares de pensamentos.
Pensar é a característica básica da nossa espécie. Pensar é bom, mas pensar demais rouba energia do córtex cerebral e produz um cansaço físico exagerado, déficit de concentração, déficit de memória, irritabilidade e, às vezes, insônia. João pensava muito ou pouco? João cresceu no deserto. Tinha contato com poucas pessoas. O fato de crescer no ostracismo e, portanto, ter poucas pessoas para conversar, não indica que ele pensava pouco. Aliás, quem fala pouco, como é o caso dos tímidos, freqüentemente pensa muito. João devia pensar muito. Seus pensamentos estavam saturados de expectativas sobre Jesus. Os principais arquivos conscientes e inconscientes da memória de João estavam ocupados com uma pessoa que não conhecia. Ele era seu primo, mas cresceram separados, desde que Maria e José fugiram para o Egito e voltaram para a cidade de Nazaré na Galiléia (6). João aguardava ansiosamente por conhecê-lo. Quanto tempo você espera para que um sonho se concretize? Uns abandonam seus sonhos nas primeiras semanas. Seus sonhos não resistem ao calor dos primeiros problemas. Outros, nos primeiros meses. Seus sonhos estão mais arraigados dentro de si, mas quando atravessam o vale das frustrações, eles, com lágrimas, os enterram. João esperou por três décadas para que seu sonho se concretizasse. Quantas noites frias, desencantos e momentos de angústia ele não experimentou. Trinta anos de calor, poeira e sequidão não o desanimaram.
Um sonho só se torna real quando deixa o palco dos pensamentos e assume o controle da nossa emoção. A espera de João era quase surrealista. João amou quem não conheceu. Em meio a tantas expectativas, uma dúvida surgiu: como identificá-lo quando ele se aproximar? Virá ele como um grande rei? Terá uma grande comitiva? Suas vestes serão tecidas com fios de ouro para contrastar com as vestes do seu precursor?
As semanas se passavam e as multidões aumentavam nas margens do Jordão. Inquietos, os mais ousados perguntavam-se: "Será que João não está alucinando?" De repente, apareceu sorrateiramente mais um homem. Parecia mais um entre os milhares. Não havia diferença física entre ele e os demais.
Suas vestes eram comuns, não havia uma escolta atrás de si. Seus movimentos delicados não revelavam o poder de um rei, mas a fineza de um poeta. Ele não chamava a atenção de ninguém. Sem dúvida, era mais um sedento para ouvir as palavras eloqüentes do homem do deserto.
Mas esse homem foi pedindo licença para a multidão. Tocava os ombros das pessoas, foi abrindo espaço. Alguns não gostavam da sua intromissão, mas ele as silenciava com um sorriso. Sutilmente foi se aproximando. Ninguém o reconheceu. Certamente não era o Messias proclamado por João. Ele não tinha nada a ver com a imagem que as pessoas fizeram dele no seu inconsciente. Elas esperavam alguém supra-humano, mas ele era tão humano. Esperavam um homem com semblante de um rei, mas seu rosto estava sulcado pelas tardes ensolaradas. Suas mãos, castigadas por um trabalho árduo. Ele continuava se aproximando. Não havia poder nos seus gestos, mas doçura nos seus olhos. Sua singeleza era contagiante. O homem incumbido de mudar o destino da humanidade se escondia na pele de um carpinteiro. Nunca alguém tão grande se fez tão pequeno para fazer grandes os pequenos.
João não parava de falar. Mais uma vez ele discursava sobre a pessoa mais poderosa da terra. Não sabia que ele estava lá, ouvindo-o e vindo ao seu encontro. Seus joelhos estavam encobertos pelas águas. Seu olhar era intrépido e sua voz continuava imponente. Subitamente, uma clareira na multidão se abriu. O homem dos sonhos de João apareceu e ninguém notou. Que frustração! Mas, de repente, os olhares se cruzaram. João ficou petrificado. Interrompeu seu discurso. Nada exterior indicava que era ele, mas João sabia por meios não lógicos que era ele. Seus olhos contemplaram atenta e embevecidamente a Jesus de Nazaré (7).
Os olhos de João certamente lacrimejaram. Tantos anos se passaram e tantas noites em claro aguardando um único homem aparecer. Agora, ele estava ali, real, ao vivo e em cores diante de si. Talvez, pela primeira vez, o semblante de João tenha se alegrado. O seu aparecimento encheu sua alma de esperança.
Esperança para todos os miseráveis, os desesperados, os que perderam a motivação para viver, os que têm transtornos emocionais, os que vivem ansiosos e abatidos. Esperança também para todos os felizes, todos os que tiveram o privilégio de conquistar os mais excelentes sucessos, mas têm consciência de que a vida, por mais bela e bem sucedida que seja, é tão breve como o cair das folhas no outono.
Sim! Não apenas os miseráveis precisam de esperança, mas também os felizes, pois igualmente findarão os seus dias e nunca mais verão o rosto de quem amam, nem as flores dos campos, os entardeceres, os cantos dos pássaros.
A vida, por mais longa que seja, transcorre dentro de um pequeno parêntese do tempo. Todos os mortais precisam de esperança. A esperança era o nutriente interior de João. Só isso explica por que, sendo inteligentíssimo, trocou o conforto social pela secura do deserto.
O poder vestiu-se de doçura
Ao ver João paralisado, houve um silêncio cálido na platéia. A multidão fazendo eco ao silêncio de João. As pessoas não entendiam o que estava acontecendo, só sabiam que o rosto do homem destemido se transformara num rosto de uma dócil criança. Sabiam que ele vivia o dia mais feliz da sua vida.
O olhar de Jesus foi penetrante e inconfundível. Seu olhar transformou os anos de deserto de João num oásis. Momentos depois, João voltou a falar, mas mudou o discurso. Deixou de comentar as misérias, as hipocrisias, o apego tolo à fama, a estupidez do poder, as tolices, as fragilidades, as arrogâncias humanas. Perdeu o tom da ousadia. João lhe deu um status maior do que o do imperador romano. Mas agora ele estava perplexo. A mansidão de Jesus o contagiou. Havia serenidade na sua face, gentileza nos seus gestos. O poder vestiu-se de doçura e mansidão. Esse paradoxo acompanhará toda a história de Jesus. Ele revelará um poder que homem algum jamais teve, mas, ao mesmo tempo, demonstrará uma delicadeza jamais vista. Ele fará discursos imponentes, mas sua capacidade de compreensão e compaixão atingirá o inimaginável.
João percebeu, ainda que não claramente, os contrastes que seguiriam Jesus e fez eco a esse contraste. Pasmado, disse uma frase poética não sobre seu poder, mas sobre sua sensibilidade de amar e se doar: "Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo". (8) O homem de quem não era digno de desatar as sandálias era um cordeiro tranqüilo, que morreria por ele e pelo mundo. Que contraste! Eu já estudei a personalidade de grandes homens como Freud, Van Gogh, Hitler, mas ninguém é tão difícil de ser investigado como Jesus. Somente depois de vinte anos de pesquisa exaustiva sobre o processo de construção dos pensamentos é que apliquei esse conhecimento e pude entender um pouco os bastidores de sua personalidade.
A mudança de discurso confundiu as pessoas. Não eram as palavras que a multidão esperava ouvir quando João lhes apontasse o Cristo. Todos esperavam que ele dissesse "eis o grandioso rei que vos libertará de Roma". Coloco-me no lugar dessas pessoas sofridas que tiravam o pão da boca dos seus filhos para pagar os impostos romanos. Certamente eu teria ficado muito frustrado.
As pessoas não sabiam se riam ou se choravam. Se elas estavam confusas, ficaram perdidas. Nunca alguém havia dito que um homem era um cordeiro. Nada mais estranho. E
mais ainda, jamais alguém havia dito que um homem se tornaria um cordeiro de Deus que libertaria o mundo das suas mazelas e misérias.
As pessoas queriam segurança, liberdade e comida na mesa. Elas não suportavam os soldados com seus elmos e plumagens. Queriam ser livres para andar, falar, correr, mas Jesus lhes mostraria que se o ser humano não for livre dentro de si, jamais o será fora de si. Elas queriam o analgésico para aliviar o sintoma, mas Jesus lhes apresentaria o remédio que combateria a causa da doença. Elas queriam um reino temporal, mas ele lhes apresentaria um reino eterno.
Jesus ainda não tinha aberto a sua boca. Ninguém imaginava que ele discursaria propostas que abalariam o mundo.Todavia, o homem dos sonhos de João causou, no primeiro momento, uma grande frustração. Ele não estava na fantasia das pessoas.
Um homem surpreendente
Após João apresentá-lo, todos esperavam que ele, pelo menos, fizesse um grande discurso. Mas optou pelo silêncio. Entrou nas águas do Jordão e quis cumprir o símbolo do batismo(9). Deixaria de ser o carpinteiro de Nazaré, mudaria sua rota depois de trinta longos anos de espera e se tornaria o mestre dos mestres, o mestre da sensibilidade, o mestre da vida, o mestre do amor. Ensinaria o mundo a viver.
João se recusou a batizá-lo. Um rei não poderia abaixar-se diante de um súdito, pensava João. Mas o rei se abaixou. Esse é mais um paradoxo. Ele entrou calado e saiu calado.
O mestre dos mestres não tentou convencer a multidão da sua identidade. Tinha uma oportunidade ímpar para impressionar as multidões, mas se calou. Muitos compram jornalistas para falar bem de si ou para serem destacados nas colunas sociais. Amam aparecer. Jesus, embora fosse muito visível, apreciava o anonimato. João ficou maravilhado com sua humildade, mas a multidão ficou confusa. O choque foi inevitável. As pessoas saíram de cena e tiveram insônia. O sonho delas havia se esfacelado. Jesus de Nazaré entendia de madeiras e pregos. Não parecia ter sabedoria para envolver as pessoas. Mas quando abriu a sua boca, todos ficaram perplexos. João, um brilhante orador, ficou pequeno diante da profundidade de sua eloqüência. Ele foi um dos maiores oradores de todos os tempos. A coragem e a gentileza se entrelaçavam na sua oratória. Raramente alguém foi tão sensível e destemido na terra da censura. Falar contra o sistema político e o sinédrio judaico geravam tantas conseqüências quanto falar contra Saddam ou Stalin na época em que estavam no poder.
Sua inteligência era assombrosa. Ele falava com os olhos e com as palavras. Suas aulas encantavam. Ninguém resistia ao fascínio dos seus discursos. Ele encantava prostitutas e intelectuais, moribundos e abatidos. Suas palavras incomodavam tanto que geravam ódio por parte dos fariseus. Depois que o mestre dos mestres apareceu, os intelectuais da época desapareceram de cena.
Apesar de odiá-lo, os fariseus caminhavam longos dias para beber um pouco da sua intrigante sabedoria. Eles perguntavam inúmeras vezes: "Quem és tu?", "Até quando deixará
nossa mente em suspense?". Quanto mais perguntavam, mas eram vítimas da dúvida. Eles queriam sinais, atos miraculosos, como a abertura do Mar Vermelho. Mas o delicado mestre queria a abertura das janelas da inteligência. Os fariseus chegavam sempre antes ou depois das cenas sobrenaturais acontecerem. Eles nunca o entenderam, pois não falavam a linguagem do coração, não sabiam decifrá-lo com uma mente multifocal, aberta, livre. Hoje, Jesus reúne bilhões de admiradores, mas ainda permanece um grande desconhecido.
Você consegue decifrá-lo? Procurar conhecê-lo é o maior desafio da ciência, é a maior aventura da inteligência!
Escolhendo discípulos desqualificados para transmitir seu sonho
Jesus desejava ter discípulos para revelar os mistérios da vida. Iria levá-los a conhecer os segredos da existência. Segredos que os filósofos, a casta mais sedenta de pensadores, sonharam conhecer. Jesus almejava atuar na colcha de retalhos da personalidade de um pequeno grupo de seguidores e levá-los a atear fogo no mundo com suas idéias e seu projeto.
Queria esculpir neles a arte de pensar, da tolerância, da solidariedade, do perdão, da capacidade de se colocar no lugar dos outros, do amor, da tranqüilidade. Como fazer isso sem ter uma escola física? Como conseguir adeptos que confiassem nele sem usar de pressão social? Como abrir as janelas da mente de seus seguidores se ele insistia em não controlá-los? É fácil para um rei dominar as pessoas e levá-las a submeter-se à sua vontade. Mas Jesus, contrariando a lógica, usava a sensibilidade e a serenidade para atingir seus objetivos.
A tarefa e os métodos que o mestre da vida usava eram dificílimos de ser concretizados. Ele teria de convencer as pessoas a investir num projeto invisível. Ele discursava sobre um reino de paz, justiça, alegria. Mas esse reino era intangível, não palpável, era um reino nos céus. Era tão difícil como vender, hoje, a idéia de adquirir terrenos na Lua.
E havia outros graves problemas. Quem ele iria escolher? E como iria atraí-los? Jesus tinha tudo para falhar.
A universidade da vida: a grande empreitada
A psicologia e as ciências da educação só não se dobram aos pés do mestre dos mestres porque não o conhecem. Se fossem mais profundas e o conhecessem, uma parte das matérias deveria ser gasta com a espetacular psicologia e pedagogia do maior pensador da história.
O mestre desejava formar pensadores na grande universidade da vida, uma universidade em que muitos cientistas e intelectuais são pequenos alunos. A universidade clássica forma, com exceções, homens egoístas e imaturos. Raramente alguém sai dizendo:
"Eu aprendi a ser sábio, a amar a vida, a superar conflitos e a ser solidário na minha faculdade".
A universidade deforma os alunos, contrai a criatividade, sufoca a arte da dúvida, destrói a ousadia e a simplicidade, furta o que eles têm de melhor. Os jovens são treinados a usar a memória como depósitos de informações, mas não a pensar, a ter sutileza, perspicácia, segurança, ousadia. Têm diplomas, mas não sabedoria. Sabem falar de assuntos lógicos, mas tropeçam nas pequenas dificuldades emocionais. O mestre da vida queria formar pensadores que conhecessem o alfabeto do amor. Ele acreditou no ser humano. Acreditou em cada um de nós, apesar de todas as nossas falhas. Honrou pessoas sem honra, e disse "Você pode!" aos paralíticos físicos e aos paralíticos em sua inteligência. Ele amou os que não o amaram. E doou-se para quem não merecia. Se você sente que erra com freqüência, tem muitos conflitos e acredita que não tem qualificação intelectual para brilhar afetiva e profissionalmente, não se desanime. Se estivesse morando próximo ao mar da Galiléia, provavelmente você seria um dos escolhidos para segui-lo. Ele tinha um especial apreço pelas pessoas complicadas. Quanto mais elas tropeçavam e davam trabalho, mais ele as apreciava e investia nelas. Vejamos como e quem ele escolheu como seu primeiro grupo de seguidores. CAPÍTULO 2
Um Convite Chocante, Um Chamado Irresistível
Pequenos momentos que mudam uma história
A vida é feita de detalhes. Pequenos detalhes mudam uma vida. Por exemplo: alguém se atrasou alguns minutos para um compromisso. De repente, o seu atraso o fez encontrar uma pessoa diferente que, por fim, se tornaria a mulher ou homem da sua vida. Alguém mudou o trajeto para casa num certo dia. Foi por um caminho mais longo e complicado. Sem perceber, evitou um grave acidente. Hoje ele está vivo. Uma pessoa convivia durante anos com um colega de trabalho ansioso e difícil. Ele o aborrecia, mas ela se controlava. Um dia, ela exasperou-se. Disse algo impensado a ele. Percebendo sua falha, simplesmente pediu desculpas. Foram dez segundos de desculpas que criaram vínculos que anos de trabalho não produziram. Eles se tornaram grandes amigos. Você deu um beijo no rosto de uma pessoa que ama. Há tempos não fazia isso. Você
a tinha ferido sem perceber. Seu pequeno gesto curou uma mágoa oculta. Um beijo de um segundo gerou afeto, desobstruiu a emoção. A alegria voltou. Os que desprezam os pequenos acontecimentos dificilmente farão grandes descobertas. Pequenos momentos mudam grandes rotas. Se você quer escrever uma bela história de vida, não se esqueça de que os pequenos detalhes inauguram grandes capítulos. Foi isso que aconteceu há muitos séculos na vida de alguns jovens que moravam ao redor do mar da Galiléia. Diminutos momentos mudaram a vida deles, que mudaram a história, que mudaram a nossa maneira de pensar a existência. A humanidade nunca mais foi a mesma. Vejamos.
A personalidade construída sob o crepitar das ondas
Alguns jovens que moravam perto de um mar de rara beleza cresceram sob o burburinho das águas. O vento roçava a superfície do mar, que levantava o espelho d'água, que produzia o nascedouro das ondas num espetáculo sem fim. As ondas espumavam diariamente e se debruçavam orgulhosamente na orla das praias. Quando meninos, eles corriam na areia e pegavam as bolhas que se formavam. Mas, despedindo-se deles, elas dissolviam-se nas suas mãos, dizendo: "Pertencemos ao mar". Erguendo o semblante para o mar, eles diziam secretamente: "Nós também".
Assim era a vida desses jovens. Seus avós foram pescadores, seus pais eram pescadores e eles eram pescadores e deveriam morrer pescadores. A história deles estava cristalizada.
O mundo deles era o mar da Galiléia. Os seus sonhos? Aventuras, ondas e peixes. Sonhavam com grandes pescarias. Entretanto, os peixes escassearam. Séculos de pesca, no mesmo lugar, diminuíram os cardumes. A vida era árdua.
Colocar e puxar as pesadas redes no mar era extenuante. A musculatura ficava trêmula depois de horas de trabalho. Suportar as rajadas de ventos frios e ondas rebeldes durante toda noite não era para qualquer um. E o pior, freqüentemente o resultado era frustrante. Às vezes, não pegavam nenhum peixe. Quando chegavam do mar, os parentes e amigos queriam saber o resultado da jornada. Cabisbaixos, eles reconheciam o fracasso. As redes estavam leves; mas o coração, pesado. O mar era tão grande, mas se tornara uma piscina de decepções.
Eles reclamavam da vida que levavam. Todos os dias, as mesmas pessoas, os mesmos obstáculos, as mesmas expectativas. Num ímpeto, diziam uns para os outros que mudariam de vida. Mas tinham ouvido seus pais dizerem a mesma coisa e não o fizeram. A coragem surge no terreno da frustração, mas se dissipa diante da realidade. Sobreviver em Israel, naquela época, era difícil. A fome era uma companheira muito próxima. Correr riscos para mudar de vida era quase um delírio.
O mais velho, mas ainda jovem, Pedro, casou-se cedo. Parecia ser decidido. Embora reclamasse da pesca, seu estoque de coragem não era suficiente para largar as redes. Tinha um irmão, André. Esse era mais discreto e tímido. Ambos provavelmente morreriam pescadores. Sabiam que a miséria era o subproduto mais evidente de um povo dominado pelo império romano. As nações subjugadas deveriam sustentar a pesada máquina de Roma, com sua burocracia e exércitos.
Na mesma praia, não muito distante dali, dois outros jovens, Tiago e João, ajudavam seu pai, Zebedeu, a consertar as redes. Zebedeu era um judeu próspero. Tinha barcos e empregados. Mas, ao que tudo indica, a base da educação deles vinha de sua mãe. Era uma mulher de fibra, daquelas que colocam combustível nas ambições legítimas desta vida. Era uma judia fascinante que honrava a tradição que permanece viva até hoje: "Um homem só é
judeu se sua mãe for judia". A força de uma mãe é imbatível. Com uma mão ela afaga o rosto dos seus filhos, com a outra dirige seus corações e move o mundo. Ela queria que seus filhos brilhassem na sociedade. Talvez o sonho dela fosse que eles construíssem a maior empresa de pesca da Galiléia. Embora ambiciosos, a cultura de Tiago e João não os permitia pensar muito além de barcos, redes e peixes. A estrutura empresarial e familiar consolidada levaria esses jovens a seguir um único destino: o negócio de seu pai. Seguir outro caminho era loucura.
Zebedeu e sua esposa davam-lhes conselhos constantes. "Nós trabalhamos muito para chegar aonde chegamos. Cuidado! Vocês podem perder tudo. Há milhares de pessoas morrendo de fome. Jamais abandonem o negócio do seu pai. Vivemos tempos difíceis. Economizem! Gastem tempo consertando as redes".
Todos os dias ouviam os conselhos sábios, mas sombrios, dos pais. Portanto, não se meteriam em confusão. A palavra aventura não fazia parte do dicionário da vida de Tiago e João. Riscos? Apenas aqueles que o mar escondia.
Pedro, André, Tiago e João seguiam a tradição de seus pais. Acreditavam num Deus que tinha criado os céus e a terra. Um Deus inalcançável que eles deveriam temer e reverenciar. Um Deus que estava há anos luz das angústias, necessidades e ansiedades humanas.
Na mente desses jovens não deviam passar as inquietações sobre os mistérios da vida. A falta de cultura e a labuta pela sobrevivência não os estimulavam a grandes vôos intelectuais. Eles não se perturbavam com os segredos da existência humana. O pensamento deles estava entorpecido como está o das pessoas que são escravas da competição e das pressões sociais do mundo moderno. Viver, para eles, era fenômeno comum e não uma aventura vibrante.
Nada parecia mudar-lhes o destino. Mas diminutos acontecimentos mudam grandes trajetórias.
Um convite perturbador
Pedro e André tinham ouvido falar sobre os discursos de João Batista. Mas entre as idéias do homem do rio e a realidade do mar havia um espaço quase intransponível. Os jovens pescadores, certo dia, jogaram a rede ao mar e se prepararam para mais um dia de trabalho. Não havia nada de diferente no ar. A massacrante rotina os aguardava. De repente, viram uma pessoa diferente que caminhava pela praia. Seus passos eram lentos e firmes. A imagem longínqua se aproximou. Os passos silenciaram-se e os olhos o focalizaram. O estranho começou a observá-los. Incomodados, eles se entreolharam. Parecia o homem dos sonhos de João. Então, o estranho estilhaçou o silêncio. Ergueu a voz e lhes fez a proposta mais absurda do mundo: " Vinde após mim que eu vos farei pescadores de homens".
Nunca tinham ouvido tais palavras. Elas soaram diferente de todas as vozes que já
tinham ouvido. Elas mexeram com os segredos da alma desses dois jovens. Ecoaram num lugar em que os psiquiatras não conseguem entrar. Penetraram no espírito humano e geraram um questionamento sobre qual é o significado da vida, por que vale a pena lutar. Todos deveríamos, em algum momento de nossa existência, questionar a nossa própria vida. Quem não consegue fazer esse questionamento será escravo da sua rotina. Será
controlado pela mesmice, nunca enxergará nada além do véu do sistema. Viverá para trabalhar, cumprir obrigações profissionais, ter um papel social. Por fim, sucumbirá no vazio. Viverá para sobreviver até que a morte chegue.
Pedro e João já estavam com a vida definida. A rotina do mar afogara os seus sonhos. O mundo deles tinha poucas léguas. Mas, inesperadamente, apareceu o que lhes incendiou o espírito de aventura. Jesus arrebatou-lhes o coração com uma proposta que revolucionaria as suas histórias.
A análise psicológica dessa passagem impressiona porque Jesus não deu grandes explicações da sua proposta. Não fez discursos nem milagres. Entretanto, a maneira como falou e a proposta que fez deixaram em brasas vivas o território da emoção desses jovens.
Quem se arriscaria a segui-lo?
Nunca alguém havia feito uma oferta dessas a um grupo de pescadores ou a quem quer que fosse. Pense um pouco. Seguir quem? Quais são as credenciais do homem que fez a proposta? Quais as implicações sociais e emocionais dela?
Jesus era um estranho para eles. Não passava de um homem coberto de mistérios. Não tinha nada de palpável para oferecer a esses jovens inseguros. Você aceitaria tal oferta?
Largaria tudo para trás para segui-lo? Deixaria a sua rotina estafante, mas segura, para seguir um caminho sem destino?
Jesus não lhes prometeu poder. Não lhes prometeu um céu sem tempestades, caminho sem fadigas, uma vida sem dor. Suas vestes eram simples, sua pele estava judiada pelo sol, não tinha secretários, dinheiro, não havia uma escolta atrás de si e, ainda por cima, estava a pé.
Quem teria coragem de segui-lo? E ainda mais, segui-lo para fazer o quê? Ser pescador de homens? Eles viram seus avós e seus pais se embrenharem na voragem do mar. Eles se tornaram pescadores. Pescavam peixes e cheiravam a peixes. Jamais tinham ouvido falar de pescar homens. O que é pescar homens? Para que propósito? Como fazê-lo? Essa oferta era muito estranha e arriscada.
Como você reagiria diante dessa oferta? Se você resolvesse segui-lo, imagine o transtorno que causaria a você mesmo e aos seus íntimos. O que explicar aos seus pais, aos amigos e à sociedade? Todos esperam algo de você. Esperam que você tenha êxito social e profissional. As pessoas entendem certas mudanças na nossa vida, mas imagine uma mudança de 180 °. Parecia loucura segui-lo. Todavia, os jovens galileus, que não eram amantes dos riscos, quando ouviram a voz do mestre dos mestres, arriscaram tudo o que tinham para segui-lo.
Um chamado irresistível
Pedro e André não entendiam por que tinham sido atraídos nem as conseqüências de seus atos, mas não puderam mais ficar dentro do barco. Todo barco é pequeno demais quando se tem um grande sonho. Se pescar peixes tem seus prazeres, pescar homens deveria ser muito mais emocionante. Subitamente, eles deixaram o passado e foram atrás de um homem que mal conheciam.
Os parentes diziam que aquilo era loucura. A esposa de Pedro devia estar chorando e indagando sobre como iriam sobreviver. Muitas dúvidas, pouca certeza, mas muitos sonhos rondavam o anfiteatro da mente desses jovens.
Minutos depois, Jesus encontrou dois outros jovens, mais novos e inexperientes. Eram Tiago e João. Eles estavam à beira da praia consertando as redes. A seu lado, estavam seu pai e os empregados envolvidos em outras atividades. Sorrateiramente, ele se aproximou. Pedro e André estavam a alguns passos dele. Então os fitou e fez o mesmo e intrigante convite. Jesus não os persuadiu, ameaçou ou pressionou, apenas os convidou. Falou menos que cinco segundos. Um pequeno momento mudou para sempre suas vidas. Zebedeu, o pai, ficou pasmado com a atitude dos filhos. Havia lágrimas no seu rosto e dúvidas na sua alma. Não entendia por que eles estavam deixando as redes. Agarrado em seus braços, talvez dissesse: "Filhos, não abandonem o seu futuro", "Vocês nem mesmo conhecem a quem estão seguindo".
Convencer seu pai de que ele era o Messias não era uma tarefa fácil. Um Messias não podia ser tão comum e sem pompa. Os empregados, chocados, se entreolhavam. O pai, vendo que nada os dissuadia, decidiu deixá-los partir. Talvez tenha pensado: "Os jovens são rápidos para decidir e rápidos para retornar: logo voltarão para o mar". Mas eles nunca mais voltaram.
Deixavam imediatamente as redes
A vida é um grande contrato de risco. Basta estar vivo para se correr riscos. Risco de fracassar, de ser rejeitado, de se decepcionar com as pessoas, de ser incompreendido, de ser ofendido, de ser reprovado, de adoecer. Até um vírus, que é milhões de vezes menor que um grão de areia, representa um risco.
A vida é um grande contraste de risco. Quem fica preso num casulo com medo dos riscos, além de não eliminá-los, será sempre frustrado. Devemos ser corajosos para correr riscos, para superar conflitos, encontrar soluções e realizar nossos sonhos e projetos. Um funcionário tímido, que segue estritamente a rotina do trabalho, que procura não dar trabalho para ninguém, que não emite opiniões sobre o que pensa, poderá ser um bom funcionário, mas será quase impossível chegar a ser presidente da empresa. Estará sempre em desvantagem competitiva. E, se chegar ao topo da empresa, não estará preparado para enfrentar as crises e os desafios da mesma. Por outro lado, um aventureiro desmedido, que não pensa minimamente nas conseqüências dos seus atos, que corre riscos pelo simples sabor da aventura, também pode levar a empresa à bancarrota. Ao analisarmos as biografias de Jesus Cristo, principalmente nos evangelhos de Mateus e Marcos, sob a ótica dos discípulos e dos impactos sociais que ocorreram em suas vidas, ficamos fascinados. A Felipe, ele disse simplesmente: "Segue-me" (10). Sob a aura das suas palavras, ele o seguiu. Os discípulos correram riscos intensos. Eles não entenderam a dimensão da proposta, mas ela foi feita por um homem vibrante. Os jovens galileus, embora fossem inseguros, tiveram, pela primeira vez, uma coragem contagiante. Não pensaram nos perigos que correriam, nas possíveis perseguições e no suprimento das suas necessidades básicas. Nem mesmo se preocuparam em saber onde dormiriam. O convite de Jesus carregava um desejo de mudança do mundo. Era simples, mas forte e arrebatador como as ondas do mar.
Tento analisar o que aconteceu no âmago da mente deles, mas tenho limitações. Há
fenômenos que ultrapassavam a previsibilidade lógica. Havia algo de "mágico", no bom sentido da palavra, no chamamento de Cristo.
Era algo parecido, embora muito mais forte, com o olhar à primeira vista que cativa dois amantes, com a inspiração do poeta que o conduz a lapidar a mais bela poesia, com o insight do cientista que há anos procura por uma resposta, com o dia em que acordamos super animados, embora rodeados de problemas, e dizemos apenas para nós: "Como a vida é
bela!".
Um chamado que jamais parou de ecoar no coração das Juh4rasgeraçÕes
Como mudar todos os planos e seguir um estranho? Se o mestre da vida tivesse feito esse convite a você e você o aceitasse, que explicação daria aos seus pais? Seus amigos entenderiam sua atitude? Que explicação daria a si mesmo? Os conflitos eram enormes. Mas aconteceu algo nos solos da alma e do espírito desses jovens que os fizeram correr todos os riscos.
E fascinante ver as pessoas investindo suas vidas naquilo em que acreditam, nos sonhos que as alimentam. A atitude que Pedro, André, João e Tiago tomaram foi repetida incansáveis vezes ao longo dos séculos. Em cada geração, milhões de pessoas resolveram seguir Jesus. Seguir alguém que não conheceram. Seguir alguém que nunca viram, que apenas tocou-lhes o coração. Um toque deu um novo significado às suas vidas. Que mistério é esse?
Se analisarmos a história, veremos que inúmeras pessoas, como Agostinho, Francisco de Assis, Tomás de Aquino, ouviram um chamado inaudível, um chamado inexplicável pela psicologia, que os fez romper a estrutura do egoísmo e se preocupar com as dores e necessidades dos outros. Um chamado que as estimulou a ser pescadores de seres humanos e a amá-los, aliviá-los, ajudá-los. Tornaram-se garimpeiros do coração. Seduzidos por essas inaudíveis palavras, largaram tudo para trás.
Deixaram suas redes, seus barcos e as expectativas da sociedade. Deixaram sua profissão e seu futuro e se transformaram em seus íntimos seguidores. Tornaram-se líderes espirituais, padres, pastores, freiras, missionários. Viveram para os outros. Eles talvez tenham dificuldade de explicar por que abandonaram o "mar", mas estão convictos de que não puderam resistir ao chamado interior do mestre do amor. Antigamente, achava-se que essa atitude era um sinal de fragilidade e insanidade. Correr riscos para seguir alguém invisível? Depois de anos de pesquisa científica sobre o funcionamento da mente, sobre o desenvolvimento da inteligência e de exercício da psiquiatria e psicoterapia, admiro esses homens e mulheres. Muitos não abandonaram suas atividades seculares, mas doaram seu tempo, seu dinheiro, sua profissão e o seu coração ao ser humano, tornaram-se igualmente poetas do amor.
Independente da religião que professam e dos erros e acertos que possuem, eles investiram suas vidas num plano transcendental. Aprenderam a amar o ser humano e a considerar a vida um fenômeno que não se repetirá. Resolveram desenvolver uma das mais nobres inteligências: a inteligência espiritual.
Compreenderam que a vida é muito mais que o dinheiro, a fama ou a segurança material. Por isso, andando na contramão do mundo moderno, eles procuram os mistérios que se escondem além da cortina do tempo-espaço.
Hoje, a humanidade se dobra aos pés de Jesus pela ousadia dos seus primeiros seguidores. Segui-lo, no primeiro século, era assinar o maior contrato de risco da história. Pelo fato desses jovens terem tido a coragem de segui-lo, as suas idéias, pensamentos e reações permearam a história.
Suas palavras são utilizadas em todas as religiões. Maomé, no livro do Alcorão, valoriza-o ao extremo, chamando-o de Sua Dignidade. O budismo, embora exista antes de Cristo, incorporou seus principais ensinamentos. Pequenos acontecimentos incendiaram civilizações, mudaram a vida de bilhões de pessoas.
CAPÍTULO 3
A Personalidade dos Discípulos
Os discípulos seriam desaprovados por uma equipe de seleção O material humano é vital para o sucesso de um empreendimento. Uma empresa pode ter máquinas, tecnologia, computadores, mas se não tiver homens criativos, inteligentes, motivados, que tenham visão global, que previnam erros, que saibam trabalhar em equipe e pensem a longo prazo, poderá sucumbir.
Se houvesse uma equipe de psicólogos, especialistas em avaliação da personalidade e do desempenho intelectual, auxiliando Jesus na escolha dos seus discípulos, será que seus jovens seguidores seriam aprovados? Creio que não. Nenhum deles preencheria os requisitos básicos.
É provável que a equipe de psicólogos recomendasse para seus discípulos jovens da casta dos escribas e fariseus. Eles possuíam ilibada cultura, eram bem comportados, éticos, gozavam de reputação social. Alguns eram versados não apenas em língua hebraica, mas também no latim e no grego. Eles tinham uma visão ampla do mundo, conheciam as Antigas Escrituras e guardavam as tradições do seu povo.
O mestre dos mestres, contrariando toda a lógica, escolheu conscientemente jovens indisciplinados, incultos, rudes, agressivos, ansiosos, intolerantes. Os discípulos correram riscos ao segui-lo e ele correu riscos maiores ainda ao escolhê-los. Nunca alguém escolheu pessoas tão complicadas e despreparadas para ensinar. Por que fez uma escolha tão ilógica?
Ele preferiu começar do zero, trabalhar com jovens completamente desqualificados a ensinar jovens já contaminados pelo sistema, saturados de vícios e preconceitos. Preferiu a pedra bruta à mal lapidada.
A personalidade dos discípulos
Vamos analisar a personalidade de alguns discípulos antes deles encontrarem o mestre da vida. Os textos das biografias de Jesus falam muito pouco sobre os discípulos. Mas, indiretamente, falam muito sobre alguns deles. De Felipe e André fala-se muito pouco. De Bartolomeu, Tiago (filho de Alfeu), Tadeu e Simão (o zelote) quase nada é mencionado. De Mateus sabemos apenas que ele era um coletor de impostos, um publicano. Os publicanos eram odiados pelos judeus porque estavam a serviço do império romano. Vários deles eram corruptos e extorquiam o povo. Os fariseus os rejeitavam. Mateus era uma pessoa sociável. Quando Jesus o chamou para discípulo, ele ficou tão empolgado que fez uma festa de confraternização com seus amigos. Na festa, estavam presentes outros coletores de impostos e homens de má reputação. Ao contemplar a cena, os fariseus questionaram a reputação de Jesus. Alguém que fala sobre Deus não poderia se relacionar com gente daquela laia, pensaram eles.
Mateus era uma pessoa detalhista e deslumbrada por Jesus. Por ser coletor de impostos, devia ter noção de escrita. Provavelmente, fez anotações nos tempos em que andou com Jesus, pois seu evangelho contém riquezas de detalhes que só um exímio observador poderia notar. Mas essas anotações demoraram anos para ser reunidas em livros. Por quê? Eles tinham a palavra oral de Jesus. A palavra escrita não era importante para eles naquele tempo.
Somente depois que novas gerações de pessoas foram acrescentadas aos seguidores de Jesus e os oráculos foram se diluindo no tempo é que eles sentiram a necessidade de reunir as anotações e recordações em livros, chamados de evangelhos. O Evangelho de Mateus foi escrito provavelmente depois de trinta anos da morte de Jesus. De Tome podemos investigar apenas alguns traços de sua personalidade. Era rápido para pensar e rápido para desacreditar. Andava segundo a lógica. Vivia sob o alicerce da dúvida. Existe uma dúvida positiva que abre as janelas da memória, quebra os paradigmas, recicla os preconceitos e expande a arte de pensar. Mas a dúvida que abatia Tome não era a dúvida positiva, pois era alicerçada na auto-suficiência. O mundo tinha de girar em torno das suas verdades, impressões e crenças. Sua dúvida estava bem próxima da desconfiança paranóica. Ele desconfiava de tudo e de todos. Você vive a dúvida saudável ou doentia?
De Tiago, filho de Zebedeu, descobrimos algumas características da sua personalidade que estão descritas no inventário de seu irmão João. Tiago era um jovem ousado, ambicioso e impaciente. Todavia, se tornou um dos mais íntimos amigos de Jesus. Após a morte de Jesus, ele foi martirizado. Foi assassinado por causa do amor e da defesa da causa do seu mestre.
Neste capítulo, gostaria de ressaltar as características de ttês dos seus discípulos: Pedro, João e Judas Iscariotes. Também analisarei com mais detalhes a personalidade de Paulo. Este foi acrescentado ao estafe de Jesus depois de oito anos da sua morte. As características da personalidade de Pedro e João representam, provavelmente, os traços principais do caráter da maioria dos discípulos. Elas foram extraídas dos seus comportamentos evidentes e das entrelinhas das suas reações Contidas tanto nos evangelhos quanto nas cartas que escreveram.
As características da personalidade de Judas Iscariotes foram extraídas a partir da análise dos evangelhos. Judas tinha a personalidade mais destoante do grupo. As características de Paulo foram extraídas da análise das suas múltiplas cartas, principalmente palavras e reações reveladas em seus focos de tensão.