A Borboleta Tatuada

Philip Pullman · Capítulo 1 de 2

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A Borboleta Tatuada

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Chris Marshall é um garoto de 17 anos, que vive em Oxford com a mãe e trabalha em uma loja de aparelhos eletrônicos durante suas férias escolares. Ajudando seu chefe, Barry Miller, a produzir a iluminação de uma festa de formatura, conhece inesperadamente Jenny, a garota dos seus sonhos. Vindos de duas realidades totalmente diferentes — Jenny fugiu de casa e mora nas ruas de Oxford e em terrenos abandonados — os dois jovens começam uma relação turbulenta e assombrada pelo passado que Jenny reluta em revelar por completo.

Mas o chefe de Chris também esconde algo em seu passado. Barry Miller é um pai de família como muitos, mas, por trás dessa fachada, há um homem que participou de um audacioso roubo, tendo que trair seus comparsas para ficar com o dinheiro. Essa traição o forçou a fugir de seu país de origem — a Irlanda — para Oxford e mudar de identidade. No entanto, um dos envolvidos no roubo, um assassino em busca de vingança, o persegue cada vez mais de perto.

Os caminhos de Chris, Jenny e Barry se cruzarão de forma irreversível, levando-os a um destino trágico e cruel.

 

Philip Pullman é o aclamado autor de romances, contos e peças para leitores de todas as idades. Já recebeu muitos elogios e prêmios por seus livros infanto-juvenis. Em 2002, A Luneta Âmbar, o livro final da trilogia Fronteiras do Universo, foi o primeiro livro juvenil a ganhar o prêmio Whitbread de livro do ano, o mais prestigiado prêmio literário da Inglaterra. A Bússola Dourada, o primeiro livro da trilogia, ganhou a medalha Carnegie de 1996 — prêmio do Guardian para ficção juvenil — e o British Book Award. A Borboleta Tatuada é seu primeiro romance.

Chris Marshall conheceu a garota que ele iria matar numa noite quente, em Oxford, no começo de junho...

Chris se apaixonou por ela no primeiro instante em que a viu — e Jenny, linda e cheia de segredos, mergulhou de cabeça em sua vida. 0 destino a colocou em seu caminho e o destino, impiedosamente, criará entre eles mal-entendidos e obstáculos, fazendo com que um inocente caso amoroso enverede por um caminho sinistro de perigo e traição. Nesta história de amor trágica e contemporânea, Chris descobrirá que os ideais de verdade e confiança não são tão simples como ele sempre acreditou.

"O estilo é tenso, a trama excelente, o clímax de roer as unhas!"

The Guardian

"Implacável e aflitivo... a narrativa evocativa e o suspense de dar nó na garganta tornam

este romance uma leitura apaixonante."

Publishers Weekly

 

philip pullman

 

A Borboleta tatuada

Tradução Ana Deiró

 

Parte Um

 

Capítulo Um

 

Chris Marshall conheceu a garota que iria matar numa noite quente, no princípio de junho, quando uma das faculdades de Oxford oferecia o baile de verão. Os alunos, às vésperas da formatura, estavam festejando uma última vez, antes de partirem para se tornarem banqueiros de investimentos, diplomatas ou publicitários. Eles gastavam grandes quantias em dinheiro em convites para promover bailes desse tipo — 100 libras, ou até mais em alguns casos. Em troca disso, esperavam muita coisa, e os comitês organizadores trabalhavam duro para satisfazê-los: tendas como pistas de dança, bufês onde se servia champanhe, novas bandas começando a fazer sucesso, e bandas antigas e famosas, cabarés alternativos — todo tipo de entretenimento que estivesse na moda, que fosse caro e estivesse disponível.

O campus daquela faculdade específica tinha jardins que ficavam às margens de um lago. Haveria uma queima de fogos. Havia uma banda de músicos ao estilo dos anos 20, em uma plataforma flutuante, e um cabaré-circo montado em uma tenda. Era, em todos os sentidos, um evento espetacular, um evento que os formandos sentiam que corporificava a riqueza e o esplendor que lhes eram devidos, naquela ocasião, naquele país.

Chris Marshall não era um formando. Estava com 17 anos, ainda tinha um ano de estudos pela frente, antes de concluir o ensino médio e, para ele, aquilo era uma espécie de emprego de férias, embora ainda faltasse algum tempo para que chegassem as férias. Chris trabalhava em regime de meio expediente para uma empresa chamada Oxford Entertainment Systems, de propriedade de um homem chamado Barry Miller. Barry sabia que Chris estava juntando dinheiro para comprar uma bicicleta decente, de modo que lhe ofereceu 25 libras pela noite de trabalho, apesar do fato de que, na verdade, não precisasse de ajuda. Chris ficou feliz por aceitar. Estava cansado de ficar sentado em casa, com sua mãe e seu novo amante, tentando puxar conversa, e se sentindo um intruso o tempo todo. Ele nunca, antes, havia se sentido assim em casa, e era desagradável.

De modo que numa noite quente de junho, Chris estava instalando as luzes do cabaré-circo: desenrolando rolos de cabos, prendendo-os em suportes verticais com fita isolante, subindo em plataformas para checar o posicionamento de um spot, plugando vários cabos em uma mesa de controle de luzes, substituindo um fusível queimado, soltando uma roda giratória de luzes que tinha ficado presa e montando os pisca-piscas para emitir clarões intermitentes de fogo verde, enquanto Barry Miller conversava alegremente com o diretor do cabaré.

Barry era um homem gentil, enérgico, de seus trinta e tantos anos, louro e magro, ligeiramente míope, algo que o fazia piscar e abrir bem os olhos com o que parecia ser uma franqueza inocente. Finalmente, trêmulo e visivelmente ansioso, o diretor retirou-se para os bastidores e Barry se virou para ver como Chris estava se saindo com o trabalho.

— Como vão as coisas? — perguntou ele. — Você tem pólvora suficiente? Caramba, tem pólvora demais aí dentro. Não é preciso muita pólvora para fazer um estrondo gigantesco.

Chris tirou com a colher um pouco da pólvora das caçoletas. Estas eram pratos de cerâmica refratária, em cuja base havia fios de arame de estopim cruzados e presos em dois terminais. Pequenas quantidades de pólvora — nas cores verde, vermelha ou branca — eram postas em cima disso e, quando a corrente era ligada, o arame de estopim queimava, incendiando a pólvora e provocando um grande clarão. Chris nunca tinha usado aquilo antes e não sabia que quantidade de pólvora deveria botar na caçoleta.

— Já temos um roteiro? — perguntou Chris.

— Não. Ele vai me dar um sinal lá de trás. Eu perguntei se ele queria uma deixa de entrada de luz, mas para ele isso é mais uma coisa com que se preocupar e de que vai se esquecer. Vou lhe dizer uma coisa, esta turma não vai se dar bem profissionalmente. Isso aqui está um tremendo de um desastre. Cacete, eles nem quiseram ensaiar as deixas de entrada de luz. Porra, pense bem, até que ponto se pode ser descuidado?

O espetáculo estava previsto para começar à meia-noite e meia. Antes disso, o quarteto de jazz estaria tocando na tenda, o show de música seria seguido por um comediante gay cujo programa de televisão fora tirado do ar. Chris ficou confuso.

— Pensei que as pessoas vinham a um baile para dançar — comentou ele com Barry. — Tem tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, que parece um parque de diversões. Estou surpreendido de eles não terem carrinhos de batida.

— Não seria uma má idéia. Já fiz dúzias desses bailes, Chris. Este aqui é um pouco mais ambicioso, mas eu gosto disso. Olhe, não vou precisar de você antes de meia-noite e meia. Vá dar uma volta. Conheça as pessoas. Circule.

— Não estou vestido para isso — argumentou Chris, mas fez o que Barry sugeriu, fascinado pelas vozes altas dos rapazes, pelos ombros nus das moças em seus vestidos de baile, e pela beleza simples dos jardins da faculdade sob a luz do crepúsculo de verão, com tochas acesas espalhadas pelo gramado, luzes brilhando entre as árvores imponentes e os primeiros acordes de música flutuando sobre a água do lago.

Ele vivera em Oxford durante toda a sua vida, mas havia muita coisa que nunca tinha visto. As faculdades eram particulares e lugares reservados, exceto quando os turistas as invadiam e se enfileiravam para visitá-las — bandos de jovens italianos entediados ou de adultos japoneses curiosos —, e Chris não tinha vontade alguma de se misturar com eles. A Oxford de Chris era mais grosseira, mais barulhenta, mais suja do que todo aquele negócio de turistas. Era a Jericho Tavern, onde as boas e novas bandas independentes de rock vinham tocar; era o estádio de futebol; era a pista de corrida Speedway, que Chris freqüentara toda semana até que tinha se cansado daquilo e começara a praticar ciclismo mais seriamente.

Aquela era a sua Oxford, não esse mundo de conto de fadas de classe alta. Chris decidiu ali e naquele exato momento que qualquer que fosse a universidade onde fosse estudar não seria uma que ficasse em sua cidade natal. Para começar, não gostava do sentimento de ser olhado como se fosse alguém de posição social inferior e estava muito consciente dos olhares ligeiramente curiosos que estava atraindo, por estar vestido de maneira informal, de jeans e camiseta, deixando muito claro que não era nem um convidado nem um garçom.

De fato, por sua aparência, ele poderia ser um músico de uma banda de rock. Era um rapaz bonito, com cabelos crespos louro-escuros e em boa forma física, com os músculos bem delineados pela prática do ciclismo. Parecia mais velho do que era e, se o caráter de uma pessoa se revelasse pelas feições e pela expressão de seu rosto, o de Chris mostrava independência, franqueza e coragem. Também poderia ter revelado inocência.

Depois que a noite escureceu completamente e o baile começou de verdade, Chris foi dar uma volta até a beira do lago. Havia um pequeno galpão para guardar os barcos sob algumas árvores imponentes e escuras na ponta mais afastada, e ele queria ver se havia algum barco lá dentro. Deixou a plataforma flutuante com a banda tocando, a orquestra jocosamente vestida, o cabelo dos músicos reluzindo de brilhantina, o cantor de megafone na mão, e se encaminhou para a escuridão verde debaixo das árvores.

O ar estava perfumado com o aroma adocicado das flores do jardim da faculdade, com o perfume das moças e com o odor quente, ligeiramente pútrido, da vegetação à beira da água. Chris foi andando mais devagar e finalmente parou por completo no canto do galpão, sem ter muita certeza do motivo pelo qual havia parado, sem ter muita certeza de nada, exceto de estar inebriado por alguma coisa.

Ficou parado, olhando por sobre a água, para trás, na direção de onde viera, observando os dançarinos, na pista de madeira ao lado da plataforma da banda, movendo-se ao som da melodia "Blue Moon". Daquela distância eles não pareciam ofensivamente de classe alta, mas minúsculos, figuras glamorosas, homens bonitos e impecáveis de preto e branco, e belas garotas em vestidos longos coloridos, como um sonho antiquado de elegância e graça.

Pareciam ainda mais atraentes por causa da vasta escuridão que os cercava, como se fossem as últimas pessoas que restassem depois da morte do universo e soubessem disso, mas que mesmo assim estivessem dançando, porque eram humanos e porque a melhor maneira de ser corajoso, naquele momento, era dançar. A letra distante da canção chegava-lhe por sobre a água e Chris ficou parado ali, fascinado, enquanto a velha canção se desdobrava, enquanto o saxofone chorava como um fantasma, enquanto os dançarinos se moviam acompanhando a melodia. Ele sabia que se lembraria daquele momento pelo resto de sua vida.

Então deu as costas para o abrigo de barcos para voltar, mas parou, porque havia um som de passadas se aproximando pelo caminho. Alguém estava correndo em sua direção. A escuridão em meio aos arbustos e moitas era intensa, mas houve um ligeiro luzir e, de repente, bem ali, diante dele, apareceu uma garota apavorada em um vestido de baile branco.

Seus olhos escuros estavam arregalados; os ombros delicados tremiam. Ela lançou um olhar por cima do ombro, e ele ouviu o som de pés tropeçando e gargalhadas masculinas um pouco mais para trás. O desenho da linha de seu pescoço sob a luz fraca que vinha do outro lado do lago, sozinho, foi o suficiente para fazer com que ele se apaixonasse.

— Tem alguém perseguindo você? — perguntou baixinho.

Ela balançou a cabeça. Cabelos curtos, escuros, braços esguios desnudos, aqueles olhos aterrorizados... Ele estava perdido.

— Vá por ali, entre no abrigo de barcos — disse ele. — Eu os manterei longe de lá.

Ela passou correndo, tão perto que ele sentiu o perfume que ela estava usando. A garota desapareceu na curva. Ele ficou parado no caminho, esperando por seus perseguidores, perfeitamente à vontade, perfeitamente confiante.

Passados alguns segundos, eles apareceram e então o viram e pararam: três rapazes de smoking e gravata-borboleta preta, um segurando uma garrafa de champanhe, outro fumando um charuto, todos bêbados.

— Veja só, Piers — disse um deles. — Ela se transformou em um cara.

— Vamos acabar com ele mesmo assim — respondeu um outro, dando um passo cambaleante para a frente, mas o terceiro o segurou. Era ele quem se chamava Piers e Chris podia ver que era louro e bem-apessoado.

— Que diabo, quem é você? — perguntou ele.

— Não está vestido adequadamente — observou o do charuto.

— Jogue-o no lago — disse o que segurava a garrafa. — Eu jogaria.

— Sou técnico de iluminação — declarou Chris. — Estou verificando as luzes por aqui. É quem eu sou, que diabo. OK?

— Não há luz nenhuma por aqui.

— É porque ainda não estão ligadas, não é? Os três ficaram parados ali, meio inseguros.

— Bem, de qualquer maneira... — disse o que fumava o charuto. — De qualquer maneira, se você é um técnico, deveria se manter fora de vista, na minha opinião. Não pagamos 100 libras para ver um monte de drogas de trabalhadores vagabundeando por aí.

— Onde está Jenny? — perguntou o bonitão, de repente. — Você viu uma garota vindo por aqui?

— Não.

— Mentiroso de uma figa — disse o da garrafa de champanhe. — Ela não poderia ter ido para nenhum outro lugar. Você tem que ter visto a garota.

— Não venha me dizer o que eu tenho que ter visto. Estou aqui fazendo um trabalho. Não tenho tempo para perder conversando com gente como você — respondeu Chris. Ele estava pronto para brigar com todos eles se fosse preciso, e eles devem ter percebido isso, porque começaram a se afastar.

— Sujeitinho marrento, esse, não é? — comentou o que se chamava Piers, o bonitão.

— Ah, cale a boca, Piers, pelo amor de Deus. Olhe aqui, senhor técnico, estamos procurando por uma garota de vestido branco. Ela —

Um dos outros deu-lhe um puxão na manga e cochichou em seu ouvido. Ele prosseguiu:

— Ela não está bem. Ela chutou o balde, bebeu um pouco demais. Poderia se machucar. Você tem certeza de que não a viu?

— Tenho certeza absoluta. Mas eu a ouvi.

— Pensei que você tivesse dito —

— Eu disse que não tinha visto a garota — explicou Chris. — Ouvi alguém correndo um minuto antes de vocês aparecerem. Por ali, naquela direção. — Ele apontou na direção oposta, ao longo da beira do lago. — E ela não me pareceu bêbada... me pareceu assustada.

— Sim, bem, ela não é muito, sabe como é... — Piers bateu de leve na testa. Um dos outros reprimiu uma gargalhada.

Chris se manteve perfeitamente imóvel. Depois de mais um ou dois minutos, os três rapazes começaram a se afastar.

— Que cara mais grosso. Nós deveríamos tê-lo jogado no lago.

— Tenho certeza de que não vai haver nenhuma luz por ali...

— Eles deveriam se manter fora de vista ou estar vestidos como criados.

— Putinha idiota. Se ela foi e...

O resto da conversa foi engolido pelos arbustos e pela escuridão.

Quando teve certeza de que eles tinham ido embora, Chris seguiu para a lateral do abrigo de barcos até chegar à frente. Era um lugar pequeno, com espaço suficiente para conter dois barcos de fundo chato, talvez, com uma estreita passarela ao redor do interior.

Ele ficou parado no vão da porta e olhou para dentro. Estava muito escuro, mas podia ver o luzir do vestido branco lá no fundo. Parecia que ela estava sentada nas pranchas.

— Está tudo bem, eles foram embora — disse Chris em voz baixa.

Ela não respondeu. Achando que poderia não ter ouvido, ele começou a se encaminhar para junto dela. Lembrou-se de como um dos rapazes a havia chamado.

— Jenny? É este o seu nome?

Ainda nenhuma resposta. Ele ficou imóvel, a meio caminho do comprimento do abrigo para barcos, apertando os olhos e se esforçando para ver se ela estava bem. Será que tinha desmaiado? Eles tinham dito que ela não estava bem e que havia bebido demais. Não lhe parecera assim nos poucos segundos que a havia visto e, quando passara bem junto dele, havia sentido seu perfume maravilhoso, não cheiro de bebida. Mas será que estaria passando mal?

Ele agora estava preocupado.

— Jenny? Você está bem?

Ele subiu nas pranchas no fundo do abrigo e, com um suave farfalhar de tecido, ela caiu para a frente, bem devagar. Foi horrível. Ela estava sem cabeça. Chris quase deu um grito de terror, mas então se deu conta de que não era ela: era o vestido dela. Jenny não estava dentro dele. Ela não estava em nenhum lugar no abrigo de barcos.

Chris ficou parado ali, tremendo, esperando que seu coração parasse de bater disparado, e então se abaixou e pegou o vestido, amassando o tecido duro contra o rosto, inalando o perfume de que se lembrava. Então pôs o vestido no chão delicadamente e olhou em volta.

Estava cheio de apreensão. O primeiro pânico terrível de uma morte horrorosa foi substituído por outro. Será que era mesmo louca, como Piers havia insinuado? Teria ela tirado o vestido para poder deslizar para dentro da água e se afogar?

Jenny com certeza não estava dentro de nenhum dos barcos. Os fundos de madeira reluziam levemente sob o brilho de uns dois dedos de água. E não estava no lago, até onde podia dizer — embora se estivesse debaixo dos barcos ou presa em ervas submersas, ele não teria podido ver nem saber.

E agora, o que deveria fazer? Dar o alarme?

Sim, é claro, e imediatamente.

Mas tão logo começou a se mover, Chris viu o que deixara de ver um minuto antes. Havia uma porta na parede mais distante do galpão. Afinal, ela não estava, necessariamente, dentro do lago.

Mais um ou dois passos e Chris havia aberto a porta. As dobradiças estavam bem lubrificadas; ele e os três perseguidores não teriam ouvido se ela a tivesse aberto e se esgueirado para fora silenciosamente. Ele ficou parado do lado de fora, em meio ao emaranhado de arbustos e esperou, sem saber o que fazer. De alguma forma aquilo agora tornara-se cômico, como uma brincadeira de cabra-cega. Se ela não estava afogada debaixo da água escura, tinha que estar escondida entre os arbustos escuros sem o vestido. Mas por que tirá-lo? Porque era claramente visível e chamava a atenção, na semi-obscuridade, e porque farfalhava. Isso fazia sentido.

Ele não sabia o que fazer. Se desse o alarme, poderia criar uma situação embaraçosa para ela.

— Obrigada — sussurrou uma voz vinda da escuridão.

Então ele se sobressaltou de susto, deu um pulo tão grande que bateu com o cotovelo na beira da porta. Houve uma risadinha.

— Onde você está? — perguntou ele.

— Isso não tem importância. Eles foram embora?

— Foram. Acho que sim. Quer que eu volte com você, para o caso de eles estarem esperando no caminho?

— Não. Eu não vou voltar.

— Ah...

A voz dela era baixa e suave, e seu sotaque era do norte. Era o som mais expressivo que Chris jamais ouvira.

— Por que estavam atrás de você? — perguntou ele no silêncio que se seguiu.

— Por que você acha?

— Você não quer dizer... Olhe, onde você está? Não consigo falar com você assim.

— Está se saindo muito bem. Mas agora você vai ter que ir.

— Não posso ajudar você?

— Já ajudou.

— Mas eles podem voltar! Silêncio.

— Jenny? Silêncio.

— Jenny, meu nome é Chris. Onde você mora? Nada. Um silêncio como se ela nunca tivesse estado ali. Na distância, a banda estava tocando uma outra canção e em algum lugar nas profundezas verdejantes do jardim da faculdade um rouxinol cantava, mas Jenny estava invisível e silenciosa. Será que ele havia sonhado sua voz? Não, pois ele não teria sonhado aquele sotaque de Yorkshire e teria sonhado uma resposta.

De modo que ela era real. E estava viva. E era — sob a luz fraca, ele consultou o relógio de pulso — meia-noite e vinte.

— Eu tenho que ir e tratar de trabalhar — disse para o vazio. Então, constrangido, mas sabendo que estaria traindo a sinceridade de tudo o que havia acontecido se não traduzisse os sentimentos em palavras, disse:

— Jenny, você é linda, espero ver você novamente. Se isso não acontecer, nunca me esquecerei de você, prometo.

Então Chris começou a se afastar do abrigo de barcos e foi avançando cuidadosamente em meio às moitas espessas de arbustos até tornar a encontrar o caminho. Olhou para trás e viu apenas sombras sem significado, retalhos de prata, retalhos de negro. Ela poderia ter estado em qualquer lugar ou em lugar nenhum; perto o suficiente para que a beijasse ou tão longe, que não tivesse ouvido nada do que ele dissera.

Os dançarinos, em seu pequeno quadrado de luz, estavam batendo palmas. A banda começou a tocar outra canção, e a letra ressoava muito claramente sobre as águas tranqüilas, cantando o luar e problemas e amor.

 

Capítulo Dois

Os pais de Chris estavam vivendo separados havia um ano, e, no mês anterior ao dia do baile na faculdade, eles finalmente se divorciaram. Chris detestou o que aconteceu muito mais do que teria imaginado que detestaria, muito mais do que amigos na mesma situação pareciam detestar; ainda pior do que o sentimento de traição era a maneira calma e casual com que tanto sua mãe quanto seu pai agora falavam sobre a questão, como se, de qualquer maneira, a família nunca tivesse importado muito.

Chris ficou morando com a mãe, na casa grande e confortável na zona norte de Oxford, enquanto seu pai foi morar com a namorada, Diane, uma ex-secretária de seu escritório de arquitetura, em uma pequena casa do outro lado da cidade. Chris foi lá algumas vezes. Da primeira vez, Diane estava em casa e, embora a conhecesse do escritório de seu pai, Chris achou difícil conversar com ela e pôde perceber que ela também achava difícil. Diane era bonita e muito mais moça que seu pai, e o fato de saber que ela estava dormindo e fazendo sexo com ele fazia com que fosse perturbador para Chris olhar para ela. E olhar para seu pai, para falar francamente. Da vez seguinte ela não estava lá. Ele perguntou, "Como vai Diane?", e seu pai respondeu, "Ah, vai bem, obrigado", e os dois se comportaram de maneira descontraída e adulta a respeito da coisa toda. Mas conversar não havia sido fácil durante algum tempo. E antes fora, quando eles eram uma família, mas naquela época conversar não se tratava de um objetivo particular por si só, apenas acontecia naturalmente.

Quanto à sua mãe, de início, ficara arrasada e triste. De qualquer modo, ela era uma pessoa inclinada a dramatizar as coisas, na opinião de Chris, a exagerar e a fazer cenas, mas não podia ter sido mesmo fácil para ela pensar a respeito do que seu pai estava fazendo. Ela chorara amargamente e se trancara no quarto uma boa parte do tempo, e quando saía, manifestava uma mescla de alegria e fragilidade, e bebia mais vinho do que de costume. E suas amigas apareciam para visitá-la com mais freqüência e ficavam mais tempo.

Chris tivera que mudar. Em um dia, quase, ele tivera de mudar de alguém que era jovem demais para beber ou fumar, ou até mesmo dizer palavrões, para se tornar uma espécie de irmão simpático que ouvia os desabafos com sabedoria e dava conselhos perspicazes; alguém que era capaz de falar sobre sexo e amantes, homens e mulheres, sem ficar confuso e se sentir embaraçado. Parecia que esperava-se que ele não quisesse mais seu pai ali, que não quisesse que seus pais se amassem — que tivesse crescido e superado tudo aquilo.

E, pouco depois, sua mãe começara a sair regularmente com um homem chamado Mike Fairfax, que era professor universitário e membro do conselho da cidade, partidário de política liberal, interessado em ambientalismo e nos problemas do Terceiro Mundo. Ela havia se enturmado com os amigos dele e logo começou a ir a reuniões e a usar broches de militante. E uma noite Mike Fairfax ficou e dormiu com ela. Na manhã seguinte, comportaram-se com uma casualidade deliberada, mas Mike não pudera deixar de demonstrar um constrangimento estúpido. O pai de Chris tinha muitas fraquezas, mas ele nunca havia sido estúpido.

De modo que Chris não estava feliz em casa e, quando as férias de verão chegaram, começou a passar muito tempo fora. O fato de estar trabalhando para a Oxford Entertainment Systems de Barry Miller ajudava, mas o que ajudava principalmente era estar em busca de Jenny.

Não se passava um dia sem que pensasse nela. Ela enchia seus sonhos; ela deitava-se com ele em seus pensamentos; Chris ia dormir e acordava com o nome dela nos lábios. Estava com ele o tempo todo e Chris não tinha idéia de como encontrá-la, mas continuava à sua procura. E sempre havia o trabalho com que se distrair.

A Oxford Entertainment Systems tinha dois endereços. Havia o depósito perto da Cowley Road, onde a maior parte do equipamento era mantida e reparada, e uma loja mais perto do centro da cidade, onde pequenas peças podiam ser alugadas ou compradas e onde se podiam fazer os pedidos para o aluguel de peças maiores como as plataformas para palco ou cortinas com blecaute ou árvores de iluminação. Chris era um dos quatro empregados. Sandra trabalhava na loja, Dave e Tony no depósito e com o furgão, fazendo entregas ou indo apanhar os materiais de aluguel. Chris dividia seu tempo nos dois lugares, reparando lâmpadas no depósito, carregando o material no furgão ou verificando o equipamento devolvido; ou na loja, vendendo sangue falso usado em teatro, maquiagem ou perucas, ou alugando objetos usados em montagens teatrais como elmos romanos ou pistolas automáticas.

Na verdade, não era um emprego temporário. Barry Miller dissera que ficaria satisfeito em contratar Chris permanentemente e Chris também, bem que teria gostado disso; mas sabia que seu futuro não estava em trabalhar para Barry Miller, por mais agradável que isto fosse, de modo que considerava seu trabalho como umas férias do mundo real e decidira aproveitá-las. Afinal, havia sido através do trabalho que conhecera Jenny.

E foi por causa do trabalho que tornou a encontrá-la. Na primeira quarta-feira das férias escolares, ele havia passado a manhã no depósito e agora estava na hora de seu almoço, depois do qual passaria a tarde na loja, aprendendo a rotina do serviço com Sandra. Estava pedalando em sua bicicleta pela Cowley Road, passando defronte às casas de apostas, lojas asiáticas, agências de notícias e escritórios de sindicatos de trabalhadores, quando viu Jenny saindo de um supermercado.

Ele quase caiu da bicicleta. Ela estava do outro lado da rua e entrara numa rua transversal, mas a parte de seu cérebro que agora vivia permanentemente sintonizada em busca de garotas esguias de cabelo curto e escuro registrou a presença dela no canto de sua visão e ele teve certeza de que era Jenny.

Assim que o tráfego se desimpediu, Chris atravessou a rua rapidamente e desceu pela transversal por onde ela havia entrado, um lugar de fileiras de pequenas casas construídas em declive, com uma capela de tijolos na esquina. Ela havia acabado de parar para entrar por um portão: um vulto esguio de camiseta verde e short de ciclismo preto, carregando uma sacola de compras.

Ele freou a bicicleta passando para marcha lenta e chegou lá no instante em que ela enfiava a chave na porta.

— Jenny!

Ela parou e virou-se. Não havia dúvida! Era Jenny e, sob aquela luz empoeirada do sol, ela não era menos bonita.

— Quem é você? — perguntou ela.

— Chris. Naquela noite... no baile. Você se lembra? Junto do abrigo para barcos?

— Ah... ah, já sei. Isso mesmo! — E ela sorriu. O coração de Chris virou de cabeça para baixo. Ela era real e estava ali.

— É aqui que você mora?

— É. Mas é provisório. Nós ocupamos a casa. Foi a sua vez dizer: "Ah...".

Ela abriu a porta.

— Você quer entrar?

— Quero. Obrigado.

Piso de tábuas corridas nu, pôsteres pregados com percevejos nas paredes, o cheiro de torrada queimada — aquilo tudo estava muito distante do romance da beira do lago, iluminado pelo luar e, de repente, Chris ficou tímido.

Ela conduziu-o até a cozinha pequenina e estreita. Dois rapazes estavam sentados à mesa, tomando café. Eles certamente não eram Piers e seus amigos. Os dois haviam trançado os cabelos desgrenhados numa imitação de dreadlocks — imitação porque ambos eram brancos — e usavam jeans imundos, manchados de óleo. Um não vestia mais nada da cintura para cima, e estava sendo tatuado no ombro pelo outro, com um alfinete e um vidro de tinta.

— Este é Chris — anunciou ela. — Derek e Ollie. Você quer um café?

— Ah, obrigado, aceito.

Derek e Ollie pareciam bastante simpáticos. Derek, o que estava sendo tatuado, chegou mais para o canto a fim de dar espaço e limpou o ombro com um lenço sujo.

— Será que você pode segurar aquele espelho para mim? — perguntou a Chris, que levantou o pequeno espelho com moldura de plástico para que ele pudesse acompanhar o progresso da tatuagem. Iria ser uma rosa, embora a sujeira de sangue e tinta tornasse difícil para Chris ter certeza.

— É sempre melhor ter alguém para ajudar quando se faz tatuagens — explicou Derek. — Uma vez conheci um cara que tatuou as letras M-O-T na testa. Só que o nome dele era Tom, e ele fez a tatuagem sozinho olhando no espelho. Tudo bem, Olly, pode continuar.

— Ele deve ter ficado muito desapontado quando descobriu — comentou Chris, observando Jenny acender o gás sob a chaleira.

— Uma coisa dessas seria de deixar qualquer um louco da vida, não acha? — perguntou Derek. — Ele ficou maluco. Nunca vi ninguém tão furioso da vida. Mas era tarde demais. O destino o deixou marcado para sempre. De início, ele se recusava a responder quando as pessoas o chamavam de Mot, mas no final acabou tendo que aceitar, caso contrário, não teria mais com quem falar. Uma história triste.

— Vocês todos moram aqui? — perguntou Chris.

— Moramos. Por enquanto — respondeu Derek. Ele parecia ser o mais falante, ou talvez Ollie estivesse apenas concentrado no trabalho. Jenny lavava algumas canecas na pia.

— Quem é o dono?

— Sei lá.

— Mas vocês simplesmente estão morando aqui, sem pagar aluguel? Como encontraram a casa?

— Arrombamos a porta. Estava vazia havia meses. Não, nós não pagamos aluguel, mas mantemos a casa limpa, com tudo em bom estado e bem cuidada. Imagino que um dia desses, finalmente, seremos postos pra fora, mas o que se pode fazer, c'est la vie. Somos parasitas benéficos.

Vivemos em um relacionamento simbiótico com nosso anfitrião, sabe como é. Todos nós nos beneficiamos. É muito ecológico.

— Sei — respondeu Chris. Ele imaginava que aquelas pessoas fossem hippies de verdade. Olhou de novo para a tatuagem. — Isso aí não dói?

— É incrível, mas você se habitua. Existe um truque, um segredo; você tem meio que isolar a dor em sua mente. Botar uma cerca em volta dela. Existem pessoas que fazem operações nelas mesmas, sabe como é, simplesmente se concentram de uma maneira incrivelmente profunda e então tomam um Valium ou coisa assim e vão em frente. Eu li sobre um cara que estudou durante meses como fazer uma operação de fígado: leu tudo o que havia nos livros de cirurgia, comprou todos os instrumentos, esterilizou os bisturis e meteu mãos à obra. Fez um grande corte na horizontal da barriga, amarrou todos os vasos sangüíneos, fez um trabalho perfeito. Levantou o estômago e afastou para o lado, enfiou a mão dentro —

— Cale a boca, Derek — disse Ollie. — Você está me deixando enjoado. E fique parado.

— Tinha alguma coisa errada com o fígado dele? — perguntou Chris.

— Não, quando ele começou — respondeu Derek e caiu na gargalhada.

O tempo todo, Chris estava consciente dos movimentos de Jenny — para onde ela estava olhando, o que estava fazendo. Quando a água na chaleira ferveu, ela perguntou:

— Quer vir até o jardim? — e ele se levantou imediatamente.

O pequeno jardim nos fundos era bem cuidado, os canteiros de flores limpos e regados, o gramado aparado. Jenny sentou-se na escada ao lado da cabana de madeira e Chris sentou-se junto dela, pondo a caneca no chão a seus pés.

— O que aconteceu naquela noite? — perguntou ele. — Depois que eu fui embora?

— Eu também fui embora. Escalei o muro.

— Como... sem o vestido? Ou você voltou e tornou a botar o vestido? E, por falar nisso, onde você estava? Não conseguia ver nada.

— Eu estava com uma camisa escura e jeans. Foi assim que entrei, para começar. Eu não era uma convidada de verdade, compreende? Entrei de penetra.

Ela contou como havia feito. Tinha ido à faculdade como se fosse turista, uns dois dias antes, com o vestido de baile guardado em uma sacola, e o havia escondido em meio aos arbustos perto do abrigo de barcos. Depois de escurecer, na noite do baile, ela escalou o muro que ficava contíguo ao passeio do lado de fora da faculdade, vestindo roupas escuras para não ser vista, encontrou a sacola e trocou de roupa no abrigo de barcos, antes de ir se reunir aos outros convidados.

— Você escalou o muro sozinha? — perguntou Chris, impressionado. — Não foi com mais ninguém?

— Eu não podia ir com Derek ou Ollie, você não acha? Eles chamariam um pouco de atenção. De qualquer maneira, gosto de estar sozinha. Fui apenas para onde havia música. Alguns caras me convidaram para dançar, havia muita comida e champanhe... fingi que tinha me perdido do meu par, sabe como é, quando as pessoas me perguntavam com quem eu estava. O problema foi que acabei cruzando com Piers.

Ela não explicou como conhecia Piers, e Chris não perguntou. Mas parecia que Piers soubera que ela provavelmente havia entrado de penetra, e ele ia fazê-la pagar por isso no que ela disse que seria a maneira óbvia.

— Eu o detestei — disse Chris. — No instante em que o ouvi e a seus amigos. Detestei todos eles.

— Você foi brilhante — comentou ela. — Pensei que eles fossem brigar com você, mas você foi simplesmente fantástico.

Ele corou. Não sabia o que dizer.

— Bem — disse finalmente.

— A gente não se dá conta de que ainda existam pessoas assim — declarou ela. — Mas existem. Ricas e mimadas... Na verdade, é surpreendente; acham que podem ter tudo o que querem. Ele é algum tipo de lorde, o Piers. As pessoas simplesmente rastejam diante dele quando ficam sabendo disso. Se tivessem me apanhado, eu estaria ferrada. E depois ninguém acreditaria mesmo.

Chris queria matar Piers e seus amigos ali, naquela hora.

— E o que você faz? É estudante? — perguntou ele.

— Deus do céu, não. Sou uma parasita. Como eles dois. — Ela fez um gesto na direção de Derek e Ollie.

— Sério, fale a verdade —

— Estou falando. De vez em quando trabalho como garçonete. É só isso, sinceramente. Juro.

— E... você mora aqui com...

Ela o observava com uma expressão zombeteira, sabendo o que ele estava tentando perguntar.

— Com Derek e Ollie, isso mesmo — respondeu ela.

— E você é... quero dizer... o Derek é seu namorado?

— Por que você quer saber isso?

— Porque eu ia convidar você para sair comigo.

— Então vá em frente.

— Você quer sair comigo?

— Quero. OK. Quando?

— Na sexta-feira?

— Tudo bem.

— Você já esteve na Jericho Tavern?

— Não. Fica do outro lado da cidade, não é? Pra falar a verdade, só conheço este lado.

— Eles costumam ter boas bandas tocando por lá. Chris estava atordoado com a sorte grande que tivera.

Alguma coisa devia ter acontecido para fazer dele uma pessoa de sorte assim, pensou. Tomou o café sentindo-se tímido de novo, observando a pele lisa do braço moreno de Jenny, sua mão delicada enquanto ela atirava pedrinhas para longe da trilha diante de seus pés.

— Eu tenho que ir — disse ele. — Preciso voltar para o trabalho. Vejo você na sexta-feira. Passo aqui para buscar você às —

— Não, não faça isso. Vou me encontrar com você na cidade. Naquela coisa que parece uma igreja na encruzilhada no centro, como é mesmo o nome?

— Carfax.

— Isso mesmo. Às oito horas.

— Tudo bem. Encontro você lá. Obrigado pelo café.

— Até lá, Chris.

E foi assim, fácil desse jeito.

Durante o resto da semana, ele viveu como se estivesse em um sonho. Quando chegou a sexta-feira, estava tão nervoso e inquieto, que até sua mãe, mergulhada em sua própria neblina de paixão por Mike Fairfax, mostrou-se preocupada.

— Pelo amor de Deus, traga a garota aqui em casa — disse ela.

— Que garota?

— A garota com quem você está saindo. Você não estaria se arrumando com todo esse cuidado se estivesse apenas indo se encontrar com Carl e Jacko. Você não engana sua mãe.

Ele esperava que isso não fosse verdade. Não tinha falado com ninguém sobre Jenny, nem mesmo com Barry Miller, que era a única pessoa a quem contaria.

Estava uma noite bonita e quente quando eles se encontraram, e não foram para a Jericho Tavern. Em vez disso, caminharam até o parque da Universidade e sentaram-se à margem do rio, conversando.

Ela contou que saíra de casa em Yorkshire (mas não disse por quê) e que primeiro fora para Londres, onde não conhecia ninguém. Ali, acabara se habituando a dormir na rua, até conhecer uma garota chamada Tansy, uma garota de classe alta que também fugira de casa e com quem fez amizade. Com Tansy viera para Oxford, e foi por intermédio de Tansy que conhecera Piers.

— Foi numa festa; não consigo me lembrar onde... numa das faculdades. De início, achei que ele era simpático. Era um mundo diferente. Eu nunca tinha visto nada parecido com aquilo; nunca havia sonhado que pessoas pudessem realmente viver daquela maneira. Champanhe, tanto dinheiro, eu não conseguia acreditar. E além disso, Piers também era um lorde. Fiquei encantada, toda prosa de estar saindo com um lorde. Então descobri como eles eram de verdade.

Tansy fornecia drogas para Piers, e Jenny não havia percebido isso. Quando Tansy foi presa, Jenny chegou a ter de dormir no abrigo público. Era isso ou a cama de Piers.

Por fim, acabara conhecendo Derek e fora morar com ele e Ollie. Eles eram amigos, mas não amantes, disse ela, e na verdade era só isso.

Chris sabia que Jenny não estava lhe contando toda a verdade. Ela era uma pessoa mais complicada que aquilo e certamente não era tão ingênua quanto tentava aparentar. Mesmo assim, ele não questionou sua história, qualquer coisa que Jenny dissesse era melhor do que a verdade, só porque ela estava dizendo.

Chris nunca havia encontrado uma garota nem remotamente parecida com ela. Seu rosto era cheio da vulnerabilidade assustada, inocente, que ele vira naquela noite na margem do lago, e seus ossos de aparência frágil, os braços e mãos esguios, faziam com que ele tivesse vontade de protegê-la como se fosse um bebê. Chris sentia-se muito consciente de seu tamanho, de seus músculos e de sua falta de graça e de jeito ao lado dela.

E ao mesmo tempo, sua voz e a maneira como ela falava pareciam o oposto da inocência. Ela dava uma impressão de ser sofisticada, mas não dura; de ser uma pessoa que conhecia o mundo, mas não de ser cínica; zombeteira, mas ao mesmo tempo gentil. Ela simplesmente parecia ser muito mais adulta do que ele se sentia. Mas apesar de toda essa vivência que tinha do mundo, havia grandes lacunas em seus conhecimentos. Era como se ela nunca tivesse freqüentado uma escola, como se tivesse vivido solta a vida inteira e nunca tivesse sido apanhada.

— Por que você não vai ao colégio? — perguntou ele. — Você poderia fazer os exames e cursar o supletivo sem nenhum problema. Então poderia conseguir uma vaga na universidade.

— Ah, é? E para que eu iria querer fazer isso?

— Porque você é inteligente. Se tivesse um diploma, poderia conseguir um emprego que fosse bom de verdade. E porque estudar e aprender coisas é interessante. Você poderia se tornar membro do Parlamento e abolir pessoas como Piers.

— Piers não é o problema. E posso pensar em centenas de motivos pelos quais não gostaria de ser membro do Parlamento. O problema de gente como você é que vocês pensam que o problema de gente como eu é que não somos pessoas como vocês.

— Pessoas como eu?

— Pessoas com casas bonitas, bons empregos, diplomas e coisas assim. Esse não é o meu mundo, Chris; eu sou diferente. Não é uma coisa de classe, se é isso que está pensando.

— Não estava!

— É o que você estava pensando que eu estava pensando.

— Como é que é?

— Raciocine.

Ele refletiu e depois disse:

— Não, não estava. Não sei por que esse não pode ser o seu mundo. Se você é capaz de fazer esse tipo de jogos de palavras, já está mais à vontade nele do que eu. Esse mundo é de todo mundo, de quem quiser. E se você for inteligente, parece ser apenas um desperdício...

Ela não disse nada e Chris se sentiu repreendido, censurado; mas pouco depois estavam conversando novamente, dessa vez sobre coisas mais leves, e rindo juntos. Ao escurecer, tiveram de se apressar para sair do parque antes que os portões fossem trancados. Seguiram por uma travessa estreita ladeada por árvores escuras e saíram para uma estrada chamada St. Giles, imensamente larga, com grandes casas imponentes e velhos prédios de pedras das faculdades, de ambos os lados.

Sob as árvores, aos pés das escadarias dos grandes prédios clássicos do Museu Ashmolean, havia um pequeno furgão maltratado vendendo carne grelhada no espeto. Chris comprou dois espetos de carne e sentaram-se na escadaria do museu para comê-los, descartando os perigos da salmonela; o amor era uma garantia contra qualquer intoxicação alimentar. O que ela sentia com relação a ele Chris não sabia dizer, embora achasse que ela provavelmente gostava dele; mas Chris estava apaixonado, inebriado, bêbado de amor. Tudo nela era perfeito, misterioso, miraculoso: do maravilhoso perfume, semelhante ao das frésias, que ela usava, ao laço de fita branca que tinha posto no cabelo, à pele morena de seus pés delicados. Seus sentidos transbordavam de amor; ele teria morrido por ela.

Quanto a Jenny... ela não contou a ele o motivo pelo qual havia saído de casa, porque tinha vergonha. Toda a primeira parte de sua vida era maculada pela vergonha e pela culpa, mas apesar disso, não se passava um dia em que não retornasse a ela, reconstruindo-a em sua imaginação, inutilmente.

Ela vivera com os pais na cidade de Yorkshire, onde havia nascido. Seu pai era um encarregado de armazém, sua mãe uma cozinheira de escola. Quando Jenny tinha seis anos, a empresa de seu pai fechou, como tantas outras no princípio da década de 1980, e ele não conseguira mais arranjar emprego.

Pouco tempo depois disso, o conselho local modificou o programa de merenda escolar. Em vez de empregar suas próprias cozinheiras, as autoridades escolares terceirizaram o serviço. Firmas particulares foram convidadas a participar de concorrências para obter os contratos. Muitas mulheres, inclusive a mãe de Jenny, perderam seus empregos e, embora algumas delas fossem contratadas pela firma particular fornecedora de merendas, muitas não o foram. A mãe de Jenny foi uma das que não tiveram sorte.

De modo que por muito tempo as coisas correram mal na casa deles. Depois de um ano, a mãe de Jenny conseguiu outro emprego, dessa vez como faxineira de um hospital, mas seu pai teve menos sorte. Ele não tinha nada para fazer, senão ficar em casa o dia inteiro, fumando e assistindo à televisão. Como a mãe dela tinha de sair de casa bem cedo para trabalhar, era o pai de Jenny quem a acordava e lhe preparava o café da manhã. Foi então que ele começou a abusar dela.

Inicialmente, eram apenas umas palmadinhas em seus braços nus, nas pernas nuas, tão de levinho e de maneira tão casual que poderiam não ter significado nada. Mas aquilo, pouco a pouco, mudou. Palmadinhas transformaram-se em roçar e alisar, e roçar e alisar tornaram-se pegar e apertar; e a esta altura Jenny, que tinha oito anos, sentia o calor subir em seu corpo quando isso acontecia e, depois, sentia-se suja e infeliz.

Então aquilo piorou: beijos fedendo a tabaco, mãos enfiadas em suas calcinhas. E pior ainda. Sua mãe talvez pudesse ter ajudado, mas vivia cansada e impaciente e, de qualquer maneira, Jenny não teria conseguido falar sobre aquilo. Ela gostaria de ter contado a uma de suas professoras, mas a escola estava sofrendo trocas de corpo docente tão rápidas, que Jenny não conhecia nenhum dos professores por tempo suficiente para adquirir confiança.

Depois de cinco anos daquilo, desesperada, ela apanhou uma faca e a escondeu em sua cama. Não tinha certeza do que ia fazer com ela, embora estivesse pronta para matá-lo. Quando ele veio procurá-la naquela manhã, Jenny o golpeou e fez-lhe um corte na mão, nada de muito grave, mas o suficiente para fazê-lo sangrar um bocado. O sangue fez com que ela ficasse tonta, e o assustou também; mas quando ele viu como o ferimento era superficial, bateu nela. Dali por diante, o padrão mudou. Ele continuou com os abusos, mas agora também batia nela — dava-lhe pancadas cruéis e dolorosas em lugares onde não podiam ser vistas. Aquela altura, Jenny havia desistido de esperar ajuda. Tinha visto que, ao tomar uma atitude para se defender, podia mudar as coisas, embora não necessariamente da maneira como ela queria. Aquela foi uma lição útil.

Depois de mais um ano ou coisa assim, seu pai finalmente conseguiu outro emprego. Saía de casa cedo e tinha menos oportunidade de estar sozinho com a filha. Os abusos diminuíram, mas aquilo não fez diferença para Jenny, que havia tomado a decisão de fugir de casa assim que completasse 16 anos. Ela esperou até chegar a essa idade porque queria ser completa e legalmente livre de qualquer obrigação de morar em casa e de freqüentar a escola.

De modo que, na manhã de seu décimo sexto aniversário, ela se levantou antes de todo mundo na casa, tomou um último café da manhã sozinha na pequena cozinha, e lavou a xícara e a colher antes de apanhar sua mochila e ir embora. Jenny deixou um bilhete dizendo: Adeus, mamãe, eu darei notícias, e foi para a rodoviária. Embarcou em um ônibus em direção ao sul e deixou sua cidade natal para sempre.

Nada do que acontecera desde então fora capaz de apagar a vergonha, o medo e o ódio. Ela dormira com vários rapazes, inclusive Piers; e embora alguns fossem divertidos, outros fossem delicados e outros ainda fossem atraentes, via seu pai olhando para ela através dos olhos de todos, e, quando fechava seus próprios olhos, era para se esconder. Talvez, um dia, ela pudesse contar a alguém; talvez contasse a Chris. Mas não agora, para isso ainda faltava muito tempo.