A Borboleta Tatuada
Capítulo Três · Na segunda-feira seguinte, Barry Miller pediu a…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Na segunda-feira seguinte, Barry Miller pediu a Chris que o ajudasse em um trabalho especial. Chris pensou que poderia ser um outro baile, mas acabou se revelando muito menos glamoroso que isso.
— Eu tenho um barracão — disse Barry, enquanto seguiam no furgão pelas ruas de Oxford, com a bicicleta de Chris na parte de trás. — Bem, é mais um chalé, na verdade. Na beira do canal. Quero instalar fiação elétrica nele e decorá-lo, para usá-lo como uma oficina ou coisa assim. Botar uma cama, talvez. Torná-lo um lugar confortável.
Primeiro eles foram a Kidlington, a um ou dois quilômetros da cidade, para buscar algumas peças e ferramentas na casa de Barry. Ele morava numa casinha elegante em um bairro residencial moderno. Chegaram lá por volta das quatro horas e Sue, a mulher de Barry, se ofereceu para preparar-lhes um chá.
Ela trabalhava como secretária numa escola, contou a Chris. O filho deles de dez anos, Sean, estava jogando futebol do lado de fora, e Barry parou e bateu bola de um lado para o outro, por algum tempo, antes de dar um chute que acertou com estrondo a porta da garagem, que era o gol. Sue revirou os olhos para o alto. Ela era uma mulher bonita, loura e silenciosa, com uma estranha expressão de alegre bom senso, sombreada pela ansiedade, como se alguém próximo dela — seu filho talvez — agora estivesse melhor, mas recentemente tivesse sofrido de uma doença grave da qual não estava totalmente livre. Chris descobriu-se gostando dela de imediato. Era curioso que no furgão, a caminho dali, Barry tivesse pedido a ele que não mencionasse o barracão para Sue; mas ela parecia compreender seu marido e não perguntou qual era o serviço que eles iam fazer.
— Há quanto tempo você mora em Oxford, Chris? — perguntou ela, enquanto Barry mostrava a Sean como se mover, tocando a bola, e driblar um jogador de defesa.
— A minha vida inteira. Nasci aqui. Você veio de Londres?
— Vim. Nós nos mudamos para cá há três anos. íamos tentar a vida na Austrália, mas meus pais estão ficando velhos, sabe como é... De qualquer maneira, Barry está feliz. Já acabou o ensino médio? Você me parece crescido demais...
— Ainda tenho um ano pela frente. Depois faço os exames finais e tento uma vaga na universidade. Sue, você acha que, se uma pessoa for bastante inteligente, deveria ir para uma universidade e usar seu talento?
— Se a pessoa tiver a oportunidade, claro — respondeu ela. — Agora, estou fazendo a graduação na Universidade Aberta. É espantoso. É a coisa mais interessante que já fiz na vida. Tenho aprendido tanta coisa... Estou estudando literatura inglesa. Barry acha que devo ser realmente inteligente, mas vivo dizendo que ele é mais inteligente do que eu; que também deveria fazer um curso universitário. Mas ele é prático, tem realmente muita habilidade manual.
— Ele anda ocupado — observou Chris. — A firma tem tido um bocado de trabalhos para fazer.
— Eu sei — ela assentiu, olhando para fora, para o gramado bem cuidado, para o filho deles, um menino feliz.
— Os negócios têm andado bem. Provavelmente foi a coisa certa a fazer nos mudarmos para cá.
Barry e Sue se queriam bem de uma maneira que Chris admirava enormemente. Eles pareciam gostar um do outro, implicar, ter tolerância e rir um do outro, bem como serem muito afetuosos fisicamente. Quando Barry entrou em casa, ele a beijara e abraçara, e ela retribuíra com um abraço bem apertado. E ele evidentemente amava seu filho e era amado por ele. Houve um momento que Chris observou pela janela: Barry estava driblando com a bola, e Sean o enfrentara e surpreendera ambos ao ganhar a bola. Barry então virou-se habilmente, tomou a bola dos pés de Sean e chutou. Foi uma excelente jogada. A bola acertou a porta da garagem com um clangue ensurdecedor. Mas, ao chutar, Barry perdeu o equilíbrio e caiu sentado com uma pancada forte e repentina. Fora a reação de Sean que cativou Chris: suas gargalhadas, o rosto corado e suado mostravam simultaneamente admiração pelo lance de seu pai, divertimento com a queda cômica e um sentimento de preocupação com a possibilidade de que ele tivesse se machucado. De alguma forma naquela expressão, Chris viu uma vida inteira de amor, uma imagem do que uma família deveria ser. Ver uma expressão como aquela no rosto de seu filho seria de fato algo de que se orgulhar.
A caminho do barracão, à beira do canal, Barry falou sobre Sean com Chris.
— Ele é o rei do mundo, no que me diz respeito — declarou ele. — Sean é parecido com a mãe e herdou todas as boas qualidades dela. É rápido, esperto e inteligente, mas também é gentil, tem bom coração, sabe? Não é um molenga, não é isso que estou querendo dizer. Quero dizer que ele é gentil... é um bom menino, gentil. Às vezes me preocupo com ele.
— Por quê? Ele me parece realmente feliz.
— A gente nunca sabe o que pode acontecer. Eu tive uma época em que conheci uns patifes por aí... Já vi muita coisa ruim. Já fiz algumas coisas ruins, para falar francamente. Depois que você olha sob a superfície desse tipo de coisa, nunca mais se sente seguro, não de verdade.
Chris não compreendeu de que ele estava falando. Eles fizeram a curva e saíram da auto-estrada, depois seguiram passando pelo motel, em direção à aldeia de Wolvercote. Passaram pela ponte íngreme sobre o canal e quase imediatamente dobraram à direita, entrando em uma estrada ruim de terra batida, sob as árvores.
— Há anos que não vinha por aqui — comentou Chris. — Tinha me esquecido completamente de como era.
— Ótimo — disse Barry. — Quanto menos gente souber a respeito deste lugar, melhor.
— Por quê? Você vai abrir um cassino secreto ou alguma coisa parecida?
Barry não disse nada até eles estacionarem a cerca de 800 metros paralelamente à margem do canal, numa clareira ao lado de um lote de prédios abandonados.
— Não — respondeu ele finalmente. — Apenas quero um lugar onde possa me recolher. Para sumir de circulação durante algum tempo.
— Para quê? — perguntou Chris, saltando com ele. — Tem alguém atrás de você? Quero dizer, sabe como é, não precisa me contar se não quiser, mas...
Barry olhou em volta. Vestido em sua camisa pólo amarela e calças claras, ele parecia jovem, durão, controlado — como um ator desempenhando o papel de um herói em um filme de suspense.
— Escute, Chris — disse ele. — Vou confiar em você, OK? Você é um sujeito que me parece inteligente. Não posso contar a Dave nem a Tony; eles não têm um pingo de miolos, nenhum dos dois. Mas tenho que contar a alguém. O problema é que, há alguns anos, tive um desentendimento com uma família, certo? Três irmãos, de sobrenome Carson. Eles eram uns bandidos; eram perversos. Na verdade, eram piores que bandidos. Eles tinham ligações com terroristas. Os irlandeses, sabe, paramilitares... Eles eram muito unidos, como a máfia. Código de honra. Bem, para resumir, eu tive alguma participação em botar dois deles atrás das grades... É verdade, estou falando sério. De modo que tenho que ser cuidadoso. Eles não tocarão em Sue nem em Sean; isso não seria considerado aceitável. Mas, sabe como é, só por via das dúvidas. É por isso que tenho este lugar. Você não contou nada a ela?
— Nem uma palavra.
— Bom garoto. Ela só faria ficar preocupada. De modo que é apenas uma questão de instalar a fiação elétrica. Tornar o lugar habitável. Nada de muito elegante; um par de pontos de luz, soquetes e lâmpadas, aquecedores. Um dia de trabalho, talvez. Como eu disse, Dave ou Tony iriam bater com a língua nos dentes para todo mundo, adoram contar uma história... São bons rapazes, sabem trabalhar direito... Segure isto.
Ele entregou a Chris um rolo pesado de cabos elétricos que tirou do compartimento de carga do furgão, apanhou uma caixa de ferramentas e vários adaptadores e seguiu na frente em direção a um barracão de aspecto bastante sólido, semi-encoberto por urtigas. Era feito de painéis de concreto pré-moldado, o telhado era de ferro corrugado e, apesar da aparente decadência que o cercava, era uma construção de uma solidez impressionante. Barry girou uma chave, abriu a porta e eles entraram. O piso de concreto não tinha nenhuma rachadura; não havia nenhum cheiro de umidade. Havia até um ponto de luz elétrica funcionando, com uma lâmpada fluorescente tubular montada desajeitadamente nas vigas de madeira que sustentavam o telhado.
— Nada mal, hein? Bem construído, isso você pode ver que é. Vou fazer isolamento térmico, botar algumas placas de fibra de vidro no telhado, revestir as paredes, deixar tudo de uma maneira que fique decente. O encanamento já funciona, veja... — Ele sacudiu a cabeça na direção de uma pia de metal em um canto. — Na verdade, poderia até instalar um chuveiro, agora que estou pensando nisso. Você já fez trabalho de instalação hidráulica? Não deve ser realmente muito difícil botar também um vaso sanitário, não acha? Na verdade, seria bem sensato. Sim, é isso, um pequeno banheiro com um chuveiro, um toalete, uma pequena cozinha... Ficaria um bocado mais valorizado, não é mesmo? Veja só, isso aqui acaba de me dar uma bela idéia, sabe. Chalés para férias. Fazer uma boa planta e bingo. Os terrenos na Europa agora estão muito baratos. Entrar depressa no mercado. Esta é uma bela de uma idéia, esta...
O que Chris mais gostava em Barry era sua rapidez. Um minuto antes ele fazia insinuações misteriosas sobre vingança ao estilo da máfia e, agora, aqui estava ele fazendo uma fortuna imaginária ao construir chalés para férias na Europa.
Contudo, por mais que ele projetasse seus desejos em planos prévios, era bastante prático quando se tratava de detalhes. Ele havia feito uma planta da instalação elétrica que Chris não teve nenhuma dificuldade para entender e em pouco tempo todos os cabos, fios, adaptadores, tomadas e ferramentas estavam fora do furgão e arrumados em uma pilha bem organizada no piso de concreto.
— É claro que, se fôssemos considerar as coisas de maneira rigorosa, eu não deveria tirar este material da firma, uma vez que isto é uma residência particular. Apesar disso, dei baixa como despesa de trabalho, para efeitos de impostos. Eu sempre pago os meus impostos. Alguns sujeitos não pagam, mas é fazer besteira. Eles podem levar anos para apanhar você, mas no fim acabam apanhando. Muito bem, Chris. Você acha que pode cuidar disso? Chris assentiu.
— Tem alguma coisa faltando nesta planta... Você não quer um interruptor junto da porta? Um interruptor principal para as luzes?
— Ah, eu sabia que tinha me esquecido de alguma coisa. Vou instalar um daqueles detectores infravermelhos, certo, de modo que se alguém se aproximar do barracão, as luzes se acendam. Vai ficar ali, do lado de fora da porta, com um timer. Se você se aproximar do barracão, as luzes se acenderão automaticamente, e você terá um minuto para abrir a porta e chegar até o interruptor interno ao lado do relógio da eletricidade. Depois de um minuto o interruptor do timer apagará a luz, mas a essa altura você já terá ligado o outro interruptor, entendeu, que comandará o anterior e deixará as luzes acesas.
— E um minuto é suficiente? Suponhamos que você deixe cair as chaves ou alguma coisa assim.
— Você pode programá-lo para funcionar o tempo que quiser, dez segundos, dez minutos...
Parecia um pouco complicado demais para Chris. Se o infravermelho falhasse, você teria que ficar tateando pela parede junto ao piso, no escuro, até encontrar o interruptor. Contudo, era bastante fácil de entender.
— Onde está o detector infravermelho? — perguntou ele, examinando a pilha no chão.
— É um especial. Tive que encomendar. Ainda não chegou. Trate-o como se fosse apenas um interruptor normal; ponha os fios ali, como está no diagrama, prenda-os bem e passe fita isolante. Instalaremos o detector infravermelho quando chegar, OK? Você acha que pode fazer o serviço sozinho, agora que sabe onde fica o barracão? Olhe, tome a chave; vou lhe dar esta chave, tenho uma de reserva. Acho que vai precisar de um dia. Está tudo certo?
— Claro, tudo bem — respondeu Chris, calculando que poderia fazer o serviço na metade daquele tempo. — Sem problema.
— Então agora vou descarregar sua bicicleta e deixar você trabalhar. Comece amanhã ou comece agora, faça quando quiser. Vou esperar você de volta... Que dia é hoje? Segunda-feira? Vou esperar você de volta na quarta-feira de manhã, com o serviço pronto. Dê um telefonema se tiver algum problema.
Chris pôs a chave no bolso e viu o furgão sair sacolejando pela estradinha horrorosa sob as árvores. Pouco depois não havia mais nenhum ruído exceto o cantar dos pássaros e o perpétuo zumbido distante do tráfego na auto-estrada, mas isso era tão abafado pelas folhagens, que praticamente não estava lá. O pequeno grupo de choupanas repousava embebido, afogado no verde; a hera enxameava subindo pelas paredes, as urtigas cercavam as portas, relva alta e grossa havia apagado os caminhos. Chris passou alguns minutos dando uma olhada nas outras construções (um galinheiro, o que parecia um galpão para a ordenha e alguma outra coisa que havia quase desabado) antes de procurar o canal. Estava invisível, embora ele soubesse que deveria estar a poucos metros de distância; o verde circundante — uma vicejante desordem de folhas, gravetos, galhos, relva, ervas — o desorientava. Finalmente ele avistou uma falha nos arbustos e abriu caminho em meio a eles até chegar à trilha vazia que cruzava o canal.
O canal era silencioso, estreito e marrom. Uma libélula azul deslizava sobre a superfície. A alguma distância, à direita, um pequeno barco de passeio jazia semi-afundado, declinando suavemente para a ruína e podridão total, algumas de suas moléculas sem dúvida já florescendo em triunfo em meio aos juncos que cresciam nas margens. Chris tinha observado o canal da ponte em Wolvercote. Meia dúzia de barcos por dia, se muito, navegavam por ele, com turistas de férias, tomando banho de sol, enquanto manipulavam as portas das comportas ou seguravam o leme. Agora não havia ninguém à vista, nenhuma outra criatura exceto a libélula e um indiferente cavalo castanho na campina do outro lado do canal.
Chris voltou caminhando em meio aos arbustos até o barracão — ou chalé. Podia vê-lo vividamente como Barry o via: revestido de cedro, com janelas de vidro temperado, um pátio com uma mesa debaixo de uma grande barraca, vasos sob as janelas cascateando com flores de cores vivas; Barry, Sue e Sean, talvez de roupas de banho ao redor de uma churrasqueira. Era uma ilustração de um folheto de publicidade de férias.
A realidade era menos glamorosa. O interior do barracão era apenas um espaço em branco. Poderia ter servido igualmente bem como estúdio para um artista, como sala de aula temporária para uma escola superlotada, ou uma câmara de tortura na América Central. Sozinho, feliz e apreensivo, Chris começou a separar as ferramentas e cabos para o serviço e, como sempre, quando estava sozinho, entregou-se a devaneios. Não demorou muito e não era mais Barry quem morava ali, e sim ele e Jenny. Sua presença irônica e esguia já enchia a clareira como um fantasma.
A história de Barry sobre os irmãos Carsons era parcialmente verdadeira. Entretanto, não tinha nada a ver com terrorismo. Tampouco o sobrenome de Barry fora sempre Miller.
Ele vivia então no sul de Londres. Seu nome era Barry Springer e trabalhava como eletricista. Casualmente envolvera-se com dois irmãos chamados Frank e Billy Carson, que gostavam de pensar que eram líderes de gangue, como os famosos gêmeos Krays. E, do mesmo modo que o mundo dos Krays, o mundo dos Carsons se misturava um pouco com o mundo dos espetáculos. Barry gostava do sentimento de perigo e do glamour; ele gostava especialmente de estar na companhia de gente semifamosa como jogadores de sinuca e atores de televisão, de oferecer-lhes bebidas em clubes noturnos, de ser considerado por eles como um membro da gangue dos Carsons.
Na verdade, os irmãos Carsons não passavam de ladrões de galinhas. Tinham executado uma série de assaltos a joalherias sem serem apanhados, mas também sem ficarem ricos. Decidiram então assaltar um carro-forte Securicor que iria fazer entrega de dinheiro a um banco e, com o que obtivessem com isso, comprar uma participação em uma grande operação de drogas.
Porém Barry Springer tinha um problema de consciência no que dizia respeito a drogas. Ele também tinha um ligeiro problema de consciência com relação a roubo, de todo modo, mas pelo menos o dinheiro era limpo. Barry decidiu que o trabalho do Securicor seria o último que faria, e que pegaria sua parte do dinheiro e iria para algum outro lugar abrir um pequeno negócio.
O assalto não correu bem. Os irmãos Carsons estavam armados, algo que nunca tinham feito antes, e os guardas da Securicor mostraram-se muito mais alertas do que eles haviam esperado. Billy Carson entrou em pânico e disparou contra um deles; o guarda morreu na hora, e o bando fugiu com apenas uma pequena parcela do dinheiro que pretendia conseguir.
Durante os dois dias que se seguiram, os Carsons fizeram loucuras, como se soubessem que estavam acabados. Assaltaram um caixa de uma firma construtora, atiraram nele e fugiram com quatro mil libras; assaltaram e mataram um subgerente dos correios, e roubaram 300 libras; depois, por pura sorte, cometeram seu assalto mais lucrativo. Estavam circulando de carro, meio sem rumo, quando viram um outro carro-forte, dessa vez recolhendo dinheiro de um banco.
Se não estivessem bebendo e desesperados, e se não soubessem que estavam condenados ao fracasso, jamais teriam corrido o risco de tentar. Mas, no impulso do momento, Frank Carson estacionou o carro na esquina e, 90 segundos depois, eles estavam correndo a toda a velocidade pelas ruas do sul de Londres com 147 mil libras no carro, e dois homens jaziam mortos no asfalto atrás deles.
Esconderam o carro e o dinheiro imediatamente, em uma garagem que tinham alugado atrás de umas lojas, em Deptford. Enquanto Billy ia para casa fazer as malas, Frank foi a uma agência de viagens comprar passagens para a Espanha. Ele jamais voltou para casa. Quando saltou do ônibus, percebeu que havia alguma coisa errada; e enquanto dobrava a esquina e avistava os atiradores de elite da polícia, posicionados no quarteirão de prédios de conjunto habitacional, a barreira montada na rua, os megafones, teve certeza de que Billy iria ser preso ou morto.
Rapidamente retornou à rua principal e tomou um ônibus para a garagem. Pelo menos com o dinheiro poderia se esconder e conseguir um outro passaporte, uma vez que o seu ainda estava no apartamento com Billy.
Mas o dinheiro havia desaparecido. Frank sabia que a única outra pessoa que sabia da existência da garagem era
Barry Springer, que não participara de nenhum dos assaltos desde o primeiro carro-forte Securicor, quando Billy havia matado o guarda.
Frank era um pouco mais cabeça fria que Billy, mas não muito — não o suficiente para se impedir de entrar no carro e correr para a casa de Barry Springer dominado pela fúria.
Era tarde demais, Springer não estava lá, nem sua esposa, nem seu filho pequeno. Em vez disso, quando Frank irrompeu porta a dentro, viu-se cara a cara com policiais armados de tocaia esperando por ele. Foi preso imediatamente.
Aquela altura, Billy tinha levado um tiro e morrido. Ele havia ferido dois policiais durante o tiroteio; um deles morreu no hospital. Frank foi julgado por assassinato e condenado à prisão perpétua. A principal testemunha de acusação foi Barry Springer. Como ele havia fornecido as provas da acusação, não respondeu a processo. Permitiram-lhe recomeçar sua vida livre de qualquer obstáculo. Ele mudou seu nome para Miller e deixou Londres com a família. A polícia o ajudou a cobrir seus rastros.
Mas Frank e Billy tinham um outro irmão mais moço. Seu nome era Edward e era um sujeito muito diferente. Onde eles eram impulsivos, ele era calculista; onde eles eram tapados, ele era inteligente. Edward não participara de nenhuma das atividades criminosas dos irmãos, não porque tivesse quaisquer escrúpulos morais, mas porque achava que o crime era uma maneira ineficiente de conseguir o que também se podia conseguir e, mais importante, conservar, através da esperteza. Ele havia se formado como contador público e, com essa cobertura, havia aperfeiçoado maneiras de fazer dinheiro roubado parecer limpo. Já era rico.
Ele poderia ter desprezado a brutalidade imprevidente de seus irmãos mais velhos, não fosse por uma coisa: eles o tinham criado juntos e carinhosamente depois da morte dos pais idosos, e Edward os amava com o único amor que existia em sua vida.
Edward era um homem estranho, filosófico; um grande leitor; um homem cujas paixões eram tão frias e implacáveis quanto uma geleira. De modo que quando Billy foi morto e Frank mandado para a prisão para cumprir uma pena de, no mínimo, uns 25 anos, aquela inteligência gélida voltou-se contra Barry Springer. Springer traíra Billy; Sprin-ger estivera no banco de testemunhas jurando, com fingida inocência, que não fazia idéia de onde estava o dinheiro. E isso significara uma sentença ainda mais pesada para Frank, uma vez que o júri simplesmente não acreditara nele, quando havia afirmado que Springer deveria ter passado a mão no dinheiro.
A única paixão que pode criar raízes no solo congelado de uma natureza como a de Edward Carson é a vingança. Springer era responsável; Springer iria pagar por isso. Carson havia encontrado um meio para dar vazão a seu talento e uma utilidade para sua riqueza. Ele começou a procurar por Barry Springer.
Capítulo Quatro
Na terça-feira, Chris levou quatro horas para fazer o trabalho do princípio ao fim. Ao final do serviço, a fiação antiga fora substituída por uma nova, e havia um circuito de controle principal com quatro soquetes duplos instalados, um circuito radial para um fogão elétrico e um circuito de iluminação com duas rosáceas de teto. Além disso, Chris pensara numa variação para a idéia do infravermelho de Barry e incluíra a fiação necessária para ela: um holofote montado do lado de fora do barracão, que também podia ser ligado e desligado do interior.
Depois que acabou, testou tudo para verificar se estava funcionando, se todos os fios estavam presos em segurança ao longo dos batentes e sarrafos que iriam levar o emboço e se toda a serragem e restos de cabo e pedaços de fiação flexível e pedacinhos de plástico tinham sido varridos. Eram três horas da tarde e ele havia encerrado seu dia de trabalho.
Chris trancou o barracão e empurrou sua bicicleta pela trilha. Era uma estrada difícil demais para uma boa bicicleta comum; seria possível andar nela com uma mountain-bike, mas para Chris mountain-bikes eram coisas pesadas e desconfortáveis. Ninguém precisava de uma mountain-bike em Oxford, de modo que, quase por definição, qualquer um que usasse uma era esnobe. Para Chris, a definição de ciclismo era a velocidade e a coragem do Tour de France; ele poupava suas rodas para usá-las na estrada.
Quando chegou a Wolvercote, montou na bicicleta imediatamente e pedalou com vigor, de cabeça baixa, em direção à Cowley Road. Levou 15 minutos para chegar à casa de Jenny, onde não encontrou ninguém. Na verdade, ele não havia combinado de encontrá-la, mas, mesmo assim, sentiu-se desapontado.
Ficou dando voltas subindo e descendo a rua durante alguns minutos, antes de afinal sair da Cowley Road e seguir para Rose Hill.
Aquela era uma área de ruas pequenas e casas meio afastadas, no sul da cidade, onde seu pai vivera durante os últimos seis meses com Diane, sua amante. Chris não tinha certeza de por que estava indo para lá, exceto pelo fato de que não queria ir para casa.
Ficou surpreendido ao ver uma placa onde se lia Vende-se diante da casa, mas, quando Diane abriu a porta, ele a esqueceu imediatamente. Ela era bonita, loura, meio gordinha, com cerca de 23 ou 24 anos. Chris a conhecia desde que começara a trabalhar no escritório de seu pai, dois anos antes.
— Chris! Olá. Ei, entre. Seu pai está no jardim.
Ele queria muito não se ruborizar com tanta facilidade. Era o fato de Diane ser tão bonita e era por causa de sua saia curta e das pernas de fora, o ar da tarde quente e carregado do perfume de flores, e também por causa da maneira como ela estava sorrindo para ele, como se gostasse dele.
Ele passou pela sala de visitas estreita e saiu pela porta-janela para o pequeno jardim ensolarado nos fundos.
— Oi, pai — disse ele.
Seu pai, de calções, camiseta e um chapéu-panamá cobrindo-lhe a cabeça calva, levantou o olhar dos papéis na prancheta em seu colo.
— Alô, garoto — respondeu ele. — Então, que diabo você quer?
Aquela era uma saudação habitual. Seu pai lhe queria muito bem e Chris sabia disso.
— Como vão as coisas?
— Os negócios andam de vento em popa, meu filho. É por isso que estou aqui, sentado ao sol, cuidando deles. Como vai sua mãe?
— Vai bem. Mike Fairfax está morando com...
Ele ia dizer com a gente, mas aquilo não teria sido verdade. Mike Fairfax estava dormindo com a mãe de Chris, não morando com eles. Seu pai se animou, interessado.
— É mesmo, Mike Fairfax, o filósofo?
— Ele mesmo. Ela agora está toda interessada em política. Usa broches e vai a reuniões e coisas assim.
Ele sentou-se no degrau do pátio e estendeu a mão para o gatinho preto e branco brincando ali. O bichinho bateu nela desconfiadamente, antes de sair correndo para se esconder debaixo de um arbusto de lavanda.
— Conheço o tipo — comentou seu pai. — Quero dizer Fairfax. Não me diga, ele é trabalhista, não é? Não pode ser um liberal. Tem que ser trabalhista. Estou certo?
— Mesmo se eu dissesse que não, você iria me dizer que eu estava cometendo um erro.
— Isso se vê de longe. Ele tem consciência social, eu sei disso. É uma coisa que eu nunca tive. Sua mãe ficou chocada quando descobriu. Eu me lembro, logo depois que nos casamos, a grande questão na época era salvar os tigres. Eu dizia, vamos salvar as drogas dos tigres, bela idéia; podemos usá-los em experiências médicas, teremos um volume de rendimento de experiência de pesquisa muito maior com um tigre que com um rato. Ela não gostou muito disso. É uma mulher séria, entende? Contudo, se o nosso amigo Fairfax está lhe fazendo companhia, muito justo. Obrigado, Diane, você é um amor.
Diane tinha aparecido com uma bandeja de chá e uma travessa de biscoitos feitos em casa de aspecto gorduroso. O pai de Chris estendeu a mão e pegou um.
— Você está ficando gordo — comentou Chris.
— Gordo? O que é isso? Você acha que estou gordo, Diane?
— Acho — respondeu ela. — Está um bagulho velho, disforme.
Ela puxou o chapéu para cima do rosto dele e entrou.
— Você vê como ela me trata? — comentou o pai de Chris, radiante, a boca cheia de biscoito.
— Foi a Diane quem fez os biscoitos? — perguntou Chris.
— Foi. Não gosta deles?
— São muitos gostosos, sim. Você agora está trabalhando em casa, papai?
— Quando posso. Não faz sentido ir até o escritório se posso sentar aqui e fazer a mesma coisa. De qualquer maneira, também não há muito trabalho no momento. Estou fazendo uma ampliação para um velho ricaço em Charlbury. Eu o convenci a reformar a casa inteira. Ele ganhou muito dinheiro e quer uma coisa clássica; de toda maneira, na verdade, isso é a única coisa de que os yuppies gostam, frontões, colunas e coisas desse tipo. Para mim é muito fácil fazer uma imitação, mas eu detesto, sinceramente. Pensei em fazer uma espécie de domo florentino na garagem, só que ele provavelmente iria perceber que eu estava me divertindo às custas dele.
— Você não deveria fazer, se detesta. Isso é a mesma coisa que se prostituir.
— Paga o aluguel. Não há nada de imoral em pagar o aluguel.
— Claro, mas... você deveria fazer as coisas que seu talento lhe diz para fazer, não o que um ricaço qualquer decide.
— Mas eu faço. Meu talento é para criar imitações, falsificar. E de qualquer maneira, ele está pagando; pode ter o que quiser. Eu trato de garantir que não vai desabar e que a chuva não vai entrar.
Ele fez uma careta, enfiou a mão no bolso da calça e tirou um tubo maltratado de pastilhas para a digestão.
— Porcaria de biscoitos — observou ele, ao mesmo tempo mastigando uma pastilha. — Sempre me dão azia. Ela é uma garota maravilhosa, sabe, a Diane. Tem um tremendo talento.
— Talento?
— Para a arquitetura.
— É mesmo?
Esperava não ter soado muito descrente. Não tivera a intenção.
— Pois é — prosseguiu o pai. — É um desperdício estar trabalhando como secretária. Ela vai para a universidade. E você? O que anda fazendo da vida?
Chris contou a ele sobre Barry Miller e o emprego. Perguntou a si mesmo se deveria mencionar o esconderijo e achou que não teria importância desde que não contasse onde era.
— Gângsteres estão atrás dele? — questionou seu pai. — Ele está levando você na conversa. O que ele quer é um lugar para encontros amorosos.
— Ele não é desse tipo!
— Aposto que é. Um lugar simpático para levar uma namorada. Foi por isso que não quis que você contasse à esposa dele. Não temos gângsteres à solta circulando por aí, não em Oxford.
— Ele não é assim — repetiu Chris teimosamente. A idéia de que Barry estivesse traindo Sue e Sean, rompendo com aquela família unida e afetuosa, era horrível.
— Pois bem, imagino que eu saiba do que estou falando — disse seu pai suspirando. — Ah, já sei o que eu ia pedir a você. Nós vamos viajar, Diane e eu, só passar o fim de semana fora. De sexta-feira a domingo. Será que você poderia passar aqui de vez em quando e ficar de olho no gato?
— Posso. Claro.
— O pestinha faz cocô em toda parte, come tudo e morde. Eu ficaria muito satisfeito se você desse um jeito para que ele fosse atropelado, mas Diane ficaria chateada, de modo que é melhor não fazer isso. Apenas dê-lhe de comer e ponha água para ele. Eu poderia pedir aos vizinhos, mas nos desentendemos no outro dia; eles são um bando que não merece confiança. Nós não vamos ficar por aqui muito tempo.
— Ah, é isso! Eu vi o cartaz dizendo Vende-se do lado de fora. Para onde vocês vão se mudar?
— Lá para os lados de Long Hanborough. Já compramos uma casa. É um velho chalé imundo, a única coisa que funciona é o banheiro externo. Estou com Mike Lovell fazendo umas obras nele agora. Ele fez a ampliação da cozinha, você se lembra dele? Assim que estiver pronto, vamos nos mudar para lá de modo que este lugar fique desocupado para um comprador. Olhe, você poderia ficar aqui e passar o fim de semana, se quisesse. Assim daria à sua mãe e Mike Fairfax a oportunidade de ficarem à vontade na casa, sozinhos. Convide uns amigos para vir aqui, se quiser. Dê uma festa e incomode os vizinhos.
— Fechado! Pode deixar, vou fazer isso.
Chris soube imediatamente o que ia fazer naquele fim de semana. Ele se despediu do pai, depois de combinar de passar para pegar a chave na sexta-feira à tarde, e tornou a entrar pela porta-janela. Olhou em volta, procurando por Diane para se despedir, e a encontrou descendo a escada. Ela olhou por cima do ombro dele e fechou a porta da sala de modo que ficassem sozinhos no corredor.
— Chris — perguntou baixinho. — A sua mãe... ela está bem?
— Ele também ficou me perguntando isso — disse-lhe Chris. — Sim, ela está bem, de verdade.
— Porque ela é uma pessoa tão boa. Eu detestaria se ela estivesse, sabe como é, infeliz ou coisa parecida. Isso me faria mal.
— Bem, no princípio ela estava. Mas acho que agora está OK. Inclusive arranjou um namorado, de modo que provavelmente não vai cometer suicídio nem nada desse tipo.
Ela deu-lhe um olhar confuso e retorceu a boca. Parecia ser ainda mais jovem do que Jenny. Diane estava tão perto que ele sentia o cheiro do sabonete que ela havia usado.
— Seria horrível para mim se todo mundo pensasse, sabe, eu estava apenas...
— É claro que ninguém pensa — respondeu Chris vagamente. — Papai me disse que você vai fazer um curso de arquitetura.
— Pois é. Foi idéia dele, na verdade. Parece interessante.
Eles ficaram parados ali, desconfortavelmente, por um segundo ou pouco mais, duas pessoas mais próximas em idade, personalidade e modo de agir uma da outra do que qualquer das duas o era do homem do lado de fora, o pai e o amante. Então Diane deu um pequeno sorriso triste e abriu a porta para que ele se fosse.
Capítulo Cinco
A mãe de Chris ficou muito contente que ele passasse o fim de semana na casa de seu pai. Ele não imaginara qual seria a reação dela; havia se tornado imprevisível desde que começara a namorar Mike Fairfax, ou então Chris havia perdido parte de seu talento para adivinhar. Ele temera que ela fosse fazer uma cena, tratar aquilo como abandono, traição, tomar o partido de seu pai contra ela e assim por diante. Mas, na verdade, ela pareceu muito satisfeita.
— Como está seu pai? — perguntou ela naquela noite, enquanto os três jantavam.
— Ele ficou me perguntando como você estava. Ele está bem. Está ficando gordo.
— Ótimo — retrucou ela.
— Ótimo?
— Bem, se ele não está preocupado com o fato de estar engordando, não vai fazer o que aquele homem na Suíça fez.
— Homem na Suíça? — perguntou Mike Fairfax.
— No ano retrasado — contou-lhe Chris —, quando fomos para lá passar férias, havia um homem de meia-idade, hospedado no hotel, com uma garota realmente jovem. Ela tinha a metade da idade dele, e evidentemente ele estava tentando impressioná-la com a sua boa forma física. Por toda parte aonde íamos, nós o víamos correndo, nadando ou fazendo flexões, e ela vinha se arrastando atrás, parecendo mortalmente entediada. Eles têm umas pistas de corrida e exercícios com percurso demarcado na floresta, com aparelhos de madeira posicionados em intervalos, de modo que você corre um pouco, então faz exercícios de remo e abdominais, e depois corre mais um pouco. De qualquer maneira, certa manhã ele estava lá, tentando impressioná-la e teve um ataque de coração e morreu, assim, de estalo.
Mike deu uma resposta indiferente e se serviu de uvas. Ele era um que saía para correr todas as manhãs, e fora por esse motivo que Chris contara a história. Era uma boa pessoa, Chris percebia isso, interessado, dedicado e cheio de energia, e era gentil e decente. Dedicava um interesse especial a fazer com que Chris participasse das coisas, a educadamente consultá-lo como o morador mais antigo da casa, e a tratá-lo como um adulto sensível e inteligente. Era um dos maiores mistérios do mundo, refletiu Chris, como era possível que alguém que fizesse todas as coisas certas pudesse ser tão irritante.
Contudo, Mike não era importante. A única coisa importante era Jenny e o fato de que Chris ia vê-la na noite seguinte.
Parte do equipamento de iluminação de Barry Miller estava alugada para um grupo de teatro que encenava Romeu e Julieta nos jardins de uma das faculdades. Chris convidara Jenny para ir com ele e ela aceitara. Chris tinha comprado as entradas e tomado banho, se barbeado e se vestido com suas roupas esportes mais elegantes, e quando afinal parou diante da bilheteria da faculdade, onde tinham combinado de se encontrar, estava trêmulo de nervosismo.
Ele não fazia idéia do motivo, exceto de que aquele era uma espécie de compromisso para um programa formal, algo que ele nunca tinha feito antes. Mas, quando ela dobrou a esquina na rua estreita medieval, com uma aparência tão fresca, doce e compreensiva, o coração dele quase explodiu de orgulho e de amor, e ele descobriu suas mãos se estendendo para ela como se por vontade própria, quase. As mãos dela responderam. Eles ficaram parados tolamente por um ou dois segundos, sorrindo um para o outro, e ele pensou: Esta é a primeira vez que nos tocamos.
O palco era um tablado de madeira montado debaixo das árvores, com as cadeiras dispostas em fileiras sobre arquibancadas montadas ao seu redor. Eles sentaram bem no alto e assistiram ao desenrolar da história, um pequeno retalho de luz trágica em meio à escuridão que crescia. Chris mal acompanhou a peça. Toda a sua atenção estava concentrada em Jenny, na mão dela na sua, na curva delicada de seu pescoço, no aroma fresco de seu perfume, que lembrava flores de frésia, o mesmo que havia sentido no vestido de baile no abrigo para barcos.
Durante o intervalo, ela comentou:
— Eu nunca vi uma peça de Shakespeare antes. Fazíamos teatro na escola mas eu nunca prestava atenção. Era tudo misturado com Amor sublime amor e tínhamos que criar nossa própria versão moderna, com punks e coisas desse tipo. Não sabia que podia ser assim.
— Você não gosta?
— É maravilhosa!
No fim da peça, ela chorou. Pelo menos, limpou os olhos com as costas das mãos e fungou. Chris descobriu que ficou mais emocionado com isso do que com a própria peça.
Na saída, eles caminharam pelo jardim iluminado por lampiões, de mãos dadas, e uma expectativa tensa parecia pairar no ar, como frutos maduros nas árvores que os cercavam por toda parte.
Do lado de fora do jardim, na ruazinha estreita, pavimentada de pedras, com o muro alto do jardim de um lado e o prédio de uma faculdade como grande e velho rochedo do outro, ela disse:
— Eu estava me perguntando...
— Sim?
— Eu estava me perguntando se algum dia você, afinal, iria conseguir me beijar.
Ele deixou cair a bicicleta e a tomou nos braços. Chris havia esperado calor e suavidade em seu corpo, mas nunca a esse ponto, e nunca combinados com uma força flexível e sinuosa que parecia tremular como uma chama em seus braços.
Atordoado com aquilo, ele nem se deu conta de quanto tempo havia se passado quando afinal se afastaram. Eles estavam parados a uma pequena distância de um velho lampião de rua montado sobre o muro da faculdade, e o rosto dela, meio sombreado, parecia forte e misterioso, como uma escultura asteca.
— Eu não compreendo você — disse ela.
— Por quê? O que está querendo dizer?
— Quero dizer que você evidentemente quer, mas que você recua. Não há nenhum motivo para ter medo.
— Não. É difícil de explicar. Eu acho que é —
— Não explique. Você não precisa explicar.
— Mas você disse que não compreendia, de modo que eu ia —
— Eu não quero compreender, não necessariamente. Acho que você é estranho; mas não me incomodo com o fato de ser estranho, não é nada que quero que mude ou coisa assim. Gosto de você como você é.
— Gosta mesmo?
— Acabei de dizer que sim.
— Eu amo você, Jenny.
Pronto, ele tinha dito. Não tivera a intenção de dizer, mas agora estava feito.
Subitamente, com uma pequena convulsão que pareceu um soluço, ela o estava beijando de novo. Os lábios dela estavam abertos e úmidos, eram como orvalho doce, Chris estava bebendo a essência dela e aquilo o estava deixando inebriado de encantamento.
— Escute — sussurrou ele quando finalmente eles pararam de se beijar. — Meu pai tem uma casa em Rose Hill, sabe, e ele vai passar o fim de semana fora e me pediu para ficar lá e cuidar do gato dele.
— Certo e...
— Você gostaria de vir e ficar comigo?
— Quando?
— Na sexta-feira à noite. E no sábado.
— OK.
Mais tarde, na cama, ele vasculhou exaustivamente a memória, depois de tê-la levado em casa e eles terem dividido uma pizza e uma cerveja, que era apenas o que o dinheiro que tinham dava para pagar, na cozinha da casa de Jenny, com uma garota chamada Marje. Jenny não quis deixar que ele fosse ao quarto dela, mas havia prometido ir à casa do pai dele; tinha certeza de que ela havia prometido. Chris repassou em sua mente os beijos que haviam trocado e as palavras dela, uma vez após a outra. Ele tinha certeza de que havia compreendido direito.
Quando chegou a sexta-feira, e Chris estava sentado na sala estreita de Rose Hill, sua certeza começou a se apagar. O gatinho de quem viera cuidar estava enroscado dormindo no sofá, e o sol que se punha lançava uma luz cálida sobre a lareira vitoriana revestida de cerâmica, as prateleiras de livros ao lado dela, as revistas de arquitetura e livros de arte bem arrumados de seu pai, o maltratado mas bonito tapete persa. Chris ficou sentado em silêncio, sentindo a casa vazia ao seu redor, toda preparada para ela. Havia comida na cozinha: uma quiche gelada e uma salada, deixadas prontas e postas na mesa por Diane. Havia música; seu pai não era homem de viver sem seus cassetes e seus CDs: Wagner, Mahler, Bruckner, Strauss.
A casa inteira era deles... Chris começou a tremer. Ele havia compreendido mal. Ela não dissera que viria. Ela não viria; não tinha nenhuma intenção de vir. Tinha rido quando ele dissera que a amava e ele havia apagado aquilo da memória. Nunca tinha comido pizza e bebido cerveja na cozinha da casa de Jenny; sonhara toda aquela história. Ela agora estava lá, com Derek e Ollie, rindo dele. Chris imaginou todo tipo de humilhações, enquanto permanecia sentado ali na salinha bem arrumada e o entardecer se apagava e a escuridão da noite tornava-se mais densa no jardim.
Quando escureceu completamente, ele levantou-se devagar, sentindo a tensão em seus músculos. O gatinho ergueu o olhar para ele, por um rápido instante, e miou antes de tornar a adormecer imediatamente. Chris estendeu a mão para o interruptor de luz e, quando o abajur se acendeu, seu reflexo surgiu de um salto na vidraça da porta-janela, parecendo aprisionado e desolado.
Pensando na possibilidade de que ela tivesse se enganado com o número da casa e estivesse andando para baixo e para cima, pela estrada, procurando qual seria a mais provável, ele saiu pela porta da frente e postou-se no minúsculo jardim. Não havia ninguém à vista. Casinhas de tijolos idênticas se estendiam para a direita e para a esquerda dos dois lados da estradinha. As luzes estavam acesas atrás de janelas cortinadas, as lâmpadas dos postes refletiam-se nas capotas dos carros estacionados ou iluminavam o verde-claro das bases das copas das árvores altas na calçada, sem mostrar ninguém.
Ele podia ouvir o tráfego da estrada principal um quarteirão mais acima, depois da curva, e música que vinha da janela aberta de alguém do outro lado da rua, e gargalhadas de um jardim nos fundos. Acompanhando a fragrância intensa que as flores de perfume noturno dos goiveiros da casa ao lado exalavam, havia um ligeiro vestígio de fumaça de carvão no ar e o cheiro de carne sendo grelhada.
Andou bem devagar até o meio da estradinha, desceu até o fim, depois fez meia-volta e refez o mesmo caminho, passando pela casa até a outra ponta. Nenhum carro entrou na rua, nenhuma estrela caiu do céu e nem uma garota apareceu na esquina.
Chris sentiu uma dor física no peito. Estava a ponto de chorar de tanto que queria vê-la. Sabia exatamente, quase que quantos metros, a que distância a casa dela ficava da dele. Sentiu uma corda invisível unindo os dois, estendendo-se muito tensa através da noite de seu coração até o dela. Ele a imaginou em casa, como estaria agora: um quarto com as luzes acesas no andar de cima, o quarto de Jenny, que ela o proibira de ver; o quarto dela, cheio de seu perfume, com as suas roupas jogadas sobre o encosto de uma cadeira, seus sapatos, o pequeno rádio que sussurrava para ela durante a noite, o pequeno espelho que olhava para ela, o abajur na mesinha-de-cabeceira que lhe iluminava a pele sedosa e morena...
Foi dominado pelo desejo de ir até lá naquele instante. Ele podia visualizar cada passo do caminho. Apenas ficaria parado do lado de fora, para ver se a luz do quarto dela estava acesa, para saber onde ela estava; isso seria o suficiente — ele se contentaria com isso.
E simultaneamente pensou em como estava sendo tolo. Não saberia qual das janelas na casinha era a dela. Poderia estar olhando apaixonado para a janela de Derek ou de Ollie. Ou então, a caminho de lá, poderia se desencontrar dela, enquanto estivesse vindo para Rose Hill por um caminho diferente. Então ela chegaria aqui, encontraria a casa vazia e iria embora de novo. Não! Ele teria de se manter confiante e esperar.
Foi caminhando de volta bem devagar, traçando as letras do nome dela em cada pedra de pavimentação, em cada poste de portão, fazendo com que a rua inteira se tornasse dela.
Depois de um último olhar ao redor, ele tornou a entrar. Na mesa da cozinha, havia posto dois pratos, duas facas e garfos, dois copos. Como aquilo tudo parecia patético. Tirou o prato dela e então se deu conta de que não estava com fome, e guardou tudo.
Na sala, tranqüila e silenciosa sob a luz do abajur, o gatinho acordara e estava procurando alguma coisa com que brincar. Chris o pegou no colo. Era tão pequenino e leve que parecia quase não estar lá, mas era cheio de vida e energia, golpeando as mãos dele com uma patinha de unhas como agulhas macias, saltando para o lado para se libertar da mão dele e sair correndo, apenas para voltar andando pomposamente, rolar de barriga para cima, patear e sibilar contra ameaças imaginárias.
— Você não precisa de ninguém, não é, Coisa? — disse para o gato. — Você tem tudo o que quer. Tem as coisas todas e todo mundo organizado... eles lhe trazem comida, brincam com você e limpam a sujeira que você deixa, e você nem toma conhecimento disso, não é? E você também nem se importa. Seu pilantrinha de sorte. Se eu falasse com você sobre Jenny, você nem acharia graça. Não saberia de que eu estava falando. Só porque eu a vi naquele baile com seu vestido longo, debaixo das árvores... Estou perdido, eu não sei o que fazer...
O gatinho não lhe deu atenção. De repente, depois de atacar com violência o tapete persa por ter tido a ousadia de prender suas pequenas garras, ele se deitou e imediatamente adormeceu. Chris o acariciou com delicadeza e depois foi para a cama.
Capítulo Seis
Ele acordou cedo na cama estranha e ficou deitado por algum tempo sob a luz cálida, amarela, que passava através das cortinas, fazendo de conta que tinha perdido a memória e que não sabia quem era. Contudo, aquilo não adiantou; não conseguia esquecê-la por muito tempo nem ignorar como se sentia humilhado.
Às oito horas levantou-se, de coração pesaroso e triste, vestiu um calção e uma camiseta e desceu para dar o leite à Coisa e preparar seu café da manhã. Levou uma tigela de flocos de milho para o jardim, onde já fazia calor, e sentou-se no último degrau para comê-los.
Acabara de entrar para pôr a chaleira no fogo quando a campainha tocou. Imediatamente seu coração começou a bater disparado, mas era apenas o carteiro com um embrulho que era grande demais para ser posto na caixa de correspondência. Chris voltou para a cozinha e fez chá, perguntando a si mesmo o que iria fazer durante o resto do dia; e então a campainha tocou pela segunda vez.
Dessa vez era Jenny.
Estava parada no degrau da entrada, meio tímida, meio desafiadora, e disse:
— Acabou que não pude vir ontem à noite. Queria ter telefonado, mas...
— Eu acabei de fazer um chá — disse ele.
Chris se afastou para o lado. No momento em que ia passar por ele no vão da porta, ela hesitou e então, nas pontas dos pés, chegou perto dele e o beijou dasajeitadamente, antes de entrar. E pronto, aconteceu de novo — o coração de Chris se derreteu mais uma vez.
Eles estavam ambos tímidos um com o outro. Chris serviu o chá para os dois, então sentaram-se no degrau, observando a Coisa correndo atrás de uma borboleta.
— Pensei que você não fosse vir — comentou ele.
— Eu disse que viria. Você deveria acreditar nas pessoas quando elas lhe dizem as coisas.
— Eu acredito. Acredito em tudo.
Ela bebericou o chá, segurando a caneca com as duas mãos. A luz clara do sol revelava uma textura fina, aveludada, em sua pele que era como a de uma ameixa: o mais delicado sombreado que se pudesse imaginar, leve como uma poeira muito fina sobre o moreno rosado que recobria. Ela pareceu gostar de sentir o olhar dele; virou-se e sorriu.
— Afinal, de quem é esta casa? — perguntou Jenny.
— Do meu pai. Ele mora aqui com a namorada. Eles foram para Paris, passar o fim de semana.
— O que ele faz, o seu pai?
— É arquiteto. Ela, a namorada dele, Diane, é sua secretária. Ou era. Ele acha que ela tem talento para a arquitetura, de modo que Diane vai fazer um curso na universidade.
— Talvez ela tenha mesmo.
— Bem... pois é, talvez tenha mesmo.
— Houve uma grande briga? Quando eles se separaram, ele e sua mãe? Foi muito sofrido?
— Não houve nenhuma cena, nada disso. Foi tudo muito civilizado, como se diria. Sabe como é, aquelas conversas tipo, nós somos maduros demais para nos comportarmos de uma maneira vulgar e atirar coisas pelos ares, céus, vamos agir com sofisticação... Mas na verdade acho que mamãe ficou arrasada. Ela passava o dia inteiro fechada no quarto e enchendo a cara. Eu fazia todas as compras, cozinhava e tudo o mais. Então, um dia, ela conheceu esse sujeito, ele agora está morando conosco, e então tornou a ficar bem. Começou a me tratar como se eu fosse um garotinho de novo, apesar de eu ter cuidado dela durante todo aquele tempo.
— Você não fala como se gostasse muito dela.
— Gostar dela? Ah, claro que gosto, ela é boa gente, é legal. Mas ele, francamente, eu não suporto.
— Seu pai?
— Não! O namorado dela. Ele é todo esquisito e fresco, sabe como é. Ele quer que todo mundo goste dele, então se esforça demais para agradar. Meu pai não é nem um pouco assim. Está pouco se lixando. Ou pelo menos, finge que não se importa, mas sei que se interessa por arte, arquitetura e música, e coisas desse tipo. Você não imaginaria isso, se visse como ele é. Ele é gordo e calvo, parece uma pessoa muito relaxada e preguiçosa, mas na verdade é um homem muito estudioso, sabe uma montanha de coisas e realmente também sabe apreciar, dá valor e se interessa por certas coisas. Não para impressionar as pessoas, mas se interessa pela verdade, pela honestidade e por fazer bem as coisas.
— Você ama seu pai?
— Sim, amo. Amo sim.
— E a namorada dele?
— Diane? Ah, ela é realmente muito moça; é loura e bonitinha e... tudo bem, acho que pode até ser que ela tenha talento para a arquitetura, mas essa não é a primeira coisa em que você pensaria. Sabe, você vê Diane e papai juntos, e de alguma maneira sinceramente não pensa que eles passem muito tempo discutindo arquitetura.
— Você tem irmãos ou irmãs?
— Não. E você?
— Não. Graças a Deus. — Então ela colocou a caneca no degrau, levantou a cabeça para olhá-lo e disse: — Vamos entrar.