A Doença da Morte
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Você deveria não conhecê-la, tê-la encontrado em todos os lugares ao mesmo tempo, num hotel, numa rua, num trem, num bar, num livro, num filme, em você mesmo, em você, em ti, no acaso do teu sexo erguido na noite que clama por onde se pôr, por onde se desembaraçar dos choros que o impregnam.
Você poderia tê-la pago.
Você teria dito: Será preciso
vir cada noite durante vários dias.
Ela o teria olhado longamente, e depois ela lhe teria dito que nesse caso era caro.
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Depois ela pergunta: Você quer o quê?
Você diz que você quer experimentar, tentar a coisa, tentar conhecer isso, habituar-se com isso, com esse corpo, com esses seios, com esse perfume, com a beleza, com esse perigo que esse corpo representa de colocar no mundo crianças, com essa forma imberbe sem acidentes musculares nem força, com esse rosto, com essa pele nua, com essa coincidência entre essa pele e a vida que ela encobre.
Você diz a ela que você quer ex-
perimentar, experimentar vários dias talvez.
Talvez várias semanas.
Talvez inclusive durante toda a sua vida.
Ela pergunta: Experimentar o quê?
Você diz: Amar.
Ela pergunta: Por que ainda?
Você diz que para dormir sobre o sexo distendido, ali onde você não conhece.
Você diz que você quer experimentar, chorar ali, nesse lugar ali do mundo.
Ela sorri, ela pergunta: Você quer também a mim?
Você diz: Sim. Eu não conheço ainda, eu queria penetrar também
ali. E o tão violentamente quanto costumo. Dizem que isso resiste ainda mais, que é um veludo que resiste mais ainda que o vazio.
Ela diz que não tem opinião, que não poderia saber.
Ela pergunta: Quais seriam as outras condições?
Você diz que ela deverá se calar como as mulheres dos seus ancestrais, se curvar completamente a você, ao seu querer, ser-lhe completamente submissa como as camponesas nas granjas após as colheitas, quando exaustas deixam vir a elas os homens, dormindo — isso para que você possa se habituar pouco a pouco com essa forma que desposará a sua, que es-
tará à sua mercê como as mulheres de religião estão para Deus — isso também, para que pouco a pouco, com o dia crescente, você tenha menos medo de não saber onde colocar o seu corpo nem qual vazio amar.
Ela o olha. E depois ela não o olha mais, olha além. Depois ela responde.
Diz que nesse caso é ainda mais caro. Ela diz a quantia do pagamento.
Você aceita.
Cada dia ela viria. Cada dia ela vem.
No primeiro dia ela se põe nua e se estira no lugar que você lhe apontou na cama.
Você a olha adormecer. Ela se cala. Ela adormece. Toda a noite você a olha.
Ela chegaria com a noite. Ela chega com a noite.
Toda a noite você a olha. Durante duas noites você a olha.
Durante duas noites ela não fala quase.
Depois, de noitinha ela começa. Ela fala.
Ela pergunta se lhe é útil para tornar o seu corpo menos só. Você diz que não sabe compreender bem esta palavra quando ela designa o seu estado. Que você confunde acreditar estar só e pelo
contrário vir a estar só, você acrescenta: Como com você.
E depois mais uma vez no meio da noite ela pergunta: Que época é do ano este momento?
Você diz: Antes do inverno, ainda no outono.
Ela pergunta também: O que é que ouvimos?
Você diz: O mar.
Ela pergunta: Onde ele está?
Você diz: Ali, atrás da parede do quarto.
Ela adormece novamente.
Jovem, ela seria jovem. Em suas roupas, em seus cabelos, haveria um odor que estagnaria, você procuraria qual, e acabaria por
dar-lhe o nome como você tem o saber para fazê-lo. Você diria: Um odor de heliotrópio e de citrina. Ela responde: É como você quiser.
Numa outra noite você o faz, como previsto, você dorme com o rosto no alto das pernas dela afastadas, contra o sexo dela, já na umidade do corpo dela, ali onde ela se abre. Ela o deixa fazer.
Numa outra noite, por distração, você dá a ela prazer e ela grita.
Você lhe diz para não gritar. Ela diz que não gritará mais.
Ela não grita mais.
Nenhuma nunca mais gritará por você de agora em diante.
Talvez você tire dela um prazer até então desconhecido para você, eu não sei. Não sei também se você percebe o ronco surdo e longínquo do prazer através da respiração dela, através desse estertor suavíssimo que vai e volta da boca até o ar exterior. Não acredito.
Ela abre os olhos, ela diz: Que felicidade.
Você coloca-lhe a mão na boca para que ela se cale, você lhe diz que não se diz coisas assim.
Ela fecha os olhos.
Ela diz que não mais o dirá.
Ela pergunta se eles falam disso. Você diz que não.
Ela pergunta do que eles falam. Você diz que eles falam de todo o resto, que falam de tudo, menos disso.
Ela ri, e adormece novamente.
Algumas vezes você anda no quarto em volta da cama ou ao longo das paredes do lado do mar.
Algumas vezes você chora.
Algumas vezes você sai na varanda com o frio nascente.
Você não sabe o que contém o sono daquela que está na cama.
Deste corpo você queria partir, você queria vir de volta ao corpo dos outros, o seu, vir de volta para
você mesmo e, ao mesmo tempo, é por dever fazê-lo que você chora.
*
Ela, no quarto, dorme. Ela dorme. Você não a acorda. A desgraça cresce no quarto ao mesmo tempo que se espalha o sono dela. Uma vez você dorme no chão ao pé da cama.
Ela se mantém sempre num sono igual. Por dormir tão bem ela chega a sorrir. Ela só acorda quando você toca o corpo, os seios, os olhos. Acontece também dela acordar sem razão, para perguntar se é o barulho do vento ou o da maré alta.
Ela acorda. Ela o olha. Ela diz: A doença ganha-o cada vez mais, ganhou os seus olhos, a sua voz.
Você pergunta: Qual doença? Ela diz que não sabe ainda dizer qual.
Noite após noite você se introduz na obscuridade do seu sexo, você toma sem quase sabê-lo esse caminho cego. Às vezes você fica ali, você dorme ali, dentro dela, a noite inteira, para estar pronto se por acaso, graças a algum movimento involuntário da parte dela ou da sua, a vontade lhe viesse de tomá-la mais uma vez, de enchê-la
ainda e de daí gozar somente de gozo como sempre cego pelas lágrimas.
Ela estaria sempre pronta, con-
*
sentindo ou não. E neste ponto preciso que você nunca saberá nada. Ela é mais misteriosa que todas as evidências externas conhecidas até ali por você.
Você nunca saberá também, nem você nem ninguém, nunca, sobre como ela vê, sobre como ela pensa o mundo e você, o seu corpo e o seu espírito, e essa doença pela qual ela diz que você está tomado. Ela mesma não sabe. Ela não saberia dizê-lo a você, você
não poderia nada descobrir sobre isso com ela.
Jamais você saberá, nada, nem você nem ninguém, do que ela pensa de você, desta história. Qualquer que seja o número de séculos que encubra o esquecimento das suas existências, ninguém o saberá. Ela, ela não sabe sabê-lo.
Porque você não sabe nada dela você diria que ela não sabe nada de você. Você permaneceria aí.
Ela seria grande. O corpo seria longo, feito numa só forma, de uma só vez, como pelo próprio Deus, com a perfeição indelével do acidente pessoal.
Ela não se pareceria efetivamente com ninguém.
O corpo é sem defesa alguma, é liso desde o rosto até os pés. Ele chama o estrangulamento, a violação, os maus tratos, os insultos, os gritos de ódio, a descarga de paixões inteiras, mortais.
Você a olha.
Ela é muito magra, quase grácil, suas pernas são duma beleza que não participa à do corpo. Elas não têm uma implantação verdadeira no restante do corpo.
Você lhe diz: Você deve ser belíssima.
Ela diz: Eu estou aqui, olhe, estou em sua frente.
Você diz: Não vejo nada.
Ela diz: Tente ver, está incluído no preço que você pagou.
Você pega o corpo, você olha os seus diferentes espaços, você o revira, revira-o ainda, você o olha, olha-o ainda.
Você abandona.
Você abandona. Você pára de tocar o corpo.
Até esta noite você não tinha compreendido como se podia ignorar o que vêem os olhos, o que tocam as mãos, o que toca o corpo. Você descobre esta ignorância.
Você diz: Não vejo nada.
Você pergunta como ela sabe. Ela diz que ela sabe. Ela diz que a gente sabe sem saber como a gente sabe.
Você lhe pergunta: Em que a doença da morte é mortal? Ela responde: No fato de que aquele que está tomado não sabe que a tem em si, a morte. E no fato também de que ele morreria sem vida prévia à qual morrer, sem conhecimento nenhum de morrer em qualquer vida.
Os olhos estão fechados sempre. Dir-se-ia que ela se repousa de uma fadiga imemorial. Enquanto ela dorme você esqueceu a cor dos seus olhos, do mesmo modo que o
Ela não responde. Ela dorme.
Você a acorda. Você lhe pergunta se ela é uma prostituta. Ela faz sinal que não.
Você lhe pergunta porque ela aceitou o contrato das noites pagas.
Ela responde com uma voz ainda adormecida, quase inaudível: Porque desde que você me falou eu vi que estava tomado pela doença da morte. Durante os primeiros dias eu não soube como chamar essa doença. E depois em seguida eu pude.
Você pede que ela repita ainda as palavras. Ela o faz, ela repete as palavras: A doença da morte.
nome que você lhe deu na primeira noite. Depois você descobre que não é a cor dos olhos que seria para sempre a fronteira intransponível entre ela e-você. Não, não a cor, você sabe que esta cairia entre o verde e o cinza, não, não a cor, não, o olhar.
O olhar.
Você descobre que ela o olha.
Você grita. Ela se vira para a parede.
Ela diz: Isso vai ser o fim, não tenha medo.
Com um só braço você ergue-a de encontro a você tanto ela é leve. Você olha.
Curiosamente os seios são marrons, suas aréolas, quase negras. Você os come, você os bebe e nada nesse corpo se agita, ela o deixa fazer, ela deixa. Talvez num dado momento você grita ainda. Uma outra vez você lhe diz para pronunciar uma palavra, uma única, aquela que diz o seu nome, você lhe diz esta palavra, este nome. Ela não responde, então você grita ainda. E é então que ela sorri. E é então que você sabe que ela está viva.
O sorriso desaparece. Ela não disse o nome.
Você olha ainda. O rosto está largado ao sono, está mudo, ele dorme como as mãos. Mas sempre o espirito aflora à superfície do
corpo, percorre-o inteiro, e de tal forma que cada uma das partes deste corpo testemunha por si só a sua totalidade, a mão como os olhos, a convexidade do ventre como o rosto, os seios como o sexo, as pernas como os braços, a respiração, o coração, as têmporas, às têmporas como o tempo.
Você volta para a varanda frente ao mar negro.
Há em você lágrimas que você não sabe o porquê. São retidas à beira de você como exteriores a você, elas não podem alcançá-lo para poderem ser choradas por você. Frente ao mar negro, contra a parede do quarto em que ela dorme, você chora por você mes-
mo como um desconhecido o faria.
Você entra no quarto. Ela dorme. Você não compreende. Ela dorme, nua, no lugar dela na cama. Você não compreende como é possível que ela ignore suas lágrimas, que ela seja por ela mesma protegida de você, que ela ignore a este ponto atravancar o mundo inteiro.
Você se estende ao lado dela. Sempre por você mesmo você chora.
Depois é quase a aurora. Depois faz-se no quarto uma sombria claridade de cor indecisa. Depois você acende as lâmpadas para vê-la.
Para ver a ela. Para ver o que você jamais conheceu, o sexo enterrado, ver aquilo que engolfa e retém sem parecer fazê-lo, vê-lo assim fechado em seu sono, dormindo. Para ver também as sardas espalhadas nela desde a orla dos cabelos até onde nascem os seios, ali onde eles cedem sob seu próprio peso, suspensos às dobras dos braços, até também as pálpebras cerradas e os lábios entreabertos e pálidos. Você se diz: nos lugares do sol de verão, nos lugares abertos, oferecidos para serem vistos.
Ela dorme.
Você apaga as luzes.
Está quase claro.
Ainda, é quase a aurora. São horas tão vastas quanto espaços de céu. É demais, o tempo não encontra mais por onde passar. O tempo não passa mais. Você se diz que ela deveria morrer. Você se diz que se agora a esta hora da noite ela morresse, seria mais fácil, você quer sem dúvida dizer: para você, mas você não termina sua frase.
Você escuta o barulho do mar que começa a subir. Essa estranha está ali na cama, no lugar dela, na poça branca dos lençóis brancos. Essa brancura torna sua forma mais sombria, mais evidente do que seria uma evidência animal
bruscamente deixada pela vida, do que seria a da morte.
Você olha essa forma, você descobre ao mesmo tempo o seu poderio infernal, a abominável fragilidade, a fraqueza, a força invencível da fraqueza sem igual.
Você deixa o quarto, você volta para a varanda frente ao mar, longe do odor dela.
Cai uma chuva fina, o mar está ainda negro sob o céu descolorido de luz. Você ouve o seu barulho. A água negra continua a subir, se reaproxima. Move-se. Não pára de se mover. Compridas vagas brancas atravessam-na, uma onda comprida que cai no estrondo de
brancura. O mar negro está forte. Há uma tempestade ao longe, é freqiiente, na noite. Você permanece muito tempo a olhar.
A idéia lhe vem de que o mar negro se move no lugar de outra coisa, de você e daquela forma sombria na cama.
Você termina sua frase. Você se diz que se agora a esta hora da noite ela morresse seria para você mais fácil fazê-la desaparecer da face do mundo, jogá-la na água negra, que seriam necessários alguns minutos para jogar um corpo desse peso no mar montante a fim de que a cama fique livre desse fedor de heliotrópio e de citrina.
Você volta ainda ao quarto. Ela está ali, dormindo, em suas próprias trevas abandonada, em sua magnificência.
Você descobre que ela é construída de tal maneira que a todo momento, parece, segundo apenas o desejo dela, o corpo poderia parar de viver, se espalhar em volta dela, desaparecer de diante os seus olhos, e que é nessa ameaça que ela dorme, que ela se expõe a ser vista por você. Que é no perigo que ela corre, já que o mar está tão próximo, deserto, tão negro ainda, que ela dorme.
Em volta do corpo, o quarto. Seria o seu quarto pessoal. Estaria habitado por ela, uma mulher.
Você nào reconhece mais o quarto. Ele está esvaziado de vida, está sem você, está sem o seu semelhante. Somente o ocupa essa moldagem leve e longa da forma estrangeira na cama.
Ela se movimenta, os olhos se entreabrem. Ela pergunta: Quantas noites pagas ainda? Você diz:
np A
1res.
Ela pergunta: Você jamais
amou uma mulher? Você diz que nào, jamais.
Ela pergunta: Você jamais desejou uma mulher? Você diz que não, jamais.
Ela pergunta: Nem uma única vez, nem um instante? Você diz que nào, jamais.
Ela diz: Jamais? Jamais? Você repete: Jamais.
Ela sorri, ela diz: É estranho um morto.
Ela recomeça: E olhar uma mulher, você jamais olhou uma mulher? Você diz que não, jamais.
Ela pergunta: Você olha o quê? Você diz: Todo o resto.
Ela se estende, ela se cala. Ela sorri, ela novamente adormece.
Você volta ao quarto. Ela não se mexeu na poça branca dos lençóis. Você olha aquela que você não tinha nunca abordado, nunca, nem através suas semelhantes nem através ela mesma.
Você olha a forma suspeita há séculos. Você abandona.
Você não olha mais. Você não olha mais nada. Você fecha os olhos para se reencontrar na sua diferença, na sua morte.
Quando você abre os olhos, ela está ali, sempre, ela está ainda ali.
Você volta para o corpo estrangeiro. Ele dorme.
Você olha para a doença da sua vida, a doença da morte. E nela, no corpo dela adormecido, que você a olha. Você olha os lugares do corpo, você olha o rosto, os seios, o lugar confundido do sexo dela.
Você olha o local do coração.
Você acha a batida diferente, mais distante, a palavra lhe vem: mais estranha. Ela é regular, parece que não deveria nunca parar. Você aproxima o seu corpo contra o objeto do corpo dela. Ele é morno, fresco. Ela vive ainda. Ela clama pelo assassínio enquanto no entanto vive. Você se pergunta como matá-la e quem a matará. Você não ama nada, ninguém, inclusive essa diferença que você acredita viver, você não ama. Você não conhece senão a graça do corpo dos mortos, a dos seus semelhantes. De um só golpe a diferença lhe aparece entre essa graça do corpo dos mortos e esta aqui presente, feita de fraqueza última, que com
um gesto se poderia esmagar, essa realeza.
Você descobre que ali, nela, se fomenta a doença da morte, que é essa forma diante de você desdobrada que decreta a doença da morte.
Da boca entreaberta uma respiração sai, volta, se retira, volta ainda. A máquina de carne é prodigiosamente exata. Debruçado sobre ela, imóvel, você a olha. Você sabe que poderia dispor dela da maneira que quisesse, a mais perigosa. Você não o faz. Pelo contrário você acaricia o corpo com tanta meiguice que ela corre-
ria o perigo da felicidade. Sua mão está no alto do sexo, entre os lábios que se fendem, é ali que ela acaricia. Você olha a fenda dos lábios e o que a envolve, o corpo inteiro. Você não vê nada.
Você gostaria de tudo ver de uma mulher, tanto quanto se possa. Você não vê que isto lhe é impossível .
Você olha a forma fechada.
Você vê primeiro as ligeiras vibrações se inscreverem na pele, como justamente as do sofrimento. E depois em seguida as pálpebras tremerem exatamente como se os olhos quisessem ver. E depois em seguida a boca se abrir como se a boca quisesse dizer. E depois em seguida você percebe que sob suas carícias os lábios do sexo
se incham e que do seu veludo sai uma água viscosa e quente como seria o sangue. Você torna então suas carícias mais rápidas. Você percebe que as coxas se afastam para deixar sua mão mais à vontade, para que você o faça melhor ainda.
E de uma só vez, num gemido, você vê o gozo chegar a ela, tomá-la inteira, levantá-la da cama. Você olha bem forte o que você acaba de efetuar nesse corpo. Você o vê em seguida cair de novo, inerte, na brancura da cama. Ele respira rápido com sobressaltos mais e mais espaçados. E depois os olhos se fecham ainda mais, e depois
eles se selam mais ainda ao rosto. E depois eles se abrem, e depois eles se fecham.
Eles se fecham.
Você tudo olhou.- Por sua vez afinal você fecha os olhos. Você fica assim por muito tempo com os olhos fechados, como ela.
Você pensa no lado de fora do seu quarto, nas ruas da cidade, nessas pequenas praças afastadas do lado da estação. Nesses sábados de inverno semelhantes uns e outros.
E depois você escuta esse barulho que se reaproxima, você escuta o mar.
Você escuta o mar. Ele está muito perto das paredes do quarto. Através as janelas, sempre essa luz descolorida, essa lentidão do dia para ganhar o céu, sempre o mar negro, o corpo que dorme, a estranha no quarto.
E depois você o faz. Eu não saberia dizer por quê você o faz. Eu vejo-o fazer sem saber. Você poderia sair do quarto, partir do corpo, da forma adormecida. Mas não, você o faz, como aparentemente um outro o faria, com essa diferença integral, que o separa dela. Você o faz, você volta para o corpo.
Você recobre-o completamente com o seu, você puxa-o para você para não esmagá-lo com a sua for-
ça, para evitar de matá-lo, e de-pois em seguida você o faz, você volta ao alojamento noturno, você nele se abisma.
Você permanece ainda naquela morada. Você chora ainda. Você acredita saber você não sabe o quê, você não chega ao fim deste saber, você acredita ser à imagem da infelicidade do mundo, você sozinho, à imagem de um destino privilegiado. Você acredita ser o rei desse acontecimento em curso, você acredita que ele existe.
Ela dorme, com o sorriso nos lábios, a se matar.
Você fica ainda na morada do corpo dela.
Ela está plena de você enquanto no entanto dorme. As vibrações levemente gritadas que percorrem
esse corpo se fazem cada vez mais evidentes. Ela está numa felicidade sonhada de estar plena de um homem, de você, ou de um outro, ou de um outro ainda.
Você chora.
O choro acorda-a. Ela olha para você. Ela olha para o quarto. E de novo ela olha para você. Ela acaricia a sua mão. Ela pergunta: Você chora por quê? Você diz que cabe a ela dizer porque você chora, que ela é que deveria sabê-lo.
Ela responde baixinho, meiga:
Porque você não ama. Você responde que é isto.
Ela pede que lhe diga claramen-
te. Você lhe diz: Eu não amo.
Ela diz: Jamais?
Você diz: Jamais.
Ela diz: A vontade de estar prestes a matar um amante, guardá-lo para si, para si apenas, tomá-lo, roubá-lo contra todas as leis, contra todos os impérios da moral, você não conhece-a nunca, jamais conheceu-a?
Você diz: Jamais.
*
Ela olha para você, ela repete: E estranho um morto.
Ela pergunta se você viu o mar, ela pergunta se o dia nasceu, se está claro.
Você diz que o dia se levanta.
mas que nessa época do ano ele é muito lento para invadir o espaço que ele clareia.
Ela lhe pergunta a cor do mar.
Você diz: Negra.
Ela responde que o mar não é nunca negro, que você deve se enganar.
Você pergunta se ela acha que se possa amá-lo.
Ela diz que em hipótese nenhuma se pode. Você pergunta: Por causa da morte? Ela diz: Sim, por causa dessa insipidez, dessa imobilidade do seu sentimento, por causa dessa mentira de dizer que o mar é negro.
Depois ela se cala.
Você teme que ela readormeça, você acorda-a, você lhe diz: Fala ainda. Ela lhe diz: Então faça-me perguntas, por mim mesma eu não posso. De novo você lhe pergunta se se pode amá-lo.
Ela diz ainda: Não.
Ela diz que num momento antes você teve vontade de matá-la quando voltou da varanda e que entrou pela segunda vez no quarto, que ela compreendeu-o no sono pelo seu olhar para ela. Ela lhe pede para dizer porquê.
Você lhe diz que não pode saber o porquê, que não tem o entendimento da sua doença.
Ela sorri, ela diz que é a primeira vez, que ela não sabia antes de encontrá-lo que a morte podia ser vivida.
Ela o olha através do verde filtrado das suas pupilas. Ela diz: Você anuncia o reino da morte. Não se pode amar a morte se ela lhe for imposta de fora. Você pensa chorar por não amar. Você chora por não impôr a morte.
Ela já está no sono. Ela lhe diz de modo quase ininteligível: Você vai morrer de morte. Sua morte já começou.
Você chora. Ela diz: Não chore.
não vale a pena, abandone esse hábito de chorar por si mesmo, não vale a pena.
Imperceptivelmente o quarto se ilumina com uma luz solar, ainda sombria.
Ela abre os olhos, fecha-os de novo. Ela diz: Ainda duas noites pagas, isso vai acabar. Ela sorri e com a mão acaricia os seus olhos. Ela zomba dormindo.
Você continua a falar, só no mundo como você deseja. Você diz que o amor sempre lhe pareceu deslocado, que você nunca compreendeu, que você sempre evitou amar, que você sempre se quis li-
vre para não amar. Você diz que está perdido. Você diz que não sabe em quê, dentro de quê você está perdido.
Ela não escuta, ela dorme.
Você conta a história de uma criança.
O dia chegou nas janelas.
Ela abre os olhos, e diz: Não minta mais. Ela diz que ela espera nunca saber nada do modo como você sabe, nada no mundo. Ela diz: Eu não queria nunca saber nada do modo como você sabe, com essa certeza saída da morte, essa monotonia irremediável, igual a si mesma em cada dia da sua vida, em cada noite, com essa função mortal da falta de amar.
Ela diz: O dia chegou, tudo vai
começar, menos você. Você, você não começa nunca.
Ela readormece. Você lhe pergunta porque ela dorme, de qual fadiga ela precisa se repousar, monumental. Ela ergue a mão e de novo acaricia o seu rosto, a boca talvez. Ela zomba ainda dormindo. Ela diz: Você não pode compreender do momento em que coloca a pergunta. Ela diz que dessa forma ela se repousa também de você, da morte.
Você continua a história da criança, você grita-a. Você diz que não sabe toda a história da criança, de você. Você diz que ouviu contar essa história. Ela sorri, ela diz que ouviu-a e leu também mui-
tas vezes essa história, em todos os lugares, em muitos livros. Você pergunta como o sentimento de amar poderia sobrevir. Ela lhe responde: Talvez de uma falha súbita na lógica do universo. Ela diz: Por exemplo de um erro. Ela diz: Jamais de um querer. Você pergunta: O sentimento de amar poderia sobrevir de outras coisas ainda? Você lhe suplica dizer. Ela diz: De tudo, de um vôo de pássaro da noite, de um sono, de um sonho do sono, da proximidade da morte, de uma palavra, de um crime, de si, de si mesmo, súbito sem se saber como. Ela diz: Olhe. Ela abre as pernas e na concavidade das pernas afastadas você vê afi-
nal a noite negra. Você diz: Era ali, a noite negra, é ali.
Ela diz: Vem. Você vem. Entrado nela, você chora ainda. Ela diz: Não chore mais. Ela diz: Pegue-me para que isso tenha sido feito.
Você o faz, você pega.
Isso está feito.
Ela readormece.
Um dia ela não está mais ali. Você acorda e ela não está mais ali. Ela partiu na noite. A marca do corpo está ainda nos lençóis, ela está fria.
É a aurora hoje. Não ainda o sol, mas as bordas do céu estão já claras enquanto que do centro des-
se céu a obscuridade cai ainda sobre a terra, densa.
Não há mais nada no quarto além de você só. O corpo dela desapareceu. A diferença entre ela e você se confirma pela ausência súbita.
Ao longe, nas praias, gaivotas gritariam na escuridão que termina, elas começariam já a se nutrir dos bichos da vasa, a revistar as areias deixadas pela maré baixa. No escuro, o grito louco das gaivotas famintas. Parece-lhe repentinamente nunca tê-lo ouvido.
Ela não voltará nunca.
Na noite da partida, num bar, você conta a história. Primeiro vo-
cê conta como se fosse possível fazê-lo, e depois você abandona. Em seguida você conta rindo como se fosse impossível que ela tivesse acontecido ou como se fosse possível que você a tivesse inventado. No dia seguinte, de repente, você notaria talvez a arusência dela no quarto. No dia seguinte, talvez sentisse você um desejo de revê-la ali, na estranhice da sua solidão, no estado dela de desconhecida sua.
Talvez você a procurasse fora do seu quarto, nas praias, nas varandas, nas ruas. Mas você não
poderia encontrá-la porque na luz do dia você não reconhece ninguém. Você não a reconheceria. Você conhece dela apenas o corpo adormecido sob os olhos entreabertos ou fechados. A penetração dos corpos você não pode reconhecer, você jamais pode reconhecer. Você não poderá nunca.
Quando você chorou, era por você apenas e não pela admirável impossibilidade de alcançá-la através da diferença que os separa.
Da história inteira você retém apenas certas palavras que ela disse no sono, essas palavras que dizem aquilo por que você está tomado: Doença da morte.
Bem rápido você abandona, você não a procura mais, nem na cidade, nem na noite, nem no dia.
Assim no entanto você pôde viver esse amor da única maneira que se podia para você, perdendo-o antes que ele acontecesse.
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Você terminou A Doença da Morte
Marguerite Duras