A Fome de Camões

António Duarte Gomes Leal · Capítulo 2 de 4

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A Fome de Camões

Canto Terceiro

 

O Lençol do Genio

O conde Vimioso em seu solar

dá uma ceia a nobres e senhores;

Estalam as risadas pelo ar.

Pelos copos espumam os licores.

A Gula e a Carne ali gosam a par:

falla-se em caças, touros, e d'amores:

e riem d'entre as suas pedrarias

marquesas que hoje estão em galerias.

N'isto um extranho velho entra na salla,

hirto e solemne, como um quadro antigo; seu porte triste pelos peitos cala,

seu ar hostil é como d'inimigo.

Os risos param, emmudece a falla,

como ao ver um remorso, ou um castigo. Calam barões fallando de corseis,

e as damas com as mãos cheias d'anneis.

E o velho disse:--Extranho é meu pedido! Extranho sim! no meio d'uma festa:

mas venho por um morto protegido,

e este pedido os labios não me cresta!

Para um Genio de que hoje nada resta,

para um Genio da fome consummido,

um Genio infeliz! um apagado sol,

venho pedir a esmolla d'um lençol!

O lugubre pedido n'um momento

fez em todos roçar um calafrio:

figurou-se-lhes o gesto macilento

da morte, ao longe, em seu corcel sombrio: figurou-se-lhes a Febre, o Passamento,

e a Doença em seu catre humido e frio,

e as damas, os barões, e os cavalleiros

perderam os sorrisos zombeteiros.

Porém o Conde dominando o gelo

do terror que estragava a sua ceia,

e desmaiava o busto grego e bello

da mulher por quem todo se incendeia,

com um riso que tem do orgulho o sello

bradou ao velho cujo serio odeia:

Que genio é esse então, bom velho honrado, que comparais ao sol já apagado!?

Todos riram. Um riso irresistivel

omnipotente, intrepido, animal,

pela sala estallou, bronco e terrivel,

como um insulto e a folha d'um punhal,

O rude velho tragico, impassivel,

deixou passar aquelle vendaval,

depois n'um rir, de eronico respeito,

os longos braços encruzou no peito.

Zombai--o velho disse--altos senhores!

e magnificas damas scintillantes,

nas ricas pedrarias, plumas, flores,

mais brancas do que os vossos diamantes! Zombai ao pé dos vinhos, dos licores,

das baixellas lavradas, dos amantes,

d'esta cousa tão comica e sem nome...

d'um Genio pobre e que morreu de fome!

E o velho riu--Ah! de que serve, é certo,

um Genio infeliz? um portador, de lyra!?

de que serve dos Prantos no deserto

um instrumento que uns sons doces tira?! Um Genio é lava que importuna ao perto, e um grande craneo que o talento inspira, se com seu canto consolou as almas....

que coma o louro e as triumphantes palmas!...

Ah! que servem andar como pharoes,

como Moyzés a conduzir um povo,

alvoroçando as almas para os soes,

n'um canto heroico, original e novo?

Se com os prantos d'estes rouxinoes

que alvoroçam e turbam, me commovo,

talvez vos choque e ás almas verdadeiras, que não façam crescer as sementeiras!

E o velho riu. As glorias do Passado

dos heroes e dos feitos d'outra edade

nos castellos, no mar illimitado,

hoje fazem sorrir a mocidade!

As glorias d'avós só tem o lado

poetico de dar solemnidade

e grandes tons magnificos, imponentes,

nas sallas, entre as tellas de parentes!

Elle, o Genio, cantou esses combates

dos homens, e das forças do insondavel

da eterna Dôr, naufragios, e os embates

terriveis do que é fragil e mudavel!

Castigou com a satyra os dilates

do arbitrario, do injusto, e miseravel.

Foi poeta, philosopho, e guerreiro.

Só nunca conseguiu ser um toureiro!....

E o velho sorriu amargamente,

com um sorriso caustico, sombrio,

n'um riso superior em que se sente

uma alma forte que jámais falliu.

O Conde então, bradou-lhe secamente,

com um grande ar todo solemne e frio:

«Antes de tudo dir-me-has primeiro,

se és fidalgo, peão, ou cavalleiro!

«E narra-nos depois, meudamente,

a mim, aos cavalleiros e senhores,

e ás preciosas damas, que ao presente

t'escutam, piedosas sempre ás dôres:

narra-nos essa historia surprehente

d'esse genio infeliz, e esses horrores,

que trazes, como vejo, na lembrança,

com mais respeito que a dos pares de França.

De novo tudo riu. Toda a sonora

e ampla salla echoou com as risadas.

Viam-se rir as boccas côr d'aurora

das magnificas damas decotadas.

Duquezas louras, tranças côr d'amora,

com bellas mãos, macias, delicadas,

abafavam o riso em transparentes

lenços lacerados entre os dentes.

O velho ergueu-se em toda a magestade e bradou n'uma voz terrivel, dura,

que fez cessar de prompto a hilaridade,

pelo tom nunca ouvido de amargura:

--«Ah! infeliz, indigna Humanidade

mil vezes infeliz! se a Creatura

sempre se risse assim do que é sublime

ou quando o mundo se infamou n'um crime!

Ah! infeliz mil vezes! se o que é nobre

e o que é infame, ignobil, monstruoso,

sob o Azul sagrado que nos cobre

tivesse o mesmo aplauso victorioso!

Maldito e excomungado fosse o pobre!

e maldito o Destino criminoso!

por trabalhar ainda para o mundo

com um suor inutil e infecundo!

«Maldita fosse a Vida e o ardente beijo

do Amor que produziu a Creação,

maldito o Sonho e as azas do Desejo

maldito o Pranto, a Ancia, e a Aspiração! Despenhada mil vezes sobre um brejo

de insondavel miseria e humilhação

o mundo se abysmasse n'um inferno

do implacavel, ancioso gelo eterno!

«Maldito fosse tudo o que suspira,

maldita a Dôr, mais o soluço Humano,

maldita a Alma e a lagrima da Lyra,

maldito tudo quanto é grande e insano!

Que sobre o mundo horrivel, onde gyra

a serpente da Idea no oceano

da treva, o derradeiro homem horrendo

expirasse, ainda rindo, e maldizendo!

«Agora, quanto a mim, ó altas damas

magnificas, divinas, scintillantes,

e cujos bellos olhos teem mais chammas do que os olhos dos rigidos brilhantes,

antes d'ouvirdes os funestos dramas

da fome, horrorisai-vos, sabei antes

que eu sou só um plebeu vil que trabalha, e que saio das ondas da canalha!

«Senti tambem em mim o fogo ardente

da Lyra perpassar-me pela fronte,

e amei tudo o que é justo e que é potente, e meus irmãos chamei ao bosque e ao monte.

Nos desertos castellos do Occidente,

ás nuvens côr de sangue do horisonte,

tambem eu fui sentar-me nas collinas,

a chorar sobre as glorias e as ruinas!

«Mas o Genio infeliz, o vulto immenso

o heroe cantor vencido pela morte

esse que me perturba, quando penso

no implacavel da tyrana Sorte,

esse que já entrou no bosque denso,

que já partiu o muro bronzeo e forte,

que em breve vão deitar na escura valla,

esse, só de eu fallar... treme-me a falla!»

O velho então contou a trabalhosa

lenda do Genio, a musa, e seu destino,

a intuição da Natureza rumorosa

da flor, da sombra, e rio crystallino.

Como o Sol pae das plantas, e da rosa,

penhasco alcantillado e voz do sino,

Vegetações, florestas, nuvens, ventos,

e cellulas, raizes, pensamentos;

tudo que é vida que tem alma e sente,

tudo que é flor suave e tem perfume,

tudo que é aza e corta o ar luzente,

tudo que é astro, brilha ou que tem lume, tudo que foge liquido e corrente,

tudo que em corpo e alma se resume,

tudo que é bello como o sol na alfombra

ou fundo e triste como a voz da Sombra,

todo esse vasto Todo verde e bello,

toda essa santa Natureza enorme,

o luar como a folha d'um cutello,

o minerio que crêem que só dorme,

as heras nas ruinas do castello,

os mulluscos e a larva humilde e informe, tudo isso bello ou feio que se ostenta,

tem voz, tem alma, chora e se lamenta!

Mas que o Genio no meio d'isto tudo

soffre mais, porque entende estes lamentos! Elle traduz a Dor d'isso que é mudo,

e resume os geraes desolamentos!

Não tendo contra a Sorte um outro escudo que não sejam seus fortes pensamentos, passa curvado n'um pesar profundo,

--sentindo em si o mal de todo o mundo!

E todos escutavam silenciosos

damas, barões, religiosamente,

os sentidos geraes mysteriosos

das palavras do velho extranho e ardente. E cuidavam ouvir os mil chorosos

e soluçantes ais, longinquamente,

das subterraneas Cousas infelizes:

os ais da planta e os choros das raizes!

Elle pintou depois o Genio, quando

deixou prender seu forte coração

nos sorrisos d'um gesto puro e brando,

e vagou na torrente da Paixão.

Como feridos rouxinoes cantando,

os seus versos resavam da afflição,

das tragedias, desgraças e dos brados

dos tristes corações despedaçados.

E as palavras sentidas, violentas

do plebeu calavam pelos peitos,

e sentiam-se ouvir como os tormentos

dos grandes corações santos desfeitos.

Parecia-se sentir as suarentas

e desvelladas noutes sobre os leitos

diamantes separados, solitarios,

mais gelados que os leitos funerarios!

Desenhou-o depois triste e exilado,

por todo o mundo errante peregrino,

vagando como heroe, como soldado,

açoutado do vento do Destino:

e o seu rude pezar fundo e divino

da grande viuvez do ente amado,

pondo-o nas rochas tragico e proscripto,

de braços levantados ao Infinito.

E todos escutavam, surprehendidos,

essas desgraças barbaras sepultas

no mysterio do olvido, e esses gemidos

e essas sagradas lastimas inultas.

Barões e cavalleiros commovidos

enxugavam as lagrimas a occultas,

e as pallidas senhoras soluçantes

alagavam com prantos os brilhantes.

Depois pintou o horror da tempestade

e o assobio dos ventos nas procellas,

dos naufragios a lugubre verdade,

um navio sem mastros e sem vellas.

E o Genio do mar na immensidade,

á fria claridade das estrellas,

entre as ondas, os ventos, os espantos,

salvando o grande o livro dos seus cantos.

Depois mostrou-o pallido, quebrado,

no fundo d'uma lugubre enxovia,

no declinar da vida, envergonhado,

preso pela Injustiça, e Cobardia.

Pintou ao fundo tragico e assentado,

na misera masmorra humida e fria,

o Desespero torvo e macilento,

irmão magro e infernal do Desalento.

E do plebeu nas phrases singulares

sentia-se o glacial dos luares frios,

os rugidos dos ventos pelos mares,

o desfazer das taboas dos navios:

as fundas despedidas, e os pesares

dos adeuses nos carceres sombrios,

e um vento a soluçar como um açoite

do Destino, rasgando a eterna noite.

E todos escutavam, surprehendidos,

essas desgraças barbaras sepultas

nos mysterios do olvido, esses gemidos

e essas sagradas lastimas inultas!

Barões e cavalleiros commovidos

enxugavam as lagrimas a occultas,

e as pallidas senhoras soluçantes

banhavam com seus prantos os brilhantes.

Depois contou as noutes innarraveis

da Miseria, e da Neve as ladainhas,

sobre os gelos os grandes miseraveis,

em attitudes tragicas, mesquinhas.

Desenhou os carvalhos formidaveis

em lugubres lençoes, as andorinhas

fugidas, procurando outros paizes.

E sempre! sempre a Fome! e os Infelizes!

Depois narrou a rude lucta immensa

com todas as potencias da Desgraça,

e o Genio atravessando a névoa densa,

como um espectro livido que passa:

as lagrimas da Fome e da Doença,

e o mendigar do escravo sobre a praça,

pedindo supplicante á turba e ao mundo

esmola para um Genio moribundo.

Pintou a morte d'esse escravo amigo,

e o Genio inda mais triste e no abandono da força d'esse servo, seu abrigo,

dos amigos, dos nobres, e do throno.

E o terrivel guerreiro do inimigo

pintou em noutes lividas, sem somno,

velho, dobrado, pelas névoas cruas,

faminto á chuva, e ao vento, pelas ruas.

Pintou depois, chorando, a ultima scena

e da tragedia o derradeiro acto,

e essa cabeça pallida, serena,

no frio travesseiro d'um grabato.

Desenhou esse hospicio, uma gehena,

onde vai terminar muito apparato,

e depois, ai! depois, fria e fatal

a desolada lagrima final!

Quando acabou, sentia-se na salla

o ruido dos choros suffocados,

e os soluços e as lastimas que exala

a Dôr nos corações muito abalados.

O Conde estava em pé, hirto, e sem falla, hirtos, sem falla, em pé, os convidados,

e as damas atiravam soluçantes,

ás plantas do plebeu os seus brilhantes.

«Guardai--o velho disse--altas senhoras!

as vossas bellas joias preciosas,

que já de nada servem n'estas horas

ao que morreu, sem vossas mãos piedosas. Prendei-as novamente ás tranças louras, que o cantor, n'estas horas luctuosas,

para ir enterrar-se, á luz do sol,

carece só da esmola d'um lençol!

O Conde deu uma ordem. N'um momento um nitido lençol pagens trouxeram.

Ao pegar-lhe no rosto macilento

do plebeu as lagrimas correram.

«Eu chóro--bradou elle--esse talento,

esse craneo que as lagrimas arderam,

e que em premio do genio que trabalha

só teve por esmolla esta mortalha!

«Este lençol váe ser o teu sudario

ó grande Genio! que rollaste á praia

da Morte, desgostoso e solitario,

mais branco do que a lua que desmaia.

Quando soar teu sino funerario,

e no teu craneo a campa rasa caia,

chorai damas, barões, n'um chôro fundo

a maior alma que deitou o mundo!

Essas faces chorai, as quaes araram,

as lagrimas do abandono e da desgraça, as quaes como carvões rubros queimaram, ou como um vento d'areal que passa:

este craneo chorai, de cuja taça

as lagrimas de sangue s'entornaram,

e este lençol sabei damas, barões

vai embrulhar o corpo de Camões!

E novamente as lagrimas correram,

e os soluços de novo rebentaram,

as côres novamente se perderam,

e os convivas em pé se levantaram:

os lacaios o passo suspenderam,

muitas damas mimosas desmaiaram,

como caiem as lagrimas internas

nas funeraes separações eternas.

O velho ia a sair. Porem o Conde

o deteve e bradou:--«Que nome é o teu

ó homem singular, onde s'esconde

um peito que é mais nobre do que o meu? Por que reinos cruzaste? Dize aonde

aprendeste, ó phantastico plebeu!

a fallar das extranhas afflicções,

d'um modo que sacode os corações...?!»

O velho então ergueu-se, em toda a altura do seu corpo potente e agigantado,

e deixou ver a athletica figura,

de sorte que pareceu ter-se elevado.

E então, n'um tom terrivel d'amargura,

que deixou todo o mundo alvoroçado,

bradou num ai, n'um grito, extranho e novo --Sou o Pranto do Povo e volto ao Povo!