A Gratidão
Capítulo VI
E antes que Rosa tivesse tempo de recusar, já D. Julia tinha desapparecido, levando na mão o cestinho.
Rosa ficou um instante sem saber o que havia de fazer, mas recomeçou ligeiramente o trabalho. Quando ao jantar voltou a casa, contou a D. Thereza o seu encontro de pela manhã, o que lhe tinha acontecido e perguntou-lhe se devia ou não guardar os cinco tostões.
--Não te authoriso a pedir, Rosa, mas isso não é uma esmola, é um presente, que te fazem, podes portanto arrecadar esse dinheiro. Ris-te. Já sei. Esse dinheiro vem a proposito para augmentares o teu mealheiro, com o qual te hei-de comprar um rico jaqué para o S. Miguel.
--Não, senhora--replicou Rosa com a alegria nos olhos--não é esse o meu pensamento, e que me causa tanta alegria.
--Que é então?
--Rogo-vos que me não façaes perguntas; depois o sabereis.
--Guarda o teu segredo, porque sei que não és desgovernada, e que o não has-de gastar mal gasto.
Rosa abraçou ternamente D. Thereza, e foi entregar as suas encommendas de flôres e cestos.
VI.
D. Julia recolheu-se para casa muito tempo depois da hora, que tinha determinado.
A viscondessa, impaciente e sobresaltada com a demora, sahiu, no caminho, ao encontro de sua filha.
--Estiveste incommodada, minha filha?--lhe disse ella.--Não, minha senhora. Este cestinho, que aqui trago, é que foi a causa da minha demora.
E D. Julia mostrava a sua mãi o cestinho, que Rosa tinha feito.
--Como é lindo--respondeu a viscondessa--Não sabia Julia, que tinhas a prenda de fazer cestos de juncos entrançados.
--Não fui eu que fiz este cestinho, minha mãi.
--Então quem foi?
--Foi uma lavradeirinha, que encontrei no meu passeio.
--Uma lavradeira?!
--Sim, minha senhora. E acreditareis, minha mãi, que por todo este trabalho me pediu a grande quantia de quatro vintens?
--Não te pergunto quanto lhe déste, por que conheço a bondade do teu coração, e tenho a firme convicção de que não abusaste da sua simplicidade.
--Dei-lhe só meia corôa, por que não tinha mais na minha bolsinha. Não queria recebel-a, ajuizando que lh'a dava como uma esmola; mas tanto fiz que a aceitou, e convencionei com Rosa, (pois a minha ramalheteira assim se chama) para nos encontrarmos ámanhã, no mesmo sitio, á mesma hora; e se ella, como penso, fôr digna da sympathia, que me inspirou, e do interesse que já me causa, consentir-me-heis, minha boa mãi, que a tome sob a minha protecção?
--Consinto em tudo, minha filha, que te dê prazer, e distracção. Se a tua protegida fôr digna dos nossos beneficios, unir-me-hei comtigo, e accordaremos no que devemos fazer para seu bem.
D. Julia abraçou com ternura a viscondessa, e agradeceu-lhe a sua bondade.
N'este comenos, a viscondessa e sua filha, chegaram a casa.
D. Julia collocou com muito cuidado sobre uma mesa da sala o cestinho, e correu com presteza ao seu quarto a preparar um cavallete, pinceis e tintas para dar principio ao quadro projectado, e, tendo tudo disposto, desceu á sala a buscal-o.
D. Bertha estava examinando o cestinho com attençào e minuciosidade.
--Não estão tão bem dispostas e combinadas essas flôres, Bertha?--disse D. Julia.
--Assim, assim. Não gosto d'estas violetas, que formam o centro do ramo. Podias ter tido melhor gosto e fazer cousa melhor.
--Não concordo com a tua opinião. Estou convencida de que Rosa não podia ter melhor gosto.
--Rosa?
--Sim, Rosa. Ah! é verdade; ainda te não contei o encontro, que tive esta manhã. Ora ouve.
D. Julia contou a sua irmã minuciosamente toda a conversa, que tivera com Rosa.
Quando ella acabou, D. Bertha fez um gesto de desdem.
--E, sem duvida, Julia, já te affeiçoas-te a essa pequena; não é assim?--disse D. Bertha.
--Rosa,--respondeu unicamente D. Julia--tem merecimento bastante, que a torna digna da protecção, que se lhe dispensar.
--O que mais me admira e me espanta, Julia, é a rapidez com que sympathisas com qualquer, e como instantaneamente conheces e decides, que essa pessoa é digna da tua affeição e amisade... Não quero tomar-te o tempo; julgo que vinhas buscar o teu lindo cestinho, não é assim?
--Vinha, sim, para o ir copiar em um quadro, pintando-o.
--Pintal-o?!--disse D. Bertha, dando uma grande gargalhada.--Que liguemos alguma attenção ás flôres dos nossos parques e jardins, concedo; mas que empreguemos o tempo e o talento com as silvestres, que só tem os perfumes para si, parece-me uma singularidade esquisita.
--A minha opinião, Bertha, é exactamente o contrario. Mas isso não admira, por que nós raras vezes estamos accordes sobre qualquer materia. Ponhamos isso de parte; queres tu vir ámanhã, commigo e com a nossa boa mãi, vêr Rosa?
--Não posso. Combinei com a Francisquinha e Ritinha Meirelles virem amanhã aqui passar o dia. Além d'isso, fallar-te-hei francamente, não ha nada para mim mais antipathico do que todas essas lavradeiras; e andar uma legua para me ir achar face a face com um monstrosinho, parece-me um tanto aborrecivel.
--Rosa é muito linda e interessante.
--Para ti, Julia, todas as lavradeiras são lindas e interessantes. Para mim todas são feias, e broncas. O calor principia a incommodar-me--disse D. Bertha, sentando-se indolentemente sobre um sophá.--Vai, Julia, vai pintar o teu lindo cestinho, que eu vou sonhar com o meu Porto, para onde espero ir muito breve.
Estas ultimas palavras já mal se perceberam, porque foram acompanhadas com um bocejo, e D. Bertha cerrou os olhos.
D. Julia lançou sobre sua irmã um olhar de compaixão e sahiu.
Alguns instantes depois deu principio ao quadro.