A mulher mais linda da cidade
O assassinato de Ramon Vasquez
O assassinato de Ramon
Vasquez[1]
Tocaram a campainha da porta. Dois irmãos: Lincoln, de 23 anos, e Andrew, de 17.
Ele veio atender pessoalmente.
Ei-lo. Ramon Vasquez, o antigo astro do cinema mudo e dos primeiros
tempos do falado. Agora deve estar com quase 70, mas conserva as mesmas feições delicadas. Naquela época, nos filmes e na vida real, mantinha o cabelo lambuzado de brilhantina, penteado liso, à força, pra trás. E com o longo nariz afilado, o bigodinho e aquele olhar de peixe morto que enlouquecia as mulheres, bem, era demais. Tinha ficado conhecido como “O Grande Galã”. O mulherio desmaiava quando ele entrava em cena. “Deliravam’’, como se dizia nas revistas de cinema de então. Mas, na verdade, Ramon Vasquez era homossexual. Agora o cabelo está completamente branco, magnífico, e o bigode mais cheio.
Faz frio para uma noite na Califórnia e a casa de Ramon fica isolada
no alto da colina. Os 2 rapazes usam calças do exército e camiseta branca. São musculosos e simpáticos, com cara de quem está sempre se desculpando.
Lincoln toma a palavra.
– Já lemos muito a seu respeito, Mr. Vasquez. Desculpe o incômodo,
mas temos o maior interesse nos ídolos de Hollywood, ficamos sabendo onde o senhor morava e, como íamos passando por aqui, não resistimos e viemos tocar a campainha.
– Não está muito frio aí fora, rapazes?
– Pra ser franco, está, sim.
– Por que não entram um pouco?
– Não queremos importunar, o senhor talvez esteja ocupado. – De modo algum. Podem entrar. Não tem ninguém em casa. Os rapazes aceitam o convite. Ficam parados no meio da sala, meio
constrangidos e tímidos.
– Ah, mas sentem-se, por favor! – diz Ramon. Indica um sofá. Os rapazes cruzam a sala, com passo um tanto rígido.
Na lareira, um pequeno fogo aceso.
– Vou buscar alguma coisa pra esquentar vocês. Esperem aí que não demoro.
Ramon volta com vinho francês, abre a garrafa, sai novamente e reaparece com 3 cálices gelados. Serve a bebida.
– Tomem um gole. É de ótima qualidade.
Lincoln obedece, um pouco depressa demais. Andrew, por insegurança, faz o mesmo. Ramon enche os cálices de novo.
– São irmãos?
– Somos.
– Logo vi.
– Meu nome é Lincoln. Ele, o Andrew, é mais moço que eu.
– Ah, sei. O Andrew tem feições delicadas, fascinantes. Uma expressão pensativa. Com um pequeno toque de crueldade, inclusive. Talvez na proporção exata. Hum, vai acabar entrando pro cinema. Ainda tenho bastante influência, sabem?
– E o meu rosto, Mr. Vasquez? – pergunta Lincoln.
– Não é tão delicado, e tem mais crueldade. A tal ponto que quase chega a ter uma beleza animal; com isso e com o seu... corpo. Não me levem a mal, mas vocês têm uns corpos de autênticos trogloditas que tivessem sido depilados por completo. Mas... gosto muito dos dois, vocês irradiam... não sei o quê.
– Vai ver que é fome – diz Andrew, abrindo a boca pela primeira vez. – Chegamos agora mesmo na cidade. Viemos rodando lá de Kansas. Furou o pneu. Depois tivemos que trocar a porcaria da biela. Gastamos uma nota preta com os pneus e o conserto. Ficamos a zero. Está parado aí fora, um Plymouth 56. Não deu nem pra vender no ferro velho pra ganhar 10 paus.
– Estão com fome?
– E como!
– Bom, isso não é problema, santo Deus, vou ver o que é que tem e preparo alguma coisa pra vocês. Enquanto isso, vão bebendo!
Ramon se dirige à cozinha.
Lincoln pega a garrafa e bebe no gargalo. Um tempão. Depois passa para Andrew:
– Toma tudo.
Andrew acaba de esvaziar a garrafa quando Ramon reaparece com uma bandeja grande – azeitonas recheadas, queijo, salame, carne de rês defumada, bolachas d’água, cebolinhas verdes, presunto apimentado com ovos.
– Ah, o vinho! Terminaram com ele todo! Ótimo! Ramon sai e volta com 2 garrafas geladas. Abre ambas. Os rapazes caem em cima da bandeja como se fosse carniça. Não
precisam de muito tempo para liquidar com tudo.
Aí passam para o vinho.
– Conheceu Bogart?
– Ah, só de vista.
– E Garbo?
– Claro, trabalhei com ela, como é que não ia conhecer? – E Gable?
– Muito pouco.
– Cagney?
– Cagney eu não conheci. Sabem, a maioria dos que vocês
mencionaram são de épocas diferentes. Às vezes me parece que alguns dos artistas famosos que vieram depois realmente ficam ressentidos por eu ter feito a maior parte da minha fortuna antes que a mordida do imposto de renda cravasse tão fundo. Mas se esquecem que, em termos proporcionais, nunca ganhei a fortuna que hoje eles ganham com essa inflação. E que agora estão aprendendo a proteger com a assessoria de especialistas fiscais que lhes ensinam todos os recursos permitidos por lei – reinvestimentos, e tudo mais. Seja lá como for, nas festas que dão por aí, isso contribui pra muitos mal-entendidos. Acham que estou rico, e eu acho que eles é que estão. Todo mundo se preocupa demais com dinheiro, celebridade e poder. Quanto a mim, tenho apenas o suficiente para viver confortavelmente até o dia em que morrer.
– Já lemos tudo a seu respeito, Ramon – diz Lincoln. – Um escritor,
não, 2 escritores disseram que você sempre guarda 5 milhas em dinheiro vivo, escondido em casa. Como uma espécie de dinheiro de bolso. E que você de fato não confia em bancos nem no sistema bancário.
– Não sei de onde você foi tirar isso. Não é verdade. – SCREEN – diz Lincoln –, número de setembro de 1968; THE
HOLLYWOOD STAR, YOUNG AND OLD, edição de janeiro de 1969. Nós inclusive estamos com as 2 revistas aí fora no carro.
– É falso. O único dinheiro que tenho em casa é o que está na minha
carteira, e mais nada. Vinte ou trinta dólares.
– Vamos ver.
– Lógico.
Ramon tira a carteira do bolso. Tem uma nota de 20 e 3 de 1.
Lincoln agarra a carteira.
– Eu fico com ela!
– O que há com você, Lincoln? Se quiser o dinheiro, pode levar. Mas me devolva a carteira. Meus documentos estão aí dentro, a carteira de motorista, tudo o que é necessário.
– Vai te foder!
– O quê?
– “VAI TE FODER!”, eu disse.
– Ouçam, rapazes, vou ter que pedir pra que se retirem. Estão ficando grosseiros.
– Tem mais vinho?
– Claro que tem, sim! Podem ficar com tudo, 10 ou 12 garrafas dos melhores vinhos franceses. Peguem e levem embora, por favor! Estou pedindo!
– Preocupado com as 5 milhas?
– Estou sendo sincero, não existe essa história de 5 milhas escondidas. Acreditem em mim, com toda a franqueza, não existe essa história de 5 milhas!
– Seu mentiroso sacana!
– Mas por que essas grosserias?
– CHUPADOR DE PIROCA! CHUPADOR DE PIROCA!
– Ofereci minha hospitalidade, a minha generosidade a vocês. Agora ficaram boçais e desaforados.
– Aquela bandeja de porcarias que nos deu! Tem coragem de chamar aquilo de comida?
– Não estava boa?
– COMIDA DE VEADO!
– Mas por quê?
– Picles de azeitona... ovos recheados. Macho não come essas merdas!
– Vocês comeram.
– Ah, tá querendo me gozar, é, CHUPADOR DE PIROCA?
Lincoln levanta do sofá, se aproxima da poltrona de Ramon e dá-lhe 3 bofetadas na cara, com força, a palma da mão aberta. As mãos são enormes.
Ramon baixa a cabeça e começa a chorar.
– Desculpe. Só estava tentando me defender.
Lincoln olha para o irmão.
– Tá vendo? Bicha escrota! CHORANDO FEITO CRIANÇA! ELE
VAI VER O QUE É BOM, CARA! VOU FAZER ELE CHORAR DE VERDADE SE NÃO DESCOLAR AS TAIS 5 MILHAS!
Lincoln pega a garrafa de vinho e bebe bastante no gargalo. – Toma tu também – diz a Andrew. – Vamos ter muito trabalho.
Andrew bebe no gargalo, à beça.
Depois, enquanto Ramon continua chorando, os dois ficam ali
sentados, tomando vinho, olhando um para o outro, e pensando.
– Sabe o que vou fazer? – pergunta Lincoln ao irmão. – O quê?
– Vou fazer ele chupar minha piça!
– Por quê?
– Ora por quê! Pra tirar um sarro, mais nada!
Lincoln bebe outro gole, depois se aproxima, pega Ramon pelo queixo
e levanta-lhe a cabeça.
– Ei, titia...
– Que foi? Ah, por favor, POR FAVOR, ME DEIXA EM PAZ! – Você vai chupar minha pica, seu SACANA DE MERDA! – Ah, não, por favor!
– A gente sabe que tu é bicha! Te prepara, boneca! – NÃO! POR FAVOR! POR FAVOR!
Lincoln corre o fecho da braguilha.
– ABRE ESSA BOCA!
– Ah, não, por favor!
Desta vez, quando bate em Ramon, a mão de Lincoln está de punho
cerrado.
– Eu te amo, Ramon: Chupa!
Ramon abre a boca. Lincoln encosta a ponta do caralho nos lábios
dele.
– Se você me morder, boneca, TE MATO!
Ramon começa a chupar, sem parar de chorar. Lincoln lhe dá uma bofetada na testa.
– Para de FINGIR! Chupa com gosto!
Ramon sacode mais a cabeça, capricha com a língua. De repente, no
momento exato em que Lincoln percebe que vai gozar, pega o crânio de Ramon e puxa com toda a força pra frente. Ramon se engasga todo, sufocado. Lincoln só afrouxa depois de esvair o último jato de porra.
– Agora chupa meu irmão!
Andrew protesta:
– Linc, não tô a fim.
– Virou cagão?
– Não, não é isso.
– Falta de culhão?
– Não, não...
– Bebe mais um pouco.
Andrew bebe. Fica pensativo.
– Tá legal, ele pode me chupar a pica.
– ENTÃO FAZ ELE CHUPAR!
Andrew levanta, abre a braguilha.
– Te prepara pra chupar, boneca.
Ramon continua sentado, chorando.
– Levanta a cabeça dele. Ele gosta e não quer confessar.
Andrew levanta a cabeça de Ramon.
– Não quero bater em você, vovô. Abre essa boca. É coisa rápida.
Ramon abre a boca.
– Pronto – diz Lincoln; – viu? Já tá chupando. Sem grilo nenhum.
Ramon sacode a cabeça, passa a língua e Andrew goza.
Ramon cospe a porra no tapete.
– Miserável! – reclama Lincoln. – Era pra você engolir!
Se aproxima rápido e esbofeteia Ramon, que já parou de chorar e parece ter caído numa espécie de transe.
Os 2 irmãos sentam outra vez e acabam com as garrafas de vinho. Descobrem mais na cozinha. Trazem pra sala, tiram as rolhas e bebem de novo.
Ramon Vasquez mais parece uma figura de cera de Astro morto no Museu de Hollywood.
– A gente pega as 5 milhas e se manda – diz Lincoln.
– Ele disse que não tá aqui – lembra Andrew.
– Bicha já nasceu mentindo. Eu faço ele dar com a língua nos dentes. Tu fica quieto aí, com o teu vinho. Deixa esse veado por minha conta.
Lincoln levanta Ramon no ombro e vai com ele pro quarto.
Andrew fica na sala tomando vinho. Ouve vozes e gritos lá no quarto.
Depois vê o telefone. Disca um número de Nova York, pra ser cobrado na conta de Ramon. É onde está a mina dele. Ela saiu de Kansas City pra tentar sucesso na metrópole. Mas continua mandando notícias. Cartas grandes. Ainda não conseguiu nada.
– Quem?
– O Andrew.
– Ah, Andrew. Aconteceu alguma coisa?
– Tava dormindo?
– Já ia me deitar.
– Sozinha?
– Evidente.
– Bom, não aconteceu nada. Tem um sujeito aqui que vai me conseguir
um contrato pra trabalhar no cinema. Diz que tenho uma cara delicada.
– Que maravilha, Andrew! Tu tem uma cara linda e eu te amo, tu sabe. – Claro. Como é que você tá se virando, gatinha? – Mais ou menos, Andy. Nova York é uma barra. Todo mundo só tá a
fim de trepar, não pensam noutra coisa. Trabalho como garçonete, é fogo, mas acho que vou conseguir um papel numa peça aí. Não é a Broadway, mas serve.
– Que tipo de peça?
– Ah, sei lá. Parece meio melosa. Um troço escrito por um crioulo aí. – Não te fia nesses crioulos, neguinha.
– Não tem perigo. É só pra pegar cancha. E contrataram uma atriz da
pesada pra trabalhar de graça na peça.
– Bom, até aí, tudo bem. Mas não te fia nesses crioulos! – Porra, tu tá pensando que sou burra, Andy? Não me fio em ninguém.
É só pra pegar cancha.
– Quem é o crioulo?
– Sei lá. Um cara que escreve peças aí. A única coisa que sabe fazer é
sentar pelos cantos, puxar maconha e falar em revolução. Virou moda agora. A gente tem que ir na onda até onde dá.
– Esse cara que escreve peças, não anda fodendo com você? – Para de dizer besteira, Andrew. Só porque trato o cara direito não
quer dizer que não vejo que ele não tem religião, que é um verdadeiro animal... E já estou farta de ser garçonete. Todos esses caras, metidos a sabidos, beliscando a bunda da gente porque deixaram uma mísera gorjeta. É fogo.
– Eu penso o tempo todo em você, neguinha.
– E eu em você, meu velho Andy de carinha linda e pica grande. E te amo, sabia?
– Tu às vezes fala de um jeito gozado, gozado e franco, é por isso que eu te amo, neguinha.
– EI! Que GRITARIA é essa que tô ouvindo aí?
– Foi só uma piada, neguinha. Uma festança maluca aqui em Beverly Hills. Sabe como são esses artistas.
– Parece até que tão matando alguém.
– Não se preocupe, neguinha. É só de brincadeira. Tá todo mundo de porre. Tem alguém aqui ensaiando uma cena. Te amo. Qualquer dia te ligo ou escrevo de novo.
– Então tá, Andrew, te amo.
– Boa noite, meu bem.
– Boa noite, Andrew.
Andrew desliga e vai pro quarto. Entra. Lá está Ramon na vasta cama de casal. Todo ensanguentado. Os lençóis encharcados de sangue.
Lincoln tem uma bengala na mão. A famosa bengala que o Grande Galã usava nos filmes. Toda manchada de sangue.
– O filho da puta não desembucha – diz Lincoln. – Me traz outra garrafa de vinho.
Andrew volta com o vinho, tira a rolha, e Lincoln toma um gole inacabável.
– Vai ver que as 5 milhas não tão aqui – diz Andrew.
– Tão, sim. E a gente tá precisando. Bicha é pior que judeu. Quer dizer, pra judeu é preferível morrer do que perder dinheiro. Mas bicha MENTE! Sacou?
Lincoln olha de novo o corpo caído na cama.
– Onde é que você tem as 5 milhas, Ramon?
– Eu juro... eu juro... por tudo quanto é mais sagrado, não existe esse negócio de 5 milhas, eu juro! eu juro!
Lincoln baixa a bengala de novo no rosto do Grande Galã. Outro corte. O sangue escorre. Ramon perde os sentidos.
– Assim não adianta. Bota debaixo do chuveiro – diz Lincoln ao irmão. – Vê se dá pra reanimar ele. Limpa todo esse sangue. Vamos recomeçar tudo de novo. Desta vez não só no rosto, mas também no pau e nos bagos. Ele acaba falando. Qualquer um acaba falando. Lava este cara enquanto eu vou tomar uns tragos.
Lincoln sai do quarto. Andrew olha aquela massa de sangue vermelho,
se engasga, depois vomita no soalho. Só então se sente melhor. Levanta o corpo da cama e leva para o banheiro, Ramon, por um instante, parece recobrar os sentidos.
– Santa Maria, Santa Maria, Mãe de Deus...
Repete ainda uma vez, ao chegarem à porta.
– Santa Maria, Santa Maria, Mãe de Deus...
Quando Andrew entra com ele no banheiro, tira as roupas encharcadas
de sangue, vê o box do chuveiro, larga o corpo de Ramon no chão e testa a água, até ficar na temperatura apropriada. Depois, descalça os próprios sapatos e meias, tira a calça, a cueca e a camiseta e entra embaixo da ducha, segurando Ramon em pé sob o jato da água. O sangue começa a escorrer. Andrew olha o cabelo grisalho molhado, achatado no crânio do antigo ídolo do sexo feminino. Ramon parece apenas um velho tristonho, cambaleando de autopiedade.
Aí, de repente, cede ao impulso de fechar a torneira da água quente, e
deixa correr só a fria.
Cola a boca na orelha de Ramon.
– Vovô, o que a gente quer são as tuas 5 milhas. Depois a gente se
manda. Você só tem que cair com a grana, aí a gente te deixa em paz, tá?
– Santa Maria... – diz o velho.
Andrew tira Ramon de dentro do box. Leva de volta pro quarto e larga
em cima da cama. Lincoln está bebendo outra garrafa de vinho. No gargalo.
– OK – diz –, desta vez ele fala! – Acho que ele não tá com as 5 milhas. Eu não levaria uma surra
dessas por 5 milhas.
– Ele tá, sim! Não passa de uma bicha nojenta que gosta de negro!
Desta vez ele desembucha!
Lincoln passa garrafa pra Andrew, que imediatamente bebe no gargalo. Lincoln levanta a bengala:
– Agora! Chupador de piroca! CADÊ AS 5 MILHAS? Não vem nenhuma resposta do homem prostrado na cama. Lincoln
inverte a posição da bengala, fica com a ponta na mão e baixa o cabo encurvado nos órgãos sexuais de Ramon.
Não se escuta, praticamente, nenhum ruído da parte do homem, a não ser uma série contínua de gemidos.
O pau e os testículos de Ramon estão quase estraçalhados por completo.
Lincoln faz uma pausa para tomar um bom trago de vinho, depois pega a bengala e começa a bater pelo corpo todo – no rosto, na barriga, nas mãos, no nariz, na cabeça, em tudo quanto é parte de Ramon, não repetindo mais a pergunta sobre as 5 milhas. A boca ficou aberta e o sangue que escorre do nariz quebrado e de outros lados do rosto cai ali dentro. Ele engole tudo e se afoga em seu próprio sangue. Depois se imobiliza por completo e os golpes da bengala já não têm mais efeito.
– Você matou o cara – diz Andrew, lá da poltrona, vendo tudo –, e ele ia me conseguir trabalho no cinema.
– Não matei – diz Lincoln –, quem matou foi você! Fiquei aí sentado, olhando, enquanto você batia com a própria bengala do cara até ele morrer. A bengala que tornou ele famoso no cinema!
– Porra, que importância tem isso? – diz Andrew –, agora tu já tá falando que nem louco de porre. O que interessa é dar o fora daqui de uma vez. O resto a gente acerta depois. Esse cara tá morto! Vamos dar no pé!
– Em primeiro lugar – diz Lincoln –, estou acostumado a ler sobre esses troços em revista policial. Primeiro a gente se livra do corpo. Molha os dedos no sangue dele e escreve uma porção de coisas aí pelas paredes, sacou?
– O quê?
– Tá legal. Por exemplo: “OS PORCOS TÊM QUE SE FODER!”
“MORTE AOS PORCOS!” Depois a gente escreve um nome qualquer em cima da cabeceira, um nome de homem – como “Louie”, por exemplo. O.K.?
– O.K.
Molham os dedos no sangue de Ramon e escrevem pequenas frases bombásticas nas paredes. Depois saem da casa.
Ligam o motor do Plymouth 56. Rodam para o sul, levando os 23 dólares de Ramon e o vinho roubado. No cruzamento de Sunset com Western veem 2 garotas de minissaia perto da esquina pedindo carona. Param no meio-fio. Há uma pequena troca de piadas e as 2 entram no carro. O carro tem rádio. É praticamente a única coisa que tem. Ligam o rádio. As garrafas do caríssimo vinho francês rolam pra tudo quanto é lado.
– Ei – diz uma garota –, tô achando que estes caras dão o maior pedal! – Ei – sugere Lincoln –, vamos até lá na praia deitar na areia, tomar
esse vinho e ver o sol nascer!
– Chocante – diz a outra.
Andrew consegue tirar uma rolha. Não é fácil – precisou usar a lâmina
mais fina do canivete –, tinham deixado pra trás não só Ramon como o ótimo saca-rolhas de Ramon – e o canivete não funciona direito –, cada vez que bebem um gole de vinho têm também que engolir um pedaço de rolha.
No banco da frente, Lincoln vai tirando o sarro que pode, mas tendo
que dirigir, vê-se obrigado a usar mais a imaginação. Na parte de trás, Andrew já enfiou a mão no meio das coxas da outra garota. Depois puxa uma ponta da calcinha, o que não é nada fácil, e mete o dedo lá dentro. De repente ela se retrai, empurra ele pra trás e diz:
– Acho que primeiro a gente devia se conhecer melhor. – Lógico – diz Andrew. – Temos 20 ou 30 minutos antes de cair na
areia e transar. Meu nome – continua –, é Harold Anderson.
– E o meu é Claire Edwards.
Se abraçam de novo.
O Grande Galã está morto. Mas haverá outros. Como também uma pá
de gente sem importância. A grande maioria. É assim que a coisa pode dar certo. Ou errado.
[1]Esta história é fictícia e os acontecimentos idênticos ou semelhantes ocorridos na vida real que chegaram ao conhecimento público em nada contribuíram para predispor o leitor a favorecer ou hostilizar quaisquer personagens, comprometidos ou não; noutras palavras: o espírito, a imaginação, os recursos criativos gozaram de plena franquia para fantasiar à vontade, o que equivaleu a inventar este texto, resultante e derivado da convivência de apenas um ano a menos de meio século com a raça humana... e que não se fixa, especificamente, em nenhum caso, ou casos; ou noticiário da imprensa, não tendo sido escrito com a intenção de prejudicar, insinuar ou fazer injustiça a qualquer criatura porventura conhecida, envolvida em circunstâncias análogas à história que aí está.