A Nossa Gente

Teixeira de Queiroz · Capítulo 15 de 29

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A Nossa Gente

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I

 

Bons velhinhos os que moram n'aquella casa! N'este domingo sereno de março, lá se veem sentados á porta, com o sorriso dos modestos e felizes a florir-lhes no rosto; tem as cabeças protegidas contra o mal da soalheira e os pés, fóra dos tamancos, para os aquecerem. A veiga, onde pastam bois, é tranquilla; a subida da encosta, onde rebentam urzes e codeçaes, está vistosa. Aquelles bons companheiros, casados ha cerca de cincoenta annos, tem um para o outro o mesmo olhar confortativo e amoroso do tempo de moços. Miguel conserva impressa na retina a imagem de quando Luiza era nova: não lhe percebera o nascer das rugas; nem o desmaiar da pelle; nem a queda dos dentes, que no riso ainda lhe appareciam como uma fiada branca e egual de rosario de pinhões. Os cabellos (talvez pela vista enfraquecida) eram as mesmas longas tranças, negras e colleantes, como lampreias no fundo de rio arenoso. O corpo de sua mulher mantivera para elle, sempre, a mesma puresa de linhas—consolidara-se na graça e gentilesa da juventude, não o tinham abandonado os elementos de frescura e mocidade.

De egual modo, Luiza, via seu marido. Quem estava ali, a seu lado, com os joelhos ao sol e o lenço de Alcobaça na cabeça, era o mesmo rapaz valente, trabalhador e sadio, ligeiro como um lobo, que a namorara quando ella tinha vinte annos. Nem as molhadellas lhe tinham engrossado as articulações com o rheumatismo, nem as barbas e cabellos eram da brancura de linho sedoso, mas acastanhados e lustrosos como outr'ora. Não tivera a edade poder para lhe diminuir a vista: logo que o emperramento das pernas passasse, vel-o-hiam como o primeiro malho nas eiras, a primeira enxada no morder da terra, a melhor roçadoura para derrubar silvedos. Ella que o amparava da cama até a lareira e da lareira até ao sol, vivia na fé de que o seu Miguel tornaria a ser o mais celere e desembaraçado homem de todas as redondesas para atracar um touro que fugisse em descampado, para vencer, d'um pulo, o ribeiro da freguezia, para pôr em debandada uma feira de troquilhas bulhentos. Não o vira ella ludibriar magotes de adversarios, ora afastando-os para longe com um talho de varrer, ora safando-se-lhes com um salto, para fóra da muralha da gente com que o cercavam? Assim mesmo, meio entrevado, ainda se não poderiam chegar a elle, nem tres, nem quatro pimpões, se Miguel tivesse nas unhas o seu pau de carvalho e estivesse bem encostado a uma parede para só poderem atacal-o de frente. Experimentassem, querendo, e ver-se-hia se ella não dizia a verdade.

 

Á porta da casa estavam ambos silenciosos, n'esse secreto e intimo goso d'uma perpetua conformidade moral, imaginando-se na força do sentir e sem recearem a morte que podia separal-os, levando um e deixando o outro a vaguear no mundo, n'uma existencia de lamentos e saudades. Não pensavam n'este horror, visto que no céu havia um Deus, justo e bom, que não permittiria tal iniquidade. D'aquella somnolencia feliz, despertou-os o padre Clemente Carvalhosa, que ora vinha pelo estreito caminho rente á casa de Miguel.

—É o senhor cura—disse Luiza, falando como se só comsigo falasse.

—Ah! hoje demorou-se mais. É que os rapazes não sabiam a doutrina. Calaceiros!...—pronunciou o velho, sem levantar os olhos dos joelhos.

O sacerdote adeantava-se com o seu habitual ar benevolente. A batina ecclesiastica dava-lhe solemnidade ao parecer, e só o passo energico era signal de que não vinha em boa disposição de espirito. Luiza, logo que o viu á voz, levantou-se para o saudar; Miguel que tinha, ao lado o pau a que se amparava, ia a fazer o primeiro esforço para se erguer, quando o cura, já com a mão na cancella para entrar, disse alto:

—Eh! lá! Para doentes não ha ceremonias!...

—Muito bom dia, senhor. Hoje mais tardinho. Os rapazes não a sabiam, está de vêr...

—É verdade—informou o Carvalhosa com voz irritada. Talvez peior que no domingo passado e estamos no fim da quaresma.

—Uma palmatoria senhor! Olhe que isso não vae sem lhes doer.

—E é que o faço!—asseverou com energia o ecclesiastico. Se me obrigarem a sahir de mim, irá o diabo n'aquella sachristia.

—Vossa Senhoria não é capaz d'isso...—opinou ironicamente Luiza.

—Não sou capaz!? Estás enganadissima! É que vocês nunca me viram pelo lado do forro. Se me volto do avêsso, vae ahi o dia de juizo.

Miguel offerecendo-lhe o bordão de paralytico aconselhou:

—Com este é que elles se ensinavam. Já lá andam taludos, dos que não vão a palmatoria.

—É o que elles mereciam, é—applaudiu Luiza.

—Isso tambem não, mulher!—entendeu o cura. Um pau molesta de mais, pode fazer sangue ou quebrar algum osso. É bastante uma palmatoria puchada com valentia, como eu o sei fazer. Mando logo chamar o Corcunda para lh'a encommendar. Deixa que se elles virem, pendurada na sachristia, a santa Luzia de cinco olhos, não tornam a apparecer sem trazerem o recado na ponta da lingua.

—Vossa Senhoria—commentou o Miguel—para essas coisas de bater... O senhor abbade, quando por ahi vinha, sabia-os tosar melhor, se os garotaços faltavam á obrigação...

O Carvalhosa retomou a sua energia:

—Estás parvo, homem! A questão é fazerem-me chegar a mostarda ao nariz. Mas vamos ao que serve—disse mudando de tom.—Do vosso Luiz, não tem havido noticia nenhuma... nenhuma?...