A Tentação do Mar

Augusto Casimiro · Capítulo 3 de 5

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A Tentação do Mar

A Tentação do Mar

 

Ponho-me ás vezes a escutar, atento,

A voz do sangue, a voz da minha raça...

E em meus olhos, então, saudosos, passa Uma visão que é um deslumbramento!

Em horas de amargura e de anciedade,

Quando os meus braços tombam de fadiga, —Ponho-me a ouvir aquela voz antiga

Religiosamente, com saudade...

É quando a noite cai silenciosa

E uma tristeza oculta chora em nós,

Que eu oiço aquela voz misteriosa

E me esqueço a falar com meus avós!

É quando alguem me diz que tudo é morto, Que a Patria é morta e destruido o lar...

Quando vagueio palido e absorto,

Com amargura, e sem acreditar!

É quando eu vejo a terra abandonada,

O Passado esquecido... E escuto, além,

Na escuridão da noite envergonhada,

Insultarem a Patria, a propria Mãe...

Quando oiço o Mar ao longe, embravecido, Bolsando ao ar os negros vagalhões, No silencio profundo e estarrecido,

A cantar as estrofes de Camões...

É quando, á luz amiga das estrelas,

O Mar saudoso e bom, o Mar profundo,

Julga, a sonhar, que embala caravelas

Que vam partir a devassar o Mundo!

Ficam-se os olhos humidos, inquietos

A interrogar em vão a noite escura...

E eu sinto em mim a tragica amargura

Dos destinos falhados, incompletos...

Mas, numa aurora esplendida e bemdita

É então, é então que em mim desperta

E no meu sangue novo ressuscita

O espirito da raça numa alérta!

E no meu sangue, em turbilhões, a ardêr, Em orgulho e em fé e esforço altivo,

Todas as glorias do Passado vivo,

Todo o passado canta no meu sêr!...

... Sam primeiro os indómitos pastores,

Rudes, selvagens, livres, vagabundos,

Gigantescos, erguidos nos pendores

Das altas serras sob os ceus profundos!...

Vejo-os além de mim, longe, na bruma,

Pelas encostas barbaras da serra...

E olham receiosos a nevada espuma

Dos abraços do Mar cingindo a Terra...

Vejo-os cavando o solo... E o trigo cresce... —Olha as searas de oiro, os fructos loiros!... As enxadas ao Sol,—olhai,—parece

Que scintilam no ar como tesoiros...

Vejo-os porfim á beira-Mar, um dia,

Ouvindo as ondas cérulas cantar...

E já os tenta uma visão que erguia

Aos olhos deles a canção do Mar...

Vam-se á floresta... Brilham os machados... E os troncos descem, mortos, sobre os rios... Ei-los, na foz que se erguem, espantados, Ei-los no ar, sam mastros de navios...

Depois,—ó dia grande!—eu vejo o Povo

da minha Terra á beira-mar chorando...

É o doirado romper dum tempo novo!

Sam as velas, ao longe, navegando!...

Pelo mar-fóra vão, pela aventura,

Levam sómente a graça do Senhor!

De azas abertas, pela noite escura,

Nem as detém o proprio Adamastor...

Vêde os mareantes, vêde os vagabundos, Percorrendo as longinquas solidões...

Dam ao mundo espantado novos mundos!.. Dam ao Futuro os versos de Camões!

Abrem a Edade-nova! E o mundo inteiro

Viu-se maior, mais rico ao despertar,

Pelo esforço do Povo-marinheiro

Que atravessára e dominára o Mar...

Grita em meu sangue a fúlgida epopeia,

Céga-me a luz a arder de tantos sois,

Sóbe do Mar da Gloria a maré cheia,

O Sol aureóla as frontes dos herois!

E entam em mim renasce o velho culto,

O antigo amor, a vida vencedora...

E em meus olhos ardentes passa o vulto

Duma Patria a sorrir como uma aurora.

Pulsa irrequieto, a arder, meu sangue novo. Rasga-se ao meu olhar um alto fim!...

E toda a alma heroica deste povo

Sinto-a sonhar e delirar em mim...

Ah! como é bela a Vida anciosa, inquieta, Ah! como é grande e belo navegar!

—Sou marinheiro porque sou Poeta,

—Vinde comigo, vamos para o Mar!

Ah! como é bela a ancia desmedida

Que nos dilata o peito, a estremecer,

E nos exalta e nos dilata a vida,

E nos levanta e diviniza o ser!

Ó meus avós—herois da Descobérta,

Quero ir convosco pelos mares fóra...

É a vossa alma que hoje em mim desperta É o vosso coração que eu sinto agora!

Vamos todos p'ra o Mar!... Se acaso o Mundo Estreito fôr p'ra tanta anciedade,

Vamos ás Indias que ha no céu profundo, Vamos cruzar, correr a Imensidade!...

Numa divina ancia erguei os braços,

Livre já das algemas, para o Céu!

—Ha muitos soes brilhando nos espaços,— Vamos roubá-los como Prometeu!...

Ha mundos novos pra arrancar á Treva,

Muitas venturas p'ra roubar á Dôr...

—Partamos todos numa ardente léva,

Erguendo ao alto pavilhões de Amôr!

No mar profundo e vasto do Futuro

Ha muitas Indias para descobrir...

Vamos abrir á luz o Oceano escuro,

Vamos tocar ás praias do Porvir!...

É embarcar e partir, com anciedade!

—Vamos buscar aos horisontes nóvos,

Indias-nóvas de Amor e liberdade,

E mais luz e justiça para os Póvos!...

É olhar o Passado!—Olhai-o vós

Com bons olhos de Amôr... E escutai!

—E toda a Historia que se escuta em nós, —Vêde a maré de gloria que ahi vai!

Deitai barcos ao Mar! Eh!—marinheiros!

Que esperais vós, entam?—Vá, embarcar!... —Nós somos inda os mesmos marinheiros, —É este ainda o mesmo antigo Mar!

O mundo é sempre novo,—ó meus amigos! E o Futuro é imenso e o Ideal...

—Embarquemos p'ra o Mar como os antigos,

—Que este é ainda o mesmo Portugal!

S. João do Campo—12 de Agosto, 1911.