Acho que Posso Ajudar
Acho Que Posso Ajudar
Acho Que
Posso Ajudar
— • —
David Machado
ilustrações de Mafalda Milhões
O vento começou a soprar de noite e quando a manhã chegou o vendaval levantava cabelos, folhas de
jornais e cães pequenos. A minha avó queixou-se de que não podia sair à rua porque o seu novo penteado
nunca sobreviveria. Eu pensei: “Acho que posso ajudar.” Porque eu gosto de ajudar. E eu sei que só
tenho oito anos, mas isso é outra história.
Para resolver o problema do vento, lembrei-me logo do barracão ao fundo do jardim da nossa casa.
Abri a porta do barracão e enchi o chão da entrada com folhas secas e sacos de plástico – ou seja, coisas às quais o vento não resiste quando passa. E fiquei à espera. Nem três minutos depois, o vento apareceu.
Não o vi, claro, mas vi o lixo que trazia arrastado. Vinha a soprar rua fora, como fazem os ventos, e de
repente travou num remoinho alucinado e desviou-se do seu caminho para avançar na direção da
garagem. Os sacos de plástico e as folhas saltaram como se alguém lhes tivesse dado um pontapé e no
instante seguinte o vento estava dentro do barracão. Eu corri, fechei a porta com força e prendi o vento lá
dentro.
Quando contei à minha avó o que tinha acontecido, ela riu-se. E parecia mesmo o fim da história. Só
que, dois dias mais tarde, alguém contou ao meu pai que o moleiro andava zangado com a vida porque
sem vento os moinhos no alto do monte estavam parados.
Eu pensei: “Acho que posso ajudar.” E fui falar com o monstro que vive debaixo da ponte, aquele que
assusta as crianças que passam por ali. Perguntei ao monstro se podia soprar as velas dos moinhos no
alto do monte. O monstro aceitou imediatamente, andava cansado de assustar crianças e queria muito
mudar de vida. E quando os moinhos começaram outra vez a rodar, o moleiro sorriu.
Uma semana depois passei pelos moinhos e encontrei o monstro com o ar mais triste deste mundo.
Perguntei-lhe se não estava satisfeito com o seu novo trabalho e ele respondeu que sim, mas tinha
saudades de pregar um valente susto a uma criança e ali não passava ninguém o dia todo. Eu disse-lhe:
– Acho que posso ajudar.
E lembrei-me logo do meu irmão mais novo.
Corri para casa. O meu irmão estava estendido no chão a fazer corridas com caricas. Disse-lhe:
– Descobri uma árvore que dá chocolate.
O meu irmão saltou e ficou de pé – ele adora chocolate.
– Onde? – quis saber.
– Atrás dos moinhos.
E logo de seguida o meu irmão saiu de casa disparado e pôs-se a subir o monte. Regressou uma hora
depois, com os olhos esbugalhados e a respirar como a locomotiva de um comboio.
Três dias mais tarde os efeitos do susto ainda duravam e o meu irmão passava os dias sempre a olhar
para trás, por cima do ombro, e as noites sem fechar os olhos, porque o escuro lhe metia um medo dos
diabos.
“Acho que posso ajudar”, pensei. E fui buscar uma lata de tinta e uma trincha de pintar paredes que o
meu avô tinha guardado na arrecadação. Passei dois dias a pintar de azul claro o céu preto da noite e,
quando finalmente o trabalho ficou pronto, não voltámos a ter mais noites escuras. O meu irmão sorriu.
Só que, na manhã seguinte, o meu pai leu no jornal que sem noite todas as criaturas noturnas, como as
corujas, as estrelas e os vampiros, se tinham ido embora. Era um problema dos grandes. As corujas
caçavam ratos e sem as corujas havia ratos a atravessar as ruas como se fossem turistas de verão. E as
estrelas, para além da beleza que dão ao céu, eram usadas pelas três bruxas que vivem no bosque para
cozinhar a famosa poção que faz voar as vassouras. Quanto aos vampiros… bom, a verdade é que
ninguém ficou muito triste com a ida dos vampiros.
Eu pensei nos ratos por todo o lado e depois pensei na falta que o pó das estrelas fazia às bruxas e
disse baixinho:
– Acho que posso ajudar.
Fui falar com as três irmãs que moram do outro lado rua. Perguntei-lhes se podiam emprestar as suas
bicicletas às bruxas, só até que o problema das vassouras que não voavam estivesse resolvido. As irmãs
responderam que emprestavam as bicicletas, mas só até domingo, porque no domingo iam fazer uma corrida. As bruxas sorriram os seus sorrisos de bruxas quando me viram aparecer com as bicicletas.
De seguida, para tratar do assunto dos ratos, fui a casa da dona Micaela, aquela senhora que tem
dezanove gatos em casa. Esperei que ela saísse e depois abri a porta das traseiras. Os gatos saíram
disparados em todas as direções e assim que viram os ratos a perseguição começou.
A história parecia muito perto do seu final.
Mas, depois, alguém anunciou que o palhaço que vende balões no parque estava a espirrar como se
tivesse três constipações em cima dele, só que não era constipação, era alergia ao pelo dos gatos. Corri
para lá e cheguei mesmo a tempo de o ver dar um espirro que fez as casas tremerem e o palhaço largar,
sem querer, os fios dos cinquenta e nove balões que tinha na mão. Os balões subiram devagar para o céu
e acabaram presos numa nuvem. E eu exclamei, alto, para que o palhaço me ouvisse:
– Acho que posso ajudar!
Muito perto dali havia um pinheiro enorme, quase como uma escada até ao espaço. Eu subi-o, ramo
por ramo, até chegar ao céu, e então estiquei o braço para apanhar os balões presos na nuvem. Só que a
nuvem não estava assim tão próxima do pinheiro e o meu braço era curto para alcançar os balões. Era
necessário que alguma coisa empurrasse a nuvem até ao pinheiro. E eu sabia exatamente que coisa era
essa. Estava dentro do barracão ao fundo do jardim da nossa casa.
Foi por isso que abri a porta do barracão e soltei o vento. Depois o vento empurrou a nuvem e eu
apanhei os balões e devolvi-os ao palhaço. E o palhaço sorriu. E de repente parecia outra vez o início de
tudo. Porque quando o vento regressou, o monstro voltou para debaixo da ponte. E com o vento veio a
chuva que apagou a tinta azul do céu da noite. E a noite trouxe de volta os vampiros, as corujas e as
estrelas. As bruxas voltaram a ter poeira de estrela para a sua poção de fazer voar vassouras. E as
corujas voltaram a caçar ratos e os gatos regressaram à casa da dona Micaela. Sem gatos, a alergia do
palhaço desapareceu e ele não voltou a largar os balões. Por outras palavras, tudo ficou outra vez como
estava.
Tudo, não. Porque as três bruxas nunca chegaram a devolver as bicicletas às três irmãs e em vez disso
deram-lhes as vassouras voadoras para elas usarem nas corridas ao domingo.
E o meu irmão continua com medo de monstros. Mas, também, quem é que não tem medo de monstros?
v5ECOvQt3y BKCIe5UJ5Z9Y=
Você terminou Acho que Posso Ajudar
David Machado
Livros como este
-
Contos Fantásticos
-
Serão inquieto: contos
-
Mysterio do Natal
-
Contos e Fantasias
-
Alexandre Herculano
-
Contos
Depois do livro
Páginas que vieram com esta edição, guardadas aqui para consulta.