Auto de Inês Pereira

Gil Vicente · Capítulo 1 de 8

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Auto de Inês Pereira

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Renego deste lavrar [2]

E do primeiro que o usou;

Ó diabo que o eu dou,

Que tão mau é d'aturar.

Oh Jesu! que enfadamento,

E que raiva, e que tormento,

Que cegueira, e que canseira!

Eu hei de buscar maneira

D'algum outro aviamento. [3]

Coitada, assi hei de estar

Encerrada nesta casa

Como panela sem asa,

Que sempre está num lugar?

E assi hão de ser logrados [4]

Dous dias amargurados,

Que eu possa durar viva?

E assim hei de estar cativa

Em poder de des ados? [5]

Antes o darei ao Diabo

Que lavrar mais nem pontada.

Já tenho a vida cansada

De fazer sempre dum cabo. [6]

Todas folgam, e eu não,

Todas vêm e todas vão

Onde querem, senão eu.

 Hui! e que pecado é o meu,

Ou que dor de coração?

Esta vida he mais que morta.

Sam eu coruja ou corujo,

Ou sam algum caramujo

Que não sai senão à porta?

E quando me dão algum dia

Licença, como a bugia, [7]

Que possa estar à janela,

É já mais que a Madanela

Quando achou a aleluía.

Vem a Mãe, e não na achando lavrando, diz:

MÃE

Logo eu adivinhei

Lá na missa onde eu estava,

Como a minha Inês lavrava

A tarefa que lhe eu dei...

Acaba esse travesseiro!

Hui! Nasceu-te algum unheiro?

Ou cuidas que é dia santo?

INÊS 

Praza a Deos que algum quebranto [8]

Me tire do cativeiro.

 MÃE 

Toda tu estás aquela!