Auto de Inês Pereira

Gil Vicente · Capítulo 2 de 8

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Auto de Inês Pereira

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Choram-te os lhos por pão?

INÊS 

Prouvesse a Deus!

Que já é razão de eu não estar tão singela.

MÃE 

Olhade ali o mau pesar... [9]

Como queres tu casar

Com fama de preguiçosa?

INÊS

Mas eu, mãe, sam aguçosa [10]

E vós dais-vos de vagar.

MÃE 

Ora espera assi, vejamos.

INÊS 

Quem já visse esse prazer!

MÃE

Cal'-te, que poderá ser

Que «ame a Páscoa vêm os Ramos».

Não te apresses tu, Inês. «Maior é o ano que o mês»:

Quando te não precatares,

Virão maridos a pares,

E lhos de três em três.

INÊS

Quero-m'ora alevantar.

Folgo mais de falar nisso,

Assi me dê Deos o paraíso,

Mil vezes que não lavrar Isto não sei que me faz

MÃE 

Aqui vem Lianor Vaz.

INÊS 

E ela vem-se benzendo...

(Entra Lianor Vaz)

LIANOR

Jesu a que me eu encomendo!

Quanta cousa que se faz!

MÃE 

Lianor Vaz, que é isso?

LIANOR 

Venho eu, mana, amarela?

MÃE 

Mais ruiva que uma panela.

LIANOR

Não sei como tenho siso!

Jesu! Jesu! que farei?

Não sei se me vá a el-Rei,

Se me vá ao Cardeal.

MÃE 

Como? e tamanho é o mal?

LIANOR

Tamanho? eu to direi:

Vinha agora pereli

Ó redor da minha vinha,

E hum clérigo, mana minha,

Pardeos, lançou mão de mi;

Não me podia valer

Diz que havia de saber

S'era eu fêmea, se macho.

MÃE 

Hui! seria algum muchacho,

Que brincava por prazer?

LIANOR

Si, muchacho sobejava

 Era hum zote [11] tamanhouço!

Eu andava no retouço, [12]

Tão rouca que não falava.

Quando o vi pegar comigo,

Que m'achei naquele p'rigo:

— Assolverei! — não assolverás!

— Tomarei! — não tomarás!

— Jesu! homem, qu'has contigo?

— Irmã, eu te assolverei

Co breviairo de Braga. —

Que breviairo, ou que praga!

Que não quero: aqui d'el-Rei!

— Quando viu revolta a voda,

Foi e esfarrapou-me toda

O cabeção da camisa.

 MÃE

Assi me fez dessa guisa

Outro, no tempo da poda.

Eu cuidei que era jogo,

E ele... dai-o vós ao fogo!

Tomou-me tamanho riso,

Riso em todo meu siso,

E ele leixou-me logo.

 LIANOR

Si, agora, eramá,

Também eu me ria cá

Das cousas que me dizia:

Chamava-me «luz do dia».

— «Nunca teu olho verá!»

— Se estivera de maneira

Sem ser rouca, bradar'eu;

Mas logo m'o demo deu

Catarrão e peitogueira,

Cócegas e cor de rir,

E coxa pera fugir,

E fraca pera vencer:

Porém pude-me valer

Sem me ninguém acudir...

O demo (e não pode al ser)

Se chantou [13] no corpo dele.

MÃE 

Mana, conhecia-te ele?

 LIANOR 

Mas queria-me conhecer!

MÃE 

Vistes vós tamanho mal?

LIANOR

Eu mirei ao Cardeal,

E far-lhe-ei assi mesura,

E contar-lhe-ei a aventura

Que achei no meu olival.

MÃE 

Não estás tu arranhada,

De te carpir, nas queixadas?

LIANOR 

Eu tenho as unhas cortadas,

E mais estou tosquiada:

E mais pera que era isso?

E mais pera que é o siso?

E mais no meio da requesta [14]

Veio hum homem de hüa besta,

Que em vê-lo vi o p'raíso,

E soltou-me, porque vinha

Bem contra sua vontade.

Porém, a falar a verdade,

Já eu andava cansadinha:

Não me valia rogar

Nem me valia chamar:

— «Aque de Vasco de Fois,

Acudi-me, como sois!»

E ele... senão pegar:

— Mais mansa, Lianor Vaz,

Assi Deus te faça santa.

— Trama [15] te dê na garganta!

Como! isto assi se faz?

— Isto não revela nada...

— Tu não vês que são casada?

MÃE 

Deras-lhe, má hora, boa,

E mordera-lo na coroa.

LIANOR

Assi! fora excomungada.

Não lhe dera um empuxão,

Porque sou tão maviosa, [16]

Que é cousa maravilhosa.

E esta é a concrusão.

Leixemos isto.

Eu venho

Com grande amor que vos tenho,

Porque diz o exemplo antigo

Que a amiga e bom amigo

Mais aquenta que o bom lenho.

Inês está concertada

Pera casar com alguém?

MÃE

Até `gora com ninguém

Não é ela embaraçada.

LIANOR 

Eu vos trago um casamento

Em nome do anjo bento.

Filha, não sei se vos praz.

INÊS 

E quando, Lianor Vaz?

LIANOR 

Eu vos trago aviamento.

INÊS

Porém, não hei de casar

Senão com homem avisado

Ainda que pobre e pelado,

Seja discreto em falar

LIANOR

Eu vos trago um bom marido,

Rico, honrado, conhecido.

Diz que em camisa [17] vos quer

INÊS 

Primeiro eu hei de saber

Se é parvo, se sabido.

LIANOR

Nesta carta que aqui vem

Pera vós,

lha, d'amores,

Veredes vós, minhas ores,

A discrição que ele tem.

 INÊS 

Mostrai-ma cá, quero ver

 LIANOR 

Tomai. E sabedes vós ler?

MÃE 

Hui! e ela sabe latim

E gramática e alfaqui [18]

E tudo quanto ela quer!

INÊS 

(lê a carta)

«Senhora amiga Inês Pereira,

Pêro Marquez, vosso amigo,

Que ora estou na nossa aldea,

Mesmo na vossa mercea

M'encomendo.

E mais digo,

Digo que benza-vos Deos,

Que vos fez de tão bom jeito.

Bom prazer e bom proveito

Veja vossa mãe de vós.

Ainda que eu vos vi

Est'outro dia folgar

E não quisestes bailar,

Nem cantar presente mi...»

INÊS

Na voda de seu avô,

Ou onde me viu ora ele?

Lianor Vaz, este é ele?

 LIANOR

Lede a carta sem dó,

Que inda eu são contente dele.

Prossegue Inês Pereira a carta:

«Nem cantar presente mi.

Pois Deos sabe a rebentinha [19]

Que me zestes então.

Ora, Inês, que hajais bênção

De vosso pai e a minha,

Que venha isto a concrusão.

E rogo-vos como amiga,

Que samicas vós sereis,

Que de parte me faleis

Antes que outrem vo-lo diga.

E, se não ais de mi,

Esteja vossa mãe aí,

E Lianor Vaz de presente.

Veremos se sois contente

Que casemos na boa hora.»

 INÊS

Des que nasci até agora

Não vi tal vilão com'este,

Nem tanto fora de mão!

LIANOR

 Não queirais ser tão senhora.

Casa, lha, que te preste,

Não percas a ocasião.

Queres casar a prazer

No tempo d'agora, Inês?

Antes casa, em que te pês, [20]

Que não é tempo d'escolher.

Sempre eu ouvi dizer:

«Ou seja sapo ou sapinho,

Ou marido ou maridinho,

Tenha o que houver mister.»

Este é o certo caminho.

MÃE

Pardeus, amiga, essa é ela!

«Mata o cavalo de sela

E bom é o asno que me leva».

Filha, «no Chão de Couce

Quem não puder andar choute.» [21]

E: «mais quero eu quem m'adore

Que quem faça com que chore».

Chamá-lo-ei, Inês?

INÊS 

Si. Venha e veja-me a mi.

Quero ver quando me vir

Se perderá o presumir

Logo em chegando aqui,

Pera me fartar de rir.

MÃE 

Touca-te, se cá vier

Pois que pera casar anda.

INÊS 

Essa é boa demanda!

Cerimónias há mister

Homem que tal carta manda?

Eu o estou cá pintando:

Sabeis, mãe, que eu adivinho?

Deve ser um vilãozinho

Ei-lo, se vem penteando:

Será com algum ancinho?

Aqui vem Pêro Marques, vestido como lho de lavrador rico, com um gabão azul deitado ao ombro, com o capelo por diante, e vem dizendo:

PÊRO

Homem que vai aonde eu vou

Não se deve de correr

Ria embora quem quiser

Que eu em meu siso estou.

Não sei onde mora aqui...

Olhai que m'esquece a mi!

Eu creo que nesta rua...

E esta parreira é sua.

Já conheço que é aqui.

Chega Pêro Marques aonde elas estão, e diz:

Digo que esteis muito embora.

Folguei ora de vir cá...

Eu vos escrevi de lá

Üa cartinha, senhora...

E assi que de maneira...

MÃE 

Tomai aquela cadeira.

PÊRO 

E que val aqui uma destas?

INÊS

(Ó Jesu! que João das bestas!

Olhai aquela canseira!)

Assentou-se com as costas pera elas, e diz:

PÊRO 

Eu cuido que não estou bem...

MÃE 

Como vos chamais, amigo?

PÊRO

Eu Pêro Marques me digo,

Como meu pai que Deos tem.

Faleceu, perdoe-lhe Deos,

Que fora bem escusado,

E camos dous eréos. [22]

Porém meu é o mor gado.

MÃE 

De morgado é vosso estado?

Isso viria dos céus.

PÊRO 

Mais gado tenho eu já quanto,

E o mor de todo o gado,

Digo maior algum tanto.

E desejo ser casado,

Prouguesse ao Espírito Santo,

Com Inês, que eu me espanto

Quem me fez seu namorado.

Parece moça de bem,

E eu de bem, er também.

Ora vós er ide vendo

Se lhe vem milhor ninguém,

A segundo o que eu entendo.

Cuido que lhe trago aqui

Peras da minha pereira...

Hão de estar na derradeira.

Tende ora, Inês, per i.

INÊS 

E isso hei de ter na mão?

PÊRO 

Deitae as peas [23] no chão.

INÊS

As perlas pera en ar...

Três chocalhos e um novelo...

E as peias no capelo...

E as pêras? Onde estão?

PÊRO

Nunca tal me aconteceu!

Algum rapaz m'as comeu...

Que as meti no capelo,

E cou aqui o novelo,

E o pente não se perdeu.

Pois trazia-as de boa mente...

INÊS

Fresco vinha aí o presente

Com folhinhas borrifadas!

PÊRO

Não, que elas vinham chentadas [24]

Cá em fundo no mais quente.

Vossa mãe foi-se? Ora bem...

Sós nos leixou ela assi?...

Cant'eu quero-me ir daqui,

Não diga algum demo alguém...

INÊS

Vós que me havíeis de fazer?

Nem ninguém que há de dizer?

(O galante despejado!).

PÊRO

Se eu fora já casado,

D'outra arte havia de ser

Como homem de bom recado.

INÊS

(Quão desviado este está!

Todos andam por caçar

Suas damas sem casar

E este... tomade-o lá!).

PÊRO 

Vossa mãe é lá no muro?

INÊS

Minha mãe eu vos seguro

Que ela venha cá dormir

 PÊRO 

Pois, senhora, eu quero-me ir

Antes que venha o escuro.

INÊS 

E não cureis mais de vir.

PÊRO 

Virá cá Lianor Vaz,

Veremos que lhe dizeis...

INÊS 

Homem, não apor eis,

Que não quero, nem me apraz.

Ide casar a Cascais.

PÊRO 

Não vos anojarei mais,

Ainda que saiba estalar;

E prometo não casar

Até que vós não queirais.

 (Pêro vai-se, dizendo:)

Estas vos são elas a vós:

Anda homem a gastar calçado,

E quando cuida que é aviado,

Escarnefucham [25] de vós!

Creo que lá ca a pea... 

Pardeus! Bô ia eu à aldeia!

(Voltando atrás)

Senhora, cá ca o fato?

INÊS 

Olhai se o levou o gato...

PÊRO

Inda não tendes candea?

Ponho per cajo que alguém

Vem como eu vim agora,

E vos acha só a tal hora:

Parece-vos que será bem?

Ficai-vos ora com Deos:

Çarrai a porta sobre vós

Com vossa candeazinha.

E sicais [26] sereis vós minha,

Entonces veremos nós...

(Vai-se Pêro Marques e diz Inês Pereira:)

INÊS 

Pessoa conheço eu

Que levara outro caminho...

Casai lá com um vilãozinho,

Mais covarde que um judeu!

Se fora outro homem agora,

E me topara a tal hora,

Estando assi às escuras,

Dissera-me mil doçuras,

Ainda que mais não fora...

(Vem a Mãe e diz:)

MÃE 

Pêro Marques foi-se já?

INÊS 

E pera que era ele aqui?

MÃE 

E não t'agrada ele a ti?

INÊS

Vá-se muitieramá! [27]

Que sempre disse e direi:

Mãe, eu me não casarei

Senão com homem discreto,

E assi vo-lo prometo

Ou antes o leixarei.

Que seja homem mal feito,

Feio, pobre, sem feição,

Como tiver discrição,

Não lhe quero mais proveito.

E saiba tanger viola,

E coma eu pão e cebola.

Siquer uma cantiguinha!

Discreto, feito em farinha, [28]

Porque isto me degola. [29]

MÃE 

Sempre tu hás de bailar

E sempre ele há de tanger?

Se não tiveres que comer

O tanger te há de fartar?

INÊS 

Cada louco com sua teima.

Com uma borda de boleima [30]

E uma vez d'água fria,

Não quero mais cada dia.

MÃE 

Como às vezes isso queima!

E que é desses escudeiros?

INÊS

Eu falei ontem ali

Que passaram por aqui

Os judeos casamenteiros

E hão de vir agora aqui.

Aqui entram os Judeus casamenteiros, um, Latão, e outro, Vidal e diz:

LATÃO 

Ou de cá!

INÊS 

Quem está lá?

VIDAL 

Nome del Deus, aqui somos!

LATÃO 

Não sabeis quão longe fomos!

VIDAL 

Corremos a iramá. [31]

Este e eu.

LATÃO 

Eu, e este...

VIDAL

Pola lama e polo pó,

Que era pera haver dó,

Com chuva, sol e Nordeste.

Foi a coisa de maneira,

Tal friúra e tal canseira,

Que trago as tripas maçadas.

Assi me fadem boas fadas

Que me saltou caganeira!

Pera vossa mercê ver

O que nos encomendou.

LATÃO 

O que nos encomendou

Será o que hoiver de ser

Todo este mundo é fadiga

Vós dixestes, iha amiga,

Que vos buscássemos logo...

VIDAL 

E logo pujemos fogo...

LATÃO 

Cala-te!

VIDAL

Não queres que diga?

Não fui eu também contigo?

Tu e eu não somos eu?

Tu judeu e eu judeu,

Não somos massa dum trigo?

LATÃO 

Leixa-me falar.

VIDAL

Já calo.

Senhora, fomos... agora falo,

Ou falas tu?

LATÃO

Dize, que dizias?

Que foste, que fomos, que ias

Buscá-lo, esgravatá-lo...

VIDAL

Vós, amor, quereis marido

Mui discreto, e de viola?

LATÃO

Esta moça não é tola,

Que quer casar per sentido...

VIDAL 

Judeu, queres-me leixar?

LATÃO 

Leixo, não quero falar

VIDAL 

Buscámo-lo...

LATÃO

Demo foi logo!

Crede que o vosso rogo

Vencerá o Tejo e o mar [32]

Eu cuido que falo e calo...

Calo eu agora ou não?

Ou falo se vem à mão?

Não digas que não te falo.

INÊS 

Jesu! Guarde-me ora Deus!

Não falará um de vós?

Já queria saber isso...

MÃE 

Que siso, Inês, que siso

Tens debaixo desses véus...

INÊS 

Diz o exemplo da velha:

 «O que não haveis de comer

Leixai-o a outrem mexer».

MÃE 

Eu não sei quem t'aconselha...

INÊS 

En m, que novas trazeis?

VIDAL 

O marido que quereis,

De viola e dessa sorte,

Não no há senão na corte

Que cá não no achareis.

Falámos a Badajoz,

Músico, discreto, solteiro.

Este fora o verdadeiro,

Mas soltou-se-nos da noz.

Fomos a Vilhacastim

E falou-nos em latim: 

— «Vinde cá daqui a uma hora,

E trazei-me essa senhora».

INÊS 

Assi que é tudo nada en m!

VIDAL 

Esperai, aguardai ora!

Soubemos dum escudeiro

De feição d'atafoneiro [33]

Que virá logo essora,

Que fala... e com' ora fala!

Estrugirá [34] esta sala.

E tange... e com' ora tange!

E alcança quanto abrange,

E se preza bem da gala.

Vem o Escudeiro, com seu Moço, que lhe traz uma viola, e diz, falando só:

ESCUDEIRO

Se esta senhora é tal

Como os Judeus ma gabaram,

Certo os anjos a pintaram,

E não pode ser i al.

Diz que os olhos com que via

Foram de Santa Luzia,

Cabelos, da Madanela...

Se fosse moça tão bela,

Como donzela seria?

Moça de vila será ela

Com sinalzinho postiço,

E sarnosa no toutiço,

Como burra de Castela.

Eu, assi como chegar

Cumpre-me bem atentar

Se é garrida, se honesta,

Porque o milhor da festa

É achar siso e calar.

(Falando para Inês:)

MÃE 

Se este escudeiro há de vir

E é homem de discrição,

Hás-te de pôr em feição,

De falar pouco e não rir

E mais, Inês, não muito olhar

E muito chão o menear

Por que te julguem por muda,

Porque a moça sesuda

É uma perla pera amar.

(Falando para o criado:)

ESCUDEIRO 

Olha cá, Fernando, eu vou

Ver a com que hei de casar.

Avisa-te, que hás de estar

Sem barrete onde eu estou.

MOÇO 

(Como a rei! Corpo de mi!

Mui bem vai isso assi...)

ESCUDEIRO 

E, se cuspir, pola ventura,

Põe-lhe o pé e faz mesura.

MOÇO 

(Ainda eu isso não vi!)

ESCUDEIRO

E se me vires mentir

Gabando-me de privado,

Está tu dissimulado,

Ou sai-te pera fora a rir

Isto te aviso daqui,

Faze-o por amor de mi.

MOÇO 

Porém, senhor digo eu

Que mau calçado é o meu

Pera estas vistas assi.

ESCUDEIRO 

Que farei, que o sapateiro

Não tem solas nem tem pele?

MOÇO 

Sapatos me daria ele,

Se me vós désseis dinheiro...

ESCUDEIRO 

Eu o haverei agora.

E mais calças te prometo.

MOÇO 

(Homem que não tem nem preto,

Casa muito na má hora.)

Chega o Escudeiro onde está Inês Pereira, e levantam-se todos, e fazem suas mesuras, e diz o Escudeiro:

ESCUDEIRO

Antes que mais diga agora,

Deus vos salve, fresca rosa,

E vos dê por minha esposa,

Por mulher e por senhora;

Que bem vejo

Nesse ar, nesse despejo,

Mui graciosa donzela,

Que vós sois, minha alma, aquela

Que eu busco e que desejo.

Obrou bem a Natureza

Em vos dar tal condição

Que amais a discrição

Muito mais que a riqueza.

Bem parece

Que a discrição merece

Gozar vossa fermosura,

Que é tal que, de ventura,

Outra tal não se acontece.

Senhora, eu me contento

Receber vos como estais:

Se vós vos não contentais,

O vosso contentamento

Pode falecer no mais.

LATÃO 

(Como fala!

VIDAL

E ela como se cala!

Tem atento o ouvido...

Este há de ser seu marido,

Segundo a coisa s'abala.)

ESCUDEIRO

Eu não tenho mais de meu,

Somente ser comprador

Do Marichal meu senhor

E são escudeiro seu.

Sei bem ler

E muito bem escrever

E bom jogador de bola,

E quanto a tanger viola,

Logo me vereis tanger

Moço, que estais lá olhando?

MOÇO 

Que manda

Vossa Mercê?

ESCUDEIRO 

Que venhais cá.

MOÇO 

Pera quê?

ESCUDEIRO 

Por que faças o que eu mando!

MOÇO

Logo vou.

(O Diabo me tomou:

Sair me de João Montês

Por servir um tavanês [35]

Mor doudo que Deus criou!)

ESCUDEIRO 

Fui despedir um rapaz

Que valia Perpinhão, [36]

Por tomar este ladrão. Moço!

MOÇO 

Que vos praz?

ESCUDEIRO 

A viola.

MOÇO

(Oh! como cará tola

Se não fosse casar ante

Co mais cafeo [37] bargante [38]

Que coma pão e cebola!).

Ei-la aqui bem temperada,

Não tendes que temperar

ESCUDEIRO

Faria bem de ta quebrar

Na cabeça bem migada! [39]

MOÇO

E se ela é emprestada,

Quem na havia de pagar?

Meu amo, eu quero m'ir….

ESCUDEIRO

E quando queres partir?

MOÇO

Ante que venha o inverno,

Porque vós não dais governo

Pera vos ninguém servir

ESCUDEIRO

Não dormes tu que te farte?

MOÇO 

No chão, e o telhado por manta...

E çarra-se m'a garganta

Com fome.

ESCUDEIRO 

Isso tem arte... [40]

MOÇO 

Vós sempre zombais assi.

ESCUDEIRO

Oh que boas vozes tem

Esta viola aqui

Leixa-me casar a mi,

Depois eu te farei bem.

MÃE

Agora vos digo eu

Que Inês está no Paraíso!

INÊS

Que tendes de ver co isso?

Todo o mal há de ser meu.

MÃE

 Quanta doudice!

INÊS

Oh! como é seca a velhice!

Leixai-me ouvir e folgar,

Que não me hei de contentar

De casar com parvoíce.

Pode ser maior riqueza

Que um homem avisado?[41]

MÃE

Muitas vezes, mal pecado, [42]

é milhor boa simpreza. [43]

LATÃO

Ora oivi, e oivireis.

Escudeiro, cantareis

Alguma boa cantadela.

Namorai esta donzela

E esta cantiga direis:

Canta o Judeu:

«Canas do amor, canas,

canas do amor

Polo longo dum rio

Canaval está orido,

Canas do amo.»

Canta o Escudeiro o romance «Mal me quieren en Castilla» e diz Vidal:

VIDAL

Latão, já o sono é comigo

Como oivo cantar guaiado, [44]

Que não vai esfandegado... [45]

LATÃO

Esse é o Demo que eu digo!

Viste cantar Dona Sol:

Pelo mar voy a vela,

Vela vay pelo mar?

VIDAL

Filha Inês, assi vivais

Que tomeis esse senhor

Escudeiro cantador

E caçador de pardais,

Sabedor revolvedor

Falador gracejador

Afoitado [46] pela mão,

E sabe de gavião... [47]

Tomai-o por meu amor.

Podeis topar um rabugento,

Desmazelado, baboso,

Descancarado,[48] brigoso,

Medroso, carapatento. [49]

Este escudeiro, aosadas, [50]

Onde se derem pancadas,

Ele as há de levar

Boas, senão apanhar..

Nele tendes boas fadas.

MÃE

Quero rir com toda a mágoa

Destes teus casamenteiros!

Nunca vi Judeus ferreiros

Aturar tão bem a fragoa. [51]

Não te é milhor mal por mal,

Inês, um bom o cial,

Que te ganhe nessa praça,

Que é um escravo de graça,

E mais casas com teu igual?

LATÃO

Senhora, perdei cuidado:

O que há de ser há de ser;

E ninguém pode tolher

O que está determinado.

VIDAL

Assi diz Rabi Zarão.

MÃE 

Inês, guar'-te de rascão! [52]

Escudeiro queres tu?

INÊS

Jesu, nome de Jesu!

Quão fora sois de feição!

Já minha mãe adivinha...

Folgastes vós na verdade

Casar à vossa vontade?

Eu quero casar à minha.

MÃE

Casa, lha, muit'embora.

ESCUDEIRO

Dai-me essa mão, senhora.

INÊS

Senhor de mui boa mente.

ESCUDEIRO

Per palavras de presente

Vos recebo desd'agora.

Nome de Deus, assi seja!

Eu, Brás da Mata, Escudeiro,

Recebo a vós, Inês Pereira

Por mulher e por parceira

Como manda a Santa Igreja.

INÊS

Eu, aqui diante Deus,

Inês Pereira, recebo a vós,

Sem mais preço nem demanda

Como sancta Igreja manda

A Brás da Mata,

Ahi somos nós. [53]

VIDAL

Alça manim, ó dona, ha! [54]

Arreia espeçulá. [55]

Bento o Deu de Jacob,

Bento o Deu que a Faraó

MÃE

Espantou e espantará.

Bento o Deu de Abraão,

Benta a terra de Canã.[56]

Para bem sejais casados!

Dai-nos cá senhos [57] ducados.

MÃE

Amanhã vo-los darão.

Pois assi é, bem será

Que não passe isto assi.

Eu quero chegar ali

Chamar meus amigos cá,

E cantarão de terreiro.

ESCUDEIRO 

Oh! quem me fora solteiro!

INÊS 

Já vós vos arrependeis?

ESCUDEIRO

Ó esposa, não faleis,

Que casar é cativeiro.

Aqui vem a Mãe com certas moças e mancebos pera fazerem a festa, e diz uma delas, per nome Luzia:

LUZIA

Inês, por teu bem te seja!

Oh! que esposo e que alegria!

INÊS 

Venhas embora, Luzia,

E cedo t'eu assi veja.

MÃE 

Ora vae tu ali, Inês,

E bailareis três por três.

FERNANDO 

Tu connosco, Luzia, aqui,

E a desposada ali,

Ora vede qual direis.

Cantam todos a cantiga que se segue:

«Mal herida va la garça Enamorada,

Sola va y gritos dava.

A las orillas de um rio

La garça tenia el nido;

Ballestero la ha herido

En el alma;

Sola va y gritos dava.»

E, acabando de cantar e bailar diz Fernando:

FERNANDO

Ora, senhores honrados,

Ficai com vossa mercê,

E nosso Senhor vos dê

Com que vivais descansados.

Isto foi assi agora,

Mas melhor será outr'hora.

Perdoai pelo presente:

Foi pouco e de boa mente.

Com vossa mercê, Senhora...

LUZIA

Ficai com Deus, desposados,

Com prazer e com saúde,

E sempre Ele vos ajude

Com que sejais bem logrados.

MÃE

Ficai com Deus, lha minha,

Não virei cá tão asinha. [58]

A minha bênção hajais.

Esta casa em que cais

Vos dou, e vou-me à casinha.

Senhor lho e senhor meu,

Pois que já Inês é vossa,

Vossa mulher e esposa,

Encomendo-vo-la eu.

E, pois que des que naceu

A outrem não conheceu,

Senão a vós, por senhor

Que lhe tenhais muito amor

Que amado sejais no céu.

Ida a Mãe, ca Inês Pereira e o Escudeiro. E senta-se Inês Pereira a lavrar e canta esta cantiga:

INÊS 

Si no os huviera mirado

No penara,

Pêro tampoco os mirara.

O Escudeiro, vendo cantar Inês Pereira, mui agastado lhe diz:

ESCUDEIRO

Vós cantais, Inês Pereira?

Em vodas m'andáveis vós?

Juro ao corpo de Deus

Que esta seja a derradeira!

Se vos eu vejo cantar

Eu vos farei assoviar...

INÊS

Bofé, senhor meu marido,

Se vós disso sois servido,

Bem o posso eu escusar.

ESCUDEIRO

Mas é bem que o escuseis,

E outras cousas que não digo!

INÊS 

Porque bradais vós comigo?

ESCUDEIRO

Será bem que vos caleis.

E mais, sereis avisada

Que não me respondais nada,

Em que ponha fogo a tudo, [59]

Porque o homem sesudo

Traz a mulher sopeada. [60]

Vós não haveis de falar

Com homem nem mulher que seja;

Nem somente ir à igreja

Não vos quero eu leixar

Já vos preguei as janelas,

Por que não vos ponhais nelas.

Estareis aqui encerrada

Nesta casa, tão fechada

Como freira d'Oudivelas.

INÊS

Que pecado foi o meu?

Porque me dais tal prisão?

ESCUDEIRO

Vós buscastes discrição…

Que culpa vos tenho eu?

Pode ser maior aviso,

Maior discrição e siso

Que guardar o meu tisouro?

Não sois vós, mulher meu ouro?

Que mal faço em guardar isso?

Vós não haveis de mandar

Em casa somente um pelo.

 Se eu disser:

— Isto é novelo

— Havei-lo de con rmar

E mais quando eu vier

 De fora, haveis de tremer;

E cousa que vós digais

Não vos há de valer mais

Que aquilo que eu quiser.

(para o criado)

Moço, às Partes d'Além [61]

Me vou fazer cavaleiro.

MOÇO 

(Se vós tivésseis dinheiro

Não seria senão bem...)

ESCUDEIRO

Tu hás de car aqui.

Olha, por amor de mi,

O que faz tua senhora:

Fechá-la-ás sempre de fora.

(para Inês)

Vós lavrai, cai per i.

MOÇO

Co dinheiro que leixais

Não comerei eu galinhas...

ESCUDEIRO

 Vae-te tu por essas vinhas,

Que diabo queres mais?

MOÇO

Olhai, olhai, como rima!

E depois de ida a vindima?

ESCUDEIRO

Apanha desse rabisco. [62]

MOÇO

 Pesar ora de São Pisco!

Convidarei minha prima...

E o rabisco acabado,

Ir me-ei espojar às eiras?

ESCUDEIRO 

Vai-te per essas gueiras,

E farta-te, desmazelado!

MOÇO 

Assi?

ESCUDEIRO

Pois que cuidavas?

E depois virão as favas.

Conheces túbaras da terra?

MOÇO

I-vos vós, embora, à guerra,

Que eu vos guardarei oitavas... [63]

Ido o Escudeiro, diz o Moço:

MOÇO

Senhora, o que ele mandou

Não posso menos fazer.

INÊS

Pois que te dá de comer

Faze o que t'encomendou.

MOÇO

Vós fartai-vos de lavrar

Eu me vou desenfadar

Com essas moças lá fora:

Vós perdoai-me, senhora,

Porque vos hei de fechar.

Aqui ca Inês Pereira só, fechada, lavrando e cantando esta cantiga:

INÊS

«Quem bem tem e mal escolhe

Por mal que lhe venha não s'anoje.»

Renego da discrição

Comendo ò demo o aviso,

Que sempre cuidei que nisso

Estava a boa condição.

Cuidei que fossem cavaleiros

Fidalgos e escudeiros,

Não cheios de desvarios,

E em suas casas macios,

E na guerra lastimeiros. [64]

Vede que cavalaria,

Vede que já mouros mata

Quem sua mulher maltrata!

Sem lhe dar de paz um dia!

Sempre eu ouvi dizer

Que o homem que isto zer

Nunca mata drago [65] em vale

Nem mouro que chamem Ale: [66]

E assi deve de ser.

Juro em todo meu sentido

Que se solteira me vejo,

Assi como eu desejo,

Que eu saiba escolher marido,

À boa fé, sem mau engano,

Pací co todo o ano,

E que ande a meu mandar

Havia m'eu de vingar

Deste mal e deste dano!

Entra o Moço como uma carta de Arzila, e diz:

MOÇO

Esta carta vem d'Além

Creio que é de meu senhor.

INÊS

Mostrai cá, meu guarda-mor

E veremos o que i vem.

Lê o sobrescrito:

 «À mui prezada senhora Inês Pereira da Grã,

À senhora minha irmã.»

De meu irmão...Venha embora!

MOÇO

Vosso irmão está em Arzila?

Eu apostarei que i vem

Nova de meu senhor também.

INÊS 

Já ele partiu de Tavila?

MOÇO 

Há três meses que é passado.

INÊS

Aqui virá logo recado

Se lhe vai bem, ou que faz.

MOÇO 

Bem pequena é a carta assaz!

INÊS 

Carta de homem avisado.

Lê Inês Pereira a carta, a qual diz:

«Muito honrada irmã,

Esforçai o coração

E tomai por devação

De querer o que Deus quiser.»

E isto que quer dizer?

«E não vos maravilheis

De cousa que o mundo faça,

Que sempre nos embaraça

Com cousas. Sabei que indo

Vosso marido fugindo

Da batalha pera a vila,

A meia légua de Arzila,

O matou um mouro pastor.»

MOÇO 

Ó meu amo e meu senhor!

INÊS

Dai-me vós cá essa chave

E i buscar vossa vida.

MOÇO

Oh que triste despedida!

INÊS

Mas que nova tão suave!

Desatado é o nó.

Se eu por ele ponho dó,

O Diabo me arrebente!

Pera mim era valente,

E matou-o um mouro só!

Guardar de cavaleirão,

Barbudo, repetenado, [67]

Que em gura de avisado

É malino e sotrancão. [68]

Agora quero tomar

Pera boa vida gozar,

Um muito manso marido.

Não no quero já sabido,

Pois tão caro há de custar.

Aqui vem Lianor Vaz, e nge Inês Pereira estar chorando, e diz Lianor:

LIANOR 

Como estais, Inês Pereira?

INÊS 

Muito triste, Lianor Vaz.

LIANOR 

Que fareis ao que Deus faz?

INÊS 

Casei por minha canseira.

LIANOR 

Se caste prenhe basta.

INÊS 

Bem quisera eu dele casta, [69]

Mas não quis minha ventura.

LIANOR

Filha, não tomeis tristura,

Que a morte a todos gasta.

O que havedes de fazer?

Casade-vos, lha minha.

INÊS

Jesu! Jesu! Tão asinha!

Isso me haveis de dizer?

Quem perdeu um tal marido,

Tão discreto e tão sabido,

E tão amigo de minha vida?

LIANOR

 Dai isso por esquecido,

E buscai outra guarida.

Pêro Marques tem, que herdou,

Fazenda de mil cruzados.

Mas vós quereis avisados...

INÊS

Não! já esse tempo passou.

Sobre quantos mestres são

Experiência dá lição.

LIANOR

Pois tendes esse saber

Querei ora a quem vos quer

Dai ò demo a opinião.

Vai Lianor Vaz por Pêro Marques, e ca Inês Pereira só, dizendo:

INÊS 

Andar! Pêro Marques seja.

Quero tomar por esposo

Quem se tenha por ditoso

De cada vez que me veja.

Por usar de siso mero,

Asno que me leve quero,

E não cavalo folão.

Antes lebre que leão,

Antes lavrador que Nero.

Vem Lionor Vaz com Pêro Marquez e diz Lianor Vaz:

LIANOR 

Nô mais cerimónias agora;

Abraçai Inês Pereira

Por mulher e por parceira.

PÊRO 

Há homem empacho, [70]

má-hora, Cant'a dizer abraçar;

Depois que a eu usar 

Entonces poderá ser:

INÊS 

(Não lhe quero mais saber

Já me quero contentar..).

LIANOR 

Ora dai-me essa mão cá.

Sabeis as palavras, si?

PÊRO 

Ensinaram-mas a mi,

Porém esquecem-me já...

LIANOR 

Ora dizei como digo.

PÊRO

E tendes vós aqui trigo

Pera nos jeitar por riba?

LIANOR 

Inda é cedo... Como rima!

PÊRO

Soma, vós casais comigo,

E eu com vosco, pardelhas! [71]

Não cumpre aqui mais falar

E quando vos eu negar

Que me cortem as orelhas.

LIANOR 

Vou-me, cai-vos embora.

INÊS 

Marido, sairei eu agora,

Que há muito que não saí?

PÊRO 

Si, mulher saí-vos i,

Qu'eu me irei pera fora.

INÊS 

Marido, não digo isso.

PÊRO 

Pois que dizeis vós, mulher?

INÊS 

Ir folgar onde eu quiser

PÊRO

I onde quiserdes ir,

Vinde quando quiserdes vir

Estai onde quiserdes estar.

Com que podeis vós folgar

Qu'eu não deva consentir?

Vem um Ermitão a pedir esmola, que em moço lhe quis bem, e diz:

Soledad. Pues su siervo soy nacido.

Por ejemplo, Me meti en su santo templo

Ermitaño en pobre ermita,

Fabricada de in nita Tristeza en que contemplo,

Adonde rezo mis horas

Y mis dias y mis años,

Mis servicios y mis daños,

Donde tu, mi alma, Iloras

El n de tantos engaños.

Y acabando Las horas, todas llorando,

Tomo las cuentas una y una,

Con que tomo a la fortuna

Cuenta del mal en que ando,

Sin esperar paga alguna.

Y ansi sin esperanza

De cobrar lo merecido,

Sirvo alli mis dias

Cupido

Con tanto amor sin mudanza,

Que soy su santo escogido.

Ó señores, Los que bien os va d'amores,

Dad limosna al sin holgura,

Que habita en sierra oscura,

Uno de los amadores

Que tuvo menos ventura.

Y rogaré al Dios de mi,

En quien mis sentìdos traigo,

Que recibais mejor pago

De lo que yo recebi

En esta vida que hago.

Y rezaré Com gran devocion y fé,

Que Dios os libre d'engaño,

Que esso me hizo ermitaño,

Y pera siempre seré,

Pues pera siempre es mi daño.

INÊS 

Olhai cá, marido amigo,

Eu tenho por devação

Dar esmola a um ermitão.

E não vades vós comigo

PÊRO

I-vos embora, mulher

Não tenho lá que fazer

(Inês fala a sós com o Ermitão):

INÊS 

Tomai a esmola, padre, lá,

Pois que Deus vos trouxe aqui.

ERMITÃO 

Sea por amor de mi

Vuesa buena caridad.

Deo gratias, mi señora!

La limosna mata el pecado,

Pêro vos teneis cuidado

De matar-me cada hora.

Deveis saber Para merced me hacer

Que por vos soy ermitaño.

Y aun más os desengaño:

Que esperanças de os ver

Me hizieron vestir tal paño.

INÊS 

Jesu, Jesu! manas minhas!

Sois vós aquele que um dia

Em casa de minha tia

Me mandastes camarinhas,

E quando aprendia a lavrar

Mandáveis-me tanta cousinha?

Eu era ainda Inesinha,

Não vos queria falar.

ERMITÃO 

Señora, tengo-os servido

Y vos a mi despreciado;

Haced que el tiempo pasado

No se cuente por perdido.

INÊS 

Padre, mui bem vos entendo

Ó demo vos encomendo,

Que bem sabeis vós pedir!

Eu determino lá d'ir

À ermida, Deus querendo.

ERMITÃO 

E quando?

INÊS 

I-vos, meu santo,

Que eu irei um dia destes

Muito cedo, muito prestes.

ERMITÃO 

Señora, yo me voy en tanto.

(Inês torna para Pêro Marques):

INÊS 

Em tudo é boa a concrusão.

Marido, aquele ermitão

É um anjinho de Deus...

PÊRO 

Corregê vós esses véus

E ponde-vos em feição.

INÊS 

Sabeis vós o que eu queria?

PÊRO 

Que quereis, minha mulher?

INÊS 

Que houvésseis por prazer

De irmos lá em romaria.

PÊRO 

Seja logo, sem deter

INÊS 

Este caminho é comprido...

Contai uma história, marido.

PÊRO 

Bofá que me praz, mulher.

INÊS 

Passemos primeiro o rio.

Descalçai-vos.

PÊRO 

E pois como?

INÊS 

E levar me-eis no ombro,

Não me corte a madre o frio.

Põe-se Inês Pereira às costas do marido, e diz:

INÊS 

Marido, assi me levade.

PÊRO 

Ides à vossa vontade?

INÊS 

Como estar no Paraíso!

PÊRO 

Muito folgo eu com isso.

INÊS

Esperade ora, esperade!

Olhai que lousas aquelas,

Pera poer as talhas nelas!

PÊRO

Quereis que as leve?

INÊS 

Si. Uma aqui e outra aqui.

Oh como folgo com elas!

Cantemos, marido, quereis?

PÊRO

Eu não saberei entoar..

INÊS 

Pois eu hei só de cantar

E vós me respondereis