Crônicas para jovens: de escrita e vida
Apresentação
Para Clarice Lispector escrever era viver e viver era escrever. Mais do que uma frase de efeito — porventura até desgastada — essa é a simples e estrita expressão da verdade: em Clarice vida e escrita se fundem e se confundem de tal forma que é difícil dizer onde começa uma e onde termina a outra.
Clarice Lispector descobriu o poder mágico das palavras — o de criar universos mais atraentes e duradouros que a própria realidade — aos seis anos de idade, nos bancos de escola no Recife, onde passou a infância e a adolescência. Conservou esse gosto pelo resto da vida, cultivando-o mundo afora nos diversos países e nas diferentes cidades em que viveu ou que apenas visitou, primeiro como esposa de diplomata e, depois, na qualidade de jornalista e escritora.
Durante o período em que se dedicou ao jornalismo, Clarice viveu da escrita do ponto de vista estritamente material. Mas mesmo neste período e durante toda sua vida, ela viveu para escrever, dedicando o melhor de seu tempo e todo seu engenho à construção de uma obra literária hoje mundialmente consagrada. Obra esta que esmiúça e celebra os mistérios da escrita bem como os da condição humana de maneira tão bela e profunda que, contrariamente ao que costuma acontecer com os autores já falecidos, Clarice tem conquistado um público cada vez maior e mais jovem.
Por outro lado, Clarice tem sido uma fonte de inspiração para dramaturgos, cineastas, compositores, poetas, escritores, professores e ensaístas, que encontram em sua obra o estímulo para a realização de seus próprios trabalhos criativos ou de suas investigações acadêmicas. Tudo isso ocorre por uma razão muito simples: a obra de Clarice Lispector continua tão verdadeira e vibrante quanto no momento em que foi escrita, quase sempre com a máquina apoiada sobre os joelhos, supervisionando o preparo das refeições na cozinha, ou os deveres dos filhos, na sala. Uma obra literária produzida em meio aos prosaicos afazeres da vida cotidiana — pois Clarice ambicionava também criar “um verdadeiro lar” para si e para os filhos —, mas dela se abstraindo e se afastando para buscar o cerne da existência e, neste movimento de interiorização, desterriorização e atemporalidade, extraindo da escrita o significado profundo da vida, sua água viva e límpida, regeneradora e redentora, que continua a fluir das páginas de seus textos para os corações de seus leitores. Isso porque, como a própria Clarice explicou, em texto reproduzido na presente coletânea: “O contato com outro ser através da palavra escrita é uma glória. Se me fosse tirada a palavra pela qual tanto luto, eu teria que dançar ou pintar. Alguma forma de comunicação com o mundo eu daria um jeito de ter. E escrever é um divinizador do ser humano.”
— Pedro Karp Vasquez