Dandeleão
Os piratas do ar voltaram a forçar…
Dandeleão
Os piratas do ar voltaram a forçar a porta, deitando-a abaixo de uma vez por todas. Os homens sacaram das suas bengalas, acompanhando a tripulação na defesa das damas e da honra. As mulheres puxavam os filhos contra si, apertando-os contra as pregas dos vestidos longos de seda. Da porta, de onde se esperava o ataque iminente dos piratas, entrava apenas vento que fazia as cartolas voarem das cabeças. De repente, a cabina do aeróstato encheu-se de fumo, fazendo os ocupantes tossir até caírem no chão de exaustão. As crianças começaram a chorar, esfregando os olhos irritados, raiados de sangue. Desesperadas, as mulheres gritavam pelas crianças, procurando um esconderijo qualquer dentro da cabina de voo. Os mancebos rastejavam como baratas tontas, indecisos entre juntar-se aos defensores ou voltarem-se para as saias das mães.
Os piratas entraram disparando sobre a primeira fila de bengala em punho, fazendo-os cair por terra e pintando de vermelho os companheiros atrás. Toda a coragem se dissolveu no momento e os homens deitaram-se ao lado das mulheres, de mãos sobre a cabeça, declarando rendição. Os piratas circulavam pela cabina, pontapeando ocasionalmente um ou outro corpo para que se virasse e mostrasse a cara. Pareciam procurar por alguém entre os passageiros do voo transatlântico. Porventura algum nobre endinheirado pelo qual iriam pedir um chorudo resgate. Filipe semicerrou os olhos, tentando encarar nos olhos o pirata que ordenara virar, mas estes estavam cobertos por óculos de protecção. Tentou perceber se os atacantes falavam entre si, mas as bocas estavam cobertas por uma tromba de cabedal que ligava a uma caixa que traziam à cintura que certamente os protegeriam do fumo. Para Filipe, pelo contrário, a atmosfera tornava-se cada vez mais pesada, tornando difícil manter os sentidos. Tentou puxar pelo lenço bordado, que a sua noiva lhe dera antes da viagem, para cobrir a boca, mas desfaleceu antes de o alcançar.
O primeiro dos sentidos a despertar foi o olfacto. Cheirava levemente a alfazema. Fazia-lhe lembrar a cama acabada de fazer da sua infância. De facto, sentia-se envolvido pelo toque suave de lençóis de algodão. A visão despertou em seguida, revelando um pequeno quarto parcamente mobilado, preenchido por uma luz suave. Ao canto, uma presença observava-o silenciosamente. Uma mulher bonita que, embora ainda estivesse na flor da idade, deixava a sensação de já ter vivido bem mais do que as rugas indicavam. Envergava um vestido cintado, de veludo negro, que combinava com o corpete grená e o cabelo encaracolado que prendia no topo da cabeça. Tinha as mãos cruzadas sobre o ventre numa atitude singela e obediente. Assim que viu que o seu paciente acordara, apressou-se a abrir as janelas inundando o quarto com luz filtrada por um vitral. Antes de sair, a mulher fez-lhe uma indicação silenciosa com a cabeça na direcção da porta, arregalando-lhe os olhos. “Mulher estranha…” Pensou o jovem.
Só então Filipe notou que o quarto não estava estático. Balouçava muito levemente, como o seu quarto no aeróstato em dias de calmaria atmosférica. Provavelmente, o comandante retomara o controlo da aeronave e providenciara novos alojamentos não danificados aos feridos em combate. Ficou feliz por saber que o acto de pirataria não atrasara a sua viagem para o Brasil. Esperou a qualquer momento a entrada do comandante para saudar as melhoras como os bons-costumes o exigiam, mas a figura que entrou não se parecia de todo com o navegador que cumprimentara no início da viagem. Era um homem alto e magro, de olhos encovados que piscavam vezes de mais, espreitando pelos aros redondos dos óculos que repousavam sobre o nariz aquilino. Usava uma casaca inglesa negra, debruada a seda grená, o mesmo material de que era feito a echarpe que tinha habilmente atada ao pescoço. Estava acompanhado pela mulher que antes tivera no seu quarto a quem dava o braço.
O homem sorriu e estendeu-lhe a mão. Filipe delongou-se a observar os dendos longos e nodosos que se estendia para si. Apertou-os por fim, sorrindo de volta.
– Seja bem-vindo à minha humilde casa. – O modo de falar era estranho, como se o homem quisesse enfatizar cada palavra. – O meu nome é Miguel Faria e esta é a minha esposa, Dona Filipa Faria. Apraz-me vê-lo recuperado.
– Muito obrigado Dom Miguel. – olhou em volta – Onde estão os restantes passageiros? Os piratas foram capturados?
Miguel ergueu a mão solenemente.
– Calma, calma, não se apoquente tanto, que ainda não está totalmente recuperado. Encontrámo-lo à deriva no Atlântico, misturado com os destroços de um aeróstato. Se me diz que foram ataque de piratas do ar, está explicado o estado da aeronave. Infelizmente não encontrámos qualquer vestígio de piratas ou dos restantes passageiros.
Filipe agradeceu a Deus não se fazer acompanhar pela sua noiva e ela que tanto insistira em ir ao Brasil também. Assim que pudesse, enviaria uma carta no próximo vapor, para que a missiva chegasse o quanto antes possível da notícia da queda da aeronave. Não conseguia suportar a ideia de deixar a sua noiva de luto por si. Quase de imediato pesou-lhe na memória todos os conhecidos que fizera na viagem, as promessas de amigos que agora repousavam no fundo do oceano. Afastou a lamúria do luto de ti. Era uma tragédia, porém não merecia as suas lágrimas, um pesar solene e respeitador seria suficiente. Seria a atitude acertada para um cavalheiro, não podia deslizar para o histerismo. Era uma sorte estar vivo. Era a isso que tinha de se agarrar.
– Deixe-me expressar o meu profundo agradecimento! Muito agradecido, Dom Miguel. Estou a dever-lhe a vida.
– Não se preocupe com isso Filipe, tenho a certeza que poderá pagar a sua dívida ao acompanhar-nos ao jantar. Quando se sentir pronto, por favor junte-se a nós ao fundo do corredor.
Saiu, quase sem fazer barulho fechando atrás de si a porta. Filipe pode então observar melhor o ambiente à sua volta. O que mais lhe chamava a atenção era o belo vitral da janela, representando um harmonioso conjunto floral. Já tinha apreciado trabalhos similares em Paris, numa exposição da moderníssima Art Noveau. Reparou então que os móveis, paredes e porta estavam decorados com padrões que obedeciam às linhas curvas tão bem apelidadas de “estalo de chicote”. Abriu a porta e atravessou o corredor de metal escuro e esverdeado, ignorando todas as portas, em tudo iguais à que acabara de fechar atrás de si, para ir directo à sala de jantar.
Uma divisão oval onde a mesa ocupava o papel principal, decorada com um estilo idêntico ao dos quartos, embora se notasse uma maior profusão de elementos vegetais. À mesa Dom Miguel, mais a sua mulher e um punhado de pessoas que esperavam por si para começar a comer. Filipe estacou, mesmerizado pela janela que se abria na parede atrás da cabeceira da mesa. Através dela podia ver as nuvens. Não do lado de baixo, como estava habituado, mas bastante acima delas. Face aos factos, restou-lhe assumir que estava numa máquina voadora que desafiava os limites técnicos de todas as que já estivera até então. Era absolutamente fantástico poder ver a terra coberta de nuvens. Filipe sentiu a mão esguia de Miguel a trepar-lhe para o ombro como uma aranha.
– Perdoe-me, estou tão habituado ao cenário que por vezes me esqueço da sua capacidade de assombrar.
– Meu Deus…– balbuciou – Onde estamos ?
Dom Miguel apontou-lhe o seu lugar.
– Por favor, sente-se e coma alguma coisa. Terei todo o gosto em falar-lhe sobre a menina dos meus olhos.
Miguel obedeceu. Os criados, de camisa e calças negras, com um colete grená trouxeram consigo bandejas fumegantes. Dom Miguel levantou-se, tomando a palavra.
– Estamos neste momento a 3000 metros do solo a voar em direcção ao Brasil. É com prazer que informo o Filipe que está no maior objecto alguma vez colocado a voar. Esta pequena povoação, a que chamo casa, responde pelo nome de Dandeleão. Se for do seu interesse, ainda hoje lhe farei uma curta visita guiada. – Dom Miguel fez uma pequena vénia, a qual Filipa dobrou um pouco a cabeça em sinal de apreciação.
– Com certeza que é, Dom Miguel, com certeza. Ficaria, de facto, muito agradecido se me desse essa honra. Estou absolutamente fervilhante de curiosidade.
– Por agora, coma para recuperar forças. Depois de almoço poderá ver o que quiser.
Filipe serviu-se de algumas iguarias e provou-as.
– Parabéns à cozinheira! – Saudou. – Está absolutamente divinal.
Miguel sorriu, tornando os seus finíssimos lábios uma linha quase invisível.
– Faço os possíveis por me rodear dos melhores dos melhores. Da mais fina nata das artes e das ciências. As cozinheiras não são excepção. Aliás, nesta mesma sala podemos privar com as mentes geniais que fizeram o Dandeleão erguer-se do solo! A humildade e decoro têm votado estes senhores engenheiros aqui presentes ao silêncio – disse, apontando com um gesto largo e lento as restantes pessoas sentadas à mesa. – Decerto que, mais tarde, terá oportunidade de falar com eles num ambiente mais informal.
Os engenheiros à mesa baixaram a um pouco mais cabeça. Nenhum dos outros presentes à mesa falou, ou sequer levantou os olhos do prato, como se a única pessoa a poder falar pudesse ser o homem à cabeceira. Ao silêncio sepulcral apenas se juntava o tinir dos talheres no prato,.” Se queres conhecer a verdadeira índole de um nobre, analisa a sua relação com os criados.”, seu pai sempre lhe havia dito e Filipe meditou sobre essa frase, enquanto um arrepio lhe subia pela espinha.
Findada a refeição, os engenheiros foram-se levantando um a um, saindo da sala para se entregarem às suas tarefas, diziam, não sem antes fazer uma leve vénia a Dom Faria. À falta de saber o que fazer, Filipe deixou-se ficar no lugar até que o seu anfitrião o convidasse a sair. Saíram por uma porta lateral, junto à da cozinha, entrando num corredor feito de vidro e ferro forjado, ao estilo do Palácio de Cristal inaugurado há pouco tempo em Londres, pela ocasião da Grande Exposição. O que Filipe pode ver através dos vidros deixou-o estupefacto.
Um casario de mais de uma dezena de edifícios de arquitectura revivalista gótica, imiscuída de elementos deart noveau, ligados entre si por túneis de envidraçados ao nível térreo. Um pouco por todo o lado longas chaminés exalavam vapor de água, revelando a força motriz que movia Dandeleão. Fora uma estufa, que ocupava o centro do disco onde se erguiam os edifícios, tudo era de metal, vidro e madeira, sem qualquer fonte de mundo natural. De certos locais, erguiam-se cabos grossíssimos que se prendiam o chão onde estavam a um dos seis aeróstatos que pairavam em redor da urbe voadora sustentando-a. Dom Miguel leu-lhe os pensamentos.
– Não há qualquer risco de queda abrupta caso os aeróstatos tenham algum problema técnico. – Parecia deliciado com o cenário catastrófico.– Por baixo do disco onde estamos, para além de toda a maquinaria que dá propulsão a Dandeleão, existe todo um sistema de balões que, embora não sustentem o peso dos edifícios no ar, garantiriam uma descida suave até ao nível do solo.
– Admirável! – Exclamou Filipe. – Outra coisa que reparei é que, embora existam chaminés de exaustão para o vapor de água, não é visível qualquer tipo de escape para os gases de combustão.
Miguel soltou um conjunto de sons guturais e secos que, se não fosse pelo acompanhar do riso cristalino de Filipa, nunca seria identificado como uma gargalhada.
– Meu caro Filipe, quem lhe disse a si que queimamos carvão para fazer vapor? Nunca seríamos capazes de ter um depósito tão grande que suprisse as necessidades. A parte de cima de cada um dos aeróstatos está coberta de pratos parabólicos, que concentram a luz solar e o seu calor, que usamos para evaporar a água que, por sua vez, recolhemos da atmosfera. É um sistema em constante recolha e excreção!
– Como pode isso ser? E quando está nublado? E quando é de noite? De onde vai buscar a energia?
– Nós estamos acima das nuvens, o tempo nunca será nublado para o Dandeleão. No entanto, levantou uma questão que põe a descoberto uma das poucas fragilidades da minha cidade. Durante a noite temos de interromper a marcha mecânica e passamos a utilizar a força do vento, que nem sempre optimiza a viagem.
Entretanto entraram num novo edifício que dava acesso às entranhas de Dandeleão. O calor começou a fazer-se sentir, preenchendo cada poro de Filipe com suor que em breve começaria a escorrer copiosamente pelo corpo. Os trabalhadores cessaram imediatamente os seus afazeres menos importantes para prestar vassalagem a Dom Miguel, perfilando-se ao longo do seu caminho.
– A minha amada esposa sugeriu-me a visita aos engenhos de Dandeleão, saltando outras coisas não menos importantes, mas menos excitantes como o refeitório, dormitórios, escola ou lavandarias.
– Obrigado pela consideração. De facto, uma das coisas que tenho vindo a reparar é o quão bem estão tratados os seus trabalhadores. Parecem ter uma qualidade de vida muito acima da maior parte das indústrias que conheço.
A observação não se tratava de uma mera bajulação ou etiqueta, mas uma fidedigna admiração pelo que via. Em comparação com as fábricas do seu país, cheias de miseráveis que trocavam a saúde por uma dúzia de tostões, negros de fuligem dos pés à cabeça, todos aqueles os trabalhadores pareciam duques. Bem nutridos, bem vestidos com a farda do Dandeleão, e, pelo que Miguel dizia, com direito a serviços de engomadeiras e educação, serviços esses que só alguns habitantes de Lisboa tinham acesso. No entanto,notava uma falta de vigor naqueles rostos. Decerto que os seus corpos operavam as funções necessárias com todo o afinco necessário, no entanto não se sentia ali o ambiente normal de uma fábrica onde os trabalhadores acabavam por desenvolver alguma cumplicidade, inventando ânimo para suportar a dureza do trabalho. Não havia brilho nos olhos, não se viam harmónicas nos bolsos da camisa para preencher os silêncios das pausas e mudanças de turno, não havia cumplicidade nas trocas de olhares. O seus corpos estavam encolhidos, toldados por um frio fantasmagórico.
Dom Faria fez uma leve vénia aos seus trabalhadores, despachando-os de novo para os seus postos de trabalho com um gesto lânguido da mão.
– Como lhe disse antes, faço questão de ter os melhores a trabalhar para mim. Para que eles continuem a ser os melhores, tenho de lhes dar todas as condições ao meu alcance. Só lhes exijo uma coisa em troca: lealdade absoluta. Nada se pode fazer sem lealdade, sem deposição religiosa das decisões num líder. Há-de reparar que a humanidade só conseguiu passar de tribos indiferenciadas para culturas superiores assim que a maioria depositou os poderes e os bens num conjunto limitado de indivíduos. Não acha?
– Penso que sim – respondeu inseguro.
– Não haveria pirâmides se não houvesses faraós. Não é verdade?
– Sim.
– Esplêndido! É sempre reconfortante encontrar quem nos compreenda. – Tirou o relógio do bolso e segurou-o pela corrente ao nível da cara – Está quase na hora, temos de nos apressar.
Filipe seguiu Miguel e a sua mulher através das casas das máquinas, evitando os silvos de vapor que surgiam de todas as direcções. Os engenhos eram enormes, parecendo provir de uma terra de gigantes, esmagando-se um contra os outros. Por todo o lado se viam os trabalhadores, suando em bica, a rodar válvulas e gritar ordens.
Emergiram por fim à superfície através de uma escada em caracol. A luz branca e forte do sol fez Filipe semicerrar os olhos. Estariam ainda a sobrevoar o oceano? Não havia maneira de perscrutar através do denso manto de nuvens abaixo de si. Apensar de todas as maravilhas que tinha testemunhado desde que chegara ao Dandeleão, nenhuma chegava aos pés de poder envolver-se nos doces braços da sua noiva. Que estaria ela a fazer naquele momento?
Os seus pensamentos foram interrompidos pela voz de Dom Faria, que dizia qualquer coisa à mulher, quase em surdina. Ela deixou-os a sós. Estavam no fim de um dos corredores de vidro só que, em vez de conectar a mais um edifício de ferro, este dava acesso a um de vidro. Era a estufa que vira antes. Miguel tirou uma chave de ferro do bolso do colete e inseriu-a na fechadura da porta, dando-lhe três voltas. As portas abriram-se sem que ninguém as empurrasse e uma baforada quente de perfume floral inundou os sentidos de Filipe.
– Este é o meu templo, o meu recanto – anunciou Miguel. – Onde desenvolvo a minha grande paixão pelo mundo vegetal. Desenvolvo aqui espécies únicas, essenciais à vida de Dandeleão. Fito-raridades que não irá encontrar em mais lado algum. Asseguro-lhe.
O som de badaladas interrompeu a exposição de Dom Faria, trespassando as paredes da estufa, retinindo no peito de Filipe. De onde viria um som tão forte? Filipe olhou para cima e mirou a torre de relógio com sinos que se erguia ao lado da estufa. Tinha a forma de uma mulher, envolta de panos e natureza, segurando um mostrador de relógio em que cada hora aprecia inscrita numa folha de hera metálica. Não se viam sinos nenhuns, no entanto, àquele nível, o som deveria chegar a todos os recantos de Dandeleão. Só então notou que era a primeira vez que o ouvia. Olhou para as horas, mas foi Miguel, de relógio de bolso suspenso nos dedos, que lhas disse.
– Esta na hora do chá.
Pela porta da estufa entrou Dona Filipa, trazendo uma bandeja com um bule metálico fumegante. Atrás de si, dois homens traziam duas cadeiras e uma mesa. Em poucos segundos, uma sala de chá foi erigida no seio verde da cidade voadora. Dona Filipa verteu um pouco do líquido para uma chávena e ofereceu-a ao seu marido. Este sondou-a com o nariz aquilino. A chávena voou com violência em direcção ao chão, ao mesmo tempo que a face de Miguel se transfigurou numa careta de asco. Os globos oculares, outrora mergulhados no fundo das suas cavidades, quase saíam agora das órbitas. A sobrancelha direita tremia-lhe, fazendo companhia aos lábios que ensaiavam micro palavras que não chegavam a ser ditas. Miguel agarrou o pulso da sua mulher num gesto seco e forte fazendo-a estremecer.
– Como te atreves a tentar isto de novo? – Silvou entredentes, quase em surdina, a Dona Faria. – Uma vez fui enganado, duas não serei. São três. Três gramas. Três precisas gramas! Fiz-me entender?
Os pêlos dos braços de Filipe eriçaram-se ao ouvir o sussurro. Não era a fúria repentina assistia que lhe provocava a reacção, mas a frieza cortante de cada sílaba saída da boca do dono de Dandeleão. A mulher acenou nervosamente com a cabeça, fungando as lágrimas que principiavam a aparecer, desaparecendo na vegetação assim que Miguel lhe soltou o pulso. Filipe decidiu optar pelo silêncio e inacção por respeito ao seu anfitriao, mas toda aquela atitude não lhe parecia digna para tratar uma dama. Ela não merecia tamanha reprimenda por se enganar da quantidade de folhas de chá na água. De certo a esposa possuiria mais encantos que compensassem a distracção tão natural no sexo fraco. Filipe pensou com doçura na sua mulher. Como ela se deixava encantar pelos pássaros que engaiolara na cozinha ao ponto de se esquecer do ferro sobre as suas roupas. Assim que possível, haveria de pedir a Dom Miguel pelo telégrafo.
A bela senhora apareceu de novo em poucos minutos, trazendo um novo bule e serviu ambos os cavalheiros.
Filipe olhou para o tom sanguíneo do líquido e inalou profundamente o aroma que dele desprendia. Todos os seus sentidos despertaram num frenesim voraz por mais, exigindo sentir as outras dimensões daquela substância. Levou a chávena à boca, deixando o líquido fluir entre os lábios e envolver-lhe a língua. O sabor era doce, mas invocava especiarias como noz-moscada e pimenta. Filipe fechou os olhos, para melhor contemplar a bebida dos deuses que lhe tinha sido servida. Percebia agora o nervosismo de Miguel em relação à quantidade exacta de chá a preparar. Deveria estar optimizado para entregar toda a panóplia de nuances gustativas encerradas no líquido. Qualquer mulher que porventura cometesse de heresia de negar tais sensações merecia ser castigada a sério, não apenas levemente repreendida.
– Vejo que gostou do meu chá de folhas de Farítia. – Observou Dom Faria. – É uma das plantas que mais me orgulho de criar. Dificílima de plantar e manter, apenas encontrada em certos vales de elevada altitude do Nepal e aqui no Dandeleão. É curioso que o ar rarefeito, próprio desta altitude, que nos impede de respirar fora das fronteiras desta cidade, é o mais apropriado para esta pérola do mundo vegetal. – Esboçou um sorriso que não chegou a eclodir. – Eu teria todo o gosto em levá-lo até à estufa onde a planto, mas não me posso arriscar a que descubra o modo secreto de as criar. Perdoe-me.
Filipe mal conseguia articular as palavras, tal era o abalo que o chá de Farítia lhe imprimira. Debateu-se fortemente contra o seu id e descolou a chávena dos lábios.
– Compreendo perfeitamente – respondeu por fim. – Nem eu poderia pedir tal visita.
Dom Faria sorriu-lhe e ordenou que Filipa lhe servisse mais chá. Assim que Filipe acabou a segunda chávena, quase num só gole, a conversa reiniciou.
– Tenho-lhe mostrado a minha cidade, os meus interesses, no entanto… – Fez uma pausa demasiado longa– …sei tão pouco si. Comecemos pelo que define um Homem: Qual é a sua ocupação?
– Sou meteorologista de sua Majestade El Rei Dom Pedro V de Portugal.
– Oh! Que agradável coincidência. Nem imagina o jeito que me dava agora um metereólogo.
– Deveras?
– Não se indagou ainda sobre onde arranjo eu os fundos necessários para suprir as necessidades físicas de Dandeleão e ocupantes?
– Realmente, ainda não me tinha feito tal pergunta – sorriu. – Mesmo que a fizesse, penso que seria rude colocá-la a si. Porém, uma vez que tocou no assunto, fiquei curioso em saber.
Dom Faria levantou-se e caminhou em direcção às plantas da estufa, chamando Filipe com um gesto da mão.
– Repare nesta pobrezinha. – disse, pegando num caule meio murcho – Esta a ver esta ferida aqui? É provocada por uma bactéria, um animúculo de diminuidíssimas dimensões, que é capaz de segregar uma substância que promove a formação de cristais de gelo. Analisando as partículas de gelo que se encontram nas nuvens, pude constatar que grande parte delas continha esta mesma substância.
– Está-me a dizer que as nuvens são de origem biológica?
– Não de todo, mas parte. Os cristais de gelo de que são feitas as nuvens, como sabe, precisam de um ponto de nucleação como partículas de areia ou fumo. Quando o vapor de água chega a 0ºC e encontra um núcleo, por exemplo um grão de areia, forma-se um cristal. Muitos cristais juntos foram uma nuvem que irá originar chuva. Esta praga actua em tudo como um grão de areia, só que a sua presença faz com que não seja preciso 0ºC para originar o cristal. E ela não precisa de estar viva para que isto aconteça.
– Bastaria então dispersar esta praga na altitude certa da atmosfera, para gerar chuva – bateu com a mão no joelho. – O que você consegue fazer, usando o Dandeleão. Vossa excelência vende chuva!
– Exactamente, caro Filipe. Posso também vender seca, fazendo chover precocemente noutro local. O meu último contracto foi evitar que chovesse durante o aniversário da Rainha Vitória de Inglaterra.
– Fabuloso! Para que precisa então de um meteorologista, se é capaz de decidir que tempo irá fazer?
– Não sou muito conhecedor dos movimentos dos gases atmosféricos e certos fenómenos não podem ser manipulados pelo meu sistema. A precisão é a mãe da perfeição. Quero ser capaz de garantir o número exacto de dias que vai chover, não garantir apenas que vai chover. – Levantou-se, fazendo um gesto para que Filipe o imitasse. – Já que o tempo é a sua especialidade gostaria de lhe mostrar uns cálculos que tenho estado a fazer com as equações de Navier-Stokes.
Filipe anuiu com entusiasmo. Dom Faria estava ao corrente dos mais recentes avanços da meteorologia e arriscara-se a estudá-la ao nível da mesoescala. Era de tirar a cartola! Não sabia que sentir em relação à figura que agora seguia para o interior de um edifício intitulado de laboratório. Se por um lado lhe sentia receio e estranheza, por outro admirava-o pelo seu génio. Era como observar uma floresta a arder, hipnoticamente assustador.
Miguel consultou novamente o relógio de bolso, como que confere uma lista de instruções.
- Infelizmente, hoje tenho afazeres que me irão roubar o tempo que lhe poderia dedicar. Dentro de algumas horas iremos experimentar alguma turbulência, aconselho que fique no seu quarto até amanhã de manhã.
Deitado na cama, Filipe lutava contra a dor de ouvidos, que estalavam anunciando a perda de altitude de Dandeleão. Haviam-lhe dito que mastigar ou engolir ajudaria, mas o método provara-se ineficaz. As primeiras gotas de chuva começaram a bater no vitral, indicando que já estavam abaixo das nuvens. Segundo Dom Faria, a descida tinha um propósito científico. Recolher dados atmosféricos para enriquecer os modelos matemáticos que andava a trabalhar. No entanto, por muito que Filipe tivesse insistido, o comandante da cidade não o autorizara a sair do quarto.
De repente, o Dandeleão perdeu altitude e o estômago subiu à boca do meteorólogo numa vertigem interior só ultrapassada pela tontura que sentiu de seguida ao ver o quarto rodar sobre si. Um novo safanão. As paredes de madeira rangiam, como um antigo galeão, como o velho sobreiro que tanto enchia o orgulho do pai de Filipe. Um trovão fez-se ouvir e a luz do relâmpago inundou o quarto intermitentemente. As vísceras vibraram com um novo trovão e quase saltaram de lugar com os safanões que o quarto sofreu em seguida. Enjoado, o jovem cientista tentou suportar-se em pé, mas o chão inclinado dificultou-lhe a tarefa. Às curvas e contra-curvas, arrastou-se até à porta, para a encontrar trancada. O vómito subiu-lhe à boca. Olhou em volta, nem sinal de um bidé. Bateu com as mãos contra a madeira, gritando que precisava de sair. Nada. Ninguém respondeu. Filipe agarrou-se à cabeça, que rodava com ainda mais força que o quarto.
Vidros a estilhaçar. Os milhares de fragmentos coloridos do vitral quebrado cobriram o chão do quarto, envolvendo a pedra que os causara. O vento varreu a divisão, trazendo consigo a chuva que em segundos encharcou tudo. Filipe abeirou-se da janela e espreitou. O precipício surgiu aos seus olhos. Um abismo sem fundo, envolto em nevoeiro, infinito tanto para baixo e para cima. Sentiu a visão a desfocar. A chuva incomodava cada vez mais. Uma curva apertada atirou-o contra o caixilho. Um relâmpago percorreu o casco da cidade voadora. Ainda tentou agarrar-se à parede, mas o metal molhado escorregou como uma enguia. Uma guinada mais e Filipe precipitou-se pelo umbral. Cerrou os olhos com força e, por sorte ou destino, um mão forte agarrou-o. O meteorólogo balançou sobre o vazio e outra mão se firmou no seu corpo e o puxou contra o Dandeleão.
- O..ob…obrigado – balbuciou contra o vento que uivava por cima de qualquer outro som.
O homem que o agarrara, um dos operários de Faria, respondeu-lhe com um esgar. Filipe apontou para a janela partida. O trabalhador acenou que não, fez uma careta e apontou para o fino rebordo que contornava o edifício. Tivesse sido registada, a expressão que Filipe fez naquele momento passaria a constar dos anais do terror e assombro. Recuou dois passos, abanando os braços e a cabeça em negativa. Não, não iria por ali! Não escapara duas vezes da morte certa para brincar daquele modo com a vida. Porém, um argumento mais forte, na forma de uma faca apontada pelo trabalhador a Filipe mudou a resolução. Que espécie de loucura tinha este homem que tanto o ameaçava como salvava? Porque queria ele ir pelo caminho mais perigoso? Porque queria ele que o acompanhasse? Filipe ainda tentou gritar as perguntas, mas o vento levou-lhe as palavras e lâmina em risto declarava a emergência da acção. Resignado, deu um passo em frente.
Avançavam devagar, espalmados contra o casco de Dandeleão, castigados pela ventania, pelo frio e pela chuva que se infiltrava pelas aberturas mais improváveis. Os trovões aumentavam de frequência. De cada vez que separava a mão do metal, Filipe sentia a pele a repuxar, colada pelo gelo à superfície da nave, enchendo-o de um terror quase maior do que o que o acometia cada vez que pensava onde estava. O trabalhador apontou para cima e Filipe seguiu o dedo com o olhar. Alguns metros sobre as suas cabeças um pequeno balão chicoteava ao vento, preso a um varandim de vidro e ferro forjado. Parecia ser aquele o destino. Com dificuldade, e alguma ajuda do operário de Dandeleão, trepou os poucos metros que o separavam do pequeno balão. Os músculos tremiam, de dor, de frio e exaustão. Porque não podiam eles partir os vidros e entrar para Dandeleão pela varanda? Porque tinham de embarcar num dirigível com uma tempestade daquelas? Um novo relâmpago iluminou a sala para lá do vidro onde um pequeno fogo aquecia o ambiente. O operário, que entretanto trepara o balão, estendeu-lhe a mão. Filipe dividiu a atenção entre a mão rude que se estendia, prometendo mais vento, gelo e enjoo, e o interior de Dandeleão. Abanou a cabeça. Não tinha mais forças. Não podia saltar os centímetros que o apartavam do balão. Não queria saltar. Não queria seguir aquele homem na loucura dele. E se não fosse loucura? Olhou de novo para o quarto, parecia tão inofensivo, tão acolhedor. E se houvesse uma qualquer fuga de gasogénio? Um relâmpago iluminou as nuvens em seu redor. Estendeu a mão. Tinha de confiar. Aquele homem salvara-lhe a vida. Outro relâmpago e a cara de Miguel Faria surgiu como um espectro do lado de dentro de Dandeleão. Filipe sorriu, o operário gritou em terror. Dom Faria abriu o varandim de par em par.
- Venha Filipe. Saia daí, já! – ordenou severo, olhando com ódio o homem que conduzia o balão. – Entre ou vai morrer! Esse homem está louco.
Filipe jogou um último olhar ao operário em jeito de desculpa e deu um passo em direcção à escuridão acolhedora de Dandeleão. Sem aviso, Miguel sacou de um punhal e cortou a corda que prendia o balão à cidade. Por instinto, o meteorólogo jogou-se ao cabo que deslizava sobre o ferro, agarrando-o com todas as forças que ainda lhe restavam. Tentou usar o peso do corpo para vencer a ventania, mas o chão molhado não oferecia resistência. Agarrou-se ao caixilho do varandim, enrolando a corda no parapeito de ferro. Dom Faria assistia impávido, de mãos atrás das costas, como se contemplasse uma paisagem primaveril. Atrás dele, quatro operários haviam entrado no quarto e aguardavam ordens. Num ímpeto de que logo se arrependeu, Filipe gritou:
- Ajude-me a puxar o homem para dentro!
- Não – respondeu Miguel. – Se o plano dele era andar à deriva num balão metereológico com esta tempestade, então que faça a sua vontade. Não tenho nada a opor.
A corda sisou o braço de Filipe, cortando a circulação. A chuva caía com mais força, inundando a cara franzida de esforço do metereólogo.
- Não posso deixar que este homem morra! Tenha piedade! Salve-o, como me salvou a mim. – Nem a mais leve das reacções conseguiu suscitar no mestre de Dandeleão. Tentou um último trunfo. – Eu não vou largar esta corda. Se ele for levado pelo vento, eu também serei.
A corda resvalou um pouco mais. A dor tornava-se insuportável. O homem no balão gritava algo, mas nada se ouvia. Dom Filipe ergueu o canto do lábio em desprezo e autorizou a ajuda. Em menos de nada, os operários puxaram o balão para dentro, resgatando o companheiro que se debatia como um peixe fora de água, só tranquilizando como lhe cingiram a boca com um pano embebido em clorofórmio. Filipe deixou-se no chão, arfando pesadamente, quase afogado na poça da água que escorria do seu corpo. Tremia incontroladamente. Dom Faria ajoelhou-se a seu lado e sibilou entre dentes.
- Nunca mais volte a fazer chantagens ocas comigo. Não é comportamento digno de cavalheiro. Ganhe vergonha! – afastou-se de Filipe, para que os operários o pudessem secar com uma tolha - Se pensa realmente alguma vez agradecer por eu lhe ter salvo a vida, compareça amanhã nolaboratorium.
Filipe acordou devagar, moído e febril. Procurou às apalpadelas o manípulo do gás e rodou-o, fazendo a luz residual nas orbes por cima do travesseiro aumentar a sua intensidade. No local onde antes estivera o vitral estava agora um quadrado metálico negro preso com rebites à estrutura de Dandeleão. A cabeça doía-lhe, latejando lenta e constantemente, tornando difícil o simples acto de se levantar. Filipe lembrou-se das palavras de Dom Faria que lhe pareciam mais acertadas após a noite de sono do que ameaçadoras no dia anterior. Tinha de pagar a dívida de vida e, depois sim, retomar a sua viagem para o Brasil. Decerto, cavalheiro como era, o seu salvador não pediria algo que o atrasasse muito, apenas o suficiente para manter a honra de ambos.
Vestiu-se com as roupas engomadas depositadas ao lado da sua cama em substituição das que molhara na noite anterior e admirou-se ao espelho. Um fato negro com pormenores a grená, como todos os outros habitantes de Dandeleão. Sentindo-se apresentável, saiu do quarto e foi em busca dolaboratorium.
Não foi difícil de encontrar. Perguntando aqui e ali aos trabalhadores que passavam, foi atravessando a cidade voadora. De vez em quando, principalmente nos túneis de vidro e metal que ligavam os vários edifícios, Filipe parava e ficava a admirar o mar de nuvens abaixo. Como gostaria de partilhar aquela visão com o pai e a mãe, Deus os tivesse, ou até mesmo com a sua noiva. Encontrou por fim o que procurava: uma torre esguia de tijolo quadrada, rodeada de armazéns de telhado de metal, com mais chaminés que o resto de Dandeleão. Sobre a porta em arco um letreiro em bronze anunciava a sua função. Tirou o chapéu e entrou, deparando-se com uma extensa oficina repleta de trabalhos a meio. Diversas maquinarias estavam a funcionar autonomamente, como se a sua função fosse apenas servir de prova de conceito. Nas paredes, os desenhos técnicos e esquiços sobrepunham-se em frente às bancadas onde as linhas de carvão se tornavam objectos reais. Até uma réplica do extravagante prognosticador de tempestades com recurso a sanguessugas podia ser admirando numa das bancadas.
Dom Faria estava lá, conversando com um dos trabalhadores, analisando talvez os dados recolhidos no dia anterior. Ao ver Filipe, fez uma leva vénia e um gesto para que o acompanhasse. Subiram pelas escadas ao fundo da sala para aceder ao andar superior. Era um pequeno laboratório químico e botânico encimado por uma secretária onde vários livros e folhas com cálculos se dispunham ordenadamente. Na parede oposta, do lado das escadas, uma enorme janela revelava a oficina onde os protótipos eram tornados em engenhos funcionais. Nesse momento, um mini aeróstato estava em construção.
Dom Faria pigarreou, exigindo a presença do metereólogo junto da secretária. Este obedeceu, juntando-se ao estudo das equações postas sobre a mesa. Para além de saldar a dívida e restaurar a amabilidade do anfitrião, Filipe sentia que aquela era uma oportunidade fantástica de ter acesso a novos conhecimentos. Para além disso, sempre ajudaria a passar o tempo enquanto não chegassem ao Brasil. Deixou-se maravilhar pelos dados que só uma estação como Dandeleão seria capaz de recolher e rapidamente se embrenhou no projecto. Aos poucos e poucos, Miguel foi deixando o metereólogo intervalos de tempo maiores sozinho no laboratório para se dedicar às inúmeras tarefas que a sua posição de orquestrador da cidade voadora deveria exigir. Apenas a hora do chá era sagrada. Filipe dava por si a contar os minutos que faltavam para poder de novo tocar os seus lábios na substância vermelha que lhe era servida após as badaladas. No entanto, sentia-se confortado em saber que não era o único. Os trabalhadores que construíam um pequeno aeróstato também pareciam ansiar pela mesma altura do dia, pela maneira como caminhavam erraticamente em círculos quando a hora se aproximava.
Dandeleão apanhara bons ventos e, segundo dizia Dom Faria, dentro de poucos dias estariam a chegar ao Brasil. Infelizmente, apesar da insistência de Filipe, o telégrafo estava ocupado com comunicações oficiais da cidade pelo que as cartas, que todas as noites o metereólogo escrevia e que de manhã depositava na mão do anfitrião, eram a única maneira de ele contactar com a sua mulher. Os dias decorriam lentos e solitários, sem que nenhum membro da tripulação tentasse sequer algum contacto social com o novo habitante da cidade. A única pessoa com que falava, para além de Miguel, era Filipa, que frequentemente se sentava a seu lado a coser e a cantar num sussurro. De vez em quando Filipe interrompia o seu trabalho e olhava para a mulher e esta para si. Ela esboçava um sorriso débil e triste e voltava a olhar para oficina, onde os trabalhadores davam os últimos retoques na máquina voadora.
Certo dia, perto da hora mais esperada, ela levantou-se de rompante para espreitar pela janela. Contente com o que vira, sorriu. Um esgar débil, como sempre, mas com um olhar esperançoso que seria capaz de acender uma vela. Parecia nervosa, olhando sobre o ombro a cada passo que dava à medida que se aproximava da porta. Segurava algo com força na mão, parecia uma chave. Ela olhou por cima do ombro, cruzando o olhar com o meteorologista. Ela era realmente lindíssima. Mordeu a língua pelo pensamento pecaminoso. Que diria a sua noiva se soubesse que ele cobiçava outra mulher. Ela fez-lhe sinal. Apontava para a chave e depois para a porta da aeronave. Filipe via-a agora no andar inferior, através da janela. Filipe consultou as horas no relógio de bolso. Estava quase a chegar a altura de Dom Faria trazer a chaleira para partilharem, não era altura de começar uma nova tarefa. A mulher chamou de novo, desta vez com um pssst. “Ajuda não se recusa a uma dama.” Pensou, antes cooperar.
Desceu as escadas e encontrou-se sozinho na oficina. Sobre um banco, a chave de Filipa. Pegou no pequeno objecto e inseriu-o na fechadura da porta do aeróstato que abriu. Porque queria ela que ele visse a máquina por dentro? Saltou de susto, ao sentir uma mão pousar nas suas costas. Virou-se. Filipe não conseguiu evitar um sonoro suspiro de alívio a ver um dos engenheiros com quem costumava jantar. Preparou-se para o cumprimentar, mas o homem falou primeiro.
– De que está à espera? Isto não vai voltar a acontecer. É agora ou nunca! Entre! – gritou. – Ela não o pode atrasar para sempre.
– Como? – perguntou, confuso.
O som da porta a bater fez-se ouvir, anunciando a chega de Dom Faria. O chefe de Dandeleão estava de dentes arreganhados de fúria. Filipa, de cabelo desgrenhado e vestido rasgado, puxava-o por um braço, chorando. Num movimento brusco, o engenheiro atirou Filipe ao chão e ocupou o único lugar da aeronave.
- Se tu não queres fugir, chega para lá que há quem queira! – disse, afastando o metereólogo com um pé e puxando uma alavanca com a mão.
Uma das paredes do hangar começou a abrir-se, revelando uma infinita paisagem de nuvens. A enorme força da despressurização da câmara puxou o corpo de Filipe, para que seguisse o aeróstato em direcção ao vazio. A máquina voadora descolou. O engenheiro ria e chorava como um louco, manejando desastradamente os controlos da nave que voava em espirais. Sem qualquer âncora o corpo de jovem deslizava para o exterior, em direcção à morte pela terceira vez. Filipe ainda tentou agarrar o chão, mas por mais força que fincasse os dedos, as unhas não eram capaz de o prender contra o metal. Uma caixa de ferramentas embateu contra a sua mão, fazendo-o urrar de dor. O sangue espalhou-se pelo convés, arrastado pelo vento. Dom Faria gritava algo que não se percebia. De repente, um cabo de aço caiu ao seu lado. Filipe agarrou-o com todas as forças que conseguiu invocar. Ignorou a dor, os estranhos ângulos que os dedos partidos faziam e o sangue que escorria copiosamente. Olhou para trás, para o abismo e decidiu-se pela vida na outra ponta do cabo. Dom Miguel e um punhado de trabalhadores puxavam, arrastando o cabo para dentro. A porta da oficina fechou-se e a pressão voltou ao normal. Filipe deixou-se cair no chão, ofegante e tonto. Vomitou sobre os sapatos de Miguel. Antes que pudesse dizer algo dois homens levaram-no para os aposentos.
Nessa noite um poderoso estado febril apoderou-se do corpo do meteorologista, destilando o seu corpo em suor. Todas as posições lhe eram desconfortáveis, obrigando-o a rebolar sobre si como se tivesse em chamas. O escuro trazia-lhe alucinações visuais e sons de coisas que não estavam lá. Um aperto no peito tornava a respiração impossível. “Se ao menos pudesse tomar umas gostas de chá de Farítia, certamente me sentiria melhor. Porque estou eu a pensar em tamanho disparate? Que doença se apoderou de mim para ficar neste estado?” A luz acendeu-se e Dona Filipa entrou, trazendo consigo água tépida e toalhas para lhe acalmar a febre e lavar a mão enfaixada. O meteorologista recebeu com agrado o toque húmido dos cuidados médicos da mulher do estranho homem que o acolhera. Ela pôs-lhe a mão sob a nuca e levantou-lhe a cabeça para que os lábios chegassem à panaceia que ela tinha trazido. Filipe engoliu num só trago e de repente todo o corpo reagiu. Ele conhecia aquele sabor. A panaceia era o chá! Sentiu o corpo a desentorpecer, a ganhar as forças. Afastou a chávena da boca para perguntar o que lhe atormentava o espírito.
– Que se passou Dona Filipa? Porque é que a senhora me deu as cha…
Principiou a dizer, mas os seus lábios foram calados pelo dedo maior de Dona Faria. Só então reparou na presença sombria de Dom Miguel, que apoiava a mão nos ombros de sua mulher, como que reclamando o seu território. O olhar que lhe lançava era sinistro, no entanto nos lábios parecia aflorar um sorriso.
– Tenho imensa pena que tenha assistido ao triste acto de traição do desertor. Dou-lhes tudo o que querem e é assim que acabam por me agradecer. Uma pena…– Sentou-se na cama de Filipe.– Agradeço-lhe ter tentado impedir a fuga.
– Quando chegamos ao Brasil?
– Amanhã, mais tardar.
– Em que cidade me poderá deixar? Se pudesse ser no Rio de Janeiro, ficar-lhe-ia muito grato.
– Mas o Filipe ainda não acabou o seu trabalho no laboratório. Não deseja ficar mais uns dias?
– Não posso, por muito que me agradasse, tenho compromissos a honrar e uma noiva sedenta de notícias.
Dom Miguel agarrou-lhe na perna com um pouco mais de força do que um simples pousar de mão e olhou no fundo dos olhos de Filipe, como se quisesse chegar ao fundo da sua alma.
– Creio que ambos podem esperar mais um dia ou dois. Ao fim ao cabo, eu salvei-lhe a vida por uma segunda vez.
Filipe viu-se obrigado a concordar. Se não fosse a benemérita acção de Dom Faria, neste momento estaria morto. A honra impunha que lhe satisfizesse a vontade e ficasse mais uns dias a contribuir para os estudos atmosféricos de Dandeleão. Porém, a sua lealdade para com o Rei de Portugal era algo de valor acima de qualquer outro. Esperava-lhe uma audição com Dom Pedro II do Brasil, um monarca que há muito queria conhecer. Para além de tudo isso, receava que mais uns dias fosse tempo suficiente para que a sua carta a anunciar que sobrevivera não chegasse antes da notícia do ataque dos piratas.
Pousou a chávena, da qual só tinha bebido um gole e, solenemente, abanou a cabeça negativamente.
– Não posso Dom Miguel Faria. Por favor, não me peça isso.
O sorriso desfez-se nos lábios do chefe de Dandeleão.
– Não estou a pedir. O senhor só sai daqui quando eu decidir aterrar. Até lá, trate de resolver o problema que eu lhe incumbi.
– Dom Faria, apelo ao seu bom senso. O trabalho sobre o qual me debruço não faz parte das minhas obrigações para consigo. Para além disso, sozinho não serei capaz de resolver os sistemas em tempo útil A matemática é de longe muito avançada para os meus conhecimento, apenas consigo tratar dos dados meteorológicos.
– Conhece alguém que tenha esses conhecimentos?
Filipe ficou em silêncio a pensar, tentando-se recordar de entre os académicos que conhecia, qual o que poderia ajudar melhor Dom Miguel.
– Existe um excelente matemático na corte de D. Pedro II do Brasil. Penso que o seu nome é Manuel Pedro. Se me levar até lá, poderei informá-lo de que está interessado nos seus serviços.
Miguel virou-se para Filipa e disse-lhe.
– Informa o Keil, o Giovanni e o Emanuel para se prepararem para trazermos o tal matemático aqui para Dandeleão.
Filipe, num pulo, sentou-se na cama.
– Vossa excelência não pode simplesmente chegar lá e trazer o Manuel Pedro!
– Se eu quero, tenho. Preciso de um matemático, vou ter um matemático. Sempre foi assim e é assim que vai continuar a ser. Precisei de um meteorologista, fui buscá-lo, não fui?
Filipe apercebeu-se então da armadilha em que caíra. Nunca iria sair de Dandeleão até o trabalho que Miguel lhe pedira fosse feito. Poderia demorar anos! Estava a fazer ciência de ponta com dados e teorias que muito poucas pessoas, ou até mesmo mais nenhumas senão ele, tinham tido acesso. Arriscava-se a passar o resto da sua vida naquela cidade voadora.
– Leve-me imediatamente para o Rio de Janeiro! Não irei fazer o que deseja, pelo que a sua única opção é deixar-me ir.
As gargalhadas maníacas de Dom Miguel ecoaram pela sala. Com um safanão, derrubou a chávena de chá das mãos de Filipe, espalhando o líquido pela cama.
– Pois não terá mais chá até que o faça! – disse, abandonando o quarto, trancando a porta atrás de si.
Filipe sentou-se de braços cruzados na cama, preparando a sua jornada estóica contra o tirano que se revelara. As horas passaram. Ao princípio Filipe zombou mentalmente a ameaça, mas depois apercebeu-se que algo lhe estava a escapar. Que mal faria não poder beber chá? Que ameaça ridícula era aquela? Iriam torturá-lo com sede? Porém, à hora de almoço, a refeição foi servida por uma ranhura na porta. Aquele era o quarto das pessoas que Dom Miguel raptava para preencher as fileiras de Dandeleão. O desfecho que agora vivia, há muito que tinha sido planeado. Quantas pessoas teriam já passado por aquilo que Filipe estava a passar? Estariam agora diluídas no resto do pessoal? Seria todo o pessoal angariado daquela maneira? Como conseguia Dom Miguel a lealdade absoluta que tanto apregoava numa tripulação de gente sequestrada? As perguntas voavam-lhe na cabeça, sem que nenhuma resposta pousasse. Por orgulho, decidiu não tocar na refeição, mas há medida que as horas passavam, o estômago roncante acabou por levar a melhor.
Subitamente as badaladas. As badaladas que anunciavam o chá que Filipe não iria tomar.
O meteorólogo sorriu.“Que ameaça ridícula!”
Foi então que começou a sentir os olhos pesados. Tentou lutar contra o cansaço infernal que o ia conquistando, mas uma força maior sobrepôs-se ao esforço. O estado febril voltara. Filipe projectou-se contra as paredes, procurando na dor uma saída para o desconforto intolerante que sentia. A cabeça ribombava violentamente, acompanhando a dor pulsar que lhe crescia no peito e se estendia pelos membros. Perdeu as forças e deixou-se cair no chão, abatido por formigueiro doloroso nos membros. Gritou até perder as forças para gritar. Foi quando a força de vontade desapareceu que uma chávena se encostou aos seus lábios levando todo o sofrimento para longe.
O chá! Era o chá! O maldito chá! As gotas que lhe haviam penetrado nos lábios tinham sido suficientes para aplacar as dores, mas não o desejo por mais da substância sanguínea. Seguiu o braço que lhe dava a cura e a doença num só gesto. Era Dona Filipa, acompanhada pelo olhar do seu marido. O metereólogo olhou para ela, procurando alguma clemência. Encontrou-a, mas não estava munida de poder de decisão. Era tarde de mais. Filipe só queria flagelar-se como castigo para o quão burro fora. Por três vezes a mulher de Dom Miguel arriscara-se para que ele escapasse às garras de Dandeleão. Por três vezes ele ignorara as pistas, os avisos, as oportunidades.
Pontapeou a mobília do quarto, exalando toda a sua frustração.
– Diga-me Filipe, acha-se melhor do que toda a gente em Dandeleão? – Perguntou-lhe Miguel. – Quanto tempo é que vai aguentar sem rastejar a pedir um só gole?
O estado febril estava a voltar. Filipe precisava de beber o resto da chávena. A sua natureza urrava por mais da infusão infernal. Dom Faria deliciava-se com o espectáculo que já deveria ter assistido inúmeras vezes. Era o único a saber como plantar Faríntia, como colher as suas folhas sem a murchar. Nenhum mal lhe podia ser feito ou o fornecimento do vital líquido era cessado.
Lealdade absoluta.
– O Filipe vai ou não vai fazer o que lhe estou a pedir? – Segredou-lhe Dom Faria à orelha, puxando-o pelos cabelos.
Entre baba, lágrimas, gemidos de dor e desespero Filipe acenou positivamente.
Uma chávena de chá foi posta à sua frente como recompensa e Dandeleão ganhou um novo residente permanente.
Você terminou Dandeleão
Carlos Silva
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