Eucalyptos e Acacias: Vinte annos de experiencias
VI Eucalyptos hybridos
VI
Eucalyptos hybridos
Desde que, em 1902 comecei a fazer sementeiras de Eucalyptos com maior assiduidade e experimentando largo numero de especies, achei entre exemplares que inteiramente se conformavam com a descripção que d'elles tinha nos livros proprios do seu estudo, alguns que eram uma aberração manifesta do typo especifico. A principio julguei que essas divergencias, então raras, proviessem de menos cuidado no apartamento das sementes; seriam resultado de qualquer mistura casual. Mas, havendo plantado algumas dezenas de especies n'um espaço relativamente estreito, verifiquei, á medida que comecei a colher sementes das arvores por mim plantadas, a progressiva frequencia dos exemplares extravagentes, e tive por indubitavel a hybridação. Até que, ultimamente, me veio ás mãos a obra do illustre botanico e professor Maiden, A Critical Revision of the genus Eucalyptus; e ahi vi o facto da hybridação dos Eucalyptos confirmado por uma das mais subidas auctoridades contemporaneas em materia de flora australiana.
Maiden considera «absolutamente provada» a hybridação dos Eucalyptos, e acha que d'esse facto abundam provas. Segundo as suas observações, o Eucalyptus Boormanii é um hybrido do siderophloia e do hemiphloia; o affinis vem do cruzamento do sideroxylon e do hemiphloia e o consideneana será talvez um hybrido do piperita e do Sieberiana.
Nas minhas sementeiras, os Eucalyptos que se mostraram mais facilmente susceptiveis de cruzamento foram o Gunnii e o leucoxylon. De quinze exemplares provenientes de uma sementeira d'este ultimo, não havia talvez dois perfeitamente iguaes. O robusta, o botryoides e mais acentuadamente o Stuartiana tambem não eram dos mais esquivos em apresentar exemplares divergindo das mães, não sei se por hybridação, se por tendencia ingenita a variar, a qual é igualmente fóra de duvida para grande parte das especies d'este genero. Em compensação, ha outras que não variam. Do globulus nunca encontrei um só hybrido. No amygdalina são rarissimos os exemplares divergentes; n'uma sementeira que produziu mais de quatrocentos pés, apenas encontrei um que não se conformava inteiramente com o typo commum.
Dado este facto da hybridação e começando nós a conhecer as especies em que se manifesta, convém saber se d'ella poderemos tirar proveito economico e não teremos antes de a considerar no ról das meras curiosidades da cultura florestal.
N'este ponto é que a obra de Maiden nos dá, se não me engano, uma indicação de valor, onde diz que as especies e variedades de Eucalyptos agrupadas na designação vulgar sob o nome de box-trees (arvores de buxo) e entre as quaes se encontram o melliodora, o polyanthema, o largiflorens e outros, mostram «uma particular tendencia para cruzar com aquellas outras especies chamadas iron-barks (casca de ferro) das quaes o crebra é muito nosso conhecido e a todos os respeitos justamente famoso.
Esta affirmação do sabio director do Jardim Botanico de Sydney porventura envolverá para nós uma indicação preciosa. O polyanthema, um box-tree, é muito provavelmente o Eucalypto que entre nós melhor supporta o calor do estio, emquanto resiste perfeitamente aos nossos invernos; mas é lento, muito lento no desenvolvimento. Entretanto, o crebra, um iron-bark, mais sensivel ás vicissitudes climatericas, prosperando, todavia, sob temperaturas elevadas e supportando sem maior mal frios rigorosos, tem um desenvolvimento mediano, em termos manifestos de aproveitamento economico. Em ambos a madeira é excellente. Seria possivel pelo cruzamento do polyanthema e do crebra obter hybridos que tendo as notabilissimas qualidades de resistencia do polyanthema lhes juntassem uma maior celeridade de desenvolvimento? E o Gunnii tão prompto em cruzar e tão proprio para povoar as encostas frias, não poderia ser melhorado pela insinuação de elementos novos, trazendo á sua madeira qualidades superiores a essas, devéras aproveitaveis, que já possue, e fazendo-a tão boa para construcções como magnifica é para lenha?
A experiencia é tentadora para os lavradores moços e confiados que queiram juntar a uma justa ambição de lucros uma intelligente applicação dos seus ocios e um sympathico esforço para legar aos filhos e aos filhos dos seus filhos uma riqueza nacional.
Todavia, convém notar que as experiencias d'esta natureza mais pertencem ao Estado e ás suas estações do que aos particulares e ás suas minguadas forças. Experiencias florestaes demandam longos annos e extensos campos; nem podem fazer-se em pouco espaço, nem pódem concluir em pouco tempo, como acontece com as hervas e ainda com os arbustos. Tenho Eucalyptos com dezeseis annos de que ainda não colhi semente; tenho, por exemplo, um urnigera, já feito e com não menos de doze annos, magnifico e bello, que ainda não deu flôr. O que, devo acrescentar, não me desanima; antes me prende. Quanto mais os fructos tardarem, mais se alongará a esperança e os seus cuidados e prazeres. Tal qual como com os nossos filhos: quanto mais crescidos são e mais trabalhos deram, mais os amamos.