Historia Alegre de Portugal
Introducção
Folgo de ter ensejo de mostrar publicamente a minha gratidão a v. ex.ª pelas provas de estima e de consideração que me dispensou n'esta e n'outras{IX} occasiões, e o alto apreço em que tenho o talento e o saber do escriptor distinctissimo, que renovou completamente, com os seus Faux Don Sébastien, o estudo de uma época interessante da historia portugueza, que nos deu emfim n'esse primoroso livro um estudo profundamente moderno, um estudo, como Gachard os sabe fazer, de um dos episodios mais curiosos e mais romanescos da nossa vida nacional.
De v. ex.ª
Cruz Quebrada, 25 de outubro de 1880.
Att. o or o v. e ob.
Pinheiro Chagas.{X}
{XI}
INTRODUCÇÃO
O sr. João Martins, mais conhecido pelo nome de João da Agualva, porque morava na pequena aldeia d'este nome, que fica entre Bellas e o Cacem n'um sitio árido e feio, fôra mestre de instrucção primaria numa das freguezias do concelho de Cintra. Conseguira a sua aposentação, e viera para a sua aldeia natal amanhar umas terras que ali possuia, e cujo rendimento o impedira já de morrer de fome nos tempos, em que o Estado lhe pagava munificentemente os noventa mil réis annuaes, com que remunerava n'essa época os primeiros guias do homem nos ásperos caminhos da instrucção. Mas o João da Agualva era homem de uma illustração excepcional. Convivera muito tempo com o prior de Monte-lavar, padre instruido que emprestára{XII} ao bom do professor os livros da sua limitada bibliotheca; em Bellas tambem se relacionára com um engenheiro francez, empregado nas obras de agua de Valle de Lobos, de Broco e de Valle de Figueira, o qual tomára gosto em desenvolver o espirito intelligente e ávido de saber do velho professor. Apezar d'isto vivia modestamente na sua pobre casa, lidando com os saloios que o tratavam com verdadeiro respeito, e tinham por elle um affecto em que entrava um pouco de veneração.
Era no inverno, e o João da Agualva estava passando a noite em casa de uma boa velha, a tia Margarida, viuva de um caseiro do marquez de Bellas, e mãe do Francisco Artilheiro, que, depois de ter servido cinco annos em artilheria, como indicava o seu sobre-nome, viera para Bellas ajudar a mãe a cuidar de umas leiras de terra, que a velhinha herdára do marido. Um grupo de saloios de Bellas e das aldeias proximas, sabendo que o João da Agualva viera para ali seroar, tinham vindo tambem, desejosos de ouvir algumas das historias que o velho ás vezes contava e que entretinham agradavelmente a noite. N'essa occasião, porém, o professor estava macambusio, e, quando o velho Bartholomeu, irmão da tia Margarida, que era dos que mais gostavam de o ouvir, lhe pediu que contasse alguma das suas historias, o bom do João da Agualva abanou negativamente a cabeça.
—Não estou hoje com disposição para historias da{XIII} carochinha, disse elle, e sabem vocês? Tenho andado a matutar n'uma cousa. Não é uma vergonha que vocês saibam de cór as alteiadas historias de cousas que nunca succederam, nem podiam succeder, e não saibam ao mesmo tempo nem o que foram seus paes nem os seus avós, nem o que fizeram, nem como elles viveram, nem o que succedeu n'esta boa terra de Portugal, que nós todos regamos com o nosso suor, que hoje nada vale, mas que deu brado no mundo pelas façanhas que os nossos praticaram?
—Tomára eu saber tudo isso, sr. João da Agualva, disse o Manuel da Idanha, rapazote de cara esperta, moço de lavoura do sr. Garignan, o antigo dono de collegio, que hoje reside na aldeia da Idanha, a cousa de quinhentos metros de Bellas, tomára eu saber tudo isso, mas como ha de ser!? É verdade que, graças a Deus, sei ler e escrever, e lá o patrão emprestou-me uma vez uns livros de historia que eu lhe pedi, mas, mal os comecei a ler, deu-me o somno. Diziam á gente os nomes dos reis e os filhos que tinham tido, e as batalhas que tinham ganho, e mais umas lenga-lengas de que não percebi patavina. Ora, sr. João da Agualva, eu, para dormir, graças a Deus, ainda não preciso de ler historia.
—Mas que diriam vocês, tornou o velho professor, se eu, n'estes nossos serões, lhes contasse, em vez de contos de fadas, e de historias de Carlos Magno, a historia do que succedeu em Portugal? Talvez vocês me{XIV} entendessem, quer-me parecer que se não aborreceriam muito, e, em todo o caso, se se enfastiassem, diziam-m'o francamente, e eu não continuava, porque lá para massador é que não sirvo.
—Ah! sr. João, exclamou o Manuel da Idanha, isso é que era um regalo!
Os outros não disseram palavra, e o João, que os percebeu, riu-se para dentro, e fingiu-se desentendido.
—Pois então, vá feito, eu hoje estou cançado, porque já fui a pé ao Sabugo tratar da compra de um boi, mas amanhã é domingo. Venham vocês á noite aqui para casa da tia Margarida, e eu começarei a minha historia.
No domingo á noite ninguem faltou; mas, se vieram, foi pelo respeito que tinham ao João da Agualva, não porque esperassem divertir-se muito. O Bartholomeu já abria a bôca ainda antes do João da Agualva principiar. Mas o João chegou-se mais para o lume, porque a noite estava fria a valer, sorriu-se, e principiou como o leitor verá no capitulo immediato.{1}