Inovações tecnológicas e a complexidade do sistema econômico
Introdução
O interesse pelo tema proposto busca entender o processo de inovação tecnológica dentro de um sistema econômico que é entendido como complexo. A opção por essa perspectiva tem como objetivo compreender o processo inovativo a partir de uma matriz teórica distinta daquela desenvolvida pela microeconomia tradicional, que, em virtude do seu caráter de construção estática, não é capaz de incorporar propriedades da inovação tecnológica e mudanças estruturais.
Ao avaliar as principais premissas da teoria microeconômica tradicional, verificase que esta contém atributos que, de certa forma, comprometem o poder explicativo dos seus modelos, sobretudo aqueles que remetem à noção de equilíbrio geral. Grosso modo, esses modelos apresentam tanto um distanciamento da realidade por incorporar características imaginárias dos atores sociais e dos mercados enquanto instituições, como um modo mecânico de apreender as interações sociais. Em particular, não são capazes de levar em consideração a dinâmica de fenômenos econômicos e a complexidade das interações e relações que se travam nessa esfera entre os agentes e entre estes e o ambiente. É em função desses aspectos que alguns críticos classificam a teoria neoclássica como reducionista e, dessa perspectiva, o todo consiste na mera composição das suas partes constituintes, sendo este um ponto importante a ser aclarado mais à frente.
Uma das principais consequências desse reducionismo é a limitação da abordagem neoclássica tradicional em lidar com o processo de
inovações tecnológicas,1 fato que abriu espaço para o desenvolvimento de modelos de inspiração schumpeteriana. Na obra de Schumpeter, a inovação passa a ser enxergada como a principal responsável pela criação de diversidade e variedade no sistema, afastando o sistema das posições de equilíbrio. A inovação também é considerada a principal responsável pelo desenvolvimento econômico.
Dando prosseguimento ao desenvolvimento dessas ideias, a partir da atualização e incorporação de novos elementos à concepção de Schumpeter, a abordagem neoschumpeteriana, igualmente conhecida como evolucionária, apresentase como uma alternativa às deficiências imputadas à abordagem neoclássica tradicional, uma vez que permite compreender a inovação, isto é, a introdução de novidades, como uma mudança descontínua que altera as condições estruturais e afasta a economia das posições de equilíbrio. Cabe ressaltar que a abordagem neoschumpeteriana está mais interessada em explicar as diferentes propriedades do processo inovativo e como as diferentes combinações dessas propriedades geram assimetrias entre os agentes.
É nesse contexto que a teoria dos sistemas complexos, ao apresentar um arcabouço não reducionista da análise que tem uma perspectiva evolucionária e sistêmica, concebe a economia como um sistema adaptativo, complexo e que é capaz de autoorganização. Tornouse, por isso, uma alternativa no campo da ciência econômica.
Uma vez feitas essas considerações iniciais, o presente trabalho pretende discutir em que se constituem esses sistemas complexos, como as inovações tecnológicas são entendidas nesse arcabouço e, ainda, como essa análise pode contribuir para o avanço da economia.
Para atingir o objetivo acima, o trabalho foi dividido em três capítulos além desta introdução e da parte conclusiva. No primeiro capítulo são feitas algumas considerações críticas às peculiaridades da microeconomia tradicional. Essa avaliação inicial visa identificar suas limitações com o objetivo de verificar sob quais condições se dá a introdução de uma nova perspectiva de análise cujas principais características podem ser creditadas à abordagem evolucionária. Diante disso, tornase importante realizar um estudo do que se considera a origem dessas ideias. Com isso pretendese contrapor essas duas visões a partir do tratamento de ambas no plano dos indivíduos e no plano agregado, e também do modo como tratam as inovações tecnológicas diante desse contexto.
O segundo capítulo tem por objetivo identificar as principais características dos sistemas complexos. Mais especificamente, pretendese discutir as origens e os instrumentos teóricos dessa abordagem para finalmente, no terceiro capítulo, tratar o processo de inovação tecnológica dentro desse contexto a partir da avaliação e descrição de alguns modelos realizados nessa área, os quais são em grande parte baseados no modelo de concorrência schumpeteriana desenvolvido por Nelson & Winter ([1982]/2005). O pensamento e a obra desses autores passaram a ser vistos como referência para a abordagem evolucionária, oferecendo importantes contribuições, especialmente na esfera da mudança tecnológica.
O capítulo discute ainda, de maneira mais detalhada, as hipóteses do modelo de concorrência schumpeteriana de Nelson & Winter ([1982]/2005), e também como os argumentos e observações desenvolvidos por essa literatura podem ser aproximados do método de modelagem baseado no agente dos sistemas complexos. O quarto e último capítulo será composto pelas considerações finais do trabalho.
1. Segundo essa abordagem, as inovações seriam incapazes de produzir grandes alterações no sistema.