Inscrições Portuguesas
Capítulo X
Thomar, Convento de Christo, sobre o arco da Sacristia Velha.
L :
--Era MCC · VIIII magister Galdinus nobili siquidem genere Bracara oriundus exctitit tempore autem Alfonsi illustrissimi Portugalis regis. Hic secularem abnegans miliciam, in brevi ut Lucifer eminevit, nam Templi miles Gerosolimam peciit ibique per quinquenium non in hermen vitam, duxit cum Magistro enim suo cum Fratisbusque implerige preliis contra Egipti et Surie insurrexit regem. Cumque Ascalona caperetur, presto eum in Antiocam pergens sepe contra Sidan decione dimicavit. Post quinquennium vero ad prefatum qui et eum educaverat et militem fecerat reversus est regem. Factus
Domus Templi Portugalis Procurator hoc distruxit castrum Palumbar, Thomar, Ozezar et hoc quod dicitur Almoriol et Eidaniam et Montem Sanctum.--
V :
--Era de 1209. O Mestre Galdino, certamente de nobre geração, natural de Braga, existiu no tempo de Affonso, illustrissimo Rei de Portugal. Abandonando a milicia secular, em breve se elevou como um Astro, porquanto, soldado do Templo, dirigiu-se a Jerusalem, onde durante cinco annos levou vida trabalhosa. Com seu Mestre e seus Irmãos, entrou em muitas batalhas, movendo-se contra o Rei do Egypto e da Syria. Como fosse tomada Ascalona, partindo logo para Antiochia pelejou muitas vezes pela rendição de Sidon. Cinco annos passados, voltou, então, para o Rei que o creára e o fizera cavalleiro. Feito Procurador da casa do Templo em Portugal, fundou, n'este, o castello de Pombal, Thomar, Zezere e este que é chamado Almoriol, e Idanha e Monsanto.--
Esta inscripção tem sido dada por diversos auctores, mas em nenhum é rigorosamente exacta a copia. O proprio Costa (Historia da ordem, pg. 178, doc. 14) figurando-a toscamente em reproducção graphica, erra logo na era a leitura, dando a de 1208 pela de MCCVIIII ou 1209 que tão nitidamente se lê na linha 1).
Este erro generalisou-se, repetindo-o Viterbo (Elucidario) e adoptando-o Pedro Ribeiro (Dissertações). Debalde Cunha (Historia ecclesiastica de Braga), na sua traducção, soffrivelmente phantasiosa, restituiu a era exacta de 1209.
Na linha 4) suscitou-me duvidas a leitura commum do --hic,--pela fórma especial da inicial, que se encontra na linha 6), onde parecia repugnar-lhe o valor de--h--. Mas, não podendo ler-se:--inic--ainda por:--in hic--é forçoso acceitar a leitura geral. Na mesma linha, a palavra --abnegans--tem evidentemente a fórma de--acbnegans,--que aliás diz o mesmo.
Na linha 5), a leitura geral é a de--emicuit--por--emievit,--que é positivamente a que está na pedra. Preferimos, porém, a de--eminevit,--de--emineo,--que mais se approxima, e que não altera, mas precisa mais o sentido. Foi-me suggerida por Gabriel Pereira esta versão.
Na linha 6), Costa copiou--petiit--por--peciit,--e--inermem--por--in hermen,--que é o que claramente lá está. Vê-se que o embaraçou tambem a fórma da inicial acima alludida, não querendo ler n'ella o--h--que aliás não duvidára ler, como tal, no--hic--da linha 4). A solução parece-nos ser a de dar áquella fórma, aqui, o valor de uma simples tremação ou dierese do--i--lendo realmente:--ïermen--ou--in ermam vitam--. Podem não ter grande importancia estas variantes, mas é sempre bom conservar-se a fórma original em taes cousas.
Na linha 7) onde se lê:--cvm Magistro enim svo,--Costa permitte-se acrescentar um--fuit,--que lá não está, nem é necessario.
Mas é na linha 9) que as pretensões correctivas do auctor da Historia da Ordem, etc., tomam mais graves proporções. Assim: onde nitidamente se lê:--presto evm in Antiocam,--elle simula copiar:--presto fuit in Antiochie,--e logo em seguida lê:--sepe Suldani--em vez de--sepe contra Sidan,--como diz a pedra, e bem. Dá assim origem ao erro que elle, Cunha, e os mais commettem, de traduzir--Soldão--por--Sidan,--o soldão ou sultão, não se sabe qual, pela cidade de Sidon, perfeitamente conhecida.
Na linha 10), a leitura de Costa e dos mais, embaraçou-se na abreviatura--vo,--que se segue á palavra--quinquennium,--claramente:--vero,--e achou então melhor supprimil-a. Em seguida, reduziu a--eum,--a abreviatura em que entrava um--t--muito bem definido, mas que o embaraçava tambem. Restituimos--et eum--que é fórma conhecida.
Na linha 11), tem-se lido sempre por--hoc construxit,--que é a leitura que immediatamente occorre, de certo, a fórma ou phrase, que, pelo rigoroso confronto dos caracteres da inscripção, não podemos ler senão como:--hocdstrvxit--. A primeira duvida suscitou-nol-a o--hoc,--não porque não esteja bem definido nos caracteres, mas porque nos pareceu arrevesado ou inadequado ao sentido. É evidente, porém, que se quiz precisar o paiz, o logar e não o objecto ou o castello, determinadamente, e assim traduzimos:--Feito Procurador da Casa do Templo, em Portugal, neste (i. e. aqui) fundou, etc. Mas porque é que todos têem fugido a ler litteralmente:--dstrvxit,--que é a forma original? Naturalmente, por entenderem que esta fórma equivaleria necessariamente á de--destruxit (de destruo)--dando o absurdo de ter Galdino destruido os castellos em vez de os ter construido (construxit). Mas é que não lembrou que não era fatal ler--destruxit,--e que, lendo-se--distruxit--(de distruo), se obtinha a idéa contraria, ou a idéa precisa de ter o Templario portuguez lançado, espalhado, ou construido, aqui, em diversas partes, os fundamentos d'esses diversos castellos. E mais explicado fica o--hoc,--antecedente.
Finalmente, na ultima linha, ha duas abreviaturas:--dod. dr.--ou talvez, por uma inversão da primeira inicial:--qod. dr.--que geralmente se lê, e parece bem:--quod dicitur--.
Tambem esta interessantissima inscripção, pela primeira vez directamente reproduzida por calco, que me enviou o sr. Pinto, da escola industrial de Thomar, não tem obtido até agora uma traducção regularmente exacta. Costa e Cunha não separam as orações, nem traduzem litteralmente.
O primeiro traduz:--sepe pergens contra Sidan etc.-- por--e muitas vezes venceu ao Soldam,--o que é duplamente falso. Como já observei, iniciou o erro de ler--Suldani,-- onde, clara e rasoavelmente, está:--Sidan--.
Cunha, que restitue a era exacta de 1209, antecede-a pela formula:--Em nome de Christo,--que lá não está, e acrescenta a filiação do Rei Affonso:--filho do Conde Dom Henrique e da Rainha Dona Tareja--. Não contente com isto, traduz que: quando Escalona foi tomada, elle foi alli prestes e prompto;--põe Galdino em Antiochia pelejando muitas vezes--contra o poder do Soldão;--augmenta a enumeração dos castellos com o de--Cardiga,--supprimindo o de--Monsanto,--e alonga, finalmente, a inscripção com as seguintes palavras:--Era 1209 annos. Mestre Gualdim, nascido em Braga, que he cabeça de Galisa, edificou este Castello de Almorol com os freires seus irmãos--.
Bastam estes exemplos. Como é sabido, a inscripção está n'uma grande lapide de marmore sobre o arco da chamada Sacristia Velha do convento de Christo de Thomar, para onde foi transferida, do castello de Almorol, segundo a tradição, no tempo e por ordem do Infante Dom Henrique.
É claro que não havemos de fazer, agora e aqui, a biographia de Mestre Gualdino ou Gualdim ou Galdino Paes. N'esse ponto, é justo louvar as diligencias e os trabalhos de Costa (Historia da Ordem, etc.) e de Viterbo (Elucidario), que reuniram interessantissimos documentos sobre o Templario portuguez. Segundo o primeiro, Galdino nasceu em 1118 e morreu em 1195. Era filho de Payo Ramires e de D. Gontrade Soares, nomes que denunciam uma origem visigoda. Pelo pae, era bisneto de Ayres Carpinteiro que lhe trazia uma bella tradição de fidalguia authentica.
N'um velho livro de linhagens anda dispersamente registada esta prosapia:
--«Este Ayres Carpinteiro onde (d'onde) vem os Ramirãos foi casado com Amiana de Selharis e de Tevora e fege nella Ramiro Ayres...»
Ramiro casou com Orraca Peres, filha de Gontinha Eres e de Dom Pedro Affonso de Doreas--«que fez Manhente,»--e o seu primogenito foi Dom Payo Ramires. Casou Dom Payo, a primeira vez, com Dona Orraca de Caldelas de Galiza, de quem teve o alcaide Dom Vasco Paes,--«e desque morreu esta mulher a D. Payo Ramires casou com a irman de D. Payo Correa o Velho e fege nella o mestre D. Gualdim Paes do Templo e D. Gomes Paes de Piscos: e este mestre D. Gualdim Paes fez Tomar e Pombal e Castelo de Almoyrol e poboou outros muitos logares que ganhou á ordem, e foi muito forte em armas e leixou ao Templo o que agora ha, e em Abelamar (talvez em alem-mar)».
Goes, que gostâmos sempre de consultar n'estas historias, não parece ter encontrado nos Paes, do seu tempo, pelo menos, uma genealogia muito antiga, pois que abre o «titulo» com Payo Rodrigues que--«foi um cavalleiro muito honrado em tempo delRei Dom Affonso o quinto, e foi filho de Pedro Esteves, Alcaide Mór de Portel»--. São outros, evidentemente. Tambem da semente d'elle, como dizem os geneologos, não seria facil haver noticia, espalhada, como ficaria, clandestina ou ganceira, pela Syria e pelo Ribatejo, nas aventuras e desmandos das campanhas do Templario.
Segundo Cunha, nasceu o Mestre em Braga e--«n'ella se conserva ainda hoje uma rua com o nome de D. Gualdim, em que é tradição que nasceu»--.
Corrigem outros, observando que alli fôra Procurador ou Mestre da Casa do Templo, que lá existira,--o que é demonstrado por um documento citado no Elucidario de Viterbo,--mas que em Marecos, depois Amaraes e hoje Amares, a 10 kilometros de Braga, é que realmente nascera o Mestre, que fôra até o primeiro a usar e a nobilitar o titulo de Marecos, da herdade que foi o nucleo da povoação.
Convem dizer, pois que não tem sido dito até hoje, que outro velho codice geneologico põe uma sombra de duvida n'esta gloria da pequena povoação minhota, dizendo, um tanto obscuramente:--«E o meestre dom galdim paez do tempre e seu irmaão forom naturaaes dapardar de braa». Mas sendo justa a hesitação na leitura indicada na compilação da Academia (Port. monum. hist.), não será talvez muito aventuroso ler:--da par de Braga,--restituindo á antiga Marecos, o seu Templario. E já agora avivemos o registo de um pequeno episodio que n'esta altura nos offerece esse codice.
Uma neta do irmão de Galdino:--Dona Estevaynha ou Estevaninha Paes casou com Dom Martim Annes de Riba da Visella, neto, pela mãe, de um grande fidalgo Dom Soeiro Mendes o Gordo que a tivera de uma barregan e que fazendo-a herdeira--«mui bem e mui compridamente em seus beens»--a casára com Dom João Fernandes de Riba da Vizella.
Diz então o codice:--«E este meestre dom galdim paaez do tempre fez muyto bem e deu grandalgo a este dom Martim Annes de riba davizela quando casou com esta dona steuaynha paaz sobredita».
Martim Annes foi--«mui priuado delRei dom afonso de portugal, filho delRei dom sancho o uelho».
Por ordem do Rei foi cercar a irmã d'este, a Infanta Dona Thereza, a Montemór o Velho, e derrotado, cahiu n'um paul entre aquella villa e Coimbra. Quando lhe acudiram:--«non se pode sofrer que non morese do sangui que del tirarom as çameçugas».
Dá, ainda, uma tradição constante, e parece confirmar a inscripção de Thomar, que Galdino fôra creado na côrte do primeiro Rei portuguez, e por elle armado cavalleiro na batalha de Ourique, em 1139. É sómente dez ou mais annos depois d'esta data, que nos apparece nos documentos, e já como Templario graduado, consequentemente depois do seu regresso do Oriente.
Segundo Cunha e os diplomas reunidos por elle, seria, até, sómente na era de 1199, correspondente ao anno de 1161, que pela primeira vez nos appareceria como Mestre, na doação que lhe faz o Rei:--tibi Magistro Gualdino,--de certas herdades cultivadas e por cultivar junto de Cintra; mas Santa Rosa de Viterbo (Elucidario) encontra-o muito antes, em 1148, figurando como Mestre da Casa Templaria de Braga, n'uma concordata feita com esta, e em 1157 como Mestre absoluto ou Geral dos Templarios em Portugal, succedendo a Dom Pedro Arnaldo, que abdicou n'esse anno e morreu no seguinte. Terá Viterbo lido bem aquella primeira data? A interrogação parecera impertinente em relação ao erudito investigador, se um facto muito positivo a não auctorisasse. Esse facto é a tomada de Ascalonia, expressamente indicada na inscripção. Essa tomada, é claro que não foi a de Saladino aos christãos, que só se realisou em 1187. Foi a dos christãos aos turcos. Estava lá, então, Galdino; isto é, estava no Oriente em 1153, que é a data d'esta conquista. (Michaud, Hist. des Croisades, t. II.)
Estava, e demorou-se ainda. Estando em 1157 em Portugal, e sendo feito, então, Mestre geral dos Templarios Portuguezes, partiria em 1152, ou pouco antes, mas já partiria, então, como templario graduado, se é verdadeira a data de 1148, attribuida por Viterbo á concordata de Braga, o que, de resto, não repugna inteiramente á inscripção.
Inclinamo-nos a crer que foi realmente em 1157 que Galdino voltou, sendo então elevado ao cargo de Mestre geral, ou, como a inscripção diz:--de Procurador do Templo, em todo o Portugal, tendo partido, como simples Mestre da Casa de Braga, em 1152, ou pouco antes.
Dos castellos alludidos na inscripção, dois,--o de Idanha e o de Monsanto,--são-lhe doados em 29 de novembro da era de 1203 (1165), chamando-se-lhe tambem Mestre:--vobis Magistro Gualdino--.
A ideia vulgar da hierarchia monastico-militar póde parecer extraordinario que elle seja designado simplesmente como Procurador, em outubro da era de 1207 (1169), quando lhe são doados, e á Ordem, os castellos de Zezere, de Thomar, e ainda o de Cardiga--«com todas as herdades que alli fizeste e rompeste»--devendo notar-se que n'esse mesmo anno como tal se apellida tambem, na doação:--«de toda a terça parte que pela graça de Deus poderem adquirir e povoar desde o rio Tejo por deante--»para o sul, é claro, aos--«cavalleiros chamados do Templo de Salomão»--nas pessoas dos de Portugal e de--vobis Fratri Gualdino in Portugalia rerum Templi Procuratori--.