Luiz de Camões Marinheiro

Vicente de Almeida de Eça · Capítulo 5 de 9

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Luiz de Camões Marinheiro

Capítulo IV

Se dos costumes dos homens do mar passamos aos trabalhos manuaes, que constituem a parte pratica da sua arte, vamos encontrar nos Lusiadas descripções e allusões a quasi todas as fainas e manobras tão variadas, que são necessarias para fazer servir essa complicada machina que se chama navio.

É imponente o espectaculo que offerece a tolda de um navio em faina geral de fazer-se de véla. Por mais numerosa que seja a guarnição, todos tem o seu posto detalhado e todos tem que fazer. Descreve Camões essa faina da maneira seguinte:

Já nas naus os bons trabalhadores

Volvem o cabrestante, e repartidos

Pelo trabalho, uns puxam pela amarra,

Outros quebram co'o peito a dura barra,

Outros pendem da verga e já desatam

A véla.

(Lus. IX, 10, 11.)

 

Está o ferro a pique, redobram os esforços dos marinheiros para o suspender;

 

As ancoras tenaces vão levando,

(Lus. II, 18.)

 

e ao mesmo tempo

 

Da proa as vélas sós ao vento dado,

(Lus., ibidem.)

obrigam o navio a fazer cabeça, e eil-o que vae em demanda da barra.

Nos versos que acabamos de citar estão compendiadas todas as manobras necessarias para um navio se fazer de véla. Não o faria melhor o Bonnefoux ou o Bréart!

Na descripção da tempestade do canto VI, encontram-se todas as manobras de que se lança mão debaixo de tempo. O mestre, que presente o golpe de vento, apita á gente e manda carregar e ferrar joanetes,

 

Os traquetes das gaveas tomar manda,

(Lus. VI, 70)

 

Mal estão carregados os joanetes, já o vento está a contas com o navio. Carrega a véla grande!

 

«Amaina a grande véla!»

(Lus. VI, 71.)

 

Não se carregou a maior a tempo, por isso ella se rasgou, e o navio, dando a borda de sotavento, metteu dentro uns poucos de mares;

No romper da véla a nau pendente

Toma grão somma d'agua pelo bordo.

(Lus. VI, 72.)

 

É preciso allivial-o, quanto seja possivel, dos pesos, e esgotar a agua. Por isso o mestre ordena:

«Alija tudo ao mar,

Vão outros dar á bomba, não cessando!»

(Lus., ibidem.)

 

e não se esquece de reforçar a gente do governo, pondo ao leme

Tres marinheiros duros e forçosos,

(Lus. VI, 73.)

 

passando-lhe ainda para mais segurança

 

Talhas d'uma e d'outra parte.

(Lus., ibidem.)

Chega o navio a um porto pouco conhecido. Ao investir a barra depara-se com uma pedra á flor d'agua. É necessario safar d'ella e quanto antes. Aqui é inevitavel alguma confusão; não se sabe para que lado será melhor guinar, e por isso os marinheiros

 

Maream vélas, ferve a gente irada

O leme a um bordo e a outro atravessando;

O mestre da poppa brada.

(Lus. II, 24.)

Com similhante contratempo é melhor não commetter a barra e fundear em franquia; por isso o commandante

 

Não entra pela barra, e surge fóra.

(Lus. I, 102.)

 

Mas depois de reconhecida a barra já se póde tentar a entrada; então

já as proas se inclinavam

Para que amainassem;

A gente e marinheiros

Tomam vélas; amaina-se a verga alta;

Da ancora o mar ferido em cima salta;

(Lus. I, 48.)

e por fim

 

Pega no fundo a ancora pesada;

(Lus. II, 74.)

 

e aqui temos nós uma descripção completa da faina de fundear.

Surto o navio no porto, nem por isso cessam as suas manobras e fainas. Uma das mais importantes consiste na limpeza do costado do navio, que depois de uma viagem prolongada se acha coberto de incrustações, molluscos e algas marinhas, principalmente nas obras vivas. Quando os navios não eram forrados de cobre, como hoje são, esta operação era indispensavel, posto que difficultosa, sendo muitas vezes necessario espalmal-os, isto é, varal-os na praia, e até viral-os de querena. Não se esqueceu o Poeta d'este serviço maritimo, descrevendo-o assim:

 

Aqui de limos, cascas e d'ostrinhos,

Nojosa criação das aguas fundas,

Alimpamos as naus, que dos caminhos

Longos do mar vem sordidas e immundas.

(Lus. V, 79.)

 

É tambem um dos primeiros cuidados nos portos o renovar a aguada, e por isso o commandante, logo que póde, determina

De vir por agua a terra;

(Lus. I, 84.)

E vão a seu prazer fazer aguada.

(Lus. I, 93.)

 

Para este serviço, bem como para todas as communicações com a terra dentro dos portos, serve-se a gente do mar dos bateis ou embarcações miudas. Estas embarcações são quasi sempre movidas por meio de remos, cuja manobra é diversa e variada conforme a maior ou menor pressa e outras circumstancias. Assim, quando o commandante vae a terra fazer uma visita official, a embarcação que o transporta vae de voga larga e descançada, e

 

O remo compassado fere frio Agora o mar, depois o fresco rio,

(Lus. VII, 43.)

 

mas quando, por qualquer motivo, é preciso chegar rapidamente, não se póde perder tempo com essas elegancias de manobra; pica-se a voga e aperta-se o remo (Lus. V, 32), duplicando a força de impulso e fazendo saltar o escaler por cima das ondas.

Não esqueceram ao Poeta os combates navaes, em que o marinheiro se torna soldado com duplicado valor, pois tem de combater ao mesmo tempo os tormentos e o inimigo. Ora é um desembarque:

 

Apercebido vae

Em tres bateis.

(Lus. I, 85.)

Eis nos bateis o fogo se levanta

Na furiosa e dura artilharia;

A gente

A povoação

Esbombardea, accende e desbarata.

(Lus. I, 89, 90.)

 

Ora é um combate entre as embarcações miudas dos dois contendores:

Huns vão nas almadias carregadas;

Hum corta o mar a nado diligente;

Quem se afoga nas ondas encurvadas;

Quem bebe o mar, e o deita juntamente.

Arrombam as miudas bombardadas

Os pangaios subtís.

(Lus. I, 91)

 

Ora é finalmente uma verdadeira batalha naval entre duas armadas, quando

 

em sangue e resistencia

O mar todo com fogo e ferro ferve.

(Lus. X, 29.)

Primeiro combatem de longe com a artilharia; segue-se depois a abordagem; e o combate decide-se por ultimo á arma branca. Assim o vencedor

 

Das grandes naus,

co'a ferrea pella

Que sahe com trovão do cobre ardente,

Fará pedaços leme, mastro, vela;

Depois, lançando arpéos ousadamente

Na capitaina inimiga, dentro nella

Saltando, a fará só com lança e espada

De quatro centos despejada.

(Lus. X, 28.)