Memnoch, o Diabo
Capítulo 2
Cheguei à sua casa no Upper East Side antes dele. Eu o havia seguido até ali inúmeras vezes. A rotina era minha conhecida. Subalternos moravam nos andares superiores e inferiores, embora eu seja da opinião de que eles não sabiam quem ele era. Não era diferente das providências habituais de um vampiro. E entre esses dois apartamentos ficava sua longa seqüência de aposentos, o segundo andar do prédio urbano, cheio de grades como um presídio, e acessível a ele por uma entrada nos fundos.
Ele nunca fazia com que o carro o deixasse diante da casa. Costumava saltar na Madison e entrar pelo quarteirão adentro para chegar à sua porta dos fundos. Ou às vezes descia do carro na Quinta. Ele dispunha de dois percursos, e parte dos imóveis vizinhos lhe pertencia. Mas ninguém, nenhum dos que o perseguiam, tinha conhecimento desse lugar.
Eu nem mesmo tinha certeza de que sua filha, Dora, conhecia a localização exata. Ele jamais a levara ali em todos os meses em que eu o vigiara, tudo saboreando e lambendo os beiços diante da sua vida. E eu nunca havia captado nos pensamentos de Dora nenhuma imagem distinta do lugar.
Dora, entretanto, tinha conhecimento dessa coleção. No passado, ela havia aceitado suas relíquias. Tinha algumas delas espalhadas pelo castelo-convento vazio em Nova Orleans. Eu havia tido um vislumbre de um ou dois desses belos objetos na noite em que a segui por lá. E agora minha Vítima ainda estava se lamentando pelo fato de ela ter recusado seu último presente. Algo verdadeiramente sagrado, ou pelo menos era o que ele pensava.
Entrei no apartamento sem grande esforço.
Mal se podia chamar aquilo de apartamento, embora de fato possuísse um pequeno banheiro, sujo daquele jeito que lugares áridos, sem uso, ficam sujos, e depois salas e mais salas apinhadas de arcas, estátuas, figuras de bronze, montes de objetos aparentemente sem valor que sem dúvida ocultavam descobertas inestimáveis.
Era muito estranho estar ali dentro, escondido na pequena sala dos fundos, porque antes eu nunca havia feito mais do que olhar pelas janelas. Fazia frio. Quando ele chegasse, ele criaria calor e luz com bastante facilidade.
Pressenti que ele estava apenas na metade do caminho, preso num engarrafamento na Madison, e comecei a explorar o lugar.
De imediato, uma imensa estátua de mármore de um anjo me assustou. Saí por uma porta e quase dei um encontrão nela. Era um daqueles anjos que antigamente ficavam do lado de dentro das portas das igrejas, oferecendo água benta em metades de conchas. Eu já os havia visto na Europa e em Nova Orleans.
Ele era gigantesco, e seu perfil cruel olhava, cego, para as sombras. Muito ao longe no corredor, subia alguma luz da pequena rua movimentada que desembocava na Quinta. As costumeiras melodias do trânsito de Nova York atravessavam as paredes.
Esse anjo estava colocado como se acabasse de pousar vindo dos céus para oferecer sua vasilha sagrada. Dei-lhe um tapinha de leve no joelho dobrado e passei por volta dele. Não gostei dele. Eu sentia o cheiro de pergaminho, papiro, vários tipos de metal. A sala do outro lado parecia estar repleta de ícones russos. As paredes estavam literalmente cobertas com eles e a luz realçava as auréolas das Virgens de olhos tristes ou dos Cristos estarrecidos.
Passei para a sala seguinte. Crucifixos. Eu reconhecia o estilo espanhol, e o que parecia ser o barroco italiano, bem como trabalhos muito primitivos que sem dúvida deviam ter sido raríssimos: com o Cristo grotesco e de proporções falhas, porém sofrendo com horror adequado na cruz carcomida.
Só agora eu percebia o óbvio. Era tudo arte religiosa. Não havia nada que não fosse religioso. Mas a verdade é que é bastante fácil dizer isso a respeito de toda a arte anterior ao final do século passado, quando se pensa no assunto. Quer dizer, a grande maioria da arte é religiosa mesmo.
O lugar era totalmente desprovido de vida.
Na realidade, ele fedia a inseticida. É claro que ele havia impregnado o ambiente para preservar suas estátuas antigas de madeira. Teria sido preciso que agisse assim. Eu não conseguia ouvir ratos, sentir seu cheiro ou detectar a presença de qualquer ser vivo. O apartamento do andar de baixo estava vazio dos seus ocupantes, muito embora um pequeno rádio continuasse divulgando as notícias num banheiro.
Fácil eliminar esse pequeno ruído. Nos andares acima, havia mortais, mas eles eram velhos, e eu captei a imagem de um homem sedentário com fones de ouvido na cabeça, acompanhando com o corpo o ritmo de alguma música esotérica alemã, Wagner, amantes condenados pelo destino lamentando o "odiado amanhecer" ou alguma outra tolice pesada, repetitiva e nitidamente pagã. Que se dane o Leitmotiv. Havia mais uma pessoa ali em cima, mas era frágil demais para causar a menor preocupação, e eu consegui captar somente uma imagem dela. Parecia estar costurando ou fazendo tricô.
Não me importei o suficiente com nada disso para trazê-lo a um foco amoroso. Eu estava seguro no apartamento, e Ele chegaria logo, enchendo todos aqueles aposentos com o perfume do seu sangue. Eu me empenharia ao máximo para não quebrar seu pescoço antes de ter sugado a última gota. É, essa era a noite.
De qualquer jeito, Dora só descobriria quando chegasse em casa no dia seguinte. Quem iria saber que eu havia deixado o corpo ali?
Passei para a sala de estar. Estava toleravelmente limpa, essa sala onde ele relaxava, lia, estudava e acariciava seus objetos. Ali estavam seus sofás volumosos e confortáveis, dotados de pilhas de almofadas, e luminárias fluorescentes de metal negro tão delicadas, leves, modernas e fáceis de manobrar que pareciam insetos pousados nas mesas, no próprio chão e às vezes em cima de caixas de papelão.
O cinzeiro de cristal estava cheio de pontas de cigarro, o que confirmava sua preferência pela segurança em detrimento da limpeza; e eu vi copos espalhados nos quais a bebida há muito havia secado formando uma camada vitrifícada que agora estava descarnando como verniz.
Cortinas finas, bastante desmazeladas, cobriam as janelas, deixando entrar a luz suja e sedutora.
Mesmo essa sala estava atulhada de imagens de santos — um Santo Antônio muito colorido e emotivo segurando no braço dobrado um Menino Jesus rechonchudo; uma Virgem muito grande e remota, evidentemente de origem latino-americana. E algum monstruoso ser angelical de granito negro que, mesmo com meus olhos, não pude examinar perfeitamente na escuridão, algo que lembrava mais um demônio da Mesopotâmia do que um anjo.
Por um átimo de segundo, esse monstro de granito fez com que meu corpo todo estremecesse. Ele parecia... não, eu deveria dizer que suas asas fizeram com que eu pensasse na criatura que eu havia visto de vislumbre, aquela Coisa que eu acreditava estar me seguindo.
Ali, porém, não ouvi os passos. Não houve nenhum rasgo no tecido do mundo. Tratava-se de uma estátua de granito, só isso, um enfeite hediondo talvez de alguma igreja tétrica cheia de imagens do Inferno e do Paraíso.
Montes de livros sobre as mesas. Ah, ele realmente gostava de livros. Quer dizer, havia os de valor, feitos de velino, muito antigos e tudo o mais; mas havia livros atuais também, títulos de filosofia e religião, atualidades, memórias de correspondentes de guerra atualmente populares, até mesmo alguns livros de poesia.
Mircea Eliade, a história das religiões em vários volumes, poderia ter sido presente de Dora; e ali, uma History of God, novinha em folha, de uma mulher chamada Karen Armstrong. Mais alguma coisa sobre o significado da vida-Understanding the Present, de Bryan Appleyard. Livros de peso. Mas interessantes, meu estilo, de qualquer jeito. E os livros haviam sido manuseados. É, era o cheiro dele nesses livros, principalmente o dele, não o de Dora.
Ele havia passado mais tempo ali do que eu jamais havia percebido.
Esquadrinhei as sombras, os objetos. Deixei que o ar enchesse minhas narinas. É, ele havia estado ali com freqüência e com uma outra pessoa, e essa pessoa... essa pessoa havia morrido ali! Antes eu não havia percebido nada disso, é claro, e agora era só mais um aperitivo para o banquete. Quer dizer que o traficante assassino havia no passado amado um rapaz nesse esconderijo, e na época o lugar não era tão desmazelado. Eu estava captando relances daquilo na pior forma possível, mais emoção do que imagem, e me descobri bastante frágil sob o ataque feroz. Essa morte não havia ocorrido há tanto tempo assim.
Se eu tivesse passado pela Vítima naquela época, quando seu amigo estava morrendo, eu nunca teria me fixado nele; só o teria deixado seguir em frente. Mas a verdade era que ele chamava tanto a atenção!
Ele agora estava subindo pela escada dos fundos, a escada interior secreta, com cautela a cada passo, a mão no cabo da arma dentro do casaco, muito no estilo Hollywood, embora não houvesse muito mais nele que fosse previsível. A não ser, é claro, que muitos dos que lidam com cocaína são excêntricos.
Ele chegou à porta dos fundos. Viu que eu a havia aberto. Fúria. Esgueirei-me para o canto em frente àquela imponente estátua de granito e me escondi entre dois santos empoeirados. Não havia luz suficiente para ele me verde imediato. Ele precisaria acender uma das pequenas luminárias fluorescentes, e elas eram de foco dirigido.
Por enquanto, ele escutava, procurava sentir. Detestava o fato de alguém lhe ter arrombado a porta. Sua disposição era assassina, e ele não tinha nenhuma intenção de não investigar, sozinho. Um pequeno tribunal instalou-se na sua cabeça. Não, não era possível que alguém tivesse conhecimento desse lugar, decidiu o juiz. Tinha de ser um ladrão de galinhas, inferno, e essas palavras foram lançadas com ódio sobre as circunstâncias.
Ele tirou a arma discretamente e começou a examinar as salas, salas que eu havia ignorado. Ouvi o interruptor; vi o facho de luz no salão. Ele passou para outro e mais outro.
Como é que ele podia saber que o lugar estava vazio? Quer dizer, qualquer um poderia estar escondido por ali. Eu sabia que estava vazio. Mas o que lhe dava tanta certeza? Talvez tivesse sido assim que ele conseguira manter-se vivo esse tempo todo. Tinha a mistura exata de criatividade e descuido.
Afinal, chegou o momento absolutamente delicioso. Ele se convenceu de que estava sozinho.
Passou pela porta da sala de estar, com as costas para o longo hall e esquadrinhou lentamente o aposento, deixando de me ver, é claro. Guardou sua grande nove milímetros no coldre a tiracolo e tirou as luvas muito devagar.
Havia luz suficiente para que eu observasse tudo que adorava nele.
Os cabelos negros e macios, o rosto asiático que não se podia identificar claramente como indiano, japonês ou cigano; poderia até ter sido italiano ou grego; os olhos negros e sagazes; e a simetria extraordinariamente perfeita dos ossos — um dos poucos traços que ele havia passado para a filha, Dora. Dora tinha a pele clara. Sua mãe devia ser branca como o leite. A pele dele era do meu tom preferido, caramelo.
De repente, alguma coisa o incomodou. Ele voltou as costas para mim, com os olhos nitidamente atraídos por algum objeto que o alarmara. Nada a ver comigo. Eu não havia tocado em nada. No entanto, seu estado de alarme havia gerado uma muralha entre minha mente e a dele. Ele estava em alerta total, o que significava que não estava pensando seqüencialmente.
Era alto, com as costas muito retas, o casaco longo, os sapatos daquele tipo feito à mão de Savile Row dos quais as lojas inglesas estão sempre cheias. Ele deu um passo, afastando-se de mim, e eu percebi imediatamente, a partir de uma confusão de imagens, que o que o assustara havia sido a estátua de granito negro.
Estava perfeitamente óbvio. Ele não sabia o que ela era ou como havia chegado ali. Ele se aproximou, cheio de cautela, como se alguém pudesse estar escondido na vizinhança da estátua, depois girou, esquadrinhou a sala e lentamente sacou mais uma vez a arma.
Passavam pela sua cabeça possibilidades de uma forma bastante ordenada. Ele conhecia um marchand que era suficientemente idiota para ter feito essa entrega e deixado a porta destrancada, mas esse marchand teria ligado para ele antes de pensar em vir ali.
E essa coisa? Da Mesopotâmia? Da Assíria? De repente, por um impulso, ele deixou de lado todas as questões práticas, estendeu a mão e tocou o granito. Meu Deus, ele adorou a estátua. Ele a adorava e estava agindo como um imbecil.
Quer dizer, um dos seus inimigos poderia ter estado ali. Mas também por que um gângster, ou um investigador federal, iria trazer um presente daqueles?
Fosse o caso qual fosse, ele estava fascinado pela peça. Eu ainda não conseguia vê-la com clareza. Teria tirado os óculos roxos, o que teria sido de enorme ajuda, mas não ousava me mexer. Eu queria ver isso, essa sua adoração pelo objeto que era novo. Eu conseguia sentir seu desejo incondicional por essa estátua, de possuí-la, de tê-la ali... exatamente o tipo de desejo que de início me atraíra nele.
Ele só estava pensando na estátua, na beleza do entalhe, de ser recente, não antiga, por óbvias razões de estilo, talvez do século XVII, uma representação detalhada de um anjo caído.
Anjo caído. Ele fez de tudo menos ficar na ponta dos pés para beijar a imagem. Ergueu a mão esquerda e fez com que ela passasse por todo o rosto de granito e pelo cabelo de granito. Droga, eu não conseguia vê-la! Como ele suportava tanta escuridão? Mas a verdade era que ele estava bem junto dela, e eu a mais de seis metros, enfiado entre dois santos e sem uma boa perspectiva.
Finalmente, ele se voltou e acendeu uma das lâmpadas fluorescentes. Parecia um louva-a-Deus. Ele movimentou a haste fina de metal preto para que a luz iluminasse o rosto da estátua. Agora, eu conseguia ver os dois perfis com perfeição.
Ele emitia pequenos ruídos de prazer. Isso era incrível! O marchand não tinha nenhuma importância; a porta dos fundos, perdoada; desaparecido o suposto perigo. Ele voltou a enfiar o revólver no coldre, quase como se não estivesse pensando nisso, e realmente se aproximou na ponta dos pés, procurando encarar esse ídolo aterrador no mesmo nível. Asas com penas. Agora eu as via. Não de réptil, providas de penas. Já o rosto, clássico, robusto, o nariz longo, o queixo... e no entanto havia uma ferocidade no perfil. E por que a estátua era negra? Talvez fosse apenas São Miguel empurrando demônios para o inferno, irado, cheio de razão. Não, os cabelos estavam muito grosseiros e desgrenhados para isso. Armadura, couraça e então, naturalmente, vi os detalhes mais esclarecedores. A estátua tinha as pernas e os pés de um bode. O Demônio.
Estremeci mais uma vez. Como a coisa que eu havia visto. Mas isso era bobagem! E eu não estava agora com nenhuma sensação da presença ali por perto daquele que me perseguia. Nenhum desnorteamento. Eu sequer estava com medo de verdade. Foi só um frisson, nada mais.
Mantive-me muito quieto. Pensei, agora não vá se apressar. Destrinche a situação. Você tem sua Vítima, e essa imagem é apenas um detalhe, uma coincidência que enriquece mais todo o panorama. Ele focalizou mais uma lâmpada na estátua. Era quase erótico seu jeito de examiná-la. Eu sorri. Era erótico meu jeito de examiná-lo, esse homem de quarenta e sete anos com saúde de rapaz e pose de criminoso. Destemido, ele deu um passo atrás, já tendo se esquecido de qualquer tipo de ameaça, e olhou para sua nova aquisição. De onde ela viera? De quem? Ele não se importava com o preço. Se ao menos Dora. Não, Dora não ia gostar dessa coisa. Dora. Dora, que o havia ferido profundamente hoje ao recusar seu presente.
Toda a sua postura mudou. Ele não queria ficar pensando em Dora e em todas as coisas que Dora dissera: que ele precisava renunciar às suas atividades, que ela nunca mais aceitaria um centavo para a igreja, que ela não poderia deixar de amá-lo e sofrer se ele fosse a julgamento, que ela não queria o véu.
Que véu? Apenas uma falsificação, dissera ele, mas uma das melhores que ele havia encontrado até então. Véu? De repente, fiz a ligação entre sua recordação recente e algo que estava pendurado na parede mais distante, um pedaço de pano emoldurado, uma pintura do rosto de Cristo. Véu. O véu de Verônica.
E há apenas uma hora ele dissera a Dora, "Do século XIII, e tão lindo, Dora. Pelo amor de Deus. Fique com ele. Se eu não puder deixar essas coisas para você, Dora...”
Quer dizer que esse rosto de Cristo era seu precioso presente?
"Não vou aceitá-los mais, papai. Já lhe disse que não."
Ele a havia pressionado com a vaga estratégia de que esse novo presente poderia ser exibido ao público. Da mesma forma que todas as outras relíquias. Elas poderiam levantar fundos para a igreja.
Ela havia começado a chorar, e tudo isso estivera acontecendo no hotel, enquanto David e eu estávamos no bar a apenas alguns metros deles.
"E se esses filhos da mãe conseguirem botar as mãos em mim, algum mandado, alguma outra acusação, você está me dizendo que não vai ficar com essas coisas? Vai deixar que estranhos fiquem com elas?"
"São roubo, papai", protestou ela. "São impuras. Estão contaminadas."
Ele realmente não conseguia entender a filha. Parecia que ele era ladrão desde quando menino. Nova Orleans. A pensão, a curiosa mistura de pobreza e elegância, e sua mãe embriagada a maior parte do tempo. O velho capitão que era dono da loja de antigüidades. Tudo isso estava passando pela sua cabeça. O Velho Capitão alugava os quartos da frente da casa, e ele, minha Vítima, levava a bandeja com o café da manhã para o Velho Capitão todos os dias antes de ir para a escola. Pensão, serviço, velhotes elegantes, St. Charles Avenue. A época em que os homens se sentavam nas sacadas à noite e as senhoras também, com seus chapéus. Horas do dia que eu jamais voltaria a conhecer.
Quanto devaneio. Não, Dora não gostaria daquilo. E ele de repente não estava tão seguro assim de estar gostando. Seus padrões costumavam ser de difícil explicação para os outros. Ele começou sua defesa como se estivesse falando com o marchand que trouxera aquilo. "É lindo, sim, mas é barroco demais. Falta-lhe aquele elemento de deformação que eu aprecio."
Sorri. Eu adorava a cabeça desse cara. E o cheiro do sangue, bem. Respirei fundo deliberadamente e deixei que ele me transformasse num perfeito predador. Devagar, Lestat. Você esperou meses. Não se apresse. E ele é um perfeito monstro por seus próprios méritos. Matara gente a tiros, a facadas. Uma vez, numa pequena quitanda, ele havia matado tanto seu inimigo quanto a esposa do proprietário com total indiferença. A mulher estava atrapalhando. E ele havia saído andando, com frieza. Aqueles eram seus primeiros dias em Nova York, antes de Miami, antes da América do Sul. Mas ele se lembrava daquele assassinato, e era por isso que eu tinha conhecimento do fato.
Ele pensava muito naquelas várias mortes. Era por isso que eu pensava nelas.
Ele estava examinando os pés com casco da imagem, esse anjo, diabo, demônio. Percebi que suas asas alcançavam o teto. Eu poderia sentir mais uma vez aquele estremecimento se me permitisse. Mas a verdade era que eu estava em terra firme, e não havia nada de nenhum outro mundo naquele lugar.
Ele agora tirou o paletó e ficou em mangas de camisa. Isso foi demais. Pude ver o seu pescoço, é claro, quando ele abriu o colarinho. Eu via aquela parte de uma beleza ímpar, logo abaixo da orelha, aquele trecho especial entre a nuca de um ser humano e o lobo da sua orelha, que está tão relacionada à beleza masculina.
Ora, eu não havia inventado o significado dos pescoços. Todo mundo sabia o que aquelas proporções representavam. Ele me agradava no todo, mas na realidade era sua cabeça. Não importava sua bela aparência asiática e tudo o mais; até mesmo sua vaidade que fazia com que ele emitisse um brilho em todas as direções a uma distância de quinze metros. Era a cabeça, a mente que estava agora concentrada na imagem e que, por um instante de misericórdia, havia deixado de pensar em Dora.
Ele estendeu a mão para apanhar mais uma pequena luminária fluorescente, fechou a mão sobre o metal aquecido e direcionou a luz sobre a asa do demônio, a asa que eu via melhor; e eu também vi a perfeição na qual ele estava pensando, o amor barroco pelo detalhe; não. Ele não colecionava esse tipo de coisa. Sua preferência era pelo grotesco, e essa coisa só era grotesca por acaso. Meu Deus, ela era horrenda. Tinha uma cabeleira feroz e uma expressão carrancuda que poderia ter sido desenhada por William Blake, bem como enormes olhos arredondados que se fixavam nele, aparentemente com ódio.
— É, Blake! — disse ele, de repente, voltando-se. — Blake. A maldita imagem lembra um daqueles desenhos de Blake.
Percebi que seus olhos estavam fixos em mim. Eu havia projetado o pensamento, com descuido, sim, evidentemente com um objetivo. Senti o choque do contato. Ele me via. Talvez estivesse vendo os óculos e a luz, ou talvez meu cabelo.
Fui saindo muito devagar, com os braços relaxados junto ao corpo. Eu não queria nada de tão vulgar quanto uma atitude sua de apanhar a arma. Mas isso ele não fez. Ficou apenas olhando para mim, ofuscado, talvez, pelas luzes fortes tão perto dele. O foco fluorescente lançou a sombra da asa do anjo no teto. Fui me aproximando.
Ele não disse absolutamente nada. Estava com medo. Ou melhor, digamos que ele estava alarmado. Estava mais do que alarmado. Ele achava que aquele bem poderia ser seu último confronto. Alguém havia conseguido passar perfeitamente por ele! E agora era tarde demais para sacar armas ou para fazer qualquer coisa tão literal, e no entanto ele de fato não estava com medo de mim.
Diabos me levem se ele não soubesse que eu não era humano.
Vim rapidamente na sua direção e segurei seu rosto com as duas mãos. Ele naturalmente começou a suar e a tremer; e mesmo assim estendeu a mão e tirou meus óculos, que caíram ao chão.
— Ai, até que enfim — sussurrei. — É maravilhoso estar tão perto de você. Ele não conseguia formar palavras. Não se poderia esperar que nenhum mortal nas minhas garras pronunciasse qualquer coisa a não ser orações, e ele não tinha nenhuma oração! Ele me encarou nos olhos, e então bem devagar avaliou minha pessoa, sem ousar se mexer, com o rosto ainda seguro pelas minhas duas mãos tão frias. E ele soube. Não humano.
Foi uma reação estranhíssima! É claro que eu já havia me deparado antes com o reconhecimento, em todos os cantos do mundo; mas as preces, a loucura, alguma desesperada reação atávica, alguma coisa sempre o acompanhava. Mesmo na velha Europa, onde acreditavam no nosferatu, costumavam gritar uma prece antes que eu afundasse meus dentes.
Mas isso, o que era isso? Essa sua atitude de olhar para mim, essa coragem cômica de criminoso!
— Vai morrer do jeito que viveu? — murmurei.
Um pensamento o reanimou. Dora. Ele começou um esforço violento, procurando agarrar minhas mãos, sentindo que elas eram como pedra, e depois em espasmos enquanto tentava se soltar, preso de modo implacável pelo rosto, sibilando furioso comigo.
Dominou-me alguma misericórdia inexplicável. Não o torture desse jeito. Ele sabe demais. Compreende demais. Meu Deus, você passou meses a observá-lo. Não precisa alongar essa história. Por outro lado, quando irá encontrar outra vítima como essa?
Bem, a fome superou o raciocínio. Encostei minha testa no seu pescoço primeiro, mudando minha mão para a nuca, deixei que ele tocasse no meu cabelo; ouvi-o inspirar fundo, e depois bebi.
Ele era meu. Eram meus a emoção, e ele e o Velho Capitão no quarto da frente, com o bonde passando barulhento lá fora, e ele dizendo ao Velho Capitão, "Se o senhor me mostrar isso de novo ou me pedir que o segure, nunca mais eu chego perto do senhor". E o Velho Capitão jurando que nunca mais. O Velho Capitão levando-o ao cinema, para jantar no Monteleone e de avião até Atlanta, depois de ter jurado nunca mais fazer aquilo, "Filho, só deixe que eu tenha você por perto. Deixe que eu fique por perto de você. Nunca mais, eu juro". A mãe embriagada à soleira da porta, escovando o cabelo. "Conheço essa sua tramóia com esse velho. Sei muito bem o que você está fazendo. Foi ele quem lhe comprou essas roupas? Você acha que eu não sei?" E depois Terry, com o buraco da bala bem no meio do rosto. Uma moça loura virando-se de lado e desabando para o chão, o quinto assassinato e tem de ser você, Terry, você. Ele e Dora estavam na caminhonete. E Dora sabia. Dora tinha só seis anos e sabia. Sabia que ele matara sua mãe, Terry, com um tiro. E eles nunca haviam trocado uma palavra sequer sobre o assunto. O corpo de Terry num saco de plástico. Ai, meu Deus, plástico. E ele dizendo, "Mamãe se foi". Dora nem havia perguntado. Seis anos de idade, ela sabia. Terry aos berros, "Você acha que pode tirar minha filha de mim, seu filho da mãe, você acha que pode ficar com a minha filha. Vou embora hoje à noite com Jake, e ela vai comigo". Bum! Você está morta, benzinho. Eu também já não a agüentava mais. Jogada no chão, aquele tipo de garota normal muito bonitinha e vistosa, com as unhas cor-de-rosa muito ovais, o batom que sempre parece extraordinariamente novo, e o cabelo de uma cor artificial. Shorts cor-de-rosa, coxas pequenas.
Ele e Dora viajando noite adentro, e nunca trocaram uma palavra.
O que você está fazendo comigo? Você está me matando! Você está tirando meu sangue, não minha alma, seu ladrão, seu... o que você é, em nome de Deus?
— Você está falando comigo? — Recuei, com o sangue pingando dos lábios, Deus do céu, ele estava mesmo falando comigo! Dei mais uma mordida, e dessa vez quebrei seu pescoço, mas ele não parava.
É, você, o que é que você é? Porquê, porque isso, o sangue? Fale comigo, maldito! Vá para o inferno!
Eu lhe havia esmagado os ossos dos braços, arrancara seu ombro do lugar, o último sangue que eu havia conseguido sugar estava ali na minha língua. Enfiei a língua no ferimento, quero mais, mais, mais...
Mas qual é seu nome, pelo amor de Deus, quem é você?
Ele estava morto. Soltei-o e recuei um passo. Falando comigo! Falando comigo durante o ato? Perguntando para mim quem eu era? Superando o desmaio?
— Ah, você é tão cheio de surpresas! — murmurei. Procurei desanuviar a cabeça. Eu sentia o calor de estar cheio de sangue. Deixei-o ficar na minha boca. Tive vontade de levantá-lo do chão, rasgar seu pulso e beber qualquer coisa que restasse, mas isso era tão feio; e a verdade era que eu não tinha nenhuma intenção de voltar a tocar nele! Engoli o sangue e passei a língua pelos dentes, sentindo o final do gosto, ele e Dora na caminhonete, ela com seis anos de idade, a mãe morta, com um tiro na cabeça, com o pai agora para sempre.
— Esse foi o quinto assassinato! — disse-me ele em voz alta; eu o ouvira. — Quem é você?
— Falando comigo, seu filho da mãe! — Baixei os olhos até ele, ui, o sangue afinal estava chegando às pontas dos dedos das mãos e descendo pelas pernas. Fechei meus olhos e pensei, Viver por isso, só por isso, por esse gosto, essa sensação; e suas palavras me ocorreram, palavras ditas a Dora num bar elegante, "Vendi minha alma por lugares como este".
— Ai, pelo amor de Deus, morra! Inferno! — disse eu. Eu queria que o sangue continuasse ardendo, mas já estava cheio da vítima. Ora, seis meses era bastante para um caso de amor entre vampiro e humano! Ergui os olhos.
A imagem negra não era absolutamente uma estátua. Ela estava viva. E estava me observando. Estava viva, respirava e me vigiava lá do alto, de trás da sua carranca negra, irada e brilhante.
— Não, não é verdade — disse eu, em voz alta. Procurei cair na profunda calma que o perigo costuma despertar em mim. Não é verdade.
Cutuquei o corpo no chão deliberadamente só para ter certeza de que eu ainda estava ali e não estava enlouquecendo; e senti pavor do desnorteamento, mas ele não veio; e então berrei.
Berrei como qualquer criancinha.
E saí correndo dali.
Saí correndo dali, pelo hall, pelos fundos, para a escuridão da noite.
Segui por cima dos telhados e depois, totalmente exausto, desci para um beco estreito e me recostei nos tijolos. Não, aquilo não podia ter sido verdade. Aquilo era alguma imagem final projetada por ele. Minha Vítima, ele lançou aquela imagem ao morrer, uma doce vingança. Fazer com que a estátua parecesse ter vida, aquela grande imagem escura e alada, de pés de bode...
— É — disse eu. Limpei a boca. Eu estava deitado em neve suja. Havia outros mortais nesse beco. Não nos incomode. Não vou incomodá-los. Limpei a boca novamente. — É, vingança. Todo o seu amor — disse a mim mesmo em voz alta — por todos os objetos naquele lugar, e ele lançou aquilo sobre mim. Ele sabia. Sabia o que eu era. Sabia como...
E além disso, a Coisa que me perseguia nunca havia sido tão calma, tão imóvel, tão pensativa. Ela sempre estava se avolumando e crescendo como fumaça espessa e fedorenta, e aquelas vozes... Aquilo era apenas uma estátua parada ali.
Levantei-me, furioso comigo mesmo, absolutamente furioso por ter fugido, por ter deixado de aproveitar o último pequeno detalhe envolvido no assassinato. Eu estava furioso o suficiente para voltar até lá e dar uns chutes no corpo e na imagem, que sem dúvida havia voltado ao granito no instante em que a vida consciente se extinguiu no cérebro moribundo do seu dono.
Ombros, braços quebrados. Como se do monte sangrento em que eu o transformara, ele tivesse invocado aquela coisa.
E Dora vai ouvir falar nisso. Ombros, braços quebrados. O pescoço quebrado.
Saí para a Quinta Avenida. Caminhei contra o vento.
Enfiei as mãos nos bolsos do blazer de lã, que era leve demais para parecer adequado nessa nevasca silenciosa e caminhei sem parar.
— Tudo bem, droga, você sabia o que eu era e, por um instante, fez com que aquela coisa parecesse ter vida.
Parei, totalmente imóvel, olhando por cima do trânsito para os bosques sombrios, cobertos de neve do Central Park.
— Se tudo está mesmo ligado, venha me buscar. — Eu agora não estava falando com ele, nem com a imagem, mas com o que me perseguia. Eu simplesmente me recusava a sentir medo. Estava completamente fora do meu juízo perfeito.
E onde estava David? Caçando em algum lugar? Caçando... como adorava tanto fazer quando homem mortal na selva indiana, caçando, e eu o fizera caçador dos seus irmãos para sempre.
Tomei uma decisão.
Eu ia voltar imediatamente para o apartamento. Ia olhar para a maldita estátua e ver com meus próprios olhos que ela era perfeitamente inanimada. Em seguida, eu faria o que deveria fazer por Dora, ou seja, me livrar do corpo do seu pai.
Levei apenas alguns minutos para chegar lá, para subir de novo pela escuridão impenetrável da escada dos fundos e entrar no apartamento. Eu havia perdido toda a paciência com meu medo; estava simplesmente furioso, humilhado e abalado; e ao mesmo tempo sentia uma curiosa empolgação, como sempre sinto pelo desconhecido.
O fedor do seu corpo recém-morto. Fedor de sangue desperdiçado.
Eu não ouvia nem sentia mais nada. Entrei num pequeno cômodo que no passado havia sido uma cozinha em atividade e que ainda continha os remanescentes de utensílios domésticos do tempo daquele mortal falecido, que a Vítima havia amado. É, exatamente o que eu queria por baixo do encanamento da pia, onde os mortais sempre a enfiam: uma caixa de sacos de plástico verde para lixo, perfeitos para seus restos mortais.
Ocorreu-me de repente que ele havia jogado sua mulher assassinada, Terry, num saco desses, eu o havia visto, sentido o cheiro quando estava me banqueteando com ele. Ora, de pouco importa. Quer dizer que foi ele quem me deu a idéia.
Havia alguns instrumentos de corte por ali, embora nada que permitisse um serviço artístico ou cirúrgico. Apanhei a faca maior, de lâmina de aço-carbono, entrei na sala de estar, deliberadamente, sem hesitação, e me voltei para olhar para a estátua gigantesca.
As lâmpadas ainda estavam acesas. Focos fortes e definidos na confusão cheia de sombras.
Estátua; anjo de patas de bode.
Seu idiota, Lestat.
Fui até ela e parei à sua frente, examinando os detalhes com frieza. Talvez não fosse do século XVII. Talvez fosse contemporânea, feita à mão, sim, mas tinha a perfeição total de um objeto contemporâneo; e o rosto tinha mesmo a expressão sublime de William Blake: um ser maléfico, carrancudo, de patas de bode, com os olhos dos santos e pecadores de Blake, cheios de inocência bem como de ira.
De repente, eu a quis. Gostaria de ter ficado com ela para mim, de tê-la levado de algum jeito para minha residência em Nova Orleans como uma lembrança de ter praticamente caído morto de medo aos seus pés. Fria e solene ela estava diante de mim. E então eu me dei conta de que todas essas relíquias se perderiam se eu não fizesse alguma coisa a esse respeito. Assim que se tivesse conhecimento da morte, tudo isso seria confiscado. Esse era o cerne da sua argumentação com Dora; que essa sua verdadeira fortuna fosse parar em mãos indiferentes.
E Dora lhe havia voltado as costas estreitas, para chorar, uma criança abandonada consumida pela dor, pelo horror e pela pior frustração, a incapacidade de consolar quem ela mais amava.
Baixei os olhos. Eu estava em pé junto ao seu corpo deformado. Ele ainda parecia recém-morto, destroçado, assassinado por um sujeito desmazelado. O cabelo preto muito macio e despenteado, os olhos entreabertos. As mangas da camisa branca, manchadas de um rosado cruel do pouco sangue que escorria dos ferimentos que eu provocara acidentalmente, ao esmagá-lo. Seu torso estava num ângulo horrendo com relação às pernas. Eu lhe quebrara o pescoço, e lhe quebrara a espinha.
Bem, eu ia tirá-lo dali. Eu me livraria dele, e então por muito tempo ninguém ficaria sabendo. Ninguém ficaria sabendo que ele estava morto; e os investigadores não poderiam importunar Dora, nem deixá-la aflita. Depois, eu pensaria nas relíquias, talvez as tirasse dali, levando-as para ela.
Dos seus bolsos, tirei a identificação. Tudo falso, nada com seu nome verdadeiro.
Seu nome verdadeiro havia sido Roger.
Isso eu sabia desde o início, mas só Dora o chamava de Roger. Em todas as suas transações com outros, ele usava nomes falsos e exóticos, com uma estranha sonoridade medieval. Esse passaporte dizia Frederick Wynken. Agora, isso me divertiu. Frederick Wynken.
Comecei a trabalhar com a faca. Decepei-lhe as mãos, bastante surpreso com sua delicadeza e com o esmero com que suas unhas estavam manicuradas. Ele se amava tanto, e com razão. E a cabeça, essa eu arranquei, mais pela força bruta, empurrando a faca pelos tendões e ossos, do que por qualquer habilidade verdadeira. Nem me dei ao trabalho de fechar seus olhos. No fundo, o olhar dos mortos exerce tão pouco fascínio. Não imita nada que tenha vida. Sua boca estava macia, sem emoção, e as faces lisas na morte. O de costume. Essas partes, a cabeça e as mãos, pus em dois sacos verdes separados; e depois dobrei mais ou menos o corpo e o enfiei no terceiro saco.
Havia sangue por todo o tapete, que percebi ser apenas um de muitos, inúmeros tapetes que cobriam o chão em camadas, no estilo de um brechó, e isso era uma pena. Mas a questão era que o corpo estava de saída. Sua decomposição não iria atrair os mortais do andar de cima ou do de baixo. E, sem o corpo, era possível que ninguém viesse a saber qual havia sido seu fim... sem dúvida, melhor para Dora, do que ver grandes fotografias coloridas de uma cena como a que eu havia criado ali.
Dei um último olhar para a expressão carrancuda do anjo, demônio, ou sei lá o que era, com sua cabeleira feroz, seus belos lábios e enormes olhos polidos. E então, carregando com dificuldade os três sacos como Papai Noel, saí para me livrar de Roger pedaço por pedaço.
O que não foi um grande problema.
Apenas proporcionou-me uma hora para pensar enquanto eu me arrastava pelas ruas negras, vazias, cheias de neve, afastando-me do centro, à procura de construções caóticas e lúgubres, pilhas de lixo e locais em que houvesse um acúmulo de podridão e imundície que não tivesse probabilidade de ser inspecionado, muito menos limpo, tão cedo.
Debaixo de um viaduto, deixei as mãos enterradas num enorme monte de lixo. Os poucos mortais que rondavam por ali, com cobertores e uma pequena fogueira acesa numa lata, não prestaram nenhuma atenção ao que eu estava fazendo. Enfiei as mãos envoltas em plástico tão fundo no lixo que não era concebível que alguém pudesse tentar recuperá-las. Aproximei-me, então, de um dos mortais, que nem se dignou a olhar para mim, e deixei cair umas notas junto à fogueira. O vento quase pegou o dinheiro. E então uma mão, de um ser vivo, é claro, a mão de um daqueles vagabundos, surgiu veloz à luz do fogo, apanhou as notas e as levou de volta para a escuridão que respirava.
— Obrigado, irmão.
— Amém — disse eu.
Da cabeça desfiz-me de modo semelhante, muito longe dali. Era uma lixeira de fundos de prédio. Lixo úmido de um restaurante. Mau cheiro. Não lhe dei nem um último olhar. Ela me constrangia. Não era nenhum troféu. Eu jamais guardaria a cabeça de um homem como troféu. A idéia me parecia deplorável. Não me agradava sua dureza por baixo do plástico. Se os famintos a encontrassem, eles não fariam nenhuma denúncia. Além do mais, os famintos já haviam passado por ali para pegar sua cota de tomates, alface, espaguete e cascas de pão francês. O restaurante já estava fechado há horas. O lixo estava congelado e fez ruídos secos e estalos quando empurrei a cabeça para o fundo da sujeira.
Voltei para o centro da cidade, ainda a pé, ainda com esse último saco pendurado nas costas, seu corpo infeliz, pernas e braços. Desci pela Quinta Avenida, passei pelo hotel de Dora que dormia, pela catedral de St. Patrick, sempre em frente, pelas lojas elegantes. Mortais apressavam-se a entrar por portas protegidas por toldos. Motoristas de táxi buzinavam, furiosos com as limusines lentas, desajeitadas.
Eu ia caminhando sem parar. Dava chutes na neve derretida e me odiava. Sentia o cheiro dele e odiava isso também. De certo modo, porém, o banquete havia sido tão divino que era justo que exigisse esse final, essa limpeza.
Os outros, Armand, Marius, todos os meus colegas, amantes, amigos e inimigos imortais, sempre me repreendiam por não "dar um fim aos restos". Tudo bem, dessa vez Lestat estava sendo um bom vampiro. Estava limpando a sujeira que fez.
Eu estava quase chegando ao Village quando descobri mais um lugar perfeito, um enorme depósito, aparentemente abandonado, seus andares superiores cheios da bela cintilação de janelas quebradas. E ali dentro, lixo de toda natureza, num monte imenso. Senti o cheiro de carne em putrefação. Alguém havia morrido ali umas semanas antes. Só o frio impedia o cheiro de chegar a narinas humanas. Ou talvez ninguém se importasse.
Entrei mais no galpão cavernoso — cheiro de gasolina, metal, tijolo vermelho. Uma montanha de lixo no meio do recinto parecia tão grande quanto uma pirâmide mortuária. Havia um caminhão ali, estacionado em perigosa proximidade dela, o motor ainda morno. Só que não havia nenhum ser vivo por ali.
E havia uma boa quantidade de carne em decomposição na pilha maior. Pelo olfato, calculei pelo menos três cadáveres espalhados pelo lixo. Talvez fossem mais. Para mim, o cheiro era totalmente abominável. Por isso, não dediquei muito tempo a uma análise da situação.
— Tudo bem, meu amigo, eu o entrego a um cemitério — disse eu. Empurrei o saco para o fundo, em meio às garrafas quebradas, latas amassadas, pedaços de fruta podre, montes e pilhas de papelão, madeira e lixo. Quase provoquei uma avalanche. Houve de fato um pequeno tremor no lixo, ou dois, e em seguida a pirâmide desajeitada se recompôs em silêncio. O único ruído era dos ratos. Uma garrafa de cerveja rolou, sozinha, pelo chão, a alguns centímetros do monumento, com um brilho passageiro, silenciosa, só.
Examinei o caminhão por algum tempo: em mau estado de conservação, anônimo, motor quente, cheiro recente de ocupantes humanos. Que me importava o que faziam ali? O fato era que iam e vinham passando pelas grandes portas de metal, ignorando ou mesmo alimentando esse ossuário empilhado. Com grande probabilidade, ignorando-o. Quem estacionaria ao lado da sua própria vítima de assassinato?
No entanto, em todas essas grandes e densas cidades modernas, estou falando de cidades de primeira linha, covis do mal de renome mundial, Nova York, Tóquio, Hong-Kong, podem-se encontrar as configurações mais estranhas da atividade mortal. A criminalidade começava a me fascinar nas suas muitas facetas. Era isso o que me atraíra até ele.
Roger. Adeus, Roger.
Saí dali. A neve havia parado de cair. Ali era desolado e triste. Um colchão descoberto estava na esquina do quarteirão, com a neve a cobri-lo. As lâmpadas dos postes estavam quebradas. Eu não tinha certeza absoluta de onde estava.
Caminhei na direção da água, até a extremidade da ilha, e então vi uma daquelas igrejas muito antigas, igrejas que remontavam aos tempos dos holandeses em Manhattan, com um pequeno cemitério cercado ao lado e lajes que indicariam estatísticas assombrosas, como 1704 ou mesmo 1692.
Tratava-se de uma construção que era um tesouro gótico, uma parcela ínfima da glória da catedral de St. Patrick, e possivelmente mais complexa e misteriosa, uma visão agradável apesar de todo o seu detalhe, organização e convicção em meio à neutralidade e ao desperdício da cidade grande.
Sentei-me na escada da igreja, apreciando bastante as superfícies entalhadas dos arcos pontudos, apreciando bastante a possibilidade de me recostar na escuridão em pedras santifícadas.
Percebi com muito cuidado que aquele que me perseguia não estava em parte alguma por perto; que os atos daquela noite não me haviam proporcionado nenhuma visita de outros reinos, ou de passos apavorantes; que a enorme estátua de granito era mesmo inanimada; que eu ainda estava com os documentos de Roger no bolso; e que isso daria a Dora semanas, talvez mesmo meses, antes que sua paz de espírito fosse perturbada pelo desaparecimento do pai; além do fato de que ela agora nunca iria ficar sabendo dos detalhes.
E basta por aí. Fim da aventura. Eu me sentia melhor, muito melhor do que quando estava conversando com David. Voltar lá, olhar para aquela coisa monstruosa de granito, havia sido a atitude perfeita.
O único problema era que o mau cheiro de Roger não me largava. Roger. Ele havia sido "a Vítima" até quando? Agora eu o estava chamando de Roger. Isso simbolizaria o amor? Dora o chamava de Roger, Papai, Roge e Pápi. "Querida, aqui é Roge", diria ele de Istambul. "Dá para você ir se encontrar comigo na Flórida, só por uns dias? Preciso falar com você... "
Tirei do bolso a documentação falsa. O vento era forte e frio, mas não havia mais neve, e a neve que estava no chão começava a endurecer. Nenhum mortal teria ficado sentado ali daquele jeito, nesse arco pontudo, alto e sem profundidade de uma porta de igreja, mas eu estava gostando.
Olhei para o passaporte falso. Na realidade, era um conjunto completo de documentos falsos, alguns dos quais eu não compreendia. Havia um visto de entrada para o Egito. Para trazer contrabando de lá, sem dúvida! E o nome Wynken fez com que eu desse um sorriso de novo, porque é um desses nomes que fazem com que até mesmo as crianças riam ao ouvi-lo. Wynken, Blinken and Nod. Não era assim o poema?
Foi simples rasgar tudo aquilo em fragmentos minúsculos e deixar que o vento os carregasse pela noite adentro, passando por cima das pequenas lajes eretas do diminuto cemitério. Que rajada! Foi tudo embora como cinzas, como se sua identidade houvesse sido cremada e o tributo final estivesse sendo prestado.
Eu me sentia exausto, cheio de sangue, satisfeito e tolo por ter sentido tanto medo quando estava conversando com David. David sem dúvida estava me considerando bobo. No entanto, do que eu de fato me havia certificado? Só de que a Coisa que me perseguia não tinha nenhuma intenção especial de proteger Roger, a Vítima, ou não tinha nenhuma ligação com Roger. E isso eu não sabia? Não queria dizer que aquele que me perseguia tivesse desaparecido.
Só queria dizer que ele escolhia seus momentos, e talvez eles não estivessem em nada relacionados com o que eu fazia.
Admirei apequena igreja. Como era valiosa, enfeitada e incongruente em meio aos outros prédios da parte baixa de Manhattan, a não ser pelo fato de que nada mais nessa cidade estranha consegue ser exatamente incongruente em decorrência de ser tão densa a mistura de gótico, do antigo e do moderno. A placa de rua próxima indicava Wall Street.
Eu estaria bem no início de Wall Street? Recostei-me nas pedras, fechei os olhos. David e eu conversaríamos amanhã à noite. E Dora? Estaria Dora dormindo como um anjo na sua cama no hotel em frente à catedral? Será que eu me perdoaria se fosse dar uma última espiada secreta, segura e vã, em Dora na cama, antes de abandonar toda essa aventura? Fim de papo.
Melhor tirar da cabeça a idéia dessa mocinha; esquecer a figura que se movia pelos corredores enormes e escuros daquele convento vazio em Nova
Orleans com a lanterna elétrica na mão, a corajosa Dora. Nem um pouco parecida com a última mortal que eu havia amado. Não. Esqueça-se disso. Esqueça-se disso, Lestat, está me ouvindo?
O mundo estava cheio de vítimas em potencial, quando se começava a pensar em termos de todo um projeto de vida, uma ambientação para uma existência, uma personalidade completa, por assim dizer. Talvez eu voltasse para Miami se conseguisse que David me acompanhasse. Amanhã à noite, David e eu poderíamos conversar.
É claro que ele poderia ficar extremamente irritado com o fato de eu ter-lhe pedido que arranjasse refúgio no Olympic Tower, e agora estivesse pronto para me mudar para o sul do país. Mas também podia ser que não nos mudássemos para o sul.
Tornei-me perfeitamente consciente de que, se eu ouvisse os passos agora, se pressentisse aquele que me perseguia, amanhã à noite estaria tremendo nos braços de David. Aquele que me perseguia não se incomodava com o lugar para onde eu fosse. E ele era real.
Asas negras, a sensação de que algo sombrio se avolumava, fumaça espessa e a luz. Não fique remoendo isso. Você já teve uma quantidade suficiente de pensamentos medonhos para uma noite, não teve?
Quando eu detectaria outro mortal como Roger? Quando eu veria outra luz brilhando com aquela intensidade? E o filho da mãe falando comigo o tempo todo, falando mesmo desmaiado! Falando comigo! E conseguindo fazer com que aquela estátua parecesse ter vida de algum modo, com algum fraco impulso telepático, maldição! Abanei a cabeça. Eu mesmo teria provocado aquilo? Eu teria feito alguma coisa diferente?
Ao seguir o rastro de Roger por meses a fio, eu teria vindo a amá-lo tanto que cheguei a falar com ele enquanto o matava, em algum mudo soneto de devoção? Não. Eu estava só bebendo o sangue e o amando, além de trazê-lo para dentro de mim. Roger em mim.
Um carro passou lentamente pela escuridão, parando ao meu lado. Mortais que queriam saber se eu precisava de abrigo. Meneei a cabeça, voltei-me, atravessei o cemitério, pisando numa sepultura atrás da outra enquanto abria caminho entre as lápides, e parti para o Village, movimentando-me com tanta rapidez que era improvável que eles tivessem conseguido ver minha partida.
Imaginem só. Eles vêem esse rapaz louro num blazer azul-marinho, tipo jaquetão, com uma echarpe vistosa no pescoço, sentado no frio na escada dessa igrejinha antiga. E de repente a figura desaparece. Eu ri alto, adorando a sonoridade da risada enquanto ela subia reverberando nas paredes de tijolo. Agora eu estava perto de música, de gente andando de braços dados, vozes humanas, cheiro de comida. Havia jovens por ali, com saúde suficiente para imaginar que o inverno rigoroso podia ser divertido.
O frio começava a me incomodar. A causar uma dor quase humana. Senti vontade de estar entre quatro paredes.