Nova Academia de Pintura
Proemio.
Quando vou discorrer sobre a Arte da Pintura, parece que deveria começar pelo seu elogio; mas não o farei, por me parecer cousa superflua, e bem sabida de todos: observarei sómente, que a Arte por si só, inda que fosse levada a hum alto gráo de perfeição, não poderia fazer illustre, e estimavel aquelle que tivesse o odioso, ou
ridiculo comportamento de hum Brouwer, [1] de hum Aleixo
Transpadano,[2] [3] ou de hum Bufalmaco; mas se pelo contrario, algum soubesse ajuntar á honra, e á virtude os talentos de Rafael, de Corregio, ou de outro grande Pintor, estas raras qualidades assim reunidas, constituirião (diz Richardson) hum mortal «cujo esplendor poderia luzir mùito, mesmo em hum mundo ainda melhor de que este». Na Poesia não se admittem medianias; mas na Pintura ha tantas e taes difficuldades a vencer, que «O Pintor de segunda ou terceira classe merece o mesmo gráo de estimação que hum homem de primeira ordem em qualquer outra Faculdade.»
Mas se esta scientifica Arte, pela sua belleza e profundidade, tem sido digna da applicação de muitos homens da mais alta esphera, não deixa ella tambem, de ser igualmente propria, ou talvez mais propria ainda, para as Senhoras; principalmente naquelles casos em que são mais necessarias a graça, e a delicadeza: assim, tem feito as Nações conhecedoras o maior apreço das obras da Sirani, da Sophonisba, da Rosalba, e de muitas outras, cujos nomes fazem tanta honra ao bello Sexo, como ás suas patrias.
A Musica he huma arte angelica, e pode entreter deliciosamente qualquer Senhora, huma ou duas horas cada dia; a leitura a divertirá tres ou quatro; mas a Pintura faz parecer pequenos os maiores dias de Junho, e torna amavel e apetecivel a mesma solidão: he huma arte não só imitadora de toda a Natureza, mas tambem creadora; arte emfim, que sympathisa grandemente com a vivacidade das pessoas espirituosas, e discretas, muitas das quaes desejão saber pintar, e nem sempre o conseguem; ou por viverem em terras aonde não ha quem as ensine, ou por se limitarem nas lições a huma pratica mui superficial. A Pratica he de absoluta necessidade, e por ella se deve não só começar, mas avançar muito, sem nunca a perder de vista; porém ha huma baliza, além da qual senão podem fazer ulteriores progressos sem estudar a fundamento os preceitos theoricos.
Os Poetas, e Oradores tem as suas regras fundamentaes, escritas por bons Authores; nós tambem temos as nossas: o numero dos Escriptores que as tratão he muito grande; os idiomas em que correm impressas são mui diversos; e he assaz difficultoso poder fazer dellas huma sufficiente collecção; e quando se fizesse serviria talvez, mais para confundir a mente de hum principiante, que para a illustrar. Ha em taes livros muitas cousas inuteis, e outras que parecem, ou são contradictorias; por tanto he preciso escolher, resumir, e concordar: he o que nós procurámos fazer nesta pequena obra, extrahindo de muitas flores, como fazem as abelhas, só o balsamo que he proprio para compor o mel; pondo de parte quanto nos pareceo improprio, ou desnecessario.
A Praxe, como dissemos, he indispensavel aos Artistas; mas a theoria he indispensavel á perfeição da mesma pratica. Ella nos manifesta em pouco tempo as descobertas de muitos seculos.
Desde que os restaudores da Arte começárão a fazer alguns progressos, cuidárão logo em ir estabelecendo, como maximas fundamentaes, as verdades que forão descobrindo; e para que ellas fossem bem apuradas e debatidas, antes de se adoptarem, e bem interpretadas depois de estabelecidas, fundárão Academias, compostas dos mais sabios Artistas daquelles tempos; e ás especulações mais e mais apuradas dos seus Academicos, he que se deve a perfeição a que chegou a Arte no tempo de Raphael: e como a doutrina da nossa nova Academia he derivada, e recopilada das doutrinas de todas ellas, não será fóra de proposito dizer de passagem alguma cousa a respeito das mais notaveis.
Tendo-se perdido a Arte, nos seculos que as invasões dos Godos fizerão barbaros, e infelices, só em Constantinopla, aonde elles não entrárão, se conservou huma sombra della, que no seculo XI. começou a diffundir-se pela Italia. Pelos annos 1000 forão alguns daquelles chamados Pintores, fazer de Mosaico, o coro da Igreja de Santa Miniata em Florença: por 1072, sendo Doge de Veneza, Domingos Contarino, forão outros Gregos de Constantinopla ornar tambem de Mosaico a igreja de S. Marcos: hum seculo depois o Abbade Joaquim fez pintar sobre a porta do Thesouro, como por inspiração, os retratos de S. Francisco, e S. Domingos, que ainda não erão conhecidos: os Annaes de Sena fazem menção de alguns estatutos da Arte no seculo XIII.; mas huma das mais antigas sociedades de Artistas, foi a dos Padres Gaudentes, em Florença, no fim do mesmo seculo; muitos dos quaes bordavão, escrevião bem, miniavão, e pintavão.
Gioto, no principio do seculo XIV. fundou a primeira Academia das tres Artes, em Florença; e Jacomo Casentino concorreo muito para se erigir a Irmandade de S. Lucas em Santa Maria a Nova. A Pintura fazia progressos; e quando as Artes sobem, os discipulos excedem os mestres: Thaddeo Gaddi excedeo seu mestre Gioto, no colorido, e nas expressões: Paulo Ucéllo fez grandes progressos na perspectiva: Pedro Cavallini, e Fr. João Angelico derão hum ár muito
devoto ás Santas Imagens: [4] [5] o Massolino deu grande nobreza ás figuras, e huma certa vida aos olhos; mas o seu discipulo Massacio excedeu-o tanto, quanto elle havia excedido os outros; porque deu muita força de relevo, muita correcção, graça, e bellas attitudes ás personagens que pintava; e póde-se dizer que abrio o templo da Immortalidade a Miguel Angelo, e a Raphael.
Lourenço de Medicis estabeleceo no seu Palacio, e Jardim, huma destas Universidades, ou Academias, bem provida de preciosos Cartões, desenhos, quadros, e estatuas; e dava premios, e pensões aos estudantes mais aproveitados. Dalli sahio o Buonarota, o Torrigiani, o Ghirlandáro, e outros sabios.
Fr. João Angelo, que era bom Escultor, obteve o beneplacito, e a protecção do Grão Duque, para se restabelecer a antiga Academia, e a Irmandade de S. Lucas, já quasi extinctas, no Convento dos Anjos, e depois em S. Lourenço.
Em quanto isto se passava em Italia, tambem se fundárão iguaes estabelecimentos á quem dos seus montes, taes como o de Antuerpia, o de Nuremberg, o de Bruxellas, etc.; sendo hum dos mais antigos o de Bruges, aonde João Van-Eych no seculo XIV. inventou a pintura a oleo.
No principio do seculo XVI. erigio em Roma, o divino Raphael, a mais douta Universidade da Pintura que virão os modernos; mas durou pouco tempo; porque faltou o Reitor della em 1520, e os alumnos todos se dispersárão, sete annos depois, quando o exercito do Condestavel Carlos de Borbon saqueou aquella Capital: porém Gregorio XIII, fundou outra, em consideração do Musiano, e do Zucaro, que a dotárão. Os seus Academicos edificárão o Templo de S. Lucas, e Santa Martinha, hum dos mais bellos e mais sumptuosos de Roma, pelos desenhos do famoso Pintor Pedro de Cortona; o qual lhe deixou 200$000 cruzados para se construir o Altar mór, de bronzes e marmores finos, e se lhe erigir hum
mausoléo.[6] O Painel da dita Capella mór, o qual representa S. Lucas retratando Nossa Senhora, he de Raphael.
Pela Lombardia fez a Arte grandes progressos, e teve boas Academias em Milão, Veneza, Módena, Parma, Bolonha, etc. A dos Caraches foi a mais célebre, pela quantidade de grandes homens que della sahio. Alli se estudavão as tres Artes, a gravura, a perspectiva, e a anatomia: era provîda de esqueletos, manequins, gessos originaes, vestidos, armas, arnezes, etc. Alli se distribuião lugares, empregos, e premios, tudo debaixo da direcção de Luiz Carache. Depois desta houve tambem em Bolonha a do Guido, que teve 200 discipulos, a do Albani, a do Pasinelli, a do Conde Cignani, as do Conde e do Senador Ghisiliere, e outras muitas; mas como todas erão de particulares, depressa se extinguião. Em Julho de 1706, juntárão-se 80 ou 90 Pintores (entre os quaes, diz Zanoti, havia alguns que tinhão o seu merecimento) na Galeria do Conde Fava, que sabia pintar, e tinha boa collecção de pinturas, a fim de buscarem meios para reprimir a ousadia de certos artigiani intrusos, que abusando da illimitada liberdade da Pintura, em hum paiz aonde não havia Academia, se incumbião da direcção de grandes emprezas, e reduzião os habeis artistas a huma abjecta servidão. O resultado foi que o dito Conde, o General Marsili, e Carlos Maratti obtiverão do Papa Clemente XI., que se estabelecesse a desejada Academia de Pintura, e fosse alojada, com a Filosofia, no Palacio do Instituto de Bolonha, debaixo da Protecção de Santa Catharina de Vigri, religiosa de S. Domingos, e Pintora Bolonheza.
Os Authores Francezes fallão em desenhos seus, feitos á penna no
seculo XII., com estylo nada inferior ao que depois usou Cimabue: [7] e nos tempos de Gioto, tinhão já muitos daquelles que alli se chamão barbouilleurs, formado huma corporação, mecanica sim, mas muito privilegiada pelo Parlamento; e em virtude dos seus privilegios ousárão incommodar os grandes Pintores, que apparecerão no tempo de Luiz XIV. Estes, indignados contra a sua audacia, fundárão a Academia Real de Pintura, e Esculptura, que em 1663 foi dotada com 4$ libras annuaes; mas Luiz XVI. lhe condeo 10$.
Mr. Urry, director das obras Reaes, em 1737, inventou o chamado Salão; lugar aonde de dois em dois annos, os Artistas expõem ao Publico as melhores obras que vão fazendo; cousa que foi mui vantajosa á Arte. Não lhe forão menos uteis os que se chamão quadros de Maio: os Ourives começárão em 1449 a offerecer a Nossa Senhora com grande solemnidade, hum ramo verde, a que chamavão o Maio: depois, juntárão aos ramos certas maquinetas; e por fins, desde 1630 começárão a offerecer cada anno, hum painel, feito sempre por algum dos melhores Pintores da França.
Luiz XV. estabeleceo o grande Concurso da Academia Real em París, sendo o premio dos vencedores, a sustentação em Roma (aonde tem outra Academia) por tempo de quatro annos, para se aperfeiçoarem.
Na Hespanha fundárão-se tambem varias Academias; mas a mais famosa foi a de Sevilha, aberta por Morilho em 1660. A de Madrid estabeleceo-se muito mais tarde pelas dissensões dos mesmos Artistas. O partido dos menos habeis, que era m Na Hespanha fundárão-se tambem varias Academias; mas a mais famosa foi a de Sevilha, aberta por Morilho em 1660. A de Madrid estabeleceo-se muito mais tarde pelas dissensões dos mesmos Artistas. O partido dos menos habeis, que era muito maior, triumphou por mais de 120 annos, até o de 1744; tempo em que Philippe V. mandou absolutamente que se fundasse. Fernando VI., dois annos depois, a dotou em 12$ pezos; e exaltou-a extraordinariamente, e aos seus professores.
Inda que estas mimosas Artes sejão mui pouco fecundas nos climas frios, tem-se estabelecido as suas Academias na Dinamarca, na Russia, e por todo o Norte da Europa. Os Pintores Inglezes tambem se associárão em S. Martin's-lane em 1750, a fim de deitarem os fundamentos n'huma especie de Academia: dez annos depois convierão em fazer huma exhibição publica das suas melhores obras, em hum salão similhante ao de França, aonde se entraria por dinheiro. Em 65 obtiverão o beneplacito Regio para se estabelecerem; e em 68 teve a Sociedade o titulo de Academia Real das tres Artes. O dote era o producto das exhibições; mas como nos primeiros annos não chegasse para as despezas, supprio o bolsinho Real a falta de 45$ cruzados.
Os Artistas expõem á venda, ou á censura pública, naquelle Salão, as obras que querem; e os curiosos que as pertendem ver, pagão pela entrada hum xelim cada hum: estas entradas produzirão 13 a 14$ cruzados annuaes até o anno 1779; mas no seguinte, que foi o primeiro da exhibição em Somerset-Palace, subio a receita a 27$ cruzados; e dalli até o anno de 96 andou sempre por 22 a 23$ de sorte que excedendo a receita a despeza, comprou a Academia huma boa propriedade, e applicou os seus rendimentos em beneficio dos Artistas precisados. Este estabelecimento, soffreo tambem, como todos os mais, grandes opposições; porque os não admittidos em a nova Academia, fundárão outra; e outra exhibição; mas como não tinhão grande credito, tudo desappareceo em pouco tempo.
De todas estas, e outras famosas Eschólas, he que deriva a Doutrina, que em compendio vamos ensinar nesta nova Academia: mas antes de começar as lições, he preciso dar ás nossas illustres Academicas huma idea verdadeira da Arte.
A Pintura póde ser considerada de duas sortes, ou como natural, ou como artificial. A Pintura natural he aquella que naturalmente se imprime na retina dos nossos olhos; e dalli, pelos nervos opticos, se communica á alma; e a Pintura artificial, he a imitação da Pintura natural. A esta imitação, se he bem feita, chama-se Verdade. A Verdade na Pintura, ou he simples, ou ideal, ou composta de huma e outra: Verdade simples he a imitação exacta da Pintura natural, tal como ella se estampa dentro dos nossos olhos, com todas as suas bellezas, e defeitos: Verdade ideal, he a imitação daquellas imagens, que se nos representão na imaginação: Verdade mixta he a imitação da Pintura natural, emendada nos seus defeitos, pelos modelos de perfeição que o grande Artista concebe na sua mente. Esta verdade mixta, ou composta, he a que se acha nas obras de Raphael, e de outros grandes homens; mas principalmente no
Antigo [8] .
Os que estudão a Arte devem, primeiro que tudo, adquirir a pratica da verdade simples, costumando-se a imitar perfeitamente tudo quanto se apresentar diante dos seus olhos; mas podem, e devem faze-lo de sorte que em virtude da boa escolha dos objectos, achem tambem nos seus exemplares a verdade composta. As Pinturas do
Carache no palacio Farnesio, e as de Raphael no Vaticano são as duas grandes eschólas de Desenho. A terceira, e não menos importante para os que estão mais adiantados, he a das boas estatuas antigas: os que não puderem estudar pelos originaes, basta que estudem por exactissimas copias.
A Pintura comprehende tudo quanto se póde ver, e imaginar; e como he tão vasta, divide-se em muitas partes, e em muitos generos. Os generos, são: 1.º o Historico, ou (como os authores lhe chamão) o grande Genero: 2.º o dos Retratos: 3.º o das Batalhas: 4.º o das Bambochatas: 5.º o das Paizagens e Perspectivas: 6.º o das Marinhas: 7.º o dos Animaes: 8.º o das cousas inanimadas, como flores, fructos, ornatos, quadraturas, etc.
As partes de que se compõe a Pintura, são: a Invenção; a Expressão; a Distribuição, ou Disposição; o Desenho; o Colorido; o Clar'escuro; o Estylo, ou Pincel; a Graça; a Grandeza; o bello Ideal; etc. etc.: mas todas estas partes se podem reunir debaixo de tres principaes chefes, que vem a ser: Composição, Desenho, e Colorido. Na ordem dos estudos praticos, começa-se pelo Desenho; mas na ordem da doutrina theorica principia-se pela Composição, por ser a primeira cousa que o pintor habil tem a fazer quando quer começar o seu painel; motivo porque principiaremos tambem por esta parte o nosso compendio.