Nova Academia de Pintura
secção i.ª
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Invenção.
«A he a combinação dos pensamentos que concorrem
para a composição de qualquer assumpto: he huma Musa que sendo dotada de todas as bellas qualidades das suas irmãs, as Musas das Bellas letras, e inspirada pelo espirito de Apolo, vem por isso mesmo a ser mais elevada, e a resplandecer com mais viva flamma: he hum talento natural que se não adquire pelo estudo, nem pela pratica; porque a fonte das invenções está na faculdade imaginativa, e requer tres cousas, imaginação, prudencia, erudição.»
«Não ha regras para a Invenção, porque a arte de imaginar não se communica; mas podem haver conselhos uteis. Racine, quando compunha as suas tragedias fazia todos os esforços para entrar nos sentimentos que queria dar a Hippolito, a Phedra, a Athalia, e a Esther.»
«A Invenção he a poesia da Pintura, e a parte mais propria para descobrir o talento do artista: ella desenvolve a primeira idéa de toda a obra; e o Pintor não a deve perder de vista até a ultima pincelada. Não basta que elle encha hum painel com muitas e boas figuras, se estas não servirem todas para explicar o principal objecto; e se a totalidade da obra não declarar logo ao espectador qual he o assumpto de que se trata; preparando, e dispondo a mente de quem vê a pintura, para ser commovida com as expressões, e affectos das figuras principaes: sem o que, de nada serviria dar-lhes expressões violentas e exaggeradas, como fazem aquelles que querem affectar muito espirito. O excesso, ou affectação he a cousa mais nociva á boa invenção.»
«A Pintura sustenta-se, assim como a Poesia, pela fabula, e vive de ficções; cada virtude se transforma n'huma divindade: Minerva he a Prudencia; Venus a formosura; Diana a castidade; Écho não he hum som, he huma nympha; o cabo das tormentas não he hum promontorio, he o gigante Adamastor. Assim o Pintor, e o Poeta, ornão e elevão todas as cousas.»
«He tambem importante, associar á escolha dos objectos todas as circumstancias, e todos os episodios, que podem augmentar o seu interesse; tendo porém muito cuidado em que os accessorios não prejudiquem em cousa alguma a acção principal.»
«As particularidades relativas ao costume devem ser exactamente observadas na Invenção: transportemo-nos em idéa aos diversos paizes; chamemos á nossa imaginação os passados seculos; occupemo-nos dos usos, costumes, e trajes de todas as personagens, para não cahir-mos naquelles anachronismos, que são capazes de tirar o merecimento ao quadro mais felizmente concebido, e executado.»
«Tudo o que se chama original he inventado; mas nem tudo o que he inventado merece o titulo de original; porque esta palavra não só dá idéa de invenção, mas tambem de grande magisterio. Arrojar-se a inventar sem ter subido todos os degráos da escada optica, he querer precipitar-se. Alguns desfigurão ás vezes os seus pensamentos querendo enriquece-los.»
«Lêa o Pintor muitas vezes a historia que ha de compôr, e quando estiver bem senhor della imagine as personagens: faça o desenho interno na sua idéa; porque sem isso rascunhará muito, e não fará nada. Depois da composição mental, querendo passar á execução da obra, retire-se do tumulto; porque entre rumores, e estrépitos nada se fará com acerto. Não pinte senão quando se sentir excitado por hum certo impulso; porque a pezar das Musas não se póde fazer obra louvavel.»
«A Invenção requer muito fogo, e muito genio; e a Disposição muita fleuma, e prudencia: e como estas cousas tão oppostas raras vezes se combinão, por isso tem sido raros os grandes Pintores. He porém mais facil moderar o genio de fogo, que escaldar o de gelo.»
«Nem todos os pensamentos são proprios para formar huma intelligivel e elegante composição. Lucas Jordão rejeitou as Invenções dos sabios que por ordem de Carlos II. lhe davão assumptos Theologicos para elle executar no Escurial. Todos erão orthodoxos, discretos, eruditos; mas não erão capazes de fazer por elles huma bella e pittoresca composição: portanto deve-se escolher hum assumpto nobre, e que seja susceptivel de bom colorido, graça, belleza, instrucção, recreio, etc.: escolhendo, para o compor, o mais bello de toda a Natureza, segundo o gosto dos antigos, e dos modernos que melhor os souberão imitar.»
«A escolha das Invenções deve ser analoga aos lugares que ellas vão ornar. Nas Casas Reaes convem as acções dos Principes, e dos grandes Capitães; convém triumphos, victorias, e outros assumptos capazes de levantar o nosso espirito a pensamentos heroicos, e a desejos de honra, e de gloria. O grande Artista póde, e deve ser grato aos beneficios que recebe da Patria, dos Principes, e dos grandes Senhores: e se Virgilio immortalisou os Romanos, Camões os Portuguezes, e Homero os Gregos; tambem Raphael teve poder para perpetuar a gloria de Julio II., e Leão X.; Lebrun a de Luiz XIV.; e o Ticiano a de Carlos V.»
«Nos Consistorios ecclesiasticos, tem bom lugar a assembléa dos Filosofos, ou o concilio dos Theologos; como fez Raphael no palacio Pontificio: mas nos seculares, não será impropria a pintura do conselho dos Gregos para a expedição de Troya: a de Licurgo, Demosthenes, etc. Nos templos claros pode-se pintar S. João prégando á turba; a absolvição da Adultera; a conversão de S. Paulo; e outras passagens alegres: mas n'hum tribunal de Justiça será a proposito representar o juizo de Salomão; aquelles que se dedicárão á morte por amor das leis; e outros semelhantes.»
«Nos jardins, ao pé das fontes, não serão improprias as metamorphoses de Acteon, Arethusa, Salmacis, Narciso, e Egeria; mas entre os bosques Hippomenes, Atalanta, Meleagro, Marsyas, Apollo; os quatro tempos, e os mezes do anno; bailes de nynfas, e satyros; e tambem algumas perspectivas, e paizagens, com Cephalo, etc.»
«Sobre as chaminés das salas pintar-se-ha Prometheu furtando o fogo do Ceo, Hercules na pyra, Ascanio com a flamma nos cabellos, Vulcano, Phaetonte, Perillo, Scevola, Curcio, Medéa, Ceres procurando a filha, e outras. Os corredores ou galerias abertas, sendo nobres como são as lojas de Raphael, ou o Claustro do Escurial, podem ser enfeitados com elegantes ornatos, e arabescos, compostos de aves, flores, fructos, medalhas de estuque, paizagens, perspectivas, folhagens, animaes, insectos, monstros, figuras humanas, e tudo quanto cria a Natureza, e a idéa póde imaginar.»
«As galerias interiores, bem pintadas, são como preciosos volumes, sempre abertos, e escriptos em huma linguagem universal, que todos entendem; onde vemos descriptas as proezas de Luiz XIV.; a protecção efficaz que elle concedeo ás Artes e Sciencias; as acções de Francisco I.; e tantas outras cousas nobres, sublimes, e interessantes, executadas pelo Rosso, pelo Primaticio, pelo divino
Raphael, por Le Brun, por Mignard, e por muitos outros sapientissimos Pintores. Rubens na Galeria do palacio de Luxemburgo, edificado por Maria de Medicis, tambem deixou em vinte e quatro paineis immortalisadada a vida daquella heroina. No primeiro, onde está representado o seu destino, apparecem as tres parcas fiando os bellos dias da futura Rainha, debaixo dos auspicios de Juno, e de Jupiter. No segundo está Lucina allumiando com a sua flamma as Graças da Princeza recem-nascida; e deposita-a entre as mãos da Cidade de Florença: Os Destinos espalhão sobre ella flores ás mãos cheias: o signo de Sagittario indica o tempo do seu nascimento: o Genio da felicidade, deixando ver a coroa, o sceptro, e as flores de liz, claramente manifesta que aquella menina nasce para ser Rainha de França.»
«A Invenção dos outros quadros, que he igualmente poetica, e pittoresca, contém: a educação da Rainha: o ajuste do seu casamento com Henrique IV.: O casamento effectuado: o desembarque da Rainha em Marselha: a Cidade de Lyão, que lhe sahe ao encontro: o nascimento do Delphim: Henrique IV. se dispõe a partir para a guerra d'Alemanha, em soccorro dos Marquezes de Brandeburgo, e de Neuburgo: coroação da Rainha como Regente: Apotheose de Henrique IV., e Regencia da Rainha: o seu governo: viagem militar da Rainha á Ponte de Cé, para reprimir a guerra civil: a troca das duas Rainhas, Isabel de França, que casou com Filippe IV., e Anna de Austria, com Luiz XIII., em 9 de Novembro de 1615: felicidade da Regencia: maioridade de Luiz XIII.: fugida da Rainha do Castello de Blois, onde seu filho a tinha presa: a Rainha acceita a paz, e a conclue com seu filho: a mesma pa IV.: O casamento effectuado: o desembarque da Rainha em Marselha: a Cidade de Lyão, que lhe sahe ao encontro: o nascimento do Delphim: Henrique IV. se dispõe a partir para a guerra d'Alemanha, em soccorro dos Marquezes de Brandeburgo, e de Neuburgo: coroação da Rainha como Regente: Apotheose de Henrique IV., e Regencia da Rainha: o seu governo: viagem militar da Rainha á Ponte de Cé, para reprimir a guerra civil: a troca das duas Rainhas, Isabel de França, que casou com Filippe IV., e Anna de Austria, com Luiz XIII., em 9 de Novembro de 1615: felicidade da Regencia: maioridade de Luiz XIII.: fugida da Rainha do Castello de Blois, onde seu filho a tinha presa: a Rainha acceita a paz, e a conclue com seu filho: a mesma paz confirmada no Ceo: o tempo descobrindo a Verdade. Alguns destes assumptos são assaz triviaes, e parecem estereis; mas o grande e fecundissimo Genio de Rubens soube achar para todos as mais bellas imagens, que se podião desejar.»