Novos Contos
A Vista do Salgueiro (Conto para Creanças)
A VISTA DO SALGUEIRO
(CONTO PARA CREANÇAS)
Ambrosio era velho e vivia n’uma casa muito pobre, toda esburacada e de telha vãa. Lá dentro, os ratos eram tantos como as formigas n’um carreiro; e elle, sentado ao lume, via-os ir e vir, sem mesmo ter medo d’elles. Por traz da casa havia um pequeno quintal, ao fundo corria o rio, e pegado estava o moinho, habitado pelo moleiro, homem que elle odiava mais do que a morte.
Na tarde serena d’um dia d’agosto, Ambrosio, foi visto na margem, sentado n’uma pedra, o queixo pousado nos joelhos, a olhar fixamente e pasmado para uma arvore do outro lado. O ceu era dum azul pallido; as aguas passavam silenciosamente, até entrarem na guela d’azenha, onde produziam um sussurro; a roda movia-se de vagar; porque a força do rio era pouca... O pensamento d’Ambrosio voava, n’um mundo de independencia e maldade, planeando vinganças contra o moleiro seu inimigo. Era um odio velho, nascido de conflictos diarios, aggravado por muitos nadas de que, o do moinho, nem tinha consciencia. No corpo d’Ambrosio, magro como de feiticeira, passava-se no momento em que o viram a olhar para o triste salgueiro, uma lucta violenta e feroz.
N’esse dia, apparecera-lhe em casa, um bacoro de perna quebrada. Sem mais reflectir attribuiu logo o maleficio ao damnado visinho e foi para alli ruminar uma vingança, que o deixasse consolado. Tinha um coração de pedra este demonio de velho! Se não fora assim, como poderia gozar, inventando martyrios, n’uma tarde serena de verão, toda silencio e bondade!
Mas não se desprendia do terrivel desejo de matar o moleiro, com os maiores soffrimentos e castigos, que no mundo tivesse havido! Seria capaz de se vender ao diabo, só para conseguir o seu fim.
Veio-lhe esta ideia audaciosa e encarou-a resolutamente. Tão firme foi o seu pensar, que logo o diabo em pessoa alli lhe appareceu deante dos olhos, offerecendo-se-lhe para tudo, em troca da alma se elle realmente lh’a queria vender. Era figura bem conhecida, a que estava deante de Ambrosio:—meio homem, meio cabra; um comprido pello cobrindo-lhe o corpo; um rabo a dar para um lado e para o outro, como o d’um lobo; os cornos arrebitados na cabeça; e os olhos a coriscarem como dois carvões accesos. O velho não se atemorisou, e como desejava vingar-se do moleiro, sentiu o peito cheio de goso, quando o diabo lhe disse:
—Ouvi a tua voz. Aqui me tens. Acceito o teu contracto. Pede o que quizeres.
—Então tu é que és o diabo?—perguntou.
—Eu mesmo. Sou o que tudo posso depois lá do Outro (apontou desdenhosamente para o ceu). No meu reino posso mesmo mais do que Elle.
—Fazes-me tudo quanto eu quizer para matar o moleiro?
—Tudo, com tanto que me entregues a tua alma.
—E para que queres tu a minha alma?
—Para a guardar juncta com outras.
Ambrosio observou escarnecendo:
—Não acredito que faças bom negocio. Pelo que dizem os padres, a minha alma não presta. Dou-ta, mas has-de trazer-me aqui o moleiro pelo cachaço, e depois de bem amarrado e preso, deixares-me fazer o que eu quizer. Mas quero-o bem amarrado e preso, porque tenho medo, entendes?
—Se entendo!... E só queres isso?
—Se perguntas é porque estás em maré de franquesa. Então vá lá: Quero ser rei; ter muito dinheiro, muitos palacios, muitas cidades, muitos cavallos, coisas ricas para comer.
—Só isso?
—Co’a breca! Muito boa deve ser a minha alma para ti. Olha, já que offereces, quero uma sanfona, para tocar aos ouvidos de minha mulher, quando ella estiver a resmungar... Tu sabes; ás vezes leva noites inteiras ... ron-ron-ron... ron-ron-ron...
—E por quanto tempo desejas tudo isso?
—Essa agora é que nem parece sua, seu diabo! Isso por muito tempo.
—Não posso dar-te tudo por mais de cinco minutos.
—Cá me parece sovinice. Cinco minutos não é nada.
—É tempo bastante de gosares todas as coisas que pedes e de te aborreceres de todas ellas.
Ambrosio deu uma estrondosa gargalhada, que encheu todo o valle, repercutindo-se nos reconcavos visinhos. O diabo acrescentou:
—É como te digo. N’esse ponto te mostrarei o meu grande poder. Um minuto basta para eu fazer passar na tua vida, todas as grandesas da terra. Outro minuto para percorreres todas as grandes cidades do mundo. O terceiro minuto para tocares sanfona a tua mulher e ella morrerá de desespero. O quarto para matares com toda a pachorra o moleiro.
—E o quinto?—perguntou Ambrosio.
—Esse é para te aborreceres.
—Como tu és grande, diabo!—disse o velho enthusiasmado. Acceito.
—Deixa tirar uma gotta de sangue das tuas veias. Com esta penna de mocho, molhada no teu sangue, has-de pôr o teu nome n’este livro.
O inimigo do moleiro sentiu uma picada no sangradouro e logo o seu nome appareceu brilhante como o fogo, na pagina onde o escrevera, obrigado por uma força irresistivel.
Depois um vento infernal levou-o pelo espaço. Tudo quanto via e gosava eram deslumbramentos e delicias. Corria-lhe o corpo um calor de mocidade. Ricos manjares eram servidos em pratos d’oiro; as festas mais divertidas e luxuosas, passavam-se em palacios de marfim e cristal. Camas formadas de fofas nuvens, appareciam dispostas para um momento de cansaço. Levado milagrosamente, passou sobre os mares onde ruem tempestades, viu a seus pés cidades cheias de bulicio e riquesa, os reis da terra offereciam-lhe homenagem! Os montes de perolas, oiro e diamantes já eram para Ambrosio coisas sem valor. Por causa d’um mosquito que lhe passou no nariz, teve uma rajada de colera, que fez tremer toda a terra!
Logo em seguida viu humilde e supplicante o moleiro, que já estava preparado para o sacrificio.
—Quero matal-o cá á minha moda—disse para o diabo. Hade ser n’um banco, escochinado, como um porco.
No momento seguinte estava junto de sua mulher tocando-lhe sanfona aos ouvidos. A pobre velha, entrevada na cama, havia muitos annos, supplicava com olhares, que lhe não atormentassem as ultimas horas de vida. Porém o marido, homem de coração duro, foi implacavel até ao fim e viu-a morrer no meio de soffrimentos horriveis. Depois é que deu começo á tarefa mais importante, que era dar morte afflictiva ao moleiro.
Espatifal-o como um porco fôra sempre a sua ideia fixa. Ia realisal-a. A scena passa-se no quintalito junto do rio. A victima, com a sua grande estatura sae do moinho. Vem manietado e humilde, ao pé do algoz, apresentar-se para o sacrificio. Ainda que não ousava levantar os olhos, o seu porte era digno.
—Ah!—disse Ambrosio com grande satisfação. Vamos lá a isto?
O proprio carrasco, é que foi buscar um banco. Apontando para elle, mostrou-o á victima, com riso de mau:
—Hade ser aqui.
O pobre moleiro conservava-se calado e triste. Não ousava ter olhares colericos, talvez, para o suplicio lhe ser menos barbaro. Não pedia; pois era um homem valente, digno, bondoso e reconhecia a crueldade do inimigo.
Ambrosio continuou:
—Só para chegar a isto dei a minha alma ao diabo. Se mil almas tivéra, todas daria, só para te cravar mil vezes uma faca no coração e tirar-te mil vidas que tu possuisses. Quem foi que me quebrou a perna do bacoro? quem me fez secar a larangeira? quem me roubou a panella velha, com que eu tirava agua do rio? quem me estragou o mangericão?
E como a victima dos seus odios, continuava a olhar para a terra, sem responder, escarneceu:
—Ah! não foi ninguem!... Estas coisas fazem-se por si. Alem de seres o grande ladrão, que me roubou os feijões, és mentiroso. Pois vaes pagal-as todas juntas, meu rico amiguinho. Ora deite-se n’esta cama.
E com uma força que não era a do seu braço enfesado e velho, pegou no moleiro que era um gigante, e estendeu-o como uma arveola sobre o banco, atando-o fortemente com cordas.
—Agora espere que vou aqui buscar uma coisa.
Logo appareceu com um alguidar e uma comprida faca de matador. Mostrando estes objectos, acrescentou:
—Isto é um alguidar para receber o teu sangue vermelho e quente. Isto, uma coisa a que se chama faca para te fazer cocegas no coração. Talvez ainda tenha tempo para arranjar um serrabulho d’esse sangue e coração. Vamos á obra que se faz tarde.
Com placidez, gosando á vontade o martyrio do paciente, principiou a arregaçar os punhos da camisa de estopa. Mostrou a faca reluzente á victima que estava deitada. E voltando-se para o diabo disse:
—Você muito póde, seu amigo. Como eu tenho aqui este fanfarrão, sem se mecher? Tenho pena que meu pae me não tivesse feito duas almas, para lhe dar a você!
O demonio austero e grave não respondeu á lisonja. Ambrosio entrou de novo no seu pardieiro e trouxe um pucaro d’agua quente. Tinha de molhar a pelle da victima, para a ponta da faca entrar mais firmemente. E chapinhando na garganta com a mão molhada, tinha uma respiração d’homem feroz.
Apontou a faca ao logar apropriado, principiou a enterral-a lentamente, para a dôr ser mais prolongada, o sangue já sahia em borbotões do peito arquejante do moleiro.
—Não berra como os pórcos, este maldito!—considerou Ambrosio.
Ia-lhe remexendo cruelmente com o ferro nas entranhas! Gosava a sua victoria, fazendo soffrer a victima.
Foi prolongando este goso até aos ultimos momentos do moleiro. E quando reconheceu que alli estava definitivamente um morto respirou:
—Ahhh!... Isto valia bem uma duzia d’almas! Quanto falta senhor diabo?
—Vae acabar o tempo. Já lá te esperam. Olha!
Apontou para a bocca d’um enorme forno, onde entre as labaredas infernaes, estavam homens e mulheres dando gritos. Todas as velhas ideias de Ambrosio sobre penas eternas, se condensaram n’aquella realidade. Affrontou heroicamente um tal espectaculo, deante do qual o seu coração deshumano, ainda teve coragem para beber do sangue do inimigo! Porém o mundo infernal das chammas e gritos, crescia rapida e formidavelmente. O diabo sereno e magestoso estendia-lhe a mão para o agarrar, com as suas unhas de macaco! O aspecto do demonio era tão medonho e terrivel, que o velho Ambrosio teve subitamente um grande medo, todo o seu corpo estremeceu como se oscillasse o mundo, amedrontado e covarde ia a dar um passo para fugir...
N’esse instante escorregou e cahiu ao rio. Começou a berrar por soccorro como um possesso. O seu choro era mais infeliz do que o de uma creança sem mãe.
A agua escaldava-o e sentia-se abrazado como no meio de labaredas infernaes! Quem lhe havia de acudir n’aquelle instante de afflicção? Foi o visinho, o moleiro, a sua victima que sahindo fóra do seu moinho o viu debater-se covardemente, como se estivesse assoberbado, por ondas d’um mar tormentoso!
—Eh!... diabo de gato!—disse o collosso mettendo-se ao rio e agarrando-o pela gola da vestia. Como diabo te aconteceu isto?
Levou-o para sua propria casa, metteu-o na cama agasalhado, deu-lhe um caldo quente para o revigorar. O velho Ambrosio, olhando-o receioso, batia o queixo de medo e dizia com a cabeça debaixo da roupa:
—Nada, não quero; elle póde deitar resalgar no caldo!
Arcos, agosto, 86.
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Bento Moreno
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