O Bobo

Alexandre Herculano · Capítulo 10 de 11 · parte 1/3

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O Bobo

Capítulo XI · O Subterrâneo

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

 

Depois de acabado o banquete, quando os cavaleiros começaram a derramar-se pelas salas esplendidamente adornadas dos paços de Guimarães, e a descer aos pátios onde os cavalariços os esperavam com os cavalos deles e dos seus acostados e pajens, Fr. Hilarião, receoso de um novo encontro de Gonçalo Mendes com Veremudo Peres, o qual teria provavelmente consequências que naquela melindrosa conjunção era necessário evitar, com tal arte soube reter o violento rico-homem na sala de armas que, ao descer ao terreiro interior, este começara a estar deserto, porque mais de uma hora tinha passado. Aí mesmo ainda o abade procurava, parando, demorar a saída do cavaleiro com intermináveis reflexões e perguntas sobre os receios e esperanças que agitavam todos os ânimos. No meio, porém, da manhosa conversação do velho monge um caso inesperado veio interrompê-la.

O vasto pátio que precedia o palácio estava apenas iluminado pela luz afastada de uma almenara, colocada no eirado da agigantada torre alvarrã, e pelo ténue reflexo de dois fogaréus que ardiam aos lados da ponte levadiça. A claridade dos dois fachos, atravessando por baixo do portal soturno, ia bater somente no átrio da escadaria que dava comunicação para a sala de armas. De um e de outro lado do terreiro as trevas pareciam profundas aos que seguiam da escada ao portal por aquela espécie de estrada de luz, mas por isso mesmo estes eram perfeitamente vistos por quem quer que estivesse de uma ou de outra parte.

No momento em que parou, Gonçalo Mendes viu ao pé de si um indivíduo, que ele supunha já bem longe de Guimarães.

Como assim, Odório Fromarigues?! Há mais de uma hora que devíeis ter partido para a terra da Maia. Os anos, meu amo, têm-vos tornado os pés tardos.

A pessoa a quem o Lidador dirigia estas palavras era um velho, pequeno de corpo, magro, olhos como duas ervilhacas, e tez semelhante a um pergaminho de sete séculos amarrotado. Trazia vestido um lorigão negro, e na cabeça um camalho, que, cobrindo-lhe o pescoço até os ombros e circundando-lhe o rosto como a toalha de uma freira, apenas lhe deixava este visível. Aquele trajo militar era o de um simples homem de armas ou acostado de rico-homem; porque o arnês de solhas e o elmo ou capelo de ferro brunido ainda eram armadura demasiado custosa para os que, pelo menos, não pertenciam à classe dos simples cavaleiros.

A resposta do velho às palavras de Gonçalo Mendes, nas quais, posto que proferidas em tom submisso, transluzia o despeito, foi pôr o dedo na boca, fazer-lhe sinal que o seguisse, e encaminhar-se para um dos recantos do pátio onde a escuridade parecia mais profunda.

Odório Fromarigues era o vílico do solar da Maia. O vílico do século XII, quer o fosse do rei, conde, ou senhor supremo, quer de um vassalo poderoso, correspondia não só ao moderno administrador ou mordomo de rico fidalgo, mas também representava a autoridade administrativa e ainda em certos casos a judicial, dentro dos limites da honra, préstamo ou senhorio respetivo. Era ele quem por via de regra fazia o alardo, e muitas vezes capitaneava na guerra os peões, besteiros, frecheiros e fundeiros, e na ausência do senhor fazia as suas vezes em todos os lugares, salvo nos castelos ou castros, onde ao alcaide ou tenente tocavam em grande parte as atribuições do vílico. Conforme a promessa que fizera ao homem do zorame, Gonçalo Mendes ao subir para a sala do banquete, encontrando aí entre os seus acostados Odório Fromarigues, que nessa ocasião se achava na corte, lhe ordenara partisse imediatamente a todo o correr do cavalo para a terra da Maia, e convocando oitenta acobertados e sessenta peões os tivesse a ponto com caldeira e pendão, para cumprir as ordens que brevemente lhe havia de comunicar. Receando que o vílico cometesse alguma imprudência, nada mais lhe fizera saber, resolvido a enviar no dia seguinte um cavaleiro que devia acompanhar aquela mesnada, ou força, como hoje diríamos, até o arraial do infante.

Tanto o Lidador como o abade tinham seguido o vílico para o sítio que ele parecia buscar com toda a precaução. Chegados a um canto escuro entre a sacada interior de uma torre e a escada que subia para o adarve da quadrela contígua, o vílico parou, voltando-se para os dois.

— Porque não partiste? perguntou o cavaleiro. Que mistérios são estes?

— Não pude — respondeu o velho. Os vigias, roldas e sobrerroldas têm as mais estreitas ordens para não deixarem passar além das barbacãs do burgo ninguém; seja quem for: o próprio conde de Trava não é excetuado. Entre os homens de armas correm várias notícias. Se acreditarmos o que se diz...

Aqui o vílico hesitou e calou-se.

— Que é o que se diz? acudiu o Lidador depois de alguns momentos, impaciente com o silêncio de Odório Fromarigues.

— Que prosseguiu o velho ainda hesitando há conjurados contra a rainha dentro de Guimarães; e ousam pronunciar o nome de um dos mais ilustres e leais ricos-homens de Portugal como o cabeça e movedor da conjuração.

— E cujo é esse nome? insistiu com voz firme o Lidador.

— É... — disse o vílico em tom quase impercetível é o vosso!

— Oh, entendo, entendo! murmurou com uma cólera reconcentrada Gonçalo Mendes. Medem-me por si os miseráveis! Porém, não! Eles bem sabem que lealmente eu diria à rainha: «Senhora, não será para estrangeiros meu preito, que o devo ao vosso filho.» Bem sabem que à luz do meio-dia eu movera os meus pendões para a hoste de Afonso Henriques. Conspiradores covardes são eles, porque querem colher às mãos indefesas os que temem encontrar nas lides.

— Esqueceis-vos, meus nobres senhores, que tenho comigo vinte acostados, e que vinte acostados meus são sobejos para, mau grado vosso, romper larga saída por essas tão vigiadas barreiras?

— Vílico prosseguiu ele voltando-se para Odório Fromarigues —, vai-te ao meu bairro: previne já os nossos cavaleiros que vistam imediatamente as armas; e que juntos na minha pousada vigiem das ameias as ruas em roda, porque nos ameaça uma negra traição. Eu breve serei com eles.

O tom com que o esforçado rico-homem proferira estas palavras não admitia observações: o vílico obedeceu.

Apenas ele partira, Gonçalo Mendes dirigiu-se a Fr. Hilarião.

— Abade do Mosteiro de D. Muma, vós me acompanhareis. A vossa amizade para comigo pode ser-vos fatal: o conde de Trava não é homem que respeite a santidade do sacerdócio, e a vida, ou pelo menos a liberdade, vos correria grão risco se nas prevenções desta noite se esconde, como suspeito, um pensamento atroz.

— Deixai o obscuro monge — respondeu o frade e salvai o ilustre guerreiro. Que importa a liberdade ou a vida de quem como eu já de mais tarda ao sepulcro? A morte, posto que me aterre, achar-me-á resignado. Mas o que mais temo é o vosso próprio esforço. Com vinte homens de armas que podeis fazer em Guimarães, onde Fernando Peres conta mais de mil lanças dos seus parciais?

— Ao romper da alva replicou o cavaleiro por meio desses vigias e roldas a minha acha de armas abrirá franca passagem aos vinte cavaleiros do solar da Maia. Os que então se opuserem à sua saída prosseguiu com um sorriso amargo não terão, juro-vos eu, largo alento para dizer ao conde de Trava: «Gonçalo Mendes, ei-lo que vai juntar-se com os seus à hoste do infante de Portugal.» Ao menos terei ao partir selado para sempre alguns lábios desses que ousaram proferir o meu nome de envolta com o título de desleal.

— A ousadia — disse o abade vos faz parecer fácil tão dificultosa empresa: mas o perigo é imenso. Se no primeiro ímpeto não puderdes salvar as barreiras, estais perdido; e esta tentativa desesperada dará cor de verdade às acusações dos nossos inimigos.

— É necessário sair desta situação violenta interrompeu o Lidador. Sei o que significa tão repentino converter do burgo de Guimarães em vasta prisão de homens livres. Quando aí se arrisque a vida, que importa? Estes pulsos não foram feitos para os ferros do senhor de Trava.

— Mas se houvesse um meio replicou Fr. Hilarião mais seguro de vos pordes em salvo com os cavaleiros da vossa honra...

— Há! — disse uma voz que parecia soar do chão junto aos pés do monge.

Gonçalo Mendes recuou metendo mão à espada; e ambos procuraram no meio da escuridão descobrir donde partira aquela palavra.

— Quem é que nos escuta? bradou o cavaleiro.

— Eu! — disse a mesma voz, acompanhando esta palavra com uma grande risada.

— É a voz e o rir de Dom Bibas! exclamou o abade ainda sobressaltado. Agora me recordo de que fica para este lado a sua humilde pousada.

O monge, o cavaleiro e todos os habitantes dos paços de Guimarães tinham-se completa e profundamente esquecido do truão, como porventura terá acontecido a mais de um dos nossos leitores.

Neste momento a luz de uma lanterna de furta-fogo deu de chapa nos vultos do Lidador e de Fr. Hilarião. À ténue claridade que nos próprios corpos se refrangia, eles viram um braço, que segurava a lanterna no vão de uma porta baixa meia cerrada, que mais parecia o ádito da pocilga de um mastim que de habitação de homens. No meio do vão escuro luziam dois olhos, e alvejavam os dentes de boca escancarada por um rir que devia ser feroz.

— Que fazes aqui, truão? perguntou o cavaleiro colérico.

— Escutava — respondeu tranquilamente o bobo estendendo a cabeça para os dois.

— Foi desgraça tua! porque me é necessário o teu silêncio murmurou o Lidador, largando a espada na bainha, travando do braço de Dom Bibas, e levando a mão ao punhal que tinha no cinto. O bobo não deu o menor sinal de susto e, vendo este movimento do cavaleiro, que porventura só pretendia aterrá-lo, com um tom de amargo escárnio replicou ao ouvir aquelas palavras ameaçadoras:

— Não gasteis comigo, nobre senhor, a única moeda com que vós outros os poderosos comprais não só o silêncio, mas tudo aquilo de que careceis para satisfazer paixões brutais. Se eu quisesse delatar o que vos ouvi, não fora tão louco que vos falasse.

— Respondo por Dom Bibas acudiu o abade. Não é ele capaz de trair-nos. Quis exercitar o seu trabalho, e bem sabeis que o seu trabalho é gracejar.

— Fr. Hilarião! interrompeu o bobo entre a vida que foi, e a que é e há de ser, há para mim um abismo. Cavaram-no os estrangeiros; mas eu os despenharei aí! E depois Dom Bibas, o folião, o bobo, assentar-se-á na borda dele para lhes alegrar a queda: para rir e zombar. À pergunta que fizestes se haveria meio de sair de Guimarães este nobre cavaleiro, que intenta manchar seu rico bulhão no sangue vil de um jogral, e os homens de armas da Maia, respondi eu que havia. Juro que não menti. Tenho para isso meio fácil. Podeis aproveitar-vos dele, se é que o benefício de um bufão não desonra um rico-homem de ilustre linhagem.

— Dom Bibas! replicou o abade, fitando nele os olhos como quem buscava ler na sua alma é impossível que queiras escarnecer de um nobre cavaleiro que nunca te maltratou e de um pobre velho que sempre achaste indulgente, enquanto os outros monges te repeliam como a um réprobo, desde o dia em que despiste o nosso santo hábito para te atirares aos deleites do mundo e, di-lo-ei, à devassidão da vida de um jogral. É impossível, repito, que as tuas palavras sejam apenas uma cruel zombaria. Mas como hei de eu acreditar-te? Que auxílio nos podes prestar, tu humilhado e fraco?...

— Bem sei que sou fraco! Oh! bem sei! interrompeu o bobo com um acento em que se misturava a desesperação e a dor. Essa terrível verdade está escrita com sangue no meu corpo pelas mãos dos cavalariços de Fernando Peres, e com fogo nos seios da minha alma pelo dedo da amargura. Sou fraco!... porque não embraço um escudo, nem meneio uma acha de armas! Sou um homem condenado ao mais atroz dos tormentos; a chamar o riso aos lábios e a alegria ao gesto quando o coração está em noite. Sou fraco... porém não sou vil! Mais fraca é a víbora... e também o homem, que é forte, a calca e passa avante: mas pisada, ela alça o colo, vibra a língua farpada: e passado um dia, por cima do cadáver do forte, do homem, o ente fraco, a víbora, pode arrastar-se, rolar, sem que ele alevante o pé para a esmagar de novo!...

O cavaleiro e o monge, cujos olhos se tinham afeito à luz escassa da lanterna do bobo, estavam pasmados ouvindo aquelas palavras e vendo aquele gesto truanesco, em que se pintavam o ódio, a raiva, a desesperação. Atónitos, custava-lhes a crer o que presenciavam, ignorando o que se passara no jardim pênsil. O Lidador largara o braço de Dom Bibas; e a muito custo puderam os dois perceber dos seus discursos truncados o motivo do furor do chocarreiro.

— Fico tranquilo! — disse por fim Gonçalo Mendes. A injúria cruel que recebeste e essa sede de vingança são os teus fiadores. Agora afastemo-nos daqui acrescentou ele dirigindo-se ao abade. Não devo demorar-me por mais tempo. Cumpre ter tudo disposto para sairmos ao romper de alva. A Virgem e Sant'Iago sejam convosco.

Ia a afastar-se. Dom Bibas, porém, o reteve, segurando-lhe com força a orla do saio.

Não saireis sem me ouvirdes! exclamou o bufão. Quando os sisudos traçam, como vós, impossíveis, importa que os loucos tenham juízo por eles. Os vossos intentos são vãos; porque antes da madrugada vinte homens de armas da terra da Maia terão sido arrastados aos calabouços desse castelo, e talvez a cabeça de ilustre rico-homem tenha rolado aos pés do algoz. Certo cavaleiro, que há pouco trajava um zorame, deve, se cair nas mãos do conde de Trava, acompanhar o nobre senhor neste transe que o aguarda. O cavaleiro do zorame chama-se Egas Moniz, e o rico-homem chama-se Gonçalo Mendes da Maia.

O abade ficara estupefacto ouvindo as palavras do bobo; porém no ânimo do Lidador, o perigo iminente que este lhe anunciava só despertou mais violenta indignação misturada de curiosidade. Como soubera Dom Bibas da vinda de Egas Moniz? Como adivinhara ele os intentos do conde de Trava? Qual era esse meio que se gabava de ter para os salvar? Havia nisto tudo um enigma, cuja explicação era necessário encontrar. O chocarreiro, porém, lhe rasgou o véu do mistério.

Apenas, lacerado dos açoutes e manando sangue das costas, escapara das mãos dos cavalariços e pajens, Dom Bibas fora esconder na espécie de covil, em que vivia, a sua dor e vergonha. Era um pesadelo, um delírio aquilo porque passara: era monstruoso e incrível. Posto às varas como um servo, ele homem livre; ele tão mimoso do seu bom senhor D. Henrique! As lágrimas correram abundantes por essas faces habituadas de longos anos unicamente às contrações das visagens truanescas. As lágrimas, porém, nem o consolaram, nem bastavam à sua desesperação. Depois de se rolar pelo chão mordendo os punhos cerrados, o bufão assentou-se a um canto, como o lobo cerval colhido no fojo, cansado de lidar em vão por salvar-se. Todo o fel, que o rir forçado de tanto tempo lhe fizera, por assim dizer, absorver e calcar no coração, achou enfim um resfolgadouro no ódio implacável que a dolorosa e terrível afronta recebida lhe gerara lá dentro. O pensamento da vingança alcançara o que não tinham obtido as lágrimas: Dom Bibas sentia agora que ainda havia para ele consolação e esperança.

Mas como vingar-se? Ignorava-o. Juraria contudo que Belzebu lhe dizia ao ouvido: «Pensa bem; que hás de atinar com o caminho que buscas.» Quem deixou de achar meios neste mundo para satisfazer paixões más?

Maquinalmente Dom Bibas despira as roupas variegadas de folião, e vestindo um simples trajo de escudeiro, galgara as escadas do paço. Na confusão que reinava na sala do banquete ninguém o conheceu. Girando de uma para outra parte ele pensava no modo porque poderia obedecer ao pensamento irresistível que o agitava. A esperança de que a festa terminasse, segundo o costume, por completa embriaguez em que o sangue corresse, e que talvez no meio da desordem alcançasse aproximar-se do conde, lhe sorriu um momento. Então pensava lá consigo como uma boa punhalada pagaria a dívida do truão ao nobre senhor! Mas arriscava-se a errar o golpe, e ele precisava da vida até obter completa vingança. Também pela cabeça desvairada do chocarreiro passou a ideia de envenenar a taça ou copo por onde Fernando Peres havia de beber. Mas fora impossível sequer o tentá-lo sem ser descoberto. Flutuando assim a sua imaginação desregrada de pensamento em pensamento, Dom Bibas se conservara na sala do banquete até o fim: vira entrar Garcia Bermudes, e os sinais de acordo que houvera entre ele e o conde. Ao retirar-se a rainha, o bobo se aproveitara do tumulto dos cavaleiros que saíam, para renovar uma das suas usuais habilidades, com o intento de observar até o fim o que se passava. Os sergentes e pajens apressavam-se a lançar mão dos restos do banquete, e por entre eles Dom Bibas pôde sumir-se debaixo dos ricos panos, que, segundo o costume do tempo, cobriam, até rojar pelo chão, aquela vasta mesa. Ali, ora escutando, ora coando pela memória um a um os açoutes que recebera e as chufas e apupos dos cavalariços e servos, ele despertava na própria fantasia um tropel de vinganças imaginárias, a qual delas mais absurda e inexequível. O louco, por arte, desde que deixara de rir, tocava quase as raias da verdadeira loucura.

Daquele esconderijo o bobo ouvira perfeitamente o que se passara entre o conde de Trava, o alferes-mor e o filho de Veremudo Peres. As revelações deste, as ameaças do conde, e a comissão misteriosa de que Garcia Bermudes encarregara o pajem, nada escapou a Dom Bibas. Para os seus intentos esta conversação fora um raio de luz. Fernando Peres receava-se de uma traição de senhores e cavaleiros ilustres, e era ele vilão humilde, ele jogral, ele verme desprezível que o muito nobre conde crera esmagar, num momento de cólera, quem podia entregar Guimarães ao infante, e despedaçar nas mãos do ambicioso e altivo barão não só o poder mas a vida. Dom Bibas esteve a ponto de soltar um rugido de contentamento ao ocorrer-lhe essa ideia, e um clarão de danada esperança iluminou as trevas da sua alma.

Desde a morte de D. Henrique, o seu bobo querido caíra da grande altura do valimento ao nível dos animais domésticos; o seu fado fora o dos privados do príncipe que desceu ao túmulo; e, como sucede a estes frequentemente, se não o expulsaram do importante cargo que exercitava, foi que ninguém havia aí que o substituísse. Lançaram-no, porém, para aquele aposento baixo, triste e húmido, em que Dom Bibas desde então habitava, consolando-se do desprezo com essas horas de glória e triunfo, em que imperava, rei das festas noturnas, nos saraus esplêndidos e nos banquetes sumptuosos, a que ele dava vida e cor com as suas agudezas e chascos.

Nesta espécie de caverna, para onde fora desterrado, o bom do truão curtira muitas horas de tédio: a solidão para qualquer alma sem afetos é um tormento real, e a alma de Dom Bibas era por esse lado uma verdadeira Tebaida. Certo dia em que deitado no seu almadraque tinha os olhos fitos numa réstia de sol que dava de chapa na parede em frente, pareceu-lhe divisar nesta os vestígios de uma porta entaipada. A curiosidade o incitou a fazer mais atenta averiguação. Não se enganara. À força de tempo e diligências pôde abrir suficiente passagem para o esconderijo que achara. Era este um daqueles caminhos subterrâneos, comuns em quase todos os castelos da Idade Média, por onde nas últimas estreitezas os defensores dos lugares fortificados alcançavam salvar-se quando a resistência se tornava impossível. Este caminho, que parecia pertencer à fundação primitiva do Castelo de D. Muma, fora provavelmente condenado como inútil quando o genro de Afonso VI lançara em roda dos seus paços soberbos uma cinta de muros e torres inexpugnáveis.

Nunca Dom Bibas revelara o descobrimento casual que fizera. Este homem, que nada possuía, quisera ao menos possuir um segredo. E na presente ocasião aquela inocente avareza lhe punha nas mãos um rico tesouro: o cumprimento dos seus vingativos desejos. A entrada do subterrâneo era longe, e o bobo atravessando-a algumas vezes tivera o cuidado de tornar ainda mais cerradas as balças, sarças e troncos que a encobriam. A ideia que lhe ocorrera ao ouvir a conversação do conde e do alferes-mor fora a de fazer servir este caminho desconhecido ao ódio que o devorava. O infante dirigia-se a Guimarães, e na primeira noite ele lhe podia dar nas mãos aquele invencível castelo. Assim, apenas vira deserta a sala do banquete, saíra e viera fechar-se na sua pocilga, para pensar no modo de executar seus intentos. Deitado no roto e imundo almadraque estava embebido em reflexões, quando ouviu falar o cavaleiro e o monge. Pôs-se a escutá-los, e do seu diálogo conheceu os receios que os agitavam, receios que ele sabia serem bem fundados. Deus ou o demónio lhe trouxera ali os instrumentos da vingança. Dando saída ao Lidador e aos seus cavaleiros, o esforçado senhor da Maia ficaria sabendo o meio de saltear este vasto e sólido castelo, que aliás parecia inconquistável.

Tal foi em substância a narração de Dom Bibas, que, fechando a porta, conduzira o monge e o rico-homem ao lado do aposento onde ele abrira entrada para o subterrâneo.

— Por aqui dizia o bobo com um rir diabólico é o caminho da salvação para vós, e para mim o de ver realizado o que será de ora avante o único pensamento da minha vida.

O Lidador ficou por algum tempo em silêncio, e por fim exclamou:

— Mas quem há de salvar os meus bons e leais cavaleiros, que me aguardam?

— Eu acudiu o bobo. As portas do castelo ficam abertas, porque os vigias e roldas correm pelas barbacãs. Saí vós outros, e esperai-os à boca do subterrâneo. Dentro de poucas horas todos estarão convosco. Basta que me deis um sinal com que eu possa fazer que eles me obedeçam.

O Lidador pareceu assentir à proposição de Dom Bibas; porque, tirando da escarcela uma tabuazinha coberta de cera, com um anel que tinha no dedo estampou nela o seu selo de camafeu e, entregando-a ao bobo, disse-lhe:

— Vai, apresenta isto ao meu vílico, e serás obedecido em tudo.

— Falta ainda uma coisa! continuou Dom Bibas. Reverendo abade, vesti esse trajo de escudeiro que aí vedes e deixai-me vossa cogula. Não sei o que me diz o coração... Talvez me seja necessária. Será esta a primeira recompensa do serviço que ora vos faço.

Fr. Hilarião hesitou; mas o terror das ameaças que o truão ouvira ao conde só lhe dava lugar a uma ideia: a de sair de Guimarães sem risco. Depois de cinquenta anos de vida monástica, pela primeira vez o monge trocava por trajos profanos o seu santo hábito.

Dom Bibas entregou a lanterna de furta-fogo aos dois amigos, que se internaram no subterrâneo. Tanto que desapareceram, ele abriu às apalpadelas a porta exterior da sua pocilga e, cosendo-se com o muro do pátio, atravessou a ponte levadiça e encaminhou-se para o bairro do senhor da Maia.

CAPÍTULO XII

A MENSAGEM

 

Alguns instantes mais que o trovador se houvera demorado no jardim pênsil lhe tornariam impossível o sair de Guimarães. Abul-Hassan tinha tido a prevenção de comunicar ao mestre dos engenhos, ao seu irmão, o tornadiço, como ele lhe chamava na ausência, o lugar onde o devia encontrar no caso de ocorrer algum sucesso inesperado.

O árabe-cristão ouvira a ordem do alferes-mor para se dobrarem as vigias e roldas, lançar-se uma quadrilha ao campo, e proibir-se a saída do burgo a todos, apenas se fizesse o sinal de acabar o banquete. Então o tornadiço correra ao arco escuro do jardim pênsil, e relatara tudo isto a Abul-Hassan. O silvo do árabe, que tão cedo soara para Dulce, procedera desta causa, e por isso o cavaleiro tivera de atravessar, correndo à rédea solta, o recinto do castelo e do burgo. Passando a cárcova das barreiras, ainda vira dobrar o número dos atalaias noturnos, e sentira o tropear dos cavalos rodeando os andaimos das barbacãs. Para se não tornar suspeitoso, depois de sair junto ao cubelo da couraça, caminhara lentamente em volta da povoação e, fazendo um largo rodeio, viera outra vez meter-se no caminho que levava à margem do Avicela, onde o esperava o seu pajem.

Ainda ele galgava no valente ginete uma senda agre e tortuosa na selva contígua ao vau do Madroa, quando sentiu a pouca distância, do lado oposto do rio, um estrupido de cavalos, os quais pareciam caminhar por entre os choupos e salgueiros que povoavam tanto uma como outra margem. Pelo ruído que faziam facilmente se conhecia que era uma numerosa cavalgada. Falavam em voz alta, e pareciam seguir um caminho contrário ao seu, aproximando-se do vau, enquanto o cavaleiro se afastava dele. Talvez o perseguiam. Este pensamento, que lhe ocorreu, o fez parar subitamente. Apesar de conhecer que mal poderia resistir àquele tropel de homens de armas, não receava um combate noturno; mas era-lhe necessário evitar toda a demora em volta ao arraial do infante, a fim de poder cumprir o que prometera a Dulce. Assim, descavalgando do ginete e levando-o de rédea manso e manso, aproximou-se da ribeira junto da qual o arvoredo e mato eram mais frondosos e bastos, afastando-se da senda por onde forçosamente os almogaures tinham de passar no caso de transporem o vau.

No momento em que o trovador guerreiro chegou a uma balça, na qual era quase impossível ser descoberto, à luz cintilante das estrelas as armas dos que vinham ladeando o rio reluziram na margem em frente. Pareciam altercar entre si e, como a corrente era estreita, Egas, que se conservava calado e quieto, pôde facilmente escutá-los.

Aquele tropel de homens de armas era uma quadrilha, ou piquete, como hoje diríamos, que Garcia Bermudes enviara para rodear exteriormente as barreiras e obstar à fuga dos que pudessem esquivar-se à vigilância dos atalaias e roldas. A disputa que o trovador ouvira tinha-se alevantado entre o coudel dos besteiros de cavalo e um cavaleiro seguido de dez lanças, o qual acaudelava toda a quadrilha.

— A la fé, dom coudel bradava o cavaleiro —, que não deveis passar o vau. Já vos disse: a ordem do alferes-mor é que rodeemos o burgo e o castelo a dois tiros de besta das barreiras. Segui-me, ande, se vos praz.

— Não praz, por Sant'Iago! replicava o coudel. Tenho andado em mais de vinte arrancadas, tanto em hoste como em cavalgada; tenho saído trinta vezes de castros e burgos, em apelido contra mouros e leoneses: nunca vi lançar esculcas para vigiarem sagas de mesnada ou barbacãs de castelo. Que Satanás?! O infante não vem, creio eu, de Guimarães, mas para lá se encaminha: ao menos assim no-lo dizem. E não havemos de atalaiar bosques e pacigos além Madroa?

— Fu, fu (*) , cão e vilão que és! murmurou o cavaleiro. Vedes vós prosseguiu ele falando com os seus homens de armas como vai ancha e crescida a ousadia dos peões? Culpa tem quem fia deles cavalo, saio e cervilheira como a uma nobre lança. Ai, meu mano acrescentou dirigindo-se de novo ao coudel —, digo-vos eu que não passareis o vau.

 

[(*) Fu, fu! era um dos insultos daquele tempo, contra o qual alguns forais põem multas pesadas. Ignoramos em que consistia o afrontoso destas duas sílabas, salvo se era uma abreviação de outra injúria de que rezam também os forais, e que a decência nos não permite transcrever aqui.]

 

— Somos homens de rua retrucou o coudel encolerizado —, burgueses por nossa carta de privilégio e bom foro; e a nenhum de nós pode ser dito fu, fu, cão e vilão sem vilta e afronta de vinte soldos de pena. Aqui está Pedro Amarelo, mestre armeiro; Roderico Spassandiz, mestre ferreiro; Sandamiro Eiriz, mercador, e eu, Gavino Pais, que valho por qualquer deles. Tende tento, senhor cavaleiro, com as vossas falas, que podeis amanhã ouvi-las mais pesadas da boca dos alvazis.

— Estais bravo, dom coudel! acudiu o cavaleiro, que porventura não achara inteiramente infundada a advertência do besteiro. Foi por chança que o disse. Deus me livre de doestar tão honrados burgueses! Mas dir-vos-ei agora porque não passaremos o vau. Sabeis o que vai de novo?

A esta pergunta ninguém respondeu: mas homens de armas e besteiros pararam, apinhando-se à roda do que falava.

— Vai, que entre os ricos-homens da corte há quem pense em fazer deslealdade à nossa muito excelente rainha, e o nobre conde de Portugal e Coimbra quer talvez colhê-los às mãos.

— Mas porque credes vós isso? interrompeu o coudel.

— Porque o alferes-mor me jurou que eu expunha a cabeça se alguém passasse por nós vindo do burgo, que não fosse logo tomado, ou se me afastasse além das barreiras um tiro de balista. Que significam semelhantes disposições, senão o intento de colher às mãos os desleais?

— Isso agora é outro falar rosnou o coudel. Em tal caso... é claro...

A quadrilha havia seguido de novo sua rolda, e o trovador só pôde perceber mais essas poucas palavras truncadas.

Encostado a uma árvore com a rédea do ginete no braço, o cavaleiro ficou embebido em reflexões. Um acaso lhe dera a conhecer a impossibilidade de pôr por obra os seus intentos, se ainda na seguinte noite durassem as precauções de que ouvira falar. Mas donde tinham nascido as suspeitas que despertaram a tal ponto os receios do conde de Trava? Tê-lo-iam reconhecido através do seu disfarce? Fora acaso ouvida a conversação que tivera com o Lidador? Perdia-se num mar de conjeturas, e sucessivamente imaginava e desfazia mil alvitres para salvar Dulce, para cumprir sua promessa e ver coroado seu amor; mas no meio da agitação em que o lançara a notícia que escutara, baralhavam-se-lhe cada vez mais os pensamentos tumultuosos.

Lembrou-se de voltar a Guimarães, mas nem já, provavelmente, a entrada era fácil, nem ele podia deixar de se dirigir ao arraial do infante a dar conta da missão de que se encarregara. Assim, posto que vivamente inquieto, cavalgou de novo, e breve se achou fora da extensa selva que naquela época se estendia ao norte de Guimarães.

Enquanto neste famoso castelo e no seu burgo se passavam os acontecimentos cuja narração procurámos fazer ao leitor nos antecedentes capítulos, o fogo da revolta estendia-se largamente por quase todos os distritos do condado de Portugal. O campo de Afonso Henriques aumentava diariamente com as bandeiras das beetrias e concelhos, com os homens de armas dos coutos e honras dos mais ilustres ricos-homens, e com muitos alcaides de castelos do próprio infantático ou regalengo de D. Teresa. Assim, ao passo que o conde Fernando Peres chamava os cavaleiros de Galiza e das outras províncias de Espanha para se defender, a guerra ia mudando o seu carácter de luta civil em luta de independência, e fazendo que o espírito de individualidade nacional se desenvolvesse e fortificasse.

A pouco mais de três léguas de Guimarães, Egas encontrou os esculcas e almogaures de D. Afonso. O arraial alvejava sobre os visos de uma serra com os arrebóis da manhã e as armas polidas cintilaram em breve aos primeiros raios do sol oriental. O cavaleiro, tendo-se dado a conhecer, atravessou por entre as tendas e chegou ao pavilhão do jovem príncipe, que já se achava em conselho com o arcebispo de Braga e com outros prelados e barões.

Aí deu conta do que pudera alcançar das disposições tomadas pelo conde de Trava para a defesa, do grande número de lanças estrangeiras juntas em Guimarães, e das fortificações, acrescentadas às já tão formidáveis do castelo, e alevantadas de novo em roda do burgo.

— Mas essas torres e engenhos dizia ele não creio tenhamos de as combater, porque se diz que Fernando Peres pretende vir connosco a lide em campo; e a avultada soma de cavaleiros que se acham em Guimarães e o pequeno número de peões e besteiros são disso evidente sinal.

— E Gonçalo Mendes da Maia? interrompeu o velho aio Egas Moniz. Porque se conserva um dos mais esforçados e poderosos filhos-d'algo de Portugal entre os inimigos do infante? Viste-o? Alcançaste acaso saber quais eram seus intentos?

— Os seus intentos foram o impedir a guerra entre homens da mesma fé e da mesma linhagem: hoje a sua lança será a primeira que se enriste nessas lides que Deus quis fossem inevitáveis.

Estas palavras proferia-as um cavaleiro que afastara o reposteiro da entrada da tenda e, cruzando os braços, aí ficara parado.

Era o senhor da Maia.

O sobressalto foi geral. O trovador correu para ele e, depois de o abraçar, tomando-o pela mão o fez aproximar do infante.

— Eis aqui — disse um dos vossos mais leais ricos-homens. No momento do perigo ele não podia faltar-vos.

— Ao menos não foi por culpa do filho de Pedro Froilaz interrompeu o Lidador sorrindo. Se por inesperado meio a Virgem me não salvara, a estas horas a minha morada seria a masmorra do Castelo de Guimarães, e a minha esperança de liberdade a tumba que dentro em pouco me levaria o cadáver a soterrar na galilé do Mosteiro de D. Muma.

O súbito aparecimento de Gonçalo Mendes, e ainda mais as suas palavras, até certo ponto ininteligíveis, excitaram vivamente a curiosidade do infante e dos seus prelados e cavaleiros. O nobre barão satisfez essa curiosidade narrando, não só o que se passara no ajuntamento da cúria, mas tudo o que depois sucedera, e como o bobo o salvara e a Fr. Hilarião.

— O pobre Dom Bibas concluía ele cumpriu à risca o que prometeu. O vílico da honra e solar da Maia e os vinte cavaleiros meus acostados vieram sucessivamente ajuntar-se connosco à saída do subterrâneo. O bobo lhes deu passagem pouco a pouco, e até vi com espanto que o último me conduzia a destro o meu cavalo de batalha. Deixando os homens de armas acompanhando o virtuoso monge, adiantei-me à rédea solta em busca do arraial do meu senhor o infante, para lhe dizer: «Guimarães será vossa logo que vos aprouver!».

— Sabia que vos encaminháveis por esta parte, posto que mais longe vos supunha. Agora acrescentou voltando-se para o arcebispo —, reverendíssimo padre(*), por mercê mandai um dos vossos palafréns ou mulas de corpo, em que possa cavalgar o muito honrado abade do Mosteiro de D. Muma que, velho e trôpego, mal vencera até aqui, a pé, os montes e vales, algares e serranias.

 

[(*)”Pater reverendissime” é o tratamento dado aos bispos e arcebispos na História Compostelana e nas mais memórias daquele tempo.]

— Não terá de vir tão longe — respondeu o senhor de Cresconhe —, com o favor de Deus, espero que nós todos vamos bem depressa encontrá-lo.

O bom do aio era de opinião que sem tardança se acometesse Guimarães, e a preponderância de que gozava no conselho fazia-lhe tomar muitas vezes o seu parecer singular por uma resolução comum e definitiva.

— Por essas palavras replicou o Lidador vejo que a vossa intenção é fazer encurvar brevemente ao redor das altas muralhas de Guimarães as bestas e arcos, e as manganelas arrojarem contra os eirados das suas torres as pedras e as setas de fogo, se, o que não creio, o lobo cerval de Galiza deixar que o cerquem no covil em que veio aninhar-se neste nosso Portugal. Mas se quiserdes ouvir-me...

— Sabemos, sabemos o que nos ides dizer atalhou o arcebispo de Braga D. Paio, que, émulo do velho Egas Moniz de Riba de Douro, não perdia ocasião de mostrar a sua influência, e a capacidade política e militar de que era dotado. Com cem homens de armas e no silêncio da noite abrir-nos-eis, sem combate, senão as barreiras e portas do real castelo, ao menos o caminho dele.

Aludindo à passagem subterrânea por onde o Lidador se tinha salvado, o guerreiro prelado pronunciara com ênfase particular a palavra caminho.

— Perdoai-me, reverendíssimo padre, outro era o meu pensamento. Na escala arvorada aos muros, sob a vínea ou gato rolando para eles, nas trevas noturnas salteando de improviso pelo subterrâneo os cavaleiros do conde de Trava, ou finalmente em recontro de lide campal, estou prestes para combater a todo o transe. Mas é em nome da paz que ainda falarei uma vez...

O infante, que até então estivera calado, ouvindo os seus optimates, pôs-se em pé e, com as faces abrasadas, apertou o punho da espada e bradou:

— A paz!? Oh, isso nunca!

— A paz insistiu o Lidador com firmeza eu a pedi mil vezes na cúria da vossa mãe. Que o conde vos ceda a herança do meu senhor D. Henrique; que D. Teresa ceda ao seu nobre filho o senhorio desta terra de cavaleiros!... Que um mensageiro vá em nome do infante e dos filhos-d'algo de Portugal propor estas condições, antes de as oferecermos nas pontas das lanças. Ainda uma vez o requeiro, em que pese aos que ousarem acusar-me de desleal, porque guardo o esforço para o momento das obras, e desprezo o que se revela em feros e ameaças antes do combater.

O rico-homem olhou em roda com ar altivo. Alguns dos barões do conselho cravaram a vista no chão.

— Mas lembrai-vos atalhou Afonso Henriques de que a memória de muitos anos de opróbrio só pode derriscá-la o sangue correndo abundante em campo de lide.

— E vós, senhor, não vos esqueçais de que também nessa primeira batalha o sangue que há de correr será dos vassalos e dos peões, cujo príncipe sois: o sangue de cristãos, e não de agarenos e ismaelitas.

O infante ficou por algum tempo mudo: depois fitou os olhos no seu velho aio, que lhe fez um leve sinal de assenso.

— Seja, pois, como pretendeis — disse ele por fim ainda que tenho por certo será uma bem inútil mensagem. Ao menos meu primo el-rei de Leão, que tão contrário se nos mostra, saberá que procurei evitar a guerra.

— E quem há de ser o mensageiro? perguntou o arcebispo de Braga, D. Paio, que no gesto carrancudo dava sinais de estar mais longe do espírito do Evangelho que o duro e impetuoso Gonçalo Mendes.

A narração que fizera o Lidador convertera em certeza as desconfianças que o trovador concebera de alguém o haver conhecido na corte, apesar do seu disfarce. O coração palpitava-lhe ao lembrar-se da promessa que fizera a Dulce, e de que, ainda quando lhe restasse esperança de poder voltar a Guimarães sem cair nas mãos do feroz conde de Trava, nenhuma podia ter de salvar a sua amante: a proposição do Lidador lhe reanimou, porém, as quase mortas esperanças. Adiantando-se, pois, disse:

— Se ao ilustre infante aprouver, serei eu quem vá a Guimarães com essa mensagem. Pouparei ao conde de Trava o trabalho de por mais tempo me procurar debalde.

— Bem dito, meu colaço! bradou o infante. É de esforçado cavaleiro ir afrontar o inimigo entre os seus homens de armas; mas não consinto que vos arrisqueis de novo à cólera dos estrangeiros. Outrem irá agora no vosso lugar.

O trovador aproximou-se então de Afonso Henriques e voltando-se para os prelados e barões:

— Depois de três anos de ausência — disse com visível agitação voltei a Portugal para servir na paz ou defender na guerra o filho do meu senhor. Como o ceifeiro que abandonasse a seara quando as espigas se lhe ofereciam mais bastas e formosas, assim eu abandonei as pelejas da Terra Santa quando mais douradas esperanças me prometiam larga colheita de glória. Fi-lo por ser leal ao meu preito e à fraternidade das armas. Dizei vós se o infante de Portugal me deve por isso algum prémio.

Afonso Henriques fez sinal de silêncio estendendo a mão para o senhor de Cresconhe, que ia talvez repreender seu primo desta intempestiva pretensão, e respondeu:

— Não precisais de requerer aos filhos dos bem-nascidos que julguem vossa demanda, como é foro de Espanha. Confesso o direito que tendes, e juro que a recompensa será qual vós a pedirdes.

— Ouvistes, senhores prelados e barões? interrompeu Egas com viveza. É um juramento de infante. O galardão que peço é que me deixeis seguir esta aventura da embaixada. Não podeis já refusar-mo.

— Seja assim pois replicou o infante —, e a mãe de Deus e o santo apóstolo das Espanhas vos guardem do perigo, que voluntariamente buscais, meu bom cavaleiro.

Neste momento um pajem veio anunciar a chegada ao arraial de cem vilões da beetria de Britiande, oitenta frecheiros e vinte besteiros, cujos brados selvagens de guerra começavam a soar ao longe como um trovão rebombando no vale. O infante correu a vê-los enquanto os do conselho instruíam o trovador da forma em que devia propor sua mensagem. Ao perpassar, Afonso Henriques apertou com força a mão de Egas, e disse-lhe em voz baixa:

Egas, eu não quero perder-te! lembra-te do teu irmão de armas.

Daí a pouco tempo, o cavaleiro voltava para Guimarães, montado em mula robusta, e seguido de um pequeno pajem, que cavalgava o seu ginete de batalha, e de seis acobertados trajando saios e cervilheiras, tudo segundo o costume daquela época. Qual seria o tumulto de afetos que passavam pela alma do jovem, facilmente suporá o leitor. Todos eles se resumiam num só: o de tornar a ver Dulce. Era este o único ponto que descobria no horizonte do seu futuro, e era este unicamente que ele queria descortinar. O resto pertencia à ventura.

Entretanto nos paços de Guimarães o conde de Trava rugia de fúria e pesar. Pelo quarto de modorra fizera acometer por cem cavaleiros a pousada do Lidador e de alguns outros filhos-d'algo de Portugal, que supunha adictos ao jovem Afonso Henriques. A morada, porém, do senhor da Maia estava deserta. Sabendo tal coisa ele próprio correra ao Mosteiro de S. Salvador, ou de D. Muma, resolvido a arrancar com tormentos da boca do velho abade a revelação do lugar onde o rico-homem se escondera. Era impossível que Gonçalo Mendes houvesse escapado com os seus por meio dos vigias e roldas, e porventura Fr. Hilarião lhe dera acolheita. Com admiração dos monges e dobrado furor do conde a cela do reverendo abade estava deserta. Fernando Peres corria com olhos chamejantes as vielas estreitas e tortuosas do burgo. Na desesperação que o ralava, o seu primeiro ímpeto fora mandar decepar as cabeças a alguns simples cavaleiros que tinham sido presos, e muito a custo o generoso alferes-mor impedira este acto de inútil barbaridade. Burlado até na esperança de colher às mãos o audaz primo do senhor de Cresconhe, Egas, que ele supunha em Guimarães, e para achar o qual tinham sido vãs as mais severas pesquisas, a raiva do nobre conde de Portugal e Coimbra subira a indizível grau de violência.

O desfecho do drama, que se preparava havia tanto tempo, estava próximo: a tempestade acastelada no horizonte ia estourar enfim. Pela madrugada daquela mesma noite alguns espias chegaram trazendo a notícia da aproximação da hoste inimiga. Segundo eles diziam a sua força era principalmente de peões: os concelhos tinham armado os homens livres e os de criação ou servos que habitavam nos povoados principais e nos alfozes ou aldeolas comarcãs. Os senhores de coutos e honras tinham na verdade trazido alguns besteiros de cavalo e de pé: mas as peoadas concelheiras formavam o grosso da mesnada, e entre ricos-homens, infanções, escudeiros, cavaleiros de soldo ou acostados, e almogaures, os homens de armas eram muito menos numerosos no arraial do infante que dentro dos muros e barreiras do castelo e burgo de Guimarães.

Fora sobre este resultado da revolta que Garcia Bermudes e Fernando Peres tinham alevantado desde o princípio a máquina das suas traças guerreiras. Longe de esperarem o ser acometido atrás de muros e barbacãs, onde se lhes tornava inútil a superioridade da cavalaria, convinha-lhes acometer os contrários em campo aberto. Aí a vitória parecia segura. Naquele tempo os peões, ou infantaria, chusma indómita rude e mal armada —, era tida em nenhuma conta, e nos arrolamentos dos exércitos quase que não se contava senão com o número das lanças.

A certeza obtida enfim daquelas circunstâncias, que podiam produzir para o infante a desonra e a morte no momento em que chegava às cercanias de Guimarães no meio de sonhos de ambição e de esperanças de glória, mitigou algum tanto o furor do conde de Trava. Posto que ainda carrancudo, passeando na sala de armas rodeado dos seus cavaleiros, ele dispunha tudo para sair a campo. Pelas escadas dos paços viam-se descer e subir os pajens levando peças de armaduras lisas e polidas, outros arrastando os pesados saios e cervilheiras de camalho, tecidos de grossa malha de ferro, para se distribuírem pelos homens de armas de soldo e pelos cavaleiros peões. A signa real da bela infanta se plantara diante das barreiras; os balções variegados dos cavaleiros de solar e linhagem enfileiravam-se já após essa bandeira para um e para outro lado; e os tambores ou timbales mouriscos, adotados entre os cristãos, começavam a soar pelo burgo convocando a gente de guerra em volta dos seus pendões. Os rostos dos duros homens de armas de Galiza, Aragão e Castela, ferozmente alegres, sorriam com a esperança da festa de sangue que nesse mesmo dia porventura os aguardava.

No meio, porém, do nitrir dos cavalos, do redemoinhar do pó, do lampejar dos capelos ou elmos brunidos, do vozear dos cabos das quadrilhas, um som agudo e prolongado de buzina sobrelevou por cima de todo esse ruído. Vinha da orla do bosque vizinho do vau do Madroa, e tirava-o um cavaleiro, seguido de um pajem e seis lanças, o qual se dirigia evidentemente a Guimarães, e com aquelas toadas parecia anunciar intenções de paz. Dois almogaures saíram a reconhecê-lo; e, depois de falarem com ele poucos instantes, voltaram dizendo ser o recém-vindo um filho-d'algo que da parte do infante trazia mensagem à muito excelente rainha e ao nobre conde de Trava.

Continuar: parte 2 de 3