O Oráculo do Passado, do Presente e do Futuro (Parte 7): O Oráculo dos Astros

Prophecia

 

De um Lavrador velho e cego, da freguezia da Maia, a qual foi achada debaixo do travesseiro, depois do seu fallecimento.

Cessem todos os estrondos

Para em bella harmonia

Ouçam todos mais attentos

Esta real prophecia.

De um authentico Soberano

Distincto e inspirado

Que alem de ser Monarcha

Tambem tem prophetisado.

Cujo Soberano escreveu

A qual me mandou lêr

Do que no futuro anno

N'este reino se ha de vêr.{37}

Prophetisou que para o anno

Tudo o que fôr vegetal,

Causará terror e espanto

No reino de Portugal.

Toda a terra portugueza

Dará fructo desmarcado

Como nunca se tem visto

Desde que o mundo foi creado.

As nabiças darão grellos

Tão altos e engrumados,

Que dê mastros de navios,

E serrando-os taboados.

Cada nabo será tal

Que se o escavar por dentro

Possa dar casa bastante

Para córte d'um jumento.

Taes repolhos vereis creados

Em todos os repolhaes,

Que o menor seja bastante

P'ra pezar vinte quintaes.

Pois só as folhas de fóra

D'aquelles mais bem creados

Poderão servir de vellas

Para estender nos eirados.

As couveiras crearão

Tão altos pés e grossos;

Que d'elles se farão bombas

Para tirar agua dos poços.{38}

Vereis cebollas como pipas

Batatas como toneis

Tomates como gigas

Alhos como canistreis.

Que só os dentes dos alhos

Tão volumosos serão,

Como que fossem quartos

De aboboras ou de melão.

As pereiras darão peras

Tão grandes e tão bastas

Que uma só pera aos pedaços

Encha bem sete canastras.

Taes limões vereis creados

Nos limoeiros azedos,

Que um limão seja bastante

P'ra carregar seis gallegos.

E que nozes tão grandes

Se hão de ver pelas Nogueiras,

Que das cascas d'uma só

Se farão duas maceiras.

E do que tiver por dentro

Gostosos doces farão,

E muitas se hão de moer

Que não hão de dar mau pão.

Tambem promette abundancia

De pão trigo e centeio

Porque só cada espiga

Dará alqueire e meio.{39}

As mulheres farão fogueiras

Queimarão fuzos e rocas

Por que ha de nascer linho

Prompto já em maçarocas.

Pois só cada melancia

Tão grande ha de ser,

Que precisem de dez homens

Com pancas para a mover.

Da tona grossa e dura

Com talos tão bem creados

Que só possam ser partidos

Com alviões ou machados.

Cada videira do Douro

Tantos cachos ha de dar

Que de vinho e bagaço

Possa encher um lagar.

A cinco reis o almude

Quem quizer beberá vinho

Do melhor do Alto Douro

N'esta provincia do Minho.

No tempo que o vinho fôr

A cinco reis o almude

Muito ha de haver quem diga:

«Cá vae á sua saude.»

Velhos e velhas vereis

Dar saltinhos de contentes

Porque até terceira vez

Lhe hão de nascer novos dentes.{40}

Até os brancos cabellos

Vereis tomar novas côres,

Iguaes ás d'aquelle tempo

Em que tinham seus amores.

Os que forem corcovados

A corcova hão de perder,

Até cegos vereis com vista,

Que já não esperavam vêr.

Tudo quanto tenho dito

Afianço e asseguro,

Que se nada fôr verdade

Ha de ser mentira tudo.

D'esta forma terminou

Esta real prophecia,

Só a todos desejo

Vida, paz e alegria.{41}