O Vampiro Armand

Anne Rice · Capítulo 4 de 26

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O Vampiro Armand

Capítulo 3

Desci correndo para as salas escuras que davam para o canal. Quando voltei, encontrei-o sozinho no quarto. Lia, como sempre. Estava com o livro que ultimamente era seu preferido, Consolatio philosophiae, de Beócio, e ergueu pacientemente os olhos para me fitar quando entrei. Fiquei ali pensando em minhas dolorosas lembranças. Eu não conseguia alcançá-las. Então deixe estar. Elas corriam para o nada como as folhas nas alamedas, as folhas que às vezes caem dos pequenos jardins suspensos numa ventania e vêm descendo pelos muros verdes patinados.

— Não quero — tornei a dizer.

Só havia um Senhor Vivo. Meu Mestre.

— Algum dia isso tudo se esclarecerá para você, quando tiver força para usar isso — disse ele. Fechou o livro. — Por ora, deixe-me consolá-lo. Ah, sim, eu estava prontíssimo para isso.

3

Ah, quão longos podiam ser os dias sem ele. Quando anoitecia, eu cerrava os punhos enquanto as velas eram acesas.

Havia noites em que ele não aparecia de todo. Os rapazes diziam que ele partira em missões importantíssimas. A casa precisava funcionar como se ele estivesse presente.

Eu dormia em sua cama vazia, e ninguém me perguntava nada. Vasculhava a casa à procura de qualquer pista pessoal dele. Perguntas me atormentavam. Eu temia que ele jamais voltasse.

Mas ele sempre voltava.

Quando subia as escadas, eu corria para seus braços. Ele me segurava, me abraçava, me beijava e só então deixava que eu caísse suavemente de encontro a seu peito duro. Meu peso não era nada para ele, embora parecesse que dia a dia eu crescia e ganhava peso.

Eu nunca seria outra coisa senão o rapaz de dezessete anos que você está vendo agora, mas como podia um homem tão esguio como ele me levantar com tanta facilidade?

Não sou um menor abandonado nem nunca serei. Sou uma criança forte. Eu gostava mais — se eu tivesse que partilhar com os outros — quando ele lia para nós em voz alta.

Cercando-se de candelabros, ele falava com uma voz contida e simpática. Lia a Divina comédia de Dante, o Decameron de Boccaccio, ou, em francês, o Roman de la Rose ou os poemas de François Villon. Falava as línguas novas que precisávamos entender tão bem como entendíamos grego e latim. Alertou-nos que a literatura não se confinaria mais às obras clássicas.

Ficávamos calados, sentados em volta dele em almofadas ou no chão nu. Alguns ficavam de pé ao lado dele. Outros sentavam-se descansando nos calcanhares.

Às vezes, Riccardo tocava alaúde para nós e cantava aquelas melodias que aprendera com o professor, ou mesmo as músicas irreverentes que aprendia na rua. Cantava pesarosamente canções de amor e nos fazia chorar com isso. O Mestre observava-o com olhos amorosos.

Eu não sentia ciúme. Só eu partilhava a cama do Mestre.

Às vezes, ele até fazia Riccardo sentar-se do lado de fora do quarto e tocar para nós. O obediente Riccardo nunca pedia para entrar.

Meu coração disparava quando as cortinas se fechavam em volta de nós. O Mestre abria minha túnica, às vezes até rasgando-a de brincadeira, como se ela não passasse de uma peça jogada fora.

Eu afundava na colcha de cetim embaixo dele; abria as pernas e deixava os joelhos acariciarem-no, entorpecido e vibrando com o roçar de seus dedos em minha boca.

Certa vez, eu estava quase dormindo. O ar tinha um tom róseo e dourado. O quarto estava quente. Senti seus lábios nos meu e seu língua frio penetrar como língua de cobra em minha boca. Um líquido encheu-me a boca, um néctar saboroso e ardente, uma poção tão fina que a senti percorrer meu corpo até a pontinha dos dedos. Senti essa poção descendo-me pelo torso e entrando em minhas partes mais íntimas. Eu ardia. Ardia.

— Mestre — murmurei. — O que é esse truque agora que é mais doce que os beijos?

Ele deitou a cabeça na almofada. Virou-se para o outro lado.

— Dê-me isso de novo, Mestre — pedi.

Ele deu, mas só quando quis, em gotas, e com lágrimas vermelhas que de vez em quando ele deixava que eu lhe lambesse dos olhos.

Acho que um ano inteiro se passou antes que eu voltasse para casa uma noite, afogueado com o ar do inverno, vestido com minha melhor roupa azul-escura para ele, com meias azul-celeste e os mais caros sapatos de esmalte dourado que eu poderia encontrar no mundo, um ano antes de eu entrar naquela noite e atirar meu livro no canto do quarto com um grande gesto de enfado, pondo as mãos na cintura e fuzilando-o com os olhos, enquanto ele, sentado em sua cadeira de espaldar alto, olhava as brasas no braseiro, colocando as mãos sobre as brasas, observando as chamas.

— Pois bem — falei arrogante, com a cabeça para trás, o próprio homem do mundo, um veneziano sofisticado, um príncipe no mercado com toda uma corte de mercadores para atendê-lo, um erudito que lera demais. — Pois bem continuei. — Há um grande mistério aqui e você sabe disso. Está na hora de me contar.

— O quê? — perguntou ele com amabilidade suficiente.

— Por que você nunca... Por que nunca sente nada! Por que lida comigo como se eu fosse uma boneca? Por que nunca...?

Pela primeira vez, vi seu rosto corar; vi seus olhos brilharem e se apertarem e depois se arregalarem com lágrimas avermelhadas. — Mestre, você me assusta — murmurei.

— O que quer que eu sinta, Amadeo? — perguntou ele.

— Você, Mestre, parece um anjo ou uma estátua — disse eu, só que agora eu estava mais manso e trêmulo. — Mestre, você brinca comigo e eu sou o brinquedo que sente tudo. — Aproximei-me. Toquei na camisa dele, procurei desatá-la.

— Deixe-me...

Ele pegou minha mão. Pegou meus dedos e levou-os aos lábios e enfiou-os na boca, afagando-os com a língua. Ergueu os olhos e ficou me olhando. Bastante diziam seus olhos. Sinto bastante.

— Eu lhe daria qualquer coisa — disse eu em tom de súplica. Pus a mão entre suas pernas. Ah, ele estava maravilhosamente duro. Isso não era incomum, mas ele precisava me deixar levá-lo mais longe; precisava confiar em mim.

— Amadeo — disse ele.

Com aquela força inexplicável, ele me levou para a cama. Mal se poderia dizer que ele havia se levantado da cadeira. Parecia que estávamos ali e de repente estávamos em meio às nossas almofadas conhecidas. Pisquei. Parecia que as cortinas se haviam fechado em volta de nós sem que ele tivesse tocado nelas, algum truque da brisa que entrava pelas janelas. Sim, ouça as vozes do canal lá embaixo. Como o que se canta na rua sobe pelas paredes em Veneza, a cidade dos palácios!

— Amadeo — disse ele, os lábios em minha garganta como haviam estado mil vezes, só que agora senti uma pontada, aguda, rápida. Um fio pregado em meu coração foi subitamente puxado. Virara a coisa entre as minhas pernas, e nada mais que isso. Sua boca se aninhou contra a minha, e aquele fio arrebentou de novo, e de novo. Sonhei, acho que vi outro lugar. Acho que vi as revelações que eu sentia dormindo e que nunca permaneciam quando eu acordava. Acho que segui uma trilha para esses jorros de fantasia que eu conhecia dormindo e apenas dormindo. Isso é o que quero de você.

— E você precisa ter isso — disse eu, palavras impulsionadas para o presente quase esquecido enquanto eu flutuava encostado nele, sentindo-o tremer, sentindo-o eletrizado com isso, sentindo-o estremecer, sentindo-o puxar esses fios de dentro de mim, acelerando meu coração e quase me fazendo gritar, sentindo-o adorar isso, e retesar as costas e deixar seus dedos tremerem e dançarem enquanto ele se contorcia contra mim. Beba, beba, beba.

Ele se desvencilhou e deitou de lado.

Sorri deitado de olhos fechados. Senti meus lábios. Senti uma gotícula do néctar ainda grudada em meu lábio, e minha língua foi buscá-la e sonhei.

Sua respiração era pesada e ele estava melancólico. Ainda tremia, e, quando encontrou-me, sua mão estava instável.

— Ah — disse eu ainda sorrindo e beijando-lhe o ombro.

— Eu o magôo! — disse ele.

— Não, absolutamente, doce Mestre — respondi. — Mas eu o magôo! Eu o tenho agora!

— Amadeo, você banca o diabo.

— Não quer que eu banque, Mestre? Não gostou disso? Tirou o meu sangue e isso o transformou em meu escravo!

Ele riu.

— Então esse é o efeito que você coloca nisso, não é?

— Humm. Me ame. O que importa? — perguntei.

— Nunca conte aos outros — disse ele. Não havia medo nem fraqueza nem vergonha nesse pedido.

Virei-me, erguendo-me nos cotovelos e olhei para ele, para seu perfil calmo voltado para o outro lado.

— O que eles fariam?

— Nada — respondeu ele. — É o que eles iriam pensar e sentir que importa. E não tenho tempo nem lugar para isso. — Olhou para mim. — Seja misericordioso e sábio, Amadeo.

Durante um bom tempo, fiquei calado. Apenas olhava para ele. Só aos poucos percebi que estava assustado. Por um instante pareceu que o medo obliteraria o calor do momento, a glória macia da luz radiosa aumentando nas cortinas, de planos reluzentes em seu rosto ebúrneo, a doçura de seu sorriso. Então uma preocupação mais elevada e mais grave anulou o medo.

— Você não é absolutamente meu escravo, é? — murmurei.

— Sou — disse ele quase rindo de novo. — Sou, se você precisa saber.

— O que aconteceu, o que você fez, o que foi que...

Ele encostou o dedo em meus lábios.

— Você acha que sou igual aos outros homens? — perguntou.

— Não — respondi, mas o medo subiu na palavra e estrangulou a ferida. Tentei me deter, mas, antes que conseguisse fazê-lo, abracei-o e tentei apertar o rosto contra seu pescoço. Ele era duro demais para essas coisas, embora pegasse minha cabeça e a beijasse no alto, embora me puxasse o cabelo para trás e afundasse o polegar em meu rosto. — Quero que algum dia você saia daqui — disse ele. — Quero que vá embora. Você levará bens materiais e tudo o que eu tiver podido lhe ensinar. Levará sua graça e as muitas artes que aprendeu, a realidade de saber pintar, tocar qualquer música que eu lhe pedir, se já souber fazer, de saber dançar tão maravilhosamente. Você levará essas realizações com você e sairá em busca daquelas coisas preciosas de que deseja.

— Só quero você.

— E quando se lembrar dessa época, quando, à noite, estando semi-acordado e, deitado no travesseiro de olhos fechados, pensar em mim, esses nossos momentos parecerão corrompidos e estranhíssimos. Parecerão bruxaria e as palhaçadas dos loucos, e este quarto aconchegante talvez se torne a câmara perdida de segredos obscuros e isso poderá lhe trazer sofrimento.

— Não irei.

— Lembre-se então de que isso era amor — disse ele. — Que isso era mesmo a escola do amor na qual você curou suas feridas, na qual aprendeu a falar novamente, sim, até a cantar, e na qual nasceu da criança arrasada como se ela fosse apenas uma casca de ovo, e você, o anjo, saindo dele e subindo com asas grandes e fortes.

— E se eu nunca for embora por livre e espontânea vontade? Você me jogaria de uma janela para eu ter que voar ou cair? Fechará todas as portas depois que eu passar? É melhor fechar, porque vou bater até cair morto. Não quero ter asas que me afastem de você.

Ele me estudou por um tempo longuíssimo. Eu jamais fora olhado com um prazer tão ininterrupto da parte dele, e ele nunca havia deixado meus dedos curiosos tocarem em sua boca por tanto tempo.

Finalmente ele se levantou a meu lado e delicadamente forçou-me para baixo. Seus lábios, sempre levemente rosados como o miolo das pétalas das rosas brancas, foram ficando vermelhos enquanto eu olhava. Era uma reluzente linha vermelha correndo entre seus lábios e irrigando todos os finos veios de que eram feitos os lábios, colorindo-os na perfeição, como o vinho poderia colorir, só que esse fluido era tão brilhante que seus lábios tremeluziam, e, quando ele os abria, o vermelho explodia como se fosse uma língua enroscada.

Minha cabeça foi erguida. Peguei aquilo com minha própria boca. O mundo fugiu-me dos pés. Adernei e fiquei à deriva, abri os olhos e não vi nada quando ele fechou a boca sobre a minha.

— Mestre, eu morro com isso! — murmurei. Agitei-me embaixo dele, procurando encontrar um lugar firme nesse vazio intoxicante e indistinto. Meu corpo se debatia e rolava com prazer, meu membros se retesando e depois flutuando, meu corpo inteiro saindo dele, de seus lábios, através de meus lábios, meu corpo, o próprio mesmo e o suspiro do Mestre.

Veio a pontada, veio a lâmina, incomensuravelmente minúscula e afiada, perfurando minha alma. Contorci-me como se tivesse sido trespassado por um espeto. Ah, isso poderia ensinar aos deuses do amor o que era amor. Isso era a minha libertação se eu conseguisse apenas sobreviver. Cego e trêmulo, fui unido a ele. Senti sua mão tapar-me a boca, e só então detive meus gritos abafados.

Segurei seu pescoço, estreitando-o contra minha garganta com toda a força — Faça, faça!

Quando acordei, era dia claro.

Ele havia ido embora há muito, como sempre fazia. Fiquei deitado sozinho. Os rapazes ainda não haviam chegado.

Levantei da cama e fui até a janela alta e estreita, o tipo de janela que há em toda parte em Veneza, isolando a canícula do verão e os ventos gélidos do Adriático quando inevitavelmente chegam.

Abri as grossas vidraças e olhei para os muros em frente àquele meu refúgio seguro como tantas vezes fizera.

Uma criada sacudia o esfregão em um balcão distante lá em cima. Do outro lado do canal, eu a observava. Seu rosto parecia lívido e infestado de alguma coisa, como se ela estivesse coberta de minúsculos seres vivos, uma agitação de formigas. Ela não sabia! Apoiei as mãos no parapeito e olhei mais atentamente. Era apenas a vida dentro dela, o trabalho da carne dentro dela que fazia a máscara de seu rosto parecer que se movia. Mas suas mãos pareciam horrendas, nodosas e inchadas, e o pó de sua vassoura fixando cada ruga.

Sacudi a cabeça. Ela estava longe demais para que eu fizesse essas observações.

Num aposento distante, os rapazes conversavam. Hora de trabalhar. Hora de levantar, mesmo no palácio do Senhor da noite que nunca aparece de dia. Longe demais para eu os ouvir.

E esse veludo agora, essa cortina feita com o tecido preferido do Mestre, parecia pele, não veludo, eu via cada fibrazinha. Larguei-a. Fui procurar o espelho. A casa tinha dezenas de grandes espelhos trabalhados, todos com molduras elaboradas e repletas de minúsculos querubins. Achei o espelho alto da ante-sala, a alcova atrás de portas empenadas porém lindamente pintadas onde eu guardava minhas roupas. A luz da janela me seguiu. Eu me vi. Mas eu não era uma massa fervilhante e podre, como aquela mulher parecia. Meu rosto era liso como o de um bebê e imaculadamente branco.

— Eu quero aquilo! — murmurei. Eu sabia.

— Não — ele me disse.

Isso foi quando ele veio naquela noite. Esbravejei, fiquei andando de um lado para o outro e gritei com ele.

Ele não me deu explicações longas, nem feitiçaria nem ciência, ambas as quais seriam facílimas para ele. Só me disse que eu ainda era criança, e havia coisas a serem saboreadas que ficariam perdidas para sempre.

Chorei. Eu não queria trabalhar nem pintar nem estudar nem fazer nada nesse mundo.

— Isso perdeu o sabor por algum tempo — disse ele paciente. — Mas você vai ficar surpreso.

— Com o quê?

— Com o quanto há de lamentar quando tiver acabado completamente, quando você for perfeito e imutável como eu e todos aqueles erros humanos puderem ser triunfantemente suplantados por uma série nova e mais assombrosa de falhas. Não peça isso de novo.

Eu teria achado melhor morrer então, com ódio, furioso e amargurado demais para falar.

Mas ele não terminara.

— Amadeo — disse ele, a voz carregada de tristeza. — Não diga nada. Não precisa. Eu lhe darei isso imediatamente quando achar que chegou a hora. Diante disso, corri para ele como uma criança, atirando-me em seu pescoço, dando mil beijos em seu rosto gelado apesar de seu sorriso de desdém.

Afinal suas mãos ficaram como se fossem de ferro. Não haveria brincadeira de sangue nessa noite. Eu precisava estudar. Precisava recuperar as lições que eu desprezara de dia.

Ele tinha de cuidar dos aprendizes, das tarefas deles, da imensa tela em que andava trabalhando, e eu obedeci.

Mas, bem antes do amanhecer, vi que ele mudou. Os outros já tinham ido há muito tempo para a cama. Eu folheava um livro obedientemente quando o vi olhando de sua cadeira com um olhar fixo, animalesco, como se um rapinante tivesse entrado dentro dele e expulsado todas as suas faculdades civilizadas, deixando-o assim, faminto, de olhos vidrados e boca avermelhada, o sangue fúlgido encontrando seus milhares de trilhazinhas pelas margens aveludadas de seus lábios.

Ele se levantou, uma coisa drogada, e veio em minha direção com um ritmo de movimentos estranhos e infundiu o terror mais glacial em meu coração. Seus dedos faiscaram, fecharam-se, chamaram.

Corri para ele. Ele me ergueu com ambas as mãos, segurando meus braços com a maior delicadeza, e mordeu-me o pescoço. Da sola dos pés, subindo-me pelas costas, pelos braços, pelo pescoço e pelo couro cabeludo, senti.

Onde ele me atirou, não sei. Seria em nossa cama ou em almofadas improvisadas que ele encontrou em outro salão mais próximo?

— Me dê-pedi, sonolento, e, quando aquilo me entrou na boca, eu estava inconsciente.

Ele disse que eu precisava ir aos bordéis, aprender o que significava copular direito — não apenas de brincadeira como fazíamos entre os rapazes.

Veneza tinha muitas dessas casas, muito bem dirigidas e dedicadas ao prazer com o ambiente mais luxuoso. Defendia-se firmemente que tais prazeres eram pouco mais que pecados veniais aos olhos do Cristo, e os rapazes elegantes freqüentavam estes estabelecimentos abertamente. Eu conhecia uma casa de mulheres particularmente refinadas e talentosas, onde havia beldades muito altas, viçosas, de olhos muito claros do norte da Europa, algumas cujos cabelos louros eram quase brancos, consideradas de certa forma diferentes das italianas mais baixas que víamos todo dia. Não sabia que a diferença fosse algo tão prioritário para mim, pois já me deslumbrara com a beleza de rapazes e mulheres italianos desde que chegara. Moças venezianas de pescoço de cisne com elegantes toucados almofadados com fartos véus transparentes eram quase irresistíveis para mim. Mas então o bordel tinha todas as qualidades de mulheres, e o principal era montar tantas quantas eu pudesse.

Meu Mestre me levou a essa casa, pagou para mim, uma fortuna em ducados, e disse à viçosa e encantadora amante que viria me pegar dentro de alguns dias.

Dias!

Fiquei branco de ciúme e ardendo de curiosidade ao vê-lo partir a figura majestosa de sempre com aquelas vestes carmins, entrando na gôndola e dirigindo-me uma piscadela esperta quando o barco o levou. Acabei ficando três dias na casa das mulheres mais voluptuosas disponíveis em Veneza, acordando tarde, comparando pele cor de oliva com pele clara e me regalando em examinar despreocupadamente os pêlos inferiores de todas as belezas, distinguindo os mais sedosos dos grossos e mais enroscados.

Aprendi pequenas sutilezas de prazer, tais como quão doce era ter os mamilos mordidos (de leve, e elas não eram vampiras) e ter os pêlos das axilas, que em mim eram escassos, puxados afetuosamente nos momentos apropriados. Mel dourado era passado em minhas partes baixas só para ser lambido por anjos risonhos.

Havia mais truques íntimos, naturalmente, incluindo atos bestiais que, estritamente falando, eram crimes mas que nessa casa eram simplesmente equipamentos variados a mais para festins sadios e atormentadores. Tudo era feito com graça, os fumegantes banhos perfumados eram trazidos com freqüência em grandes tinas de madeira, flores boiando na superfície da água tingida de rosa, e eu às vezes ficava deitado à mercê de um bando de mulheres de voz macia arrulhando para mim como passarinhos nos beirais, lambendo-me como gatinhos e me fazendo cachinhos no cabelo. Eu era o pequeno Ganimedes de Zeus, um anjo caído dos quadros mais obscenos de Botticelli (muitos dos quais, aliás, estavam neste bordel, depois de resgatados da “Fogueira das Vaidades” erguida em Florença pelo rígido reformador Savonarola, que instara com o grande Botticelli para simplesmente... queimar seu belo trabalho!), um pequeno querubim caído do teto da catedral, um príncipe veneziano (figura que tecnicamente não havia na República) enviado às mãos delas pelos inimigos para que elas o deixassem inutilizado de tanto desejo.

Meu desejo ficou mais quente. Se a pessoa tivesse que ser humana para o resto da vida, isso era divertidíssimo, cair entre almofadas turcas com ninfas daquelas que a maioria dos homens apenas vislumbra em sonhos em florestas mágicas. Cada fenda macia era um invólucro novo e exótico para meu espírito brincalhão.

O vinho era delicioso, e a comida, uma maravilha, incluindo pratos doces e picantes dos árabes, e era bem mais extravagante e exótica que a servida na casa do Mestre. (Quando lhe contei, ele contratou quatro chefs novos.)

Aparentemente, eu não estava acordado quando o Mestre veio buscar-me, e levou-me não sei como para casa, daquele seu jeito misterioso e infalível, e encontrei-me de novo em minha cama.

Eu sabia que era só ele que eu queria quando abri os olhos. E parecia que os repastos sensuais dos últimos dias só me deixaram mais faminto, mais inflamado e mais ansioso para ver se seu corpo branco e encantado reagiria aos truques mais ternos que eu aprendera. Atirei-me nele quando ele finalmente apareceu atrás das cortinas, e afrouxei-lhe a camisa e chupei-lhe os mamilos, descobrindo que, apesar de brancos e frios, eram macios e estavam intimamente ligados de uma forma aparentemente normal à raiz de seus desejos.

Ele ficou ali deitado, gracioso e calado, deixando-me brincar com ele como minhas professoras haviam brincado comigo. Quando finalmente me deu os beijos sanguinolentos, todas as lembranças de contato humano foram obliteradas, e fiquei deitado em seus braços, incapaz de qualquer outra coisa, como sempre. Parecia que nosso mundo então não era meramente um mundo da carne, mas de um encanto mútuo ao qual todas as leis naturais cediam.

Na segunda noite, antes do amanhecer, fui procurá-lo no estúdio onde ele pintava os aprendizes dormindo espalhados como os apóstolos infiéis no Getsêmani.

Ele não pararia por causa de minhas perguntas. Coloquei-me atrás dele, envolvi-o com os braços e, nas pontas dos pés, perguntei-lhe baixinho no ouvido.

— Diga, Mestre, precisa dizer-me, como ganhou esse sangue mágico? mordi-lhe as orelhas e afaguei-lhe os cabelos. Ele não parava de pintar. — Você nasceu assim, estarei errado ao supor que foi transformado...

— Pare com isso, Amadeo — murmurou ele, e continuou pintando. Trabalhava furiosamente no rosto de Aristóteles, o homem idoso barbado e de calva incipiente daquele enorme quadro, A academia.

— Mestre, existe em você uma solidão que o leve a mandar qualquer pessoa ter um amigo de seu próprio feitio, confiar seu coração a alguém capaz de compreender?

Ele se virou, espantado pela primeira vez com minhas perguntas. — E você, anjinho mimado — replicou, baixando a voz para mantê-la delicada-, acha que pode ser esse amigo? Você é inocente! Será inocente a vida inteira. Tem coração de inocente. Recusa-se a aceitar a verdade que não corresponda a uma fé arraigada que sempre faz de você o mongezinho, o acólito...

Recuei, mais irritado do que nunca com ele.

— Não, eu não serei uma coisa dessas! — declarei. — Já sou um homem na pele de um garoto, e você sabe disso. Quem mais sonha com o que você é, e com a alquimia de seus poderes? Quem me dera tirar uma taça de seu sangue e estudá-lo como os médicos estudariam e determinar a composição dele e como é diferente do fluido que corre em minhas veias! Sou seu pupilo, sim, seu aluno, sim, mas, para isso, preciso ser homem. Quando toleraria a inocência? Quando dormimos juntos, chama isso de inocência? Sou um homem.

Ele estourou numa gargalhada espantadíssima. Era uma delícia vê-lo tão surpreso.

— Conte-me seu segredo — pedi. Abracei seu pescoço e encostei a cabeça em seu ombro. — Existiu uma Mãe tão branca e forte como você que o tenha parido, a carregadora de Deus, de seu ventre celestial?

Ele pegou meus braços e afastou-me dele, para poder me beijar, e sua boca foi insistente e assustou-me por um momento. Depois, essa boca passeou por minha garganta, chupando minha carne e enfraquecendo-me, e deixando-me sinceramente disposto a ser qualquer coisa que ele quisesse.

— Da lua e das estrelas, sim, sou feito, dessa brancura soberana que é a substância das nuvens e da inocência — disse ele. — Mas mãe nenhuma me pariu, você sabe que é assim. Já fui homem, um homem envelhecendo. Olhe... — levantou meu rosto com as duas mãos e me fez estudar o seu. — Você está vendo aqui vestígios das rugas de velhice que já tive, aqui no canto dos olhos.

— Não é nada — murmurei, pensando em consolá-lo se essa imperfeição o perturbasse. Ele refulgia em seu esplendor, sua maciez lustrosa. As expressões mais simples faiscavam em seu rosto incandescente. Imagine uma figura de gelo, feita com tanta perfeição quanto a Galatéia de Pigmaleão, jogada no fogo, e chiando, e derretendo, e, no entanto, as feições maravilhosamente intactas ainda... bem, assim era meu Mestre quando emoções humanas o contaminavam, como agora. Ele amassou meus braços deliciosamente e tornou a beijar-me. — Homenzinho, boneco, elfo — murmurou. — Você continuaria eternamente assim? Já não se deitou comigo o bastante para saber o que posso e o que não posso gozar?

Eu o conquistei, mantive-o cativo durante a hora que precedeu sua partida. Mas na noite seguinte ele me despachou para uma casa de prazer mais clandestina e ainda mais suntuosa, uma casa que mantinha apenas garotinhos para as paixões alheias.

Era organizada à moda oriental, e acho que misturava os luxos do Egito com os da Babilônia, suas pequenas celas de treliça dourada e colunetas de latão cravejado de lápis-lazúli prendendo os panos dos tetos sobre divãs de madeira dourada ornados com borlas e forrados de damasco por baixo. O ar era impregnado de incenso, e a iluminação era fraca e calma.

Os rapazes nus, bem alimentados, núbeis e.de membros roliços eram ávidos, fortes, tenazes e colocavam nos jogos seus próprios desejos másculos e incontidos. Parecia que minha alma era um pêndulo oscilando entre o prazer sincero da conquista e o desfalecimento da entrega a membros e vontades mais fortes, e a mãos mais fortes que me jogavam ternamente de um lado para o outro. Cativo entre dois amantes hábeis e determinados, fui perfurado e amamentado, socado e esvaziado até dormir mais profundamente que nunca sem a magia do Mestre em casa. Isso era só o começo.

Em algum momento em meu sonho embriagado, acordei e me vi cercado de seres que não pareciam masculinos nem femininos. Só dois deles eram eunucos, operados com tanta habilidade que podiam erguer suas armas de confiança tão bem quanto qualquer rapaz. Os outros simplesmente partilhavam o gosto de seus companheiros por tinta. Todos tinham olhos delineados de preto e sombreados de púrpura, com cílios revirados e endurecidos para conferir à sua expressão um alheamento sinistro e insondável. Seus lábios pintados pareciam mais fortes que lábios de mulher e mais exigentes, empurrando-me em seus beijos como se o elemento masculino que lhes dera músculos e órgãos duros também lhes tivesse dado uma virilidade até na boca. Eles tinham sorriso de anjo. Anéis dourados enfeitavam seus mamilos. Seus pêlos de baixo eram polvilhados de ouro. Não protestei quando me dominaram. Eu não temia extremos, e até os deixei amarrar meus pulsos e meus tornozelos à cama, para que pudessem melhor exercer seu ofício.

Era impossível temê-los. Fui crucificado com prazer. Seus dedos insistentes nem me deixavam fechar os olhos. Acariciavam-me as pálpebras, forçavam-me a olhar. Eles passavam pincéis grossos em meus membros. Esfregavam-me com óleos. Chupavam sem parar, como se fosse néctar, a seiva ardente que eu expelia, até eu gritar em vão que não conseguia expelir mais. Por diversão, contabilizaram minhas “pequenas mortes”, e fui virado e algemado e preso enquanto caía num sono extático.

Quando acordei, não sabia o que era hora nem preocupação. A densa fumaça de um cachimbo entrou-me pelas narinas. Aspirei-a, saboreando o cheiro forte e familiar do haxixe.

Passei quatro noites ali. De novo, fui despachado.

Dessa vez, acordei grogue, coberto apenas com uma camisa de seda creme fina e rasgada. Estava deitado num divã trazido do bordel mesmo, mas aqui era o estúdio do Mestre, e lá estava ele, sentado ali perto, pintando meu retrato, obviamente, num pequeno cavalete do qual só tirava os olhos para olhar rapidamente para mim.

Perguntei as horas e que noite era aquela. Ele não respondeu.

— Então você está zangado por eu ter gostado? — perguntei.

— Mandei-o ficar quieto — respondeu.

Recostei-me, cheio de frio, e subitamente magoado, sozinho, talvez, e querendo infantilmente esconder-me em seus braços.

Amanheceu e ele me deixou, sem dizer mais nada. O quadro era uma obra-prima de obscenidade. Eu estava em posição de dormir na margem de um rio, um fauno medíocre, que um pastor alto, o Mestre em pessoa, em vestes sacerdotais vigiava. O bosque à nossa volta era denso e ricamente executado com árvores de tronco descascado e folhagem empoeirada. A água do regato parecia molhada ao toque, tão inteligente era o realismo da pintura, e minha própria figura parecia ingênua e profundamente adormecida, minha boca semi-aberta numa expressão natural, meu cenho visivelmente perturbado por sonhos desagradáveis.

Atirei o quadro no chão, furioso, querendo borrá-lo.

Por que ele não havia dito nada? Por que me obrigava a ter essas aulas que nos afastavam? Por que ficava com raiva de mim só por eu ter feito o que ele mandara? Fiquei imaginando se os bordéis seriam um teste para minha inocência, e se suas admoestações para que eu gozasse tudo seriam mentiras.

Sentei-me em sua escrivaninha, peguei sua pena e escrevi uma mensagem para ele.

“Você é o Mestre. Deve saber de tudo. É insuportável ser governado por alguém que não sabe. Limpe o caminho, pastor, ou deponha seu bastão.” O fato era que eu havia sido arrancado do prazer, da bebida, da distorção de meus sentidos, e estava sozinho só para estar com ele e para sua orientação e bondade e para tranqüilizá-lo de que eu lhe pertencia.

Mas ele se fora.

Saí para passear. Passei o dia inteiro nas tavernas, bebendo,jogando cartas, deliberadamente atraindo as moças bonitas que a isso se prestavam, para mantê-las a meu lado enquanto eu jogava os vários jogos de azar.

Então anoiteceu. Deixei-me seduzir, sem graça, por um inglês bêbado, um nobre claro e sardento com antiqüíssimos títulos franceses e ingleses, um dos quais era Marquês de Harlech, em viagem pela Itália para ver as grandes maravilhas, e absolutamente inebriado com suas muitas delícias, entre elas a prática da sodomia numa terra estranha. Naturalmente, ele me achou lindo. Todo mundo não achava? Ele mesmo não era nada feio. Até suas sardas tinham um certo encanto, especialmente dado seu escandaloso cabelo cor de cobre.

Ele me levou a seus aposentos num belo palácio supermobiliado e fez amor comigo. Não foi de todo ruim. Gostei de sua inocência e sua falta de jeito. Seus olhos azuis-claros e redondos eram uma maravilha; ele tinha uns braços incrivelmente grossos e musculosos e uma barba ruiva tratada mas deliciosamente áspera. Escreveu poemas para mim em latim e francês e declamou-os com um grande encanto. Após uma ou duas horas fazendo o papel do dominador selvagem, ele revelou que desejava que eu o cobrisse. E disso, gostou muito. Assim brincamos depois, eu sendo o soldado conquistador, e ele, a vítima no campo de batalha, e às vezes eu o chicoteava de leve com um cinturão de couro antes de tomá-lo, o que nos deixava espumando bastante. De vez em quando ele implorava que eu confessasse quem eu realmente era e onde ele poderia encontrar-me depois, o que, evidentemente, eu não iria fazer. Fiquei lá três noites com ele, conversando sobre as ilhas misteriosas da Inglaterra e lendo em voz alta para ele poemas italianos, e até tocando de vez em quando bandolim para ele e cantando todas as meigas canções de amor que eu sabia.

Ele me ensinou bastante inglês de baixo calão e quis levar-me para casa. Precisava botar a cabeça no lugar, disse; precisava voltar às suas responsabilidades, suas propriedades, sua mulher escocesa odiosa, perversa e adúltera cujo pai era um assassino, e a seu filhinho inocente de cuja paternidade ele tinha certeza, por causa do cabelo ruivo encaracolado tão parecido com o dele.

Ele me sustentaria em Londres numa casa deslumbrante de sua propriedade, um presente de Sua Majestade o Rei Henrique VII. Agora não conseguiria viver sem mim, os Harlech tinham de ter o que precisavam ter, e só me restava ceder a ele. Se eu fosse filho de um nobre importantíssimo, eu deveria confessar, e alguém cuidaria desse empecilho. Por acaso eu odiava meu pai? O dele era um patife, todos os Harlech eram e tinham sido patifes desde a época de Eduardo, o Confessor. Deixaríamos Veneza naquela noite mesmo.

— Eu não conheço Veneza e você não conhece a nobreza veneziana — disse eu indulgente. — Pense nisso tudo. Você seria esquartejado por tentar fazer isso.

Agora eu estava vendo que ele era bastante jovem. Já que todos os homens mais velhos me pareciam velhos, eu não tinha pensado nisso antes. Ele não deveria ter mais de vinte e cinco anos. E também era louco. Deu um pulo na cama, aquele cabelo cor de cobre esvoaçando, e sacou um punhal, um formidável estilete italiano, e ficou me encarando de cima. — E então o que você vai querer? — perguntei.

Ouviu-se um estalo atrás dele. Tive certeza de que havia alguém do lado de fora daquelas janelas de madeira fechadas, embora estivéssemos três andares acima do Grande Canal. Eu lhe disse isso. Ele acreditou. — Sou de uma família de animais assassinos — menti. — Eles irão atrás de você até o fim do mundo se pensar em me levar daqui; não deixarão pedra sobre pedra em seus castelos, cortarão você ao meio e arrancarão sua língua e suas partes íntimas, que eles mandarão para seu rei num embrulho de veludo. Agora acalme-se.

— Ah, seu demoniozinho esperto e atrevido-disse ele-, você parece um anjo e discursa como um taverneiro com essa voz máscula doce e aveludada.

— Sou, assim mesmo — disse eu alegre.

Levantei-me, vesti-me às pressas, avisei-lhe que não me matasse já, pois eu voltaria tão logo pudesse, desejando estar só com ele, e, dando-lhe um beijo apressado, dirigi-me à porta.

Ele vacilava na cama, ainda com o punhal na mão. As plumas haviam pousado em sua cabeça cor de cenoura, seus ombros e sua barba. Ele parecia realmente perigoso.

Perdi a conta das noites em que estive ausente.

Eu não consegui encontrar igrejas abertas. Queria companhia.

Estava escuro e frio. Soara o toque de recolher. Obviamente o inverno veneziano me parecia ameno depois das terras nevadas do norte, onde nasci, mas assim mesmo era um inverno úmido e opressivo, e, embora purificada por brisas, a cidade era inóspita e de uma quietude que não era natural. O céu ilimitado desaparecia em densos nevoeiros. As próprias pedras exalavam a friagem, como se fossem blocos de gelo. Numa escada de água, sentei-me, sem me importar que a escada estivesse brutalmente molhada, e caí em prantos. O que eu aprendera com tudo isso? Senti-me sofisticadíssimo com essa educação. Mas isso não me alegrava, e parecia que minha solidão era pior que a culpa, pior que a sensação de estar condenado.

Na verdade, parece que a solidão substituía aquela velha sensação. Eu tinha medo de estar absolutamente só. Sentado ali, olhando para a nesga de Paraíso negro, para as poucas estrelas vagando acima das casas, senti como seria terrível perder simultaneamente o Mestre e a culpa, ser expulso para um lugar onde nada se desse ao trabalho de me amar ou de me condenar, estar perdido e vagando pelo mundo só tendo como companheiros aqueles humanos, aqueles rapazes e aquelas moças, o lorde inglês com seu punhal, até minha amada Bianca. Foi à casa dela que fui. Meti-me embaixo de sua cama, como havia feito no passado, e dali não sairia. Ela estava cuidando de um bando de ingleses, mas felizmente não de meu amante ruivo, que sem dúvida continuava tropeçando nas plumas . Pensei: bem, se aparecer, meu simpático lorde Harlech não fará papel de idiota para se arriscar a passar vergonha diante de seus conterrâneos. Ela entrou, linda com aquele vestido de seda violeta com uma fortuna em pérolas radiosas no pescoço. Ajoelhou e aproximou a cabeça da minha.

— Amadeo, o que houve com você?

Eu nunca havia pedido seus favores. Que eu soubesse, ninguém fazia uma coisa dessas. Mas naquele meu frenesi adolescente, nada parecia mais adequado do que eu devastá-la.

Saí de baixo da cama e fui fechar as portas, para que o burburinho de seus convidados nos deixassem em paz.

Quando me virei, ela se ajoelhou, olhando para mim, o cenho franzido e os aveludados lábios entreabertos numa vaga expressão de espanto que me encantou. Eu queria estraçalhá-la com minha paixão, mas sem tanta força, obviamente, presumindo o tempo todo que ela se recomporia depois como se um belo vaso, todo quebrado, pudesse novamente se recompor juntando todos os mais ínfimos caquinhos e recuperando o esplendor até com um brilho mais fino.

Puxei-a pelos braços e joguei-a na cama. Era um caso à parte essa maravilha ; na qual ela dormia sozinha, até onde todos os homens sabiam. Tinha cisnes dourados na cabeceira e colunas sustentando um dossel emoldurado que exibia uma pintura de ninfas dançando. Suas cortinas eram douradas e transparentes. Essa cama não dava a impressão de inverno, como a de meu Mestre em veludo vermelho.

Ajoelhei-me e beijei a enlouquecido por seus olhos lindos e inteligentes, que me fitavam tranqüilos enquanto isso. Segurei seus pulsos,juntei suas mãos e agarrei-as, ficando livre para rasgar-lhe o belo vestido. Rasguei-o com cuidado fazendo com que todos os botõezinhos de pérola caíssem para o lado, e seu cinto , foi aberto e por baixo havia seu corpete de barbatanas e renda. Este, abri como se fosse uma casca apertada.

Seus seios eram pequenos e doces, delicados e infantis demais para o bordel onde a volúpia era o principal. Assim mesmo, eu pretendia pilhá-los. Cantarolei um trecho de uma canção para ela, e então ouvi-a suspirar. Abaixei-me, ainda segurando firmemente seus pulsos, e chupei com força seus mamilos e depois larguei. Bati alegremente em seus peitos, da esquerda para a direita até eles ficarem cor-de-rosa. Ela estava corada e continuava com o cenho franzido, as rugas quase incongruentes em sua testa lisa. Seus olhos pareciam duas opalas, e, embora piscasse devagar, de uma forma quase sonolenta, ela não se esquivou.

Terminei meu serviço em suas roupas frágeis. Abri sua saia e abaixei-a, encontrando-a esplêndida e deliciosamente nua como imaginei. Eu realmente não tinha idéia do que havia embaixo das saias de uma mulher respeitável em termos de obstáculos. Ali não havia nada senão o ninhozinho dourado de seus pêlos púbicos, bem macio abaixo de sua barriguinha apenas levemente arredondada, e uma umidade a cintilar entre suas pernas.

Vi logo que gostava de mim. Dificilmente se poderia dizer que ela estivesse indefesa. E aquele brilho que eu via escorrer por entre as pernas enlouqueceu-me. Mergulhei nela, espantando-me ao constatar quão estreita ela era e como se , encolhia, pois não estava muito acostumada, e sentiu um pouquinho de dor. Fiz força nela, deleitando-me em vê-la corar. Eu me apoiava em cima dela no braço direito, porque não queria soltar seus pulsos. Ela se contorcia, e suas tranças louras se soltaram daquele seu toucado de pérolas e fitas, e ela ficou toda molhada e cor-de-rosa e lustrosa, como a curva interna de uma grande concha.

Por fim, eu já não estava conseguindo me conter, e quando ia desistindo da sincronicidade, ela sucumbiu ao suspiro final. Gozei ao mesmo tempo, e nos movemos juntos, ela fechou os olhos, que se injetaram de sangue como se ela estivesse morrendo, e agitou a cabeça num derradeiro frenesi antes do relaxamento.

Rolei na cama e cobri o rosto com os braços, como se estivesse para ser esbofeteado.

Ela riu, e realmente me bateu de repente, com toda a força nos braços.

Não foi nada. Fingi que chorava de vergonha.

— Olhe o que você fez com meu lindo vestido, seu satirozinho horroroso, seu conquistador secreto! Seu menino vil e precoce! Senti seu peso sair da cama. Ouvi-a se vestindo. Ela cantava para si mesma. — O que seu Mestre vai pensar disso, Amadeo? — perguntou. Destapei o rosto e procurei localizar de onde vinha sua voz. Ela se vestia atrás de seu biombo pintado, um presente de Paris, se bem me lembrava, oferecido por um de seus poetas franceses preferidos. Apareceu rapidamente, vestida com o mesmo esplendor anterior com um vestido verde primavera claro, bordado com as flores do campo. Ela parecia um verdadeiro jardim de delícias com essas minúsculas florezinhas bordadas com fios caros em seu corpete novo e suas longas saias de tafetá.

— Bem, o que o grande Mestre vai dizer quando descobrir que seu amante é um verdadeiro deus dos bosques , — Amante? — eu estava pasmo.

Ela tinha modos muito delicados. Sentou-se e começou a pentear o cabelo emaranhado. Não usava pintura e seu rosto não ficara marcado por nossas brincadeiras, e seu cabelo solto era um esplendoroso capuz de ouro refulgente. A Sua testa era lisa e alta.

— Botticelli criou-a — murmurei.

Eu lhe dizia isso muitas vezes, porque ela era parecidíssima com as beldades do pintor. De fato, todo mundo achava isso e de vez em quando lhe levava miniaturas dos quadros desse famoso pintor florentino. Pensei nisso, pensei em Veneza e nesse mundo em que eu vivia, pensei nela, uma cortesã, recebendo aqueles quadros castos porém lascivos como se fosse uma santa.

Ecoaram em minha cabeça palavras antigas que me foram ditas há muito tempo, quando estava ajoelhado diante de uma beleza antiga e polida, e achei-me no auge, que eu precisava pegar o pincel e pintar apenas “o que representava a palavra de Deus”.

Não havia tumulto em mim, só uma grande mistura de correntes, enquanto eu a observava refazer as tranças, entremeando as mechas com os fios de pérola e as fitas verde-água, fitas essas bordadas com as mesmas lindas florezinhas que lhe ornavam o vestido. Seus seios estavam corados, saltando-lhe do corpete justo. Eu queria rasgá-lo de novo.

— Minha linda Bianca, o que a faz dizer que sou amante dele?

— Todo mundo sabe-murmurou ela. — Você é o favorito dele. Acha que o enfureceu?

— Ah, se eu pudesse — disse eu. Sentei-me na cama. — Você não conhece o Mestre. Nada o faz levantar a mão para mim. Nada o faz sequer levantar a voz. Ele mandou que eu saísse para aprender todas as coisas, para aprender o que os homens podem saber.

Ela sorriu com um movimento de cabeça afirmativo.

— Então você veio se esconder embaixo da cama.

— Eu estava triste.

— Tenho certeza-respondeu.— Bem, agora durma, e se ainda estiver aqui quando eu voltar, aqueço-o. Mas preciso lhe dizer, meu bagunceiro, que você jamais deixará escapar uma palavra descuidada sobre o que se passou aqui? Você é tão criança para eu precisar lhe dizer isso? — Ela se abaixou para me beijar.

— Não, minha pérola, minha beleza, você não precisa me dizer. Eu jamais contarei a ele.

Ela levantou e recolheu as pérolas soltas e as fitas amassadas, os vestígios do estupro. Esticou a cama. Parecia encantadora como um cisne humano, páreo para os cisnes dourados de sua cama semelhante a um barco.

— Seu Mestre saberá — disse ela. — Ele é um grande mágico.

— Você tem medo dele? Medo em geral, Bianca, não por causa de mim? — Não — respondeu ela. — Ele passou a ser o mundo para você como só um ente dessa grandeza pode ser. E agora você está de fora, louco para voltar para lá. Um homem como aquele passa a ser tudo para você, e sua voz sábia torna-se o parâmetro de tudo. Nada do que está além tem valor, porque ele não vê e não declara que seja valioso. Portanto você não tem outra escolha senão deixar os restos que estão fora da luz dele e voltar para ela. Você precisa ir para casa.

Ela saiu, fechando as portas. Dormi, recusando-me a ir para casa. Na manhã seguinte, tomei o desjejum com ela e passei o dia inteiro com ela. Nossa intimidade me dera uma idéia radiosa dela. Por mais que ela falasse do Mestre, agora eu só tinha olhos para ela, nesses seus aposentos que tinham seu perfume e todas suas coisas íntimas e especiais.

Eu nunca esquecerei Bianca. Nunca.