Oliveira Martins: Estudo de Psychologia

Moniz Barreto · Capítulo 6 de 7

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Oliveira Martins: Estudo de Psychologia

VI o Historiador

Tal é esse estylo: irregular, tortuoso, familiar, apaixonado e vivo. Para o conhecermos cabalmente não recuamos perante a minuciosa analyse das formas grammaticaes e dos expedientes litterarios, mas fizemol-a como psychologo e não como rhetorico. O espirito philosophico é o dom da analyse e da synthese, e a sciencia deve reunir como a aguia as garras penetrantes ás largas azas.{80} {81}

 

VI

O HISTORIADOR

 

Composto assim o seu espirito só resta a deduzir a sua obra e demonstrar a solidariedade que prende aquelle a esta, considerando-o successivamente como historiador e como politico.

Se ha trabalho que pela sua complexidade e difficuldade assoberbe a imaginação de quem o intenta, e exija a maxima energia da parte de quem o realisa, é certamente o trabalho historico. Só examinando esta complexidade e difficuldade poderemos fazer idéia da variedade dos recursos empregados e da quantidade de força dispendida pelos grandes historiadores.

Para isto, basta considerar que a Historia é a visão intelligente dos phenomenos sociaes. Toda a formidavel complicação dos trabalhos historicos deriva do simples exame d'esta formula.

E antes de tudo, observemos que o aggregado social é dado em relação a um meio physico e constituido{82} por unidades vivas, o que torna necessario o conhecimento das sciencias inorganicas e organicas. A posição da sociologia na serie gerarchica das sciencias exige, nos que a cultivam, a posse das verdades que logicamente a condicionam. E desde os principios mais abstractos da Quantidade e da Forma até os factos relativamente menos simples da Anthropologia, tudo concorre para a explicação dos phenomenos sociaes. Os exemplos abundam e são faceis de adduzir. A doutrina da população não se póde constituir sem a theoria algebrica das series e o calculo arithmetico dos logarithmos. A relação geometrica que n'uma dada figura prende a grandeza da area ao valor do perimetro, é um elemento a considerar na comprehensão do engrandecimento d'um territorio. As leis que ligam o crescimento do organismo á massa do planeta e regem a distribuição do calor, da luz e porventura da electricidade á superficie da terra, forçosamente exercem uma intervenção activa no curso da Historia. Os dados geologicos que enunciam a natureza actual e as transformações futuras da crosta terrestre, não são indifferentes á explicação dos phenomenos que a tem por theatro; a theoria dos ventos interessa á historia da navegação de muitos povos, e a dos terremotos á vida d'alguns. Finalmente as leis que regem á existencia dos seres vivos, influem profundamente no corpo social, visto o homem ser um animal, e fazem do conhecimento da Biologia a{83} condicção immediata e indispensavel do estudo da Sociologia. Assim toda a massa das verdades adquiridas pela Sciencia vem illuminar directa ou indirectamente o caminho que o historiador tem de percorrer. (V. Spencer, Intr. á sciencia social; A. Comte, Curso de Philosophia positiva.)

A todas estas difficuldades que resultam da variada e completa preparação em que se deve basear o historiador, é preciso juntar ás difficuldades intrinsecas, as que provém da natureza intima da Historia.

Em primeiro logar, a Historia é uma sciencia moral, isto é, versa em ultima analyse sobre factos mentaes, sentimentos e idéias. O ser um estudo da alma humana é a primeira e mais grave fonte das difficuldades inherentes a esta ordem de investigações. Com effeito os phenomenos mentaes, quer os propriamente intellectuaes, quer os puramente emocionaes, se apresentam investidos de um duplo caracter que os torna eminentemente rebeldes a uma exacta observação. De um lado, a sua mesma natureza de phenomenos interiores, do dominio da consciencia, exige um dom especial, um sentido que nem todos possuem sufficientemente desenvolvido. D'outro lado, o composto mental é extremamente complicado e cada phenomeno de que se compõe se resolve por seu turno n'um numero enorme de elementos, que como taes caem fora do campo da consciencia, onde só apparecem os totaes.{84} A velocidade extrema das reacções cerebraes, corresponde a esta complexidade formidavel de que dão apenas uma vaga ideia os phenomenos que constituem as funcções propriamente biologicas.

Accrescentem-se a estas difficuldades resultantes da natureza do individuo, as provenientes da natureza do aggregado social. Se é certo que em ultima analyse a Sociologia se reduz á Psychologia, é tambem certo que as opiniões e paixões individuaes são continua e vigorosamente modificadas pelas paixões e opiniões adjacentes, e que o espirito de cada um apparece como um espelho da sociedade inteira de que faz parte. Quando o aggregado social é bastante extenso a complicação resultante da sua grandeza é tal que parece desafiar o poder da analyse.

Junte-se ainda a difficuldade que resulta de se considerar uma sociedade não num momento dado, mas na sua evolução atravez de muitos seculos. Seguir um aggregado tão multiplo nas suas continuas e imperceptiveis transformações de momento para momento, determinar as causas variadissimas e occultas d'essas transformações, marcar as forças superiores cuja permanencia determina a identidade de um povo atravez de todas as suas metamorphoses, produzindo essa consciencia social bem mais difficil de se estabelecer e bem mais facil de se destruir do que a individual, é{85} uma empresa comparada á qual, qualquer trabalho scientifico é relativamente facil.

Considere-se finalmente que a Historia é uma sciencia concreta, isto e, descriptiva e narrativa. Este derradeiro traço é origem de grandes difficuldades na indagação e sobretudo na exposição das verdades historicas. Mesmo nas sciencias inferiores essas difficuldades são grandes. Por exemplo, em Astronomia é relativamente facil indicar as forças que determinam a harmonia do nosso systema solar; mas mostrar a evolução, pela qual elle se veiu transformando até se constituir como existe actualmente, é uma tarefa d'outra ordem que não comporta o mesmo grau de precisão; a hypothese da nebulosa está privada da certeza de que se acha investida a theoria da gravitação, e a hypothese das agglomerações meteoricas inventada por Julio-Roberto Meyer, prova a necessidade de tornar a doutrina de Laplace mais adequada á realidade completando-a com principios subsidiarios. Semelhantemente nas sciencias inorganicas, o methodo experimental permitte demonstrar com efficacia uma lei de barologia ou thermologia; mas a applicação d'essas leis para a explicação da historia passada e constituição actual do globo, não tem a mesma segurança; a Geologia está longe de attingir o estado de adeantamento da Physica e da Chimica, sciencias em que ella se baseia; a doutrina das geleiras não se acha constituida com a mesma perfeição{86} que a theoria da irradiação do calor. Em Biologia verifica-se o mesmo. Em quanto se tratam de indagar as leis abstractas da morphologia e da physiologia vegetal e animal, as difficuldades são grandes mas superaveis graças ao emprego da observação, da experimentação e da comparação; mas quando se trata de explicar a existencia das plantas e animaes taes como realmente são, as difficuldades crescem de ponto e inversamente diminue a precisão e certeza das doutrinas enunciadas; a hypothese de Darwin sobre a evolução dos organismos não póde aspirar á mesma convicta adhesão que o principio de Milne Edwards sobre a divisão do trabalho physiologico. Semelhantemente as difficuldades de investigação inherentes á natureza e complicação dos phenomenos sociaes, com serem enormes, são pequenas, comparadas com as que apresenta o estudo da Historia propriamente dicta. E abaixo dos philosophos nenhuma classe de espiritos arca com tamanhas difficuldades, incorre em tão graves responsabilidades, nem se reveste de uma tão alta dignidade scientifica como os historiadores.

Para vencer tão grandes difficuldades, o historiador deve fecundar por uma vasta preparação geral e technica um espirito extremamente complexo e profundo. Qual seja essa preparação geral deriva da indicação acima feita dos estudos subsidiarios que condicionam o conhecimento da Sciencia{87} social. A preparação technica resulta semelhantemente da propria natureza da Sciencia social. Elle suppõe o conhecimento exacto dos factos adduzidos e a sua classificação methodica em grupos naturaes. Quanto aos dotes de espirito o historiador deve conter um sabio e um artista. A capacidade de observação exacta dos factos particulares deve estar ligada á faculdade das idéias geraes; e além d'isso a imaginação pittoresca que permitte a representação nitida e colorida das paysagens que constituem o palco da Historia, ha de ser completada pela imaginação psychologica que faz a alma dos individuos e povos que são os protogonistas da Historia. Finalmente o grande historiador deve ser um grande escriptor e empregar um estylo que reuna á precisão propria do trabalho scientifico, o colorido proprio das descripções, e o movimento proprio das narrações.

Comparemos este modelo do historiador ideal com o retrato já traçado do Sr. Oliveira Martins e veremos o que elle tem e o que lhe falta.

O seu saber é vasto inda que incompleto. Os volumes publicados da sua Bibliotheca das Sciencias sociaes e os annunciados no programma, revelam que o Sr. Oliveira Martins tem consciencia da importancia e largueza de estudos com que se deve preparar para o trabalho historico. Comtudo seria para desejar que o auctor conservasse ineditos os livros em que a sua originalidade e competencia{88} são contestaveis, e estudando convenientemente os assumptos sobre que elles versam, se abstivesse de tratar publicamente sciencias de que só se podem occupar com auctoridade os especialistas.

No que toca á exactidão dos factos enunciados nos seus tratados de historia nacional, constituidos pela Historia da Civilisação Iberica, a Historia de Portugal, e o Portugal Contemporaneo, o Sr. Oliveira Martins não tem o habito de enumerar os documentos compulsados e discutir as fontes exploradas. As notas, que nas grandes historias classicas acompanham e comprovam as affirmações feitas no texto, não apparecem na sua obra. É verdade que historiadores como Mommsen e Curtius supprimiram nos seus livros monumentaes a bagagem das demonstrações; mas esses historiadores já tinham assignalado a sua actividade de investigadores em numerosas dissertações especiaes, e accumulado materiaes que serviam de base ao auctor e de garantia ao leitor. Considere-se ainda que escreviam sobre assumptos largamente explorados. O Sr. Oliveira Martins occupando-se da historia de Portugal, deveria redobrar de precauções no que toca ás provas. Mas acceitando-a tal como está escripta, e lastimando que ella não seja mais extensa, observaremos que a conhecida assiduidade ao trabalho e a sinceridade certa do Sr. Oliveira Martins, são consideraveis garantias da veracidade das suas asserções.{89}

Quanto as aptidões cujo conjuncto constitue o seu espirito, já vimos que o Sr. Oliveira Martins possue a imaginação dos movimentos, das massas, das forças e que as suas paysagens representam as expressões moraes dos aspectos physicos; e que além d'isso possue a capacidade e o habito de explicar os aspectos physicos como mechanismos naturaes. Se reflectirmos que estas duas aptidões exgottam a noção do scenario historico, considerado como um conjuncto de causas efficazes actuando sobre espiritos, veremos que o Sr. Oliveira Martins está apto pela imaginação pittoresca e pela razão abstracta a descrever e explicar o meio dos successos que narra. Semelhantemente e ainda melhor a sua admiravel imaginação psychologica habilita-o a ver o interior das almas individuaes e collectivas que põe em scena. Essa imaginação, integral e intensa, prima na representação das emoções, e como a maioria das acções é determinada por emoções, resulta d'ahi que o Sr. Oliveira Martins está apto para representar o agente da Historia, como representara o seu meio. E o mesmo poder de abstracção que lhe permittira comprehender as relações geraes entre os factos physicos, lhe faz ver o nexo logico que determina as coexistencias e as sequencias dos factos moraes.

Vimos que o seu estylo era destituido de ordem, precisão e clareza, e que abundava em movimento, força e vida. A ausencia das primeiras qualidades{90} prejudica a sua Historia considerada como obra de sciencia, e impede que ella se possa considerar como obra de vulgarisação. A presença dos outros dotes dá-lhe um valor raro como obra de arte. O seu vocabulario trivial, technico, fornecido em todos os recantos da vida, permittir-lhe-á fazer descripções coloridas e supprir pela abundancia de pormenores concretos a nitidez ausente que lhe daria a ordem que não possue. A syntaxe rapida e tortuosa permittir-lhe-á fazer narrações dramaticas e vivas e acompanhar pela marcha offegante e irregular dos periodos a successão precipitada e sempre nova dos acontecimentos. Finalmente todos os outros expedientes de composição revelando o sentimento do real e a paixão intensa convergem no mesmo sentido; e a mesma solidariedade que prende a sua obra á sua imaginação e á sua sensibilidade, liga a ella o seu estylo.{91}