Os Litteratos em Lisboa

A. Ferreira de Freitas · Capítulo 2 de 4

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Os Litteratos em Lisboa

II Sit-Lux

Eu quero o meu candil levar em punho

Á festa, que de si é uma epopeia.{12} {13}

 

II

SIT-LUX

 

SIT-LUX

II

A MUSA—SALOIA

 

Adeus, minha musa qu'rida,

Vens hoje tão festival;

Trazes as faces tão lindas

Como a rosa no rosal.

Onde vaes tão elegante,

Mimosa como o zagal?—

—Venho dar-te este meu braço, Quero ter uma rival.—

 

Se tu és tão donairosa

Nas tuas vestes singelas,

Como podem captivar-me,

Captivar-me as mais donzellas,

Se eu não gosto d'atavios,

Nem bellezas, que tem ellas?

—Póde ser; mas lá no ceu Ha inda tantas estrellas.—

 

Eu não quero, minha musa,

'Star sujeito á lei fatal,

Pois é crime tão horrendo!

O pensar bem no ideal:{16} E depois mestre Castilho Se nos manda p'r'o hospital?! —É desgraça na verdade! Pelletan não lhe quer mal.—

 

Oh! como vens conceituosa

D'essas phrases no vestir!

Juntas mais á galhardia,

Tanta prenda, esse sorrir...

Quero, pois, amar-te; e muito

Á força do meu sentir.

—Mas eu sou tão singelinha, Tenho no campo o existir!—

 

Mais viveza em ti encontro,

Mais pureza em teu amar;

O crepusc'lo da cidade

É vaidoso em seu cerrar;

E os prazer's, que lá s'encontram,

Vão como a brisa do mar.

—Quer então amar-me muito, Quer levar-me ao seu altar?—

 

Porque não, mulher festiva?

Has de dar-me o teu abraço,

E inspirar-me n'essas tardes

Em que o sol é já mui baço,

E se perde no horizonte

Como a nuvem n'esse espaço.

—Porque não, meu anjo lindo? Vamos ambos pelo braço.—{17}

Tu has de ir comigo á festa,

 

Como a mariposa á flor,

Has de lá n'essa folgança Fazer de mim trovador.

Tu não sabes quanto é bello

Ser inspirado d'amor?!

—Vamos primeiro ao mercado, E depois serás cantor.—

 

Vamos primeiro ao mercado?

Vamos lá, minha cecem.

Tu que levas no cestinho?

Levas ovos ao vintem? Ou então são alguns patos. Que vaes ver se quer alguem?

—Não senhor; é outra cousa, Muito melhor, muito além.—

 

Diz-me cá: então são uvas, Ou de Baccho o seu primor? Eu não divulgo o segredo

Em paga de tanto amor.

Diz-me então se são gallinhas,

Se são rosas sem olor? —Não senhor; são outras cousas: São livros de trovador.—

 

São abortos d'estes tempos,

Que vaes á praça vender?

Cuidas tu ser isso lindo?

Ser officio de mulher?{18} Pois, musa tão feiticeira

Não deve d'isso fazer.

—N'esse caso ahi vão p'ra lama, Ahi vão p'ra quem quizer.—

 

Tens agora mais feitiços

Ao nascer d'esse desdem:

Olha, pois, para os taes livros Como não quel-os ninguem:

E tu, musa, tão contente

Com valor nem d'um vintem.

—Ora, adeus; deixamos isso; Caminhâmos mais p'ra além.—

 

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Minha musa, 'stamos juntos

Da cigarra e da folgança: É aqui onde os litteratos Tem firmada a sua esp'rança: E tu, musa, dá-me cantos,

Dá-me o escudo, dá-me a lança...

—Ora, pois, espera um pouco, Vamos ver a contradança.{19}