Os Tripeiros

Antonio José Coelho Louzada · Capítulo 5 de 12

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Os Tripeiros

V. Irene.

—Perro, villão, se tocas n'um dos meus homens!...

E a mão do fidalgo pousou como complemento de phrase no punho do estoque.

O acontiado fez uma careta de despeito, baixou o virote, e quando o fidalgo voltou costas, deu com elle com uma força tal d'encontro á parede, que o fez voar em hastilhas, resmungando:

—Perros e villões... perros e villões! A nossa vez ha de chegar, traidores, scismaticos!

 

V.

 

Irene.

Ma son, mentre ella piange, i suoi lamenti

Rotti da un chiaro suon oh'a lei ne viene...

. Ger. lib. cant. VII.

 

E a linda Irene, a filha de João Ramalho?

Irene, das primeiras fallas trocadas com Fernando, colheu um resultado quasi igual ao que este obtivera. A impressão primeira foi a da alegria. Deslembrada da apparição de mestre Gonçalo, quando foi ao encontro da cuvilheira, que a chamára, a physionomia illuminára-se, reproduzindo toda a felicidade que lá ia por dentro naquelle coração. Á pergunta que lhe fizeram, mas não ouviu, respondeu com um abraço na velha, que, mal affeita, pela sua rabuje, a taes carinhos, abriu grandes olhos, e o espanto desta subiu ainda, levando-a a benzer-se, quando viu que, sem lhe prestar attenção, a moça começou a entoar uma copla de amores, desses cavalheirescos amores da epocha. Aquella alma de virgem saudava o enfloramento da nobre paixão que no seio lhe germinára, e a velha, como Gonçalo Domingues a respeito de Fernando, nem se quer pensou que nessa exaltação entrasse por alguma cousa o mancebo, de quem já havia notado os passeios em frente da casa— o que a levára a fazer-lhe carrancas de sobrecenho capazes de affugentar qualquer outro que não fosse um namorado.

—A menina Irene namorar! a menina que depois da morte da nossa ama tenho creado com todos os cuidados?! pensava ella com os seus botões, quando lhe vinham desconfianças, ou as visinhas, pela sésta, no cavaco quotidiano que tinha depois de arranjados prateis, agomias, sartã, pucaros e mais aprestes de cosinha, notavam o volver d'olhos de um ou outro alindado da terra.

A tia Genoveva tinha de si para si que o coração de Irene se abriria só quando ella, ou o senhor João Ramalho muito bem quizessem.

As tias Genovevas ainda hoje não são raras.

A linda moça, quando a deixou a cuvilheira, insensivelmente começou a reflectir nas palavras de Fernando, e pouco a pouco no semblante e no coração começou a tristeza a vencer. A pobre não sabia que o amor se não traduz bem em palavras, e esmorecera pensando que podia não ser amada, ao passo que bem sentia definir-se-lhe no seio a paixão; e quando, noite cabida, a velha trouxe para o quarto de trabalho um velador do qual pendia um graúdo candil, não respondeu ás «boas noites» dadas, possuida de sentimento bem diverso do que horas antes a distrahira. Ainda mais: a tia Genoveva, ao espiar a roca e terminar a ultima ave-maria da coroa que todas as noites rezava á Senhora da Silva, para a ter por sua intercessora; a tia Genoveva notou uma lagrima a balouçar-se nas cilias da linda joven, como aljofre matutino nos estames de uma flor.

—Porque chora, menina? perguntou a velha criada tomando-lhe o rosto entre as mãos, para melhor se certificar de que não era illusão sua aquelle pranto.

—Chorar... eu? murmurou Irene, limpando os olhos.

—Sim, a menina. Então não veem o espanto que faz?

—É que eu não choro... Porque havia de chorar?

—Porque? Ora sei eu o porque?

—Nem eu...

—Credo! Anjo bento da minha guarda! Feitiço por certo lhe fizeram! De tarde a rir e a cantar como uma louquinha, e a fazer-me momices carendeiras; agora a choramingar sem que nem para que! É quebranto, menina... é feitiçaria; e bem fará em pôr esta noite debaixo da almadraquexa um ramo de arruda.

A velha atinava: que maior feitiçaria que a do amor não póde haver. Só elle tem o privilegio de dar a uma palavra ecco que, por vezes, dura até com elle se casar já bem fraco o das ultimas preces: de perpetuar uma imagem ante os olhos até que os cerre o frio osculo da morte.

Pranto e risos, succedendo-se rápidamente sem explicação para quem os vê, sem explicação mesmo para quem os sente humedecer as faces, ou descerrar os lábios, são em geral o resultado vulgar do toque da vara do grande feiticeiro: emquanto o feitiço conserva toda a força, o pranto é como os chuveiros de Maio,

que veem como para fazer ressaltar o sol que lhes succede, ou como os orvalhos de Junho, que refrigeram as flores; quando o feiticeiro se ausenta, o riso é como o luar em noites de Fevereiro, quando tudo é silencio: contrista como elle,· traz melancholia. As lagrimas da linda filha de João Ramalho eram chuveiros de Maio. Correndo á vontade sobre o travesseiro, em que não pozera a arruda, não lhe imprimiam nas faces a aridez; regavam, permitta-se mais esta imagem entre tantas, o amor que, como no sobrinho de Gonçalo Domingues, repetimos, se definira naquella tarde.

O amor na juventude, no sexo que chamamos fragil, porque nós, que nos dobramos a todo o momento a seus pés, lhe esmigalhamos o coração em um circulo de ferro chamado positivismo, realidade e conveniencia, quasi sempre nasce entre lagrimas, lagrimas das que chorava Irene quando repetia baixinho, comsigo, o nome de Fernando; lagrimas que rebentam espaçadas, se demoram nas palpebras, e descem lentas pelo rosto.

No outro dia muitas vezes correu a moça namorada á janella da praia, muitas á que dava para o lado do monte, e impacientou-se e entristeceu-se quando viu cahir a tarde sem apparecer o sobrinho do forçureiro; no domingo, durante a missa do dia, na velha igreja de S. Pedro, fez cochichar umas poucas de comadres, que lhe ficavam na rectaguarda, tantas foram as vezes que voltou, durante o officio, a cabeça para o lado da porta, e ainda mais se impacientou e entristeceu quando, feitas ante todas as imagens as estações que eram da devoção da senhora Genoveva, regressou a casa sem vêr uma sombra rastejando ao lado della (que olhar face a face, de perto, para Fernando, nunca a gentil menina olhara) sem ouvir certas passadas, que distinguia de todas as outras e lhe causavam uma impressão nervosa agradavel.

Neste descontentamento, sentada na varanda, que tentamos já descrever, prestava attenção a todos os ruidos, quando a velha criada com quem João Ramalho havia conferenciado depois de jantar, arrastando um tamborete de pau e umas contas com que se entretinha todas as vezes que não trabalhava ou dava á lingua, lhe veio fazer companhia. Genoveva engorolou um pater e tossiu; engorolou outro pater e tossiu outra vez; terceiro pater a meio e mais prolongada foi a tosse, e, ao findar, a esta juntou um arrastar de tamborete e um suspiro. Era evidente que rebentava por fallar; porém a sua joven ama estava bastante distrahida para notar todos aquelles preparativos oratorios. A velha ainda se resignou a fazer passar mais algumas contas, a mudar o tamborete da direita para a esquerda e a passar na tosse do piano ao forte, do moderato ao vivace e até á furia; mas vendo que era trabalho perdido, pousou o rosario, puchou a touca, crusou os braços sobre a barriga e exclamou:

—A menina que tem?

—Nada, respondeu Irene, olhando pela abertura da zelozia para o céu, que mostrava um azul soberbo.

—Nada! Então eu estou cega; ha dias que não sei o que tem... anda triste!...

—Triste? atalhou Irene, com um desses sorrisos, que se denunciam como contrafeitos. Ainda esta manhã me disse que andava com a cabeça no ar, e achou que ria como louca... não sei quando...

—Sim, sim: veja se me engana com esses risinhos sêccos, menina. Por mais que faça não me faz acreditar que não está magoada. Eu desconfio que...

—De que? interrogou Irene, fazendo-se vermelha, julgando ser do sentimento dominante no seu coração que lhe iam fallar.

—Nada, nada. O senhor seu pae não lhe fallou... não lhe deu a entender...

—Meu pae, tornou a joven sobresaltada, não me disse cousa alguma...

—É que... pensei...

—O que, Genoveva? Que tinha meu pae a dizer-me?

—Nada, nada; respondeu a velha, recomeçando de novo o rozario.

—Não, alguma cousa era! Diga, diga, Genoveva; meu pae está de mal commigo?

—De mal! elle que não vê outra cousa, que a traz nas palminhas das mãos, apesar daquelle modo assim de poucas palavras?! Se se amofina é...

—Acabe! supplicou a joven.

—Triste já está a menina; para que a entristecer mais? disse a criada mastigando. —Não me quer entristecer mais? Pois que ha? exclamou a filha de João Ramalho, erguendo-se com a anciedade pintada no rosto.

—É... nada, nada, redarguiu a velha. E baixo accrescentou, tornando a carregar a roca:—Cala-te, bocca. Ora, não ia eu já dizer tudo?

O áparte da cuvilheira, por uma mania que tinha de sempre dar á lingua para que a ouvissem, pareceu-se com todos os ápartes do theatro, e mais anciosa ficou Irene.

—Jesus, Genoveva! Succedeu alguma cousa?

—Nada: é que...

—Acabe por uma vez.

—Como tem de ser... porém, olhe, triste já a menina está, e quanto mais tarde...

—Está a fazer-me mal, minha boa Genoveva! exclamou Irene, juntando e erguendo as mãos em acção de supplica.

—Ora vejam! mal é que eu lhe não queria fazer; mas visto que teima... sempre lhe digo: seu pae embarca por estes dias.

—Embarca... disse a joven tornando a sentar-se. Julguei que fosse outra cousa. Não estou já affeita a vêr partir meu pae, todos os annos, uma, duas e tres vezes para essas terras de Christo? Se podésse fazer com que não andasse sobre aguas do mar, exposto; porém...

—Ao mar, atalhou Genoveva, já o senhor João Ramalho está affeito. Parece que tem todos os santos e santas por elle... e merece-o, que não ha tempestade que mal lhe faça; e mais dizem que são bem más as da Inglaterra e Flandres! Mas não é agora só o mar...

—Então que mais é, Genoveva?

—É... que... que volta a Lisboa... e...

—Jesus! agora... que anda a guerra por lá!...

—Deus ha de querer que nenhum mal lhe venha, e eu hei-de recommendal-o muito á Senhora da Silva e á Senhora do Amparo, as duas santas de mais valimento que ha no céo... de maiores milagres pelo menos... ao Senhor S. Pedro, advogado da gente do mar, e ás almas milagrosas! redarguiu a senhora Genoveva, fazendo uma especie de mesura a cada nome dos beatos patronos que proferia.

—Bem me dizia o coração que destas náus e galés chegadas me viria mal, disse Irene recordando-se naquelle instante das palavras de Fernando.

—Mal... mal? Tenha fé em Deus, que é grande peccado descoroçoar assim. O senhor João Ramalho, seu pae, se anda cuidadoso é por si, menina Irene: como está já uma moça... eu cá me entendo... quer deixal-a bem amparada, em logar seguro; que nestes tempos revoltos, e nos que o não são, todo o cuidado é pouco. Como não vae lobo a redil nem raposa a gallinheiro senão quando acha a porta mal cerrada e não ha mastins para açular, queria deixal-a em abrigo seguro, e lembrou-se de um convento. Já dei recado para uma prima, que tenho, sergente em Entre-Rios, a vêr como poderei ir fazer companhia á menina...

—Então, Genoveva, vamos para tão longe! exclamou a linda moça com voz magoada.

—Ainda não é de certo. É precisa licença do senhor D. João Affonso, e não sei que outras requestas... e como não é para já o caso... por estes dias...

—Genoveva! Genoveva! gritou do andar terreo o senhor João Ramalho, fazendo estacar a falladora cuvilheira, que incetando um Padre-nosso em um tom de voz que, sem offensa da boa da beata, se podia comparar ao rosnar de um cão, desceu as escadas.

—Virgem santa, valei-me! murmurou a joven fechando uma na outra as mãos, brancas e delicadas, e deixando sobre o seio pender o rosto, que não desfeiavam os assomos de tristeza.

Irene assim permaneceu longo tempo, e quando ergueu os olhos orlava-lhe as palpebras uma côr mais rosada que de costume, e as lagrimas borbulhavam mais intensas do que as trazidas pela desconfiança de que Fernando Vasques não correspondesse ao affecto por ella consagrado. Eram mais intensas, porque junto com as arrancadas pelo amor filial—pois bemqueria a joven a seu pae, com um extremo inexplicavel, attenta a rudesa apparente do piloto, se é que uma força occulta a não fazia corresponder ao sentimento por elle votado ao unico ente que na terra lhe restava, á imagem de uma esposa adorada com o fogo que empregam essas almas reconcentradas, os homens que jogam a vida sobre o mais terrivel dos elementos, e passam dias e noites seguidas a soletrar no livro da natureza a pagina do infinito, em circulo fachado por céo e mar; —junto com as saudades e receios por seu pae, se ligavam penas avultadas pela sua imaginação, suppondo-se já separada, longe de Fernando, clausurada para a vida talvez; que no amor tudo é coado por um prisma que engrandece e multiplica os objectos.

Ás lagrimas do travesso moço succedera a resolução: Fernando fizera-se homem; ás lagrimas de Irene succedia o anniquilamento: póde-se dizer tambem que se fizera mulher a pobre menina porque: a coroa do seu sexo é formada por essas perolas nascidas no coração, perolas que resgatam a propria culpa e a alheia. Para o resgate da humanidade Deus, tornado homem, deu o seu sangue; para completar essa regeneração, para abrir ás mulheres as portas da vida, inflar-lhe no seio uma alma, verteu lagrimas uma virgem.

Irene chorava pela segunda vez, depois que se apoderára do seu coração a imagem de Fernando, quando lhe veio ferir os ouvidos um som distante e confuso; confuso porque era grande o arruido que petintaes, espadeleiros e galeotes faziam na praia, sanctificando o dia do descanço com libações frequentes de verde e maduro, cidra e outras bebidas. Era o som de um toque de caça, assobiado por um valente folego. A moça estremeceu, quando se lhe afigurou reconhecel-o; estremeceu e a alegria repelliu naquella fronte as nuvens de tristeza com tanta ou mais rapidez de que nos leva a dar uma ideia dessa mudança. Ergueu-se e correu ao extremo da varanda, encostou á adufa o ouvido attento a linda namorada; mas calára-se a marcha, e os berros da chusma iam em um rinforzando prodigioso. Alguns minutos de anciedade assim passou, com o seio a arfar, os lábios meio-abertos, deixando vêr uma enfiada de dentes alvos como o fructo das camarinhas, com os olhos brilhantes, fixos, até que com novo sibilo rompeu um grito da joven, um grito de alegria, e deixando a varanda subiu a assomar a cabeça por aquella historiada janella das flores, onde com ella travamos conhecimento.