Othello
II Othello
—Pois bem, n'esse caso, continuou o pae de Desdemona, que melhor accasião do que esta para exorál-o a que faça justiça? Por muito grave que seja o assumpto que presentemente o occupa, não poderá sel-o tanto que o impeça de ouvir a queixa de um senador da Republica, sobre tudo de um senador da minha ascendencia, contra um bandido que o Estado abrigou incautamente, no seu seio. Ides á presença do Doge, não é assim? Pois bem, eu vou tambem e assim ganharei tempo, em vez de o perder, como suppuz. Já vês, concluiu o raivoso velho dirigindo-se a Othello, que não ha poder humano que te livre da minha vingança! Vamos ter com o Doge e pedir-lhe justiça!
E todos formando um grupo compacto abandonaram as margens do Adriatico e perderam-se lentamente nos solitários e tenebrosos labyrintos da poetica cidade dos canaes.
II
Othello
Apezar da gravidadade das circumstancias, o Doge não poude conter uma exclamação de surpreza ao ver entrar Brabancio na sala onde se celebrava o conselho, acompanhando Othello, sem que para isso trouxesse ordem sua. Lançou pois, um olhar colerico ao velho senador e perguntou severamente:
—Quem se atreve a desobedecer d'este modo á minha vontade e ás leis da Republica, que prohibem a entrada na sala do Conselho a todo aquelle que não tenha ordem expressa de comparecer ante mim?
—Eu, Senhoria—respondeu em tom firme, e attitude respeitosa o pae de Desdemona.—Eu, que venho pedir-vos justiça para o irreparavel ultraje que lançaram nas minhas cans e no meu nome de patriota.
—Tão urgente é o caso e tão imperioso e vehemente o teu desejo de ver reparado o agravo que recebeste, para olvidando toda e qualquer consideração, entrares n'este recinto sagrado para todos os cidadãos da Republica?—replicou o Doge com enfado.
—A Vossa prudente e sabia rasão julgará por si mesma—disse Brabancio sem se deixar intimidar pela attitude severa do Doge, attitude que se reflectia nos dez membros do Conselho. E, acto continuo, indicando a Othello que permanecia de pé a seu lado.— Este homem, que a Republica acolheu em hora aziaga para todos, acabou de roubar-me a filha, deshonrando-a, deshonrando-me tambem e lançando uma mancha indelevel sobre toda a nobreza veneziana, sobre o nobre nome que me orgulho de usar. Justiça, Senhoria, contra tamanho criminoso! justiça, se não quereis que eu renegue a propria terra em que nasci!
—Tranquillisa-te, bom Brabancio—respondeu o Doge com benevolencia—se é certa a accusação que acabas de fazer contra esse homem, contra esse habil e heróico general que mais de uma vez tem dado provas da generosidade do seu coração, salvando a Republica, eu te prometto, como cavalleiro veneziano e como magistrado supremo do Estado, que justiça te será feita! Bem disseste affirmando que o ultraje que recebeste recae sobre todos os teus compatriotas. Mas sabes, prudente velho, que os momentos actuaes são em extremo solemnes e as circumstancias gravissimas? Os turcos dirigem-se contra ilha de Chypre, com uma poderosa esquadra, e d'ella se apoderárão, facilmente se não realizarmos um verdadeiro milagre de vontade e de força. Agora bem—proseguiu o Doge, com convicção.—Sabes o que significa para Veneza a perda da ilha de Chypre? Significa ver-se reduzida a Rodas no Archipelago; é a ruina do seu commercio com a Grecia e com toda a parte oriental da Europa; é o principio da decadencia do seu poder no Mediterraneo, e quando Genova, Florença e o Pontificado saibam isto, cahirão sobre a orgulhosa soberana do Adriatico como um bando de abutres sobre uma aguia ferida e enferma, para repartir os seus restos e insultar a sua passada grandeza. Immensa e justa é a tua dor, pobre velho, mas ante as calamidades que ameaçam a Republica, tu, varão sabio e prudente, responde: que significa a desgraça de um individuo, de uma familia, de uma dôr pessoal por grande que seja, comparada com o soffrimento de um povo?
—Perdoe-me a Vossa Senhoria e o sabio Conselho, respondeu humildemente o velho; ignorava as terriveis noticias que me acabaes de communicar e cega-me a dôr e a soberba. Soffra eu e os meus mil vezes, dado que se salve a Republica! Se a pessoa que a póde salvar é esse homem, terminou indicando Othello, desde este momento retiro a minha accusação e esperarei pacientemente, para lavar a mancha cahida sobre o meu nome, que venham melhores tempos! Veneza e a Republica acima de tudo!
E, ao dizer estas palavras, o nobre velho pareceu verdadeiramente transfigurado pelo generoso enthusiasmo que lhe trasbordava do coração, enthusiasmo que se communicou instantaneamente a todos os circumstantes, exceptuando Othello, que permaneceu sereno e frio como estatua de bronze. Mas apenas acabou de fallar o pae de Desdemona, e antes que o Doge tivesse tempo de responder-lhe, agradecendo a nobreza da sua conducta, como pensava fazel-o, o mouro estendeu o braço direito, como dando a entender que queria pedir a palavra, e ao ver que os membros do Conselho inclinavam a cabeça, com um gesto de approvação, começou com voz grave e pausada:
—O sabio e prudente Conselho, assim como a Senhoria que o preside, vão perdoar-me expôr a minha opinião a respeito de tudo quanto succede, sem que previamente me tenham auctorizado para tanto.
—Era o que pensava agora fazer, pois não foste chamado para outra cousa, heroico Othello, disse o Doge com benevolencia; falla pois, com liberdade absoluta.
—Primeiro que tudo, proseguiu o general, occupar-me-hei, como é de justiça, do mais importante; quer dizer do que diz respeito ao Estado; depois tratarei da accusação que este velho acaba de lançar contra mim. Nada receiem! Serei breve, muito breve, porque pouco, na realidade, tenho de dizer com respeito aos dois assumptos. Por outro lado não é este o momento opportuno para dispensarmos palavras, mas sim de praticarmos actos; além d'isto a minha linguagem é rude e desataviada de galas.
«A Senhoria de Veneza e o sabio Conselho ignoram decerto que a unica eloquencia de que posso orgulhar-me é a das acções.
—Precisamente aquella de que hoje necessita a Republica, observou o Doge gravemente.
—Pois tel-a-ha, respondeu Othello com convicção absoluta. O que tenho a dizer com relação aos turcos que buscam apoderar-se da ilha de Chypre, reduz-se a isto: Montano, a quem deixei como governador na ilha, com plenos poderes para que me substituisse durante curta ausencia, é um militar valente como ha poucos e experimentado como nenhum; adora Chypre como um filho adora a mãe, apesar de não ter nascido lá; dispõe de bons elementos de combate e, por muito vigoroso que seja o ataque dos turcos, saberá resistir durante alguns dias, os sufficientes para que, sahindo eu esta mesma noute ou, para melhor dizer, esta manhã, de Veneza, tenha tempo de surprehender os otomanos antes de que logrem pôr nas torres da ilha o estandarte da meia lua.
—E crês, general, perguntou anciosamente o Doge, que dispões de bastantes recursos para dominar e vencer o grande contingente de homens de guerra e armamento naval com que, segundo noticias fidelissimas recebidas, os turcos se aprestam para a lucta?
—Essas noticias exageram, ou mentem, replicou friamente Othello. O sultão está gravemente empenhado nas guerras com Castella e com Papa, e não pode dispor de grandes elementos de combate. Que Montano resista sómente oito dias, que me sejam favoraveis os ventos, e respondo pela minha cabeça, que a Republica conservará em seu poder Chypre e dará uma nova e forte lição ao seu constante e teimoso inimigo, que o manterá na reserva durante muito tempo. Othello, que nunca mentiu, jura-o pela sua lealdade ao Estado.
E o altivo africano contemplou com tão fria serenidade os individuos do Conselho, que estes sentiram que a confiança, uma confiança absoluta, voltava a renascer-lhes nos corações.
—Assim pois, perguntou o Doge ao mouro, partirás hoje mesmo para Chypre?
—Apenas o sol doire com os seus raios o extremo do mastro real do meu navio, a quilha d'este rasgará as ondas orgulhosas do Adriatico em direcção á ilha, respondeu Othello. Mas antes, Senhoria, ordena-me o coração e a lealdade responder ás accusações d'este velho e deixar terminado este assumpto. Peço-vos que não me negueis o favor de me ouvirdes e de fallar agora mesmo na causa que vou submetter ao vosso recto juizo, Senhoria; porque, apesar de tudo, poderia morrer na nova empreza que vou emprehender e por cousa nenhuma do mundo quereria que pezasse sobre o meu nome a affronta que Brabancio acaba de lançar sobre elle com as suas palavras, ante o Conselho...
—Falla pois, Othello—disse o Doge, com deferencia;—mas, como ha pouco disseste, procura ser breve, o mais breve que te seja possivel, porque não ignoras que o tempo urge e os momentos perdidos são preciosos.
—A brevidade convem a todos—disse o africano;—porém mais a mim do que a ninguem, porque d'ella depende o exito do meu plano de batalha e da sorte da minha existencia. Não receieis pois, Senhoria, e escutem, ouçam-me todos, com os corações de homens e toda a consciencia de magistrados, porque é a minha honra, a minha vida e a minha felicidade que jogo n'este momento.
Calou-se o mouro e, durante alguns instantes, pareceu como abstrahido em meditação dolorosa; depois, erguendo a altiva e bronzeada fronte com o gesto leonino que lhe era peculiar, olhou cara a cara para o Doge e para os individuos do Conselho com olhos nos quaes se reflectia toda a lealdade do seu grande caracter, e começou em voz grave e pausada, que condizia perfeitamente com a soberba majestade da attitude:
Barbancio accusou-me ante vós, Senhoria, de que esta noute lhe raptei a filha para deshonral-a e deshonral-o a elle e a toda a nobreza da Republica.
—E assim é; atreve-te a negál-o! gritou fóra de si o velho senador, a quem a recordação do rapto da filha despertara toda a colera que, durante momentos, havia parecido abandonál-o.
—Nego-o, porque não é verdade—respondeu friamente Othello— Desdemona deixou esta noute a casa de seu pae para seguir-me, para acompanhar seu esposo, porque meia hora depois de ter pisado o tapete da minha gondola, enlaçava-se com o meu o seu destino ante os altares.
—É mentira, uma infame mentira!—rugiu o velho—A minha filha não póde ser a esposa de um cão hereje como tu!
—Tanto póde, que o é—affirmou categoricamente o mouro, sem perder nem por um momento o sangue frio.—Além d'isso, não casou com um hereje, pois creio no Deus dos christãos, porque é o Deus da mulher que adoro.
—Então é porque a enlouqueceste, porque a embruxaste com feiticerias e artes magicas!—exclamou Brabancio no paroxismo da ira. D'outro modo, é admissivel que uma donzella tão pura, tão formosa e delicada como Desdemona, se enamorasse de um horrivel negro como tu?
D'esta vez as palavras do colerico velho feriram por certo alguma fibra sensivel e devéras intima do coração de Othello, porque a côr bronzeada do mouro branqueou durante um segundo, e o general, erguendo mais ainda o alto e poderoso busto, murmurou com voz moderada, mas na qual, apesar de tudo, se sentia vibrar um furacão de sentimentos ignorados.
—Sempre a mesma phrase! Um horrivel negro! Como se ha-de enamorar uma virgem, bella e pura como Desdemona, de um horrivel monstro como Othello! Ignoro, senhor—continuou o africano dirigindo-se d'esta vez ao senador,—se as mulheres veem mais longe e mais profundo do que os homens, mas para dita nossa e honra sua é preciso acreditar que sim, e que a vossa filha viu a minha alma. A minha alma, ouvem, senhores? que é a de um homem como vós, como a vossa, velho implacavel, como a de todos os homens brancos emfim, e que ainda talvez valha mais do que a de muitos d'esses, porque está firmemente temperada na desventura e na lucta pela existencia.! Uma lucta horrivel, espantosa capaz de aniquillar, o melhor coração de toda a nobreza veneziana á qual—continuou com gesto de leão,—egualo, se não supero em raça, porque se ella nasceu em berço doirado, o brilho de uma corôa real illuminou meu nascimento. Sim, orgulhoso nobre; sou, quando menos, teu egual, porque descendo de reis, e sou teu superior em valor moral, porque estou purificado pela desgraça. Vencidos meus paes por um inimigo, não tão poderoso, porem mais astuto e mais cobarde do que elles, fui vendido com meus escravos, como um egual de taes miseraveis. Sim, o leão foi comprado revolto e mettido entre uma jaula de cães; mas a escravatura não se fez para os leões e eu fugi da minha jaula matando os guardas e correndo para o deserto, que era o meu ambiente natural. Ali lutei com as féras para disputar-lhes o alimento, e digo-te sinceramente que ellas são mais leaes e mais nobres na luta do que a maioria dos homens com quem tenho deparado antes e depois de vencel-as. Mais tarde, farto da solidão, fui de povo em povo, de nação em nação, e desde o estreito de Gibraltar até ao dos Dardanelos, reguei o caminho com sangue de cobardes e lagrimas de corações agradecidos. Quando, por ultimo, o Destino me trouxe para entre os vossos, a Republica tremia como presa prestes a ser devorada pelo turco, pelo genovez, pelo florentino, pelo romano, por todos os seus inimigos, emfim. E eu firmei-a; derrotei aquelles que queriam a sua queda para a fazerem em pedaços, dei estabilidade á Republica vacilante, e a minha mão acostumada a apertar sem tremer a garganta dos tigres, cravou no ponto, mais alto da Europa a bandeira de Veneza.
«Que sangue haverá, pois, na cidade de S. Marcos que possa envergonhar-se de se misturar com o meu?
Calou-se o mouro por um momento, e por toda a salla pareceu vibrar a sua potente voz. Othello continuou, sempre dirigindo-se a Brabancio:
—Tua filha sabia tudo isto, sim, sabia-o, porque eu proprio lh'o havia contado; conhece a minha historia, leu em meus olhos e bebeu nas minhas palavras a formidavel e sangrenta epopeia da minha vida; viu-me tal qual sou, e não como me veem os outros, como tu me vês, cego pela ira, e, em vez de achar em mim o monstro a que te referes, viu apenas o homem de coração, que sabe triumphar do Destino e dos homens, e começou por admirar-me, como um ser que valia mais do que todos os fatuos inuteis e vadios que a rodeavam; para concluir, amou-me com o mesmo amor profundo e infinito com que eu a amo. Este é todo o nosso crime, e por elle peço que nos julguem—terminou dizendo, dirigindo-se ao Doge e aos membros do Conselho.
—Tudo quanto disseste nada é mais do que palavras e só palavras!—gritou Brabancio desesperado, pois temia que o prestigio que rodeava Othello inclinasse em seu favor os que tinham de o julgar.—«Os factos fallarão mais alto do que tudo quanto possas dizer em teu abono! Minha filha! Confessa onde occultaste Desdemona! Minha filha que compareça ante vós, senhores, e ella desmentirá essa ridicula novella que acaba de contar-vos este homem, para disfarçar o indigno recurso de que se valeu para desvairar o cerebro e annular a vontade de uma virgem pura e innocente como a propria innocencia!
—É justo—assentiu o Doge, dirigindo-se a Othello.—a tua causa está bem apresentada e melhor defendida por ti mesmo; mas para tratarmos d'ella equitativamente, é necessario ouvir as duas partes. Diz, pois, onde se encontra Desdemona, e nós a faremos comparecer sem perda de tempo para deixar ultimado este assumpto. Porque urge aclarál-o até ao fim; se és realmente, como julgamos, digno da confiança que em ti deposita a Republica, ao enviar-te hoje de novo a defendel-a contra os seus inimigos, ou se terá razão o senador em te accusar com a aspereza com que acaba de fazel-o; em tal caso, as leis do estado, que podem alcançar a minha propria senhoria, haviam de alcançar-te tambem, fatal e necessariamente. Responde, general, onde está Desdemona?
—A dois passos d'aqui, e nada mais facil, para vós, de que mandal-a comparecer aqui e ouvirdes de seus labios as palavras que hão-de perder-me ou salvar-me, visto que daes mais valor ao testemunho de uma mulher do que ao juramento de um homem— respondeu Othello n'um tom de sentida amargura.
—Como!—exclamou o Doge tão surprehendido como todos os circumstantes, e sem prestar attenção na maneira como o mouro pronunciára as ultimas palavras.—Dizes que está aqui Desdemona?
—Sim—respondeu o general—disse.
—Suponho—replicou gravemente o Doge,—que não ignoras que o sitio em que te encontras é o menos a proposito para gracejos?
—Não gracejo nunca—respondeu com certo desdém Othello— Quando me dispuz a seguir os individuos que me enviaste, e depois de ter ouvido Brabancio insultar-me e ameaçar-me com pedir-vos justiça contra mim este mesma noute, considerei, como era logico, que necessitaria apresentar a melhor e a unica testemunha de confiança que póde fallar em meu favor. Por conseguinte, pedi ao meu tenente Cassio que fosse onde estava Desdemona e lhe rogasse em meu nome que o acompanhasse aqui, dizendo-lhe do que se tratava. Ora bem; como estou convencido de que Cassio terá cumprido as minhas ordens, pois é fiel e amigo até á morte, e jámais desobedeceu a quem serve, respondo como já disse, que bastará que que mandeis chamar Desdemona para que esta compareça ante o Conselho.
Com effeito, apenas o Doge deu a um porteiro ordem de que mandasse entrar na sala a filha do senador Brabancio, esta apareceu vestida de branco, com o traje de noiva que talvez não tivesse tido tempo ainda de tirar. Surgiu bellissima na sua pallidez, e serena e firme como estatua de Diana.
Brabancio e todos os circumstantes, exceptuando Othello, soltaram uma exclamação de surpreza e assombro, ao vel-a apparecer como visão celestial, e o Doge disse-lhe com voz affectuosa:
—Approxima-te, preciosa Desdemona, e nada receis, porque a lei e o cavalheirismo te protegem!
A joven aproximou-se com passo certo e firme da mesa do Conselho, sem parecer fixar a attenção em Othello nem no proprio pae, e parando a respeitosa distancia dos juizes, perguntou:
—Que deseja sua Senhoria de mim?
—Que respondas, sob juramento, ás perguntas que vou fazer-te, sem que o medo ou o pezo, nem nenhuma outra consideração humana, te façam occultar a verdade. Comprehendeste?
—Perfeitamente—respondeu com sangue frio Desdemona—Devo advertir-vos, Senhoria, de que não tenho de que recear, e menos de que me envergonhar, e que os meus labios jámais se mancharam com a mentira.
—Acredito e applaudo-te com toda a minha alma—disse o Doge com benevolencia—Agora, responde: conheces esse homem que está a tua direita?—e apontou, indicando Othello.
—Sim, Senhoria, conhece-o e amo-o, porque é meu esposo ante Deus e ante os homens, ha tres horas; juro-o por Christo crucificado, assim como juro que esta noute, por minha propria vontade e sem que ninguem me compellisse nem sequer aconselhasse, abandonei a casa de meu pae para o seguir.
—Mentira! gritou o velho senador desvairado pela colera—Essa mulher está louca, completamente louca! Se assim não fosse, nunca se atreveria a dizer, deante de mim, seu pae, semelhantes vergonhas.
—Não são vergonhas, pae e senhor meu—replicou respeitosa mas firmemente a joven;—mas simples verdades: deixei a casa paterna para seguir meu marido, como, ha muitos annos, tu abandonaste aquella que era tua para seguir tua mulher.
—Maldita, maldita sejas, filha desalmada e sem coração! Aborreço-te e amaldiçoo-te, e nunca mais tornarás a vêr teu pae! Juro-o pelos santos Evangelhos e pela fidalguia da minha raça. Adeus para sempre, e que a minha maldição te persiga por toda a parte!
E completamente transtornado pela desesperação e pela ira que o suffocava, o implacavel velho abandonou, tremendo e cambaleando, a sala do conselho.
—Não chores, preciosa Desdemona, disse o Doge affectuosamente á joven, ao vel-a enxugar as lagrimas que lhe inundavam as faces nacaradas.—A colera de teu pae, ainda que injusta até certo ponto, é no entanto explicavel.
«Mas espero que tão depressa recobre a tranquilidade e o sangue frio, reflectirá e conquistarás de novo todo o seu carinho. No entanto, continuou dirigindo-se a Othello, devolvo-te a estima e a confiança que sempre tive no teu valor e na tua bem provada lealdade. Damos, pois, por terminado este enfadonho assumpto, e dispoe-te a emprehender viagem sem perda de tempo.
—Viagem! exclamou Desdemona estupefacta. Como, Senhoria! Ides affastar assim de mim, tão de repente, o meu esposo, deixando-me na solidão e no abandono mais desconsoladores?
—Assim é necessario, linda Desdemona! respondeu o Doge n'um tom compassivo. Crê que o lamento com toda a minha alma, mas exige-o a salvação e a honra da Republica.
—E onde o mandaes? perguntou a triste desposada com a maior amargura.
—A Chypre, que está ameaçada pelos turcos, e onde faz falta a presença do general mais habil e valente que tem o estado, disse o Doge.
—Pois bem, respondeu a joven n'um tom de resolução inquebrantavel—irei tambem com elle a Chypre. Não diz o Apostolo que a mulher deve seguir o marido? Pois eu opponho-me com toda a minha alma a separar-me d'aquelle que a Providencia collocou no meu caminho.
—Mas, e os perigos a que te vaes expor, indo na sua companhia? observou o Doge.
—Não me importam. Seguil-o-hia, embora soubesse que caminhava para a morte, respondeu a corajosa joven.
O Doge consultou Othello com o olhar, e este sentindo-se tacitamente apoiado pela poderosa Senhoria, atreveu-se a dizer:
—Realmente, não vejo inconveniente em que minha esposa me siga, visto não receiar os perigos que vamos correr juntos. Por outro lado, a mulher de um guerreiro deve ser animosa, e além d'isto a sua presença, longe de diminuir ou quebrantar o meu valor ou os meus talentos militares, multipolical-os-ha até o infinito. Por consequencia, se sua Senhoria e o sabio e prudente Conselho não se oppõem a tal resolução, levarei minha esposa comigo á ilha de Chypre, para onde partirei d'aqui a uma hora. Mas, proseguiu, olhando para Desdemona, para poupar os riscos da viagem, peço ao Conselho que me auctorize a levar comigo todos os officiaes que me são dedicados e que estão acostumados a combater sob as minhas ordens. De este modo, se morrer em qualquer recontro com os turcos durante a expedição, sei que o meu tenente Cassio e o meu alferes Iago, que são meus irmãos de armas, velarão por minha mulher, como faria sua propria mãe.
Assim ficou combinado e, passada uma hora, Othello e Desdemona, com os officiaes favoritos do general, embarcaram em direcção á ilha de Chypre.
O que todos ignoravam a bordo, exceptuando o alferes Iago, que nem o confessou á propria mulher, Emilia, aia de Desdemona, era que, no mesmo navio que albergava os dois felizes esposos, ia tambem o nobre Rodrigo, sobrinho de Brabancio e primo de Desdemona, da qual estava loucamente apaixonado, e a cuja posse não renunciava, apezar de Iago lhe haver dado a noticia de que n'aquella madrugada se realisára o matrimonio da joven.
Mas o alferes de Othello, dotado do maior cynismo, constando que o seu nobre amigo se desesperava, renunciando para sempre ao objecto da sua paixão ao comtemplal-o nos braços de outro, riu-se d'elle e quasi o obrigou a que o acompanhasse a Chypre, disfarçado de marinheiro, promettendo-lhe que, se, como havia dito antes, não lhe desobedecesse em coisa alguma, e muito menos lhe negasse o ouro que corrompe todas as consciencias, arranjaria tudo de fórma a n'um prazo curto, que nunca excederia um mez, a candida e innocente prima cahiria, louca de amor, nos braços do apaixonado primo.
Mas, o que pretendia o mizeravel com tudo isto, era, sómente, enriquecer á custa das joias e do dinheiro de que havia obrigado a prover o ingenuo Rodrigo, e ter este como uma corda mais no arco, para quando chegasse o momento de disparar a envenenada flecha destinada a despedaçar o coração do homem generoso que o acolhera sob a sua protecção e lhe déra a sua amizade e o seu carinho, bem longe de suppôr que abrigava no seio a vibora, que depois havia de causar-lhe a morte com a mordedura venenosa.
Mas não nos adeantemos aos acontecimentos, e sigamos passo a passo o curso da terrivel tragedia que chegou a immortalizar a perfidia de um invejoso e os ciumes de um amante, cujo unico crime consistiu em ser propenso ás paixões, e dispôr de tempera superior áquella em que está forjada a vulgaridade dos homens.