Ovelhas que voam se perdem no céu

Daniel Pellizzari · Capítulo 1 de 1

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Ovelhas que voam se perdem no céu

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OVELHAS QUE VOAM

SE PERDEM NO CÉU

daniel pellizzari

 

Porto Alegre, 2004

3a edição revista

 

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teias 5

o vôo das ovelhas 6

as boas maneiras do acaso 11

felicidade talvez 12

jardim de infância 19

história de amor número 17 21

um hamster 23

arnaldo e os moinhos 25

diotima 33

missal para rastejantes 39

os calos de sísifo 45

monga 49

gravidade 54

a fronteira no fim do mundo 57

paloma 61

tango sobremesa 65

chamada a cobrar 70

ponto de fuga 74

 

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Ah,

dessa vez é vírgula em lugar de vírgula,

crase em lugar de crase.

Todo fixo vira móvel,

desde o primeiro ai até o último par de ases.

Mariana E. Messias, NÃO

 

Lembro do dia em que Deus me veio

Navegando barbudo por entre brumas alaranjadas.

Veio seco como quem sai de um freezer.

Pra minha surpresa Deus era macho mesmo.

Joana Lenz Cesar, DELEITE MALVADO

 

para meus pais

 

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teias

 

Fizera amizade com as aranhas que viviam no banheiro de sua nova casa. Enormes e um pouco tímidas, entendiam que quando ele sentava no trono elas deviam manter distância. Satisfeito, ele pensava Como são legais, essas aranhas.

Achava divertido catar insetinhos no pátio e largá-los em suas teias, vê-las transformá-los em casulos e depois cráu!, su-gar todos os líquidos da vítima até deixar só uma casca sequi-nha. Deve ser bem ruim morrer assim, ponderava, e ia até a cozinha desistir mais uma vez de lavar a louça acumulada.

Dia desses acordou de mau humor. Sem nem abrir os olhos direito ligou o chuveiro pela primeira vez e matou a maior das aranhas. Morreu afogada e um pouco surpresa, sem saber direito o que estava acontecendo. Encolheu as per-nas finas e compridamente gigantes e escorreu pelo ralo com a água. Ele esfregou os olhos e disse em voz alta Sou um menino mau. Depois, ficou horas ajoelhado no chão do ba-nheiro pedindo desculpas pela crueldade para a aranha que se mudara para trás da porta. Ela, imóvel, parecia escutar com atenção. Sentiu-se perdoado.

Ontem, depois de acordar, pegou um aspirador de pó e exterminou todas as aranhas da casa.

 

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o vôo das ovelhas

 

Eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos –

as cousas não têm significação; têm existência.

As cousas são o o único sentido oculto das cousas.

Fernando Pessoa

 

Eu sou Genésio. Genésio tem um saco cheio de vales-transpor-te. Genésio fica parado em frente aos prédios da Voluntários da Pátria anunciando que tem vales e aproveita para vender tam-bém carteiras de cigarro a sessenta centavos cada. Genésio anda satisfeito porque ultimamente muitos Genésios compram as car-teiras de cigarro, e alguns deles também compram e vendem vales-transporte. Genésio fica de pé a maior parte do dia, repe-tindo Vale vale vale vale vale sem parar. Genésio almoça um cachoro-quente de cinquenta centavos, um real com refri. Genésio aperta os olhos e espreme os beiços quando alguma menina gostosinha passa na calçada. Quando chega em casa, Genésio vira caldo de cana.

Já faz uns doze anos que estou aqui nesse hospital pra gente louca, e o que mais faço o dia inteiro é ficar sentado na frente das árvores pitando um cigarro e me mexendo de leve pra frente e pra trás. Eu não sou louco, mas consigo enganar todo mundo, até os médicos. Vim pra cá depois de quebrar tudo em casa e dar umas porradas no meu pai. Ele merecia,

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era um filho da puta que só sacaneava minha mãe. Bati nele até ficar com a cara cheia de sangue. Eu sou um cara grande, dou porrada em quem quiser como quem amacia carne de gado. Quando a polícia chegou comecei a me fa-zer de louco, a não falar coisa com coisa e de vez em quan-do rir sem parar. Aí me trouxeram pra cá e aqui fiquei até hoje. Já estou até barrigudo, porque não faço muita coisa e aqui os sujeitos te enchem de comida mesmo quando você não está a fim. Antes eu não comia muito, mas quando me dei conta que comer e fumar eram as únicas coisas que se tinha pra fazer neste lugar comecei a encher o bucho sem-pre que surge a oportunidade.

Eu sou Rita. Rita tem uma caixa cheia de despertadores à sua frente. Rita escuta os despertadores tocarem sem parar o tempo todo em meio ao barulho da Voluntários da Pátria. Rita tem trinta e cinco anos, um rosto que aparenta quarenta e cinco e um corpo mais em dia do que os de muitas outras Ritas de vinte e cinco. Rita diz para todos que não se incomoda nem um pouco com os bipbipbipbipbipbipbip dos despertadores que vende, mas de noite não consegue dormir porque está sentindo muita dor de cabeça. Rita não escuta quando alguém que passa a chama de gostosa, porque o som dos despertadores é mais alto. Rita também vende guarda-chuvas quando o tem-po está ruim. Quando chega em casa, Rita vira coxão mole.

Os médicos me enchem de remédios, e eu tomo todos. No começo eu fingia que engolia e depois cuspia fora, e pra continuar fazendo de conta que era louco eu de vez em quan-do quebrava a cara de algum dos loucos de verdade que fi-

 

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cam aqui junto comigo. Aí apareciam do nada um monte de atendentes, me agarravam por todos os lados e me amarra-vam numa cama, onde eu ficava horas. Não é uma coisa muito legal. Dá vontade de mijar, de cagar, e você não pode fazer nada. Tem uns que sujam a cama inteira. Mas o pior mesmo é quando dá coceira, porque se você não coça na hora ela vai aumentando, aumentando, até tomar conta de todo o corpo. E amarrado numa cama você não tem como se coçar, porra. Foi por essas coisas e por estar um pouco cansa-do de brigar que eu comecei a tomar os remédios direitinho. Engulo tudo a seco e fico quieto no meu canto, me fazendo de louco sob controle. Os médicos ficam satisfeitos, os atendentes também, e ninguém me enche o saco.

Eu sou Marciano. Marciano tem centenas de papéis na mão. Marciano fica encostado em um poste da Voluntários da Pátria distribuindo folhetos e recebendo apostas do jogo do bicho. Mar-ciano fica puto da cara quando alguém não pega um de seus folhetos anunciando corte de cabelo a três reais (aluno) e cinco (profissional), mas fica feliz quando algum outro Marciano ga-nha algum trocado no bicho. Marciano pensa que isso fará com que eles comecem a acreditar que ele dá sorte, e é mais ou menos assim que essa coisa toda funciona. Marciano está sempre com caganeira, mas não sabe o motivo. Quando chega em casa, Mar-ciano vira feijão.

Hoje minha mãe apareceu de novo aqui no hospital. Ela faz isso meio que uma vez ou duas por ano, e eu sempre percebo que ela tá chegando. Eu estou ali no banco, sentado na frente das árvores, pitando meu cigarro, e de repente escu-

 

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to os passinhos dela. Não tem como confundir. É uma coisa pequenininha, que vem arrastando os pés dum jeito que só ela faz. Cada vez que ela aparece tá mais velhinha, mais cheia de rugas e com as pelancas da cara se descolando todas. Eu sinto ela chegando devagarinho por trás de mim e eu faço que nem ligo. Ela fica na minha frente um tempo, me olhan-do como se eu estivesse longe, perdido, e eu continuo me fingindo de louco, indo pra frente e pra trás, porque se algum médico me enxergar dando um abraço ou até falando com ela é capaz de descobrir meu segredo e me mandar pra fora do hospital e aí mesmo é que eu vou me foder. A mãe senta do meu lado e às vezes toca em mim e eu nada. Uma vez ela me deu uns socos no braço até que chegou uma enfermeira e levou ela embora. Em um bando de vezes ela só fica quieta, chorando. Uma coisa que ela sempre faz é dizer Sou eu, meu filho, sua mãe. Mas eu fico quieto, pra frente e pra trás, fu-mando o filtro do cigarro até queimar meus dedos. Eu sei que é você, mãe, claro que eu sei. Não estou louco, é só fingimento. Eu também te amo, mãe, mas não vou dizer nada porque os médicos podem ouvir. Eu preciso guardar segredo, mãe. Volta ano que vem, tá? Eu gosto quando você vem, mãe, gosto mesmo. Não chora. Cuida bem dos meus irmãos que eles precisam, tá bom? Eles não são espertos como eu. Tchau, mãe. Até daqui a um ano. A gente se vê.

Eu sou Osvaldo. Osvaldo tem um microfone. Osvaldo fica em frente a uma loja da Voluntários da Pátria anunciando pro-dutos e ficando de olho para ver se algum outro Osvaldo não rouba alguma camiseta de três reais e cinquenta centavos. Os-

 

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valdo tem voz de radialista, mas não nasceu assim. Osvaldo apren-deu a falar desse jeito em um curso do SENAC. Osvaldo ri de vez em quando com o microfone em punho e fala coisas que acha engraçadas quando avista alguma menina gostosinha passando na calçada. Quando chega em casa, Osvaldo vira rapadura.

 

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as boas maneiras do acaso

 

Sempre reclamava do barulho dos vizinhos.

Um dia foi reclamar do silêncio, mas eles tinham se mudado.

Nunca mais conseguiu dormir.

 

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felicidade talvez

 

CENA UM

 

Às vezes confundo Rimbaud com Baudelaire, mas não me importo muito porque a maioria das pessoas que conhe-ço nunca ouviu falar de nenhum deles. Estas duas garotas que estão comigo, por exemplo, não devem saber nem onde fica a França. Na Europa, a loira com cara de morena me responde. A morena com cara de índia não se move, finge que dorme na cama desarrumada. Me fala mais da França, eu peço, e ela me vem com torre Eiffel, Guerra dos Cem Anos, Joana D’Arc, Asterix, Revolução Francesa, Danton, Marat e Platini. A vida tem suas surpresas. Ah, e Sartre.

Sento na cama, as molas fazem barulho assim nhéc-nhéc e eu fico fazendo nhéc-nhéc até que de repente a índia come-ça a sangrar bem em cima do lençol que até agora não estava muito sujo. Estava tão branco, agora tem uma mancha ver-melho escura, estou menstruada, ela diz, tô vendo. Fecho os olhos e sinto meus cabelos esvoaçarem, é bem bom esse ven-tilador, respiro fundo e o cheiro entre azedo e doce me inva-de as narinas, chego até a sentir o gosto, sangue sempre tem um quê metálico no fundo. A loira que qualquer um vê que não é fica remexendo em uma grande bolsa de couro, as so-

 

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brancelhas dançam fazendo arcos, a boca se espreme em um canto, ela tem uma expressão meio boba mas gosto dela, então surge um sorriso, acho que ela encontrou o que estava procurando.

Me atira a caixinha de OB, não consigo alcançar, sabe, eu não acredito muito nas leis da Física, pego a caixinha do chão, tamanho médio, eu brinco ihh vai precisar de supergrande e a índia me dá um tapa nas costas, não dói mas ela pede desculpas. Rindo eu peço para colocar o OB nela, a loira falsa tranca os dentes como se estivesse sentindo alguma dor e balança a cabeça, a índia me olha e olha pro sangue e me olha e diz não, você não sabe fazer isso. Sei sim, eu digo, e ela arranca o OB da minha mão e diz vira pra lá. Fico olhando: sempre fui muito curioso.

— Você é mesmo virgem?

Claro, ela responde. Ah. Só pra confirmar.

 

CENA DOIS

 

Saiu do banheiro sorrindo. Abriu as janelas do quarto pela primeira vez em muito tempo, e seus olhos desacostu-mados com o sol da manhã se contraíram. Começou a vestir as roupas que deixara separadas sobre a cama. Pensou em fumar um cigarro, mas desistiu, não queria sujar o cinzeiro. A casa estava arrumada, passara o dia anterior limpando tudo,

 

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esfregando cada canto, tirando o pó de cada rodapé. Guar-dou os cigarros na mochila, e também o tarô, mas deixou o isqueiro que falhava nas horas mais impróprias. Foi até a co-zinha e pegou uma caixa de fósforos.

Deixou Billie Holiday cantando no quarto e trancou a porta do apartamento. Apertou várias vezes o botão do ele-vador como se isso o fizesse vir mais rápido, mas ele demo-rou como sempre. Deu bom-dia para o velhinho que fez um comentário sobre o tempo, e esse calor, é mesmo, pois é. A gorda do último andar achava que talvez estivesse mais de quarenta graus. Na caixa de correspondência, que abriu de-vagar, apenas uma propaganda de lavanderia. O porteiro to-mava chimarrão, indiferente ao calor.

Dentro do ônibus comprou um pacote de incenso do Hare Krishna sorridente que entrara sem pagar e que também quis lhe vender um livro, mas não havia espaço na mochila. Acen-deu uma vareta ali mesmo, e a mulher que sentava do seu lado suspirou e retorceu os lábios finos, fazendo as rugas apa-recerem ainda mais. O homem de paletó disse que era proi-bido fumar dentro do ônibus, não se importou, não estava fumando nada. Ficou segurando o incenso entre o polegar e o indicador, o cheiro doce e forte se misturando com o azedo do suor do ônibus, a fumaça subindo lentamente e fugindo pelas janelas.

Desceu na rodoviária, mas não entrou. Caminhou direto para o início da estrada, os coturnos fazendo barulho na cal-çada. Preferia estar usando um tênis, mas não tinha nenhum. Parou no acostamento. Uma das mãos segurava a alça da

 

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mochila, a outra empunhava um cigarro. Esperou. Primeiro um caminhoneiro que babava na barba quando falava, de-pois um garoto de olhos vermelhos que não devia ter cartei-ra, então uma mulher com uma garotinha, logo atrás um ve-lho que odiava o cheiro de cigarros. Nenhum ia para o lugar que ela desejava. Sentou. Um carro antigo e barulhento abriu a porta. Uma mulher bem morena, talvez árabe, aparentan-do a mesma idade que ela. Para onde você está indo, quis saber. A mulher do carro olhou para o teto encardido:

— Ah, qualquer lugar. Você se importa?

Meneou a cabeça dizendo que não, e entrou no carro. Colocou a mochila no colo, procurou um cinto de segurança que não existia e achou a motorista ainda mais bonita de perto. Cítaras saíam dos alto-falantes, quem sabe ela era in-diana. Perguntou:

— Posso acender um incenso?

Claro, disse a outra, e sorriu.

 

CENA TRÊS

 

Noite, acho que sábado. Sentado eu, sentada ela, senta-dos nós na frente do que restou de algo que um dia foi um rio. Fico olhando a água suja bater de leve em uma garrafa de plástico cravado na areia e o barulhinho que faz bem de leve, o vento está forte e não consigo escutar muito bem. Quero

 

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ver estrelas mas também não consigo, há muitas nuvens, mal consigo achar um risquinho de lua. Que noite mais sem gra-ça. Um céu vazio, um rio morto, uma areia cheia de cadáve-res da civilização e nós, quem sabe zumbis. Atrás de nós há uma rua que também parece morta, não há ninguém, não há viv’alma, como diria minha avó se ainda estivesse viva. Olho para trás e busco movimento mas só há portas fechadas, luzes apagadas e o vento. A iluminação da rua é pálida e embaçada, tuberculosa (minha avó: tísica). Há dois chuvei-ros permanentemente ligados, um desperdício estúpido, mas é bonito o vento levando a água antes que ela caia na areia.

Ela acende mais uma vez o cachimbo. A extremidade é de cerâmica, na forma da cabeça de um gato. Pergunta se não vi a polícia, não, tá tudo limpo, vai fundo. A pequena chama do isqueiro não resiste ao vento, e ela aproveita para colocar um pouco mais de fumo na cabeça do gato. Faço uma con-cha com as mãos, ah é tão bom o calorzinho, acendeu, ela me dá o cachimbo. Dou uma duas três tragadas e fico pren-sando enquanto imagino uma caravela ao longe, navegando em meio aos pneus carecas e potes de margarina. Aos poucos deixo a fumaça ir saindo, sinto um vácuo onde deveria estar meu cérebro, lá vem a caravela, Peter Pan está vindo me bus-car para a Terra do Nunca, agora eu vejo, o navio é do Capi-tão Gancho, ele também quer minha alma. Deixo minha cabeça que agora pesa toneladas cair entre meus braços cru-zados sobre as pernas, respiro fundo e vejo que ela já está me estendendo novamente o cachimbo. Eu digo obrigado Sininho e dou mais uma tragada.

 

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Leve (fala, vovó: emaconhado), eu me encosto nela e quase caio porque ela não está ao meu lado, está escondendo o fumo bem atrás de mim, dentro de um tijolo. Dá um grito de nojo e diz que enfiou o dedo em uma coisa gosmenta, você estuprou um caramujo, eu digo, o coitado devia estar ali relaxando, escondido no meio da umidade de uns tijolos ve-lhos, e você estuprou o bicho. Ela ri um sorriso tão bonito, adoráveis caninos, senta novamente ao meu lado, e ficamos rindo rindo rindo até eu começar a soluçar.

De repente eu olho de novo para o céu sem estrelas e a água sem vida e a areia cheia de merda. Vejo bem ao longe as luzes da cidade, o monstro dorme, eu digo mas ela não escu-ta, ainda está rindo e então me olha e pára de rir e pergunta o que houve. Começo a praguejar contra tudo a cidade a civili-zação a sociedade a vida Deus o Universo, ela se une a meu protesto e ficamos ali, vomitando clichês que devem ter algo de verdade porque de outra forma nunca teriam se tornado clichês; a cobra masca o rabo. Passa o tempo e o vento venta mais e mais frio e ficamos cansados de reclamar, suspiramos juntos e quietos nos encostamos de leve um no outro, engen-drando revoluções em silêncio.

Quando a pontinha do sol começa a surgir lá no fundo, céu ainda escuro mas não tanto, reúno o que ainda me sobra de fôlego e digo porra, como é amarga essa bosta de vida. Ela me olha com um sorriso de criança e abre a bolsa, de onde tira um livro, Do Assassinato como uma das Belas-Artes, e do meio das páginas de letras minúsculas tira dois retângulos de papel, bem pequeninos. Então abre a boca que eu vou te dar um doce, ela diz.

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— Isso é o que eu estou pensando? – pergunto, o cora-ção batendo feliz.

Claro, ela diz, e eu abro a boca e me deixo ir para a Terra do Nunca.

 

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jardim de infância

 

pra jana k,

sempre a rainha

 

Dentro do carro, a menina gruda as mãos e o nariz no vidro, apertando os olhos para enxergar melhor através da sujeira. Uma mulher abre a porta. A menina pula para fora, sorri-dente, quatro anos. Agarra a mão da mulher com força e a puxa em direção à multidão. Diz:

— Mãe, eu sou a rainha das abelhas!

A mulher assente com a cabeça, contente, olhando para a filha em sua fantasia de abelha, perfeita, das asas às antenas. Dá um último retoque no ferrão, que estava um pouco torto, e diz:

— Vamos lá, filhinha. Todo mundo está esperando.

A menina arrasta a mãe pela saia, abrindo caminho por entre as pessoas que a separam do palco. Grita:

— Eu sou a rainha das abelhas, me deixem passar! Eu sou a rainha das abelhas!

Pára de repente, e quase cai. Olha sem piscar na direção do palco, enquanto a mãe lhe observa, surpresa. A menina passa os dedos no nariz e murmura abelhas enquanto olha de novo e de novo para as quinze garotinhas sobre o palco, todas

 

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vestidas com a mesma fantasia que ela. Sua mãe pergunta fi-lha? mas ela não reage. Olha agora para a menina vestida de rainha que ri e lhe mostra a língua. Sai correndo pelo meio do público, a mãe atrás. Chega no carro, abre a porta e senta no banco traseiro, gritando:

— Quero ir pra casa!

Sua mãe, um tanto atônita, entra no carro e dá a partida, enquanto a menina gruda novamente as mãos e o nariz no vidro, mas não parece se importar em enxergar mais nada.

 

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história de amor número 17

 

A rua ainda estava cheia de água quando ele saiu para com-prar o presente. Na primeira esquina em que parou o carro uma pedinte apareceu na janela com uma criança no colo. Abriu a carteira, tirou duas notas e disse Eu compro. A mu-lher pegou o dinheiro e entregou o bebê. Ele o acomodou no colo de modo que ainda pudesse dirigir e voltou para casa.

Deu um banho na criança para tirar a sujeira da rua. Esfregou bem cada dobrinha, sem usar sabonete. Seguiu para a cozinha e o colocou sobre a mesa. Pegou na gaveta o mar-telo de bater carne e deu um só golpe entre os olhos. O crânio ainda macio se esfacelou e um pouco dos miolos se espalhou pela mesa. O que ainda sobrava retirou com uma colher e colocou em uma vasilha. Pegou a faca e abriu a barriga. Ti-rou as tripas tendo o cuidado de reservar o fígado, e o resto guardou para os cachorros.

Foi até a churrasqueira e preparou o fogo. Voltou, salgou a carne e a enfiou inteira no espeto duplo. Nos que sobraram espetou também cebolas e alguns tomates. Colocou tudo para assar e voltou à cozinha para preparar a sobremesa. Pegou a vasilha com os miolos e colocou no liquidificador. Misturou com o pó de gelatina instantânea, colocou em uma panela e depois de pronto deixou na geladeira para ficar firme.

Os tomates e as cebolas acabaram queimando. Jogou fora e fez uma salada de endívias enquanto a carne terminava de

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assar. Picou o fígado em pedacinhos, temperou com alho, sal e pimenta, adicionou salsa e azeitonas e fez uma farofa na manteiga. Preparou a mesa de jantar com os talheres de prata e os candelabros.

Tudo pronto, abriu o vinho, colocou a carne na travessa e depois na mesa, acendeu as velas, sentou na poltrona da sala e ficou no escuro esperando ela chegar. No horário de sem-pre a porta se abriu e ela entrou segurando o guarda-chuva. Ele a pegou pela mão e a levou até a sala de jantar.

Ele disse Feliz aniversário querida, e sorriu. Ela olhou para a mesa posta, balançou a cabeça, resmungou Porra você é mesmo grosso onde já se viu churrasco à luz de velas e com talheres de prata seu imbecil, esfregou as mãos e saiu direto para a cama do quarto.

Olhando para o chão, ele foi até a cozinha, abriu a gela-deira e jogou a sobremesa no lixo. Naquela noite, mais uma vez, dormiu no sofá.

 

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um hamster

 

pra Mariana,

minha irmã

 

Esta gaiola está tão suja, os jornais embolados, fedor de merda e mijo espalhados, eu sei, mas não posso limpar. Isso é fun-ção do meu Dono, mas Ele não faz nada. Talvez tenha enjo-ado de mim. Sei que isso acontece: primeiro sou uma novi-dade, depois cansam. Humanos. O que me resta é viver como posso aqui dentro, e confesso que até já me acostumei. Já li diversas vezes as mesmas notícias desta página policial, deco-rei os crimes em todos os seus detalhes. Pelo menos não são os anúncios dos classificados. Além do mais, é verão, e o chão de metal da gaiola não congela minhas patas.

Passo os dias zanzando de um lado para o outro. Não há muitas coisas para fazer em um espaço tão pequeno. De vez em quando afio meus dentes no canto esquerdo da gaiola, para que não cresçam demais e perfurem meu céu da boca, me dilacerando o cérebro. Se eu comesse mais, não precisa-ria fazer isso, mas o problema é que até de me alimentar Ele esqueceu. Lembro dos dias em que meus potes estavam cheios de comida, sementes de girassol cenouras alfaces laranjas maçãs, sempre. Às vezes até nozes, e era bom. Eu sentia aque-le cheiro e corria aos potes, antes mesmo do Dono fechar a

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gaiola. Ele ria, enquanto eu enchia as bolsas de minhas bo-chechas com aquela fartura. Agora nem água eu tenho mais.

Ah, eu lembro de quando Ele trouxe amigos para me ver, e brincaram comigo. Um deles me apertou demais e eu mordi, e então me colocaram de volta na gaiola. Mesmo assim continuei a ganhar comida e água, como sempre. Mas um dia o Dono sumiu. Nunca mais senti seu cheiro. Desde então fico aqui no meio destes jornais sujos e dos potes va-zios, esperando. Já pensei em dar uma volta na minha rodinha, como sempre fazia, mas não tenho forças. Hoje decidi que não vou mais perambular pela gaiola, nem afiar dentes, nada. Ficarei quietinho aqui no meio da gaiola, es-perando. É tudo que posso fazer. Talvez Ele esteja com ver-gonha de voltar. Pode ser. Se for isso, eu prometo que O perdôo quando ele aparecer de novo, com nozes, água e o caderno de cultura. Admitirei até que O amo, juro. Mas Ele não volta, a porta do quarto não se abre, não escuto ne-nhum ruído na casa, as janelas continuam fechadas. Não há de ser nada. Um dia Ele aparece.

Respiro fundo, me deito e espero.

 

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arnaldo e os moinhos

 

Estavam em lugar nenhum, estacionados no acostamento da estrada quase vazia. Vamos sair do carro, o outro pediu, e Arnaldo obedeceu e sentou no capô azul. Não era mais que dez e meia da manhã. Nem uma só nuvem no céu, só um azul que se espalha-va por tudo e fazia uma composição com o verde pontilhado de áreas amarelas e vacas ruminando. Soprava um vento leve que não era mais que um bafo, e eles podiam sentir o calor rachando o asfalto e subindo pelas pernas. No horizonte, depois das vacas, um moinho.

 

•

Primeiro, foi o barulho. Um ruído monótono que se repetia, atrapalhando o sono. Abriu os olhos e vieram os vul-tos. Alguns negros, outros cinzentos, a maioria apenas som-bras. O barulho continuava. Com os dedos de unhas cortadas rente acariciou a pele do rosto, áspera e suada. Sentou-se na cama enorme, esqueceu do barulho e das sombras e lem-brou de si.

Arnaldo Morales. Sempre gostou do som de seu nome, da evocação quixotesca de seu sobrenome espanhol. Um homem franzino lutando contra os gigantes. Faltava-lhe um

 

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Sancho Pança, mas nenhum de seus colegas do escritório lhe parecia adequado. Na verdade, nenhum de seus conhe-cidos aceitaria tal cargo. Arnaldo, Don Morales de la Man-cha, o cavaleiro solitário de triste figura. Lembrou que nun-ca lera Dom Quixote.

Aos poucos, foi deixando a cama que um dia tinha sido de seus pais. Primeiro um pé, depois o outro, com uma len-tidão científica, como se estivesse experimentando a tempe-ratura do chão. O piso do velho apartamento onde morava com sua tia Eurides lhe enojava desde criança, por razões que não entendia. Seu quarto era o único cômodo acarpetado: no resto da casa ele brincava de amarelinha. Pululava pelo mosaico de tapetes como se ainda fosse um garotinho magri-cela e míope, embasbacado com o tamanho dos móveis, dos quadros e de tudo.

Caminhou pelo que chamava de reta dos mortos, um corredor adornado de ambos os lados por fotos de diversos parentes seus, todos já falecidos. Acendeu a luz e deu bom-dia para seus avós, seu tio Guillermo, alguns eternos desco-nhecidos e finalmente para seus pais. Ele também estava na foto, ainda um bebê, e não conseguia deixar de sentir-se mor-to de vez em quando. Chegou à cozinha.

— Bom dia, tia Eurides – balbuciou sem muita vontade, os olhos ainda se desgrudando um do outro.

Bom dia, respondeu Eurides, muito magra, encolhida, meio cega, mas imortal. Acordou tão cedo hoje, completou, com sua mania de fazer perguntas disfarçadas de comentários.

— Foi o liquidificador, tia.

 

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Ah, sorriu a tia com seus pequeninos dentes falsos.

— Você sabe que gosto de tomar minhas vitaminas quan-do acordo, meu filho.

Bocejando, Arnaldo fez que sim com a cabeça e procu-rou pelo jornal. Sentou-se à mesa e mordiscou um pão, en-quanto a tia lhe enchia um copo com vitamina de mamão e leite.

— Você sabe que eu odeio mamão, tia.

Mas faz bem para os ossos, replicou ela num tom de ordem.

— Bebe.

 

•

No escritório, entre números, papéis e carimbos, Arnaldo parou por um minuto e olhou para a mesa do lado. Entre a fumaça do cachimbo escondia-se Getúlio com sua careca, sua barriga fugindo pelos cantos da camisa e a eterna marca de suor embaixo das axilas. Ei, Getúlio, chamou. O colega se sacudiu na cadeira e olhou para Arnaldo por detrás dos pe-quenos óculos de aros retangulares. O que é, quis saber.

— Você já leu Dom Quixote?

Getúlio largou a caneta, tirou um lenço do bolso da ca-misa e passou pela testa calva pontilhada de suor. Deu mais uma pitada no cachimbo (o cheiro doce que Arnaldo tanto gostava) e perguntou:

— Como assim?

 

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— Dom Quixote. O livro, sabe? Aquele do cavaleiro.

O livro eu sei qual é, sorriu Getúlio. O que ele queria saber era o porquê da pergunta. Arnaldo trincou os dentes, olhou para o teto e ruminou um sorriso encabulado. Por fim respondeu:

— Por nada. Por nada.

Voltaram ao trabalho. O escritório estava se afogando em calor e umidade. Os grandes ventiladores de metal não funci-onavam, e sua presença era incômoda. Pareciam guardiões impiedosos, representando o chefe que Arnaldo não conhe-cia. Esqueceu por um tempo dos papéis e ficou olhando para a ponta dos sapatos. De repente, quando uma mosca pousou em sua mão esquerda, olhou novamente para Getúlio e cha-mou:

— Ei, Getúlio.

O colega tirou os óculos. Diga, Arnaldo.

— Você acha que existe mesmo alguma coisa infinita?

Arnaldo não escutou o riso abafado vindo da outra mesa, onde trabalhavam Marialva e seu excesso de maquiagem. Como sempre fazia, Getúlio pediu a Arnaldo para repetir o pergunta.

— Você acha que existe mesmo alguma coisa que seja infinita?

Antes que Getúlio pudesse começar a falar, Marialva se intrometeu, sem tirar os olhos das unhas:

— Existe sim, Arnaldo. É a paciência que o Getúlio tem para as perguntas que você faz.

Todos desataram a rir. Menos Arnaldo, que riu depois, já em casa, um pouco antes de cortar os pulsos.

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•

Arnaldus era conhecido e admirado em todo o Reino por sua bravura como soldado e dono de grandes espáduas cuja lança perfurou o crânio mole do senhor Matias. Mesmo assim, havia muita fofoca sobre seu animal de estimação, um porco do mato, e não havia quem não estranhasse sua decisão de tomar um mo-inho abandonado como residência.

 

•

Quando estava longe não incomodava tanto, mas o zum-bido foi chegando cada vez mais perto do ouvido e não adi-antava virar a cabeça para o outro lado. Era uma esquadri-lha. Abriu os olhos devagar, os cílios se desgrudando aos pou-cos, o zumbido mais alto a cada respiração, os olhos de novo fechados. Tentou jogar longe o lençol que grudava em suas pernas, mas seu corpo estava desfeito em gelatina. Desistiu. Procurou com os ouvidos o barulho do ventilador de teto. Ajudava a esquecer dos mosquitos e tinha um efeito mágico sobre o calor, apesar de não produzir nada além de ruídos. Fome. Legiões de mosquitos zumbindo, um ventilador barulhando ao invés de ventar, o ronco sustenido de um estô-mago e então um grito:

— Pai!

Desta vez Arnaldo abriu os olhos com força, ignorando a preguiça dos cílios e a tontura do corpo. Não conhecia a voz, que continuava:

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— Tem alguém aí? Alguém?

Eu, respondeu, sem saber mais o que dizer.

— Graças a Deus – a voz do outro estrebuchando — Graças a Deus.

Ainda confuso, passou as costas da mão para limpar o suor gelado da testa, estalou a língua que parecia uma lixa e piscou os olhos para tentar enxergar melhor seu vizinho. Do outro leito, com palavras degustadas, a voz continuou:

— Não me leve a mal, não. É que eu tenho um certo medo de ficar sozinho no escuro. Sabe como é, essas coisas de fobia.

Arnaldo disse sei sim em silêncio e o outro continuou:

— Ainda mais em hospital.

Agora já podia enxergar melhor e ficou observando com uma surpresa idiota a dança das mãos do vizinho, que não parava de gesticular enquanto falava, mesmo deitado. En-quanto movia as mãos sem parar, continuava a explicar seu medo: quando tinha uns oito anos fez uma cirurgia para cor-rigir um testículo recolhido. A operação não era das mais com-plicadas, mas o pós-operatório era um inferno.

— Além da vergonha, estava um inválido: não podia andar, porque cada uma de minhas bolas estava presa às mi-nhas coxas por um fiozinho bem fino.

Juro que é verdade, replicou, sério, quando Arnaldo deu uma risada. E explicou melhor: não estava com o saco gru-dado nas pernas, podia abri-las até um limite. Mas, se tentas-se andar e escorregasse, seria o fim. Enquanto convalescia, no hospital, era acompanhado de seu pai, que dormia em seu quarto todas as noites.

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— Naquela época eu podia ficar em quarto individual. Agora também posso, mas não quero.

Em uma das noites, acordou com um ataque de asma, e chamou pelo pai. Nada. Nenhuma resposta. Era inverno, e lá fora uma ventania abria caminho para uma possível tem-pestade. O silvo do vento parecia eco do som que arrancava dos pulmões. Chamou de novo pelo pai. Silêncio. Escuri-dão, vendaval, falta de ar e impossibilidade de se mover se juntaram então a uma vontade crescente de ir ao banheiro.

— Mas, porra, eu não podia caminhar com o saco da-quele jeito. Aí, azar. Me caguei de medo.

Literalmente.

Terminou sua história e deixou escapar um longo suspi-ro. Arnaldo abortou a gargalhada que não teria forças para dar e perguntou o nome do vizinho de leito.

— Sancho. E ainda tem mais. Sabe como vim parar aqui?

Arnaldo ficou quieto durante alguns segundos, olhou bem para o outro e repetiu:

— Sancho?

— É. Sancho. Sabe, Dom Quixote, o livro e tal. Meu pai adorava.

Prendendo a respiração, Arnaldo apertou as palmas das mãos com as pontas dos dedos e jogou os olhos para o teto. Sancho pareceu não se importar e continuou falando.

— Você pode não acreditar, mas estou aqui porque ten-tei me matar.

Quando Arnaldo deu uma risada, ele também sorriu e continuou:

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— O pior é que é verdade. Cortei os pulsos. E você, porque está aqui no hospital?

Arnaldo não respondeu, e Sancho também ficou quieto. O zumbido dos mosquitos voltou a ficar perceptível e um en-fermeiro entrou no quarto trazendo os almoços. Quando ter-minou de comer, Arnaldo olhou para o vizinho, que ainda mastigava o bife de fígado, e quis saber:

— Sancho, você já leu Dom Quixote?

O outro passou as costas das mãos pela boca e respondeu:

— Não, mas vi no Sítio do Pica-Pau Amarelo quando era criança.

Já era um começo.

 

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Diotima

 

o universo: uma malha de letras minúsculas,

de proporções infinitesimais.

Joca Reiners Terron, NÃO HÁ NADA LÁ

 

1. Sou a noiva e o noivo,

e por meu esposo fui gerada.

Soterrada pelos lençóis azuis, sua avó parecia um resto encar-quilhado de pernil. Estava morrendo há tempo demais, sen-tada pelos cantos da casa, quase imperceptível se não fosse o cheiro de merda que nem a enfermeira particular nem as fraldas geriátricas pareciam capazes de fazer sumir. Desde o primeiro derrame, estava sempre encolhida em alguma pol-trona, com um terço imóvel na mão, como se fosse um holograma que de noite precisava ser carregado até o quarto. No último sábado, desabara de um só golpe no chão da sala de jantar, um pouco antes da sobremesa. Ninguém a tinha visto ficar de pé, e depois que caiu a família toda permane-ceu em um semicírculo quieto ao redor de sua carne minús-cula até que Lucas, de joelhos, anunciou: Tá viva, chamem uma ambulância. Do chão da sala de jantar ela seguiu direto para o leito do hospital, sem abrir os olhos até ontem, quan-do despertou do que os médicos consideravam uma espécie indistinta de coma e começou a falar.

 

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2. Sou a mãe de meu pai

e a irmã de meu esposo

e ele é meu fruto.

Carolina!, ela sorri quando apareço na porta, Vem cá! Puxo uma cadeira e sento ao lado da cama. Ela agarra meu braço com sua mão cheia de manchas e começa a delirar: primeiro anuncia que minha mãe vai ter outro filho, depois diz que eu vou ter um filho, e agora, olhando para algum ponto atrás de meus ombros, repete sem parar que Deus vai ter um filho, Carolina, Deus vai ter um filho. Olho um tanto constrangida para a enfermeira que vem retirar o almoço e explico baixinho que Vó, a mãe morreu de câncer há muito tempo, não lembra? Eu e o Lucas éramos pequenos ainda, e aí depois a senhora veio morar com a gente. Ela desvia o olhar para o teto, cruza as mãos sobre o peito, faz um bico e diz Deus vai ter um filho, Carolina. Levanto da cadeira, pas-so a mão por seus cabelos finos e digo Vó, isso já aconteceu, vó. Ela agarra de novo meu braço, nunca imaginei que ainda tinha tanta força, e desata a falar. O arcanjo Gabriel apareceu para mim noite passada, Carolina. Deus vai ter um filho, e o filho novo de Deus vai nascer de mim. Pego minha bolsa pendurada na cadeira e resmungo que Conheço essa história, vó, mas tu não é mais virgem, fica quietinha e descansa, fica quietinha e descansa, e saio do quarto sofrendo o sorriso en-tre aquelas rugas.

 

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3. Sou a escrava daquele que me preparou.

Sou a soberana de minha prole.

Quando chega na festa, acompanhada de seu tradicional atraso de hora e meia, Carlos já está bêbado. Em cinco mi-nutos já estão gritando quase mais alto do que o som mecâ-nico, e quando cansa da briga ela se afasta e o deixa encosta-do no balcão com o copo de vodca. Dança com as amigas, fuma maconha, bebe tequila, volta a dançar. Está caminhan-do em direção ao banheiro quando Carlos a puxa pelo braço e diz Vambora, ela diz Não mesmo e ele a puxa pelo cabelo repetindo Vambora, porra. Arrastada até o carro, não diz uma só palavra durante todo o trajeto, nem reclama quando ele a empurra para cima do sofá, já em casa. Tenta dizer alguma coisa quando ele enfia as mãos em suas coxas por dentro da saia e puxa sua calcinha até os joelhos, mas sabe que não há mais o que fazer. Em menos de dois minutos Carlos já está novamente em pé, colocando as calças e dizendo Não sai daí que eu vou sair pra comprar fumo e quando voltar tu vai fumar comigo., mas demora demais para voltar. Quando ela acorda, perto do meio-dia, Carlos está deitado nu no tapete ao lado do sofá. Ainda com sêmen escorrendo pelo interior de suas coxas, ela acende uma das pontas que estão sobre a mesinha.

 

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4. Mas foi ele quem me gerou antes do tempo de nascer.

E ele é meu fruto no tempo devido.

E dele vem meu poder.

Vou até o hospital e logo que entro no quarto ela, sem nem me olhar, diz Espia aquela mancha no teto, Carolina, é um sinal de que o Messias vai chegar. E ele vai nascer de mim. Antes mesmo de conferir, já sei que não existe mancha alguma no teto, e me sentindo bastante ridícula pergunto Como tu tá, vó, tão te tratando bem? Ela tenta de novo agar-rar meu braço como da outra vez, mas eu me esquivo de suas mãos enquanto ela sorri e pergunta se eu ainda gosto de ler. Respondo que sim e ela me olha de um jeito que lembra minha mãe e diz Então lê, Carolina, está tudo nos gnósticos. A mesma enfermeira da minha outra visita chega com um prato de sopa. Os gnósticos, vó? eu quero saber, enquanto ela balança a cabeça recusando a janta. Como a senhora sabe quem são os gnósticos? eu insisto, e ela sorri e diz Foi tua mãe, Carolina. Já falei que ela está grávida de novo? Que alegria, ela vai te dar um irmãozinho!, e aí eu fecho os olhos, respiro fundo e não escuto mais nada até chegar no estaciona-mento e fechar a mão direita sobre as chaves no meu bolso.

 

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5. Sou o cajado de poder de sua juventude,

e ele é a vara de minha velhice.

Está saindo da faculdade quando toca o celular. É Carlos, convidando para um jantar na casa de um dos seus amigos do novo emprego. Ela acha engraçado quando é recebida por um homem de terno e máscara de diabo, que a conduz até uma sala de jantar. Continua achando graça quando encontra o namora-do e outras três pessoas ajoelhados em círculo, e segura obedien-te uma risada quando o homem de chinelos usando uma más-cara de porco que lhe cobre apenas metade do rosto manda que ela também se ajoelhe. Quando o homem de camiseta regata e máscara anti-gás aparece na porta com uma escopeta na mão, começa a não entender mais que tipo de brincadeira é aquela, afinal. Olha para Carlos, que sem corresponder o olhar aperta sua mão e sussurra Assalto, assalto. Ela não consegue mais se mexer e fixa os olhos ansiosos nas havaianas brancas do homem com a máscara de porco, que monta guarda na sala de jantar. Ficam os quatro quietos por um bom tempo, ajoelhados e olhan-do para o chão, enquanto o homem com a máscara de porco fuma e apaga seus cigarros no tapete. Assim que pisoteia a séti-ma guimba com a borracha de seus chinelos, grita Eaí? na dire-ção da sala. Surge o homem da máscara de diabo e diz Feito, vambora. O homem com a máscara anti-gás dá uma risada catarrenta e fala Olha só que bonitinho, todo mundo ajoelhado. Parece uma igreja, diz o diabo. Acendendo outro cigarro, o por-co anuncia que A missa tá acabando, ninguém se mexe nos pró-ximos vinte minutos ou vai pro inferno. De longe, o diabo grita Fiquem com deus, jesus breve voltará, e bate a porta.

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6. E o que ele desejar acontece comigo.

No hospital, antes de chegar no quarto, encontro a mesma enfermeira de sempre. Sinto muito, ela diz, como eu achei que só faziam em filmes, e fala que minha vó tá morta, que estão avisando a família, que eu preciso me acalmar. Pergunto se não nasceu algum bebê, se alguém percebeu que ela estava grávida, e ela olha para os lados e logo percebo que estou rodeada de pessoas em jalecos brancos me ouvindo gritar Vocês mataram minha vó! Seus filhos da puta! O que vocês fizeram com o nenê? Quando a enfermeira encosta as mãos em meus ombros eu cus-po na cara dela e saio de lá e pego meu carro e dirijo sem olhar para a rua e atropelo um cachorro e não tiro o pé do acelarador e faço uma curva fechada e chego na casa do Carlos e ele abre a porta e já vai perguntando O que foi, Alice, tu tá branca, e eu empurro ele pela sala até a gente cair no sofá e digo que minha vó era tão bonita quando era jovem e sei que ele nunca viu nenhuma foto da minha vó quando ela era nova e nem sabe que meu vô brigou com toda a família só pra poder casar com uma gói e digo que no hospital ela ficava me chamando de Ca-rolina que era o nome da minha mãe e o Carlos fica me enca-rando com os olhos vermelhos e eu pergunto se ele já ouviu falar dos gnósticos e ele ri e diz O quê, aqueles caras que dão cursos esotéricos grátis? e aí me dá um beijo mole e enfia a mão suada no meio das minhas pernas e quer saber se minha menstruação ainda tá atrasada e pergunta se eu tô a fim de fumar maconha e eu começo a me sentir mudando de tamanho e fico tonta e saio correndo e ele vem atrás de mim gritando Alice? Alice? e eu me tranco no banheiro e começo a vomitar.

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missal para rastejantes

 

o olhar dos bichos é uma pergunta morta.

Hilda Hilst, A OBSCENA SENHORA D

 

formigas. quando ele foi embora eu olhei pro chão e juro que nunca na vida tinha enxergado tantas formigas. eu que-ria acabar ali mesmo. desexistir assim. mas agora nada mais me impede. não me importo. tomar o caminho de casa como todos os dias, o perto chegando aos poucos. segurança; a au-sência sempre me foi ponto de partida. ele nunca estar ali quando eu mais precisava em contraste com a promessa de que um dia ele estaria porque eu era ela. vou desviando os passos para não matar formigas. são tantas. no quintal da minha casa, ainda lembro, muitos formigueiros. eu ficava sozinha a maior parte do tempo, os pais no trabalho. por vezes chegavam falando da supervisão. eu tremia de imagi-nar o Grande Olho em cima, algo ainda maior que meus pais. você, Deus. mas não pensava nisso o tempo todo, por-que me entretia com os formigueiros. eu e hans. o melhor amigo imaginário é aquele que você sabe que não existe. sem traições. tudo muito limpo. nada de joguinhos. eu e hans destruindo os formigueiros, ele ruivo e rindo alto. as sardas. eu achava lindo. inventei o mais bonito que pude. me amo-

 

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lecia as pernas finas, nós dois brancos, suando, se avermelhando de esforço. ele com os gravetos, remexendo. eu olhava: supervisão. as formigas corriam para todos os can-tos, ele o desalmado gargalhava. elas não sabiam para onde ir. nós de galochas. nada de ser picado pelas espertinhas. e corriam. iam tontas para todos os lados. um dia ele baixou as calças e mijou no formigueiro; um enorme. bem mais rápido que com os gravetos. cavando cada vez mais fundo, o mijo quente desfazendo tudo das formigas, no final os ovinhos bran-cos, elas carregando, nós dois rindo. ele não parava nunca de mijar. fazia espuma no formigueiro. fiquei olhando os cami-nhos das formigas, o que ainda se enxergava dos túneis. tanto trabalho. hans pau de fora, mijando. eu pernas moles, em dúvida. no outro dia tínhamos destruído os caminhos dos cupins. aquele cheiro. nunca mais algo assim. hans olha bem na minha cara e dá mais uma risada. virando o corpo começa a me mijar toda. não saio do lugar. o calor escorrendo por meus joelhos até os pés. na minha barriga, minha virilha, o riso de hans. fiquei até o fim. de noite me deu febre. febre de visões. as formigas andando enormes pelo quarto com os ovinhos nas costas. a sombra das antenas na parede ao lado da cama. fiquei batendo com a cabeça até sumir tudo. falei com Deus. nunca mais matar formigas. nunca mais. quero que me pisem, Deus. que me mijem toda. que me afoguem em mijo de cheiro forte. primeiro mijo da manhã, bom de curar frieira. nunca mais fazer isso com formigas, Deus. nun-ca mais ver hans. dobro a mesma esquina do jeito de sempre. dou falta da árvore. chego perto. ali só o toco. era enorme.

 

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agora só um toco. cada vez mais formigas, por todos os lados. não deixaram nem raízes. tudo cortado. cupins despedaçan-do formigas. façam isso não, olha Deus. cupim cabeçudo. o resto da árvore bem perto do muro. a vez em que o claudinho me encostou no muro. nem fiz nada. tinha ralado o joelho tentando correr, mas nem era dele. fica quieta. me apertou assim eu de frente nariz pro muro ele me apertando toda com o corpo. ouvi risada. hans em algum lugar. verão. roupa curta. claudinho se esfregando de pau duro na minha bunda. fica quieta. hora de estar em casa. não tenho medo. eu suan-do. olho pras formigas subindo o muro. claudinho não pára. fica se esfregando em mim, uma mão de cada lado, bufando. eu nem ia fugir. colocou a boca bem no meu ouvido: eu te comi. saí correndo, agora sim. não precisava ter falado. pala-vra muda tudo. direto pro quarto, não vai tomar banho mi-nha filha, nem falo nada. não precisava ter dito. coisa dita é coisa acontecida. eu nem sabia mais. hoje sei, mas hoje não importa. sou adulta. é. nem sei se andei crescendo. podem ter me cortado. eu um toco achando que é uma árvore. cheio de formigas e cupins cabeçudos abrindo caminho por tudo do dentro. pode ser a maior das árvores por fora, mas é um sopro e acabou. cheia de caminho de cupim. só aparência. a casa ainda está ali. eu fiz as escolhas certas, Deus. na vida a gente tem que poder perceber o óbvio. a coisa que grita é sempre a certa. segui por esse caminho. nem um cadáver de formiga a mais. agora eu merecia. fiquei esperando como ele disse. nem me mexi. fiquei esperando ele voltar. ela é você ele falou. não podia nem discutir. porque eu sabia. eu sei. sou

 

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eu mesmo. cumpri toda a minha parte. a escolha certa. abro a porta e a luz da rua entra primeiro. nem pede. hoje nem é dia de abrir cortina, xô xô xô. fecho a porta e a luz vai embo-ra. nem se despede. será que ele sabia o tempo inteiro que no fim ia dizer isso eu penso. ninguém faz coisa assim. nem hans. ninguém. ele deve ter mudado de idéia. só pode ser. é justo. sento na cadeira de balanço. o mofo aqui nunca me deixa. todo mundo tem direito de pensar diferente de uma hora para a outra. as formigas vão pra todos os cantos. não existe coisa que não tenha frestas. mas se era eu o tempo inteiro, queria saber porque parece que nunca fui e agora não sou mais. a gente sempre quer saber tudo. sei que a vida não tem explicações. qualquer tentativa é desculpa. tomar café. o açúcar preto de formigas. não posso matar. nem pen-sar em café amargo. disso chega. abro a gaveta. combinei nada com Deus sobre baratas. também não vou matar. pego a maior. as patas mexem rápido. abre as asas. vvvvvt. cascuda. largo com cuidado no meio das formigas. ela some. abro a outra gaveta. cor bonita a das baratas. uma em cima da outra. felizes. jogo um pedaço de pão bem no meio. mastigo o ou-tro, bem seco. barata é um bicho coitado. sempre com medo. se escondendo pelos cantos escuros. a qualquer perigo zzzzzt passa à toda. barata não deve dormir. pobres. corto um peda-ço de abóbora e coloco também. ai meu dedo. é grande o talho. quando a gente é pequeno pode ser um cortezinho de nada que faz drama. mas só se enxerga. lembro quando to-pei o dedão. passei o resto do dia correndo por tudo. aí a denise me avisou. eu sem unha. saltaram as veias do tanto

 

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que chorei. só doeu quando vi. a gente não sofre quando não se enxerga. meu sangue do dedo pingou pela pia. medo de matar formiga. acerto uma só, grandona. no meio das bara-tas. umas lacraias passam ondeando. tão delicadas. a formiga sai. viva. pego de novo a faca. um pouco de sangue na lâmi-na. pode ter mais. eu desexistir. dois talhos no pulsos. dos grandes. de chorar. Deus estou de saco cheio Deus. fiquei esperando todo esse tempo e ele foi embora Deus. ele sem-pre disse que eu era a Mulher mas que ainda não era hora Deus. quando é que as coisas vão fazer sentido Deus. todo tipo de bicho pela cozinha. umas mariposas no meu cabelo. enrolam nos cachos. encosto a faca no pulso. tenho medo. acho que sempre fui meio idiota Deus. com que intenção a gente foi cair aqui assim hein Deus. o que leva a gente a acreditar em coisas Deus hein me diz. enfio a mão na gaveta cheia das baratas formigas lacraias lesmas cupins besouros gafanhotos aranhas centopéias minhocas vermes minha vida Deus. o ruído da faca vem em três agoras: depois pára, deita-da seca no chão. enfio a outra mão, fecho uma concha. puxo o ar bem fundo boca aberta sai um barulho bem no fundo meio chiado. faço um bico e sopro a vida pra fora. se é assim é assim que vai ser. enfio na boca os bichos todos. mastigo bem. crocante. chupo os sucos até o final. um travo na boca. engulo a pasta. com a língua tiro os restos de pata e casca dos meus dentes. ninguém vai me enganar agora, deus. não con-sigo mais nem lembrar a cara dele que eu esperei, deus. a ausência que quando chegou me levou pra longe. nunca foi meu, deus. nunca fui nada. mas minha decisão eu já tomei.

 

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não vou fazer o que vocês querem, deus. ninguém vai mijar em mim. ninguém vai dizer que me comeu. não vou ser toco. que se fodam. não vou. chuto a faca. bate na parede, treme e fica de novo imóvel. coisas estão sempre mortas, deus. a gente faz o que quer com elas e tudo bem. as coisas estão aí pra isso mesmo. mas não eu. eu sou outra que não coisa, deus. acho que descobri o que eu sou. pra quê eu sirvo. o que tenho que fazer. se é assim que tem que ser então é fim de trato. enfio as mãos mais uma vez e mastigo o resto dos bichos. não vejo mais uma formiga sequer. hans quieto pra sempre. eu de boca cheia. esta morte nem tem gosto. mas é a vida que você nos oferece, deus. é o que você me deixou, meu amor. muito obrigado. caminho até a sala e abro uma das janelas. agora que o fim chegou eu posso começar a cui-dar de viver.

 

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os calos de sísifo

 

Men have called me mad; but the question is not yet settled,

whether madness is or is not the loftiest intelligence.

Edgar Allan Poe, ELEONORA

 

Deixou o cachimbo de lado e acendeu o abajur da escrivani-nha. Sorrindo para a velha máquina de escrever, sentiu-se arcaico. Desenterrou o pé das pantufas, coçou o cavanhaque e começou a sinfonia de mecanismos e engrenagens. Com-putadores, bufou. Jovens não entendem nada. Seu pai dizia o mesmo, e também insistia no fato de que o escritor verdadei-ro pratica seu ofício à mão. Pais não entendem nada.

Lembro de minha mãe morrendo. Eu tinha medo de entrar no quarto. Ela já estava muito magra, e sempre que tossia não parava mais. Era aí que a enfermeira me pegava pela mão e me colocava na frente da tevê. Nunca mais consegui assistir a dese-nhos animados sem sentir frio. Às vezes chego até a ouvir uma trovoada vindo de algum outro cômodo. Um dia minha mãe perguntou se eu estava com fome. Depois sorriu, amarela. Co-meçou a tossir, mas ainda pediu para a enfermeira me dar uns biscoitos. Eu abanei a mão para ela, mas acho que não viu. Não viu, não. Fiquei comendo na frente da televisão. Quando termi-naram, fui pedir mais. A enfermeira não me deixou entrar no

 

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quarto, mas eu já tinha visto. Mamãe não parecia estar dor-mindo. Não lembro de ter ficado triste. Mães mortas têm um cheiro doce.

Quando o ambiente ficou silencioso, passou o indicador da mão direita na fita da máquina, levou ao nariz e respirou fundo. O aroma da Criação. Limpou o dedo em um dos lenços, tirou o papel da máquina e leu:

 

Muito prazer, eu sou um homem ridículo.

Não por estar trancafiado neste quarto há meses. Não por evitar o contato com qualquer ser humano. Muito menos por ter coberto as paredes com caixas de ovos para não ouvir o barulho infame da rua.

Tudo isso me fez um pouco melhor, mas ainda assim ridículo.

Esta cama não é ridícula. O lençol está um pouco sujo, concordo, mas o colchão é confortável e o tra-vesseiro é macio. Quando eu balanço minha bunda ridí-cula em cima da cama, ela não faz barulho. Pelo menos não muito. A cama é sólida, era do meu avô, minha mãe herdou, agora eu sou o dono e depois não sei o que será dela - qualquer coisa, menos tornar-se ridícula. Mesmo que seja destroçada a machadadas e transformada em lenha, ainda será uma cama de respeito.

 

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Mas eu, eu sou um homem ridículo.

Olhe esta poltrona. Parece ridícula? Gasta, tal-vez. Vermelha, tudo bem. Mas não é ridícula. E essa mesa? E os quadros? Livros? O abajur? O piano! Eu não tenho um piano, mas se tivesse não seria ridículo -seria apenas um piano.

Objetos não são ridículos - homens são. Eu sou ridículo.

Repetições são ridículas.

Muito prazer, meu nome é Horácio, e eu sou, bem, vocês já sabem.

Mas não custa repetir: eu sou... esqueçam.

Seria ridículo.

 

Largou o papel sobre a máquina e passou de leve a lín-gua pelo lábio inferior. Um pouco tolo e teatral demais para um bilhete de suicídio, admitiu. Apagou o abajur, sentou na cama, afofou os travesseiros e deitou. Sabia que o sono che-garia rápido e pesado, como sempre: a farmacologia e suas maravilhas. Apertou a língua contra o céu da boca, mordeu os lábios, mas nada evitou que chorasse.

 

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Meu pai nunca acreditou em mim. Dizia que eu era novo demais para lembrar, e começava lentamente a encher o cachimbo com o fumo cor de chocolate. Passava os dias sentado em uma poltrona de veludo cereja gasto, coberta por uma toalhinha ren-dada. Bebia uísque e escutava música, quase sempre sozinho. De vez em quando pedia para que eu contasse a história mais uma vez. Eu não gostava muito de vê-lo chorando, mas aprendi rápi-do que seria pior se não dissesse nada. Ele não gostou da minha primeira namorada. Ela dizia que ele tinha ciúme de mim. Pa-recia verdade. A cara da mãe, repetia. A cara da mãe. Não assisti à morte do meu pai.

Depois de alguns minutos passou de leve as duas mãos pelo rosto e fechou os olhos. Na tarde seguinte confessaria aos filhos que não era feliz o suficiente para se tornar mendigo.

 

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monga

 

Nem os leões, nem os palhaços. Quero distância do picadei-ro e dos malabaristas. Em breve começará a barulheira do globo da morte, que além de insuportável me deixa tonto, isso sem falar em toda aquela fumaça. Meus filhos gostam, tão diferentes de mim, e os deixo ali, embasbacados com os trapezistas, que também agradam minha mulher. Até vejo alguma graça na possibilidade da queda, mas estes usam uma rede de segurança e esse tipo de deslealdade com o perigo me faz perder o interesse. Abro caminho por outras crianças e outras mulheres e outros maridos que não se importam com a rede. Já fora da lona, limpo a serragem de meus sapatos e acendo um cigarro enquanto olho uma mãe acenando para o filho dependurado na roda-gigante. Sorrio, todas as mães são iguais à minha, e compro uma maçã-do-amor. Pisoteio o ci-garro e mordo a maçã com vontade, tentando encontrar algo que devo ter perdido nestes pouco mais de trinta anos. Seja o que for, não está ali, e tampouco no algodão doce que nem cheguei a comprar.

Continuo meu caminho em meio aos vendedores de balões e da fila para o carrossel, onde também há mães gesti-culando esbaforidas para os filhos que giram orgulhosos, montados em camelos, cavalos e até em peixes. Mães: criatu-ras que acenam. Entro em uma sala de espelhos e me vejo

 

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alto, magro, baixinho e totalmente distorcido. É engraçado, e só. Quando era pequeno, tinha medo. Sempre olhava com muita admiração para meu reflexo no espelho, como se mi-nha imagem fosse algo sagrado, uma garantia da minha exis-tência. Vê-la distorcida me parecia uma heresia assustadora, e sempre me abstive da experiência. Talvez não fosse só por isso. Quem sabe eu temesse sair do salão transformado em alguma daquelas criaturas mostradas pelos espelhos. Pode ser. Nunca falei sobre isso com meu psiquiatra, mas agora é tar-de. Desde que certo dia olhei distraído para ele e enxerguei meu reflexo distorcido, desisti da brincadeira. Confesso que de vez em quando sinto falta de um alguém sentado em uma poltrona prostituindo o ouvido e o raciocínio para minhas futilidades, mas o medo é sempre um preço alto demais.

Agora um herege, saio da sala de espelhos, e ainda sou o mesmo. Ouço a voz. Incrível! Fantástico! Assustador! Exóti-co! Uma bela jovem se transforma em uma fera na frente do público! Se você tem coragem, venha conhecer Monga, a mulher-gorila! Os olhos do anão enfiado em um smoking velho me esquadrinham enquanto eu compro uma entrada, mas ele não pára de gritar as palavras mágicas que me atraí-ram até ali. O interior da tenda é um pouco escuro, mas en-xergo um pequeno palco, muito rudimentar. Junto comigo, duas crianças da idade de meus filhos acompanhadas de al-guém que parece ser a mãe, um grupo de garotos de seus quinze anos e uma senhora que me lembra minha tia-avó, talvez pelo guarda-chuva. Todos comem amendoim torrado, e eu acendo outro cigarro. Entre nós e o palco, as grades.

 

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De repente, ela. Lâmpadas verdes, amarelas e azuis ao lado do palco se revezam em iluminar uma mulher baixa, morena, com não mais de vinte e cinco anos e uma certa barriga. Não é feia. Veste um biquíni coberto de lantejoulas metálicas, e não sorri. Todas as Mongas que eu assistira na infância, e não foram poucas, sorriam ao entrar no palco. Talvez porque naquele tempo a pequena tenda estivesse quase sempre cheia de crianças engolindo em seco e de adultos que eram atraídos pelas invariavelmente perfeitas formas da mu-lher-gorila. Hoje as coisas são bem diferentes. O glamour se foi. Não sei de quem é a culpa, mas nunca fui muito bom na arte de encontrar bodes expiatórios. Um vinil meio riscado começa a tocar depois de alguns soluços, e Monga acompa-nha as notas quebradas com alguns movimentos que, com muita boa vontade, podem ser chamados de dança. Os garo-tos parecem gostar e se aproximam mais do palco, as crianças riem e a velhinha balança a cabeça. Talvez acompanhe a música, talvez desaprove a roupa da mulher-gorila, talvez um dia tenha sido ela também uma das muitas Mongas e o ar decadente da versão contemporânea lhe entristeça, talvez. Eu fumo. De repente, quando um dos garotos faz menção de agarrar uma de suas coxas por entre as grades, Monga pára e fixa os olhos em um horizonte imaginário. As luzes param de piscar e vem a explosão. Gelo seco derrama-se em cascatas pelo palco e as luzes negras direcionadas ao público me ce-gam. Alguns segundos, um rugido, e eu pisco os olhos com força para enxergar melhor. As luzes negras são desligadas, e posso ver, no centro do palco, Monga, a gorila. Grunhe com

 

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fúria, se debate, chacoalha com força as barras da grade. As luzes agora são vermelhas e o barulho insuportável, metal enferrujado e gritos, mas ainda assim é melhor do que o glo-bo da morte. Uma das crianças começa a chorar de medo. A mãe lhe pega no colo e sai da tenda, arrastando o maiorzinho que continua a olhar boquiaberto Monga pisotear o biquíni de lantejoulas. Os garotos jogam amendoins na gorila, um diz Eu vi a gostosa sair por trás do palco e ri, todos riem, até a velhinha, que gargalha e bate palmas. Eu, extático, queimo os dedos tentando fumar o filtro do cigarro. Monga grunhe um pouco mais e todas as luzes se apagam. A tenda retorna à escuridão inicial, o palco fica vazio, o cheiro de gelo seco está no ar, os garotos vão embora depressa e a senhora passa por mim resmungando algo que não consigo ouvir. Fico ali, pa-rado em meio às cascas de amendoim, olhando para o palco e as cortinas rasgadas que não tinha percebido antes. Alguém me dá um tapinha nas costas, é o anão da entrada, O show terminou, cara. Eu sei, eu sei, já estou saindo.

O sol do domingo me fere os olhos, ainda mergulhados na sombra úmida da tenda de Monga. Caminho lentamente até o circo. Preciso encontrar minha família. Passo novamen-te por todo tipo de vendedores, mães que acenam e crianças que sorriem. Na frente da grande lona amarela do circo, vejo um homem moreno vestido de azul vendendo balas para a minha mulher. Meus filhos parecem felizes, ela me enxerga e acena, também uma mãe, mas não a minha. Aperto o passo até ficar na frente dela, minha filha me diz algo, mas não quero escutar. Apenas olho para minha mulher, passo a mão

 

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em suas bochechas, lhe dou um beijo suave e digo:

— Monga, eu te amo.

Vejo em seus olhos um sorriso que enfim chega à boca, e ela me dá uma das balas que comprou para as crianças. Logo para mim, que nem lembrava da existência das balas Mocinho.

 

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gravidade

 

pra Cibele

 

Laura está na cozinha, prestes a colocar um pernil dentro do forno. São nove e quarenta da manhã e o dia não está nem frio nem quente. O céu está azul e não tem nuvens. O pernil foi temperado no dia anterior. Assim que abre o forno, Laura escuta um ruído na janela às suas costas. Olha para trás e enxerga apenas o céu e alguns prédios. Está quase voltando para o forno quando um pequeno vulto cruza muito veloz pelo espaço emoldurado pela janela. Menos de um minuto depois, outro. E mais outro. O último vulto passa miando.

Laura se aproxima da janela para ver melhor o que está acontecendo e quase é atingida por mais um dos vultos que caem. São gatos. Caem em intervalos regulares e vão se empilhando no piso da garagem do edifício. Alguns miam, mas a maioria desaba em silêncio. Nenhum vizinho parece ter percebido o que está acontecendo, nem o porteiro apare-ceu na garagem. Laura enfia a cabeça no espaço da janela e olha para cima, tentando enxergar de onde vêm os gatos. Novamente quase recebe um direto na cabeça. Calcula en-tão o tempo entre cada queda de gato e olha rápido para cima. É impossível saber de onde eles estão caindo. Tanto

 

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pode ser do último andar do edifício quanto do próprio céu. Procura algum avião. Nada. São apenas gatos caindo.

Laura dá um salto para trás quando a primeira vaca pas-sa pela janela emitindo um mugido profundo. Tentar ver de onde os animais estão caindo se torna de repente uma tarefa mais perigosa. Laura se limita a ficar encostada quase per-pendicularmente na parede ao lado da janela, de onde pode ver a pilha de gatos e vacas crescendo sem parar. São vacas de todo tipo e coloração, e para sua surpresa não explodem em sangue e tripas quando chegam ao solo. Vão apenas se acu-mulando uma sobre a outra, imóveis e definitivamente mortas. Algumas caem mugindo, outras sem querer fazem barulho quando o seu sino badala, mas a maioria desaba em silêncio. Assim como os gatos, caem sabe-se lá de onde e formam uma pilha no piso da garagem.

Laura já está com o telefone sem fio na mão ligando para a polícia quando enxerga um vulto diferente passando pela janela. Parece algo maior que os gatos mas menor que as vacas, só que mais colorido. Aproxima-se novamente da janela e tenta entender o que é aquele ponto meio verde em cima das vacas, mas não consegue. Quando mais um dos novos vultos risca sua frente, começa a entender. São velhas. Velhas caindo do céu. Senhoras idosas usando vestidos coloridos. Caem em silêncio, sem gritar ou se debater. Uma delas cai mais lentamente, com uma sombrinha aberta. Sorri para Laura, que quase responde com um aceno. A pilha cresce cada vez mais, já atingindo quase a altura do segundo andar do edifício. Mesmo assim as velhas não páram de cair. De-

 

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pois das de vestidos coloridos começam a surgir algumas de vestidos estampados e até algumas usando preto. Laura cru-za os braços e continua a observar o crescimento da pilha.

Laura depois de vinte e tantos minutos começa a achar tudo aquilo muito chato, antes eram gatos, depois foram va-cas e agora são velhas, nunca páram de cair e ficam se empilhando, mas e daí, que se danem então, tudo que sobe tem que cair, cada um faz o que quiser da vida, não sou desocupada para perder tempo olhando isso, essa gente só quer chamar a atenção, e volta à sua tarefa de colocar o pernil no forno.

 

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a fronteira no fim do mundo

 

para meu irmão Luiz

 

Não estou sozinho, pensou em gritar, mas desistiu quando enxergou as manchas no teto do quarto e percebeu que esta-va na cama. Nunca fora do tipo que se lembra do que sonha: era o pesadelo de qualquer psicoterapeuta. Mas daquela vez, apenas naquela noite, algo que vira durante o sono perma-necera em sua mente após o retorno ao mundo real. Conti-nuava sem lembrar se havia sonhado em cores ou preto e branco: o que martelava sua cabeça era uma frase, e apenas ela. Não chegava nem a ser uma frase, na verdade. Era ape-nas uma seqüência de palavras, da qual não se podia dizer que fazia muito sentido.

Oiapoque-Clevelândia: aqui começa o Brasil. Apenas isso, sem maiores refinamentos. Desgrudou as costas do colchão, passou a mão nos cabelos e sentou na cama, tateando no es-curo em busca dos cigarros. Massageou as têmporas com as pontas dos dedos, algo que parecia mágico para alguns, mas para ele só terminava por causar dor de cabeça. Isso até aque-la noite. Mal começou os movimentos circulares, lhe surgiu outro fragmento de sonho, e dos mais inusitados: um solda-do: uma sentinela, fuzil no ombro, susto no olhar, uniforme

 

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camuflado. Ao lado, uma placa. Nela, as palavras que se re-petiam em sua mente quando acordou.

Logo que resolveu olhar para dentro dos olhos do solda-do, se reconheceu. Era ele, e não era, mas estava ali, e suas pernas doíam, o calor ainda incomodava e os mosquitos não eram amistosos. Seu ombro estava dormente, o que amorte-cia o peso do fuzil. Sabia que já se aproximava a hora da troca da guarda, e não podia mais esperar para deitar-se na velha cama de campanha, dormir e acordar na outra manhã com uma poça de saliva marcando o colchão verde.

Mas o tempo não passava, a outra sentinela não chegava nunca, e se perdeu observando o pôr-do-sol na floresta. Qua-se se esqueceu dos mosquitos, mas a boca seca acabou lhe empurrando até a cozinha, onde tomou enormes goles de água gelada direto da garrafa que um dia fora de coca-cola, sem que a imagem do soldado desaparecesse de sua mente. Sentou-se no velho sofá, em frente ao ventilador de plástico que comprara em um camelô no dia anterior. Fechou os olhos e de repente sentiu uma vontade terrível de mijar, mas não podia deixar o posto. Tinha orgulho em saber que, de algu-ma forma, a segurança nacional estava em suas mãos.

Passado um certo tempo, a vontade aumentou ainda mais, e ficava cada vez mais difícil ignorar a dor que começava no saco e se transformava em uma ardência que tomava conta de todo seu pau. Começou a imaginar que aquele volume dolorido na frente das calças também estava em posição de sentido, zelando pela soberania do Brasil. Sua risada fez eco no começo de noite na floresta.

 

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No silêncio da madrugada, o barulho da descarga era como uma explosão reverberando pelos azulejos do banhei-ro. Esse ruído lhe causava medo desde a infância. Pensava que quando crescesse as coisas mudariam, mas não. Nada muda tanto assim. Trocou o fuzil de ombro e de repente sen-tiu o mijo se misturando ao suor, escorrendo pela perna es-querda e desembocando nos coturnos. Para isso não teria desculpa. Começou a chorar, colocando ainda mais sal no corpo queimado do sol amazônico.

Não havia lua. Fungou, enxugou as lágrimas e tentou enxergar algo em meio ao breu. Não conseguia ver nem o mastro à sua frente, quanto mais a bandeira. Os barulhos da floresta ficavam mais intensos. Podia ser uma onça, ou uma anta, ou araras, ou quem sabe o Inimigo. Podia ser o curupira. Não tinha uma lanterna, só um fuzil, uma baioneta, um can-til vazio e um uniforme mijado. Sentiu-se imundo e ridículo. Lembrou que ali perto, no caminho para o quartel, havia um igarapé. Sentiu dificuldades para tirar da cabeça a idéia que lhe soava absurda.

O lugar parecia impenetrável. Tomou coragem e enfiou a mão no monte de roupas emboladas, pois tinha certeza que os cigarros estavam em algum lugar no meio daquele caos. De repente, se viu deixando o posto de que era tão orgulhoso e se embrenhando em meio à escuridão da flores-ta, andando às cegas no labirinto de árvores, tropeçando em raízes centenárias. Mesmo assim já podia escutar o burburinho da água, e logo chegou ao igarapé. Um pouco incomodado com a ausência total de luz, piscou os olhos, largou o fuzil e

 

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começou a tirar a roupa. Arrancou os coturnos com fúria, e lá se foram as calças sujas, e por último as cuecas. Se ajoelhou, e foi então que ouviu.

No ar parado daquela noite, ajoelhado no meio do quar-to, quase podia enxergar a música saindo das caixas de som, os estalos do vinil servindo de acompanhamento à voz de alguém que já morrera há muito tempo, não sabia quanto, mas isso não importava: encontrara os cigarros. Havia alguém olhando por detrás de seus ombros. Podia sentir a respiração lhe tocando o pescoço. Não hesitou por nem um segundo e correu para dentro da escuridão molhada do igarapé. Nadou com todas as forças que lhe restavam, esquecendo das roupas e do fuzil que deixara para trás, escancarando as portas do Brasil para qualquer tipo de invasor.

Acendeu o cigarro. Num repente a fumaça invadiu seus pensamentos, e não mais pôde enxergar o soldado, nem a floresta, nem o igarapé, nem nada. Ainda aturdido, abriu as janelas e observou a cidade que dormia, alheia aos tanques que desfilavam imponentes pelas ruas.

 

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paloma

 

no momento em que a coisa veio eu caminhei uns dois ou três olhares, encontrei e fiz a pergunta: Tá de carro? ela disse que sim e eu falei Então vamos indo que eu decidi seguir rumo ao infinito.

peguei uma cerveja para levar, saímos. entrei no carro, coloquei o cinto e larguei o livro no porta-luvas aberto. ela deu a partida e eu encaixei o copo de plástico no lugar apro-priado.

rodamos pela cidade um bom tempo, ela dirigindo e fa-lando sem parar. deixo a garrafa vazia rolar pelos meus pés. ela quer saber Onde nós vamos afinal e eu digo que Sei lá, isso é contigo, o que me veio foi isso de seguir rumo ao infi-nito, daí a saber onde fica essa porra é outra história.

quase saindo da cidade e ela diz que a gasolina está no final. quero saber se ainda vai demorar muito para chegar e ela joga o cigarro pela janela e diz que Se a gente continuar por aqui sempre em frente vamos acabar na praia. bato pal-mas. ela diz Então é pra praia então e fala algo como Eu gosto sempre ou Eu ia sempre ou Eu vou sempre mas eu que devia estar na escuta estou me controlando para não mijar nas calças.

passando bem adiante do que já era longe ela diz Mas agora vai acabar a gasolina, e o dinheiro dos dois acabou ain-

 

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da no bar. mais um pouco e chegamos perto de um posto fechado, eu digo Posto fechado é perfeito para quem não tem dinheiro, mas acho que nem disse isso, só pensei. tinha uma estradinha que começava sei lá onde mas quando eu vi o carro já estava avançando. mato dos dois lados, arame farpa-do e estrada de terra. cada vez mais escuro e o infinito pare-cendo estar em qualquer direção, menos à frente.

ela pára o carro, acho que eu pedi Pelamordedeus pára queu preciso mijar. eu mijo num dos postezinhos do arame farpado. não enxergo nada, da estrada de onde viemos nem a luz dá pra ver. só o carro com tudo aceso, ligado. acho que gasta gasolina assim. ela mijando lá do outro lado. escuto o quente do barulho. ela pergunta Ouviu isso e registro o mia-do de um gato. aperto os olhos na direção do som e encontro uma sombra no meio da grama. um gato preto, bem peque-no, miando. pode ser medo, pode ser fome, pode ser qual-quer merda. qualquer possibilidade se encaixa. ela pede Pega ele pega ele e eu até me surpreendo ao fazer isso porque foi rápido e não tive medo de esmagar o bichinho. entrego o gato e voltamos ao carro.

ela me dá o gato e segura a direção com as duas mãos encostando a cabeça no meio e resmunga alguma coisa como E agora o que vou fazer com ele. o bicho fica miando bem do lado do meu ouvido esquerdo. não pára quieto e cami-nha por cima de mim, eu tento segurar e ele me morde e eu Ei caralho gato qualé e jogo ele no banco de trás. ela diz Estamos gastando o final da gasolina, bate a porta do carro e faz um retorno. o gato vem junto, paradinho e miando. logo

 

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começa a caminhar de novo por todo o carro e parece gostar de ficar em cima da minha cabeça. ela diz Acho que vou levar para meu filho. Eu acho que ele vai gostar, hein, e ela diz que vai comprar ração e ele vai ser feliz e não sabe o que lhe espera. estamos voltando. ela não fala mais da gasolina.

já de novo na cidade ela pergunta e afirma Onde tu quer ficar eu te deixo onde tu quiser e eu obviamente escolho vol-tar ao exato lugar de onde saí. sorrio um pouco sem graça, procurando no bolso o infinito que fui buscar mas não che-guei nem perto do pedágio. ela pergunta Posso dar teu nome pro gato? Ué, eu digo, claro que sim. estamos perto, o gato com meu nome fica passeando pelo carro sem parar de miar, já está quase amanhecendo e quando estamos chegando bem de onde saímos eu peço para ela estacionar onde o carro esta-va quando entramos. aí eu agradeço e acho que foi uma coi-sa legal isso de ir em busca do infinito e ela diz que Quando tu deixar esse teu luto de lado eu quero falar contigo e eu penso Oh, sim, claro, vai nessa e digo Ah, certo, tudo bem, tamos aí. saio do carro. ela e o gato vão embora. só quando estou subindo as escadas do bar mais uma vez me dou conta de que esqueci o livro no carro. maldição. o que se rouba se desfaz rápido. encontro só algumas das pessoas e daqui a menos de vinte minutos estarei indo embora para terminar a noite dormindo no sofá da sala da casa de um amigo.

na tarde seguinte um homem de seus setenta anos foi até uma praça, sentou em um banco e antes de expirar mais fun-do como sempre fazia assistiu à titica de pombo lhe cair na perna direita da calça.

 

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Mas puta que o pariu, quarenta anos vindo nessa praça e logo hoje um pombo vem e caga em mim, ele diz.

ao fundo caminha devagar um gato velho e gordo e pre-to carregando um pombo morto na boca.

o homem não enxerga;

ainda está olhando para o ponto cinzebranco no tecido da calça.

nem pisca.

é só uma pequena mancha de merda,

mas parece tão grande quando vista assim,

de perto.

 

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tango sobremesa

 

dia de faxina no prédio. aproveitaram para levar o velho dos tangos. abriu a porta ainda a tempo de ver o corpo descendo pelas escadas, coberto por um pano branco. nunca conhece-ria o rosto que lhe dera muitos mi buenos aires queriiiiiiiiiiiido depois do almoço. coberto pelo pano, o velho parecia tão abafado quanto os tangos que escutava durante toda a tarde. seria mesmo um velho? os discos que ouvia certamente o eram, mas não são só os velhos que morrem. fechou a porta.

como não tinha nenhum disco de tango em casa, resol-veu caminhar um pouco. perambular: a beleza está nas pala-vras, não nas ações. comprou uma carteira de cigarros e lem-brou que o prédio era cheio de pessoas velhas. como poderia ter certeza de que o tocador de tangos era ex-dono do corpo que vira? ora, esta tarde não ouvi os tangos, pensou, orgulho-so de sua educação cartesiana. decidiu que não precisava per-guntar nada ao pequeno aglomerado de pessoas em frente a seu prédio. caminhou.

os dias ficam estranhos no início da primavera, a estação que a natureza reservou para a cópula. não tinha com quem se dedicar às atividades sugeridas pela estação. isso era uma situação comum, mas nos últimos tempos andava cansado da própria mão. passou-a pela boca para enxugar o suor que insistia em brotar, acendeu o primeiro cigarro da carteira e

 

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levantou do banco da praça. uma criança tropeçou em sua perna e ele reagiu com um sorriso. a garotinha colocou um dedo perto da orelha e ficou encarando-lhe de baixo para cima. um dia ela cresceria, e precisaria se ajoelhar para obter o mesmo ângulo. nada com o que não pudesse se acostumar, e o faria - não só nas primaveras. puta, vagabunda, chupadora.

fazer o quê se ainda não A tinha encontrado? não se im-portava com os outros que riam quando ele se declarava um romântico, o último suspiro da cortesia medieval. nos dias de hoje, poucas mulheres se prestam ao papel de musa. vulga-res, todas. mesmo a garotinha da praça já possuía uma certa aura lasciva com suas roupas curtas, até maquiagem usava. menina de sete anos vestida como vadia, olhando como va-dia, provavelmente pensando em coisas de vadia. se existem culpados, devem ser as mães. lembrou de seu professor de Literatura do segundo grau, vociferando Hoje em dia só exis-te namoro por bolinação. dedos grossos como charutos es-tourando no quadro negro, marcando o passo da ladainha: namoro por bolinação, namoro por bolinação, namoro por bolinação. existem bons e maus professores, mas preciosos são aqueles que nos revelam as Verdades.

nunca tivera um envolvimento duradouro com mulher alguma. sentia nojo quando percebia nelas a fraqueza em resistir aos apelos fáceis da carne, e elas logo se cansavam de sua insistência pelo cultivo do amor metafísico. enganava seu platonismo seguindo mulheres na rua. não tinha nenhum cri-tério especial: apenas escolhia. hoje foi uma mulher baixi-nha. cabelo chanel, batendo no ombro, lã marrom, nada de

 

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mais. com a mão esquerda ela segurava com força o punho do blusão, enquanto a outra balançava com os dedos em for-ma de cunha. fez o mesmo. copiou o movimento das pernas, a posição da cabeça em relação ao corpo, essas coisas. ela parou para olhar a vitrine de uma floricultura, ele também, mesmo sem ter muito gosto por flores. começou de novo a caminhar, ele atrás, passo a passo, ela desvia de umas pedras, ele foi pela esquerda da lixeira, pernas juntas, ficou pensando olha pra mim olha pra mim olha pra mim. não funcionou, mas às vezes dá certo. e assim foram pelo mesmo caminho, entraram no prédio sem nem olhar para as chaves, é hábito -vai só pelo tato. porteiro, elevador, porta do apartamento, e então sentaram na poltrona da sala e bem devagar, amole-cendo o corpo, tiraram os sapatos. ele está parado na frente do prédio. já passa do meio-dia, mas ainda não surgiu ne-nhum sinal de fome. com a escolhida do dia já dentro de casa, provavelmente tomando um banho (água morna escor-rendo em um corpo macio sem ser flácido, mãos passeando pelos seios, pelas coxas, por dentro para deixar tudo bem lim-po, melhor não pensar: namoro por bolinação, namoro por bolinação, namoro por bolinação), a única coisa a fazer era continuar caminhando.

foi dobrar a esquina e vislumbrar o paraíso. passou pelo portão, diminuiu a velocidade dos passos e pegou mais um cigarro. penetrou com cuidado nos corredores, desviando o olhar dos muitos rostos que o observavam. pegou algumas das flores e enfiou no bolso da camisa. lembrou do velho dos tangos, ele gostaria do lugar. enquanto procurava o isqueiro,

 

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chegou perto do fim do corredor e enxergou uma sala. en-trou. desistiu do cigarro quando A viu.

talvez fosse Ela.

?

parecia Ela.

...

era Ela.

!

e aqui está ele, frente à Mulher que é a resposta para todas suas orações, uma pequena epifania bufa, completa-mente inesperada. é como um sonho: se aproxima com cui-dado e Lhe oferece uma das flores que colocara na camisa. Ela finge não perceber, mas quando ele diz as primeiras palavras bonitas que lhe vêm a cabeça enxerga um leve sor-riso se formar na pele muito branca. um Anjo. tocado por esse incentivo, declara a porção de amor que guardara du-rante toda sua vida. enfim, é primavera. quase chora quan-do escuta a Voz doce que lhe pede um beijo. com cuidado se inclina e encosta de leve seus lábios nos Dela, respirando fundo seu Perfume, ácido mas agradável. Ela pede mais um beijo, e ele reúne a coragem para jurar seu amor e pedi-La em casamento.

 

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perdido nos beijos, nem percebe muito bem quando as outras pessoas entram na sala e correm em sua direção e lhe batem na cabeça e o chamam de monstro doente marginal tem que matar esses filha da puta mas monstros são eles, que não sabem enxergar a beleza, monstros são eles que não respeitam a primavera e as juras de amor, monstros são eles que insistem em chamar sua Amada de o cadáver, a morta, a falecida.

 

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chamada a cobrar

 

Claro que eu percebi que é você, como poderia ser diferente, é, eu sei que já faz um tempo, mas de certas coisas a gente não esquece. Assim como não me esqueci das sobrancelhas peludas do padre para quem me confessei antes da primeira comunhão, eu com medo me esforçando para lembrar de algum pecado que eu deveria ter cometido, afinal todo mun-do peca, e ele com bolsas sob os olhos pensando só na festa que haveria depois, e me liberou sem que eu dissesse nada, nosso segredo em nome de Deus, e foi aí que eu deixei de acreditar. Não me lembro como foi a tal festa, deve ter sido uma quermesse de paróquia, aquela coisa pegajosa de tão provinciana, mas isso não tem a menor importância, o que eu quero te dizer é que eu nunca esqueceria da sua voz, seria ridículo. Claro, você está certa, eu sou ridículo, mas todo mundo é, a vida é ridícula, não, ninguém aqui está fazendo drama. Drama foi aquilo que você fez quando descobriu minha história com a, espera um pouco, não precisa gritar, não foi você quem me falou mil vezes que quem tem que ser fiel é cachorro? Pelo menos eu sou realista, e você que depois disso entrou em um delírio anos sessenta totalmente ultrapassado, isso sim é ser ridículo, chega até a ser piegas, viajar de carona e dormir em praias minúsculas pretensamente selvagens, porque na verdade todo mundo sabe que todas

 

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elas já estão loteadas, nem que seja por um bando de vende-dores de artesanato, aquelas pulseirinhas bregas e cachimbos de durepóxi que usam pra fumar maconha, que você tam-bém deve estar fumando, e dormindo em cabanas de pesca-dor e trepando com todo mundo sem medo de aids como se fossem santos imaculados, vivem como se estivessem em ple-no apogeu hippie, when the moon is in the seventh house, todo mundo pelado, marginais. Não, desculpa, eu não que-ria ofender, mas é que. Acho que isso tudo é uma bobagem, acho que poderíamos passar por cima dessas coisas, afinal não é nada se a gente lembrar de todo o resto, tanta coisa que a gente fez juntos, e os planos, eu quero saber, e os planos? Que absurdo, eu não penso só em mim, tudo o que eu fiz foi para a gente, não sei se você sabe que não se vive só de amor, paz e amor, não é assim? Existe um mundo de verdade e um trabalho, uma carreira, sem isso não se vive, cala um pouco essa boca, me deixa terminar, eu acho tudo isso muito boni-to, esses sonhos todos e esperanças e apegos a coisas impossí-veis, mas não é mais o tempo, já passou, não deu e nunca vai dar certo, se precisa de dinheiro e para isso alguém tem que trabalhar para que você compre os livros sobre mitologia in-diana e os discos do madredeus e até os incensos com cheiro de detergente, é tudo igual, sem que se leve a sério a vida nada disso existe. Ah, é? Se o que eu digo é papo de burguês, todo esse besteirol no qual você se agarrou depois que aban-donou nossa casa é delírio de perdedor, gentinha que não deu certo e quer arranjar desculpa pros seus fracassos, claro, é culpa do mundo, do sistema, da sociedade, do universo que

 

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conspira contra eles, mas nunca assumem nada, loucos, isso é que são, malucos. Ah, eu é que sou o louco agora? Só por-que eu tenho dois tios esquizofrênicos, isso não quer dizer que eu seja doente mental, e além do mais eu me trato, coisa que você sempre se recusou a fazer, é medo, isso, medo, você nunca quis se enfrentar e ver as coisas como realmente são, a vida real. É, tão libertária que você é, tão idealista, e não pôde nem suportar a idéia de que eu tenha trepado uma vez só com outra mulher, que liberdade é essa que termina no meu próprio pau? Tantas noites e tantos cigarros e garrafas de vinho gastas falando que a monogamia é artificial e que não se deixa de amar alguém indo pra cama com outro, e no que tudo isso acabou? Um escândalo e você desaparece e depois me manda uns postais, todos com fotos de praia, porque não colocou logo um cacete, porque foi isso que você foi buscar, confessa agora, como assim se você fez isso é porque não tinha em casa, deixa de ser hipócrita, você é só discurso e nunca vai assumir porra nenhuma, não quis nem me dar a bunda e agora fica aí posando de musa de um bando de des-dentados com a pele descascada e cérebro derretido de tanto chá de cogumelo, aposto que até com mulher já andou fodendo. Ciúme, essa é boa, eu tenho é pena e uma certa autopiedade por um dia ter amado você, nem sei como fui tão burro, como assim você quer saber se agora eu sou feliz? Que tal perguntar se algum dia eu fui feliz contigo, não eu não sou hipócrita, não estou dizendo que não te amei por-que seria mentira, seja lá o que amar alguém signifique, por-que depois do você fez eu nem sei mais, juro. Quer saber do

 

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que mais, esse telefonema já está me saindo caro, nem sei de que raio de lugarejo você está me ligando a cobrar, bem, pelo menos tem telefone, isso se não for o celular que eu te comprei com o dinheiro do meu trabalho, mas aí nem preci-saria ser a cobrar porque afinal sou eu mesmo que pago a conta dessa merda até hoje, porque nem pra se prostituir você tem talento, isso, uma puta, é isso que você é, o quê? fala de novo, repete, você não tem coragem, isso, desliga, desliga que assim você não me ouve dizer que estou morrendo de saudade, vagabunda.

 

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ponto de fuga

 

Quando você olha através da janela, só o que vê são outras janelas. Você pára de agarrar com força a cortina, deixando que ela caia, e assim só enxerga um verde meio desbotado, que parece aumentar ainda mais o cheiro de mofo. Você olha para o casebre no quadro sobre a cama e fica imaginando como seria a vida das pessoas que moram ali dentro. Um tamborilar crescente lhe distrai e avisa que começou a cho-ver, mas você não faz nada além de caminhar para a frente do espelho ao lado da porta. Esticando o braço esquerdo, você apaga a luz e o quarto só não fica em total escuridão por conta da luz amarelada do abajur. Você olha para seus olhos entreabertos no espelho e começa a chorar sem alarde, para não acordar alguém. Aos poucos você vai tirando as roupas uma a uma até ficar totalmente nu. Você caminha até a cama e se afunda no colchão, a cabeça pesando sobre um canto do travesseiro, e enxuga as lágrimas com as costas da mão. En-colhendo as pernas, você enfia um polegar na boca e começa a chupá-lo. Você respira fundo e coloca mais um dedo para dentro, e então outro e mais outro e a mão inteira. Você senta na cama e vai enfiando todo o braço dentro da boca. Um ardido no fundo da garganta tenta atrapalhar seus planos, mas ele não resiste ao outro braço, que você introduz boca aden-tro até chegar ao ombro. Um leve impulso dos quadris e você

 

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levanta a perna direita até prender o dedão do pé com os dentes. É um pouco mais difícil do que com os braços, mas com paciência e uma boa técnica de engolir calcanhares você consegue colocar a perna inteira para dentro. Você controla a vontade de vomitar e a outra perna é sugada como se fosse espaguete. Você está frente a frente com seu cu. A chuva fica mais forte. Um pouco de esforço do abdômen e você encosta o nariz em seu cu, e aos poucos vai enfiando sua cabeça para dentro, depois o tórax, e ao término de poucos minutos você desaparece sem deixar um bilhete de despedida.

 

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Ovelhas não voam

porque se perdem

no céu.

Pölla

 

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Em 1998, Daniel Pellizzari (Manaus, 1974) obteve seu PhD em Literatura Anglo-Saxã pelo Trinity College, com a tese Hwæt!Grendel Was a Færie: Transgender Issues in “Beowulf ” & 8th Century Britain During the Viking Invasion . Em seguida, abandonou a vida acadêmica, cortou o cabelo, apo-sentou seus dados de vinte lados e escreveu os livros Ovelhas que voam se perdem no céu (2001; Itália, 2003) e O livro das cousas que acontecem (2002).

http://www.cousas.org

 

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Copyright © Daniel Pellizzari, 2001-2004

Coordenação editorial, revisão, projeto gráfico: Livros do Mal

Livros do Mal é Daniel Galera, Daniel Pellizzari e Guilherme Pilla

Ilustrações: Guilherme Pilla

 

ISBN 85-901822-2-3

1a edição: 2001, 600 exemplares 2a edição: 2002, 500 exemplares

3a edição: 2004, PDF

 

Informações sobre a editora:

http://www.livrosdomal.org

 

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Você terminou Ovelhas que voam se perdem no céu

Daniel Pellizzari

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