Peregrinação: capítulos escolhidos

Fernão Mendes Pinto · Capítulo 5 de 5

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Peregrinação: capítulos escolhidos

Capítulo CCXIV

 

DA GRANDE TORMENTA QUE

SOFREMOS INDO DO JAPÃO

PARA A CHINA, E COMO NOS

LIVRAMOS DELA POR

ORAÇÕES DESTE SERVO DE

DEUS

Ao outro dia pela manhã, depois de o nosso santo padre, como todos os Portugueses, se ter despedido de El-Rei, o qual nesta despedida lhe fez as honras e o gasalhado que sempre costumava, fomo-nos embarcar e partimos desta cidade de Fucheu, e velejámos pela nossa rota à vista de terra até uma ilha de El-Rei de Minacó, chamada Meleitor; e atravessando daqui com ventos de monção tendente, continuámos o nosso caminho por espaço de sete dias, no

m dos quais o tempo, com a conjunção da lua nova, nos saltou ao

Sul, e ameaçando-nos com chuveiros e mostras de Inverno, veio em tamanho crescimento que nos vimos forçados a arribar por m de roda com a proa ao rumo de Nor-nordeste, por mar incógnito e nunca navegado de nação nenhuma, sem sabermos por onde íamos, entregues de todo ao arbítrio da fortuna e do tempo, com uma tão brava e tão excessiva tormenta qual os homens nunca imaginaram, que nos durou cinco dias; e como em todos eles nunca vimos o Sol, para o piloto saber por que altura caminhava, só pela sua fraca estimativa, sem conta de graus nem de minutos, foi demandar pouco mais ou menos a paragem das ilhas dos Papuás, Selebes e Mindanaus, que distavam dali seiscentas léguas.

No segundo dia desta tormenta, já sobre a tarde, foi crescendo o mar de escarcéu com vagas tão altas que o ímpeto da nau as não podia romper, pelo que se assentou, por parecer dos o ciais, que as obras do chapitéu e dos castelos de avante se arrasassem até ao andar do convés, para que a nau pudesse assim car mais afrontada, e obedecer aos lanços do leme. Feito isto com toda a presteza possível, porque todos, sem escapar nenhum, se ocuparam neste trabalho, tratou-se logo de segurar o batel, o qual com assaz de trabalho foi atracado a bordo, e lhe guarneceram logo um cabo de duas amarras de cairo novas. E porque quando esta obra se acabou já a cerração da noite era muito grande, não foi possível recolher-se à nau a gente que estava nele, pelo que foi forçado aquela noite

carem lá todos, que foram quinze, dos quais cinco eram

Portugueses, e os outros escravos e marinheiros.

Em todos estes trabalhos e infortúnios nos acompanhou sempre este bem-aventurado padre, tanto de noite como de dia, por um lado trabalhando por sua pessoa como cada um dos outros, e por outro animando e consolando a todos de tal maneira que, depois de Deus, ele só era o capitão que nos esforçava, e nos dava alento para não nos rendermos de todo ao trabalho, e nos entregarmos de todo à ventura, como alguns quiseram fazer algumas vezes, se ele não fora. Sendo já quase meia-noite, os quinze que iam no batel deram uma grande grita de «Senhor Deus, misericórdia», e acudindo toda a gente da nau a saber o que aquilo era, viram ao horizonte do mar o batel ir atravessado, porque lhe tinham quebrado os bragueiros ambos com que estava amarrado.

O capitão, com a dor daquele desastre, sem cuidado algum, nem atentar no que fazia, mandou arribar a nau pela esteira do batel, parecendo-lhe que o poderia salvar; mas como ela era má de governo, e acudia devagar ao leme, por causa da pouca vela de que era ajudada, cou atravessada entre duas vagas, onde a encapelou uma grande serra por cima da popa, e lhe lançou no convés tamanho peso de água que a teve de todo soçobrada, ao que a gente com uma grande grita que rompia o ar chamou com muita instância por Nossa Senhora que lhe valesse. A isto acudiu muito depressa o padre, que estava então posto de joelhos, debruçado sobre uma caixa na câmara do capitão, e vendo a nau da maneira que estava, e nós pelas amuradas uns sobre os outros, escalavrados os mais deles das capoeiras do convés, disse alto, levantando as mãos ao Céu:

— Ó Jesus Cristo, amores de mi anima, vale-nos, Senhor, pelas cinco chagas que por nós padeceste na árvore da vera Cruz, — e logo naquele breve instante a nau tornou a surdir sobre a vaga do mar, e acudindo-se logo com muita pressa a marear a moneta que ia guarnecida por papa go ao pé do traquete, prouve a Nosso Senhor que cou direita, e logo mareada em popa, e o batel desapareceu de todo pela esteira da nau, do que todos caram chorando, e rezando pelas almas dos que iam nele.

Desta maneira corremos tudo o que restava da noite com assaz de trabalho, e quando foi manhã clara, em todo o mar quanto alcançava a vista de cima da gávea não aparecia coisa nenhuma senão o escarcéu da tormenta que rebentava em or; e sendo passada pouco mais de meia hora de dia, o padre, que então estava recolhido na câmara do capitão, veio ao chapitéu onde estavam o mestre e o piloto com mais outros seis ou sete Portugueses, e depois de dar a todos os bons dias, com semblante alegre e quieto, perguntou se aparecia o batel, e foi-lhe respondido que não; e rogando ao mestre que quisesse mandar um marinheiro à gávea para que visse se aparecia de lá de cima, um dos que ali estavam lhe disse que apareceria quando se perdesse outro, ao que o padre, pesando-lhe o que lhe ouvira, respondeu — Ó irmão Pero Velho (que assim se chamava ele), muito pequena é essa fé que tendes! E como? julgais vós por ventura que pode ser alguma coisa impossível a Deus Nosso Senhor? pois eu con o nele, e na sacratíssima Virgem Maria sua mãe, a quem por ele tenho prometido três missas na bendita casa do Outeiro, em Malaca, que há de permitir que aquelas almas que vão nele se não percam — do que o Pero Velho cou corrido, e não disse mais palavra nenhuma. Então o mestre, para satisfazer melhor o rogo do padre, foi ele em pessoa com outro marinheiro à gávea, e vigiando de lá de cima por espaço de quase meia hora, disseram que em todo o mar quanto lhes alcançava a vista não aparecia coisa nenhuma, e o padre respondeu-lhes: — Ora descei, pois não há já que fazer.

E chamando-me então para o chapitéu onde ele estava, e ao parecer de todos bem triste, perguntou-me se lhe queria mandar aquentar uma pouca de água para beber, porque trazia o estômago muito desconsolado, a que eu por meus pecados não satis z, por não haver fogão na nau, porque se tinha lançado ao mar no dia anterior, quando se alijou o convés no princípio da tormenta. E queixando-se-me ele então que andava muito esvaído da cabeça, e com vágados que lhe davam de quando em quando, respondi-lhe eu: — Não admira andar vossa reverência dessa maneira, pois há três noites que não dorme, e quiçá que nem terá comido, porque assim mo disse um moço de Duarte da Gama.

Ao que ele respondeu: — Certi co-vos que tenho dó dele, por quão desconsolado o vejo, porque esta noite, depois que se perdeu o batel, nunca deixou de chorar por seu sobrinho Afonso Calvo que vai nele com os mais companheiros.

— Eu então, porque vi o padre bocejar muitas vezes, disse-lhe: — Vá-se vossa reverencia encostar um pouco ali naquele meu camarote, e quiçá que repousará,

— o que ele aceitou, dizendo que fosse pelo amor de Deus, e que me pedia muito que mandasse ao meu China que lhe fechasse a porta, e não se fosse dali, para que quando chamasse lhe abrisse, e isto podia ser entre as seis e as sete da manhã, pouco mais ou menos; e, recolhendo-se ao camarote, esteve nele todo o dia até quase sol posto. E acertando eu neste comenos de chamar o China que estava à porta da banda de fora, para que me desse um púcaro de água, perguntei-lhe se o padre ainda dormia, e ele respondeu-me: — Nunca dormiu, mas está de joelhos, chorando de bruços sobre o catre, — e eu disse-lhe então que voltasse a sentar-se à porta, e que acudisse quando ele chamasse.

Desta maneira esteve o padre recolhido na sua oração até quase sol posto, e então saiu do camarote, e dirigiu-se acima do chapitéu, onde todos os Portugueses estavam sentados no chão, por causa dos grandes pendores e balanços que dava a nau; e depois de os saudar a todos perguntou ao piloto se aparecia o batel, e ele respondeu-lhe que por razão natural era impossível deixar de se ter perdido com mares tão grossos como aqueles, e que a supor que Deus milagrosamente o quisesse salvar, todavia já nos cava a mais de cinquenta léguas. Ao que o padre lhe retorquiu:

— Assim parece naturalmente, mas folgaria eu, piloto, já que nisso se não perde nada, que por amor de Deus quisésseis ir à gávea, ou mandar lá algum marinheiro que de lá de cima vigie todo o mar, para que ao menos nos não que isto por fazer, — e o piloto disse-lhe que ele iria lá de boa vontade. E, subindo acima, e o mestre com ele, mais para satisfazerem o desejo que viam no padre, do que por lhes parecer que podiam ver alguma coisa como parecia que estava em razão, detiveram-se lá um grande espaço, e por m a rmaram que em todo o mar não viam coisa nenhuma, do que o padre, ao parecer de todos, cou assaz triste. E encostando a cabeça no prepau do chapitéu, esteve assim com aquela tristeza um pouco, impando como se quisesse chorar, e por m, abrindo a boca, e tomando fôlego como que desabafando daquela tristeza que tinha, e levantando as mãos ao Céu, disse com lágrimas:

— Jesus Cristo, meu verdadeiro Deus e Senhor, peço-te pelas dores da tua sacratíssima morte e paixão que hajas misericórdia de nós, e nos salves as almas dos éis que vão naquele batel, — e tornando com isto a reclinar a cabeça sobre o prepau a que estava encostado deixou-se assim estar como se dormisse coisa de dois ou três credos, quando um menino que estava sentado na enxárcia começou a gritar, dizendo: — Milagre, milagre, que eis aqui o nosso batel! A esta voz arremeteu toda a gente assim como estava à parte de bombordo, onde o menino gritava, e viu vir o batel, afastado da nau obra de um tiro de espingarda pouco mais ou menos. E espantados todos de tão novo e desacostumado caso, choravam uns com os outros como crianças, de maneira que não havia quem se pudesse ouvir em toda a nau com os urros da gente.

Todos arremeteram então ao padre para se lhe lançarem aos pés, porém ele não o consentiu, e recolheu-se para a câmara do capitão, e fechou-se por dentro para que ninguém lhe falasse. Os companheiros que vinham no batel foram logo recolhidos na nau, com aquele gosto e alvoroço que todos podem entender, e por isso também deixo agora de contar aqui as particularidades deste recebimento, porque são elas mais para se cuidarem do que para se escreverem.

Passando assim aquele pequeno espaço em que a noite se cerrou de todo, que podia ser pouco mais de meia hora, mandou o padre chamar o piloto por um menino, e disse-lhe que louvasse a Deus Nosso Senhor, de quem eram aquelas obras, e mandasse logo fazer a nau prestes, porque aquele temporal não duraria muito. E satisfazendo-se com toda a presteza possível e com muita devoção ao que o padre mandara, prouve a Nosso Senhor que logo de improviso, antes que a verga grande estivesse em cima, e as velas fossem mareadas, a tormenta acalmou de todo, e saltou-nos o vento ao Norte, com o qual por monção tendente seguimos a nossa viagem com muita alegria e contentamento de todos; e este milagre que contei aconteceu a dezassete de dezembro de 1551.

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