Salve, Rei!
Salve, Rei!
Cantor d'outr'ora, quando vi sem flores
Os magicos jardins da phantasia,
Minha lyra depuz.
Não mais pedi inspirações terrenas.
Curvei-me ante o altar, sagrei meu estro
Aos canticos da cruz.
E, sem magoa, quebrei prisões da terra,
Mas uma, se então quiz tambem quebral-a,
Não pude… em vão tentei…
Eram saudades a viver d'esp'ranças,
Saudades, que nem Deus manda esquecel-as,
Saudades do meu Rei!
Ficava-me no mundo um nome grande,
Um symbolo d'amor, de luz radiante,
Sob um manto real…
Imagem do que vi na minha infancia,
Sentado no docel, herança augusta
Dos Reis de Portugal
Christão, pedi com fé—senti que a tinha
Prostrado ante o altar, quando eu pedi
Recursos ao meu Deus…
Recursos, não pr'a mim que nasci servo,
Recursos para Vós, Rei desterrado
Sob inhospitos céus!—
Pulsou-me o coração, senti no labio,
Em vez da oração, soltar-se o hymno
D'um peito portuguez!
Ás lagrimas succede essa alegria
Dos extasis que á mente imprimem vôos
D'energica altivez!
Rei! no dia em que descestes
Do Vosso throno real
Apagou-se a luz da gloria,
Cerrou-se o livro da historia
Do Reino de Portugal.
Surge o anjo do exterminio
Sobre as trevas infernaes!
Traz de fogo a fera espada,
E com mão ensanguentada
Rasgas as purpuras reaes.
Sobre o solio dos Affonsos
Ferreo sceptro esmaga a lei:
Ruge alli o despotismo
Se não verga ao servilismo
Quem lhe diz «Tu não és Rei!»
Não és Rei! és uma affronta Feita ao povo portuguez!
Não és Rei que não herdaste
Este chão que escravisaste
A quem falso Rei te fez!
Vaga o anjo do exterminio
Como inspiração do algoz!
Corações com Vossa imagem,
Oh meu Rei! são a carnagem
Do punhal que fere atroz!
Foram dias de martyrio,
De terror e maldição!
Mas o martyr, expirando,
Esquecia-Vos só quando
Lhe morria o coração!
Vaga o anjo do exterminio
Do mosteiro sobre a cruz,
E roçando a negra aza
Pela cruz o templo arraza
E do altar extingue a luz.
Cospe injurias e sarcasmo
Sobre a face do ancião,
Porque orava, é réo, e expulso
Foge á morte, e cede ao impulso
De penuria, e pede pão.
Pede o pão que amassa em pranto
De saudades que crê vem
D'uma cella que comprára
Quando o mundo cá deixára Com as pompas que elle tem!
Pede o pão que lhe usurparam
Com tamanho desamor…
Fraco, ao vêr que chega a morte,
Morre… e então mostra que é forte
Perdoando ao matador!
Lá, no campo da carnagem,
Mutilado um corpo jaz…
Ficaram-lhe alli seus ossos…
Pois que foi um d'entre os Vossos
Real Senhor! não terá paz.
Nem a paz dos que morreram
Sem a nodoa da traição
Nem a paz da sepultura
Ao fiel que honrado jura
Morrer sob o seu pendão
Lá se abraça ao corpo exangue
No abandono da viuvez
A que alli vive arrastada
Mendigando, envergonhada,
Improperios… talvez!
Pobre, e só, mãe de tres filhos
Quando a fome a constrangeu,
Inda assim, um pensamento,
Uma esperança, um grato alento
Foi por Vós que o concebeu…
Vaga o anjo do exterminio
Enverga o manto real;
D'um diadema a fronte cinge,
Mas o sangue que lh'o tinge
Brada vingança fatal!
N'essa fronte ensanguentada
Escreveu a mão de Deus!…
Mas tambem homens puzeram
Inscripções onde se leram
Infamias como tropheus!
Oh Rei de Portugal! Quando a amargura
D'este povo infeliz, é sem conforto,
Valemo-nos do céu!
Pedimos-lhe por Vós, anjo proscripto,
Pedimos-lhe vigor á doce espr'ança
Que em vós o céu nos deu!
Vireis, Senhor vireis, que Deus é justo!
Vireis enxugar lagrimas amargas
Que se choram por Vós!
Sereis de todos Pae, não vingativo,
E nós todos irmãos, e Vós de todos…
O Rei de todos nós!
Fatidica aureola circumda
Nas plagas do desterro dolorosas
Vossa fronte real.
Sentado sobre as rochas da montanha
Lá mesmo na solidão d'amargo exilio
Sois Rei de Portugal!
Deu-vos um anjo a Providencia augusta
Em galardão á dôr que amargurastes
Você terminou Salve, Rei!
Camilo Castelo Branco
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Com Santa intrepidez.
Um dia curvaremos o joelho
Perante Essa que o ceu fadou Rainha
Do povo portuguez.
Camillo Castello Branco
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