Salve, Rei!

Camilo Castelo Branco · Capítulo 3 de 3

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Salve, Rei!

Salve, Rei!

 

Cantor d'outr'ora, quando vi sem flores

Os magicos jardins da phantasia,

Minha lyra depuz.

Não mais pedi inspirações terrenas.

Curvei-me ante o altar, sagrei meu estro

Aos canticos da cruz.

 

E, sem magoa, quebrei prisões da terra,

Mas uma, se então quiz tambem quebral-a,

Não pude… em vão tentei…

Eram saudades a viver d'esp'ranças,

Saudades, que nem Deus manda esquecel-as,

Saudades do meu Rei!

 

Ficava-me no mundo um nome grande,

Um symbolo d'amor, de luz radiante,

Sob um manto real…

Imagem do que vi na minha infancia,

Sentado no docel, herança augusta

Dos Reis de Portugal

Christão, pedi com fé—senti que a tinha

Prostrado ante o altar, quando eu pedi

Recursos ao meu Deus…

Recursos, não pr'a mim que nasci servo,

Recursos para Vós, Rei desterrado

Sob inhospitos céus!—

 

Pulsou-me o coração, senti no labio,

Em vez da oração, soltar-se o hymno

D'um peito portuguez!

Ás lagrimas succede essa alegria

Dos extasis que á mente imprimem vôos

D'energica altivez!

 

Rei! no dia em que descestes

Do Vosso throno real

Apagou-se a luz da gloria,

Cerrou-se o livro da historia

Do Reino de Portugal.

Surge o anjo do exterminio

Sobre as trevas infernaes!

Traz de fogo a fera espada,

E com mão ensanguentada

Rasgas as purpuras reaes.

 

Sobre o solio dos Affonsos

Ferreo sceptro esmaga a lei:

Ruge alli o despotismo

Se não verga ao servilismo

Quem lhe diz «Tu não és Rei!»

Não és Rei! és uma affronta Feita ao povo portuguez!

Não és Rei que não herdaste

Este chão que escravisaste

A quem falso Rei te fez!

 

Vaga o anjo do exterminio

Como inspiração do algoz!

Corações com Vossa imagem,

Oh meu Rei! são a carnagem

Do punhal que fere atroz!

Foram dias de martyrio,

De terror e maldição!

Mas o martyr, expirando,

Esquecia-Vos só quando

Lhe morria o coração!

 

Vaga o anjo do exterminio

Do mosteiro sobre a cruz,

E roçando a negra aza

Pela cruz o templo arraza

E do altar extingue a luz.

Cospe injurias e sarcasmo

Sobre a face do ancião,

Porque orava, é réo, e expulso

Foge á morte, e cede ao impulso

De penuria, e pede pão.

 

Pede o pão que amassa em pranto

De saudades que crê vem

D'uma cella que comprára

Quando o mundo cá deixára Com as pompas que elle tem!

Pede o pão que lhe usurparam

Com tamanho desamor…

Fraco, ao vêr que chega a morte,

Morre… e então mostra que é forte

Perdoando ao matador!

 

Lá, no campo da carnagem,

Mutilado um corpo jaz…

Ficaram-lhe alli seus ossos…

Pois que foi um d'entre os Vossos

Real Senhor! não terá paz.

Nem a paz dos que morreram

Sem a nodoa da traição

Nem a paz da sepultura

Ao fiel que honrado jura

Morrer sob o seu pendão

 

Lá se abraça ao corpo exangue

No abandono da viuvez

A que alli vive arrastada

Mendigando, envergonhada,

Improperios… talvez!

Pobre, e só, mãe de tres filhos

Quando a fome a constrangeu,

Inda assim, um pensamento,

Uma esperança, um grato alento

Foi por Vós que o concebeu…

 

Vaga o anjo do exterminio

Enverga o manto real;

D'um diadema a fronte cinge,

Mas o sangue que lh'o tinge

Brada vingança fatal!

N'essa fronte ensanguentada

Escreveu a mão de Deus!…

Mas tambem homens puzeram

Inscripções onde se leram

Infamias como tropheus!

 

Oh Rei de Portugal! Quando a amargura

D'este povo infeliz, é sem conforto,

Valemo-nos do céu!

Pedimos-lhe por Vós, anjo proscripto,

Pedimos-lhe vigor á doce espr'ança

Que em vós o céu nos deu!

 

Vireis, Senhor vireis, que Deus é justo!

Vireis enxugar lagrimas amargas

Que se choram por Vós!

Sereis de todos Pae, não vingativo,

E nós todos irmãos, e Vós de todos…

O Rei de todos nós!

 

Fatidica aureola circumda

Nas plagas do desterro dolorosas

Vossa fronte real.

Sentado sobre as rochas da montanha

Lá mesmo na solidão d'amargo exilio

Sois Rei de Portugal!

 

Deu-vos um anjo a Providencia augusta

Em galardão á dôr que amargurastes

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Camilo Castelo Branco

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Com Santa intrepidez.

Um dia curvaremos o joelho

Perante Essa que o ceu fadou Rainha

Do povo portuguez.

 

Camillo Castello Branco

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