Solitária

Alexander Gordon Smith · Capítulo 3 de 31

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Solitária

Enterrados Vivos

 

Q uando você está apavorado — e com isso quero dizer realmente apavorado, não apenas com medo por ter escutado um ruído à noite ou de encarar alguém com o dobro do seu tamanho que quer jogá-lo no chão —, parece que a própria escuridão corre em suas veias. E como se uma água escura tão fria quanto o gelo se infiltrasse em seu corpo, onde antes costumavam estar seu sangue e sua essência, extraindo todos os outros sentimentos de você, enquanto o consome dos pés à cabeça. Você fica oco por dentro.

Foi assim que me senti sentado ali. Não eram os cães que me aterrorizavam, nem Gary. Tampouco o pensamento de ser preso de novo. Não era sequer a ideia de que poderia morrer tremendo e desamparado sobre aquela rocha, vítima de algum fungo venenoso e desconhecido. Não. O que me aterrorizava era a ideia do que poderia acontecer após a morte.

Podia aceitar bem o fim de minha existência, pois não haveria mais medo nem sofrimento. Mas e se a morte não fosse o fim? E se alguma parte de mim, talvez minha alma, sobrevivesse? E se ela fosse mantida ali nas entranhas de Furnace pelo resto dos tempos, jamais vendo de novo o sol ou ouvindo o som de risos? Era isso que fazia meu corpo parecer um poço desprovido de vida e luz. Era isso que estava me levando à loucura.

— Vamos por ali — sugeri, mais para afastar as vozes que sussurravam na minha cabeça do que por ter um plano. A claridade fez minhas retinas arder, quando Gary se voltou para mim. Estendi a mão, apontando a escarpa lá embaixo, na mesma direção em que o rio se estendia. — Gary, você é quem tem a luz, então assuma a liderança. Certifique-se de não perder nenhuma passagem oculta, pois uma delas pode ser a nossa saída.

— Pode mesmo? — cortou Gary, tão ameaçador quanto um tiro de pistola. Mas era óbvio que não tinha nenhuma ideia melhor, por isso levantou- se com dificuldade e virou a cabeça na direção para a qual eu havia apontado. A lâmpada do capacete iluminou apenas o caminho logo à frente, porém o restante desaparecia dois ou três passos adiante.

— Vá de-devagar — gaguejei, enquanto um calafrio percorria todo o meu corpo, fazendo arder dolorosamente cada nervo. — Preste atenção onde pisa; se despencar daqui, será o fim para todos nós.

Gary não respondeu, mantendo a cabeça voltada para a frente ao deslizar com cautela, pé ante pé, ao longo da superfície rochosa. Seus pés chutaram lascas de pedra no vazio, e tentei ignorar o som delas atingindo a água espumosa lá embaixo. O rio já havia permitido que sobrevivêssemos duas vezes, mas eu podia apostar que não mostraria a mesma misericórdia se caíssemos nele novamente.

— Vamos — sussurrei, estendendo a mão para Zê e puxando-o para cima. — Antes que esse idiota nos deixe para trás.

Seguimos atrás de Gary com cuidado, fazendo de tudo para olhar por sobre os enormes ombros dele. A cada passo, as sombras na parede projetavam-se em movimentos descontrolados, e era impossível não lembrar dos Ofegantes — aqueles estranhos seres com máscaras de gás — retorcendo- se diante de nós como pássaros agonizantes. Toda vez que avistava uma sombra, meu coração batia acelerado, o que não era de todo ruim, pois o medo parecia ser a única coisa que nos mantinha em contato com a realidade.

— Esse caminho não vai nos levar a lugar nenhum — ouvi a voz trêmula de Gary dizendo. — É tudo igual aqui em cima; não tem nada que se pareça, nem de longe, com uma porta.

— Está esperando ver uma porta? — perguntei, incapaz de conter o riso histérico que me escapava da garganta. Gary não respondeu nem se virou, mas podia jurar que senti o ar ficar mais denso devido à tensão, como se ele estivesse prestes a explodir. É claro que Gary tinha razão. Não importava quantos passos déssemos, a parede à esquerda e o abismo negro como piche à direita permaneciam exatamente os mesmos. E cada passo hesitante à frente iluminava um pouco mais o caminho adiante, mas também deixava escuro o

espaço atrás de nós. Era como se andássemos em uma esteira mecânica.

A imagem trouxe de volta o temor de me tornar um fantasma aprisionado ali por toda a eternidade. Enfraquecida à beira da loucura por tudo que havia acontecido, minha mente tentava agora me convencer de que eu já estava morto; que aquele era meu inferno pessoal.

E podia ser mesmo. Quero dizer, mais que qualquer outra coisa, o avanço pela escuridão fazia-me recordar da época em que tinha invadido casas e rastejado pela penumbra enquanto os proprietários dormiam, tentando desesperadamente não fazer nenhum ruído, sempre em pânico por talvez não conseguir escapar em caso de emergência e ser flagrado. Poderia haver melhor punição para um criminoso como eu do que ser condenado a passar a eternidade andando por uma superfície rochosa com apenas um fio de luz e um pouco de ar, que pareciam, a cada passo, diminuir?

— Cuidado! — avisou Gary, quando bati em cheio em suas costas. — Está tentando me empurrar? Arranco suas tripas se tentar fazer isso de novo. Está me escutando?

Eu me envolvera tanto em meus pensamentos de ruína eterna que não percebi que Gary tinha parado. Murmurei um pedido de desculpas, apoiando uma das mãos na parede para poder ficar na ponta dos pés e ver o que o havia detido. A visão era idêntica a tudo que tínhamos visto nos últimos minutos, exceto por uma escarpa denteada que descia pela parede em sentido vertical. Ela se dividia em duas, assumindo o formato de uma cruz rudimentar, como se aquele espaço fosse uma imensa catedral e estivéssemos violando seu altar.

— Siga por aí — sugeri, sem me preocupar em deixá-lo mais irritado. — Pode ser que esse seja o caminho.

— Vá você — replicou ele com voz trêmula . — Não parece certo seguirmos por aqui.

Ponderei o que o havia assustado. A saliência à frente não parecia nem um pouco mais traiçoeira do que havia sido o tempo todo, exceto pelo trecho onde era cortada pela metade. A fenda na parede era bem marcada e escura, mas não representava nenhum tipo de ameaça.

Então ouvi um ruído acima do rugido estrondoso do rio lá embaixo. Era um som muito alto, e fiquei pensando como nenhum de nós o havia

percebido antes — um silvo que se elevava, como uma velha chaleira antes de

sucumbir ao fogo e desaparecer, incinerada, no próprio eco.

É o vento — falei, mas sentia-me tão inseguro que a frase mais pareceu uma pergunta.

— Significa que estamos próximos da superfície, certo? — ouvi a voz de Zê atrás de mim. Assenti com a cabeça.

Há vento nessas cavernas, assim como há água. Não significa que estamos salvos.

O silvo surgiu de novo, agora mais próximo, mais alto e mais prolongado. Outro se sobrepôs a ele, um som agudo que mais parecia um grito, antes de ser sufocado pelo ruído da água. E o vento, pensei, tentando fincar as palavras como estacas em minha cabeça, de modo a não ousar questioná-las. O vento nos túneis, causado pela oscilação de pressão na água.

Mas eu sabia que, o que quer que tivéssemos ouvido, não era produzido por nada tão inocente como o ar. Mais silvos, três ou quatro dessa vez, um lutando contra o outro em busca de supremacia. Gary praguejou e voltou-se para mim, as pupilas dilatadas e o branco dos olhos reluzindo tão ferozmente ao redor delas que mais parecia um animal. Sussurrou algo que não consegui ouvir, mas não havia dúvida do que seus lábios haviam proferido.

Os Ofegantes.

— São eles? — perguntou Zê, a voz à beira do choro. — Por favor, Deus, não permita que sejam eles.

Sacudi a cabeça até que todos os pensamentos envolvendo aqueles seres estranhos com máscaras de gás desaparecessem, então dei um passo à frente. Gary abrira caminho para mim, e me dirigi à fenda na rocha, o coração tão próximo da garganta que conseguia sentir as batidas nas amígdalas.

— Não devem ser eles — falei por sobre o ombro assim que atingi a beira da escarpa. — Pode não ser nada. Apenas estamos com medo, um pouco paranoicos. Esqueçam o barulho, certo? Tudo que precisamos é encontrar uma saída. Vamos deixar para nos preocupar com os Ofegantes quando chegar a hora.

Uma mistura de observações sussurradas foi proferida ao fim da minha frase, mas ninguém discutiu a questão. Encarei isso como um bom sinal.

Apoiei-me na beirada da rocha fendida e examinei seu entorno. A fenda devia ter uns dois metros de largura; a rocha continuava do outro lado, mas estava distante demais para saltarmos até ela. Sem iluminação suficiente, não era possível determinar aonde a fenda dava, se é que ela dava em algum lugar.

— Gary, preciso da lâmpada.

Em vez de entregá-la a mim, ele parou do meu lado, as mãos ásperas segurando meu braço — uma promessa velada de que, se tropeçasse e caísse, me levaria com ele. Inclinou-se, hesitante, e dirigiu a luz trêmula na direção da penumbra. As sombras se dissiparam, relutantes, como se aquela fosse a primeira vez que viam a luz. A fenda se afinava até se tornar apenas um ponto

— não havia passagem.

— Olhe para cima! — ordenei. Se tivesse falado assim com Gary antes, ele teria me furado sem pensar duas vezes. Mas ali onde estávamos as coisas eram diferentes. Ele jogou a cabeça para trás, cambaleando sem firmeza à beira do precipício e enterrando seus dedos em minha pele ferida. No entanto, a dor valeu a pena, pois a luz fraca encontrou outra porção de rocha oculta nas sombras. Fiz menção de abrir a boca para comunicar meu achado, quando o ruído surgiu de novo, e o modo como progrediu, guinchando pela escuridão para a qual eu olhava, deixou clara sua procedência.

— Encontre outra saída — pediu Gary num fio de voz.

— Não há... — comecei, mas, antes que pudesse terminar, suas mãos haviam soltado meu macacão e estavam em volta do meu pescoço. Ele girou, torcendo nossos corpos até ficarmos perigosamente próximos da beirada da fenda. Podia sentir o ar frio vindo do rio abaixo, como uma língua gelada tentando me alcançar, e por um instante tive a impressão de já estar caindo.

— Mandei encontrar outra saída! — gritou Gary. — Ou vai ter que nadar.

— Gary! — gritou Zê.

Eu não ofereci resistência. Parte de mim queria que ele me soltasse, que me lançasse à morte. Parte de mim queria se tornar um fantasma só para vê-lo lutando para encontrar uma saída sem mim; só para que eu pudesse rir enquanto ele lentamente morresse de fome nas entranhas da Terra. Quase disse tudo isso a ele, mas felizmente me contive e fiquei de boca fechada. Não se faz esse tipo de gracinha com pessoas como Gary.

— Não há outra saída — repeti, desviando meus olhos dos dele. — Também não podemos voltar. Não conseguiremos saltar para o outro lado da rocha. Não temos escolha.

— O que é aquilo lá embaixo? — perguntou Zê. Baixei o olhar, e Gary encarou esse gesto como um sinal de submissão. Puxando-me para trás, empurrou Zê para o lado e olhou para o espaço lá embaixo. Juntei-me a eles, espreitando como podia, e vi uma área circular mais escura alguns metros abaixo de nós. — Aquilo é um túnel, não é? — continuou Zê.

— Pode não ser — respondi. A fenda na rocha não parecia muito maior do que um de nós, e a ideia de entrar ali sem saber aonde daria ou quanto poderia se afunilar ao longo do caminho provocou um nó em meu estômago.

— De qualquer maneira, por pior que seja, estamos melhor aqui em cima. Mesmo que aquilo seja um túnel, parece que segue mais para o fundo.

— Não me importo — retrucou Gary. — Desde que não me leve para próximo dos Ofegantes.

Não havia como discordar dele. Com outra dança assustadora de luzes e sombras, Gary se pôs a descer, resmungando ao se dirigir àquilo que parecia ser um túnel.

— Tem algo errada — falei para Zê. — Tenho um péssimo pressentimento. Acho mesmo que deveríamos subir, e não descer.

Mas, enquanto dizia isso, outro ruído arrepiante ecoou, como o som de unhas arranhando uma lousa, e, antes que terminasse, Zê já seguia Gary. Eu teria deixado os dois entrar naquela fenda escura com prazer, tão grande era meu terror de rastejar ainda mais para baixo naquele sarcófago rochoso. Mas, se os deixasse ir, ficaria sozinho na escuridão, é isso sem dúvida me levaria à loucura.

— Tem algo errado — falei de novo, mas minhas palavras se desmancharam no vazio. Então agarrei com firmeza na rocha e me pus em movimento, seguindo abismo abaixo.