Tempo do Desprezo

Andrzej Sapkowski · Capítulo 1 de 7

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Tempo do Desprezo

Capítulo Primeiro

 

Bruxeiros – Denominação dada a bruxos entre os nortelungos (v.), casta

de sacerdotes-guerreiros elitista e secreta, provavelmente uma facção de druidas

(v.). Dotados, segundo a crendice popular, de forças mágicas e capacidades

sobre-humanas, os bruxeiros enfrentavam maus espíritos, monstros e toda

espécie de forças do mal. De fato, em virtude de sua maestria no manejo de

armas, eram usados pelos governantes do Norte nas lutas intertribais. Uma vez

em combate, os bruxeiros entravam num transe provocado, acredita-se, por

auto-hipnose ou ervas alucinatórias, lutando com cega energia e totalmente

insensíveis à dor ou até a graves ferimentos, o que reforçava a crença em seus

poderes sobrenaturais. A teoria segundo a qual os bruxeiros seriam fruto de

mutações ou de engenharia genética nunca foi comprovada. Os bruxeiros

figuram como heróis em diversas lendas dos nortelungos (v. F. Delannoy,

Mitos e lendas dos povos do Norte).

Effenberg e Talbot,

Encyclopaedia Maxima Mundi, volume XV

 

Para poder ganhar a vida como mensageiro montado, dizia Aplegatt aos novatos, são necessárias duas coisas: uma cabeça de ouro e um traseiro de ferro.

A cabeça de ouro é indispensável, ensinava Aplegatt, porque na bolsa de couro achatada, cruzada no peito desnudo debaixo da camisa, o estafeta leva apenas notícias de importância secundária, que, sem temor algum, podem ser confiadas ao traiçoeiro papel ou pergaminho. Já quando se trata de notícias verdadeiramente importantes, de informações secretas das quais dependem muitas questões, o estafeta deve guardá-las na memória e repeti-las ao destinatário, palavra por palavra – em geral, palavras complicadas, difíceis de pronunciar, ainda mais de lembrar. Para decorá-las e não cometer engano algum ao repeti-las, ele realmente precisa de uma cabeça de ouro.

E quanto à utilidade de um traseiro de ferro… bem, isso qualquer estafeta descobrirá por si mesmo em pouco tempo, ao ter de passar na sela três dias e três noites, cavalgando cem ou até duzentas milhas por estradas e às vezes, se necessário, por trilhas silvestres… É verdade que ele não fica na sela o tempo todo; volta e meia desmonta e descansa. Afinal, um homem consegue aguentar muito; o cavalo, nem tanto. Depois do descanso, porém, quando o estafeta tenta montar de novo, o traseiro pode gritar: “Socorro, estão me matando!”

– Mas quem necessita de um estafeta nos dias de hoje, senhor Aplegatt? – perguntavam alguns jovens. – De Vengerberg a Wyzim, por exemplo, ninguém conseguirá chegar em menos de quatro ou cinco dias, mesmo montado no mais veloz dos ginetes. E de quanto tempo precisa o feiticeiro de Vengerberg para enviar uma mensagem mágica ao feiticeiro de Wyzim? Uma hora e meia, talvez nem isso. É possível que o cavalo do estafeta comece a mancar. Ele próprio pode ser morto por assaltantes ou Esquilos ou ainda ser devorado por lobos ou grifos. Há um estafeta e… puf!… não há mais. Já uma mensagem encantada nunca se atrasará nem se perderá; sempre chegará a seu destino. Para que servem os estafetas, se há feiticeiros por toda parte, em todas as cortes reais? Os estafetas não têm mais utilidade, senhor Aplegatt.

Por certo tempo, Aplegatt também achou que não era mais necessário a ninguém. Estava com trinta e seis anos, era baixo, mas forte e de constituição bem desenvolvida, não temia trabalho algum e, como era de esperar, tinha uma cabeça de ouro. Poderia ter abraçado outra ocupação para sustentar a si e sua esposa, fazer algumas economias para o dote das duas filhas solteiras e ajudar a outra, que, embora casada, tinha um marido palerma que não conseguia sair-se bem nos negócios. No entanto, Aplegatt não queria – nem podia imaginar – outro trabalho. Era um mensageiro montado real.

E eis que, após um longo período de esquecimento e de humilhante ociosidade, Aplegatt viu-se repentinamente útil de novo. As estradas e os caminhos abertos nas florestas tornaram a ecoar o som de ferraduras batendo no solo. Os estafetas voltaram a atravessar o país, como outrora, levando notícias de uma cidade a outra.

Aplegatt sabia a razão daquilo. Vira muito e ouvira ainda mais. Esperava-se que ele apagasse da memória uma mensagem assim que a transmitisse para que não pudesse revelá-la sob as mais severas torturas. Mas Aplegatt se recordava. E sabia por que os reis pararam de repente de se comunicar por meio de feiticeiros e magia. As informações levadas pelos estafetas não deviam ser do conhecimento dos feiticeiros. De uma hora para outra, os reis deixaram de confiar neles e de lhes confidenciar seus segredos.

A causa do repentino esfriamento da amizade entre os reis e os feiticeiros era algo que Aplegatt não sabia, tampouco lhe interessava. Para ele, tanto os reis como os feiticeiros eram seres incompreensíveis, e seus atos, indecifráveis, principalmente nos tempos difíceis. E, passando de cidade em cidade, de castelo em castelo, de reino em reino, era inevitável não notar o fato de que tempos difíceis haviam chegado.

Tropas marchavam pelas estradas. A cada passo era possível defrontar-se com colunas de infantaria ou cavalaria, e cada comandante encontrado aparentava estar nervoso, tenso, presunçoso, sentindo-se tão importante como se o destino do mundo todo dependesse apenas dele. Da mesma forma, as cidades e os castelos viviam cheios de gente armada, dia e noite, em incessante e febril correria. Os normalmente invisíveis burgraves e castelões corriam agora sobre os muros e pátios, furiosos como marimbondos antes de uma tempestade, vociferando, xingando, dando ordens e distribuindo pontapés. As fortalezas e praças fortes recebiam, dia e noite, carroças carregadas, as quais cruzavam com outras que, vazias, retornavam com rapidez. Por toda parte, nuvens de poeira cercavam cavalhadas de potros recém-saídos dos estábulos. Não acostumados a arreios nem a pesados cavaleiros de armadura, os cavalinhos aproveitavam os últimos momentos de liberdade, dando muito trabalho a seus condutores e criando problemas aos demais usuários das estradas.

Em poucas palavras: na abrasante e imóvel atmosfera sentia-se o opressivo clima de guerra.

Aplegatt ergueu-se nos estribos e olhou em volta. Mais abaixo, aos pés da colina, brilhava a superfície de um rio em tortuosos meandros por entre prados e grupos de árvores. Do outro lado do curso d’água, mais ao sul, estendiam-se florestas. O estafeta esporeou o cavalo. O tempo urgia.

Estava viajando havia quase dois dias. O despacho real e as cartas alcançaram-no em Hagge, onde descansava após o retorno de Tretogor. Saíra da fortaleza durante a noite, galopando ao longo da margem do Pontar, atravessara a fronteira com Temeria antes do raiar do sol e agora, na metade do dia seguinte, já estava às margens do rio Ismena. Se o rei Foltest tivesse estado em Wyzim, Aplegatt lhe teria entregado a mensagem naquela noite. Infelizmente, o rei não pernoitara na capital; estava no sul, em Maribor, a quase duzentas milhas de distância de Wyzim. Ciente disso, Aplegatt abandonou a estrada que conduzia para o oeste na altura da Ponte Branca e seguiu pelas florestas, na direção de Ellander. Não deixava de ser arriscado, já que nas florestas grassavam os Esquilos, e ai daquele que caísse em suas mãos ou se pusesse ao alcance de suas flechas. No entanto, um estafeta real tinha de correr riscos. Era nisso que consistia seu trabalho.

Aplegatt atravessou o rio sem dificuldades; não chovia desde junho e o nível de água do Ismena baixara consideravelmente. Mantendo-se à beira da floresta, chegou à estrada que ia de Wyzim para o sudeste, rumo às choupanas, ferrarias e assentamentos dos anões no Maciço de Mahakam. Pela estrada seguiam carroças escoltadas, em geral, por pequenos destacamentos de cavalaria. Aplegatt suspirou aliviado. Onde havia gente, não havia Scoia’tael. Em Temeria, a campanha militar de homens contra elfos durava mais de um ano, e os comandos de Esquilos, perseguidos nas florestas, dividiram-se em grupos menores, os quais mantinham uma prudente distância das movimentadas estradas e não preparavam emboscadas.

Antes do anoitecer, Aplegatt já se encontrava na fronteira ocidental do reino de Ellander, numa encruzilhada perto do vilarejo de Zavada, de onde partia um caminho reto e seguro até Maribor, quarenta e duas milhas de uma estrada de terra batida bastante frequentada. Na encruzilhada havia uma estalagem, e Aplegatt decidiu dar um descanso ao cavalo e a si mesmo. Sabia que, caso partisse bem cedo no dia seguinte, poderia ver antes do anoitecer as flâmulas negro-prateadas tremulando nas torres do castelo de Maribor.

Desencilhou pessoalmente sua égua, não deixando o cavalariço ocupar-se da tarefa. Era um estafeta real, e um estafeta real jamais permite que alguém toque em sua montaria. Comeu uma porção de ovos mexidos com salsicha e uma grande fatia de pão de centeio, acompanhando a refeição com um quartilho de cerveja.

Na estalagem paravam viajantes trazendo notícias de todas as partes do mundo. Dessa maneira, Aplegatt soube que haviam ocorrido novos incidentes em Dol Angra; mais uma vez um destacamento de cavalaria de Lyria entrara em choque com uma patrulha nilfgaardiana, e Meve, rainha de Lyria, voltara a acusar formalmente Nilfgaard de provocação e pedira ajuda ao rei Demawend de Aedirn. Tretogor tinha sido palco da execução pública de um barão redânio que costumava encontrar-se secretamente com emissários de Emhyr, imperador de Nilfgaard. Em Kaedwen, vários comandos dos Scoia’tael se juntaram numa força considerável e fizeram um massacre no forte de Leyd. Em resposta ao massacre, a população de Ard Carraigh promovera um pogrom que resultara no assassinato de quase quatrocentos inumanos que viviam na capital.

Em Temeria, segundo comerciantes vindos do sul, tristeza e luto se espalharam entre os emigrantes cintrenses reunidos sob as bandeiras do marechal Vissegerd. Fora confirmada a terrível notícia da morte da Leoazinha de Cintra, a princesa Cirilla, última descendente do sangue da rainha Calanthe, chamada de Leoa de Cintra.

Foram relatados ainda vários outros boatos de mau agouro. Dizia-se que, nas redondezas de Aldesberg, as vacas começaram repentinamente a esguichar sangue das tetas e, no meio da neblina matinal, surgira a Virgem da Dispersão, num claro prenúncio de terríveis desgraças. Em Brugge, nas cercanias da floresta de Brokilon, o proibido reino das dríades florestais, pessoas viram a Perseguição Selvagem, o cortejo de espectros galopando pelos céus, e uma Perseguição Selvagem, como todos sabiam, sempre prenunciava uma guerra. Já na península de Bremervoord, fora avistado um navio-fantasma com um espírito maligno num elmo adornado com asas de ave de rapina no convés…

O estafeta deixou de prestar atenção. Estava cansado e foi para o dormitório comunitário, onde desabou numa tarimba e adormeceu imediatamente.

Levantou-se ao raiar do sol. Espantou-se ao sair para o pátio: não havia sido o primeiro a se preparar para partir, algo que ocorria muito raramente. Perto do poço havia um negro garanhão selado e, a seu lado, debruçada sobre uma gamela, uma mulher em trajes masculinos lavava as mãos. Ao ouvir os passos de Aplegatt, ela se virou, atirando para trás os bastos cabelos negros. O estafeta fez uma reverência, e a mulher inclinou levemente a cabeça.

Ao entrar na cocheira, Aplegatt quase esbarrou em outro pássaro madrugador, uma adolescente com gorro de veludo, que naquele exato momento conduzia para fora uma égua malhada. A garota esfregava o rosto e bocejava, apoiando-se no flanco da montaria.

– Ai, ai – murmurou, passando pelo estafeta. – Acho que vou adormecer sobre este cavalo… Estou morta de sono… Uaaa, uaaa…

– O frio vai despertá-la assim que você encilhar a égua – disse Aplegatt polidamente, tirando sua sela pendurada numa viga. – Faça boa viagem, senhorita.

A jovem virou-se e olhou para ele como se estivesse vendo-o pela primeira vez. Seus olhos eram enormes e verdes como esmeraldas. Aplegatt atirou o xairel sobre o lombo do cavalo.

– Desejo-lhe boa viagem – repetiu.

Em geral, ele não era dado a muita conversa, mas agora sentia necessidade de manter uma conversa com alguém próximo, mesmo que o próximo fosse uma simples fedelha semiadormecida. Era possível que aquele desejo tivesse sido motivado pelos longos dias de solidão nas estradas ou talvez a garota lhe lembrasse sua filha do meio.

– Que os deuses as protejam – acrescentou – de qualquer acidente ou dano. Vocês estão sozinhas e, ainda por cima, são mulheres… Os tempos andam ruins. As estradas e trilhas estão cheias de perigos.

A jovem abriu ainda mais os olhos verdes. O estafeta sentiu um arrepio lhe percorrer a espinha.

– O perigo… – falou ela repentinamente, com voz estranha. – O perigo é silencioso. Você não conseguirá ouvi-lo quando ele vier voando com penas cinzentas. Tive um sonho. Areia… A areia estava quente sob o sol…

– O que disse? – Aplegatt parou petrificado, com a sela encostada na barriga. – O que disse, senhorita? Que areia?

A garota foi sacudida por um tremor e esfregou o rosto. A égua malhada agitou a cabeça.

– Ciri! – chamou asperamente a mulher de cabelos negros, ajeitando os arreios e estribos do negro garanhão. – Apresse-se!

A jovem bocejou, olhou para Aplegatt e piscou, dando a impressão de estar espantada com sua presença na cocheira. O estafeta permaneceu calado.

– Ciri – repetiu a mulher. – Você voltou a dormir?

– Já vou, dona Yennefer!

Quando Aplegatt por fim encilhou o cavalo e levou-o para o pátio, não havia sinal algum da mulher e da garota. Um galo cocoricou rouca e prolongadamente, um cachorro latiu e, no meio das árvores, um cuco cantou. O estafeta pulou sobre a sela. Lembrou-se repentinamente dos olhos verdes da garota semiadormecida e de suas estranhas palavras. “Perigo silencioso? Penas cinzentas? Areia quente? A menina não devia estar em seu pleno juízo”, pensou. “É fácil encontrar muitas jovens perturbadas, maltratadas por marginais nos dias da guerra… Só pode ser isso, ou talvez ela estivesse apenas grogue de sono e não totalmente acordada. É de espantar as bobagens que as pessoas são capazes de falar de madrugada, quando estão ainda naquela área cinzenta entre sonho e realidade…”

Aplegatt sentiu outro arrepio, dessa vez acompanhado por uma dor nas costas. Esfregou as omoplatas com os punhos.

Assim que se encontrou na estrada, esporeou o cavalo e partiu a pleno galope. O tempo urgia.

O estafeta não passou muito tempo em Maribor; em menos de um dia, o vento voltou a soprar em seus ouvidos. O novo cavalo, um garanhão lobuno das cocheiras de Maribor, corria, estendendo o pescoço e agitando a cauda. Os salgueiros à beira da estrada foram ficando para trás. O peito de Aplegatt sentia o peso da bolsa com o correio diplomático. O traseiro ardia.

– Tomara que você caia e quebre o pescoço, seu maluco! – gritou atrás dele um cocheiro, puxando as rédeas de seus cavalos, assustados com a passagem do garanhão a todo galope. – Olhem só como ele está com pressa! Parece até que a morte está lambendo seus calcanhares! Pode correr à vontade, seu desatinado, mas não conseguirá escapar da caveira com foice!

Aplegatt esfregou os olhos lacrimejantes de tanto vento. No dia anterior entregara a correspondência ao rei Foltest e, depois, recitara a mensagem secreta do rei Demawend:

– Demawend para Foltest. Tudo pronto em Dol Angra. Os disfarçados aguardam ordens. Data prevista: a segunda noite de julho após a lua nova. Os barcos devem atracar naquela margem dois dias mais tarde.

Sobre a estrada voavam bandos de gralhas grasnando com força. Iam para o leste, na direção de Mahakam, Dol Angra e Vengerberg. Aplegatt repetia mentalmente as palavras da mensagem secreta enviada por seu intermédio do rei de Temeria ao monarca de Aedirn: “Foltest para Demawend. Primeiro: suspendamos a ação. Os espertalhões convocaram um congresso. Vão se reunir e discutir na ilha de Thanedd. Esse encontro poderá alterar muita coisa. Segundo: podem suspender a busca da Leoazinha. Está confirmado que ela está morta.”

Aplegatt cutucou o garanhão com os calcanhares. O tempo urgia.

O estreito caminho pela floresta estava atravancado por carroças. Aplegatt diminuiu o ritmo e trotou até o último dos veículos da comprida fila. Percebeu de imediato que não conseguiria atravessar aquele engarrafamento. Dar meia-volta, nem pensar. Seria uma perda de tempo irrecuperável. Além disso, não lhe agradava a ideia de mergulhar numa floresta pantanosa, principalmente por estar começando a escurecer.

– O que aconteceu? – indagou aos condutores da última carroça da fila, dois velhinhos, um deles dormindo e o outro parecendo estar morto. – Um assalto? Esquilos? Falem logo, porque estou com pressa…

Antes que um dos velhinhos tivesse tempo para responder, ouviram-se gritos vindos da ponta do engarrafamento. Rapidamente, dezenas de cocheiros saltaram em suas carroças e açoitaram os cavalos, as mulas e os bois ao som dos mais rebuscados palavrões. A pesada coluna começou a avançar devagar. O velhinho adormecido acordou, sacudiu a barba, estalou a língua para as mulas e bateu as rédeas em suas ancas. O velhinho com aparência de morto ressuscitou, afastou dos olhos o chapéu de palha e virou-se para Aplegatt.

– Olhem só para ele – disse. – Está com pressa. Oh, filhinho, você teve muita sorte. Chegou aqui na hora exata.

– Sem dúvida. – O segundo velhinho sacudiu a barba e apressou as mulas. – Bem na hora. Caso tivesse chegado ao meio-dia, teria ficado parado aqui conosco até agora. Nós todos estamos com pressa, mas tivemos de esperar. Como seguir em frente se a vereda estava bloqueada?

– A vereda estava bloqueada? Como?

– Um monstro terrível apareceu ali, filhinho. Ele atacou um cavaleiro que viajava com um pajem pela vereda. Parece que arrancou a cabeça do cavaleiro com o elmo e tudo, além de extirpar os intestinos de seu cavalo. O pajem conseguiu escapar e contou que aquilo foi horrível, com o caminho todo vermelho de tanto sangue.

– E que monstro era? – indagou Aplegatt, freando o cavalo para poder continuar a conversa com os cocheiros da lenta carroça. – Um dragão?

– Não, não era um dragão – respondeu o velhinho de chapéu de palha –, e sim uma manticora ou algo parecido, segundo dizem. O pajem falou que era uma enorme besta voadora. E obstinada! Nós achamos que ela comeria o cavaleiro e sairia voando, mas que nada! A filha da puta sentou-se no meio do caminho e ficou rosnando e arreganhando os dentes… E assim bloqueou a passagem, como uma rolha numa garrafa, porque qualquer um que se aproximava e dava de cara com o monstro abandonava a carroça e saía correndo. Com isso, formou-se uma fila de carroças de quase uma milha de comprimento, tendo em volta, como você pode ver, filhinho, só mato selvagem e pântanos. E então ficamos parados…

– Tantos homens! – bufou o estafeta. – E ninguém tomou uma atitude! Bastava pegar uns machados e lanças e afugentar ou mesmo matar a besta.

– Pois alguns até tentaram – retrucou o velhinho de barba, batendo novamente nas mulas, porque a caravana começou a avançar mais rápido. – Três anões da escolta dos comerciantes e, com eles, quatro recrutas a caminho da fortaleza de Carreras, onde se juntariam a um regimento. A besta feriu severamente os anões, enquanto os recrutas…

– … deram no pé – concluiu o outro velhinho, dando uma cusparada certeira no exíguo espaço entre as ancas das duas mulas. – Deram no pé assim que viram o tal monstro. Dizem que um deles chegou a se cagar nas calças. Olhe, filhinho, é ele! Logo ali!

– E eu lá tenho tempo para olhar para alguém cagado? – enervou-se Aplegatt. – Não estou nem um pouco interessado…

– Não é isso! É o monstro! O monstro morto! Os soldados estão colocando-o numa carroça. Está vendo?

Aplegatt ergueu-se nos estribos. Apesar da escuridão que se aproximava e da multidão de curiosos diante dele, conseguiu ver um corpanzil cinza-amarelado sendo erguido pelos soldados. As asas de morcego e a cauda de escorpião do monstro arrastavam-se inertes sobre o terreno. Soltando um grito uníssono, os soldados ergueram o cadáver ainda mais e desabaram-no sobre uma carroça, cujos cavalos, claramente agitados pelo odor de sangue, relincharam e começaram a se deslocar.

– Não fiquem parados! – urrou para os velhinhos o decurião no comando dos soldados. – Em frente! Não bloqueiem a passagem!

O condutor barbado apressou as mulas, e a carroça saltitou sobre as pedras da vereda. Aplegatt cutucou o cavalo com os calcanhares e colocou-se ao lado do veículo.

– Pelo jeito, os soldados conseguiram dar cabo do monstro.

– Nada disso – retrucou o velhinho. – Assim que chegaram, os soldados se puseram a fazer cara de maus e a gritar com as pessoas. Ora “Parem”, ora “Saiam da frente”, ora isso, ora aquilo. Não pareciam muito dispostos a enfrentar o monstro e decidiram convocar um bruxo.

– Um bruxo?

– Isso mesmo – confirmou o outro velhinho. – Um dos soldados lembrou ter visto um bruxo no último vilarejo pelo qual passaram, de modo que foi chamá-lo. Ele passou por nós. Tinha os cabelos brancos, um rosto horroroso e uma enorme espada presa às costas. Em menos de uma hora, alguém gritou lá na frente que poderíamos avançar porque o bruxo matara o monstro. Foi quando finalmente pudemos recomeçar a viagem e você apareceu, filhinho.

– Que coisa… – murmurou Aplegatt, pensativo. – Há anos galopo pelas estradas afora e até hoje nunca encontrei um bruxo. Alguém viu como ele deu cabo do tal monstro?

– Eu vi! – gritou um garoto de cabeleira rebelde trotando do outro lado da carroça. Cavalgava em pelo, conduzindo seu lobuno malhado apenas pelo cabresto. – Vi tudo! Porque estive junto dos soldados, na frente de todos!

– Olhem só para esse fedelho – disse o velhinho que guiava as mulas. – Mal se livrou do leite materno e já banca o sabichão. Quer levar uma surra?

– Deixe-o falar, homem – intrometeu-se Aplegatt. – Antes de partir para Carreras, gostaria de saber o que se passou com aquele bruxo. Fale, pequeno.

– Foi assim – começou rapidamente o garoto, cavalgando junto da carroça. – O bruxo procurou o comandante dos soldados. Disse que se chamava Geralt. O comandante respondeu que não estava interessado no nome dele e mandou que se ocupasse daquilo, apontando para o lugar onde o monstro estava sentado. O bruxo aproximou-se e observou. O bicho se encontrava a meia légua de distância ou até mais, mas o bruxo apenas lhe lançou um olhar de longe e disse logo que se tratava de uma manticora extremamente grande e que poderia matá-la se lhe pagassem duzentas coroas.

– Duzentas coroas? – espantou-se o outro velhinho. – Ele endoidou de vez?

– Foi isso que lhe falou o comandante, embora de maneira mais grosseira. O bruxo respondeu que o preço era aquele e que para ele tanto fazia o monstro ficar lá sentado até o dia do Juízo Final. O comandante retrucou que não ia pagar tal soma e que preferia esperar o monstro ir embora por conta própria. Então o bruxo disse que o monstro não ia embora por conta própria, porque estava furioso e com fome. E, mesmo que fosse embora, voltaria logo em seguida, porque aquilo era seu tero… tere… teritor…

– Seu fedelho, pare de enrolar! – enfureceu-se o velhinho que conduzia as mulas, tentando, sem resultado visível, assoar o nariz ao mesmo tempo que segurava as rédeas. – Conte logo o que aconteceu!

– Pois estou contando! O bruxo falou assim: “O monstro não partirá daqui tão cedo e passará a noite toda comendo o cavaleiro morto, devagar e com calma, porque o corpo está numa armadura e não vai ser fácil desencavá-lo de dentro dela.” Aí vieram os comerciantes, que se puseram a barganhar com o bruxo, dizendo que iam se juntar e fazer uma coleta, oferecendo-lhe cem coroas. O bruxo lhes disse que a besta era uma manticora muito perigosa, de modo que eles podiam enfiar as cem coroas no cu, porque ele não ia arriscar seu pescoço por tão pouco. O comandante ficou furioso e falou que a função dos bruxos era exatamente arriscar o pescoço, assim como a do cu era cagar. Pelo jeito, os comerciantes ficaram com medo de que o bruxo se ofendesse e fosse embora, porque logo acertaram com ele o preço de cento e cinquenta coroas. Então o bruxo pegou sua espada e seguiu pela vereda, na direção do lugar onde o monstro estava sentado. O comandante fez um gesto contra mau-olhado, cuspiu e disse que não conseguia entender por que existiam tais mutantes diabólicos na face da Terra. E um dos comerciantes falou que, se os soldados espantassem os monstros das estradas em vez de ficarem correndo pelas florestas atrás de elfos, não haveria necessidade de bruxos e…

– Pare de dizer bobagens – interrompeu-o um dos velhinhos – e conte apenas o que você viu.

– Eu fiquei tomando conta do cavalo do bruxo – afirmou o garoto, orgulhoso. – Uma égua castanha com uma mancha branca na testa.

– Estou pouco ligando para a égua! Quero saber se você viu como o bruxo matou o monstro!

– Be.. bem… – gaguejou o garoto. – Isso eu não vi… Fui empurrado para trás. Todos começaram a gritar, os cavalos se assustaram e…

– Não falei? – disse o velhinho com desdém. – Esse fedelho não viu merda nenhuma.

– Mas vi o bruxo quando ele voltou! – exclamou o garoto. – E o comandante, que a tudo assistiu, estava com o rosto lívido e comentou com os soldados que aquilo devia ter sido feitiço mágico ou encanto élfico, porque nenhum ser humano seria capaz de manejar uma espada com tamanha rapidez e destreza… O bruxo pegou o dinheiro dos comerciantes, montou em sua égua e foi embora.

– Hummm… – murmurou Aplegatt. – Por onde ele seguiu? Pela estrada que leva a Carreras? Se foi, então talvez eu consiga alcançá-lo e dar uma espiada nele…

– Não – respondeu o garoto. – Ele partiu na direção de Dorian. Disse que estava com pressa.

O bruxo poucas vezes sonhava, e ao despertar jamais se lembrava dos raros sonhos que tinha, mesmo quando eram pesadelos – e eles costumavam ser pesadelos.

Dessa vez também fora um pesadelo, mas o bruxo conseguiu lembrar-se pelo menos de um fragmento dele. Do meio de um turbilhão de difusas e inquietantes figuras, de estranhas e agoureiras cenas, de incompreensíveis e assustadoras palavras e sons, surgiu de repente uma imagem limpa e clara. Ciri. Diferente daquela que ele recordava de Kaer Morhen. Seus cabelos cinzentos, agitados pelo galope, estavam mais compridos, tal como ela os usava quando a vira pela primeira vez, em Brokilon. Quando ela passou a seu lado, ele quis gritar, mas não conseguiu emitir um som sequer. Tentou correr atrás dela, porém teve a sensação de estar afundado até a cintura em piche derretido em fase de solidificação. E Ciri, parecendo não tê-lo visto, continuou galopando por entre disformes amieiros e chorões que agitavam seus ramos como se fossem vivos. Foi quando ele notou que ela estava sendo perseguida, que logo atrás dela galopava um cavalo preto montado por um cavaleiro metido numa armadura negra, com o elmo adornado com asas de ave de rapina.

Não podia se mover nem gritar – só ficar olhando o cavaleiro alado alcançar Ciri, agarrá-la pelos cabelos, arrancá-la da sela e continuar a galopar, arrastando-a consigo. Viu o rosto de Ciri se contorcer de dor e de seus lábios emanar um grito inaudível. “Acorde”, ordenou a si mesmo, não podendo mais suportar o pesadelo. “Acorde! Acorde imediatamente!”

Acordou.

Ficou deitado imóvel por bastante tempo, repassando o sonho na memória. Em seguida, levantou-se. Tirou debaixo do travesseiro o saquinho de couro com moedas e contou-as: cento e cinquenta pela manticora do dia anterior, cinquenta pelo núbilo que matara a pedido do prefeito de um vilarejo próximo de Carreras e cinquenta pelo lobisomem que os camponeses de Burdorff lhe mostraram.

A quantia recebida pelo lobisomem fora até excessiva, porque o trabalho havia sido muito fácil. O lobisomem nem tentara se defender. Perseguido até uma caverna sem saída, apenas se ajoelhara e aguardara o golpe da espada. O bruxo chegara a sentir pena dele. No entanto, precisava de dinheiro.

Em menos de uma hora já estava caminhando pelas ruas de Dorian, à procura de um beco e um letreiro conhecidos.

O letreiro anunciava: “Codringher e Fenn, assessoria e serviços jurídicos.” Apesar dos dizeres, Geralt sabia até bem demais que o que faziam Codringher e Fenn pouco tinha a ver com leis; os dois sócios possuíam motivos de sobra para evitar qualquer contato com a lei e com seus representantes. Também nutria profundas dúvidas de que os clientes da empresa soubessem o significado da palavra “assessoria”.

No andar térreo do pequeno imóvel não havia entrada alguma, apenas um portão solidamente trancado, que decerto levava a uma cocheira ou estrebaria. Para chegar à porta de entrada, era preciso ir até os fundos da construção, atravessar um lamacento pátio cheio de patos e galinhas, subir um lance de escadas e passar por uma estreita galeria e por um escuro corredor. Somente, então, parava-se diante de uma sólida porta de mogno guarnecida com ferro e provida de uma enorme aldrava de bronze com o formato de uma cabeça de leão.

Geralt bateu com a aldrava, recuando imediatamente. Sabia que um mecanismo adaptado à porta podia disparar dardos metálicos de vinte polegadas de comprimento através de aberturas na guarnição de ferro. Teoricamente, os dardos só poderiam ser disparados se alguém forçasse a fechadura ou se Codringher ou Fenn acionassem um dispositivo especial, mas Geralt comprovara, mais de uma vez, que não existiam mecanismos infalíveis e que qualquer um deles podia funcionar mesmo quando não deveria. E vice-versa.

A porta provavelmente tinha um dispositivo mágico de identificação dos visitantes. Ninguém indagava do outro lado. Ela se abria e aparecia Codringher. Sempre Codringher, jamais Fenn.

– Salve, Geralt – cumprimentou Codringher. – Entre. Não precisa esgueirar-se tão junto da parede, porque desmontei o dispositivo de segurança. Alguns dias atrás ele disparou sem mais nem menos e encheu de furos um desses vendedores de porta em porta. Pode entrar sem medo. Você tem algum assunto para tratar comigo?

– Não – respondeu o bruxo, entrando numa larga e escura antessala que recendia um leve odor de gato. – Não com você, e sim com Fenn.

Codringher soltou uma gostosa gargalhada, confirmando assim a suspeita de que Fenn era um personagem cem por cento fictício, para confundir meirinhos, beleguins, cobradores de impostos e outros tipos que Codringher execrava.

Entraram num escritório, onde estava mais claro, uma vez que o aposento ficava no último andar e as janelas, protegidas por grades de ferro, permitiam a entrada da luz do sol durante grande parte do dia. Geralt ocupou a cadeira destinada aos clientes. A sua frente, por trás de uma escrivaninha de carvalho, Codringher esparramou-se numa poltrona forrada. Para aquele homem, que exigia ser tratado por “advogado”, não havia coisas impossíveis. Se alguém estava em apuros ou tinha dificuldades ou problemas, dirigia-se a Codringher. Num piscar de olhos recebia provas de desonestidade ou de malversação de fundos de seu sócio nos negócios. Obtinha crédito bancário sem avalistas ou garantias. Era o único dos inúmeros credores de uma empresa falida que conseguia ser ressarcido. Herdava uma fortuna apesar de o rico tio ter afirmado repetidamente que não lhe deixaria um tostão. Ganhava processos de herança diante de uma repentina e inesperada desistência de herdeiros muito mais próximos. Conseguia que o filho saísse da cadeia com as denúncias anuladas com base em provas irrefutáveis ou por falta de evidências, pois, se tivessem existido, elas desapareciam de modo misterioso, enquanto as testemunhas atropelavam-se em desdizer tudo o que tinham dito antes. O caçador de dotes que cortejava a filha repentinamente transferia a atenção para outra jovem. O amante da esposa ou o sedutor da filha sofria um infeliz acidente e acabava com complicadas fraturas em três membros, dos quais pelo menos um era superior. Já um perigoso inimigo ou outro personagem igualmente ameaçador deixava de apresentar qualquer risco, pois, na maior parte dos casos, sumia sem deixar rastro. Sim, quando alguém tinha um problema, viajava para Dorian, corria para a firma Codringher e Fenn e batia na porta de mogno. Esta se abria e surgia o “advogado” Codringher, um senhor baixo, magro e grisalho com pele de aspecto doentio, típica de quem não costuma se expor ao ar livre. Codringher conduzia o visitante a seu escritório, sentava-se na poltrona, punha sobre os joelhos um gato malhado e começava a acariciá-lo. Tanto Codringher como o gato observavam o cliente com seus olhos amarelo-esverdeados de maneira desagradável e ansiosa.

– Recebi sua carta. – Codringher e o gato mediram o bruxo com aquele olhar amarelo-esverdeado. – Também fui visitado por Jaskier, que passou por Darian algumas semanas atrás. Ele me falou isso e aquilo sobre seus problemas, mas me contou pouco. Muito pouco.

– É mesmo? Estou surpreso. Seria o primeiro caso que chega a meu conhecimento de Jaskier não ter falado demais.

– Jaskier – respondeu Codringher sem sorrir – falou pouco porque pouco sabia. E contou ainda menos do que sabia simplesmente por ter recebido instruções suas para não abordar certos assuntos. Desde quando você ficou tão desconfiado? E sobretudo em relação a um colega de profissão?

Geralt estremeceu ligeiramente. Codringher tentou fingir não ter notado, mas não pôde, porque o gato percebeu. O animal arregalou os olhos, mostrou os dentes brancos e fungou quase em silêncio.

– Não provoque meu gato – falou o advogado, acalmando o felino com breves carícias. – Ficou magoado por eu tê-lo chamado de colega? Mas é a mais pura verdade. Eu também sou bruxo. Também livro as pessoas de monstros e de problemas. E, assim como você, cobro por meus serviços.

– Há certas diferenças – murmurou Geralt, ainda sob o hostil olhar do gato.

– É verdade – concordou Codringher. – Você é um bruxo anacrônico; eu sou um bruxo moderno, que se adaptou ao espírito do tempo. E é por isso que você brevemente ficará desempregado, enquanto eu continuarei prosperando. Daqui a pouco não haverá mais no mundo estriges, serpes, endríagos e lobisomens. No entanto, filhos da puta sempre existirão.

– E são precisamente os filhos da puta que você livra de problemas, Codringher. Pessoas pobres e decentes não têm condições financeiras de desfrutar seus serviços.

– Assim como os pobretões não têm condições de desfrutar os seus. Os pobretões não têm condições de nada, e é exatamente por isso que são pobretões.

– Uma lógica inegável, cuja revelação chega a me deixar sem respiração.

– A verdade tem essa característica de deixar as pessoas sem respiração. E a verdade pura e simples consiste no fato de nossas profissões terem como base e suporte a existência de filhos da puta. A diferença é que a sua já é quase uma relíquia, enquanto a minha é real e cada vez mais forte.

– Muito bem, que seja. Vamos ao que interessa.

– Está mais do que na hora. – Codringher balançou a cabeça afirmativamente, acariciando o gato, que se eriçou e rosnou, cravando-lhe as unhas no joelho. – E vamos nos ocupar dos assuntos por ordem de importância. Em primeiro lugar, caro colega, meus honorários montam a duzentos e cinquenta coroas novigradenses. Você dispõe de tal quantia? Ou será que se inclui no rol de pobretões com problemas?

– Antes, vamos nos convencer de que você faz jus a tal montante.

– Esse convencimento – falou o advogado friamente – deve ser limitado apenas a sua pessoa, e rápido. Quando estiver convencido, coloque o dinheiro na escrivaninha. Aí passaremos a outros assuntos, de menor importância.

Geralt desamarrou do cinto o saquinho de couro e atirou-o com estrondo sobre a escrivaninha. O gato pulou dos joelhos de Codringher e sumiu. O advogado pegou o saquinho e colocou-o na gaveta, sem verificar o conteúdo.

– Você assustou meu gato – disse, em indisfarçável reprimenda.

– Peço desculpas. Achei que o som de dinheiro seria a última coisa que pudesse assustar seu gato. E agora, fale o que você descobriu.

– O tal Rience – começou Codringher –, que tanto lhe interessa, é uma figura bastante misteriosa. Consegui apurar apenas que ele estudou por dois anos na escola de feiticeiros de Ban Ard. Foi expulso de lá ao ser flagrado cometendo pequenos furtos. Como de costume, perto da escola havia recrutadores do serviço secreto de Kaedwen, e Rience se alistou. Não consegui apurar o que ele andou fazendo para os espiões de Kaedwen, mas os expulsos das escolas de feiticeiros em geral são treinados para ser assassinos. Confere?

– Perfeitamente. Continue.

– A informação seguinte provém de Cintra. O senhor Rience passou um tempo em suas masmorras, por ordem da rainha Calanthe.

– Sob qual acusação?

– Imagine, por dívidas. Não ficou muito tempo preso, porque alguém o liberou pagando as dívidas com juros e tudo. A transação foi realizada por meio de um banco, sob a condição de anonimato do benfeitor. Tentei descobrir de onde veio o dinheiro, mas entreguei os pontos depois de investigar quatro bancos seguidos. Quem liberou Rience era um profissional que quis permanecer anônimo a todo custo.

Codringher calou-se e tossiu forte, levando um lenço à boca.

– E eis que repentinamente, logo após o término da guerra, o senhor Rience apareceu em Sodden, Angren e Brugge – retomou a narrativa, limpando os lábios e olhando para o lenço. – Irreconhecível, pelo menos no que se referia a seu comportamento e à quantidade de dinheiro de que dispunha e esbanjava, porque, quanto ao nome, o descarado filho de uma cadela não fez esforço algum para ocultá-lo, continuando a chamar-se Rience. E foi com esse nome, Rience, que ele iniciou intensivas buscas de uma pessoa, mais precisamente uma pessoazinha. Visitou os druidas do Círculo de Angren, aqueles que se ocuparam dos órfãos da guerra. Tempos depois foi encontrado o corpo de um desses druidas numa floresta, todo massacrado e com evidentes sinais de tortura. Depois, Rience apareceu em Trásrios…

– Sei disso – interrompeu-o Geralt. – Sei o que ele fez com uma família de camponeses de Trásrios. Por duzentas e cinquenta coroas, eu esperava muito mais. Até agora, as únicas novidades para mim foram a informação de que ele esteve na escola de feiticeiros e o fato de ter trabalhado no serviço secreto de Kaedwen. O resto eu conheço. Sei que Rience é um assassino implacável. Sei que é um patife arrogante que nem sequer adota codinomes para ocultar-se. Sei que está a serviço de alguém. De quem, Codringher?

– A serviço de algum feiticeiro. Foi um feiticeiro que o livrou das masmorras de Cintra. Você mesmo disse, e Jaskier me confirmou, que Rience costuma lançar mão de magia. De magia de verdade, e não de alguns truques aprendidos por um colegial expulso da academia. Portanto, alguém o apoia, fornece-lhe amuletos e é quase certo que lhe ministra aulas secretas. Alguns feiticeiros legalmente estabelecidos têm esse tipo de alunos secretos para realizar trabalhos sujos ou ilegais. No linguajar dos feiticeiros, isso se chama “agir atrelado”.

– Caso estivesse agindo atrelado a um feiticeiro, Rience teria utilizado o poder da camuflagem mágica. E ele não muda nem o nome nem a aparência. Tampouco disfarçou a descoloração da pele depois de ser queimado por Yennefer.

– O que comprova que ele agia atrelado – retrucou Codringher, tossindo e limpando os lábios com o lenço. – Porque uma camuflagem mágica não é uma camuflagem; somente diletantes usam algo assim. Caso Rience se escondesse detrás de uma cortina mágica ou de uma máscara ilusória, ele de imediato acionaria todos os alarmes mágicos que hoje estão instalados em quase todos os portões de qualquer cidade. Além do mais, os feiticeiros infalivelmente percebem qualquer tipo de máscara ilusória. No meio da maior concentração de pessoas, da mais densa multidão, Rience chamaria a atenção de qualquer feiticeiro, como se lhe saíssem labaredas das orelhas ou colunas de fumaça do cu. Repito: Rience age a serviço de um feiticeiro, e age da melhor maneira possível para evitar chamar a atenção de outros feiticeiros.

– Há quem acredite que ele seja um espião nilfgaardiano.

– Sim, Dijkstra, chefe do serviço secreto da Redânia, é um deles. Ele raramente se engana, portanto, pode-se concluir que esteja certo mais uma vez. Mas uma coisa não exclui a outra. O factótum do feiticeiro poderia ser ao mesmo tempo um espião nilfgaardiano.

– O que significaria que um feiticeiro reconhecido oficialmente como tal estaria espionando para Nilfgaard por meio de um factótum secreto.

– Bobagem. – Codringher tossiu e examinou o lenço com atenção. – Um feiticeiro espionando para Nilfgaard? Com que propósito? Por dinheiro? Ridículo. Contando com a possibilidade de vir a exercer grande poder após a vitória do imperador Emhyr? Ainda mais ridículo. Não é segredo para ninguém que Emhyr var Emreis mantém seus feiticeiros sob rédeas curtas. Em Nilfgaard, os feiticeiros têm o mesmo status de, digamos, cavalariços. E não desfrutam mais poder do que cavalariços. Você acredita que qualquer um de nossos desenfreados magos se disporia a lutar para a vitória de um imperador em cuja corte teria o status de um cavalariço? Filippa Eilhart, que dita as leis e os éditos ao rei Vizimir da Redânia? Sabrina Glevissig, que interrompe os discursos de Henselt de Kaedwen batendo com o punho na mesa e ordenando ao rei que cale a boca e fique escutando? Vilgeforz de Roggeveen, que recentemente respondeu a Demawend de Aedirn que estava ocupado demais para recebê-lo?

– Abrevie o discurso, Codringher. O que se passa com Rience?

– O de costume. Os serviços secretos de Nilfgaard tentam chegar ao feiticeiro, atraindo seu factótum para trabalhar para eles. Pelo que sei, Rience não desprezaria os florins nilfgaardianos e trairia seu mestre sem um segundo de hesitação.

– Agora é você que fala bobagens. Por mais desenfreados que sejam nossos magos, eles logo descobririam que estavam sendo traídos, e Rience, desmascarado, acabaria pendurado numa forca. Se tivesse sorte.

– Você não passa de uma criança, Geralt. Não se enforcam espiões desmascarados, mas se faz uso deles para passar informações falsas ou tenta-se cooptá-los para que se transformem em agentes duplos…

– Não enfade a criança, Codringher. Não estou interessado nos bastidores dos serviços secretos ou da política. Rience está em meus calcanhares, e eu quero saber por que e a mando de quem. Tudo indica que a mando de um feiticeiro. Quem é esse feiticeiro?

– Ainda não sei, mas saberei em breve.

– “Em breve” – resmungou o bruxo – é tarde demais para mim.

– É bem possível que seja – falou Codringher, sério. – Você se meteu numa enrascada e tanto, Geralt. Ainda bem que me procurou, pois sei desenrascar as pessoas. Na verdade, já o desenrasquei.

– É mesmo? Realmente?

– Realmente – respondeu o advogado, levando o lenço à boca e tossindo. – Pois saiba, caro colega, que, além do feiticeiro e, provavelmente, de Nilfgaard, há uma terceira parte envolvida nesse jogo. Imagine que fui visitado por agentes secretos do rei Foltest. Tinham um problema. O rei lhes ordenara que procurassem certa princesa desaparecida. Quando ficou patente que a missão não era tão simples assim, os agentes decidiram procurar um especialista em missões complicadas. Ao lhe apresentarem o caso, sugeriram que certo bruxo poderia falar muito sobre a princesa desaparecida, que ele até saberia onde ela se encontra.

– E o que fez o especialista?

– Primeiro, demonstrou espanto. Espantou-se com o fato de o tal bruxo não ter sido enfiado numa masmorra, onde, com métodos tradicionais, poderiam averiguar não só tudo o que ele sabia, como também o que não sabia, mas que inventara para satisfazer seus inquisidores. Os agentes responderam que seu chefe os proibira de fazê-lo, porque os bruxos possuem um sistema nervoso tão delicado que morrem de imediato quando são torturados; segundo sua expressão particularmente pictórica, “estoura uma veia em seu cérebro”. Diante disso, receberam ordens de apenas seguir o bruxo, mas também essa tarefa não se revelou fácil. O especialista elogiou os agentes por seu bom-senso e disse-lhes que voltassem duas semanas depois.

– E eles voltaram?

– Lógico que sim. Aí, o especialista apresentou aos agentes provas inequívocas de que o bruxo Geralt não teve, não tem nem poderia ter qualquer relacionamento com a princesa desaparecida. O especialista encontrara testemunhas oculares da morte da princesa Cirilla, neta da rainha Calanthe e filha da princesa Pavetta. Cirilla morrera três anos antes, no campo de refugiados de Angren. De difteria. Antes de morrer, a criança sofrera terrivelmente. Você não vai acreditar, mas os agentes temerianos ficaram com lágrimas nos olhos quando ouviram o relato das testemunhas.

– Eu também estou com os olhos marejados. Os agentes temerianos, pelo que deduzo, não puderam ou não quiseram oferecer-lhe mais do que duzentas e cinquenta coroas?

– Seu sarcasmo fere meu coração, bruxo. Tirei você de uma encrenca, e você, em vez de me agradecer, ainda fere meu coração.

– Agradeço e peço desculpas. Por que o rei Foltest ordenou aos agentes que procurassem Ciri, Codringher? O que mandou que fizessem com ela, caso a encontrassem?

– Como você é pouco sagaz! Matá-la, obviamente. Ela foi considerada pretendente ao trono de Cintra, só que há outros planos para aquele trono.

– Isso não faz sentido, Codringher. O trono de Cintra foi consumido pelo fogo com o palácio real, com a cidade e com todo o país, que agora é uma província de Nilfgaard. Como Ciri pode ser pretendente a um trono que não existe?

– Venha comigo – disse Codringher, erguendo-se. – Vamos tentar encontrar a resposta a essa pergunta. Ao mesmo tempo, vou lhe dar uma prova de confiança… Posso saber o que tanto lhe interessa naquele quadro?

– O fato de estar perfurado como se um pica-pau o tivesse bicado por várias estações – respondeu Geralt, olhando para um retrato com moldura dourada pendurado na parede diante da escrivaninha do advogado – e o de representar um completo idiota.

– É meu falecido pai. – Codringher fez uma careta. – Um completo idiota. Pendurei seu retrato aí para poder sempre olhar para ele. A título de advertência. Venha, bruxo.

Os dois entraram na antessala. Assim que viu o bruxo, o gato, que estava deitado no centro do tapete lambendo, despreocupado, sua estranhamente contorcida pata traseira, sumiu na penumbra do corredor.

– Por que os gatos não gostam de você, Geralt? Isso tem algo a ver com…

– Sim – cortou-o Geralt. – Tem.

O revestimento de mogno das paredes deslizou silenciosamente, revelando uma passagem secreta. Codringher atravessou-a primeiro. O painel, sem dúvida movido por magia, fechou-se atrás deles, mas não os deixou imersos em escuridão, pois do fundo do corredor secreto emanava luz.

O ar no aposento no final do corredor era frio, seco e apresentava um sufocante odor de poeira e velas.

– Você vai conhecer meu colaborador, Geralt.

– Fenn? – sorriu o bruxo. – Não pode ser.

– Pode. Admita, você suspeitava que Fenn não existisse.

– De modo algum.

Do meio de armários e estantes repletas de livros que chegavam até o teto ouviu-se um rangido, seguido da aparição de um estranho veículo. Era uma poltrona de espaldar alto equipada com rodas. Sentado nela estava um anão com uma cabeçorra apoiada, sem pescoço, sobre ombros extraordinariamente estreitos. O anão não tinha pernas.

– Permitam-me que os apresente – falou Codringher. – Jakub Fenn, erudito legista, meu sócio e colaborador de incalculável valor. E aqui, nosso visitante e cliente…

– … bruxo Geralt de Rívia – concluiu o aleijado, com um sorriso. – Não precisei de muito esforço para adivinhar. Há meses estou trabalhando sobre o problema. Sigam-me, por favor.

Entraram, atrás da rangente poltrona, no labirinto formado por estantes vergadas sob o peso de volumes cuja quantidade não faria feio na biblioteca universitária de Oxenfurt. Os incunábulos, deduziu Geralt, deviam ter sido colecionados por várias gerações de Codringhers e Fenns. O bruxo sentiu-se honrado pela demonstração de confiança e alegre com a oportunidade de enfim conhecer Fenn. No entanto, não tinha dúvida alguma de que o personagem, embora totalmente real, em parte era também um mito. O mítico Fenn, o infalível alter ego de Codringher, fora visto mais de uma vez ao ar livre, enquanto o erudito legista preso à poltrona decerto jamais saía do prédio.

O centro do aposento estava muito bem iluminado. Ali havia um atril suficientemente baixo para ser alcançado da poltrona com rodas, o qual sustentava pilhas de livros, rolos de pergaminhos e palimpsestos, folhas de papel, potes de tinta e nanquim, molhos de penas e milhares de outros utensílios misteriosos. Nem todos eram tão misteriosos, porém. Geralt reconheceu moldes para falsificar selos e uma grosa de diamante para apagar palavras de documentos oficiais. No meio do atril jazia uma pequena arbaleta, e junto dela emergiam de sacos de veludo enormes lentes de aumento feitas de polido cristal montanhês. Tais lentes eram raridades e custavam verdadeiras fortunas.

– E então, Fenn, descobriu algo novo?

– Muito pouco – sorriu o aleijado. Seu sorriso era agradável e muito sedutor. – Reduzi a lista dos possíveis patrões de Rience para vinte e oito feiticeiros…

– Vamos deixar essa parte para mais tarde – interrompeu-o Codringher rapidamente. – No momento, estamos interessados em algo diferente. Esclareça a Geralt o motivo pelo qual a princesa de Cintra desaparecida é objeto de uma abrangente e secreta procura pelos agentes dos Quatro Reinos.

– Nas veias da menina corre o sangue da rainha Calanthe – disse Fenn, parecendo espantado por ter de esclarecer algo tão óbvio. – Ela é a última na linha sucessória. Cintra tem grande importância política e estratégica. Uma pretendente ao trono fora da esfera de influências é um estorvo que pode se tornar uma ameaça se cair sob dominação inadequada, como a de Nilfgaard.

– Se me lembro bem – falou Geralt –, as leis de Cintra excluem as mulheres da linha sucessória.

– É verdade – confirmou Fenn, voltando a sorrir. – No entanto, uma mulher pode sempre se tornar esposa de alguém e mãe de um descendente do sexo masculino. Os serviços secretos dos Quatro Reinos tomaram conhecimento das buscas da princesa promovidas por Rience e se convenceram de que era precisamente disso que se tratava. Assim, resolveram impossibilitar à princesa tornar-se esposa e mãe. De maneira simples e eficiente.

– Mas a princesa está morta – apressou-se a dizer Codringher, notando as mudanças no rosto de Geralt provocadas pelas palavras do sorridente anão. – Os agentes souberam disso e interromperam as buscas.

– Interromperam por ora. – O bruxo esforçava-se para manter a calma e a voz fria. – Uma mentira tem a desvantagem de ser revelada. Além disso, os agentes dos reis são apenas alguns dos peões desse jogo. Vocês mesmos acabaram de dizer que os agentes procuravam Ciri para atrapalhar os planos de outros que queriam encontrá-la. Os outros em questão podem ser menos suscetíveis à desinformação. Eu os contratei para encontrarem uma forma de garantir a segurança daquela menina. O que propõem?

– Temos uma concepção… – Fenn lançou um olhar indagador para o sócio, mas não encontrou no rosto dele algo que indicasse que devia ficar calado. – Pretendemos disseminar discreta mas amplamente a informação de que tanto a princesa Cirilla como seus eventuais descendentes do sexo masculino não têm direito algum ao trono de Cintra.

– Em Cintra, a roca não herda o trono – esclareceu Codringher, lutando com um novo ataque de tosse. – Somente a espada o herda.

– Precisamente – confirmou o erudito legista. – O próprio Geralt falou isso minutos atrás. É uma lei antiquíssima, que nem a diabólica Calanthe conseguiu transgredir, embora tivesse se esforçado para isso.

– Ela tentou derrubar aquela lei por meio de intriga – disse Codringher com convicção, enxugando os lábios com o lenço. – Uma intriga ilegal. Explique a ele, Fenn.

– Calanthe era a filha única do rei Dagorad e da rainha Adália. Após a morte dos pais, ela se indispôs com a aristocracia, que a via como mera esposa de um novo rei. Queria reinar independentemente; foi apenas pró-forma e para manter a dinastia que concordou com a instituição de um príncipe consorte, que se sentava a seu lado, mas que valia menos do que um boneco de palha. As famílias mais antigas se opuseram a isso, e Calanthe teve de escolher entre provocar uma guerra civil, abdicar em prol de uma nova dinastia e casar-se com Roegner, rei de Ebbing. Escolheu a terceira alternativa. Reinava o país, porém ao lado de Roegner. Obviamente não permitiu ser domada nem enviada à cozinha. Era a Leoa de Cintra. Mas quem reinava de fato era Roegner, embora ninguém o chamasse de Leão.

– E Calanthe – acrescentou Codringher – queria a todo custo engravidar e dar à luz um filho, mas fracassou. Teve uma filha, Pavetta, abortou duas vezes e ficou claro que não teria mais filhos. Todos os seus planos caíram por terra. Como o destino pode ser cruel com as mulheres! Grandes ambições destruídas por um útero arruinado.

Geralt fez uma careta de desagrado.

– Como você é cruel, Codringher!

– Sei disso. A verdade também foi cruel, porque Roegner começou a olhar em volta à procura de uma jovem princesa com quadris largos o bastante e, se possível, de uma família com comprovado histórico de fertilidade nas últimas três gerações. Quanto a Calanthe, começou a sentir o chão lhe fugir sob os pés. Cada refeição, cada cálice de vinho poderia conter a morte, cada caçada poderia terminar num acidente fatal. Há muitos indícios de que a Leoa de Cintra resolveu tomar a iniciativa. O rei Roegner morreu. Naquela época havia uma epidemia de varíola no país, de modo que a morte do rei não despertou suspeitas.

– Começo a adivinhar – falou o bruxo, aparentemente impassível – quais serão as bases para as notícias que vocês pretendem disseminar discreta mas amplamente: Ciri se tornará neta de uma envenenadora e mariticida.

– Não se antecipe aos fatos, Geralt. Fenn, por favor, continue.

– Calanthe – sorriu o anão – salvou a própria vida, mas a coroa foi ficando cada vez mais distante. Quando, após a morte de Roegner, a Leoa quis o poder absoluto, os aristocratas voltaram a se rebelar contra a quebra das leis e tradições. O trono de Cintra tinha de ser ocupado por um rei, não por uma rainha. Deixaram as coisas bastante claras: assim que a pequena Pavetta começasse a mostrar os mais tênues sinais de ter se tornado mulher, ela deveria se casar com alguém que se tornaria o rei. Um novo casamento da estéril rainha estava fora de cogitação. A Leoa de Cintra compreendeu que o máximo com que poderia contar seria com o papel de rainha-mãe. Para piorar ainda mais a situação, o marido de Pavetta poderia se revelar uma pessoa que quisesse afastar a sogra de qualquer forma de poder.

– Vou ser cruel mais uma vez – advertiu Codringher. – Calanthe fez de tudo para adiar o casamento de Pavetta. Destruiu o primeiro projeto matrimonial, quando a menina tinha dez anos, e o segundo, quando tinha treze. A aristocracia percebeu as intenções da rainha e exigiu que o décimo quinto aniversário de Pavetta fosse o último que ela passaria solteira. Calanthe teve de aceitar o ultimato. Antes, porém, conseguiu aquilo com que contava. Pavetta permaneceu virgem por tempo demais. Começou a sentir tamanho tesão que se entregou ao primeiro vagabundo que apareceu, a alguém que, ainda por cima, fora amaldiçoado e transformado num monstro. Houve naquilo circunstâncias sobrenaturais, algumas profecias, encantos, promessas… Certa Lei da Surpresa… Não é verdade, Geralt? O que se passou depois, você deve estar bem lembrado. Calanthe convocou a Cintra um bruxo, e o tal bruxo fez um estrago e tanto. Sem saber que estava sendo manipulado, tirou a maldição do monstruoso Ouriço, possibilitando seu casamento com Pavetta. Com isso, o bruxo facilitou que Calanthe mantivesse o trono. O casamento de Pavetta com um monstro desenfeitiçado foi um choque tão tremendo para os aristocratas que eles aceitaram o repentino casamento da Leoa com Eist Tuirseach. O duque das ilhas de Skellige pareceu-lhes uma opção melhor do que um Ouriço vagabundo. Desse modo, Calanthe continuou reinando sobre o país. Eist, como todos os ilhéus, tinha respeito demais pela Leoa de Cintra para se opor ao que quer que fosse. Além disso, a atividade de reinar simplesmente o entediava, e assim entregou todo o poder a Calanthe, que, abarrotando-se de medicamentos e elixires, arrastava o marido dia e noite para a cama. Queria reinar até o fim de seus dias. E, se tivesse de reinar como rainha-mãe, que o fizesse na qualidade de mãe do próprio filho. Mas, como eu já disse, grandes ambições e um útero arruinado…

– Sim, você já disse. Não precisa repetir.

– De outro lado, a princesa Pavetta, esposa do esquisito Ouriço, já na cerimônia do casamento usava um vestido suspeitosamente folgado. A resignada Calanthe mudou de planos. Uma vez que não poderia ser rainha-mãe do próprio filho, que fosse pelo menos rainha-avó do filho de Pavetta. Mas Pavetta deu à luz uma menina. Que droga! Seria uma maldição? No entanto, a princesa poderia ter mais filhos, ou melhor, teria podido, porque ocorreu um acidente suspeito. Ela e o esquisito Ouriço morreram num obscuro naufrágio.

– Será que você não está supondo demais, Codringher?

– Estou apenas me esforçando para esclarecer a situação; nada mais do que isso. Após a morte de Pavetta, Calanthe ficou desesperada, mas por pouco tempo. Sua última esperança era a neta, Cirilla, filha de Pavetta. Mais conhecida por Ciri, a garota vivia correndo pelo castelo como um diabinho encarnado. Para alguns, principalmente os mais velhos, era a menina dos olhos, porque lhes lembrava muito Calanthe quando criança. Já para outros… uma mutante, filha do monstruoso Ouriço e sobre quem certo bruxo alegava ter direitos. E, agora, chegamos ao âmago da questão: a pupila de Calanthe, que claramente estava sendo preparada para ser a sucessora e era tratada como reencarnação de Calanthe, a Leoazinha com o sangue da Leoa nas veias, já àquela época era considerada excluída da linha de sucessão por uma parte da aristocracia. Cirilla era malnascida. O casamento de Pavetta fora morganático. Pavetta misturara seu sangue com sangue inferior de um vagabundo de procedência desconhecida.

– Genial, Codringher; só que não foi assim. O pai de Ciri não era um vagabundo, mas um príncipe.

– Não diga! Não sabia disso. De qual reino?

– De um reino do Sul… De Maecht… Sim, exatamente, de Maecht.

– Interessante – murmurou Codringher. – Há tempos Maecht está em poder de Nilfgaard; faz parte da província de Metinna.

– Mas é um reino – intrometeu-se Fenn. – E é governado por um rei…

– Quem o governa é Emhyr var Emreis – cortou-o Codringher. – Quem quer que esteja sentado em seu trono o faz por graça e decisão de Emhyr. E, falando nisso, veja quem Emhyr nomeou para ser rei daquele lugar. Eu não me lembro.

– Já vou ver. – O aleijado empurrou as rodas da poltrona na direção de uma estante, tirou dela um grosso rolo de palimpsestos e se pôs a examiná-los um a um, atirando no chão os já vistos. – Hummm… Aqui está. Reino de Maecht. Seu brasão tem peixes prateados e coroas intercalados sobre fundo azul e vermelho…

– Estou pouco me lixando para a heráldica, Fenn. O rei, quem é o rei de lá?

– Hoët, o Justo. Escolhido por meio de uma eleição…

– … por Emhyr de Nilfgaard – adivinhou Codringher com frieza.

– … há nove anos.

– Então não pode ser esse – calculou o advogado rapidamente. – Ele não nos interessa. Quem reinou antes dele?

– Um momento. Aqui está. Akerspaark. Morreu…

– … de inflamação dos pulmões atravessados por um estilete de algum esbirro de Emhyr ou daquele Justo. – Codringher mais uma vez demonstrou toda a sua perspicácia. – Geralt, o mencionado Akerspaark lhe desperta alguma lembrança? Não poderia ter sido ele o pai daquele Ouriço?

– Sim – respondeu o bruxo, após uma breve reflexão. – Akerspaark. Lembro-me de Duny ter chamado o pai assim.

– Duny?

– Era esse o nome dele. Foi um príncipe, filho daquele Akerspaark…

– Não – interrompeu-o Fenn, analisando os palimpsestos. – Todos os filhos legítimos de Akerspaark estão listados aqui: Orm, Gorm, Torm, Horm e Gonzalez. E também as filhas: Alia, Valia, Nina, Paulina, Malvina e Argentina…

– Retiro todas as calúnias que lancei sobre Nilfgaard e Hoët, o Justo – afirmou Codringher solenemente. – Akerspaark não foi assassinado; ele morreu de tanto trepar. Porque na certa ele deve ter tido uma porção de filhos bastardos, não é verdade, Fenn?

– Teve. E muitos. Mas não encontro aqui nenhum registro de Duny.

– Eu não imaginava que encontrasse. Geralt, esse seu Ouriço não foi um príncipe. Mesmo que ele fosse filho ilegítimo daquele fauno Akerspaark, entre ele e o direito ao trono havia, além de Nilfgaard, uma extensa fila de Orms, Gorms e outros Gonzalez, todos eles, evidentemente, com sua extensa prole. De ponto de vista formal, Pavetta fez um casamento morganático.

– E Ciri, fruto de um casamento morganático, não tem direito ao trono?

– Bravo.

Fenn aproximou-se do atril, fazendo ranger as rodas da poltrona.

– Trata-se apenas de um argumento – disse, meneando a cabeçorra. – Somente um argumento. Não se esqueça, Geralt, de que não estamos lutando nem pela coroa da princesa de Cintra nem para privá-la dela. A finalidade do boato que foi solto é a de chamar a atenção para o fato de que a menina não pode ser usada como meio de chegar ao trono de Cintra. E, caso alguém decida usá-la, será fácil questionar sua validade. A menina deixa de ser importante no jogo político, passando a ser um mero peão, sem o menor valor, e, diante disso…

– … vão deixá-la viver – concluiu Codringher, impassível.

– Quão sólido é o argumento de vocês do ponto de vista formal? – indagou Geralt.

Fenn lançou um olhar para Codringher e depois para o bruxo.

– Não muito – confessou. – Cirilla continua tendo o sangue de Calanthe, embora um tanto diluído. Em condições normais, é bem possível que lhe barrariam o acesso ao trono, mas as condições não são normais. O sangue da Leoa tem um significado político…

– Sangue… – murmurou Geralt, esfregando a testa. – Codringher, o que significa “Criança de Sangue Antigo”?

– Não entendi. Alguém usou essa expressão referindo-se a Cirilla?

– Sim.

– Quem?

– Não vem ao caso. O que quer dizer?

– Luned aep Hen Ichaer – interveio Fenn, afastando-se do atril. – Literalmente, não seria Criança, mas Filha de Sangue Antigo. Hummm… Sangue Antigo. Já me defrontei com essa denominação, mas não consigo lembrar quando. Acho que se trata de uma profecia élfica. Em algumas versões do texto da sibila Ithlinne, aquelas mais antigas, tenho a impressão de que há menções ao Sangue Antigo dos Elfos, ou seja, Aen Hen Ichaer. Mas nós não temos aqui o texto completo daquela profecia. Vai ser preciso consultar os elfos…

– Vamos deixar isso de lado – disse Codringher friamente. – Não é bom tratar de tantos enigmas ao mesmo tempo, Fenn. Afinal, não queremos abraçar o mundo com as pernas. Há profecias e mistérios demais. Por enquanto, agradecemos à sua grande ajuda. Venha, Geralt; vamos voltar a meu escritório.

– Baixos demais, não é verdade? – assegurou-se o bruxo assim que retornaram e sentaram-se, o advogado atrás da escrivaninha e o bruxo a sua frente. – Os honorários não estão à altura da tarefa, não é isso?

– Baixos demais, Geralt. Remexer profecias élficas é diabolicamente complicado, além de ser perda de tempo e de meios. Será necessário entrar em contato com os elfos, porque ninguém além deles é capaz de decifrar sua escrita. Os manuscritos élficos, na maior parte das vezes, não passam de uma complicada simbologia, de acrósticos, de códigos cifrados. A Língua Antiga é ambígua, e sua escrita pode ter mais de dez significados. Os elfos nunca estiveram inclinados a ajudar quem quisesse decifrar suas profecias. E nos dias de hoje, quando nas florestas trava-se uma guerra com os Esquilos e até existem pogroms, não é recomendável aproximar-se deles. Duplamente não recomendável: os elfos podem tomá-lo por provocador, e os humanos, denunciá-lo como traidor…

– Quanto, Codringher?

O advogado permaneceu calado por um bom tempo, brincando com uma estrela metálica.

– Dez por cento – disse, por fim.

– Dez por cento de quê?

– Não me faça de bobo, bruxo. O assunto está se tornando muito sério. Está ficando cada vez mais difícil saber de que se trata, e, quando não se sabe de que se trata, então certamente se trata de dinheiro. Nesse caso, agrada-me mais um percentual do que simples honorários. Você me dará dez por cento do que ganhará, descontando o valor que já me pagou. E então, podemos selar um acordo?

– Não. Não quero que você perca dinheiro. Dez por cento de zero é zero, Codringher. Eu, meu caro colega, não vou ganhar nada com essa história.

– Peço novamente que não me faça de bobo. Não acredito que você não esteja sendo movido por lucro. Não creio que por trás dessa história toda não haja…

– Não estou interessado em que você acredita. Não haverá acordo algum nem porcentagem alguma. Estabeleça o valor dos honorários para obter as informações necessárias.

– A qualquer outro – Codringher tossiu – eu teria expulsado daqui, convicto de que estaria tentando me enrolar. Mas em seu caso, seu bruxo anacrônico, por mais estranho que possa parecer, uma atitude tão nobre, inocente e desinteressada se encaixa perfeitamente. Deixar-se matar de graça é típico de seu estilo grandioso e pateticamente ultrapassado…

– Não vamos perder tempo. Quanto, Codringher?

– Outro tanto. Quinhentas coroas no total.

– Sinto muito – falou Geralt, meneando a cabeça –, mas não tenho condições de pagar tal quantia. Pelo menos, não neste momento.

– Renovo a proposta que lhe fiz antes, quando nos conhecemos – falou o advogado lentamente, continuando a brincar com a estrela. – Venha trabalhar para mim, e você terá condições de pagar pelas informações e ainda sobrará um troco.

– Não, Codringher.

– Por quê?

– Você não entenderia.

– Dessa vez, você não parte meu coração, mas meu orgulho profissional. E isso porque sempre estive convencido de que sou capaz de entender absolutamente tudo. A base de nossas profissões reside na existência de filhos da puta, porém você continua preferindo o anacronismo à modernidade.

O bruxo sorriu.

– Bravo.

Codringher teve mais um acesso de tosse, limpou os lábios e examinou o lenço. Depois, ergueu para o bruxo os olhos amarelo-esverdeados.

– Você deu uma espiada na lista dos magos e das magas que estava no atril? A relação dos potenciais patrões de Rience?

– Dei.

– Não lhe entregarei a lista antes de me certificar detalhadamente de seu conteúdo. Não se guie por aquilo que você viu de relance. Jaskier me disse que Filippa Eilhart provavelmente sabe quem está por trás de Rience, mas que se negou a compartilhar essa informação com você. Filippa não protegeria um borra-botas qualquer. Por trás daquele patife está alguém muito importante.

O bruxo permaneceu calado.

– Tome cuidado, Geralt. Você corre sério perigo. Alguém está conduzindo um jogo com você. Alguém que claramente antecipa seus movimentos, alguém que chega a dirigi-los. Não se deixe levar por arrogância e vaidade. Quem está brincando com você não é uma simples estrige ou um lobisomem. Nem são os irmãos Michelet. Tampouco é Rience. Que droga! Criança de Sangue Antigo! Não bastassem o trono de Cintra, magos, monarcas e Nilfgaard, temos ainda os elfos! Interrompa esse jogo, bruxo; desligue-se dele. Atrapalhe os planos fazendo aquilo que ninguém espera. Rompa esse vínculo maldito; não permita que o liguem de modo algum a Cirilla. Deixe-a com Yennefer, volte para Kaer Morhen e não saia de lá. Suma nas montanhas e estudarei os manuscritos élficos sem pressa, calma e profundamente. Quando eu tiver obtido a informação sobre a Criança de Sangue Antigo, quando já tiver descoberto o nome do feiticeiro envolvido nesse imbróglio, você terá tido tempo suficiente para juntar o dinheiro e faremos a troca.

– Não posso esperar. A menina está correndo perigo.

– É verdade. Mas sei que você é considerado um obstáculo no caminho até ela. Um obstáculo que precisa ser eliminado a qualquer custo. E é por isso que você está correndo risco de vida. Eles partirão em busca da garota assim que derem cabo de você.

– Ou quando eu interromper o jogo, sumir de vista e me esconder em Kaer Morhen. Acho que lhe paguei demais para receber tal tipo de conselhos.

O advogado girou a estrela metálica por entre os dedos.

– Pela quantia que você me pagou hoje, eu dediquei muito trabalho, bruxo – falou, retendo um novo acesso de tosse. – O conselho que lhe dei foi de caso pensado. Esconda-se em Kaer Morhen, suma da face da Terra. Aí, aqueles que estão à procura de Cirilla a encontrarão.

Geralt semicerrou os olhos e sorriu. Codringher não empalideceu.

– Sei o que estou dizendo – continuou, sustentando o olhar e o sorriso. – Os algozes de sua querida Ciri vão apanhá-la e fazer com ela o que quiserem. Ao mesmo tempo, tanto você quanto ela estarão em segurança.

– Esclareça, por favor. E o mais rápido possível.

– Encontrei uma menina. Filha de uns nobres de Cintra, órfã de guerra. Passou pelos campos de refugiados e agora mede e corta tecidos para um alfaiate que a acolheu em Brugge. Ela não tem nada de especial, exceto uma coisa: é muito parecida com uma miniatura na qual aparece a Leoazinha de Cintra… Quer ver o retratinho?

– Não, Codringher, não quero. Não concordo com tal solução.

– Geralt – o advogado estreitou os olhos –, o que o move? Se você deseja salvar sua Ciri… Tenho a impressão de que não dispõe de fundos suficientes para se dar ao luxo de adotar essa postura de desprezo. O tempo do desprezo está se aproximando, colega bruxo, o tempo de um desprezo total e ilimitado. Você tem de se adaptar a ele. O que estou lhe propondo é muito simples. Alguém morrerá para que sobreviva alguém que você tanto ama. Morrerá uma menina que você não conhece e nunca viu na vida…

– E quem eu devo desprezar? – interrompeu-o o bruxo. – Em troca daquilo que amo, devo pagar o preço de ter desprezo por mim mesmo? Não, Codringher. Deixe aquela criança em paz, medindo e cortando os tecidos. Destrua seu retrato. Queime-o. E, pelas duramente conseguidas duzentas e cinquenta coroas que você colocou na gaveta, dê-me outra coisa: uma informação. Yennefer e Ciri partiram de Ellander. Tenho certeza de que você sabe disso. Tenho certeza de que você sabe para onde estão se dirigindo. Tenho certeza de que você sabe que há alguém em seu encalço.

Codringher tamborilou os dedos no tampo da escrivaninha e tossiu.

– O lobo, insensível às advertências, deseja continuar caçando – constatou. – Não se dá conta de que na verdade a caça é ele, de que está seguindo inapelavelmente na direção das ciladas preparadas por seu caçador.

– Não seja banal. Seja concreto.

– Já que você insiste… Não é difícil adivinhar que Yennefer está se dirigindo ao congresso dos feiticeiros convocado para os primeiros dias de julho, em Garstang, na ilha de Thanedd. Ela viaja inteligentemente usando subterfúgios em vez de magia, de modo que é muito difícil segui-la. Na semana passada, ainda estava em Ellander; portanto, dentro de três ou quatro dias, deverá chegar a Gors Valen, a apenas um passo de Thanedd. Antes, ela terá de passar pelo vilarejo de Anchor. Se você partir imediatamente, poderá ultrapassar aqueles que a perseguem. Pois sei que ela está sendo perseguida.

– Espero – Geralt sorriu de maneira horrenda – que não se trate de alguns agentes reais.

– Não – falou o advogado, olhando para a estrela, com a qual continuava a brincar –, não são agentes. Também não é Rience, que é mais esperto do que você e, depois do que houve com os irmãos Michelet, enfiou-se num buraco sem ousar pôr o nariz para fora. Yennefer está sendo perseguida por três assassinos de aluguel.

– Imagino que você os conheça.

– Conheço todos eles. E é por isso que lhe sugiro que os deixe em paz. Não vá para Anchor. Enquanto isso, eu, lançando mão de meus contatos e relações, tentarei subornar os biltres e inverter o contrato, ou seja, fazer com que eles matem Rience. Se isso der certo… – interrompeu-se repentinamente, fazendo um movimento brusco com o braço. A estrela metálica zuniu em seu voo e, com grande estrondo, cravou-se no quadro, bem na testa de Codringher Sênior, furando a tela e penetrando quase até a metade na parede do aposento. – Legal, não? – O advogado deu um amplo sorriso. – Essa estrela é chamada de órion, uma invenção de além-mar. Tenho treinado com ela há mais de um mês e nunca mais erro. Poderá vir a ser útil um dia desses. A trinta passos, essa estrelinha é infalível e mortal, além de poder ser escondida numa luva ou na banda de um chapéu. Há um ano ela faz parte do armamento das forças especiais nilfgaardianas. Você não acha que seria muito engraçado se encontrassem Rience, que espiona para Nilfgaard, com um órion desses enfiado na têmpora?

– Não tenho nada a ver com isso. É assunto seu. Há duzentas e cinquenta coroas em sua gaveta.

– É verdade – assentiu Codringher. – Interpreto suas palavras como recebimento de carta branca para agir. Vamos fazer um minuto de silêncio em respeito à morte do senhor Rience. Com todos os diabos, por que está fazendo essa careta? Você não tem respeito pela majestade da morte?

– Tenho, e é grande demais para ficar ouvindo calmamente piadas idiotas sobre ela. Será que você já pensou na própria morte, Codringher?

O advogado teve mais um acesso de tosse e ficou olhando por muito tempo para o lenço com o qual cobrira a boca. Depois, ergueu os olhos.

– Sim – respondeu baixinho –, já pensei, e muito. Mas você não tem de se meter em meus pensamentos, bruxo. Você vai para Anchor?

– Vou.

– Ralf Blunden, mais conhecido como Professor. Heimo Kantor. Yaxa, o Curto. Esses nomes lhe dizem alguma coisa?

– Não.

– Os três são muito bons com espadas. Melhores que os irmãos Michelet. Diante disso, sugiro-lhe usar uma arma de longa distância, como essas estrelinhas nilfgaardianas. Se quiser, poderei lhe vender algumas. Tenho uma porção delas.

– Não estou interessado. Elas não são práticas; fazem muito barulho ao voar.

– Seu silvo age psicologicamente. Ele é capaz de paralisar de medo o adversário.

– É possível, mas também pode alertá-lo. Eu seria capaz de me esquivar de um desses projéteis.

– Só se estivesse vendo quando o atirassem. Sei que você tem a capacidade de se esquivar de setas e dardos… No entanto, se estiver de costas…

– Mesmo que esteja de costas.

– Duvido.

– Pois vamos fazer uma aposta – falou Geralt friamente. – Eu vou virar com o rosto de frente para o retrato de seu pai idiota e você vai atirar em mim um desses órions. Se me acertar, você ganhará. Se errar, perderá e, nesse caso, terá de decifrar os manuscritos élficos e conseguir informações sobre a Criança de Sangue Antigo. Rápido… e a crédito.

– E se eu ganhar?

– Você pegará essas informações e as cederá a Yennefer. Ela lhe pagará, e você não será prejudicado.

Codringher abriu a gaveta, da qual tirou outro órion.

– Você conta com o fato de que eu não aceitarei a aposta – afirmou, mais do que perguntou.

– Não – sorriu o bruxo. – Estou convencido de que vai aceitar.

– Você está se arriscando muito. Já se esqueceu de que não tenho escrúpulos?

– Não me esqueci. Mas está chegando o tempo do desprezo, e você segue o progresso e o espírito dos tempos. De outro lado, eu levei a sério sua acusação de anacrônica ingenuidade e, dessa vez, decidi arriscar, contando com a possibilidade de obter lucro. E então? A aposta está de pé?

– Está – respondeu Codringher, erguendo-se e pegando a estrela por uma das pontas. – A curiosidade sempre se sobrepõe a minha razão; isso sem falar de inútil misericórdia. Vire-se.

O bruxo virou-se. Olhou para o espessamente perfurado rosto estampado no quadro e para o órion nele cravado. Em seguida, fechou os olhos.

A estrela zuniu e penetrou na parede, a quatro polegadas da moldura do retrato.

– Com todos os diabos! – urrou Codringher. – Você nem tentou se esquivar, seu grande filho da puta!

Geralt virou-se e sorriu de maneira especialmente horrenda.

– E por que eu me esquivaria? Ouvi você atirar de um jeito que não ia me acertar.

A estalagem estava vazia. Num dos cantos, sentada num banco e virada timidamente para o lado, uma mulher com olhos encavados amamentava uma criança. Um camponês de ombros largos, provavelmente seu marido, dormitava do lado, com as costas apoiadas na parede. Na sombra, atrás do fogareiro, estava sentado mais alguém, que Aplegatt não conseguia enxergar direito por causa da penumbra reinante no aposento.

O dono do estabelecimento ergueu a cabeça e adotou um ar soturno assim que reconheceu a placa metálica com o brasão de Aedirn pendurada no pescoço do visitante. Aplegatt já estava acostumado a tal atitude. Como estafeta real, ele tinha o incondicional direito de requisitar meios de transporte à população. Os decretos reais eram bastante claros: o estafeta podia, em qualquer cidade, em qualquer vilarejo e em qualquer pousada, exigir um cavalo novo, e ai daquele que se negasse a entregá-lo. Evidentemente, o estafeta deixava seu cavalo em troca e pegava o outro assinando um recibo. O proprietário do animal podia procurar o estaroste e receber uma indenização. No entanto, isso não costumava ser tão fácil assim, de modo que o estafeta era sempre visto com reserva e desconfiança: exigirá ou não? Levará consigo para sempre nosso querido Dourado? Nossa Belezoca, que criamos desde que nasceu? Nosso mimado Corvo? Aplegatt já vira muitas crianças em lágrimas agarradas a seu adorado animal e companheiro de brincadeiras enquanto era selado e levado para fora da cocheira; mais de uma vez olhara para o rosto empalidecido de adultos diante da impotência e do sentimento de injustiça à qual foram submetidos.

– Não vou precisar de um cavalo novo – disse rudemente, com a impressão de o estalajadeiro ter soltado um suspiro de alívio. – Vou apenas comer algo, porque fiquei com fome durante a viagem. Sobrou alguma coisa na panela?

– Sobrou um pouco de sopa. Sente-se, por favor. Já vou servi-lo. O senhor pretende pernoitar? Está ficando escuro.

Aplegatt pensou por um momento. Dois dias antes se encontrara com Hansom, um estafeta conhecido, com quem, seguindo ordens, trocara mensagens. Hansom recebera as cartas e os recados dirigidos ao rei Demawend e partira a pleno galope para Vengerberg por Temeria e Mahakam. Já Aplegatt, com a correspondência destinada ao rei Vizimir da Redânia, seguira na direção de Oxenfurt e Tretogor. Tinha ainda mais de trezentas milhas a percorrer.

– Vou comer e partirei logo em seguida – decidiu. – A lua está cheia e a estrada é plana.

– Como o senhor desejar.

A sopa que lhe foi servida era rala e sem gosto, mas o estafeta não prestava atenção a tal tipo de detalhes. Deixava para deliciar-se em casa, com a comida preparada pela esposa; na estrada, comia o que lhe era servido. Sorvia a sopa lentamente, segurando a colher de maneira desajeitada, com dedos intumescidos de tanto segurar as rédeas.

O gato que dormitava junto do fogareiro ergueu repentinamente a cabeça e bufou.

– Um estafeta real?

Aplegatt olhou em volta. A pergunta fora feita por aquele que estivera oculto na sombra da qual agora saía, parando ao lado do estafeta. Tinha os cabelos brancos como leite, presos por uma tira de couro. Vestia um gibão cravejado com tachões de prata e calçava botas de cano alto. Por trás de seu ombro direito brilhava o esférico pomo de uma espada presa às costas.

– Para onde o senhor está se dirigindo?

– Para onde manda a vontade real – respondeu Aplegatt friamente. Nunca respondia de outro modo a tal tipo de pergunta.

O homem de cabelos brancos ficou em silêncio por algum tempo, olhando inquisitivamente para o estafeta. Seu rosto era de uma palidez sobrenatural, e seus olhos, estranhamente escuros.

– A vontade real – falou por fim, com voz desagradável e um tanto rouca – sem dúvida deve ter lhe ordenado que se apressasse. Não está pronto para partir imediatamente?

– E o que isso lhe interessa? Quem é o senhor para me apressar assim?

– Não sou ninguém – respondeu o desconhecido, sorrindo de maneira particularmente horrível. – E não o estou apressando. Mas, se estivesse em seu lugar, partiria daqui o mais rápido possível. Não gostaria que lhe acontecesse algo de mau.

Aplegatt também tinha uma resposta pronta para tal tipo de afirmações. Curta e grossa. Embora não fosse provocativa, ela deixava bem claro a quem servia um estafeta real e que perigo corria todo aquele que ousasse tocar num deles. No entanto, na voz do homem de cabelos brancos havia algo que fez com que Aplegatt não usasse a resposta costumeira.

– Preciso dar um descanso ao cavalo, senhor. Uma hora, talvez duas.

– Entendo – assentiu o estranho personagem, erguendo a cabeça e parecendo ouvir sons vindos de fora.

Aplegatt também fez um esforço para escutar, mas ouviu apenas o murmúrio do vento.

– Descanse, então – disse o desconhecido, ajeitando o largo cinturão de couro que lhe atravessava diagonalmente o peito. – Mas não saia para o pátio. Não importa o que esteja se passando lá, não saia de modo algum.

Aplegatt não perguntou nada. Seu instinto lhe dizia que era o melhor a fazer. Inclinou-se sobre o prato e retomou a pescaria dos raros torresmos boiando na sopa. Quando voltou a erguer a cabeça, o homem de cabelos brancos já havia saído do aposento.

No momento seguinte, ouviu o relincho de um cavalo e o som de cascos batendo no solo. A porta da estalagem se abriu e adentraram três homens. Ao vê-los, o estalajadeiro se pôs a limpar ainda mais energicamente um caneco. A mulher com o bebê escorregou sobre o banco para mais perto do marido adormecido e despertou-o com uma cotovelada. Aplegatt puxou disfarçadamente para perto de si o tamborete sobre o qual repousava seu cinturão com a espada.

Os três homens aproximaram-se do balcão, lançando olhares avaliadores sobre os presentes. Moviam-se devagar, fazendo tilintar suas esporas e armas.

– Sejam bem-vindos, senhores. – O estalajadeiro pigarreou e tossiu. – O que posso lhes servir?

– Vodca – respondeu um dos homens, baixo, troncudo, de longos braços simiescos, com duas espadas zerricanas cruzadas às costas. – O senhor vai tomar um trago, Professor?

– Positivamente, e com agrado – concordou o segundo homem, ajeitando sobre o nariz adunco óculos feitos de lentes de polido cristal azulado numa armação de ouro. – Desde que a bebida não seja falsificada com o uso de ingredientes inadequados.

O estalajadeiro os serviu. Aplegatt notou que suas mãos tremiam. Os três homens apoiaram as costas no balcão e, sem pressa alguma, ficaram bebericando dos canecos de barro.

– Senhor estalajadeiro – falou o de óculos repentinamente –, não teriam passado por aqui há pouco tempo duas damas viajando apressadas na direção de Gors Velen?

– Muitas pessoas passam por aqui – resmungou o estalajadeiro.

– As damas em questão – continuou o homem, devagar – não passariam despercebidas. Uma delas é morena e extraordinariamente bela; monta um garanhão negro. A outra, mais jovem, de cabelos claros e olhos verdes, cavalga numa égua lobuna. Estiveram aqui?

– Não – antecipou-se Aplegatt ao estalajadeiro, sentindo um repentino frio nas costas. – Não estiveram.

Perigo com penas cinzentas. Areia quente…

– Estafeta?

Aplegatt assentiu com a cabeça.

– De onde e para onde?

– De onde e para onde a vontade real me mandar.

– As mulheres sobre as quais indaguei, você não as teria encontrado pelo caminho?

– Não.

– Tenho a impressão de que você nega rápido demais – rosnou o terceiro homem, magro e comprido como uma vara. Seus cabelos eram negros e brilhantes, como se tivessem sido alisados com gordura. – E não me parece que você tenha se esforçado muito para puxar pela memória.

– Deixe-o em paz, Heimo – disse o de óculos, fazendo um gesto depreciativo com a mão. – Ele não passa de um estafeta. Não crie caso. Como se chama este vilarejo, estalajadeiro?

– Anchor.

– Qual a distância daqui até Gors Velen?

– Como?

– Quantas milhas?

– Nunca contei as milhas, mas são três dias de viagem…

– A cavalo?

– Numa carroça.

– Ei! – exclamou o troncudo repentinamente, endireitando-se e olhando para o pátio através da porta aberta. – Dê uma espiada, Professor. Quem será aquele tipo? Será que é…

O de óculos também olhou para o pátio e seu rosto se contraiu.

– Sim – rosnou. – Decididamente é ele. Acabamos tendo sorte.

– Vamos esperar que ele entre?

– Ele não vai entrar. Viu nossos cavalos.

– Será que ele sabe que nós…

– Cale a boca, Yaxa. Ele está falando alguma coisa.

– Vocês podem escolher – emanou do pátio uma voz rouca, porém possante, a qual Aplegatt reconheceu de imediato. – Um de vocês vai sair daí e me dizer quem os contratou. Se fizerem isso, poderão partir sem ser incomodados. Ou então saiam os três juntos. Aguardo.

– Filho de uma cadela – praguejou o de cabelos negros. – Ele sabe. O que vamos fazer?

O de óculos colocou lentamente o caneco sobre o balcão.

– Aquilo pelo que fomos pagos – respondeu, cuspindo na mão, mexendo os dedos e sacando a espada.

Diante disso, os outros dois também desembainharam as suas. O estalajadeiro abriu a boca para soltar um grito, mas fechou-a imediatamente sob o gélido olhar que surgiu detrás das lentes azuis.

– Fiquem todos sentadinhos – sussurrou o de óculos –, nem um pio. Heimo, logo que começarmos, tente alcançá-lo por trás. Boa sorte, rapazes. Vamos sair.

Teve início assim que saíram. Gemidos, pés batendo no piso de tábuas, sons metálicos de lâminas se chocando. Depois, um grito, daqueles de deixar os cabelos de pé.

O estalajadeiro empalideceu. A mulher de olhos encavados soltou um grito abafado, apertando a criança contra o peito. O gato saltou detrás do fogareiro, recurvou o dorso e sua cauda eriçou-se toda, como uma escova. Aplegatt levantou-se da cadeira e escondeu-se num canto. Mantinha a espada sobre os joelhos, ainda na bainha.

Do pátio vinham mais sons de pés batendo no piso, silvos e golpes de lâminas.

– Ah, seu… – gritou alguém selvagemente, e naquele grito, apesar de ser concluído com um palavrão, havia mais desespero do que raiva. – Seu…

O silvo de uma lâmina. E logo depois um urro agudo e penetrante parecendo cortar o ar, seguido por um barulho como se um saco de grãos tivesse caído sobre o piso de tábuas. Mais ao longe, sons nervosos de cascos e relinchos apavorados de cavalos.

Sobre o piso de tábuas, passos pesados e rápidos de alguém correndo. A mulher com o bebê colou-se ao marido. O estalajadeiro apoiou as costas na parede. Aplegatt desembainhou a espada, mas deixou-a escondida sob o tampo da mesa. O homem corria na direção da estalagem, e estava claro que logo apareceria à porta. Antes de alcançá-la, porém, ouviu-se o silvo de uma lâmina.

O homem soltou um grito. Parecia que ia cair antes mesmo de adentrar, mas não caiu. Deu alguns passos lentos e desajeitados e só então desabou, bem no centro do aposento, erguendo uma nuvem de poeira que havia se acumulado nas fendas entre as tábuas do piso. Caiu de bruços, impotente, esmagando os braços e encolhendo as pernas. Os óculos com lentes de cristal espatifaram-se com estrondo sobre as tábuas, espalhando-se como grãos de cevada azulada. Debaixo do já imóvel corpo começou a se alastrar uma brilhante mancha escura.

Ninguém se mexeu nem gritou.

O homem de cabelos brancos entrou. Enfiou habilmente a espada na bainha presa às costas e aproximou-se do balcão, sem sequer lançar um olhar para o cadáver.

– Os homens malvados – disse – estão mortos. Quando chegar o aguazil, é bem possível que se revele haver um prêmio por suas cabeças. Que ele faça com o prêmio o que achar adequado.

– Sim, senhor – falou o estalajadeiro respeitosamente.

– Pode ser – acrescentou o homem de cabelos brancos – que apareçam aqui alguns camaradas ou amigos desses homens malvados, perguntando o que aconteceu com eles. Se isso ocorrer, diga-lhes que foram mordidos pelo Lobo. Pelo Lobo Branco. E recomende-lhes que olhem frequentemente para trás, pois algum dia poderão se virar e dar de cara com o Lobo.

Quando, após três dias de viagem, Aplegatt chegou aos portões de Tretogor, já passava da meia-noite. Estava furioso, porque perdera bastante tempo junto da fossa e gritara até arranhar a garganta. Os guardas dormiam o sono dos justos e demoraram muito para atendê-lo. Ficou aliviado ao dirigir insultos a eles e a seus ancestrais até três gerações. Em seguida, ficou ouvindo com grande satisfação o oficial do dia, que fora despertado, completar com outros detalhes as acusações que ele fizera às mães, avós e bisavós dos recrutas. Obviamente, não havia a menor chance de encontrar-se com o rei Vizimir. Na verdade, tal fato até lhe agradava, pois contava com a possibilidade de dormir até soarem os sinos matinais. Estava enganado. Em vez de ser conduzido a um lugar onde pudesse se deitar, foi levado imediatamente ao aposento do comandante da guarda, onde o esperava um homenzarrão. Aplegatt o conhecia; era Dijkstra, o homem de confiança do rei da Redânia. Dijkstra, e o estafeta sabia disso, estava autorizado a ouvir notícias destinadas exclusivamente aos ouvidos do rei. Aplegatt entregou-lhe as cartas.

– Você tem alguma mensagem verbal?

– Tenho, nobre senhor.

– Fale.

– Demawend para Vizimir – começou a recitar Aplegatt, semicerrando os olhos. – Primeiro: os disfarçados estão prontos para a segunda noite de julho após a lua nova. Fique atento para que Foltest não nos decepcione. Segundo: o congresso dos Espertalhões em Thanedd não será honrado com minha presença, e recomendo-lhe o mesmo. Terceiro: a Leoazinha está morta.

Dijkstra fez uma careta e tamborilou os dedos no tampo da mesa.

– Aqui você tem cartas para o rei Demawend. Já a mensagem verbal… Aguce bem os ouvidos e reforce a memória. Repita a seu rei, palavra por palavra. Somente a ele, a ninguém mais, entendeu?

– Entendi, nobre senhor.

– O teor da mensagem verbal é o seguinte: Vizimir para Demawend. Os disfarçados têm de ser detidos a qualquer custo. Alguém traiu. A Chama juntou um exército em Dol Angra e somente aguarda um pretexto. Repita.

Aplegatt repetiu.

– Muito bem – assentiu Dijkstra. – Você partirá antes do amanhecer.

– Estou cavalgando há cinco dias, nobre senhor – falou o estafeta, esfregando o traseiro. – O senhor concordaria que eu dormisse até o meio-dia?

– E por acaso seu rei, Demawend, dorme agora à noite? Ou durmo eu? Só pela pergunta você mereceria uma surra. Vão lhe dar algo para comer, você esticará os ossos por um tempo num monte de palha e partirá antes de o sol raiar. Mandei que lhe dessem um garanhão de raça; você verá que ele voa como o vento. E não faça essa careta. Tome este saquinho com um prêmio extra para que você não fique falando por aí que o rei Vizimir é pão-duro.

– Obrigado, nobre senhor.

– Quando estiver atravessando as florestas de Pontar, fique muito atento. Comandos de Esquilos foram vistos por lá, além de não faltarem simples bandidos por aquelas bandas.

– Bem sei disso, senhor. Só o que vi três dias atrás…

– O que você viu?

Aplegatt relatou rapidamente o que se passara em Anchor. Dijkstra ficou ouvindo, com os possantes antebraços cruzados sobre o peito.

– O Professor… – falou pensativamente. – Heimo Kantor e Yaxa, o Curto. Mortos pelo bruxo. Em Anchor, na estrada que leva a Gors Velen, ou seja, a Thanedd, a Garstang… E a Leoazinha não está viva?

– O que disse, nobre senhor?

– Nada de importante – respondeu Dijkstra, erguendo a cabeça. – Pelo menos, para você. Vá descansar e, assim que o dia raiar, a caminho!

Aplegatt comeu o que lhe trouxeram e deitou-se. No entanto, estava tão cansado que não conseguiu dormir o suficiente e, antes de amanhecer, já estava fora do castelo. O cavalo era realmente rápido, mas teimoso e desobediente. Aplegatt não gostava de cavalos assim.

A suas costas, entre a escápula esquerda e a coluna vertebral, sentia uma comichão insuportável; provavelmente fora mordido por uma pulga enquanto dormitava… E não havia como se coçar.

O cavalo relinchou e deu uns passos vacilantes. O estafeta esporeou-o e partiu a galope. O tempo urgia.

– Gar’ean – sibilou Cairbre, inclinando-se entre os galhos de uma árvore para observar a estrada. – En Dh’oine aen evall a stráede!

Toruviel ergueu-se de um pulo, ajeitou a espada presa ao cinturão e deu uma cutucada com a ponta da bota na coxa de Yaevinn, que cochilava a seu lado, encostado numa árvore derrubada pelo vento. O elfo levantou-se rapidamente, fazendo uma careta de dor por ter queimado a palma da mão ao se apoiar na areia quente.

– Que suecc’s?

– Um homem cavalgando pela estrada.

– Só um? – perguntou Yaevinn, erguendo o arco e a aljava.

– Cairbre? Somente um?

– Sim, e está se aproximando.

– Então vamos acabar com ele. Haverá um Dh’oine a menos.

– Deixe-o em paz – falou Toruviel, segurando-o pelo braço. – Não precisamos disso. Nossa tarefa é fazer o reconhecimento do terreno e retornar ao comando. Devemos matar civis pelas estradas? É esse o espírito de nossa luta pela liberdade?

– Precisamente. Afaste-se.

– Se deixarmos um cadáver na estrada, a primeira patrulha que passar vai soar o alarme e o exército sairá em nossa perseguição. Vão cercar os bosques e poderemos ter problemas ao tentar atravessar o rio!

– São raras as pessoas que passam por esta estrada. Até encontrarem o corpo, estaremos longe.

– Aquele cavaleiro já está longe demais – disse Cairbre, de cima da árvore. – Em vez de discutir, vocês deviam ter disparado. Agora, não há como acertá-lo. Está a mais de duzentos passos.

– Com meu arco de sessenta libras? – indagou Yaevinn, alisando seu arco huno. – E com uma flecha de trinta polegadas? Além disso, não são duzentos passos; no máximo, cento e cinquenta. Mire, que spar aen’le.

– Yaevinn, deixe isso para lá…

– Thaess aep, Toruviel.

O elfo virou o gorro para que a cauda de esquilo presa a ele não lhe atrapalhasse a visão, esticou a corda do arco com força até o punho tocar no ouvido, mirou com cuidado e disparou.

Aplegatt não ouviu o disparo; tratava-se de uma “seta silenciosa”, especialmente munida de longas e finas penas cinzentas e com a parte de trás estriada para aumentar a rigidez e diminuir o peso. Afiada como uma navalha, a ponta tripartite acertou o estafeta nas costas, fincando-se com ímpeto num ponto entre a escápula esquerda e a coluna vertebral. As três lâminas da ponta estavam fixas em ângulo, de modo que, ao se cravarem no corpo, fizeram com que a seta girasse e penetrasse como um parafuso, rasgando tecidos, massacrando vasos sanguíneos e destroçando ossos. Aplegatt caiu com o peito sobre o pescoço do cavalo e escorregou para o chão, inerte como um saco de algodão.

A areia que cobria a estrada era muito quente, tão aquecida pelo sol que chegava a queimar. No entanto, o estafeta não sentiu mais nada. Morreu instantaneamente.