Tempo do Desprezo

Andrzej Sapkowski · Capítulo 2 de 7 · parte 1/3

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Tempo do Desprezo

Capítulo Segundo

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

 

Dizer que a conheci seria exagero. Acho que, além do bruxo e da

feiticeira, ninguém a conheceu de verdade. Quando a vi pela primeira vez, ela

nem me causou grande impressão, apesar das inesperadas circunstâncias em que

aquilo ocorreu. Conheci pessoas que afirmaram que desde o primeiro encontro

sentiram um sopro da morte caminhando atrás daquela menina. Para mim,

porém, ela me pareceu completamente normal, embora soubesse que não era bem

assim. Por isso fiz um esforço para vislumbrar, descobrir ou sentir nela algo

extraordinário. No entanto, nada vislumbrei e nada senti. Nenhuma coisa que

pudesse ser um sinal, pressentimento ou prenúncio dos trágicos acontecimentos

posteriores. Dos que ela foi a causa e dos que ela mesma provocou.

Jaskier, Meio século de poesia

 

Junto da estrada, no lugar onde terminava a floresta, havia nove estacas cravadas na terra. No topo de cada uma delas estava cravada horizontalmente uma roda de carroça. Sobre as rodas circulavam bandos de corvos e gralhas, bicando e arrancando pedaços de cadáveres amarrados aos aros e aos cubos. A bem da verdade, a altura das estacas e a quantidade de aves permitiam apenas adivinhar o que eram aqueles restos irreconhecíveis presos às rodas. Mas deviam ser cadáveres. Não podiam ser outra coisa.

Ciri virou a cabeça e, com asco, tampou o nariz. O vento soprava da direção das estacas e o nauseabundo cheiro dos corpos apodrecidos empestava o ar sobre a estrada.

– Que bela decoração – disse Yennefer, inclinando-se na sela e cuspindo com desprezo, esquecendo-se de que havia pouco passara uma reprimenda em Ciri por ter cuspido daquele jeito. – Pitoresca e fedorenta. Mas por que aqui, à beira da floresta? Normalmente, tal tipo de espetáculo é montado do lado de fora das muralhas de uma cidade. Não estou certa, minha boa gente?

– Trata-se de Esquilos, distinta dama – apressou-se em esclarecer um comerciante, freando o cavalo malhado atrelado a uma carroça repleta de mercadorias. – Elfos. Lá, em cima daquelas estacas. E é por isso que as estacas foram fincadas junto da floresta; para servir de advertência para outros Esquilos.

– Isso significa – a feiticeira olhou para o comerciante – que os Scoia’tael aprisionados são trazidos vivos para cá…

– Os elfos, senhora, raramente se deixam pegar vivos – interrompeu-a o homem. – E, se, por acaso, os soldados conseguem agarrar um ou outro, eles os levam para a cidade, pois nelas vivem muitos inumanos. Quando veem esses desgraçados amarrados em praça pública, logo lhes some a vontade de juntar-se aos Esquilos. Mas, quando alguns elfos são mortos num campo de batalha, seus corpos são pendurados em estacas junto de estradas. Com frequência eles são trazidos de bem longe, fedendo horrivelmente…

– E pensar – rosnou Yennefer – que nos proibiram práticas ligadas à necromancia por respeito à majestade da morte e à transitoriedade dos corpos, que merecem honrarias, tranquilidade e um enterro ritual e cerimonioso…

– O que a senhora disse?

– Nada. Vamos partir quanto antes, Ciri, para o mais longe possível daqui. Tenho a sensação de que todo o meu corpo está impregnado com esse fedor.

– Eu também – falou Ciri, trotando em torno da caravana de comerciantes. – Podemos ir a galope?

– Podemos, Ciri… A galope, mas não desvairado!

Em pouco tempo viram a cidade: enorme, cercada de muralhas e cheia de torres com pontudos telhados brilhantes. E logo além da cidade via-se o mar: verde-azulado, reluzindo sob os raios do sol matinal e salpicado aqui e ali por brancas manchas de velas. Ciri parou o cavalo à borda de um arenoso penhasco, ergueu-se nos estribos e aspirou avidamente o ar e o perfume.

– Gors Velen – falou Yennefer, aproximando seu cavalo ao lado do de Ciri. – Chegamos finalmente a nosso destino. Vamos voltar para a estrada.

Uma vez na estrada, puseram-se novamente a galopar, deixando para trás carros puxados por bois e pedestres sobrecarregados com feixes de lenha. Quando ultrapassaram todos e ficaram sozinhas, a feiticeira diminuiu a marcha e fez um gesto detendo Ciri.

– Chegue mais perto – disse. – Mais perto ainda. Pegue as rédeas e conduza meu cavalo. Preciso de ambas as mãos.

– Para quê?

– Eu lhe pedi para pegar as rédeas.

Yennefer tirou do alforje um pequeno espelho de prata, limpou-o e murmurou algumas palavras mágicas. O espelhinho soltou-se de sua mão e ficou flutuando no ar sobre o pescoço do cavalo, bem defronte do rosto da feiticeira.

Ciri deu um suspiro de admiração e lambeu os lábios.

A feiticeira pegou um pente no alforje, tirou o gorro e passou a pentear energicamente seus cabelos. Ciri manteve-se calada. Sabia que, quando Yennefer penteava os cabelos, não era permitido perturbá-la ou distraí-la. A formosa e aparentemente descuidada desordem de seus fartos e brilhantes cachos era resultado de demoradas tentativas e exigia muita concentração.

A feiticeira voltou a enfiar a mão no alforje. Pendurou um par de brincos de diamantes nas orelhas e pôs pulseiras em ambos os punhos. Tirou o xale e desabotoou parcialmente a blusa, revelando o colo e a fita de veludo negro adornada com a estrela de obsidiana.

– Ah! – exclamou Ciri, não conseguindo mais se conter. – Sei a razão pela qual você está fazendo tudo isso. Você quer estar bonita porque vamos adentrar uma cidade! Adivinhei?

– Adivinhou.

– E quanto a mim?

– O que tem?

– Também quero ficar bonita. Vou me pentear…

– Coloque o gorro de volta – falou Yennefer, severa, ainda mirando-se no espelhinho flutuando sobre as orelhas do cavalo, exatamente na mesma posição de antes. – E esconda os cabelos debaixo dele.

Ciri fez uma careta de desagrado, mas obedeceu imediatamente. Havia muito tempo aprendera a reconhecer as nuanças de tonalidade na voz da feiticeira. Sabia quando era possível tentar discutir com ela e quando não era.

Yennefer, depois de finalmente concluir a arrumação dos cachos sobre a testa, tirou do alforje um diminuto frasco de vidro verde.

– Ciri – disse, de maneira mais suave. – Estamos viajando secretamente. Nossa viagem ainda não terminou. É por isso que você tem de esconder os cabelos debaixo do gorro. Na cidade, em cada vão de porta, há pessoas que são pagas para prestar atenção nas pessoas que chegam. Entendeu?

– Não – respondeu Ciri descaradamente, puxando as rédeas do garanhão da feiticeira. – Você ficou tão linda que os olhos dos tais que são pagos para olhar saltarão das órbitas. Que maneira mais absurda de querer não ser notada!

– A cidade para a qual estamos cavalgando – sorriu Yennefer – é Gors Velen. Eu não preciso me disfarçar em Gors Velen; na verdade, devo dizer que é o contrário. Já com você a situação é diferente. Ninguém deverá notá-la.

– Aqueles que ficarão admirando-a acabarão me notando também!

A feiticeira destampou o frasquinho, do qual emanou um perfume de lilás e groselha. Mergulhou nele o dedo indicador e esfregou um pouco do conteúdo sob os olhos.

– Duvido – falou, sorrindo enigmaticamente – que alguém preste atenção em você.

Diante da ponte havia uma longa fila de cavaleiros e carroças, enquanto junto dos portões uma multidão de viajantes aguardava sua vez de passar pelo posto de controle. Ciri mostrou-se claramente contrariada com a perspectiva de ter de ficar esperando por muito tempo. Yennefer, por seu lado, aprumou-se na sela e partiu num trote acelerado, olhando bem alto sobre as cabeças dos viajantes, que se afastavam para deixá-la passar e se inclinavam respeitosamente a sua passagem. Os guardas, vestidos com longas cotas de malha, também logo notaram a feiticeira e abriram-lhe caminho, não poupando a haste das lanças, com a qual batiam nas costas daqueles que não se afastavam com rapidez suficiente.

– Por aqui, por aqui, distinta dama – gritou um dos guardas, olhando com admiração para Yennefer, ora enrubescendo, ora empalidecendo. – Por aqui, por favor. Abram passagem! Saiam da frente, seus vagabundos!

O comandante da guarda, chamado às pressas, saiu de seu alojamento visivelmente aborrecido, mas, ao ver a feiticeira, ficou vermelho como um tomate, arregalou os olhos, abriu a boca e fez uma profunda reverência.

– Humildemente lhe dou as boas-vindas a Gors Velen, ilustríssima dama. Haverá algo em que poderei ser útil a Vossa Senhoria? Talvez providenciar uma escolta? Um guia? Convocar alguém?

– Não será necessário – respondeu Yennefer, sentada ereta na sela e olhando para ele de cima. – Ficarei pouco tempo na cidade. Estou a caminho de Thanedd.

– Perfeitamente… – O soldado se apoiava ora em uma perna, ora na outra, sem desgrudar os olhos do rosto da feiticeira. Os demais guardas comportavam-se da mesma forma.

Ciri empertigou-se orgulhosamente e ergueu a cabeça, mas constatou que ninguém sequer lhe lançava um olhar. Era como se ela simplesmente não existisse.

– Perfeitamente – repetiu o oficial. – Para Thanedd, sim… Para o congresso. É claro. Diante disso, desejo…

– Obrigada. – Yennefer cutucou o cavalo com os calcanhares, deixando evidente que não tinha o mínimo interesse em saber o que lhe desejava o guarda.

Ciri seguiu-a. Os guardas inclinavam-se diante da passagem da feiticeira, sem lançar um mísero olhar para sua companheira.

– Eles nem perguntaram seu nome – murmurou a garota, alcançando Yennefer e cuidadosamente evitando os sulcos de rodas gravados na lama. – Nem de onde estamos vindo. Você lançou um encanto sobre eles?

– Não. Sobre mim.

A feiticeira virou-se. Ciri suspirou. Os olhos de Yennefer brilhavam com raios cor de violeta e seu rosto tinha uma beleza extraordinária. Resplandecente. Desafiadora. Ameaçadora. E inatural.

– O frasquinho verde! – adivinhou a garota imediatamente. – O que era aquilo?

– Glamarye. Um elixir, ou melhor, um unguento para ocasiões especiais. Ciri, você precisa passar por toda poça do caminho?

– Quero lavar os cascos do cavalo!

– Faz mais de um mês que não chove. Isso aí é lavadura e urina de cavalos, não água.

– Ah… Mas diga-me, por que usou aquele elixir? Você fazia tanta questão de…

– Estamos em Gors Velen – interrompeu-a Yennefer. – Uma cidade que em grande parte deve seu bem-estar aos feiticeiros. Mais exatamente, às feiticeiras. E eu não estava com vontade de me apresentar nem provar quem sou. Preferi que isso fosse evidente assim que alguém olhasse para mim. Logo que passarmos por aquela casa vermelha, vamos virar à esquerda. Cavalgue mais devagar, Ciri, senão poderá atropelar alguma criança.

– E com que finalidade nós viemos para cá?

– Já lhe disse isso.

Ciri fez um muxoxo, cerrou os lábios e cutucou o flanco de sua montaria com os calcanhares. A égua rodopiou, quase se chocando com uma carroça que passava perto. O cocheiro levantou-se da boleia e se preparou para cobri-la com uma série dos palavrões mais grosseiros possíveis, mas, ao ver Yennefer, sentou-se rapidamente e concentrou sua atenção num exame minucioso de seus tamancos.

– Mais uma má-criação dessas – escandiu Yennefer – e ficarei muito zangada. Você está se comportando como uma cabrita destemperada. E isso me envergonha.

– Você quer me pôr numa escola, não é isso? Pois eu não quero!

– Fale mais baixo. As pessoas estão olhando.

– Estão olhando para você, não para mim! Eu não quero ir para escola alguma! Você me prometeu que sempre estará comigo e agora quer me deixar sozinha! Sozinha! Eu não quero ficar sozinha!

– Você não estará sozinha. Na escola há muitas jovens de sua idade. Você terá uma porção de colegas.

– Não quero colegas. Quero ficar com você e com… Pensei que…

Yennefer virou-se violentamente.

– Você pensou o quê?

– Pensei que estávamos indo ao encontro de Geralt – respondeu Ciri, erguendo provocativamente a cabeça. – Sei muito bem o que você andou pensando durante toda a nossa viagem. Assim como sei a razão pela qual você ficou suspirando à noite…

– Basta – sibilou a feiticeira, e a visão de seus olhos em brasa fez com que a garota escondesse o rosto na crina do cavalo. – Você está ficando insolente demais. Quero lhe lembrar que o tempo de se opor a mim já passou irreversivelmente. E isso ocorreu por sua inteira e livre vontade. Agora, você tem de me obedecer e fazer tudo o que eu lhe mandar. Entendeu?

Ciri assentiu com a cabeça.

– Tudo o que eu lhe mandar será para seu próprio bem. Sempre. E é por isso que você vai me ouvir e obedecer às minhas ordens. Está claro? Pare o cavalo. Chegamos.

– Essa é a tal escola? – murmurou Ciri, erguendo os olhos para a possante fachada do prédio. – Quer dizer…

– Nem mais uma palavra. Desça do cavalo e comporte-se como se deve. Isso não é uma escola. A escola fica em Aretusa, e não em Gors Velen. Isso aí é um banco.

– E para que precisamos de um banco?

– Pense. Já lhe disse para desmontar. Não numa poça! Largue o cavalo; para isso existem os cavalariços. Tire as luvas. Não se entra num banco com luvas de montaria. Olhe para mim. Ajeite o gorro. Arrume a gola. Mantenha as costas retas. Não sabe o que fazer com as mãos? Não faça nada.

Ciri soltou um suspiro de resignação.

Os funcionários que surgiram do portão do prédio, inclinando-se em profundas referências, vieram ao encontro das duas damas; eram anões. Ciri olhou para eles com curiosidade. Embora fossem também baixos, corpulentos e barbudos, em nada lembravam seu amigo Yarpen Zigrin, nem seus rapazes. Os funcionários eram cinzentos, vestiam uniformes iguais e não tinham sinal particular algum. E todos eram subservientes, algo que jamais poderia ser dito a respeito de Yarpen e seus rapazes.

Entraram. O elixir mágico continuava funcionando, de modo que a aparição de Yennefer causou imediatamente um enorme alvoroço, um corre-corre sem fim, inúmeras reverências, submissas saudações e declarações de prontidão para atender a suas ordens, que só terminaram com a chegada de um anão inacreditavelmente gordo, ricamente vestido e de longa barba branca.

– Distinta Yennefer! – trovejou ele, fazendo tilintar a corrente de ouro que pendia de seu possante pescoço até bem abaixo de sua barba. – Que surpresa! E que honra! Por favor, vamos a meu escritório. Quanto a vocês, não fiquem aí, embasbacados! Ao trabalho, aos ábacos! Wilfli! Leve agora mesmo ao escritório uma garrafa de Castel de Neuf da safra… Você já sabe qual. E rápido! Permita-me, permita-me, Yennefer. Que alegria vê-la! Você está tão linda que nem dá para respirar.

– Você também parece estar em plena forma, Giancardi – sorriu a feiticeira.

– Sem dúvida. Por favor, venham comigo. Mas, não, não… primeiro as damas. Você conhece o caminho, Yennefer.

No interior do escritório o ambiente estava escuro e agradavelmente fresco. No ar pairava um cheiro que lembrava a Ciri o da torre do escriba Jarre, um odor de tinta, de pergaminhos e de poeira que cobria os móveis de carvalho, gobelinos e enormes livros velhos.

– Sentem-se, por favor – falou o banqueiro, puxando uma pesada poltrona para Yennefer e lançando um olhar embaraçado para Ciri.

– Dê-lhe um livro qualquer, Molnar – disse displicentemente a feiticeira, tendo percebido o olhar. – Ela adora livros velhos. Vai se sentar à ponta da mesa e não vai nos incomodar. Não é verdade, Ciri?

A garota achou desnecessário responder.

– Um livro velho… hummm… deixe-me ver… – murmurou o anão com voz preocupada, aproximando-se de uma estante. – O que temos aqui? Livro de créditos e débitos… Não, este não serve. Impostos de importação e custos portuários… Também não. Créditos e reembolsos? Não. Opa, como este veio parar aqui? Só os diabos sabem… Mas acho que veio a calhar. Tome, garotinha.

O livro tinha o título Physiologus e era muito velho e rasgado. Ciri virou cuidadosamente a capa e algumas páginas. A obra logo atraiu sua atenção, porque tratava de seres estranhos e monstros, além de conter inúmeras litografias. Por algum tempo esforçou-se para dividir a atenção entre o livro e a conversa da feiticeira com o banqueiro.

– Você tem cartas para mim, Molnar?

– Não – respondeu o banqueiro, servindo vinho a Yennefer e a si mesmo. – As últimas, de um mês atrás, eu lhe enviei pelo método combinado.

– Eu as recebi, obrigada. Por acaso alguém demonstrou interesse por elas?

– Não aqui – sorriu Molnar Giancardi. – Mas você está mirando o alvo certo, minha cara. O banco dos Vivaldi avisou-me confidencialmente que alguém procurou seguir a pista das cartas. Sua filial em Vengerberg descobriu também uma tentativa de observar a movimentação de sua conta bancária. Um de seus funcionários revelou-se desleal.

O anão interrompeu-se, lançando à feiticeira um olhar inquisitivo sob as espessas sobrancelhas. Ciri aguçou os ouvidos. Yennefer permanecia calada, brincando com sua estrela de obsidiana.

– Os Vivaldi – continuou o banqueiro, baixando a voz – não quiseram ou não puderam investigar o caso. O funcionário desleal e subornável caiu embriagado no fosso e morreu afogado. Um infeliz acidente. Uma pena. Tudo aconteceu demasiadamente rápido…

– A perda não foi tão grande assim – comentou a feiticeira, estufando os lábios. – Eu sei quem estava interessado em minhas cartas e em minhas movimentações bancárias, de modo que a investigação dos Vivaldi não teria trazido nada de novo.

– Se você acha assim… – Giancardi coçou a barba. – Você está indo para Thanedd, Yennefer? Para aquele congresso geral de feiticeiros?

– Sim.

– Para decidir os destinos do mundo?

– Não exagere.

– Circulam rumores e estão ocorrendo coisas estranhas – falou o anão secamente.

– Que coisas, se não for segredo?

– Desde o ano passado – disse Giancardi, alisando a barba – tenho notado consideráveis mudanças na política tributária… Sei que você não se interessa por tal tipo de assuntos…

– Continue.

– Dobraram o valor do encabeçamento e da invernação, impostos coletados diretamente pelas autoridades militares. Todos os comerciantes e empresários devem pagar ao tesouro real um novo imposto, denominado “décimo centavo”, no valor de um centavo por noble de faturamento. Além disso, anões, gnomos, elfos e ananicos pagam um taxa adicional por pessoa e por residência, e, caso estejam envolvidos em atividades comerciais ou produtivas, são ainda onerados por uma contribuição “inumana” obrigatória, equivalente a dez por cento de seu lucro. Por conta dessa carga tributária, entrego ao Tesouro mais de sessenta por cento de minhas receitas. Meu banco, incluindo todas as filiais, supre os Quatro Reinos com seiscentos marcos por ano. Para sua informação, isso é quase três vezes mais do que paga de impostos um magnata ou um conde proprietário de grandes extensões de terra.

– Os humanos não são onerados com aquela contribuição obrigatória para custear os exércitos?

– Não. Eles pagam apenas o encabeçamento e a invernação.

– O que significa – a feiticeira meneou a cabeça – que são os anões e outros inumanos que financiam a campanha militar contra os Esquilos. Eu já esperava por algo assim. Mas o que os impostos têm a ver com o congresso em Thanedd?

– Depois dos congressos de vocês – observou o banqueiro – sempre acontece alguma coisa. Pois saiba que dessa vez nutro a esperança de que seja o contrário. Espero que seu congresso faça com que certas coisas deixem de acontecer. Ficaria muito contente, por exemplo, se parassem com essas repentinas mudanças de preços.

– Seja mais claro.

O anão esparramou-se na poltrona e trançou os dedos sobre a barriga coberta pela barba.

– Trabalho em meu ramo um bocado de tempo – falou –, o suficiente para poder ligar determinados movimentos de preços a alguns fatos. E ultimamente notei um grande aumento do preço das pedras preciosas, porque há demanda por elas.

– As pessoas trocam dinheiro em espécie por joias com o intuito de evitar perdas nas taxas de câmbio e na paridade das moedas?

– Também por isso. Mas as pedras possuem outra grande qualidade: a de um saquinho com diamantes ter o valor equivalente a uns cinquenta marcos. Essa quantia, transformada em dinheiro vivo, pesaria em torno de vinte e cinco libras e ocuparia um saco de dimensões consideráveis. É muito mais fácil fugir com um leve saquinho no bolso do que com um pesado saco nas costas. Além disso, as duas mãos ficam livres, o que não deixa de ser importante. Com uma delas dá para segurar a esposa, enquanto com a outra é possível dar uma bordoada em alguém em caso de necessidade.

Ciri riu baixinho, mas Yennefer lançou-lhe um olhar que a fez calar-se imediatamente.

– Portanto – disse a feiticeira – já há pessoas que estão se preparando para fugir. Estou curiosa: para onde?

– Na maior parte das vezes para o norte distante. Hengfors, Kovir, Poviss. Primeiro, porque é realmente muito longe. Segundo, porque aqueles países são neutros e mantêm boas relações com Nilfgaard.

– Entendo – sorriu ironicamente a feiticeira. – Botar brilhantes no bolso, pegar a esposa pelo braço e partir para o norte… Você não acha que é cedo demais para isso? Mas o que mais aumentou de preço, Molnar?

– Barcos.

– O quê?!

– Barcos – repetiu o anão, mostrando os dentes num sorriso. – Todos os fabricantes de embarcações estão trabalhando na construção de barcos, canoas e escaleres encomendados pelos intendentes do exército do rei Foltest. Os intendentes pagam bem e fazem cada vez mais encomendas. Se você dispusesse de algum capital, Yennefer, eu lhe aconselharia a investir em barcos. É um excelente negócio. Você constrói uma canoa de vime e casca de árvore, emite uma fatura para um escaler de madeira de primeiríssima qualidade, racha a diferença meio a meio com o fabricante…

– Não faça piadas, Giancardi. Diga de que se trata.

– Esses barcos – falou o banqueiro displicentemente, olhando para o chão – são transportados para o sul. Para Sodden e Brugge, à beira do Jaruga. Mas, pelo que me consta, eles não estão sendo usados para pescar peixes no rio. São escondidos nas florestas à margem direita, e dizem que os soldados ficam por horas treinando o embarque e o desembarque. Por enquanto, em terra firme.

– Ah – disse Yennefer, mordendo os lábios. – Mas por que há pessoas com tanta pressa em fugir para o norte, quando o Jaruga fica no sul?

– Há um fundamentado temor – respondeu o anão, lançando um olhar para Ciri – de o imperador Emhyr var Emreis não ficar muito feliz com a notícia de que os tais barcos foram lançados na água. Alguns acreditam que tal fato poderia despertar tanta ira em Emhyr que, caso isso ocorresse, o melhor que se poderia fazer seria estar o mais longe possível da fronteira nilfgaardiana… Pelo menos, até a colheita. Quando a colheita terminar, todos respirarão aliviados, porque, se algo for acontecer, terá de ser antes da colheita.

– Os grãos já estarão nos celeiros – murmurou Yennefer lentamente.

– É isso. Não é fácil alimentar cavalos com restolhos, e fortalezas com celeiros cheios podem resistir a um cerco por meses… O tempo está muito propício aos agricultores e a colheita promete ser ótima. Sim, sim. O tempo está mais do que lindo. O sol brilha e aquece a terra, não há sinal algum de chuva próxima… E o Jaruga em Dol Angra está ficando cada vez mais raso… Será fácil atravessá-lo. Em ambos os sentidos.

– Por que Dol Angra?

– Posso confiar em você? – indagou o banqueiro, alisando a barba e lançando um olhar penetrante à feiticeira.

– Você sempre pôde, Giancardi. E nada mudou.

– Dol Angra – falou o anão devagar – são Lyria e Aedirn, que têm uma aliança militar com Temeria. Você acha que Foltest, que andou comprando aqueles barcos, pretenderá usá-los por conta própria?

– Não – respondeu a feiticeira vagarosamente –, não acho. Agradeço-lhe a informação, Molnar. Quem sabe você não tem razão e nós, lá no congresso, poderemos realmente influir nos destinos do mundo e dos homens que o habitam?

– Não se esqueça dos anões – sorriu Giancardi. – E dos bancos.

– Vamos nos esforçar. E já que estamos falando de bancos…

– Sou todo ouvidos.

– Estou tendo muitas despesas, Molnar. Se eu sacar alguns recursos de minha conta no banco dos Vivaldi, poderá haver alguém pronto para se afogar. Diante disso…

– Yennefer – interrompeu-a o anão –, aqui, em meu banco, você tem crédito ilimitado. O pogrom em Vengerberg ocorreu há muito tempo. Talvez você tenha se esquecido, mas eu jamais esquecerei. Ninguém da família Giancardi esquecerá. De quanto você precisa?

– Mil e quinhentos dourados temerianos, transferidos para a filial dos Cianfanelli em Ellander, em favor do templo de Melitele.

– Considere feito. Eis uma transferência que me dá prazer: as remessas para templos são livres de impostos. O que mais?

– Qual é a atual anualidade da escola em Aretusa?

Ciri aguçou os ouvidos.

– Mil e duzentas coroas novigradas – respondeu Giancardi. – No caso de alunas novas, é preciso levar em conta cerca de duzentas coroas adicionais a título de taxa de matrícula.

– Que droga! Como ficou mais cara!

– Tudo ficou mais caro. Nada falta às alunas de Aretusa, que levam na escola uma vida de princesas. E é delas que vive metade da cidade: alfaiates, sapateiros, doceiros, fornecedores…

– Entendo. Deposite anonimamente na conta da escola de Aretusa duas mil coroas e informe-a de que se trata da matrícula e da anualidade… para uma aluna.

O anão largou a pena, lançou um olhar para Ciri e sorriu. A garota, fingindo estar concentrada no livro, ficou escutando atentamente.

– Algo mais, Yennefer?

– Mais trezentas coroas novigradas em espécie para mim. Vou precisar de pelo menos três vestidos para o congresso em Thanedd.

– Para que vai precisar de dinheiro vivo? Vou lhe dar um cheque bancário de quinhentas coroas. O preço dos tecidos importados também subiu drasticamente, e você não costuma vestir-se com lã ou algodão. E, se precisar de alguma coisa para você ou para a futura aluna da escola de Aretusa, minhas lojas e depósitos estão sempre a sua disposição.

– Obrigada. Que taxa de juros você vai me cobrar?

– Os juros – o anão ergueu a cabeça – você já pagou adiantado à família Giancardi, Yennefer. Não vamos mais falar disso.

– Não gosto desse tipo de dívidas, Molnar.

– Nem eu. Mas sou um anão de negócios; sei o que é uma obrigação e reconheço seu valor. Repito: não vamos mais falar disso. Considere resolvidos os negócios que você abordou, assim como o negócio que você não abordou.

Yennefer ergueu as sobrancelhas.

– Um bruxo que é lhe bastante próximo – falou Giancardi, com um sorriso maroto – esteve recentemente em Dorian. Fui informado de que ele teve de pegar cem coroas com o agiota local. O agiota trabalha para mim. Considere tal empréstimo inexistente.

A feiticeira lançou um olhar na direção de Ciri e contorceu os lábios.

– Molnar – disse, com voz gélida –, não meta os dedos numa porta cujas dobradiças estão quebradas. Duvido muito que ele continue me achando próxima dele, e, caso descubra a liquidação da dívida, passará a me odiar de verdade. Afinal, você o conhece e sabe de sua obsessão por sua honorabilidade. Há quanto tempo ele esteve em Dorian?

– Há uns dez dias. Depois, ele foi visto em Mangue Pequeno, de onde, segundo me disseram, partiu para Hirundum a convite dos fazendeiros de lá. Como de costume, deve haver um monstro para ser morto…

– E para matá-lo, como de costume, vão lhe pagar uma ninharia – a voz de Yennefer tornou-se mais amena –, que, como de costume, mal bastará para pagar o tratamento médico caso o monstro o fira. Como de costume. Se você realmente quer fazer algo por mim, Molnar, então entre em contato com os fazendeiros de Hirundum e aumente o prêmio… para que ele possa pelo menos se manter por algum tempo.

– Como de costume – murmurou Giancardi. – E se ele inteirar-se disso?

Yennefer fixou os olhos em Ciri, que agora escutava a conversa sem fingir interesse algum pelo Physiologus.

– E quem poderia – escandiu a feiticeira lentamente – inteirá-lo de tal fato?

Ciri abaixou os olhos. O anão sorriu e alisou a barba.

– Antes de partir para Thanedd, você, por acaso, não passará por Hirundum? – indagou.

– Não. – Yennefer virou a cabeça. – Não passarei. Vamos mudar de assunto, Molnar.

Giancardi voltou a alisar a barba e lançou um olhar para Ciri, que abaixou a cabeça, pigarreou e ficou se remexendo na cadeira.

– Você está certa – confirmou. – Está mais do que na hora de mudarmos de assunto. Mas sua pupila está claramente entediada com o livro… e com nossa conversa. Além disso, desconfio que os assuntos que vamos abordar a entediariam ainda mais… O destino do mundo, o destino dos anões deste mundo, o destino de seus bancos… Essas questões devem ser maçantes para uma jovem, futura aluna de Aretusa… Solte-a um pouco debaixo de suas asas, Yennefer. Deixe que ela dê uma volta pela cidade.

– Eu adoraria! – exclamou a garota.

A feiticeira adotou um ar zangado e estava abrindo a boca para protestar quando repentinamente mudou de ideia. Ciri não tinha certeza, mas teve a impressão de que a inesperada mudança de atitude tinha algo a ver com a discreta piscadela que acompanhara a proposta do banqueiro.

– Que a menina possa admirar a grandeza desta antiquíssima cidade que é Gors Velen – acrescentou Giancardi, sorrindo abertamente. – Ela merece desfrutar um pouco de liberdade antes de… Aretusa. Enquanto isso, nós dois ficaremos aqui conversando sobre assuntos… humm… pessoais. Não, não estou propondo que a garota fique andando por aí sozinha, embora a cidade seja muito segura. Vou providenciar para ela um companheiro e protetor, um de meus funcionários mais jovens…

– Perdoe-me, Molnar – falou Yennefer, sem corresponder ao sorriso do banqueiro –, mas não me parece que nos dias de hoje, mesmo numa cidade segura, a companhia de um anão…

– Nem me passou pela cabeça – respondeu Giancardi, ofendido – a ideia de um anão. O funcionário ao qual me refiro é filho de um distinto comerciante, um homem com H maiúsculo, se posso me expressar assim. Você achou que meus funcionários são todos anões? Ei, Wilfli! Chame Fábio e diga-lhe que venha correndo!

A feiticeira aproximou-se de Ciri e se inclinou levemente.

– Ciri – disse. – Só não faça besteira alguma da qual eu acabe me envergonhando. E, diante daquele funcionário, bico calado. Entendeu? Jure-me que vai tomar cuidado com o que fará ou dirá. Não basta assentir com a cabeça. Juramentos são feitos em voz alta.

– Juro, dona Yennefer.

– Olhe de vez em quando para o sol. Quero você de volta ao meio-dia em ponto. E no caso de… Não, duvido que alguém possa reconhecê-la. No entanto, se notar que alguém está olhando com atenção para você… – A feiticeira enfiou a mão no bolso e retirou dele um pequeno crisópraso no formato de uma clepsidra e coberto de runas. – Guarde-o na bolsinha. E não o perca. Caso seja necessário… Você se lembra do conjuro? Ele tem de ser invocado discretamente. Sua ativação produz um eco e o amuleto, quando ativado, emite ondas. Se houver por perto alguém sensível à magia, você poderá ser descoberta, em vez de permanecer oculta. Ah, sim, leve também isto… caso queira comprar alguma coisinha.

– Muito obrigada, dona Yennefer – agradeceu Ciri, colocando o amuleto e as moedas na bolsinha e olhando com curiosidade para um garoto que entrou correndo no escritório.

O rapaz era sardento, com uma ondulante cabeleira castanha caindo-lhe sobre a alta gola do uniforme de funcionário de banco.

– Fábio Sachs – apresentou-o Giancardi.

O rapaz curvou-se respeitosamente.

– Fábio, essa é dona Yennefer, nossa digníssima visitante e distinta cliente. E essa senhorita, sua pupila, expressou o desejo de visitar a cidade. Você vai acompanhá-la e servir-lhe de guia e protetor.

O rapaz inclinou-se mais uma vez, dessa vez ostensivamente na direção de Ciri.

– Ciri – falou Yennefer, em tom gélido. – Faça o favor de se levantar.

A garota levantou-se, um tanto espantada, uma vez que conhecia bem as normas de etiqueta para saber que aquilo não era necessário. Entretanto, logo compreendeu a razão do pedido de Yennefer. O funcionário, embora parecesse ter a mesma idade de Ciri, era uma cabeça mais baixo do que ela.

– Molnar – disse a feiticeira. – Quem vai proteger a quem? Você não poderia delegar essa função a alguém de dimensões mais adequadas?

O rapaz enrubesceu e lançou um olhar interrogativo ao presidente do banco. Giancardi assentiu com a cabeça. O funcionário inclinou-se mais uma vez.

– Digníssima dama – falou em alto e bom som, sem embaraço algum. – Talvez eu não seja grande, mas pode-se confiar em mim. Conheço esta cidade, seus subúrbios e as redondezas como a palma de minha mão. Vou tomar conta dessa senhorita da melhor maneira que sei. E, quando eu, Fábio Sachs Júnior, filho de Fábio Sachs, faço algo da melhor maneira que sei, então… então muitos outros, mais altos do que eu, não serão capazes de chegar a meus pés.

Yennefer ficou olhando para ele por um momento, até se virar para o banqueiro.

– Parabéns, Molnar – afirmou. – Você sabe muito bem escolher seus auxiliares. Você terá muito orgulho desse funcionário. Sua postura demonstra firmeza de caráter. Ciri, coloco você, em plena confiança, sob a proteção de Fábio, filho de Fábio, pois se trata de um homem sério em quem se pode confiar.

O rapaz enrubesceu até a raiz dos cabelos castanhos. Ciri sentiu que também estava corando.

– Fábio – disse o anão, abrindo uma pequena caixinha decorada e mexendo em seu interior. – Tome meio noble e três… dois décimos, caso a senhorita deseje algo. Se ela não desejar, traga-os de volta. Pode ir.

– Ao meio-dia, Ciri – lembrou Yennefer. – Nem um minuto depois.

– Sei, sei.

– Eu me chamo Fábio – falou o rapaz assim que desceram as escadas e saíram para a rua movimentada. – E você se chama Ciri, não é verdade?

– Sim.

– O que quer visitar em Gors Velen, Ciri? A rua principal? O beco dos ourives? O porto marítimo? Ou talvez a praça central com o mercado?

– Tudo.

– Hummm… – O jovem parecia preocupado. – Temos de estar de volta a meio-dia… Portanto, o melhor será irmos até o mercado. Hoje é dia de feira e poderemos ver muitas coisas interessantes! Mas, antes, vamos subir na muralha, da qual é possível ver toda a baía e a famosa ilha de Thanedd. O que você acha?

– Vamos à muralha.

Na rua, carroças moviam-se com estrépito, cavalos e bois deslocavam-se em todas as direções, tanoeiros rolavam barris… Por toda parte havia pressa e barulho. Ciri, ligeiramente atordoada com tanta movimentação e gritaria, deu um passo em falso e saiu da calçada de madeira, afundando até os tornozelos numa mistura de lama com esterco espalhada junto do meio-fio. Fábio quis ajudá-la segurando-lhe o braço, mas ela livrou-se rapidamente.

– Sei andar sozinha!

– Hummm… Estou vendo… Então vamos. Este lugar onde estamos é a rua principal da cidade. Chama-se Kardo e liga os dois portões: o Principal e o Marítimo. Este caminho leva até o prédio da prefeitura. Está vendo aquela torre com um galo dourado no topo? É a prefeitura. E lá, debaixo daquela placa colorida, fica a pousada Sob o Espartilho Desatado. Mas… hummm… não iremos para lá. Em vez disso, vamos tomar um atalho passando pela feira de peixes que fica na rua do Rodeio.

Dobraram num beco e saíram diretamente numa pracinha espremida entre as paredes das casas. Ali havia muitas barracas, barris e cubas, dos quais recendia um forte cheiro de peixe. Renhidas barganhas estavam sendo travadas, com compradores e vendedores tentando fazer sobressair a voz aos gritos das gaivotas circulando no céu. Junto da muralha, alguns gatos fingiam não estar nem um pouco interessados nos peixes.

– Sua tutora – falou Fábio repentinamente, esgueirando-se por entre as barracas – é muito rigorosa.

– Sei disso.

– Dá para perceber ao primeiro olhar que ela não é sua parenta.

– É mesmo? Por quê?

– Porque ela é muito linda – respondeu Fábio, com a cruel e inocente sinceridade tão própria da juventude.

Ciri virou-se como movida por uma mola, mas, antes de conseguir fazer qualquer comentário desabonador a Fábio referente a suas sardas ou a sua altura, o garoto já a puxava por entre carroças, tonéis e barracas. Ao mesmo tempo, falava sem parar da torre Ladrona, erguida na pracinha, do fato de as pedras usadas em sua construção provirem do fundo do mar e de as árvores que cresciam a seu redor serem chamadas de plátanos.

– Estou achando você muito calada, Ciri – afirmou repentinamente.

– Eu? – A garota fingiu espanto. – Nada disso! Estou simplesmente ouvindo com atenção o que você conta. Você é um guia excelente, sabia? Eu queria lhe perguntar…

– Pergunte à vontade.

– Onde fica a cidade de Aretusa? Muito longe daqui?

– De jeito nenhum! Porque Aretusa não chega a ser uma cidade. Vamos subir na muralha e vou lhe mostrar. Por aqui, subindo estas escadas.

A muralha era alta, e as escadas, íngremes. Fábio ficou suado e arfante, o que não era de espantar, já que não cessara de falar por um só instante. Ciri foi informada de que a muralha em torno de Gors Velen era uma construção muito mais recente do que a cidade em si, erguida ainda por elfos, que tinha trinta e cinco pés de altura e fora erguida com a técnica opus quadratum, usando uma mistura de pedras aparelhadas e tijolos crus, pois tal material era mais resistente aos golpes de aríetes.

Uma vez no topo, os dois jovens foram saudados por uma refrescante brisa marinha. Após o espesso e imóvel ar da cidade, Ciri aspirou com prazer. Apoiou os cotovelos na borda da muralha e ficou olhando para o porto, colorido por velas de barcos.

– O que é aquilo, Fábio? Aquela montanha?

– A ilha de Thanedd.

A ilha parecia estar muito próxima e não tinha a aparência de uma ilha. Parecia um gigantesco bloco de pedra emergindo do fundo do mar, um enorme zigurate rodeado de caminhos espirais com zigue-zagues de escadas e terraços. Os terraços esverdeavam com bosques e jardins e, do meio daquele verde todo, coladas às rochas como ninhos de andorinhas, emergiam brancas torrinhas pontudas e lindas cúpulas, formando uma guirlanda de construções cercadas de colunatas. As edificações não davam a impressão de terem sido construídas; parecia que haviam sido lavradas nas escarpas da montanha marítima.

– Isso tudo foi construído por elfos – esclareceu Fábio –, dizem que com a ajuda da magia élfica. No entanto, Thanedd pertence aos feiticeiros desde tempos imemoriais. Junto do topo, lá onde brilham aquelas cúpulas, fica o palácio de Garstang. É lá que em poucos dias terá início o grande congresso dos magos. E ainda mais acima, bem no cume, aquela solitária torre com ameias é Tor Lara, a Torre da Gaivota.

– Dá para chegar lá por terra? Parece ficar tão pertinho…

– Dá. Uma ponte liga a margem da baía à ilha. Não podemos enxergá-la porque está encoberta por árvores. Está vendo aqueles telhados vermelhos na base da montanha? Aquilo é o palácio de Loxia. Somente através de Loxia é possível acessar os caminhos que levam aos terraços superiores…

– E lá, onde estão aquelas lindas colunatas, pontezinhas e jardins? Como aquilo consegue ficar preso à parede da rocha sem desabar… Que palacete é aquele?

– É precisamente Aretusa, sobre a qual você perguntou. É ali que fica a famosa escola para jovens feiticeiras.

– Ah – murmurou Ciri, passando a língua pelos lábios. – Quer dizer que é lá… Fábio, você costuma ver de vez em quando as jovens feiticeiras que estudam naquela escola? Na tal Aretusa?

O rapaz olhou para ela, com visível espanto.

– Nunca! Ninguém as vê jamais! Elas estão proibidas de sair da ilha e entrar na cidade. E, quanto ao terreno da escola, ninguém tem acesso a ele. Quando o prefeito ou o aguazil têm alguma questão a resolver com as feiticeiras, só podem chegar até Loxia. Ao nível mais baixo.

Continuar: parte 2 de 3