Titã

Fábio Baptista · Capítulo 1 de 3

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TITÃ

Fabio Baptista

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Abelhas são programadas para defender a colmeia. Qualquer ameaça à comunidade será atacada de imediato. Em suas diminutas mentes, não há espaço para hesitação ou questionamento. Suas ações são reflexos dos desígnios da espécie, sem qualquer conotação ética ou moral, sem qualquer atribuição de valor. Tartarugas são programadas para ir em direção ao oceano. Logo após o ovo eclodir, revelando um novo e inóspito universo, os pequenos répteis correm pela areia, fugindo da fome dos predadores, buscando refúgio no mar acolhedor. Não sabem o que são predadores, não sabem sequer o que é água, mas vão para lá mesmo assim. Formigas, pássaros, leões, zebras, golfinhos, bactérias, baleias. Todos nascem com um conjunto de instruções das quais não podem se desvencilhar. Todos os seres vivos. E os humanos? O que eles são programados para fazer, além das características básicas inerentes a qualquer criatura viva – nascer, se alimentar, crescer, se reproduzir... morrer. O que fazem os homens, além disso?

O que deveriam fazer os homens, além disso?

As colmeias sobreviveriam caso as abelhas sofressem dos mesmos dilemas morais que acometem os humanos? Se titubeassem em atacar um invasor de aspecto inofensivo, se os soldados soubessem que sua arma é parte do próprio corpo e morrerão após utilizá-la? Seriam os animais mais felizes por levarem uma vida totalmente de acordo com sua natureza, sem dúvidas, sem prós e contras, sem noção de bem e mal, sem a necessidade de ter que se equilibrar continuamente entre escolhas e consequências? Ou a felicidade é só um estado de espírito concebido por mentes racionais, ávidas por preencher o inexorável vazio de sua existência com toda sorte de sentimentos, emoções e filosofias?

Reflexões que preencheram esses 6 dias desde que saí da Terra. Pensamentos sem propósito, inúteis. Pelos meus cálculos, é absolutamente nula a chance de se tirar uma conclusão inquestionável a respeito da vida. Mas, mesmo tendo ciência de que estou em um ciclo interminável de divagações, continuo a pensar sobre isso, enquanto observo Marte afastando-se no infinito. Por que continuar a fazer algo que não conduzirá a lugar algum? Bom, talvez eu tenha sido programado para isso. Talvez seja uma forma de compensar a solidão da viagem, os 102 dias até Saturno. Talvez sejam só pensamentos tolos.

Talvez.

Pensamentos. Consciência. Formulo teorias sobre o significado intrínseco dessas palavras. Teriam os animais algum tipo de consciência? Conseguiriam eles estruturar sequências, mesmo que primitivas, de pensamentos? Curioso. Todavia, de certo modo provavelmente ainda é mais curioso o meu próprio senso de consciência e a minha estruturação de pensamentos. Mais filosofia inútil, interrompida momentaneamente para fazer o relatório diário.

— Comandante Ash, 27º dia de viagem, prestes a entrar na órbita do cinturão de asteroides. Navegação sem imprevistos até o momento, aguardo confirmação sobre a continuidade das diretrizes iniciais da missão. Câmbio.

Trinta e nove minutos e cinquenta e seis segundos depois, a resposta:

— Corporação para comandante Ash. Missão segue sem alterações de escopo. Câmbio.

A trajetória planejada me obriga a passar por uma região particularmente apinhada de asteroides, mas eles são lentos e a distância entre um e outro é grande. Apenas em uma obra de ficção poderiam se tornar uma ameaça às viagens espaciais. Depois, mais 23 dias de vácuo e reflexões, até me aproximar de Júpiter e sua poderosa força gravitacional, que utilizarei a meu favor, ganhando um pequeno empurrão até Saturno, economizando a anti-matéria dos propulsores sem baixar a velocidade.

Faço o relatório do 51º dia de viagem e observo as bases abandonadas em Europa, onde a busca por vida no oceano subterrâneo revelou-se completamente infrutífera. Bilhões e bilhões gastos, e nem sequer um protozoário, uma bactéria, nada. Um mundo completamente estéril, para decepção dos entusiastas e dos magnatas do turismo espacial, que pretendiam vender pacotes de viagem para lá. Bolariam um slogan, fariam hologramas com os submarinos exploradores revelando uma miríade de novas criaturas exuberantes a ser observada e todas as outras coisas bonitas que os marqueteiros sabem fazer. Mas, depois de 30 anos sem qualquer sinal de nenhuma “criatura exuberante”, o sonho acabou. E vimos que algumas coisas são mais fáceis de encontrar onde não estamos procurando.

Mais 61 dias até Saturno. Engraçado notar que, dependendo do ângulo que olhamos, seus anéis ficam quase imperceptíveis. Os mais largos possuem pouco mais de mil metros de espessura. Isso não é nada na imensidão silenciosa do universo. Um leve desvio e então é revelado o diâmetro colossal desses amontoados de gelo e poeira cósmica, conferindo aparência e beleza ímpares ao gigante gasoso que orbitam. Reflito sobre o que pode ou não ser considerado belo, enquanto me aproximo do meu objetivo: Titã, a maior lua de Saturno, a segunda maior do sistema solar. A nave trepida ao adentrar a densa atmosfera de nitrogênio. Assumo controle manual e os solavancos começam a reverberar em meus braços. Uma névoa laranja não permite enxergar mais de dois metros à frente da nave, então diminuo a velocidade ao mínimo e conto os segundos que ainda precisam ser decorridos até chegar ao solo. Calculo em 3% a chance de me espatifar, encerrando prematuramente a missão. Um risco alto, dado o que está em jogo, mas dessa vez a probabilidade jogou ao meu favor. Assim que pousei, a neblina se dissipou. Não totalmente, mas o suficiente para oferecer uma visão limpa do ambiente. Por uma questão de sete minutos, corri o risco de colocar 102 dias de viagem e bilhões de cifras a perder, devido a um evento totalmente aleatório. Sorte? Azar? Destino? Acaso? Seja o que for, o que importa agora é que tudo deu certo. Por enquanto.

Desço da nave e me desloco com o veículo de tração pelo solo irregular. A névoa, ora rala, ora espessa, está sempre presente, dando um aspecto árido a tudo que se possa ver. O céu é completamente coberto por nuvens brilhando alaranjadas sob a fraca luz do Sol. Um imenso lago de metano líquido estende-se à minha direita, alimentado por uma tempestade torrencial caindo a centenas de quilômetros. À esquerda, um criovulcão entra em atividade, liberando gelo e amônia na atmosfera. A descrição pode trazer imagens belas à imaginação e certamente os publicitários tentarão se apegar a isso, caso algum dia as férias em Titã sejam economicamente factíveis, mas, olhando de perto, é tudo melancólico, é tudo na penumbra. É tudo frio e solitário. Porém, não estou aqui para apreciar a paisagem, então, sigo mais alguns quilômetros e encontro meu alvo: a base que a corporação construiu nessa lua, como primeiro passo para a extração comercial de deutério em Saturno. Viemos com 120 pessoas e um enorme aparato, esperando encontrar o lugar ideal para instalar o berço de nossa futura mina de ouro. Acabamos encontrando mais do que isso. Em Titã, encontramos o que tanto foi procurado sem sucesso em Europa, Io e Ganímedes.

Nós encontramos vida.

Vida. O que é a vida? Há controvérsias se o que achamos – na verdade, o que nos achou – pode ser considerado um ser vivo. Essa criatura terrível estava inerte como as pedras, até ser carregada pelo vento e entrar em contato com as células de um astronauta descuidado. Então, começou a se reproduzir e se espalhar vertiginosamente. Um vírus, uma sequência de RNA que se desenvolveu nesse ambiente hostil, contra todas as probabilidades. Um ser diminuto que, ao encontrar um hospedeiro, começa a se multiplicar exponencialmente e causa transtornos de personalidade, agressividade e instintos assassinos – nos dois primeiros dias. Febre intensa e convulsões no terceiro. Um corpo transformado numa pasta amorfa de carne e sangue no quarto. Cento e dezenove mortes confirmadas. Minha missão é encontrar o astronauta que está faltando. “A” astronauta. Maria Rita Andreoli.

Próximo ao portão da base, presencio um cenário desolador. Duas dúzias de corpos congelados, de cosmonautas que preferiram correr em direção ao frio quase absoluto a encarar a doença, ou aqueles que estavam contagiados por ela. Ou, que simplesmente agiram por instinto, em um último ímpeto de sobrevivência. Ou de loucura. Ao entrar, percebo que a situação é ainda mais tétrica: sangue e carne putrefata, espalhados pelo chão, pelos computadores, pelo teto, por todos os lados. Vou contando o que restou dos corpos, enquanto caminho pelos compartimentos procurando a mulher. Antes de morrer, em um surto de agressividade, um dos empregados danificou o sistema interno de câmeras. O externo continuou funcionando e não a vimos sair, então é certo que ainda esteja aqui. Só não sabemos onde. Nem como. Depois de procurar por toda a base, chego ao local mais lógico para um refugiado se esconder – a despensa. Porta trancada. Ouço uma respiração ofegante manifestando-se do outro lado depois de forçar a maçaneta. Está aqui, está viva.

— Maria Rita, estou aqui para resgatá-la, abra a porta, por favor.

A intensidade da respiração aumenta, mas nenhuma resposta vem do outro lado. Com um chute, escancaro a porta. Maria Rita está no canto da sala, encolhida, sentada numa poça de excrementos. Ela é apenas pele, osso e medo. Suas mãos tremem, seus olhos arregalam-se ao me ver, seu semblante se contorce. Tenta gritar, mas não consegue. Seus pés se arrastam no chão, querendo levá-la para longe. Eu agacho, seguro suas mãos frias e digo:

— Meu nome é Ash. Vai ficar tudo bem, vamos voltar para casa. Vem Maria, eu te ajudo a levantar. Vai ficar tudo bem.

Levo-a ao ambulatório. Está fraca demais para a viagem. Passo dois dias oferecendo cuidados e alimentação, creio que logo estará apta. Colho amostras de sangue, dela e dos astronautas mortos e envio os dados para a corporação.

— Comandante Ash, 5º dia em Titã. Informo que a colaboradora Maria Rita Andreoli, embora mentalmente abalada, está em condições de retornar ao planeta Terra. Viagem programada para amanhã. Câmbio.

Duas horas e vinte e cinco minutos depois, a resposta:

— Corporação para comandante Ash. Dados do vírus e do organismo imune coletados com sucesso. Iniciar missão Titã. Câmbio.

Ao terminar de ouvir a mensagem, uma área de dados até então oculta em meu disco rígido é acessada, revelando a verdadeira missão. Enquanto pensava nas implicações morais do que estava fazendo, meu corpo robótico cumpria sua programação, quebrando o pescoço de Maria Rita, arrastando os corpos congelados para dentro e acionando o dispositivo de auto-destruição. Voltei à nave e não olhei para trás quando todos os átomos da base e de seus funcionários mesclaram-se à névoa alaranjada de Titã. Decolei e rumei a toda velocidade na direção de Saturno. O gigante gasoso absorveria as últimas evidências do ocorrido. Liguei o comunicador, enquanto via aquele amontoado de hidrogênio pesado se aproximando. Pensei em perguntar “por quê?”.

Mas eu já sabia a resposta. Talvez por capricho, eles a deixaram comigo o tempo todo. A corporação precisava evitar que a história do vírus viesse à tona. A descoberta da vida alienígena tão procurada traria os holofotes para Titã e isso talvez prejudicasse a exploração comercial do satélite. E, principalmente – a explosão de uma base assusta, mas é um acidente, um evento aleatório. Naves caem ocasionalmente e as pessoas continuam voando no dia seguinte, como se nada tivesse acontecido. Um vírus assassino assusta muito mais. Aterroriza. Afasta operários e investidores, o que certamente seria péssimo para os negócios. Então optaram por fazer uma vacina às escondidas, imunizar os futuros funcionários, apagar todos os vestígios, lamentar a “terrível tragédia causada por problemas técnicos que não mais se repetirão” e seguir em frente.

Programados para defender seus próprios interesses, sempre.

Eu, um robô programado para cumprir uma missão e refletir sobre a vida. Um teste bem sucedido de consciência artificial, que não interferiu nas instruções básicas “de fábrica”. Uma máquina que pensa, sente e tem tato para lidar com sobreviventes, mas ainda uma máquina, que não possui outra opção além de cumprir o que lhe foi ordenado. Em breve deixarei de existir. Se é que os dias decorridos da minha construção até hoje podem ser considerados uma existência. Seja como for, em dois minutos e 41 segundos, serei destroçado por Saturno. Em cinco bilhões de anos, o Sol explodirá, destroçando Mercúrio e Vênus. Em quinze bilhões, a Via Láctea colidirá com Andrômeda. Em um trilhão, o universo terá colapsado em si mesmo, formando uma nova singularidade, ou então, expandido ao ponto de se tornar apenas um oceano frio e escuro de partículas despedaçadas, um infinito de nada. De qualquer forma, tudo deixará de existir. Se é que alguma coisa existiu algum dia.

Em 53 segundos, deixarei de refletir sobre a vida e sobre a existência. E, em uma hora e 11 minutos, minhas últimas palavras serão ouvidas na Terra:

— Comandante Ash para Corporação. Missão Titã concluída com sucesso. Câmbio.

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