Uma scena conjugal

Luís Couceiro · Capítulo 1 de 1

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Uma scena conjugal

A

 

Off.^e

O auctor.

PERSONAGENS

 

Carlos e Bertha

 

Carlos está trabalhando á sua secretária.

Bertha lendo um romance junto d'elle.

 

Carlos (descansando do trabalho a que se entrega e preparando

um cigarro)

Darei á penna um pouco de repouso

E descanço ao trabalho a que me prendo…

Bertha

N'esse caso estás hoje preguiçoso?

Carlos

Não; mas emquanto o meu cigarro accendo,

Vou desviar a tua vista immersa

No romance a que prestes attenção…

Bertha (interrompendo)

Dando-me alguns instantes de conversa?

Carlos

Se te apraz, se te agrada?

Bertha (fechando o livro)

E porque não!

Tambem fecho o meu livro por momentos

Carlos (interrompendo)

Cuja leitura acaso te aborrece

Penso eu?…

Bertha

Errados são taes pensamentos,

É bonita, e desperta algo interesse

Carlos

Ora adeus! Um romance trivial,

Muitas vezes de pura phantazia.

Mas que as mulheres acham principal

Possuir como bôa companhia,

Sim! romance d'amôr não é verdade?

Bertha

É d'amôr, com effeito; dizes bem,

E tanto assim, que na realidade,

«Meus Amores» é nome que elle tem

Carlos

«Meus Amores»!! Tem graça! Com tal titulo,

Faria eu um romance original

Bertha

Tu?!

Carlos

Eu, pois; e crê que em mais d'um capitulo…

Bertha (interrompendo)

Descrevias a vida conjugal?

Carlos

Tolinha!… sempre tens cada lembrança!

O casamento assumpto não daria

E nem com isso ingenua creança,

Vale a pena augmentar a livraria!

Bertha (admirada)

Então!?

Carlos

Então, buscava mui sómente

A historia de todo o meu passado,

Narrando o que a minha alma ainda sente…

Bertha (áparte)

Patife!! Todo o instante é bem azádo Para dizer-me só

palavras duras! (alto) De fórma que passavas em revista?…

Carlos

Todas as minhas mil e uma aventuras,

Em que nunca deixou d'haver conquista

Nem falhou o mais duro coração…

Bertha (áparte)

É demais!!! Mas vingança vou jurar!

(alto) E no livro da sua confecção

Poderei eu tambem collaborar?

Carlos

Quem! tu? Da esposa, amôr e só constancia,

Tanto é o que poderás descrever.

Bertha (altiva)

Qual! Esse amôr jámais teve importancia,

Não acabaste ha pouco de o dizer!

Acredita meu caro, que ha de sobra

Elementos na minha mocidade,

Que possam reforçar a tua obra

E dar-lhe bem maior publicidade!…

Carlos (ironicamente)

Ah! eu creio. Acredito plenamente!

E pódes convencer-te que não peccas,

Se quizeres expôr sinceramente

O muito que adoravas as bonecas…

Bertha (irritada)

Senhor! Consentir, não posso que altere

A traducção das minhas expressões!

Saiba que me melindra e só me fére,

Suppondo que sentidas vibrações

A recordar um tempo bem feliz,

Se fundam em tão simples innocencia!…

Carlos (surprehendido)

Perdão se a offendi!

Bertha (continuando)

É como diz:

E repito com muita consciencia,

Ter os dados precizos e bastantes,

Para com elles dar mais um motivo

A que o seu livro tenha assignantes

E seja digno do melhor archivo…

Carlos (mais surprehendido)

O que!?… pensarás tu em desvendar

Um segredo, ou talvez, algum mysterio?!!…

Bertha

Não sei; apenas julgo acrescentar,

Que só digo a verdade e fallo a sério…

Carlos (surprezo)

Devo então suppôr n'essa affirmativa

Que fosses n'outro tempo aventuroza?!!

Bertha

Se fui!… e como tenho inda bem viva

A recordação da vida amorosa,

Tão cheia de prazer, de tanto gôzo!…

Carlos (irritado)

Senhora! não graceje! e se é sincera,

Explique e narre tudo a seu espozo?…

Bertha

Ceus! Não queira avivar a primavera

Das minhas aventuras; por Deus peço?

Carlos (admiradissimo)

Das suas aventuras?! Todavia,

O fim de taes palavras eu não meço,

E desejo saber o que existia,

Que advinhal-o, não posso, nem eu sei!

Bertha

Que havia de existir? O que? Senhor?

Digo-lhe só, que muito, muito amei

E gosei as delicias do amor!…

Carlos

Comtudo, diga de que fórma e como?!

Bertha

Contar-lho, era fazer um bom romance

Que ao certo não cabia n'um só tômo!…

Carlos (impaciente)

Lembro que em desespero não me lance!

Exigindo me conte a sua historia!

Bertha

Ah! quer? pois bem; e visto que me obriga

A dizer-lhe o que tenho de memoria,

Vou tudo já contar

Escute…

Carlos

Diga?

Bertha

Recorda-me que outr'ora, não sei quando,

D'intenso amor minha alma despertava,

E o coração dizia palpitando,

Que d'amor, uma outra alma se aliava:

E acode-me senhor ao pensamento,

Que nunca tornará a reviver,

Nem tão incomparavel sentimento,

Nem hora que assimille esse prazer.

Era bem nova ainda, era creança,

Mas dentro em pouco, eu já comprehendia,

Que a minha vida até ahi tão mansa,

Da mais louca paixão em febre ardia

E d'outros mil affectos era preza…

Carlos (interrompendo)

E não ousaes Senhora vêr-me rude?!

Bertha

Não. Se d'amor é feita a Natureza,

Amar, não é peccado, mas virtude!

Carlos

Se ás vezes não reverte em sacrilegio

Findae a narrativa por quem sões!

Bertha

Ah! sim! dar-lhe-hei esse previlegio,

Eu proseguirei…

Carlos (altivo)

Vamos, e depois?

Bertha

Depois, senhor, se o tempo bem corria,

Bem mais depressa o meu amor galgava,

Até que em sorridente e lindo dia.

Qual vulcão, chamma intensa o inflamava.

Estavam satisfeitos os desejos

Da mulher, que contente e delirante,

Se deixou cahir sofrega de beijos,

Nos braços d'um querido e terno amante…

Carlos (surprehendidissimo)

Nos braços d'um amante hein!… hein! Senhora?!

E então, com que coragem inaudita,

Faz tal revelação sómente agora,

A esposa indigna, mil vezes maldicta!

……………………………….

Nos braços d'um amante, não é assim?!!

E com que arrojo, com que atrevimento,

Procura descobrir perante mim

O seu infame e vil procedimento!

Bertha (interrompendo)

Chame-lhe tudo quanto bem quizer,

Se pequei, se cahi, porém, no abysmo,

A eito n'elle cahe muita mulher.

Carlos

Mas, meu Deus! É demais tanto cynismo!!

…………………………………

De forma, que a mulher por mim sonhada,

E que eu ardentemente possui,

Denuncia, confessa, exclama e brada.

Que m'enganou?!…

Bertha

E que inda ri de si!

Carlos

Senhora! Que medonha crueldade!!…

Bertha

Que quer?! é um engano natural…

Suppoz, julgou que eu era uma beldade,

Conquistou-me como um grande ideal

Emanado dos Ceus, ente divino,

Mulher de formosura incomparavel,

De olhar meigo, suave e rosto fino,

Imagem linda, santa e adoravel,

Nympha, que a muza canta em dôce estylo,

Em poema sublime, em verso bello,

O quadro mais perfeito de Murillo,

E da sculptura, a estatua modello.

Sonhou-me assim, porém foi sonho erróneo

Hoje, eis apenas o ente que não passa

D'um objecto preciso ao matrimonio,

Sem que tenha sequer uma só graça

D'aquellas que o Senhor imaginou.

Hoje eis a mulher simples e vulgar,

Sem os dons d'outro tempo que passou,

E que ao vêr-me, pensára architetar.

Emfim: Mulher inutil, sem valor…

Carlos

E que ora transforma em atroz calvario

A vida do hymineu!…

Bertha

Oh! meu Senhôr:

Isso é tão futil, é tão secundario,

Que de f'rido, mostrar-se-me aparente,

Creia, revela em bôa consciencia,

Nem sêr constante, nem sêr coherente…

Carlos (desesperado)

Basta senhora, se é muita a prudencia

Minha, maior é inda a gran cordura

Com que ouço semilhante confissão,

De deshonra, de vergonha e amargura!…

Bertha (áparte)

E para mim, de tanta inspiração!

Carlos (continuando)

Basta, sim! E nem mais uma palavra

Que aggrave tão fataes desenganos,

Nem augmente a dôr que em minha alma lavra,

Sabendo que motivos bem profanos

Ao meu lár desventura agora traz:

Ao lár onde até aqui sómente via,

Ninho feito de amôr, feito de páz,

Na mais leal e santa companhia;

Ninho feito de bençãos infinitas,

Canto da mais risonha f'licidade

Por Deus enviada em graças bemdictas,

Berço de sã virtude e honestidade…

………………………………

E só agora, só n'este momento,

De tão louca illusão tenho o alcance!

Bertha (áparte)

Graças! e parabens ao meu talento,

Que já encontra assumpto p'ra um romance!

Carlos (continuando)

E só agora, apenas n'este instante,

Vem dizer, revelar, esta Senhora,

Que ousou cahir nos braços d'um amante!!

Bertha

E que a partir d'então, desde essa hora,

Sem que á minha mente outra ideia assome,

Eu nunca deixarei de bemdizer

O seu amor, a vida e o seu nome!…

Carlos (com rancor)

Nome que eu desejara conhecer,

Para em sangue vingar o atroz insulto

Hoje lançado ao rosto d'um marido

Cuja honra, lhe devera ser um culto!

Ah! Senhora, depois de ter ouvido

Revelações fataes e tão extranhas.

Depois de supportar tantas surprezas,

Indique-me o auctor d'essas façanhas

O seu cumplice para taes proezas?!

Bertha

Pensa então n'uma breve desaffronta?

Carlos

Nem mais, senhora, e bem depressa,

Que é esse o sentimento que desponta

N'um peito que á loucura se arremeça!

Bertha

E afinal, o que lucra, não me diz?

Carlos (estupefacto)

Que lucro!? Dar da minha honra um exemplo…

Bertha

Mas olhe, que o que fui, gosei e fiz

Em nada altera a paz do nosso templo!…

Carlos

Surprehende-nos a fórma audaciosa

Como allude á baixeza do seu feito!!…

Bertha

Ouça!… A avivar a data venturoza

Do que acabo d'expôr, pende ao meu peito

Um retrato: Quer vêr Vossa Excellencia?…

Carlos

Que a tanto não avance, eu a aconselho!!

Bertha (mostrando o retrato)

Pois meu amigo, tenha paciencia,

Já agora ha-de vêr-se n'este espelho…

Carlos (surprehendido)

An??!… Eu?!!… o seu marido?!!

Bertha

Sim, pois quem?

Quem a não ser o meu real senhôr,

Se eu nunca, nunca amei a mais ninguem!

Se eu jámais conheci um outro amôr?!…

Carlos (sem comprehender)

Mas?!!…

Bertha (interrompendo)

Diga-me, se em vista d'esta scena,

De tanta sensação e sentimento,

Em verdade, lhe vale, ou não, a pena

Dar apreço e valôr ao casamento?…

Carlos (com doçura)

Eu comprehendo esposa da minha alma!

É dos Deuses o gosto da vingança?!

Bertha

Que espero e creio tenha a palma,

De mais firmar o bem d'esta aliança!

Carlos (abraçando Bertha)

Oh! sim, minha querida, ente adorado!

Aproveito a lição de ensino duro;

E crê, que de falar-te no passado,

Nunca mais:

Eu prometo

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Bertha

Juras?

Carlos (afirmativamente)

Juro.

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