A Balada do Café Triste
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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Este procedim ento precisa de explicação, é altura de se falar de am or. Miss Am eli am ava o prim o Ly m on. Isto tornava-se evidente aos olhos de todos. Viviam j untos na m esm a casa, nunca se separavam . Por conseguinte, havia pecado, segundo a senhora MacPhail, velha introm etida, de nariz coberto de verrugas, e conform e a opinião de outras pessoas da terra. Se eram parentes, tratava-se de parentesco afastado, que ainda ninguém conseguira provar. É claro que Miss Am elia representava o tipo da virago (com m ais de um m etro e oitenta) e o prim o Ly m on o do anão que lhe chegava apenas à cintura. Mas tanto m elhor para a senhora MacPhail e as suas com adres, gente que se regozij a com estas ligações desconcertantes. Os sem -m alícia pensavam , por seu turno, que o caso era só com eles e com Deus se os dois obtinham m utuam ente algum a satisfação fisica. E, enfim , os indivíduos sensatos estavam de acordo para negar redonda e sinceram ente o despautério. De que natureza seria, pois, aquele am or?
Em prim eiro lugar, o am or é um a aventura a dois; o facto, porém , de ser isso não im plica que sej a igual para am bos os com ponentes. Há o que am a e há o am ado. Muitas vezes, este últim o constitui apenas um estím ulo para o am or acum ulado que j az até aí no am ante, o qual bem sabe que isso é um a coisa solitária.
Depois, vem a conhecer nova e estranha solidão, o que o faz sofrer ainda m ais.De m odo que só lhe resta um processo: guardar o am or dentro de si tanto quanto puder; criar um m undo interior, intenso e com pleto. Digam os aqui que este am ante de quem falam os não precisa necessariam ente de ser j ovem nem destinado ao casam ento: pode ser hom em , m ulher, criança -enfim , qualquer entidade terrena.
Quanto ao am ado, ele pode ser de qualquer classe ou natureza. Encontra-se estím ulo m esm o no ser m ais díspar ou grotesco.Um
bisavô am ará ainda um a rapariguinha que encontrou nas ruas de Gheehaw há vinte anos.O virtuoso apaixonar-se-á pela pecadora. Haverá gente am ada entre os traidores, os m aus e os repelentes; e a que am a não ignorará nada disto, m as isso não lhe afectará
em nada o sentim ento.A pessoa m ais m edíocre será obj ecto de um am or selvático, extravagante e belo com o os lírios venenosos do pântano - assim com o a pessoa digna será estím ulo para um am or violento e degradante. Até um louco pode despertar em alguém um idílio sim ples, cheio de ternura Portanto, o valor e a qualidade do am or são determ inados som ente pelo indivíduo em quem ele desperta.
Há-de ser por este m otivo que a m aior parte de nós prefere am ar a ser am ado. Quase todos querem ser o agente activo. E a pura verdade é esta: no íntim o, o facto de ser am ado torna-se intolerável para m uitos. O am ado tem e e odeia o am ante, e pela m elhor das razões. O am antt pretende esbulhar o am ado, ainda que isto lhe cause sofrim ento.
Já dissem os que Miss Am elia fora casada. Convém recordar nesta altura tão curioso episódio. Considerem os que isto aconteceu há m uito tem po e que foi o único contacto pessoal que ela teve (antes de conhecer o corcunda) com o fenóm eno cham ado Am or.
A vila era então com o agora, com a diferença de que possuía dois arm azéns em vez de três e de que as árvores da beira das ruas estavam m ais torcidas e m ais pequenas. Miss Am elia tinha dezanove anos nesse tem po; o pai m orrera-lhe há alguns m eses. Havia certo operário da fiação cham ado Marvin Macy, irm ão de outro, Henry, tão dissem elhantes que ninguém pressentiria o parentesco. Marvin era o hom em m ais bem -parecido da região, m usculoso, de olhos pardos e lânguidos e cabelo ondeado. Ganhava bem , usava relógio de ouro, o qual, um a vez aberta a capa de trás, revelava um a pintura de queda de água. No aspecto exterior e m undano, Marvin podia-se considerar afortunado. Não precisava de im plorar para obter tudo quanto quisesse. Mas, num plano m ais elevado, Marvin não conseguia despertar invej a, visto ser um m au carácter. Desfrutava da pior reputação que se possa im aginar. Durante anos, ainda rapazola, trouxera sem pre consigo a orelha seca e salgada de um hom em que m atara num com bate à navalha. Entretinha-se a cortar a cauda dos esquilos nos pinhais só por m ero prazer; na algibeira esquerda das calças guardava um pouco de m arij uana, erva m ágica que tenta as pessoas desanim adas a suicidarem -se. Toda via, apesar destes defeitos, era o ai j esus das m eninas, e havia m uitas, por essa época, a quem não faltavam adornos fisicos e m aneiras encantadoras. Marvin desonrava-as e abandonava-as. Finalm ente, aos vinte e dois anos, o rapaz fixou a vista em Miss Am elia. Foi pois esta criatura solitária, esquisita, de olhos tórtos, quem ele cobiçou. E não por dinheiro m as sim plesm ente por am or.
E o am or transform ou Marvin Macy. Antes de am ar Miss Am elia, poder-se-ia ter posto em dúvida se ele possuía alm a e coração. Há contudo, certa explicação para a sua fealdade m oral: foram bastante difíceis os prim eiros anos da vida de Marvin. Pertencia a um a fam ília de sete filhos, cuj os pais a custo m ere−ceriam este nom e: eram autênticos selvagens que só gostavam de pescar e vaguear pelos pântanos. As crianças - e nascia-lhes um a cada ano - representavam para eles um fardo. À noite, quando voltavam para casa de regresso da fábrica, olhavam para os filhos com o se não soubessem donde tinham surgido. Se eles choravam , levavam pancada; a prim eira coisa que aprenderam foi a procurar o recanto m ais escuro do quarto para aí se esconderem . Estavam tão m agros que pareciam espectros, e nem sequer falavam , m esm o entre si. Finalm ente, os pais abandonaram -nos, deixando-os à m ercê da caridade pública. Esse Inverno foi bastante rigoroso, com a fábrica fechada quase por três m eses e a m isêria im perando por toda a parte. A vila, contudo, não era dessas que perm item ver os órfãos perecer pelas ruas. Aconteceu, pois, que o m ais velho, indo a pé para Gheehaw, desapareceu de vez: talvez se m etesse lá num com boio de m ercadorias e depois corresse m undo. Ninguém sabe. Três dos outros recolhiam -nos aqui e ali e m andavam -nos desta cozinha para aquela; sendo fracos, m orreram antes da Páscoa. Aos dois m ais novos, Marvin e Henry, adoptou-os um a m ulher com passiva, a senhora Mary Hale, que os tratou e estim ou com o seus filhos. Na sua casa se criaram e desenvolveram .
Mas o coração das crianças é órgão delicado. Tão cruéis princípios na vida acabam por os deform ar de m aneira curiosa. Pode o coração de um ente pequenino encolher-se tanto e endurecer com o um caroço de pêssego; ou, pelo contrário, dilatar-se de tal form a que se torna pesado para o corpo que o abriga e facilm ente se ferir com qualquer coisa. Foi o que sucedeu a Henry Macy, em tudo oposto ao irm ão. Henry era o m ais terno, o m elhor dos hom ens da vila. Em prestava do seu salário àqueles que necessitavam e ocupava-se dos m iúdos cuj os pais passavam o sábado no café. Pessoa tím ida, m ostrava a expressão de quem sofre e tem o coração dilatado. Marvin, por sua banda, tornou-se ousado, indom ável, cruel, de coração duro. Até se apaixonar por Miss Am elia só trouxe desgostos e vergonha ao irm ão e à bondosa m ulher que o criara.
Todavia, o am or alterou o carácter de Marvin. Durante dois anos, am ou Miss Am elia sem se lhe declarar. Conservava-se à sua porta, de barrete na m ão e olhos m eigos, perdidos num a névoa de desej o. Reform ou os seus hábitos. Foi bom para o irm ão e para a m ãe adoptiva, fez econom ias, aprendeu a coibir-se. Mais ainda, aproxim ou-se de Deus.Já não ficava no adro da igrej a todo o dom ingo, cantando e tocando viola: assistia aos oficios divinos e não faltava a nenhum a reunião de obras pias. Ganhou m aneiras decentes, levantava-se e oferecia o seu lugar às senhoras, deixou de blasfem ar, de m eter-se em rixas e de j urar em vão o santo nom e de Deus. Levou dois anos a m odificar-se, a corrigir o feitio. Ao fim dessa aprendizagem , foi um a noite procurar Miss Am elia, com um ram o de flores silvestres, um saco de chouriços e um anel de prata - e confessou-lhe o seu am or.
Casaram . Mais tarde, cada qual perguntava a si m esm o porquê. Uns diziam que fora por ela am bicionar presentes de casam ento. Outros pensavam que fora por causa das perseguições dum a velha tia-avó de Gheehaw.
Fosse com o fosse, o povo viu-a atravessar em passos largos a nave da igrej a, envergando o vestido de noiva da m ãe, de cetim am arelo, pelo m enos trinta centím etros m ais curto do que devia ser para a sua estatura. Era um a tarde de Inverno, e o sol brilhava através da púrpura dos vitrais e proj ectava um a estranha claridade sobre o par aj oelhado ao altar. Durante os preceitos lidos pelo pastor, Miss Am elia fez um gesto esquisito - esfregou a palm a da m ão direita várias vezes no vestido. Devia procurar a algibeira do fato-m acaco, e, não a encontrando, m ostrou um a expressão de im paciência e aborrecim ento. Enfim , term inada a cerim ónia, Miss Am elia saiu à pressa, sem tom ar o braço do m arido, e distanciou-se dele cerca de dois passos.
Com o a igrej a ficava perto do arm azém , os noivos fizeram o traj ecto a pé. Diz-se que, pelo cam inho, ela falou dum negócio de lenha que fechara com certo fazendeiro. Na realidade, portou-se com o recém -casado com o se se tratasse de um vulgar cliente; contudo, até aí, as coisas passaram -se m enos m al: a vila estava satisfeita por verificar o que o am or operara em Marvin e pelo que podia actuar em Miss Am elia. Pelo m enos esperavam que o m atrim ónio adoçasse o tem peram ento da rapariga, a engordasse um bocadinho e a transform asse num a m ulher norm al.
Mas enganavam -se. Os garotos que espreitaram pela j anela, nessa noite, contaram o seguinte: os noivos com eram o j antar de gala que lhes preparara Jef, um preto velho que cozinhava para Miss Am elia. Esta repetiu todos os pratos, ao passo que Marvin se lim itou a petiscar. Depois, a m ulher foi ocupar-se da sua vida, com o de costum e; leu o j ornal, acabou um inventário das m ercadorias arm azenadas, e assim por diante. O m arido postou-se à om breira da porta com ar idiota e radiante, sem que m erecesse da parte de Miss Am elia a m enor atenção. Às onze horas, ela pegou na vela e subiu a escada; ele seguiu-a. Até então, os eventos decorriam sem escândalo de m aior - m as o resto foi horrível. Meia hora depois, Miss Am elia descia os degraus a quatro e quatro, de calções e casáco de caqui. Tinha um a cara tão som bria que chegava a parecer negra. Fechou com estrondo a porta da cozinha, dando-lhe um pontapé. Em seguida sentou-se, para se acalm ar. Atiçou o lum e e estendeu os pés para o fogão. Leu o Alm anaque do Lavrador, bebeu café e fum ou no cachim bo do pai. Estava com ar severo, duro, e a face readquirira a palidez natural.De vez em quando interrom pia a leitura para tom ar um apontam ento num a folha de papel. Pela m adrugada, entrou no escritório e destapou a m áquina de escrever, que com prara recentem ente e que aprendia a m anej ar.Deste m odo passou a sua noite de núpcias. Quando j á era dia, apareceu no pátio, com o se nada fosse, e prosseguiu a construção dum a coelheira que iniciara na sem ana anterior e se destinava a um cliente.
Triste situação para um recém -casado essa de não poder atrair a m ulher ao leito conj ugal.Toda a vila o soube. Marvin, nesse dia,
desceu do quarto ainda com o seu fato de noivo e com um rosto em que se lia desolação. Só Deus sabe com o teria passado a noite! Errou pelo pátio, observando Miss Am elia m as conservando-se a respeitosa distância. Pelo m eio-dia, ocorreu-lhe um a ideia e partiu em direcção a Society Gity.Voltou com várias prendas: um anel com opala engastada, um broche de esm alte cor-de-rosa, com o era então m oda, um bracelete de prata em que figuravam dois corações e um a caixa de doces que lhe custara dois dólares e m eio. Miss Am elia exam inou todos esses belos presentes e abriu a caixa de doces, porque estava com fom e. Calculou o valor dos restantes e colocou-os no balcão, para os vender. A noite decorreu com o na véspera, só com a diferença de que Miss Am elia levou para a cozinha o seu colchão de penas, no qual dorm iu m uito bem .
As coisas continuaram neste teor nos três dias seguintes. Miss Am elia ocupava-se, com o de costum e, dos seus negócios, e m ostrou-se interessada com a notícia de que iam construir um a ponte a cerca de dezasseis quilóm etros dali. Marvin não deixava de a seguir pela casa, e via-se-lhe na cara quão grande era a sua dor. Até que, no quarto dia, tom ou um a resolução estúpida: foi a Gheehaw e voltou com um advogado. Depois, no escritório da m ulher, assinou um docum ento em que lhe doava todos os seus bens: dez hectares de pinhal que ele adquirira com as suas econom ias. Miss Am elia leu o papel m eticulosam ente, para se certificar de que não havia possibilidade de dolo, e guardou-o com todo o cuidado na gaveta. Nessa tarde, Marvín pegou num a garrafa de uísque e ausentou-se sozinho para os pântanos quando o sol ainda brilhava. À noite, regressou bêbado, procurou a m ulher, enternecido, e pousou-lhe um a m ão no om bro. Tentou dizer-lhe qualquer coisa, m as, antes que conseguisse abrir a boca, ela
pregou-lhe um soco tão violento que ele foi atirado contra a parede e ficou com um dos dentes da frente partido.
O resto só se pode contar em poucas palavras.Depois do prim eiro m urro, Miss Am elia aplicou-lhe outros sem pre que o apanhava a j eito ou que ele se em bebedava.Com o rem ate, expulsou-o de casa, e Marvin teve de suj eitar-se ao conhecim ento público dos seus desaires.Durante o dia rondava o prédio; às vezes, com ar desvairado, ia buscar a espingarda e sentava-se a lim pá-la, olhando fixam ente para Miss Am elia.Esta, se tinha m edo, não o m ostrava; m ais severa do que nunca, lim itava-se a cuspir para o lado.O últim o esforço absurdo que Marvin fez foi o de subir até àj anela do arm azém , um a noite, e lá ficar às escuras, sem propósito definido, até que a m ulher desceu a escada na m anhã seguinte. Miss Am elia pôs-se logo a cam inho do tribunal de Gheehaw com a ideia de conseguir a prisão do m arido por violação de propriedade particular. Nesse m esm o dia, Marvin abandonou a vila: ninguém o viu partir nem soube para onde foi. Antes de se ir em bora, porém , enfiou por baixo da porta de Miss Am elia um a carta incrível, escrita m etade a tinta e m etade a lápis - carta de am or em que tam bém se incluíam am eaças, im putando a Miss Am elia a responsabilidade de todos os seus sofrim entos. O casam ento durara dez dias. E a vila inteira experim entou a satisfação que se tem sem pre quando se vê um a pessoa derrotada por m eios terríveis e escandalosos.
Miss Am elia possuía agora tudo quanto pertencera a Marvin Macy : o pinhal, o relógio de ouro, os obj ectos de uso pessoal. Mas não pareceu ligar-lhes m uita im portância, pois naquela Prim avera cortou em pedaços o traj e dele de m em bro da Ku-Klux-Klan para cobrir as plantas de tabaco. Marvin aum entara-lhe os haveres, oferecera-lhe o am or; e, coisa estranha Miss Am elia nunca lhe pronunciava o nom e senão com o m áxim o desdém .
Mais tarde, quando circularam na vila boatos terríveis a respeito desse hom em , ela pareceu deliciada. O genuíno carácter de Marvin revelava-se à luz do dia, um a vez desem baraçado do am or. Marvin Macy tornou-se num crim inoso, de quem falavam todos os j ornais do país. Assaltou três postos de gasolina e m anteve im obilizado, com a sua espingarda, o pessoal das loj as de Society Gity. Acusaram -no de haver assassinado o fam oso bandido Sam Zarolho. Todos estes crim es o celebrizaram . Finalm ente, conseguiram prendê-lo, ébrio, com a viola caída a um canto e cinquenta e sete dólares escondidos na bota do pé direito. Foi j ulgado, condenado e m etido na penitenciária de Atlanta. Miss Am elia rej ubilou.
Isto tudo aconteceu há m uito tem po e é a Í história do casam ento de Miss Am elia. A vila riu bastante com este assunto tão grotesco. Mas, em bora os factos externos desse am or fossem na verdade tristes e ridículos, devem o-nos lem brar do sentim ento que se albergara no coração do apaixonado. Quem , senão Deus, pode ser oj uiz definitivo deste ou doutro am or? Na prim eira noite do café, houve gente que, de súbito, se recordou do noivo falhado, preso na cadeia, a quilóm etros de distância. E nos anos que se seguiram ninguém se esqueceu de Marvin Macy. Nunca se proferia o seu nom e na presença de Miss Am elia ou do corcunda. Porém , a m em ória da sua paixão e dos seus crim es e a ideia do hom em m etido a ferros eram com o um elem ento perturbador da alegria que reinava no café. Verem os que esse terrível Marvin representará papel im portante nos acontecim entos que estão para vir.
Os aposentos do andar superior não se m odificaram durante os quatro anos subsequentes. Essa parte do prédio continuava exactam ente na m esm a. Os três quartos, j á o sabem os, eram de um asseio im aculado. O m ais pequeno obj ecto tinha o seu lugar certo, e o criadoJefffazia todas as m anhãs a lim peza da casa. O quarto da frente era ocupado pelo prim o Ly m on - o m esm o que Marvin ocupara nas poucas noites em que lhe fora perm itido viver ali. Anteriorm ente, fora o quarto do pai de Miss Am elia. Com o m obília, tinha um arm ário grande, um a boa m esa coberta com pano branco seguro aos cantos e outra de tam po de m árm ore. O leito era enorm e, de colunas de pau-rosa, entalhadas, com dois colchões de penas, travesseiros e dem ais com odidades- e tão alto que tinha j unto dois degraus de m adeira para o seu acesso; nenhum ocupante, todavia, se servira deles antes da vinda do prim o Ly m on. Além dos degraus existia tam bém um bacio de loiça com flores cor-de-rosa estam padas: O soalho, sem tapete, luzia com o seu encerado escuro. Havia cortinas de tecido branco.
A seguir à sala ficava a alcova de Miss Am elia, m uito m ais pequena e m ais sim ples, com um a cam a estreita, de pinho, e um a cóm oda
para guardar as calças, as cam isas e o vestido dom ingueiro. As galochas pendiam de dois pregos da parede. Nada de cortinas ou tapetes ou ornam entações de qualquer ordem .
O quarto do m eio, a sala, ostentava um sofá de pau-rosa forrado de seda verde j á puída, diante do fogão; j ardineiras: duas m áquinas de costura Singer; um vaso com certa planta de cachos prateados, piram idaistudo de aspecto grandioso. Mas o m óvel m ais im ponente era um a papeleira im ensa, que continha tesouros e curiosidades. A esta colecção, Miss Am elia j untara m ais duas peças: um a bolota descom unal de certa espécie de carvalho e um a caixinha de veludo com duas pedritas acinzentadas. Às vezes, quando não tinha nada que fazer, ela tirava esta caixa de veludo e ficava perto daj anela, com as pedras na palm a da m ão, contem plando-as num m isto de fascinação, respeito e m edo. Eram as pedras extraídas do fígado da própria Miss Am elia, alguns anos antes, por um cirurgião de Gheehaw; fora um a provação terrível, do princípio ao fim , e por isso as conservava com o relíquias. No segundo ano da sua convivência com o prim o Ly m on, oferecera-lhas para adornar a corrente do relógio com que tam bém o havia presenteado. O outro obj ecto, a bolota, igualm ente u considerava precioso, porém só de vê-lo tornava-se triste e perplexa.
- Am elia, que é isto? - perguntou-lhe um dia o corcunda.
- Ora, um a bolota... que eu encontrei na tarde em que o m eu pai m orreu.
- Porquê? - insistiu ele.
- Vi-a no chão, apanhei-a e m eti-a na algibeira. Porquê, não sei.
- Há-de haver um m otivo para a guardar.
As conversas entre Miss Am elia e o prim o Ly m on, em geral às prim eiras horas da m anhã, quando o corcunda não conseguia dorm ir, eram frequentes. Regra geral, Miss Am elia era um a pessoa reservada; davam -lhe gosto, no entanto, certos assuntos de debate, certos problem as que continuavam insolúveis
por m ais tratados que fossem . O corcunda, por outro lado, propendia para a tagarelice.
Era diferente a m aneira com o cada um deles conduzia a conversa. Miss Am elia pairava nas generalidades, m urm urando frases com ar pensativo, ao passo que o outro a interrom pia de repente para vincar um porm enor, m esm o sem im portância, m as ao m enos concreto
e palpável. Eis os tem as favoritos de Miss Am elia: os astros, a razão por que os pretos têm essa cor, o m elhor tratam ento do cancro, etc. O pai tam bém constituía assunto predilecto das suas divagações.
- Naquele tem po - dizia ela -, eu dorm ia m uito. Ia para a cam a logo que escurecia, e adorm ecia. De m anhã, o pai entrava no m eu quarto, punha a m ão no m eu om bro e exclam ava: "Levanta-te, filha!" Quando o fogãoj á estava aceso, ordenava: "Carne com m olho, presunto, ovos. E m ilho assado!"
- O m ilho assado que com em os esta m anhã não m e pareceu bom - atalhava o prim o Ly m on. -Só cozeu por fora, por dentro estava cru.
- E então o pai, naquele tem po... O paleio não tinha fim , quando se sentavam j unto do lum e (de Verão ou de Inverno, porque o corcunda era m uito friorento), e Miss Am elia estendia as pernas em direcção à grelha. O prim o Ly m on ficava num a cadeirinha baixa, com os pés pendentes e em brulhado num cobertor ou num xaile de lã verde. Só a ele é que Miss Am elia m encionava o nom e do seu defunto pai. Eis um dos processos de confirm ar o am or que dedicava ao prim o.
Este desfrutava da sua confiança nas coisas m ais delicadas e essenciais. Era o único a conhecer o esconderij o da planta onde ela assinalara o sítio exacto em que se encontravam certos barris de uísque enterrados na propriedade. Só o prim o Ly m on abria o livro das contas e a papelada dos tesouros. Tirava dinheiro da caixa, às m ãos-cheias, para escutar o som do m etal e sentir-lhe o peso nos bolsos. Quase tudo lhe pertencia no prédio. Se Miss Am elia o via de m au hum or, apressava-se a regalá-lo com um a prenda, ej á poucos obj ectos restavam para lhe oferecer. Do que ela o não fazia partilhar era da m em ória do seu enlace com Marvin Macy ;j am ais se tratou deste assunto naquelas conversas entre os dois.
Deixem os transcorrer os anos para chegarm os a certa noite de dom ingo, pouco m ais de cinco anos após a vinda do prim o Ly m on para aquela terra. Corria o m ês de Agosto, e o céu estivera com o que em brasa todo o dia; agora descia o crepúsculo, concedendo à vila um a sensação de repouso. Cobrira-se o cam inho de espessa cam ada de pó am arelado, e os pequenos corriam sem inus, espirrando às vezes, suando, e cheios de irritação. A fábrica fechara às doze horas.Ao longo da rua central, os habitantes descansavam nos degraus das respectivas casas.As m ulheres abanavam -se com leques de palm a.Na fachada do prédio de Miss Am elia lia-se a palavra CAFÉ.
Estava fresco na varanda das traseiras, protegida por venezianas, e o prim o Ly m on instalara-se aí, ocupado a fazer girar a sorveteira.De tem pos a tem pos abria o tam po para provar o conteúdo e ver com o decorria a operação. Jef trabalhava na cozinha.Gedo
naquela m anhã, Miss Am elia pendurara um letreiro na varanda da frente com estes dizeres: "Hoj e há alim entos a Vinte cêntim os."
O salão do café j á funcionava, e a dona acabara um a parte das suas tarefas no escritório.
Os fregueses abancavam às oito m esas.Principiou a ouvir-se o piano m ecânico.
Num canto, próxim o da porta, encontrava-se Henry Macy sentado com um a criança.
Estava a beber álcool, o que raras vezes sucedia, porque este lhe subia à cabeça e o obrigava a chorar ou a cantar.Estava m uito pálido, com um tique nervoso no olho esquerdo, sinal de extrem a agitação.Entrara no café silenciosa e sorrateiram ente, sem corresponder às saudações de ninguém . A criança que o acom panhava pertencia a Horace Wells e fora levada naquela m anhã a Miss Am elia para que esta lhe dispensasse os seus cuidados clínicos.
Miss Am elia, bem -disposta, saiu do escritório.Ocupou-se de vários porm enores na cozinha e foi para o café, em punhando a m itra de um a galinha, petisco da sua eleição. Olhou em volta, viu que tudo corria bem e encam inhou-se para a m esa de Henry Macy. Fez girar a cadeira, sentou-se às cavalitas e, com o procurasse m atar o tem po (ainda era cedo para j antar), tirou da algibeira do fato-m acaco um a garrafa com certo rem édio da sua invenção, feito de uísque, açúcar e um ingrediente secreto. Desrolhou-a e pô-la à boca da criança; em seguida virou-se para Henry Macy e, notando-lhe o estrem ecim ento do olho esquerdo, inquiriu:
- Que é que tem ?
Henry Macy pareceu ir dizer algo de m uito dificil, m as, depois de ter olhado dem oradam ente para a sua interlocutora, engoliu em seco e ficou calado.
Desta form a, Miss Am elia voltou ao seu enferm o. Só a cabeça do pequeno aparecia acim a da m esa. Tinha a cara verm elha, os
olhos sem icerrados e a boca entreaberta.Surgira-lhe na coxa um furúnculo grande, e haviam pedido a Miss Am elia que o abrisse. Mas esta possuía um m odo m uito seu de tratar crianças; não gostava de as ver sofrer, debatendo-se assustadas. Por isso conservara o padecente todo o dia ali em casa, dando-Lhe xaropes e doses repetidas de certo rem édio. Ao anoitecer, pusera-lhe um guardanapo à volta do pescoço, sentara-o à m esa e deixara-o com er de tudo o que quisesse. E ei-lo agora com a cabeça a oscilar lentam ente de um lado para o outro, soltando às vezes um grunhido de cansaço.
Produziu-se um rebuliço no salão, e Miss Am elia virou-se para se inteirar do que era. O prim o Ly m on tinha chegado. Fazia todas as noites a sua aparição no café, e, ao alcançar o centro da sala, detinha-se e olhava em volta, exam inando os circunstantes para avaliar o grau de com oção que poderia despertar dessa vez. Um grande am ador de travessuras, este corcunda! Agradava-lhe fazer intrigas, e, sem dizer um a palavra, era capaz de pôr todos a brigar, com o que por m ilagre. Dois ános antes, por sua culpa, os gém eos tinham discutido um com o outro por causa de um canivete, ficando durante m uito tem po zangados. Quando Rip Wellborn e Robert Galvert Hale andaram à pancada, ele encontrava-se presente, com o aliás em todas as rixas travadas na vila. Metia o nariz em tudo, conhecia os negócios privados de cada qual e não se preocupava com o que desse e viesse. Contudo, e coisa esquisita -, era a ele que o café devia o seu êxito. Sem o corcunda, a alegria não era com pleta. Ao entrar no salão despertava sem pre ansiedade, pois com sem elhante m etediço ninguém sabia o que lhe estava reservado. O povo só se satisfaz com a possibilidade de catástrofes. E assim , ao vê-lo entrar, todos se viravam para ele, e, enquanto alteava o diapasão das conversas, estalavam as rolhas das garrafas.
O prim o Ly m on fez com a m ão um gesto a Stum py MacPhail, que estava sentado j unto de Merlie Ry an e Henry Ford Grim p.
- Hoj e fui pescar ao Rotten Lake - participou - e tropecei num a coisa que supus a princípio ser um tronco de árvore derrubada. Mas, ao passar por cim a, senti m exer, e, firm ando a vista, percebi que era um aligátor tão grande com o daqui à porta da cozinha e m ais gordo que um cevado.
Falava, falava... De vez em quando, alguns olhavam para ele e ouviam o que dizia, m as outros nem lhe davam atenção. Em certos dias, só contava m entiras e gabarolices. Nessa noite, nada do que disse tinha a m ais leve ponta de verdade. Perm anecera na cam a com um a am igdalite e apenas se levantara para fazer girar a sorveteira. Ninguém o ignorava, e todavia o corcunda ia palrando naquele teor í e ensurdecendo os seus auditores.
i Miss Am elia espiava-o, com as m ãos nos bolsos e a cabeça de lado. Havia doçura nos seus estranhos olhos cinzentos. Dir-se-ia sorrir para si m esm a. Às vezes, desviava a vista do corcunda e incidia-a sobre os clientes; m as então o olhar j á era altivo, envolvia am eaça. parecia desafiar quem quer que se atrevesse a interrom per as fantasias do tagarela. JeffE servia os pratos, os novos ventiladores eléctricos i deslocavam ondas de ar fresco.
- O pequeno adorm eceu - disse por fim Henry Macy .
Miss Am elia inspeccionou a face do doentinho, cuj o queixo descansava na borda da m esa e de cuj a boca escorria saliva ou restos de rem édio. Tinha os olhos fechados, com vários m osquitos sossegadam ente poisados aos cantos. Miss Am elia pôs-lhe a m ão na cabeça e sacudiu-o com força, m as o pequeno não acordou; então, ela levantou-o nos braços, de m aneira a não contundir a parte dolorida da perna, e levou-o para o escritório.
Henry seguiu-a. Atrás deles fechou-se a porta.
Naquela noite, o prim o Ly m on aborrecia-se. Não havia m uita anim ação no café. Henry Ford Grim p e Horace Wells, instalados num a das m esas do centro, estavam com um braço à volta dos om bros um do outro e riam -se de qualquer história de que o corcunda não ouvira o com eço e cuj o sentido, portanto, Lhe escapava. O luar ilum inava a rua poeirenta, e as árvores anãs conservavam -se im óveis, porque a brisa não soprava. O zum bido dos m osquitos era com o o eco da noite silenciosa. Algures, um a m ulher cantava com voz rouca, m as aquilo não tinha princípio nem fim , eram apenas três notas que se repetiam interm inavelm ente. O corcunda apoiou-se ao corrim ão da varanda, perscrutando a rua deserta, com o se esperasse gente.
Ouviram -se passos, e alguém participou:
- Prim o Ly m on, tem o j antar na m esa.
- Hoj e o m eu apetite não é grande - respondeu o corcunda, que todo o dia sugara a substância açucarada da tabaqueira. - Sinto am argos de boca.
- Encontrará o que há de m elhor na galinha: peito, figado, coração - insistiu Miss Am elia.
Reentraram j untos no salão e sentaram -se ao lado de Henry Macy.A m esa era a m aior de todas, com um ram o de nenúfares num a garrafa de coca-cola.Miss Am elia acabara o tratam ento do pequeno e estava satisfeita. Do escritório, através da porta fechada, chegavam uns gem idos de pessoa sonolenta, m as, antes que o padecente se desse conta da operação, tudo se resolvera pelo m elhor.
A criança repousava agora, com pletam ente adorm ecida, no colo do pai, que viera buscá-la.
Henry conservava-se calado. Com eu devagar, servindo-se três vezes m enos do que o prim o Ly m on, que aliás declarara não ter
apetite m as que devorava naco atrás de naco.
Henry olhou para Miss Am elia, com o se fosse falar, m as ainda então não disse nada.
Era um a noite típica de sábado. Um casal j á velho, vindo do cam po, hesitou um m om ento à entrada do café, de m ão dada, até que se decidiu a penetrar.Tinham vivido tanto tem po j untos que pareciam gém eos. Retiraram -se cedo, e pela m eia-noite a m aior parte dos consum idores foi-se em bora tam bém .Rosser Gline e Merlie Ry an ainda j ogavam xadrez, e Stum py MacPhail parecia conversar consigo m esm o, diante dum a garrafa (a m ulher não lhe perm itia que bebesse em casa). Miss Am elia bocej ou, sonolenta, m as o prim o Ly m on continuou inquieto, e ela não se atrevia a sugerir que fechassem o estabelecim ento.
Finalm ente, à um a hora da m anhã, Henry Macy disse a Miss Am elia, olhando para um canto do tecto:
- Recebi hoj e um a carta.
Miss Am elia não se m ostrou im pressionada, pois recebia por seu turno m uitas cartas com erciais, assim com o catálogos.
- Um a carta do m eu irm ão - acrescentou Henry Macy .
O corcunda, que girava pelo salão com as m ãos sobre a nuca, parou repentinam ente. Pressentira qualquer alteração na atm osfera do café. Olhou em volta e esperou.
- Bom proveito lhe faça - disse Miss Am elia, franzindo a testa e apertando o punho direito.
- Está em liberdade condicional. Saiu da penitenciária.
O rosto de Miss Am elia ensom brou-se. Apesar do calor da noite, ela foi percorrida por um arrepio. Stum py MacPhail e Merlie Ry an afastaram o tabuleiro de xadrez. Reinou um silêncio profundo.
- Quem ? - perguntou o prim o Ly m on, cuj as orelhas, grandes e descoradas, pareceram aum entar de volum e e tornar-se m ais finas. - O quê?
Miss Am elia bateu com um a das m ãos na m esa.
- Marvin Macy é um . - A sua voz ficou rouca, e só daí a pouco lhe foi possível acrescentar: -Devia ficar na cadeia o resto da vida.
- O que é que ele fez? - inquiriu o prim o Ly m on.
Houve um a pausa, porque ninguém sabia ao certo que resposta havia de dar.
- Assaltou três postos de gasolina - elucidou Stum py MacPhail.
Mas a sua explicação não pareceu com pleta e deixou um a sensação de que m uitos outros crim es tinham ficado por revelar.
O corcunda im pacientava-se. Não tolerava ficar à m argem fosse do que fosse, m esm o de um a grande calam idade. O nom e de Marvin Macy era-lhe desconhecido, m as haviam -lhe espicaçado a curiosidade, tanto m ais que ele tinha grande interesse por roubos e delitos de qualquer espécie. Rondando a m esa, m urm urava palavras com o "liberdade condicional" e "penitenciária". E em bora persistisse
no seu interrogatório, nenhum dos presentes ousou falar de Marvin Macy diante de Miss Am elia, no café.
- A carta não acrescentava m uito m aisprosseguiu Henry. - Ele não explica para onde é que tenciona ir.
- Hum - fez Miss Am elia, cuj o rosto se m antinha duro e som brio.
- Em m inha casa não há-de pôr os pés. Repeliu a cadeira e preparou-se para fechar o estabelecim ento. A ideia de Marvin Macy pusera-a apreensiva, visto que levou para a cozinha o livro das contas e o guardou em lugar seguro. Henry Macy desapareceu nas trevas da noite, enquanto Henry Ford Grim p e Merlie Ry an se dem oraram um instante defronte da varanda. Mais tarde, Merlie Ry an pretendeu (e disse-o sobj uram ento) que tinha antevisto tudo o que se ia passar; m as os outros não deram atenção às suas afirm ações, porque j á o conheciam bem . Miss Am elia e o prim o Ly m on conversaram um m om ento no salão, e, quando o corcunda se resolveu a recolher ao quarto, ela arranj ou-lhe o m osquiteiro à volta da cam a, e esperou até que ele acabasse as suas orações. Em seguida, enfiou a sua com prida cam isa de dorm ir, fum ou cachim bo e deitou-se. O sono tardou-lhe m uito a chegar.
O Outono foi bom , com excelentes colheitas e preço elevado do tabaco no m ercado de Forks Falls. Depois do longo calor estival, esses prim eiros dias frescos trouxeram um a doçura clara e lum inosa. As virgas-áureas cresciam à beira dos cam inhos, as canas-de-açúcar, m aduras, exibiam o seu tom arroxeado. Todos os dias vinha o autocarro de Gheehaw buscar as crianças que frequentavam a escola local. Os rapazes caçavam raposas nos pinhais, os cobertores e as colchas de Inverno arej avam nas cordas de enxugar roupa, e as batatas-doces eram envolvidas em palha para resistirem aos rigores da estação próxim a. À tarde, subiam das cham inés delicadas colunas de fum o, e no céu de Outono a Lua resplandecia redonda e alaranj ada. Nada m ais calm o e doce do que as prim eiras noites outonais. Às vezes, a horas m ortas, quando não soprava vento, ouvia-se na vila o apito do com boio que atravessava Society Gity em direcção ao Norte.
Por esta época do ano, Miss Am elia Evans desenvolvia grande actividade, trabalhando desde o rom per ao fim do dia. Instalara um novo condensador no alam bique, m aior do que o antigo, e, num a sem ana, destilava álcool suficiente para em briagar a população inteira. A m ula velhaj á não podia m oer m ais sorgo. Das peras fazia-se doce de calda, e esperavam -se com im paciência as prim eiras geadas para assar três porcos enorm es e preparar salsichas e chouriços.
No decurso dessas sem anas notou-se um a particularidade em Miss Am elia: ria-se frequentem ente, com um riso profundo e estridente, e quando assobiava punha na m úsica um a tonalidade m aliciosa. Experim entava constantem ente a força dos seus braços, levantando obj ectos pesados e tacteando com os dedos os rij os bicípites. Certa ocasião sentou-se diante da m áquina de escrever e com pôs um a história na qual figuravam estrangeiros, arm adilhas e m ilhões de dólares. O prim o Ly m on nunca a largava, sem pre preso às suas saias, e, quando ela o fitava, o rosto enternecia-se-lhe e a voz arrastava-se m eiga nas inflexões do am or.
Até que se sentiram os prim eiros gelos. Um a m anhã, ao despertar, Miss Am elia viu os vidros dasj anelas cobertos de alvos contornos e a erva do pátio toda prateada. Acendeu um a grande quantidade de lenha no fogão e saiu para inspeccionar o tem po. O ar estava frio e áspero, o céu, sem nuvens, de um verde-claro. Depressa chegaram outras pessoas, que vinham saber a opinião de Miss Am elia quanto às variações m eteorológicas; ela resolveu m atar o m aior dos porcos, e a notícia espalhou-se no povoado. Assim se fez: o anim al foi depois assado inteiro, e do pátio irradiava o odor quente do sangue e o fum o da fogueira, assim com o o barulho de passos e o som de vozes. Miss Am elia ia e vinha, dando ordens, e em breve a m aior parte do trabalho estava concluído.
Nesse dia, ela precisava de ir a Gheehaw tratar de um negócio, de m aneira que, após ter verificado que tudo corria bem , pôs o autom óvel em andam ento e dispôs-se a partir. Pediu ao prim o Ly m on que a acom panhasse, m as ele não queria deixar um espectáculo tão divertido. Isto pareceu perturbar Miss Am elia, porque ela gostava de o ter j unto de si e sentia saudades dele quando se ausentava sozinha. Contudo, não insistiu. Antes de ir, pegou num pau e traçou um a área em torno da cova onde assavam o porco, com cerca de sessenta centím etros de circunferência, recom endando-lhe que não saísse dali. Partiu depois do alm oço e tencionava estar de volta antes de escurecer.
Não era raro que um cam ião ou um caro pequeno atravessasse a vila para se dirigir a Gheehaw ou a qualquer lugar próxim o. Todos os anos, o cobrador de im postos ia discu tir com os ricos da terra, com o por exem plo Miss Am elia. E se alguém , com o Merlic Ry an, se perm itia o luxo de com prar um autom óvel a crédito ou de ter um frigorífico eléctrico igual aos que se viam nas m ontras das loj as de Gheehaw, então com parecia na terra um hom em da cidade para dar inform ações e pedir esclarecim entos indiscretos. Principalm ente desde o início das obras na estrada de Forks Falls que a passagem de autom óveis j á não constituía novidade, e era com frequência que os condutores se detinham para indagar quanto ao cam inho, m esm o diante do café de Miss Am elia. Não foi, portanto, nada de extraordinário que nessa tarde parasse aí um cam ião e dele saltasse um hom em , após o que o veículo se pôs im ediatam ente em m archa.
O hom em ficou no m eio da rua, a olhar em redor. Era alto, de cabelo castanho ondulado e lânguidos olhos azuis-escuros. Tinha lábios rubros e um vago sorriso desdenhoso, de fanfarrão. Usava cam isa encarnada, com cinto de cabedal, e segurava nas m ãos dois obj ectos: um a m ala de folha e um a viola. A prim eira pessoa a descobri-lo foi o prim o Ly m on, que ouvira o ruído de um m otor e acorrera a investigar. Sem se m ostrar inteiram ente, o corcunda estendeu a cabeça na esquina da varanda. Ele e o tal hom em fitaram -se: não pareceu o olhar de dois desconhecidos que se relanceiam com indiferença, m as antes o de dois crim inosos que se reconhecem um ao outro. Em seguida, o da cam isa encarnada encolheu os om bros e deu m eia volta. O corcunda estava m uito pálido e, ao ver o hom em afastar-se ao longo da rua, com eçou a segui-lo, em bora a um a distância considerável.
Em breve, a vila inteira sabia que Marvin Macy havia regressado. Marvin foi prim eiram ente à fábrica, apoiou com ar indolente os cotovelos ao peitoril de um aj anela e m irou o interior; ele gostava de ver os outros a trabalhar, com o qualquer ocioso nato. Esta aparição desorganizou e paralisou toda a actividade da fábrica. Os tintureiros abandonaram as suas cubas escaldantes, os Gadores e tecelões esqueceram -se das suas m áquinas, e até Stum py MacPhail, que era contram estre, perdeu a tram ontana. Marvin continuava a sorrir perversam ente, e ao ver o seu irm ão Henry não alterou a expressão. Após o exam e da fábrica, Marvin dirigiu-se à casa onde fora criado desde pequenino e deixou à porta a m ala e a viola. Depois deu um a volta pelo tanque, observou a igrej a e as três loj as da rua central e passeou pela terra. O corcunda continuava a segui-lo a um a respeitosa distância, com as m ãos nas algibeiras e a cara m uito pálida.
Entardecera. O rubro sol invernal descia no poente, onde o céu se m isturava de ouro e púrpura. Os andorinhões regressavam aos seus ninhos. Acendiam -se os candeeiros. Aqui e ali cheirava a fum o e à carne de porco assada no pátio do café. Term inado o seu giro pela terra natal, Marvin Macy parou diante do prédio de Miss Am elia e leu a tabuleta que encim ava a varanda; e então, sem hesitar, entrou. A sirena da fábrica fez ouvir o seu apito, agudo e isolado, anunciando o fim do turno do dia. Daí a pouco, além de Marvin Macy, encontravam -se no pátio de Miss Am elia hom ens com o Henry Ford Grim p, Merlie Ry an e Stum py MacPhail, sem contar com as num erosas crianças e os vizinhos que tinham ido espreitar. Não falavam m uito. Marvin Macy estava sozinho de um dos lados da fossa, os outros agrupados no lado oposto. O prim o Ly lm on m antinha-se afastado de toda a gente, m as não tirava os olhos de cim a de Marvin Macy .
- Então, divertiste-te na cadeia? - perguntou Merlie Ry an, com um riso alvar.
Marvin Macy não respondeu. Tirou do bolso de trás das calças um a navalha, abriu-a lentam ente e pôs-se a afiar a lâm ina. Merlie Ry an, sem dizer m ais nada, foi colocar-se atrás das largas costas de Stum py MacPhail.
Miss Am elia regressou j á de noite. Ouviu-se o ranger do seu carro quando ela ainda vinha longe, depois o estalo da portinhola e um ruído surdo com o de alguém subindo com um fardo pelos degraus da varanda. No ar pairava o fum o azulado dos serões de Inverno. Quando ela surgiu no pátio, pela escada das traseiras, o grupo que ali se encontrava não tugiu nem m ugiu. Poucas pessoas neste m undo seriam capazes de brincar com Miss Am elia, e ninguém ignorava o ódio que ela tinha a Marvin Macy. Todos esperavam , pois, os acontecim entos, preparando-se para a ver expulsar o atrevido ou, pelo m enos, atirar-lhe à cabeça com o que tivesse à m ão. Ao princípio, Miss Am elia não se apercebeu da presença de Marvin, e a sua fisionom ia exibiu aquela expressão aliviada e sonhadora que lhe era usual à volta de qualquer passeio.