A Balada do Café Triste
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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Deve ter sido ao m esm o tem po que Miss Am elia viu Marvin Macy e o prim o Ly m on. Olhou de um para o outro, m as não foi no recém -saído da penitenciária que a sua vista se dem orou; com o toda a gente, ela observou o prim o Ly m on, o que realm ente valia bem a pena.
O corcunda encontrava-se no extrem o da fossa, com o rosto ilum inado pela claridade m ortiça que vinha das brasas. Com o seu talento especial para se fazer notar, im obilizara-se e im prim ira às orelhas um m ovim ento extraordinariam ente rápido. Sem elhante truque, que era na verdade irresistível, servia para obter de Miss Am elia qualquer favor. O corcunda, nesse instante, dirigia a Marvin Macy um sorriso de súplica bastante enternecedor; a princípio, o outro não fez caso, e, quando reparou, foi sem grande satisfação, perguntando com um gesto desdenhoso do polegar:
- O que é que dói a este m arreco? Ninguém lhe replicou. E o prim o Ly m on, vendo a inutilidade dos seus esforços, tentou m ais um a diligência: pôs-se a bater com as pálpebras de tal m odo que elas se assem elharam a lívidas borboletas encerradas na gaiola das órbitas; ao m esm o tem po, esfregava os pés no chão e volteava as m ãos, com o que ensaiando um a dança. Na luz lúgubre da noite de Inverno, lem brava um duende dos pântanos. Entre os assistentes, só Marvin Macy se m antinha im passível.
- Está possesso, este cretino? - inquiriu ele.
E, com o o silêncio continuasse, avançou para o corcunda e pregou-lhe um soco na cabeça. O desgraçado tom bou de costas, m as sentou-se no lugar onde caíra, sem pre a olhar para o agressor, e as suas orelhas tiveram um a derradeira palpitação.
Cada qual se virou para Miss Am elia, para ver o que esta faria. Quem ousara até aí tocar num cabelo do prim o Ly m on, em bora todos o desej assem fazer? Se Miss Am elia pegasse no m achado e cortasse a cabeça de Marvin Macy, ninguém decerto se surpreenderia. Afinal, ela não fez nada disto.
Havia alturas em que Miss Am elia parecia que entrava num a espécie de transe. Ora a causa desses transes era geralm ente conhecida e com preendida. Miss Am elia era um a excelente curandeira e não experim entava as raízes e outros ingredientes que utilizava no prim eiro doente que lhe aparecesse, m as sim na sua própria pessoa. Ingeria um a dose razoável do rem édio e durante todo o dia seguinte andava num a roda-viva entre o café e a retrete. Às vezes, tom ada de um a cólica brusca e violenta, ficava im óvel, de olhos estranham ente fixos no solo e de m ãos crispadas, esforçando-se por adivinhar sobre que órgão actuava a droga e qual a enferm idade que com ela m ais provavelm ente seria curada. E agora, enquanto fixava o corcunda, o seu rosto apresentava a m esm a expressão, tentando localizar o sofrim ento interior, se bem que nesse dia ela não tivesse experim entado nenhum rem édio novo.- Que isto te sirva de lição, ó m arreco!gritou Marvin Macy .
Henry Macy, irm ão daquele, afastou da testa as farripas grisalhas e tossiu nervosam ente. Stum py MacPhail e Merlie Ry an batiam com os pés no chão, as crianças e os pretos conservavam -se im óveis, à volta da cena. Marvin Macy dobrou a navalha que estivera a afiar e saiu do pátio com ar de valentão. As brasas da fossa transform avam -se em cinza leve e cinzenta, as trevas espalhavam -se por toda a parte.
Foi assim que Marvin voltou da penitenciária.Não havia pessoa nenhum a na terra que se alegrasse com tal regresso.A própria senhora Mary Hale - que era um a m ulher extrem am ente bondosa e o tinha criado com m uito am or - deixou cair a caçarola das m ãos e desatou a chorar. Nada, porém , poderia desconcertar Marvin Macy, que se sentava no degrau da porta e pegava indolentem ente na sua viola.Quando o j antar ficava pronto, corria lá para dentro, em purrava as crianças da casa e servia-se dos m elhores bocados. Depois de saciado, deitava-se na cam a que Lhe parecia a m elhor e dorm ia um sono profundo e sem sonhos.
Nessa noite, Miss Am elia não abriu o café.
Trancou cuidadosam ente as portas e as j anelas, e ninguém a viu; nem ao prim o Ly m on.
No seu quarto, a lam parina esteve acesa até de m anhã.
No dia seguinte, o tem po m udou, inesperadam ente. Houve calor. Ainda cedo, j á se abafava na vila. O vento trazia o cheiro corrupto dos pântanos e os m osquitos do tanque esverdinhado.Era trem endo, pior do que em Agosto, e os efeitos foram desastrosos. Quase toda a gente que tinha um porco im itara Miss Am elia e m atara-o na véspera.Ora, com um calor daqueles, que salsichas se podiam fazer? Por toda a parte, dias depois, havia o odor da carne estragada, um a atm osfera de grande desolação. Pior ainda: um a fam ília da estrada de Forks Falls com era porco tostado e m orrera inteirinha. Era evidente que o anim al estava im próprio para consum o. Não sucederia o m esm o com os outros, abatidos por essa ocasião? O povo debatia-se entre o desej o de saborear lom bo de porco e o m edo de m orrer envenenado. Época de ruína, de confusão!
A causa de tudo isto, Marvin Macy, continuava sem vergonha nenhum a. Viam -no em todos os lados. Durante as horas de trabalho vagueava à volta da fábrica, olhando pelas j anelas; aos dom ingos vestia a sua cam isa encarnada e subia e descia a rua, de viola na m ão. Conservava-se belo ainda, com o seu cabelo castanho, os lábios verm elhos, os om bros largos e fortes. Mas trazia em si o m al, e de nada lhe serviam os seus bonitos olhos. O m al que o punha à m argem da sociedade não resultava apenas dos crim es com etidos, dos assaltos aos postos de gasolina, dos estupros de donzelas. Não. Irradiava dele com o coisa secreta e m alsã que se lhe houvesse apegado à pele e exalasse o seu fedor. Outro sintom a: nunca suava, nem sequer em Agosto, coisa deveras para considerar.
Achavam -no m ais perigoso agora do que antes da sua captura e detenção em Atlanta. Na penitenciária devia ter aprendido a deitar sortes, a influenciar m aleficam ente... Senão, com o se explicava o sortilégio exercido sobre o corcunda? Desde o instante em que este avistara Marvin Macy, parecia ter ficado possesso. Não o largava nunca, fazia m il tropelias para Lhe cham ar a atenção. No entanto, Marvin Macy ou o tratava m al ou lhe testem unhava o seu desdém . Às vezes, o prim o Ly m on em poleirava-se na balaustrada da varanda, com o um pássaro doente nos fios telefónicos, e declam ava publicam ente o seu desgosto.
- Mas porquê? - interrogava Miss Am elia, contem plando-o com olhos vesgos e de punhos cerrados.
- Oh, Marvin Macy ! - exclam ava o prim o Ly m on, cuj os lam entos, só ao som deste nom e, se intensificavam até ficar em soluços - Ele esteve em Atlanta!
Miss Am elia abanava a cabeça, e o rosto tornava-se-lhe duro e som brio.Já não tinha paciência para viagens. Os que iam a Atlanta, atravessando oitenta quilóm etros de terra só para ver o m ar, essa gente inquieta apenas lhe m erecia desprezo.
- Ter estado em Atlanta não m elhora ninguém .
- Viveu na penitenciária - insistia o corcunda, com o ar desesperado de quem anseia por estar lá.
Quem pode discutir com um a pessoa que tem sem elhantes desej os? Na sua perplexidade, Miss Am elia não sabia o que responder,
- Na prisão, prim o Ly m on? Não é coisa de que ninguém se deva gabar!
Nestas sem anas, Miss Am elia sofreu a vigilância apertada dos seus conterrâneos. Andava distraída, com o se estivesse a atravessar um dos seus transes. Fosse porque fosse, pusera de parte, após o regresso de Marvin Macy, o fato-m acaco que sem pre usava, substituindo-o pelo vestido encarnado dos dom ingos, das cerim ónias religiosas e das audiências no tribunal. Conform e o tem po decorria viam -na tom ar deliberações que a todos se afiguravam incom preensíveis ou colocar-se num a reserva não m enos inexplicável. Porque não proibia ela ao prim o Ly m on, por exem plo, que acam aradasse com Marvin Macy : Seria tão fácil! O corcunda haveria de se subm eter sem recalcitrar, ou então suj eitava-se a ser posto na rua. Miss Am elia parecia, pela prim eira vez na sua vida, ter perdido a vontade. Com o todas as pessoas que hesitam , fez o que se pode considerar o pior, isto é, tom ou ao m esm o tem po várias atitudes, contrárias um as às outras.
O café estava aberto todas as noites, e, quando Marvin Macy entrava com ar de bravata, acom panhado do corcunda, ela não Lhe im pedia o acesso; às vezes, até lhe oferecia de beber, com um sorriso contrafeito. Ao m esm o tem po, porém , preparara-lhe um a arm adilha terrível nos pântanos, onde o hom em encontraria a m orte se tivesse caído na em boscada. De outra vez deixou que o prim o Ly m on o convidasse para oj antar de dom ingo e tentou fazê-lo cair pelos degraus abaixo. A favor do corcunda iniciou um program a de diversões, com o passeios de autom óvel a pontos distantes, só para lhe proporcionar um espectáculo, ou o levar a um curso de educação de adultos, ou a um desfile em Forks Falls - ou ainda, m urm urava-se, a lugares pouco recom endáveis.
O frio voltara, reinava definitivam ente o Inverno, j á era noite antes m esm o de soar a sirena da fábrica. As crianças dorm iam vestidas, as m ulheres arregaçavam as saias para se aquecerem à lareira. Depois de chover, a lam a do cam inho transform ava-se em sulcos de geada; as velas das casas oscilavam nas vidraças, as árvores apresentavam -se nuas, devastadas. Durante as silenciosas e som brias noites de Inverno, o café form ava o centro confortável da terra, com as suas luzes tão potentes que se viam a quinhentos m etros de distância. O fogão enorm e, de ferro fundido, sussurrava, estalava, fazia-se rubro a um canto do salão. Miss Am elia arranj ara cortinas para as j anelas e, a um bufarinheiro que por ali passara, com prara um ram o de rosas de papel que pareciam naturais.
Mas não eram só as decorações, o aconchego, a alegria que recom endavam o café. Havia um a razão m ais im portante que o tornava tão precioso para a terra. Essa razão relacionava-se com certo orgulho desconhecido até aí dos habitantes. Para com preender tal orgulho nascente lem brem o-nos do pouco valor que se dá à vida hum ana. Há sem pre m uita gente ligada a um a fábrica, m as é raro que as fam ílias dela tirem o suficiente para se vestir e alim entar. A vida degenera num a luta confusa para ganhar o necessário, e a confusão origina-se nisto: todas as coisas têm o seu valor e hão-de ser com pradas com dinheiro; sabe-se quanto custa um fardo de algodão ou um a quarta de m elaço. Mas nenhum preço se opõe à existência hum ana: foi-nos concedida de graça e da m esm a form a nos é retirada. Quanto vale? A j ulgar pelo que nos rodeia, m uito pouco, ou talvez nada. Depois de esforços esgotantes e inúteis, experim enta-se no íntim o a sensação de não valer dois caracóis.
Ora o orgulho despertado na terra e provocado pelo café exercia-se sobre toda a gente, até sobre as crianças. Para um a pessoa se instalar ali bastava consum ir um a bebida sim ples, barata. Quase todos o frequentavam , pelo m enos um a vez por sem ana, excepto o reverendo T. M. Willin. Antes de se apresentarem em casa de Miss Am elia, os consum idores lavavam -se e escovavam -se e, à porta, lim pavam a sola das botas. E durante as horas que lá estavam cessava o desagradável sentim ento de terem tão pouco valor.
O café era especialm ente preferido pelos celibatários, pelos infelizes, pelos tuberculosos. (Entre parênteses, digam os que há bons m otivos para supor que o prim o Ly m on fosse tísico: o brilho dos olhos, a sua insistência, a loquacidade, a tosse. A m ínim a alusão a isto provocava revolta em Miss Am elia, que todavia lhe punha cataplasm as e lhe adm inistrava rem édios. Nesse Inverno, com os dias tão frios, a tosse agravara-se-lhe, os suores tinham sido m ais abundantes - o que não im pedia de seguir, incessantem ente, Marvi Macy por toda a parte.)
Cada m anhã, deixava a residência e ia postar-se diante do prédio da senhora Hale, e esperava, esperava... Marvin Macy, com o bom preguiçoso, era um grande dorm inhoco. O prim o Ly m on cham ava-o suavem ente, com a voz das crianças pacientes que vigiam buracos onde há grilos e aguardam a sua aparição. Com essa m esm a voz, triste, aliciante, resig nada, o corcunda cham ava por Marvin Mac até que este surgia. Deam bulavam pela vila ficavam horas inteiras nos pântanos.
Quanto a Miss Am elia, continuou com o pior dos procedim entos: passava de um a tác tica a outra. Quando o prim o Ly m on saía, ela não o cham ava, m as ia para o m eio da rua e ficàva a olhar até o perder de vista. Quase to dos os dias, Marvin Macy voltava com o prim o Ly m on para j antar e com ia na m esa de Miss Am elia. Esta abria o frasco de doce de peras, oferecia galinha, presunto, ervilhas m ilho assado. É verdade que num a ocasião tentou envenená-lo, m as deu-se um engano: trocaram -se os pratos - e foi ela que engoliu a peçonha. Percebeu logo o equívoco e arredou a iguaria suspeita; em seguida reclinou-se na cadeira, tacteou o m úsculo do braço e observou Marvin Macy .
Todas as noites, Marvin Macy ia ao café e escolhia a m esa m elhor, a do centro. O prim o Ly m on servia-lhe uísque, que o outro nunca pagava. Marvin Macy enxotava o corcunda com o se fosse um m osquito im portuno e, sem m esm o patentear um pouco de gratidão, chegava a bater-lhe com os dedos, gritando:
- Fora daqui, m arreco! Esborracho-te a cabeça.
Quando isto acontecia, Miss Am elia dava a volta ao balcão, aproxim ava-se silenciosam ennte, com o vestido verm elho a pender-lhe nos j oelhos ossudos, e apertava os punhos cheia de cólera. Mas, em bora todos esperassem ofegantes, nada se passava de extraordinário. Ainda não tinha soado a hora do com bate.
Há um a razão particular para que este Inverno ficasse na m em ória dos habitantes, que ainda se lhe referem am iúde. Produziu-se um grande acontecim ento. Ao levantarem -se, no dia 2 de Janeiro, acharam o m undo m odificado. Os pequenos, na sua ignorância, m iravam pelas j anelas, tão intrigados que chegavam a chorar. Os velhos, procurando nas suas recordações, não encontravam nada que se assem elhasse ao fenóm eno. Nevara toda a noite! Durante as horas som brias em que se dorm e caíram flocos atrás de flocos, lentam ente, sobre a vila inteira. De m anhã, o chão estava coberto de um estranho lençol branco, que abrangia o tecto das casas e os vitrais da igrej a. A neve dava ao am biente um aspecto desolado, sinistro. Perto da fábrica, os prédios dos operários apareceram m onstruosos, com o que a desabar; a neve, porém , era de um a beleza que ninguém conhecia, alva com o a descrevem as pessoas do Norte, e m isturava-se de tons de anil e prata. O céu ostentava um acinzentado brilhante. E a em baladora tranquilidade da neve a tom bar. Quando apreciaram eles j am ais sem elhante quietude?
Cada qual reagiu de form a diferente. Miss Am elia, olhando pela j anela, m oveu pensativam ente os pés descalços e uniu ao pescoço a gola da cam isa de noite. Ficou uns instantes nesse recanto do quarto e acabou por fechar as venezianas. Um a vez tudo calafetado, acendeu luzes e sentou-se com solenidade na poltrona, com o m ilho assado na m ão. Não tinha m edo da neve, j á se sabe, m as sentia-se incapaz de fazer um a ideia im ediata do fenóm eno; e, quando não apreendia -com o quase sem pre - o alcance exacto dos acontecim entos, achava preferível alhear-se. Nunca na sua vida caíra neve naquela terra, e ela j am ais pensara em sem elhante assunto. Reconhecia, no entanto, que o caso m erecia ponderação, m as j á eram bastantes as suas preocupações para que Lhe ligasse im portância. Ilum inada só com velas, a casa não lhe perm itia andar à vontade, e assim , às apalpadelas, foi para as suas ocupações ordinárias. O prim o Ly m on, ao contrário, corria pressuroso em estado de extrem a agitação. Quando Miss Am elia deu m eia volta para tratar do alm oço, o corcunda escapuliu-se para a rua.
Marvin Macy procedia com o se a neve lhe pertencesse. Declarou que conhecia isso, que vira m uita em Atlanta, e, pela m aneira com o andava na vila, dir-se-ia ser o dono de cada floco que tom bava. Franziu o nariz às crianças que punham tim idam ente a m ão fora da porta para agarrar um punhado de neve e prová-la. O pastor Willin saiu açodado, pensando j á no m odo de fazer m enção desse efeito de invernia num dos seus próxim os serm ões. A m aior parte das pessoas aceitava a coisa, hum ilde e contente, com o um m ilagre; falava-se em voz baixa, abusava-se do "obrigado" e do "se faz favor".
É certo que alguns espíritos fracos se desm oralizaram , recorrendo ao álcool - m as estes não eram num erosos. Para m uitos, enfim , foi pretexto de diversão, ej á contavam o dinheiro, planeando ir à noite ao café.
O prim o Ly m on acom panhou Marvin Macy todo o dia, apoiando as pretensões deste quanto aos seus direitos sobre a neve. Adm irava-se que ela não caísse com o a chuva e ficava a olhar, sonhador, para a revoada dos flocos, de tal m odo que sentiu vertigens. E orgulhava-se de si m esm o, com partilhando da glória de Marvin Macy tanto ou tão pouco que houve quem lhe bradasse:
- Oh! - disse a m osca às rodas da carroça, quanta poeira levantam os!
Miss Am elia não tencionava servir j antares. Mas quando, às seis horas, ouviu som de passos debaixo da varanda, foi abrir com precaução. Era Henry Ford Grim p. Em bora não houvesse com ida feita, perm itiu-lhe que se sentasse e bebesse qualquer coisa. Chegaram outros. A noite estava azulada, áspera; j á não caía neve, m as o vento soprava da banda dos pinhais, form ando leves turbilhões no solo. O prim o Ly m on apareceu m uito tarde, com Marvin Macy, que trazia a m ala de folha e a viola.
- Vais viaj ar? - perguntou Miss Am elia. Prim eiram ente, Marvin Macy aqueceu-se defronte do fogão. Depois tom ou lugar à m esa do costum e e com eçou a afiar cuidadosam ente um pauzinho. Esfuracou um dente e tirou o palito da boca várias vezes, para o lim par na m anga do casaco. Não se deu ao trabalho de responder.
O corcunda olhou para a prim a, que se encontrava atrás do balcão. O rosto dele não tinha nada de suplicante, parecia o de um a pessoa m uito segura de si. Cruzou as m ãos sobre as costas e apurou o ouvido. As orelhas haviam -se-lhe averm elhado, os olhos brilhavam . O fato estava m olhado.
- O Marvin - declarou Ly m on - vem para ficar connosco, por poucas horas.
Miss Am elia não protestou. Lim itou-se a dar a volta ao balcão e a aproxim ar-se do lum e, com o se aquela notícia a tivesse arrefecido. Quando se punha diante do fogão, não era discretam ente, com o a m aior parte das m ulheres, que apenas levantam as saias dois centím etros, ou pouco m ais. Nela não havia nenhum recato, e até se diria esquecer-se da presença dos hom ens no salão. Para se aquecer ergueu tão alto o vestido encarnado que ficou bastante visível um a parte da coxa peluda.
Voltou a cabeça para um lado e principiou a falar consigo m esm a, m exendo a cabeça e enrugando a testa. Em bora indistintas, as palavras saíam -lhe num tom de acusação, de censura. Entretanto, o corcunda e Marvin Macy subiram ao andar de cim a, à saleta das duas m áquinas de costura e até ao quarto em que Miss Am elia vivera toda a sua vida. Do café, ouviam -nos andar cá e lá, ruidosam ente, desfazendo a m ala e tratando da instalação do hóspede.
Foi assim que Marvin Macy invadiu os dom ínios de Miss Am elia. Ao princípio, o prim o Ly m on, que cedera o seu próprio quarto, dorm iu no sofá da sala. Mas a neve tivera um efeito pernicioso na sua constituição débil; constipou-se, da constipação resultou am igdalite, e a prim a viu-se obrigada a ceder-lhe o seu aposento. Ora o sofá era m uito curto para ela, os pés ficavam -lhe de fora, e várias vezes Miss Am elia caiu no chão. A falta de repouso obscurecia-lhe o engenho, de m odo que veio a sofrer as consequências das arm adilhas que preparara para Marvin Macy. Contudo, não o expulsava, porque tem ia a solidão. Quem j á experim entou com panhia sente horror em ficar sozinho. O silêncio de um quarto em que arde o lum e no fogão, quando o relógio pára de repente... sim , m ais vale receber o seu pior inim igo do que ter de enfrentar a hipótese de viver só.
A neve não continuou. Veio um sol forte, e dois dias depois a vila tornava-se no que fora antes. Só então é que Miss Am elia reabriu o estabelecim ento. Fez nessa altura grandes lim pezas na casa, expondo tudo ao ar. Ao chegar ao pátio, a prim eira coisa em que se ocupou foi em am arrar um a corda ao ram o m ais grosso de um a árvore. Na extrem idade dessa corda suspendeu um saco cheio de areia, e, desse dia em diante, exercitou-se todas as m anhãs a j ogar ao soco. Se bem que destra nesse desporto, prej udicava-a a falta de ligeireza nos pés, de m odo que com pensava o defeito com toda a espécie de golpes desleais.
Miss Am elia era dois centím etros e m eio m ais alta do que Marvin Macy. Quanto ao peso, equivaliam -se, tendo am bos à volta de setenta e dois quilos e m eio. Marvin Macy possuía a vantagem da agilidade e rij eza do peito. Aparentem ente, a vitória pendia a seu favor, m as o caso é que toda a gente apostava em Miss Am elia. A vila inteira recordava-se do com bate entre ela e um advogado de Forks Falls que tentara fazer chicana - rapagão sólido que Miss Am elia deixara quase m orto.
Não seria apenas a sua perícia no pugilism o o que im pressionava o público; ela sabia tam bém desm oralizar o antagonista com horríveis caretas e gritos m edonhos, que chegavam a afligir a assistência. Enfim , confiava-se no seu triunfo. O encontro, todavia, ainda não fora m arcado, em bora andassem adiantados os preparativos.
Entretanto, o corcunda pavoneava-se, com um a expressão resplandecente. Por form a inteligente e subtil, puxava os cordelinhos que deviam levar os dois inim igos ao com bate. Quase nunca largava Marvin Macy, m as às vezes seguia Miss Am elia para lhe contrafazer o andar, os olhos estrábicos, os gestos. O espectâculo tinha qualquer coisa de terrível que im pedia os fregueses de se rirem ; só Marvin Macy esboçava um sorriso ao canto da boca. E Miss Am elia via-se dilacerada por dois sentim entos diversos. Ora olhava para o prim o Ly m on com ar triste, reprovador, ora se virava para o antigo m arido de dentes cerrados.
- Infam e! - bradava ela, colérica. Marvin Macy lim itava-se a pegar na viola, que estava no chão, encostada à cadeira. Cantava com voz húm ida, viscosa, porque tinha sem pre a boca cheia de saliva. As árias que entoava saíam -Lhe da garganta com o enguias.
Os dedos fortes punham a vibrar as cordas do instrum ento com habilidade preciosa, e tudo o que ele dizia era exasperante e lúbrico. Miss Am elia não o podia suportar.
- Infam e! - tornava a exclam ar. Mas o hom em tinha resposta para tudo. Abafava o som da viola e replicava com insolência tranquila:
- Tudo o que m e disseres recairá sobre ti. Miss Am elia não sabia o que dizer, pois ninguém j am ais teve m eio de escapar a sem elhante ardil. As inj úrias que proferisse recairiam sobre a sua pessoa. Marvin Macy era o m ais forte, ela nada tinha a obj ectar.
Eis a situação. O que se passou entre aqueles três entes nessa noite ficou para sem pre ignorado. Nos dias seguintes, porém , o café registou novas enchentes. Foi preciso arranj ar m ais um a m esa. Até certo louco cham ado Rainer Sm ith, por alcunha o Erem ita, acorreu do seú retiro nos pântanos quando lhe constou o que se passava. Viram -no àj anela, espreitando para o salão ilum inado, com aspecto inquiridor. A com oção atingia o auge quando Marvin Macy e Miss Am elia, em atitude bélica, inchavam o peito e se fulm inavam com olhares rancorosos. Em geral, este paroxism o não se produzia após qualquer discussão, m as parecia vir m isteriosam ente de algum instinto particular dos dois contendores. Em tais ocasiões, o café ficava tão sossegado que se podia ouvir o sussurro da corrente de ar no ram o das rosas de papel. E de cada vez a sessão se prolongava m ais do que na véspera.
O com bate verificou-se no dia da Candelária, 2 de Fevereiro. O tem po estava propício, sem chuva nem sol, com tem peratura am ena. Por vários sintom as, com preendeu-se que chegara a oportunidade, e, pelas dez horas, espalhou-se a notícia em toda a região. De m anhã cedo, Miss Am elia cortou a corda do saco de areia. Marvin Macy sentou-se no patam ar das traseiras, com um a lata de banha de porco entre os j oelhos, e untou cuidadosam ente os braços e as pernas. Voara por cim a da vila um falcão de peito ensanguentado, o qual deu duas voltas sobre a propriedade de Miss Am elia. Retiraram as m esas do café, esvaziando-se assim a sala para o com bate.
Coincidiam , pois, todos os sintom as. Miss Am elia e Marvin Macy com eram cada um quatro bifes m al passados ao alm oço e depois deitaram -se, para arm azenarem forças. Marvin Macy descansou na saleta do andar superior, Miss Am elia no banco do escritório. Pela sua palidez, inferia-se com o era grande o seu torm ento por estar inactiva, m as a verdade é que m anteve a im obilidade de um cadáver, com os olhos fechados e as m ãos cruzadas no peito.
Foi um dia agitado para o prim o Ly m on. A excitação crispava-lhe e retesava-lhe a cara. Abasteceu-se de sanduíches e saiu para inspeccionar o tem po; quando voltou, disse que lhe parecia estar m au. Todavia, com o os adversários continuavam em repouso, resolveu pintar a varanda da frente. Háj á m uitos anos que o prédio não recebia beneficiações, e sabe Deus se algum a vez as tivera. O prim o Ly m on pintou m etade do soalho da varanda de um verde m uito brilhante. Não era trabalho fácil, e ele suj ou-se todo. Sem term inar a prim eira tarefa, prosseguiu nas paredes, tão alto quanto pôde, acabando por se em poleirar num caixote. Quando se acabou a tinta, parte do chão estava verde, assim com o as paredes, em desenhos denteados. E aquilo assim ficou.
Mostrava pela sua obra um a satisfação pueril. E, a este propósito, m encione-se um facto curioso. Ninguém na terra, nem sequer
Miss Am elia, tinha a m ais pequena ideia quanto à idade do corcunda. Alguns afirm avam que ele chegara ali com doze anos, ainda criança, outros diziam que j á passava então dos quarenta. Em bora os seus olhos fossem infantis, azuis e firm es, tinham à volta som bras roxas e várias rugas, o que revelava a idade que o corpo deform ado não podia indicar. Os próprios dentes não esclareciam nada - só Lhe faltavam dois, que partira ao trincar um a am êndoa inteira -, porque o abuso de guloseim as os estragara de tal form a que não se percebia a que dentição pertenciam . Se lhe perguntassem directam ente quantos anos tinha, era incapaz de responder, pois ignorava-o em absoluto. A sua idade constituía pois um enigm a.
O prim o Ly m on acabou de pintar às cinco e m eia da tarde. O tem po arrefecera, havia no ar um cheiro de hum idade. Do lado dos pinheiros soprava vento, que sacudia as venezianas e arrastava j ornais velhos pela estrada até ficarem presos num a árvore de tronco espinhoso. Os trabalhadores regressavam do cam po. Passavam cam ionetas carregadas de crianças, que espreitavam pelas j anelas, e carroças puxadas por m ulas velhas que se diria sorrirem com ar cansado e triste, de olhos sem icerrados. De Society Gity chegaram três pequenos, de cam isa de riscas am arelas e boné sobre a nuca, tão parecidos com o se fossem gém eos; iam sem prej untos aos com bates de galos e a outras reuniões sem elhantes. Às seis horas, a sirena da fábrica anunciou o fim do dia de trabalho, e a m ultidão aum entou. É claro que entre os recém -chegados figuravam indivíduos de m au aspecto, tipos desconhecidos - m as, m esm o entre esses, a calm a era perfeita. Reinava o silêncio na vila, os rostos surgiam estranhos na claridade crepuscular. Por instantes, o céu tornou-se de ouro pálido, em que se recortavam as torres da igrej a; depois desvaneceu-se lentam ente, e a escuridão com eçou a avassalar tudo.
Sete é um núm ero m ágico, pelo qual Miss Am elia tinha particular predilecção. Sete bochechos contra os soluços, sete voltas ao tanque para curar o torcicolo, sete doses de xarope para destruir os verm es... As doses dos seus rem édios giravam sem pre em torno deste algarism o; ele perm itia m uitas com binações, e todos quantos adoravam a m agia lhe atribuíam grande im portância. De m aneira que o com bate se devia realizar às sete horas. Toda a gente se reuniu, com antecedência, em redor da casa de Miss Am elia. Os m ais espertos entraram no café e encostaram -se às paredes da sala. Outros invadiram a varanda ou tom aram lugar no pátio.
Nem Miss Am elia nem Marvin Macy se tinham ainda m ostrado ao público. Miss Am elia, depois de haver estado todo o dia a repousar no escritório, subira por fim ao prim eiro andar. O prim o Ly m on, que a cada m inuto roçava pelas pessoas, à altura do cotovelo, m etia-se por aqui e por ali, dando estalos nervosos com os dedos e pestanej ando fortem ente. Às sete m enos um m inuto esgueirou-se para o café e subiu ao balcão. A ordem era absoluta.
Deviam ter com binado previam ente qualquer coisa, porque ao bater das sete horas Miss Am elia apareceu no alto da escada. No m esm o instante, Marvin Macy surgiu diante da fachada do café, e o povo, silencioso, abriu alas para o deixar passar. Avançaram um para o outro sem pressa, j á de punhos cerrados e o olhar vago dos sonâm bulos. Miss Am elia m udara de fato: em vez do vestido encarnado envergava agora o fato-m acaco, com as calças arregaçadas até aos j oelhos. Estava descalça e trazia um a argola de ferro em torno do pulso direito. Marvin Macy tam bém enrolara as calças; nu até à cintura, apresentava o corpo coberto de graxa. As botas pesadas que calçava eram as que lhe haviam dado quando saíra da penitenciária. Stum py MacPhail destacou-se do m eio da assistência e foi apalpar-lhe as algibeiras, para ver se ele tinha qualquer punhal ou faca.
Ei-los sozinhos no centro do café brilhantem ente ilum inado. Não houve sinal de início do com bate; os golpes partiram de um e de outro ao m esm o tem po, am bos dirigindo-se ao queixo do adversário, sem grande precisão. Feito isto, lim itaram -se por m om entos a um j ogo de pés no soalho duro, experim entando diversas posições e brandindo os punhos em vão. Depois, com o dois gatos-bravos, agrediram -se m utuam ente. Distinguia-se o ruído dos m urros, a respiração ofegante, os pés calcando o chão - tão rápidos que era dificil segui-los. A certa altura, Miss Am elia recuou, cam baleando, e esteve quase a cair; de outra vez foi Marvin Macy que recebeu tal pancada no om bro que girou com o um pião. A luta prosseguia sem que dim inuísse a violência, sem que qualquer dos contendores desse m ostras de fraqueza.
Num com bate com o este, em que se opõem inim igos tão vigorosos e ágeis, vale a pena desviar a vista do ringue para relancear os espectadores. Estes encontravam -se encostados o m ais possível às paredes. Stum py MacPhail estava acocorado num canto e apertava inconscientem ente as m ãos, soltando estranhos grunhidos. Merlie Ry an tinha a boca de tal m aneira aberta que engoliu um a m osca sem dar por isso. Quanto ao prim o Ly m on, valia a pena observá-lo: continuava de pé em cim a do balcão, desfrutando assim do lugar m ais alto, com as m ãos nos quadris, a grande cabeça espetada para a frente e as pequenas pernas dobradas; devido à excitação, tinha o rosto corado e a boca pálida a trem er.
Só talvez ao cabo de m eia hora é que se operou um a pequena m udança. Haviam sido trocados, inutilm ente, centenas de m urros. De súbito, porém , Marvin Macy conseguiu apoderar-se do braço esquerdo de Miss Am elia e im obilizar-lho atrás das costas. Ela debateu-se e agarrou-se à cintura dele. A verdadeira luta tinha agora com eçado. A luta livre é que é a m aneira natural de lutar neste país, porque o boxe é m uito rápido e exige m uita táctica e concentração. E agora que Miss Am elia e Marvin Macy se apertavam a valer, a m ultidão saiu do seu torpor e aproxim ou-se da pista. Durante alguns m inutos, os lutadores agarraram -se bem , m úsculo contra m úsculo, com as ancas unidas, oscilando para trás e para diante, para um lado e para o outro. Macy não transpirava m uito
m as o fato-m acaco de Miss Am elia estava encharcado, o suor escorria-lhe a tal ponto pelas pernas abaixo que os pés deixavam m arcas húm idas no soalho. O grande teste tinha chegado, e nesses m om entos de esforço trem endo era Miss Am elia quem se m ostrava m ais forte. Marvin Macy era dificil de segurar, por ter o corpo untado de gordura, m as contudo não levava a m elhor. A pouco e pouco, Miss Am elia foi-o derrubando até o fazer tocar no chão. Era arrepiante presenciar, m as era tam bém im pressionante ouvir as respirações ofegantes, únicos sons que se ouviam no café. Por fim , Miss Am elia tinha-o por terra e dom inava-o; as suas grandes e poderosas m ãos não lhe largavam o pescoço.
Ora, nesse instante, precisam ente quando a luta se decidia, soou um grito horrível que fez tudo estrem ecer e ninguém soube o que se passou. A vila inteira estava ali para testem unhar e no entanto m uitos duvidarão dos seus próprios olhos. Do balcão onde se em poleirara, a um a distância de quase quatro m etros dos lutadores, o corcunda conseguiu dar um salto e voar, com o se ganhasse asas de falcão, caindo nas costas de Miss Am elia e m etendo-lhe na espessa nuca as suas unhas afiadas.
O resto foi confusão. Miss Am elia ficou derrotada ainda antes de a assistência se recom por da sua estupefacção. Graças ao corcunda, a vitória cabia a Marvin Macy. Enquanto Miss Am elia estava estendida, im óvel, de braços abertos, Marvin Macy curvou-se, com a cara um pouco tum efacta, e sorriu - o seu m eio sorriso trocista. Quanto ao prim o Ly m on desaparecera. Talvez se tivesse assustado com o que fizera, ou talvez tivesse ficado tão satisfeito que quisesse gozar sozinho a glória da proeza; fosse com o fosse, saiu do café e escondeu-se no patam ar das traseiras. Deitaram água no rosto da m ulher vencida, que depois se ergueu e se arrastou até ao escritório. Com o não fechara a porta, podiam vê-la sentada à secretária, com a cabeça no braço, soluçando. Em dada ocasião apertou o punho direito e bateu três vezes no tam po da m esa; depois a m ão descerrou-se e perm aneceu inerte, com a palm a para cim a. Stum py MacPhail avançou uns passos e encostou a porta. A m ultidão conservou-se sossegada e a pouco e pouco dispersou-se na rua. Acordaram as m ulas, puseram os autom óveis em andam ento, e os três rapazinhos de Society Gity voltaram a pé para casa. Não fora um com bate que se pudesse discutir. As pessoas m eteram -se nas suas cam as e puxaram a roupa até ao pescoço. Toda a vila m ergulhou na escuridão, excepto o prédio de Miss Am elia onde as j anelas ficaram ilum inadas até de m anhã.
Marvin Macy e o prim o Ly m on deviam ter partido antes da m adrugada. Mas, antes de se irem em bora, eis o que fizeram :
- forçaram a papeleira das curiosidades e tesouros e levaram tudo o que ali existia;
- quebraram o piano m ecânico −
- gravaram nom es feios nas m esas do café;
- descobriram o relógio que, sob um a das capas, tinha a pintura de um a queda de água, e levaram -no tam bém ;
- espalharam quatro litros e m eio de xarope de sorgo na cozinha e rebentaram os frascos de conservas;
- foram aos pântanos e destruíram o alam bique e o novo condensador e deitaram fogo ao telheiro;
- prepararam o prato predilecto de Miss Am elia (m ilho com salsichas), j untaram -lhe veneno suficiente para m atar a população da vila e colocaram -no, apetitosam ente, em cim a do balcão.
Procederam ainda a outras m aldades, sem todavia entrarem no escritório, onde Miss Am elia passou a noite. E em seguida fugiram am bos.
Foi assim que Miss Am elia ficou sozinha na vila. Os seus conterrâneos poderiam valer-Lhe se soubessem com o, pois ali as pessoas são prestáveis e só esperam oportunidade para isso. Várias com adres se apresentaram em casa dela, m unidas de vassouras, prontas a varrer e a lim par; m as Miss Am elia lim itou-se a observá-las com olhos vesgos e a abanar a cabeça. Stum py MacPhail foi com prar um a onça de tabaco, ao terceiro dia, e a dona da loj a pediu-lhe um dólar. Tudo subiu, repentinam ente, a um dólar. Que espécie de café era aquele, então? Tam bém no seu papel de curandeira Miss Am elia se m odificou; antes era até m ais popular do que o m édico de Gheehaw, tratava bem os doentes, nunca lhes interditava coisas im prescindíveis, com o álcool ou tabaco; quando proibia qualquer com ida, era por exem plo m elancia frita ou algo que ninguém se lem braria de ingerir. Agora j á não usava destes conselhos prudentes. Dizia a m etade dos seus doentes que estavam prestes a m orrer, e à outra m etade receitava rem édios tão extraordinários e repugnantes que só um doido seria capaz de os ingerir.
Miss Am elia deixou de cuidar do seu cabelo, que em alguns sítios com eçava a branquear. A cara alongara-se-lhe, os m úsculos enfraqueceram -se-lhe, e ela caiu na m agreza das solteironas que propendem para a loucura. E os seus olhos pardaços, que de dia para dia m ais tortos se m ostravam , pareciam procurar-se um ao outro, talvez para trocarem um olhar de tristeza e entendim ento. Não era agradável escutá-la: a língua de Miss Am elia destilava gotas de peçonha.
Quando alguém aludia ao corcunda, ela apenas respondia:
- Se lhe ponho as m ãos em cim a, arranco-lhe a m oela para a dar a um gato.
Não só as palavras eram terríveis, era-o tam bém a voz com que as proferia. Essa voz perdera o vigor antigo, j á não vibrava com um tim bre de vingança com o no tem po em que dizia "o tal da fiação com quem casei", ou equivalentes referências a outros dos seus inim igos. Estava agora rouca, m elancólica, sem elhante ao gem ido asm ático de um órgão de igrej a.
Durante três anos, ela sentou-se todas as noites num degrau da varanda, sozinha e calada, olhando para a rua e esperando. Mas o corcunda nunca voltou. Constava que Marvin Macy se servia dele para escalar propriedades, introduzindo-se nelas e saqueando-as; outros contavam que o vendera a uns saltim bancos. Mas estas histórias eram inventadas por Merlie Ry an.Jam ais se soube a verdade a respeito do prim o Ly m on. Foi no quarto ano que Miss Am elia m andou entaipar a casa, trabalho confiado a um carpinteiro de Gheehaw. E ali perm aneceu sozinha.
Na verdade, a vila parece desolada. Nas tardes de Agosto, a rua está deserta, branca de poeira, e o céu tem um brilho de cristal. Nada se m exe, não se ouvem vozes de crianças, apenas o zum bido da fábrica. As árvores, em cada Verão, parecem m ais contorcidas, com as folhas cinzentas, de aspecto doentio. A casa de Miss Am elia está tão inclinada para a direita que a sua ruína é só um a questão de tem po. Os transeuntes tom am a precaução de se afastarem o m ais possível. Não existe na vila um sítio onde se vendam boas bebidas alcoólicas.
O alam bique m ais próxim o fica a cerca de treze quilóm etros de distância, e o produto é de tal ordem que origina excrescências no fígado a quem o consum ir. Nada se pode fazer naquele erm o, além de dar a volta à fábrica, estacar diante de um tronco apodrecido ou contem plar um a roda de carroça abandonada no adro da igrej a. A alm a apodrece tam bém no m eio daquele tédio. Contudo, quem quiser que vá até à estrada de Forks Falls e oiça os condenados a trabalhos forçados, com as suas grilhetas, cantando "Os Doze Hom ens Mortais..."
NA estrada de Forks Falls é a cinco quilóm etros de distância da vila, e é aí que trabalham realm ente os presos. As autoridades adm inistrativas resolveram consertar a estrada de m acadam e e alargá-la num local onde havia um a curva perigosa. O grupo com põe-se de um a dúzia de hom ens, todos com a farda da cadeia e de grilheta nos pés. Há um guarda, arm ado, de olhos vigilantes. Os presos trabalham todo o dia; chegam ao nascer do Sol dentro de um carro celular, e partem ao anoitecer. Continuam ente se ouve o barulho das picaretas e se sente o calor e o cheiro do suor. Mas tam bém se ouve m úsica. Um a voz soturna entoa baixinho um a nota, com o que a dar o tom ; e logo outra se lhe j unta; e daí a pouco estão todos a cantar. Vozes som brias na intensa luz dourada, m úsica estranham ente m isturada de trevas e clarões. Aquilo avolum a-se, j á custa a acreditar que em ane de doze hom ens, pois dá a im pressão de sair da terra inteira ou de descer do vasto céu; faz alargar o coração do auditor, causa-lhe estrem ecim entos de frio e de êxtase. Depois, lentam ente, esm orece, e fica apenas um a voz isolada, e por fim um som rouco e, no silêncio, o rum or das picaretas.
E que espécie de condenados a trabalhos forçados são estes, capazes de em itirem um a m úsica assim ? Só doze hom ens m ortais, sete pretos e cinco brancos, oriundos da região. Só doze hom ens m ortais, ali reunidos na estrada.