A Cidade do Vício
Madona do Campo Santo
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Um temperamento, este Arthur! Côres biliosas, intractaveis cabellos extraordinariamente negros, talhados á ninivita conforme a moda romantica dos ateliers. Na estatura composta e nos hombros largos, uma reserva trahia a alma dura, violencias, e insoffridos orgulhos. Nasciam d’elle langores e enthusiasmos de indole calida, pueris alegrias, terrores, fluctuações, desesperos e lacunas de caracter, que lhe tinham ficado d’uma mocidade escusa, e da educação cortada de contratempos. Abandonando as troupes do café e os cenaculos de tabacaria e camarim, que fazem opinião sem a ter, de tudo riem e de tudo fallam, tudo julgando e em todos vendo meritos secundarios, elle afizera-se a illuminar o silencio da sua vida, com a luz d’um talento extraordinario e profundo.
Não tinha admiradores, nem amigos, nem discipulos. E incomprehendido, desconhecido, casmurro, sem a audacia de se impôr, nem paciencia de supportar o insuccesso, o seu coração desconhecia os lances da abnegação desinteressada, e sequestrado, intransigente, com os feros orgulhos do pão secco, e a tristeza furiosa dos que soffreram na infancia, mordia a gloriola dos favorecidos, comparando a sobriedade heroica da sua vida, aos ruidos de encommenda e prosperidade crescente de todos esses inuteis.
Assim, na impetuosa edade em que a vida do artista se inflora n’um bouquet de impulsos cavalheirescos e espontaneos, sem calculos, agiotagens ou reservas, aquelle velho de vinte annos não dava passo sem palpar o terreno deredor, olhando as coisas com um sentimento de atroz analyse e ambição egoista. Um diabo apenas, sabia levar este solitario, interessar-lhe, insinuar-se, fazel-o rir.
Era o Albano, zingaro de escóla, dos que envelhecem a fazer o curso, sempre cabulando, encalvecendo, sabendo de tudo, não tendo conhecimentos completos de coisa nenhuma, e sentindo pelos regulamentos das aulas, desprezos que os graves mestres faziam pagar com reprovações e annos perdidos. Albano era um chupado de oculos fixos, com a sua careca apostolica de falripas temporaes, maxillas de cão rateiro, bocca sardonica com dentes de gume branco, e um corpo rachitico, corcovado, esgrouviando do fato pelas curtas mangas da nisa, e pelas pernas curtas das calças.
Os cafés conheciam-no pela grossa jovialidade, um rir nervoso que punha guinchos d’alarme ao canto das suas palavras, e o phantastico humor cheio de pochades, buliçoso e crivado de ironias, que lhe tinha valido a raiva d’algumas pessoas em bonita posição. Pelos atrios das escolas, essa figura torta servida por uma lingua damnada, punha má impressão, nos premiados sobretudo, onde a sagacidade do cabula teimava em diagnosticar os maiores herbivoros do curso. Citavam a sua phrase de todos os dias, ao encontrar conhecidos, dita n’um rythmo cheio de pausas, que por si já sibilava ironia.
—Bem bom! Bem bom!—Geito amargo n’um canto da bocca, e logo:—Então que escandalos?
Sem nada affectar, andava ao facto de tudo, sabia fallar em tudo, lia tudo, jornaes de sciencia, livros de todas as especialidades, poemas, romances, historia, critica, e musica de todos os auctores, porque é de saber que tocava maravilhosamente rabeca. Se lhe contavam o escandalo suspirado, sem o qual morreria de paixão, de inanição e tristeza, era vêr os guinchos de deleite em que entrava, e interjeições em que todo parecia bulir.
Encontrára uma noite o Arthur na Brasserie, palavras trocadas a respeito d’um chapeu de chuva esquecido, um jornal de gravuras folheado em commum, e ficaram conhecidos. O fato velho de Albano, inspeccionado com attenções minudentes, pareceu satisfazer o nosso homem.
E sympathisaram, tinham entrado logo a discutir, apertaram-se as mãos á despedida, e ás noites depois de jantar, eram certos na Brasserie para o cavaco.
Pouco a pouco, as relações estreitaram-se quanto era possivel em indoles de sobrecenho, como estas. O mais expansivo era Albano inda assim, com as suas mordacidades cortantes, um largo desdem pelas coisas consagradas d’antemão, e a concisa formula sobre os celebres e grandes homens—que tinham todos sua perna podre, podendo esta ter apodrecido em varios pontos do individuo, na consciencia, na cabeça ou em regiões vergonhosas. E a esmiuçar biographias de condiscipulos e mestres, illustradas com os detalhes pittorescos das vaidades assolapadas, calinices ex-cathedra, e desenhos de typos feitos em ar comicamente grave, derivou d’ahi nos personagens mais em publicidade, politicos, litteratos, e dinheirosos influentes. Arthur que o ouvia regalado, em silencio, completou-lhe as vistas criticas, esfibrando então com as glotonerias d’um homem posto de banda, as individualidades da arte, que o outro conhecia pouco; e fez-lhe a sua vida artistica, como antes de estudar em Roma tres vezes fôra preterido nos concursos de pensionista, como vindo do estrangeiro com amplas provas de artista tinha achado hostilidades entre irmãos d’armas, dentro da academia mesmo, e por amor d’ella nos jornaes. E sem recursos, n’um paiz pobre onde os amadores d’arte ornam as salas com oleographias, e as galerias, escadas e vestibulos com gessos e cães de faiança, elle referiu a sua inhospita miseria n’uma agua-furtada de Santos, faltas de modêlos, desalentos e orgulhos desprezados. N’essa causa commum que faziam, chegaram a estimar-se, indo cear economicamente de quando em quando.
Era d’ordinario n’uma taberna do Bemformoso que tinham logar estes festins com canôas, n’um cubiculo pintado de verde, com reposteiro de ramagens, bico de gaz ao alto, e um gato amarello enorme, de collete branco e ar caricatural, que ronronava molhando nos pratos as suas barbas mephistophelicas. Muito especial alli o vinho, um grosso vinho pintado de roxo que alem de servir para marcar roupa, afogar baratas e trazer ictericia a quem se lhe affeiçoava, possuia a inolvidavel magia de dar talento aos actores do Principe Real que o aproveitavam assim por todas as fórmas, na tintura dos cabellos, na collagem das barbas postiças, em injecções e banhos geraes, reviviscencia da memoria, extirpação de callos, ou com sardinhas fritas nos entreactos... Nunca o taberneiro se cançava em fazer o elogio historico do fabuloso elixir.
—Lá em Torres, o lavrador é muito entendido na arte, e homem de todo o aceio. Em apanhando os vinhos na conta champa com elles p’ra dentro d’um tonel novo, onde está um carneiro morto com tripas já se sabe, tudo muito bem lavado. E alli se desfaz aquelle carneiro, n’aquelle vinho, até restarem só ossos. Deixa afinar aquillo muito bem, e sempre digo aos senhores que fica um balsamo mais sustancial! Os freguezes engordam todos que não sei explicar.
—Olhe cá, dizia o estudante, de que morrem as gallinhas cá na estalagem?
—Mas de faca.
—Não se me finja carrasco! Quando desenterraram esta, coiso?
—Que diz o senhor?
—Vá! Em principios do mez passado li eu no jornal o convite da familia para o enterro.
N’estas ceias discutia-se tudo, o Oriente, as doenças de cerebro, mulheres, quadros, aguas de Cabeço de Vide, Beethoven, os coelhos albinos, e quem sahia visconde ou casava rico. Albano que achava a litteratura decadente na área latina, tinha uma adoração por Balzac. Balzac e Beethoven! E o seu olhar fuzilava e o seu coração batia. Havia uma coisa egual a escrever a Comedia Humana, era ter composto a pastoral e a Symphonia Heroica.
Fóra d’isto, nada. Pintava Rastignac desafiando Paris na sepultura fresca de Goriot, e o avaro Gobseck dilatando as pupillas de tigre contra os diamantes d’Anastacia. E essas duquezas de grande ar, dando bailes de rainhas, lançando os amantes nos grandes cargos, enchendo Paris da sua belleza, corroendo a sociedade com o seu espirito e phantasia, aladas, deslumbrantes, desprezando as leis, jogando, empenhando, descendo dos fastigios ás vergonhas, sublimes e vis como a carne em que se insculpiam, punham na cabeça do estudante um intangivel mundo feminino, a que elle dava as suas paixões, os seus formilhamentos e furores de homem. Amar a femea da rua dos Fanqueiros depois d’isso, era uma profanação de ideal. Eis porque ficaria solteiro. E se o outro gostava d’amendoas torradas?
O Albano ia vêr Arthur todos os dias, com o seu cachimbo operario ao canto da bocca, o livro da vespera debaixo do braço.
—Bem bom! Bem bom! Então que escandalos hoje?
—Aquelle idiota do G. que partiu uma perna.
—Ora até que afinal! respondia Albano esfregando as mãos. E como quem fundamenta o seu odiosinho: não era senhor de lhe offerecer um calice, que não acceitasse logo. Bem bom! Foi castigo.
Se nas sessões parlamentares algum dos Castelares que alli grassam, vergastava em demosthenicas o ministro com grossa arruaça das galerias, se um condiscipulo soccava outro, ou qualquer vulto da sciencia fraquejava em conferencias, relatorios ou debates de especialidade, um prazer inexhaurivel fazia o Albano guinchar, bater palmas, n’uma satisfação radiosa e sincera.
E a face de Arthur refloria, parecendo a ambos que os desastres alheios os içavam em triumpho pelo mastro interminavel da fortuna.
Estes demolidores que esguichavam facecias lugubres sobre os immortaloides que nas saias da Academia, á sombra copada dos archivos, encalveciam a investigar da dentuça podre da rainha Catharina e dos bastardos de Sancho, elaborando memorias de estructura cornea; que faziam troça nas procissões e paradas, das mumias de guerra que viam com pompa, cavalgando ginetes e destingindo immorredoiramente ao som dos hymnos; que bandurreavam dos bilhostres politicos, dos oradores, dos paspalhões e obsoletas industriaes nacionaes—moviam processos scientificos d’escarneo contra essa rotina de paiz morto, rindo a ironia dos fortes, com ribaldarias cynicas de triolet. Era Albano quem fallava quasi sempre, inundando as ceias de canôas, com vinho e projectos de regeneração publica, decretos mirabolantes convergindo a resolver de vez, o insoluvel problema da vida portugueza contemporanea. Cada qual se punha então a dizer o que faria em chegando a ministro. Albano optava pela plantação da beterraba em grande, no que havia de gastar o quarto das receitas do Estado. E pequeninas grandes obras collateraes, por exemplo inundar a Europa de palitos feitos á machina, seis milhões por hora; pôr em arremate uns bancos de bacalhau por elle descobertos em Cabo Verde; enviar uma commissão de sabios á China fazer estudos sobre o rabicho... E sempre no fim: Olá, peixe!—Aquillo deixava o esculptor boquiaberto.
—Mas a arte, a sciencia, nada? perguntava elle timidamente.
—Quanto á arte, dizia Albano riscando a careca com a sua unha em garra, estou que daria resultado um conservatorio de musica e choral para os atuns do Algarve. No que respeita a sciencia, fundava em Coimbra uma faculdade anterior ao estudo das mais, a faculdade de pensar. Como vês, é maravilhoso, simples e facil.
—Ahi está o genio, notava Arthur.
—Ai, ai! fazia o estudante, atochando o estomago gargantuano com savel frito. Tinha elle uma irmã lindissima, figura de parisiense, meudinha, nervosa, penetrante, musical.
Como Arthur pelo tempo adeante necessitou procural-o, forçoso foi dar-lhe a morada e franquear-lhe a porta. A casa era pobre, terceiro andar para mãe e filha, com sotão para o bohemio dormir. Arthur começou a gostar da pequenita, a vir mais vezes, a olhar para ella de certo modo.
Depois um nome delicioso—Judith! E o esculptor pensava já muito sériamente n’uma estatua de Holofernes, que tivesse a sua propria cabeça.
Um grande alto-relevo que esculpiu para não sei que fachada, trouxe-lhe renome, por alguns dias exposto. Obra excellentemente lançada, esse alto-relevo d’assumpto biblico, com figuras vaporisadas em attitudes d’uma belleza piedosa e serena, e cabeças do mais fino toque. Essa magnifica pagina de marmore, guardava o symbolismo ingenuo e a bondade lyrica, que impressionam a indole sentimental de todo o bom portuguez. Havia n’ella perfis de medalha, roupas que se collavam respirando, pés e mãos de irreprehensivel trabalho, e o ar antigo que vem da leitura dos prophetas. Os jornaes fallaram da obra, quasi toda a gente foi vêl-a, e o Occidente mesmo deu gravuras, o que lançou o esculptor. Por esse tempo vinha elle para visinho de Albano, tendo alugado um rez-do-chão de que fez atelier e residencia. A casa tinha no fundo uns metros de quintal, recinto ensombrado de grandes arvores e todo chilreante de pardalada.
Com o terreno inclinado, desfrutavam-se em chusmas lá longe, perspectivas de cidade que rebenta de escombros, campos d’arrabalde, quintalorios onde latadas tufavam, terrenos de pão, hortas retalhadas pelos trabalhos da avenida nova, predios em ruina, casas perdidas em jardins, montões d’entulho, bandeirolas, e na linha do horisonte as torrellas côr de óca da Penitenciaria com cimos de ardozia em pyramide.
Debaixo das arvores, o esculptor installára a secção de chinquilho e cricket dos seus ocios artisticos, com succursal de trapesio e barras fixas, da gymnastica que se impunha todas as manhãs, ao levantar. Davam para alli as janellas dos predios proximos, e n’uma que Arthur vigiava, vinha assomar curiosa e risonha muitas vezes, a cabecinha loira de Judith. Adoravel essa cabecinha de craneo pequeno e testa pura, com a sua face magrinha e pallida, bocca em coração, queixo petulante, e um modo de rir com flechas d’aurora nos beiços, de timbrar a palavra em gorgeios, e fazer cauda de x x x aos pluraes—ox olhox, ox cabellox, já sabemox... que encantavam a perder o rude trabalhador de blocos. Qualquer mulher artificiosa de educação e toilette, tel-o-hia fatigado ou ferido mediocremente. Esse perscrutador brutal, acostumado ao estudo das linhas, dos gestos, das expressões physionomicas, todas as mimicas que a estatuaria fixa e modela, tinha o odio dos artificios, dos ares de palco que a vida das cidades imprime aos individuos, e as mulheres exageram cuidando n’elles irradiar toda a belleza. Nascida em orphandade e pobreza, provinciana no coração da cidade, vivendo com a mãe sem relações, entregue ao trabalho caseiro e ao seu piano de estudo, Judith conservava uma frescura cheia de individualidade, ligeirezas d’alveloa a sessenta volteios por minuto, e uma graça bravia de corça, que vinham antes da sua harmonia physica e da sua belleza innocente, que d’uma educação prodigalisada com mais esmero. Arthur gostava d’ella como um velho póde gostar d’uma creança, pela figura franzina, pela alegria casta, e essa innocencia relampagueante dos olhos, viva, curiosa, agitadiça, sem falsos pudores de palpebras descidas ou perturbadas, que n’outra seria petulancia, e era n’ella excesso de virgindade, de creancice e pureza d’alma.
Vestida de claro, percale rosa, qualquer cassa branca franzindo até cima no peito com severidades de virgem huguenote, o corpete esvasando no desenho arabe d’um vaso, mãos luminosas, estreitas, setineas, sahindo dos punhos de renda em brancuras de magnolia, era deliciosa indo e vindo, dos seus bicos de lacre para o piano, do piano para a janella, da janella ao bastidor, do bastidor para a cozinha. E Arthur vendo-a buliçosa, n’um formilhamento de sêr nubente e delicado, com paraisos de neve na carne, toda impaciencias contidas, ondulações de quem está crescendo, gritinhos, risadinhas, começos d’árias e dolencias de larynge, tinha vontade de lhe estender o braço como um ramo d’arvore, para ella vir pousar debicando o seu corsage de madona, no pri-pi-pi matinal das andorinhas na cimalha dos campanarios. O que sobretudo elle adorava nas suas volatilisações d’artista, eram as attitudes de Judith, d’uma tão inconsciente nobreza, pura arte e graciosa factura, que o attrahiam, que o dominavam, enchendo d’egoismos essa contemplação muda de esculptor. Por exemplo, como ella sabia depois d’uma sonata, ficar apoiada no piano por tres dedos apenas, sem peso, sem esforço, o busto um quasi nada para traz. A sua figura tinha assim uma distincção de miss, doirada pelos olhos de loira, cujas fibrilhas claras torvelinhavam com labyrinthos de hydras, nas aguas de uma fonte.
D’entre os hombros sahia-lhe a garganta alta, vergando como haste de flôr rara; o labio de cima tinha ao centro uma gotta de coral deliciosa, que se desfazia no riso, e voltava a tremer, toda pendente, nas horas contrafeitas; e nenhum prazer maior que vêl-a de perfil em fundos violentos, com o seu moderno typo de cidade, exquisito e fino. Tinha a edade em que a mulher está ainda sem sexo e todavia não é já uma creança, fins de infancia em começos de adolescencia, o que ha de mais mimoso na vida feminina, desejos que a admirem e esquecimentos logo d’essa pequenina vaidade, rubores d’uma palavra mais alta, d’um riso largo, rubores por coisa nenhuma. E uma encantadora desordem interior, de ideias, sensações, gostos, e prazeres virginaes! Ditos sem intuito um mez antes, modos de a olharem na rua, qualquer insignificancia quotidiana, alarmavam-lhe agora o natural assustadiço.
Por vezes, de relance, n’essa conflagração de phases vitaes que não tinham podido extremar-se ainda, subitaneas tempestades marulhavam—os seus olhos accendiam constellações de sonho; certas maneiras de detalhar a respiração dir-se-hiam suspiros; cerrava muito os braços contra as costellas, pondo no busto duas azas de amphora etrusca, como se uma febre de abraços lhe viesse. E tão impressionavel, que a menor nuvem a fazia nervosa, e a menor sensação d’altura lhe dava syncopes; em dias de chuva, collada por traz dos vidros, olhos baixos, um susto da fria consternação pardacenta, pousava em immobilidades de chôro, como uma andorinha roubada aos seus novellos de ellipses, pelo bom tempo, no lapis-lazzuli do ceu. E então uma familiaridade a conversar!
Ainda não conhecia Arthur de quinze dias ou vinte, e já sem preambulos entrava a querer saber o que elle tinha feito durante o dia, a que horas tinha sahido, a que horas recolhia, e como é que sendo tão novo, podia viver tão só.
Esse plebeu, rosnador como os cães de fila, intratavel, sem paciencia para massadas, macambuzio e mal disposto, sentia uma immortal felicidade em responder ás perguntinhas d’ella, em adivinhar ao seu lado e por seu mando, todas as charadas e logogriphos do almanach, em guial-a nos desenhos e trazer-lhe florões para bordados. Deante de Judith a aspereza d’elle adoçava-se n’uma timidez serviçal, recolhida se ella o não mandava fallar, radiosa quando lhe sorria. E á flôr da sua larga face operaria, vinha um rubor de felicidade, n’essas visitas passadas em palestras triviaes, casos de jornal e vida caseira, em que desfilava a tragedia narrada pelo localista, as carestias da Praça, uma musica nova, e do que cada um tivera para jantar.
As narrativas de naufragios, choques de comboios, explosões de minas, cidades inundadas, incendios e roubos celebres, duzentas, trezentas mortes, um supplemento algido d’orphandades, viuvezes e desamparos, obras-primas do bello horrido que a phantasia dos reporter-yankees a meudo exporta para chocar os nervos lassos da velha Europa, faziam nas duas pobres senhoras impressão fulminante. Arthur lia o caso, e abaladas, dando exclamações em volta d’elle, mãe e filha commentavam o desastre choramigando, fazendo hypotheses, phantasiando promenores.
A mãe, parando de costurar, calculava:
—Trezentas pessoas mortas, vamos que duzentas eram casadas, e cento e cincoenta tinham filhos... Cento e cincoenta orphãos, já nós cá temos! Nome de Maria! Agora, dêmos cem pessoas a mais de um filho... Onde esta desgraça vae parar! As pessoas a quem estas victimas protegessem, parentes velhos, pobresinhos de porta, creados antigos, empregados das suas lojas... sim, porque haviam ter seu commercio, a sua vida... e ahi fica tudo ao desamparo...— seguia-se um grande suspiro—Ai! ai! Este mundo, bem pensando... E para mais, em sexta-feira! Emquanto uns riem, outros choram.—E já não dormia bem aquella noite. Em que afflicções se veriam os desgraçadinhos por aguas do mar? E que pensariam elles n’aquella hora?
Por vezes Arthur surprehendia-se tambem commovido, porque interessado no contraste d’aquella simplicidade ingenua e sincera, pouco a pouco, sem n’isso reparar, ia sendo por ella dominado. O sentimento de quasi paternidade que lhe vinha ao pé de Judith, revelava-o elle nos presentes que lhe fazia, medalhões com baixos-relevos de Virgens e Christos, beniterios de espaldares rendilhados, albuns de aquarella e carvões de paizagem, flôres, quinquilharias e até ninhos, dos passaros que nidificavam nos grandes platanos do quintal.
Nunca se esqueceria da ineffavel frescura de lagrimas que sentira no peito, a vez que indo vêl-a com uma grande rosa branca, toda orvalhada, ella viera com uns geitinhos infantis tirar-lh’a muito delicadamente, emquanto os seus olhos claros scintillavam. E desfolhando a rosa com os dentes, petala por petala, fôra-a comendo com a especie de gula voluptuosa com que os canarios debicam folhas d’alface, e tendo sempre os ardentes olhos pregados n’elle.
Todas as manhãs ao erguer, Arthur fazia a sua hora de gymnastica revigorante, preparatoria dos trabalhos do dia. Começava com vinte kilos em cada braço, ia d’alli aos saltos elasticos sobre pranchões fixados a variadas alturas, depois fazia as distensões, torsões e suspensões do trapesio, acabando no moinho, grande trabalho de destreza, que exige olho fino, corpo d’aço e precisão de mathematico.
Da janella, se acontecia estar levantada, Judith dava gritos de susto, pedia-lhe para suspender os trabalhos, ameaçando-o ficar de mal com elle, se proseguisse.
Arthur socegava-a com palavras de valentia, intimamente lisonjeado ao menor dos seus gritinhos hystericos—e se na janella do sotão as lentes do Albano brilhavam, era uma festa entre os tres.
O habito de tecer mundos de chimera e bizarrias d’espirito onde residir a maior parte do anno, dava ao estudante a mais completa indifferença, ou apenas alguma ligeira attenção, para as coisas triviaes que lhe giravam á roda. A familia merecia-lhe uma especie de benevolencia, sem effusões nem longos entretenimentos; para designar as duas senhoras dizia—as mulherzinhas, lá em casa; e apenas ás horas da comida, nas preguiças depois do jantar, se demorava a conversar um pouco em coisas que lhe não inspiravam interesse, e deixava correr para o não acharem antipathico. Quasi sempre as suas palavras eram breves n’esses cavacos domesticos, sim, não, está visto, está claro; ou aquelle interminavel—Bem bom! Bem bom! que servia para exprimir tudo, tedio, satisfação interior, fome, desgosto de viver, necessidades de fazer a barba, e assim. Para se não dar ao trabalho de explicar um ponto controverso, estava sempre d’accordo no que a mãe e a irmã diziam. Por vezes fazia á mesa silencios de pensador, sorvia a sopa bruscamente, cortava os pedaços n’uma gravidade de sabio, cabeça baixa, camarinhas de suor no coronal marbreado de calva. Jámais n’esses momentos, ellas lhe interrompiam a meditação, o jantar corria triste. Tinham-se affeito áquella reserva de velho juiz as duas senhoras, e já não estranhavam. A mãe vendo-o calado, pensava no marido que fôra assim toda a vida, macilento, sorvido, com os seus oculos verdes, nevralgias singulares, e cheio de excentricidades. E Judith amava o irmão como um avô, vendo-o sempre benevolo apesar de casmurro, dedicado no fundo, e com pequeninos presentes de quando em quando. Por vezes, os olhos d’elle sondavam-na por cima dos oculos com sollicitudes antigas, n’uma satisfação de a verem galante, com a sua bata de rendas cingida á cintura fina. E as duas foram-lhe descobrindo virtudes tocantes, uma virgindade de gostos, traços de caracter generoso, e pieguices mascaradas n’aquella selvageria. Levava noites a traduzir romances por uma miseria, no intento d’augmentar a modesta renda de que vivia a familia, afim de nada faltar em casa. Nos dias de annos, começos de estação, ou pelas festas, calado sempre, com a sua nisa parda de seis annos, uma corrente de latão no relogio, descia alta noite em meias, do seu antro de doutor Fausto, quando ellas dormiam; e como a boa fada do Natal deixava-lhes á porta dos quartos, na mesa de jantar, sobre cabides, ou nas mais reconditas gavetas do guarda-vestidos, pequenas peças de toilette, quinquilharias namoradas semanas e semanas n’uma vitrine, regateadas, ambicionadas, e por fim adquiridas com a feria, que aos sabbados recebia pelos fasciculos traduzidos. Furtava-se então aos prazeres da surpreza, aos agradecimentos e aos beijos, sahindo logo de manhã como um ladrão. Bem bom! Bem bom! Porque o seu odio pelas effusões domesticas, pelas ternuras choramigadas, ia á ferocidade. Certas calineries de paes para filhos e irmãos para irmãs, envergonhavam-no; nunca tinha dado um beijo; e comsigo mesmo, considerando as femeas, vinham-lhe honestidades de Antonio entre as bacchanaes nocturnas da Thebaida. A rabeca porém era o seu confidente linguareiro, que tudo ia contar, exprimir, soluçar. E o que ella dizia d’esse magricella envelhecido, que doçuras de temperamento lhe sondava, que profunda bondade punha em jogo, que frescura interior deixava vêr, e que indomavel paixão de juventude! Do quintal, Arthur e quem estava, applaudiam deslumbrados; Judith tinha soluços nervosos, toda vibrante na emoção magnetica d’um arco assim movido; Albano apenas, impassivel, limpando a calva apostolica, bem bom! bem bom! sorria um pouco do successo.
Percebera elle o que se estava passando entre a irmã e o artista.
E com um certo riso fazia reservas prudentes, ficando calculadamente a distancia d’aquellas expansões. A rabeca sómente, nas passagens idyllicas de Judith com o esculptor, por Albano adivinhadas ou surprehendidas, ousava em surdina fazer o seu commentario ironico, e dar o seu parecer disfarçado, traduzindo pela vibração chorosa ou risonha, o pensamento occulto do rabequista. As conversas de Judith mais o esculptor, ella da janella, elle do quintal, eram o que ha de primitivo em arte de amar.
—Bons dias, que lindo tempo hoje, não está?
—Está, dizia elle.
—Rico para um passeio ao campo.
—Eu gostava mais no rio.
—Podia virar-se o bote...
E Judith fazia um adoravel gesto de medo.
Tornava o Arthur:
—Então o nosso homem, inda dorme?
—Qual! Foi para a escóla já.
—E a visinha nunca sahe d’ahi...
—Muito pouco! Com esta vista da janella, é como se todos os dias andasse duas leguas de campo.
Ou derivavam no eterno motivo:
—Ora veja como vão adiantadas as obras da avenida!
—Ah, muito! Ainda hontem a casa amarella, acolá adeante, estava em pé, e só lá vejo agora as paredes das lojas.
O esculptor punha-se a explicar a avenida, dizia o golpe de vista decorativo de quando ella fosse cheia de construcções, o palacio de crystal com as suas naves radiando da rotunda em cupula, torres nos angulos com janellas de balaustres marmoreos, arvores de sombra, palacios de mil architecturas, bazares scintillantes, estatuas e jogos d’agua...
—Para esse tempo, dizia Judith fazendo olhos tristes, já não sou viva, que pena!
Arthur phantasiava-lhe a brincar destinos de princeza, ter palacio entre parques, desenhado por Garnier, um coupé tirado por cavallos brancos, um marido conde, que fosse loiro e a adorasse, e primeira ordem em S. Carlos. Vêl-a-hia atravessar a cidade em landeau, na primavera, ás tres horas, sob a tepidez d’um ceu amoroso, toda setim malva e plumas brancas, sem fazer caso dos cumprimentos d’um pobre artista como elle. Ella ria com esforço áquella ingratidão phantasiada, com um oh! de creança resentida. Apoiando no parapeito as mãosinhas brancas, ia-se debruçando para o vêr melhor; a gotta coral do seu labio tinha momosinhos rubros de quem chora—e calados n’um embevecimento, olhavam-se muito serios, com alguma idéa profunda e nupcial. Coincidia com estas tagarellices dos dois, uma preoccupação de Judith em se fazer senhora. Declarava todos os dias estar mais alta, ir engrossando de quadris. Viera-lhe uma febre de ménage, passava dias arrumando, desdobrando roupas, pondo balayeuse nos vestidos usados, marchando como um I para se dar o aspecto imperativo. Todo o seu empenho era representar uma dona de casa; e para isso, como via a mamã fazer, era admiravel desenvolvendo preoccupações, projectos, argucias e pequenos ralhos de cozinha. Viam-na atravessar os quartos com braçados de roupa, muito impertigada, o ar severo, e virar-se de repente a vêr se o vestido ia arrastando. Por não conservar os seus dentes d’algum dia, a pobre mamã tinha de comprimir espevitadamente os beiços, para chamar alto. A careta stereotypada nada tinha de captivante; pois assim mesmo Judith a imitava! Com creanças então, que adoravel miniatura de comedia! Judith pretendia adivinhar todos os incommodos ou appetites d’essas pequeninas poeiras, através das birras mais inesperadas. E mil peças, dançava com ellas, erguia-as ao alto esticando os braços, balanceava-as nos joelhos, estava constantemente a penteal-as, a beijal-as, a deital-as como uma Virgem, no regaço, a cantar para que dormissem, a despil-as, a vestil-as, a inventar-lhes incommodos, como pretexto para fazer brilhar as suas habilidades de pequena mamã. Se Arthur estava presente, estes ensaios para esposa eram mil vezes repetidos, exagerados e postos em relevo, n’um sentimento de pedanteria innocente. Por vezes, no meio d’alguma scena difficil, os olhos de Judith levantavam-se sobre o esculptor, havia n’ella um retrahimento de se vêr observada, e ia-se embora de corrida. Todas estas preoccupações se trahiam n’um tom encantador de caricatura, e contemplando-a, a gente pensava com finos prazeres de bric-á-braquista, n’essas figurinhas d’esmalte tão vivas, walsando no oiro das bonbonnières, fugaces, illuminadas no galante estylo pastoral do seculo dezoito. Mas não raro era tambem um esquecimento do papel, em meio d’alguma postura mais de proposito composta. Então a creança dava de repente um salto, uma risadita, e quebrado o encanto, reapparecia na sua graça plumosa e ingenua d’ave do paraiso.
Os momentos com ella repousavam o artista d’outros fatigantes dias levados na faina de procurar modêlos, fazer moldagens custosas, desbastar a rija constructura dos blocos; e mil attenções postas em bem ferir a estatua esboçada, retocar as coisas miudas da fórma, fremitos de roupas, serpentinado das carnes, todos os pequenos tics d’onde resulta na estatua a volatilisação da vida. N’uma população degenerada por decrepitudes de raça, vicios de grande cidade, privações de pobreza e demasias de trabalho, o esculptor mal achava corpo que valesse a pena copiar. Na sua missão d’artista, em certos dias, era-lhe forçoso então percorrer os centros vitaes da população, os caes, os mercados, os arsenaes, os quarteis, os navios e as fabricas, a buscar entre os pelitrapos e va-nu-pieds do trabalho, as fortes linhas harmonicas dos modêlos.
Era assim que se lhe deparava aqui um pé bem lançado e livre, no garoto da rua ou servente de pedreiro; além as espaduas e braços d’Atlas, estriados, membrudos, sob a camisola de lã dos catraeiros côr de cobre; torsos de damnados miguelangescos entre os forjadores das officinas; e traços de Antinos n’uma ou n’outra cara enfarruscada, adolescencias doces de punhos e jarretes, seios e gargantas fulvas como o bronze tonkin; pedaços de natureza nobre, descorrelacionados do resto e esparsos sem ordem nem logica, por figuras vulgares, amortecidas nos excessos da labuta quotidiana.
E as difficuldades para trazer ao atelier qualquer d’esses donos de um trecho vivo de esculptura, artimanhas a empregar, longos preludios de explicações, promessas de boa gorgeta, uma canceira atroz de persuasões e engodos! As mulheres escandalisadas do convite, injuriavam-no em pleno mercado, rudes ferreiros riam-se d’elle com chascos; e poucos queriam seguil-o!
Alguns ao fim de quatro sessões ou cinco, fatigados de pousar, abalavam e não vinham mais. E Arthur desapacientado, mortificado, nervoso, ulcerado de coleras, destruia o que estava feito, cahindo em longos tedios de ociosidade.
Arthur vivia como um asceta, sósinho em casa entre as ferramentas de officio, desenhos e gessos classicos, servido por um gallego extraordinario de avareza, e visitado por tres ou quatro amigos de seu pae, que raras vezes appareciam. Aos domingos, se acontecia haver numero, formava-se um chinquilho pacato, em que Albano era parceiro do gallego, contra o Arthur que fazia causa commum com o amigo Flores, ártista pintor. Amigo Flores era o jovial folião, que os francezes já modelaram em caricatura, no zinco dos castiçaes baratos, com a palheta em riste e o seu chapéo de pluma derrubado á banda. Era um sêr filiforme de cara quixotesca, bigodes fluctuantes e pera em cauda de rapoza, alto, republicano e cheio de zumbaias, grande cabelleira ao vento, feltro derrubado, botina torta, e umas taes denguices com damas!... O orgulho da sua arte, forçava-o a attitudes photographicas, mão no peito e uma perna arqueando á frente da outra; ou então descoberto, como quem pousa para a historia, tendo um ar sonhador, os dedos na gaforina que de crespa lhe nimbava a cabeça, olhos em alvo, como a meditar o plano d’um quadro. Quando o contradiziam, amigo Flores tinha a phrase:
—Não rebata as minhas asserções!
Era um jacobino temeroso, que nunca se cançava em referir os seus esforços pela grande causa.
Tomando a pera nos longos dedos d’esqueleto, fazia notar:
—Quando vier a nossa republica, a sua primeira obra será dar-me um beijo e dizer-me assim, obrigado, querido pae.
Em mimicas de sagui, todo esguedelhado á moda romantica, com tremuras d’ebrio e palavras jactitantes, amigo Flores fallava então nos trabalhos dos pretendidos clubs revolucionarios, as soalheiras apanhadas na via dolorosa da propaganda, portas que lhe atiravam ás ventas pelas eleições, mil ingratidões bebidas sem queixa. Fazia arremedos de quem investe o toureiro—Sim, que fallasse Alcantara! E Alcolena, e Ajuda, e essa rapaziada dos Terremotos toda, para contarem do que elle João Maria Guedes Flores, sósinho e solitario, tinha feito e conseguido. Por sua energia se levára a cabo no Pateo da Galé, o famoso comicio de 24, onde Ajuda nas barbas da policia mandada por ordem do tyranno, tinha posto as coisas em pratos limpos. E uma data de clubs fundados por elle, o Mortalha e Onça de Alcolena, com duas Liberdades de gesso na sala das sessões, e um realejo alli tocando a Marselheza noite e dia, para arreliar o paço, apre! Se tinham visto o artigo do Trinta, todo escamado? Ninguem tinha visto. Arthur pretendia chamal-o pacificamente aos pinceis então, para discretearem antes sobre taboletas de phantesia, e bellas gallinheiras da Praça, por uma das quaes, Barbara de Loures, ruiva maritornes que enchia o mercado com os seus uberes de turina, entre raspões de hortaliceiros, o ártista andava morto. Mas Albano queria vêr por força como era feito um jacobino, investigar das conquistas do partido popular, metter sonda na obra da revolução. Que não rebatessem as asserções do homem! E amigo Flores ia dizendo que o rei ficava de cal em o encontrando na rua, o Fontes mesmo pensára em subornal-o, dar-lhe posta afim de lhe calar o bico. E d’uma vez na calçada da Ajuda, ia muito bem, matutando sim senhor, e ouve pst! pst! E volta-se, era D. Fernando fazendo-lhe signaes. Podia hoje estar n’uma posição independente, mas não era como esses pandilhas monarchicos que se vendiam por um logar; preferia seguir as suas ideias, ser fiel á causa do povo. Enchia a bocca de povo, a vontade do povo, a soberania do povo, o veto do povo, o suor e mais excreções do povo. E batendo nos peitos concavos, olho acceso, gambia fina, um ar chimerico de walsa, deixava desconfiar pela attitude que o povo fosse elle, grão senhor d’arraia miuda, chefe dos sediciosos, e vingador futuro de mil torturas soffridas. A cada passo, a sua arenga vinha infectada com essas phrases de meeting, tympanicas pela falta de sentido, escorrendo indignações de bacharel faminto, a que os jornalistas vermelhos teem dado voga entre as classes ignorantes, ensinando-lhes a fanfarronada, sem lhes ensinarem coisa melhor. E vinham os direitos do homem, o corpo social, a dignidade humana, as liberdades d’este seculo, tiradas sobre a podridão da corôa, e mil allusões contra o que cada qual fazia por mez... Por vezes, ao atirar da malha contra o paulito do jogo, a vehemencia do ártista era tão soberba, que se ficava n’um panico, á espera de lhe vêr sahir dos bolsos, hordas de federalistas, communistas, todo o arraial d’opprimidos em linha de guerra, brandindo armas, formando barricadas, cantando Ça ira! e roubando lenços d’assoar. Albano mirava-o como um animal curioso, todo grave e compenetrado; e secretamente, como um irmão da seita escarlate, fazia-lhe pequenos signaes de adhesão, applaudia em risinhos, como quem sabe de tudo, na mira de lhe inspirar confiança.
Aquelle apoio vehemente, endoidecia o ártista, que nos dias de loquela entrava n’uma quantidade de revelações d’alta politica. A coisa marchava! Um trunfo dos republicanos dissera-lhe na redacção do Facho:
—Dez como vossê, Flores, e a realeza não dura tres semanas! Tinham mesmo chegado a pedir-lhe artigos de fundo, d’aquelles damnados, d’aquelles fortes. A provincia dava-lhe vivas; Sola e Vira, um directorio do bairro central, chegára a lançar-lhe nas actas, votos de louvor. Isso lá muito fallado! Abria um riso mysterioso para confessar que havia incredulos que se punham a dizer aos seus botões, a republica está ainda para tarde. Não aconselhava ao povo portuguez aquella falta de confiança nos que andavam á testa do movimento. Já o tinha dito no famoso comicio de 24. Na proxima legislatura, seis é que cantavam na urna.
—Seis que? disse Albano.
—Mas deputados! Um d’elles, e amigo Flores descia o olhar, nunca acceitaria o mandato de tão illustres irmãos d’armas.
—Mas Flores, implorava Albano, mau irmão, acceita por obsequio.
—A coisa está séria! dizia Arthur. E a voz de João Maria Guedes Flores, baixava.
No Facho pensava-se em comprar o exercito, havia aguardente para adhesões espontaneas... E agora shut! nada de darem á lingua, hein?
—Eu cá ouvi fallar n’um subterraneo de polvora até ao paço, segredava Albano tendo primeiro fechado as portas, e lançando ás paredes olhares tresvairados.
Amigo Flores recuou theatralmente.
—C’os diabos! Mas é a anarchia! Mas vão-se lançar no puro nihilismo! Isso sempre eu temi! A soberania popular não quer sangue!—Mas Albano atropellava revelações com revelações, tendo o ártista seguro por um braço, arquejante, magnetisado, escutando por todos os póros.
—E depois, não é tudo, homem. Entrou um navio com armas pela Figueira dentro; Celorico agita-se; Santa Comba diz que não paga; Moita poz barrete phrygio; todo o paiz vae levantar-se como um homem...
—Quando?
—Ámanhã talvez!...
—Bem m’o dizia o Guerra! fez amigo Flores, como se prophecias biblicas viessem de realisar-se.
—Quem viver verá as grandes coisas, ponderou Arthur. Inglaterra jámais nos perdoa. E a Russia, a Austria, Hespanha...
—Hespanha, disse o ártista, com os seus males intestinos...