A Cidade do Vício
Madona do Campo Santo
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
—Infeliz! fez compungidamente o estudante. Mas coragem! Grevy escrevera a Magalhães, dizendo-lhe contassem com elle; havia mesmo umas certas palavras do presidente Grant...
Emfim, qualquer manhã, a monarchia acordava pela barra fóra, caminho do desterro.
—Pois vou já convocar o Mortalha e Onça, clamava possesso amigo Flores, rompendo por essas ruas esbaforido, sem mais querer ouvir.
Se concluira alguma obra, convidava toda a gente a ir dar opinião, o Arthur, um porta-machado das suas relações, que lhe servira para modêlo de Herodes n’uma Degolação de Innocentes; o gallego avaro, e quando Deus queria, o proprio Albano. Amigo Flores pintava taboletas, frontarias de loja, e casas de jantar de dez palmos, em terceiros andares restaurados. Onde quer que a sua brocha tocasse, a serra de Cintra era certa, com dentaduras do castello dos Mouros, os torreões da Peninha e damas de azul em pic-nics na relva. Se lhe observavam tal destempero n’uma fachada de talho ou tabacaria, amigo Flores tirava altivamente o seu feltro, esbandalhava a trunfa com os dedos de esqueleto...
—Não rebata as minhas asserções!
E a liberdade com que advertia o esculptor das incorrecções de cinzel, a fereza supraciliar com que o chamava de parte para lhe dizer que aquelle pé, alli, não estava a seu gosto; os modos de velho mestre com que lhe rendia elogios, dando-lhe conselhos, que fosse indo, nada de desalentar, e trabalhasse para ser um ártista!...
Porque no intuito de reconfortar esse talento de rapaz na sombra, pretendia impôr-se como exemplo de lucta, afinal triumphante.
—O caso é, trauteava elle afiambrando a perna, que cheguei á verdade e tenho hoje côr. Custou, mas posso orgulhar-me, venci. Homem, basta um caso—tal campo d’alfaces pintei a fresco n’um retiro de Rio Mouro, que todas as manhãs n’aquella casa, é um poder do mundo de grillos!
Arthur ria benevolamente, dava-lhe cigarros, ia jantar com elle ás hortas nos dias bonitos. Mas o estudante não o podia aturar, mesmo ganas de lhe remendar os fundilhos com lama da bota direita. E encontrando-o donairosamente na rua a cahir das calcitas amarellas, e cambando a bota de joanetes pelintras, passava de largo acenando-lhe com a cabeça calva.
—Vivendo, obrigado. Inda não rebentou o subterraneo de polvora, paciencia! Mas bem bom, a coisa marcha. Saudinha.—E virava a esquina, concertando os oculos.
Uma tarde, flanava Arthur por entre as boscagens do Campo Grande, fumando cachimbo n’uma d’aquellas indolencias d’artista, que abrem lenitivo no meio dos grandes trabalhos, quando ao virar d’uma alea, deu de cara com Albano que trazia um ramo enorme de rosas. Havia talvez quatro noites que o bohemio não vinha á brasserie, coisa de espantar o esculptor, affeito como estava á regularidade desesperante do companheiro.
—Mas que florido elle vem, que primaveril! disse Arthur com grandes expansões. Farçante! Vem perpetrar bouquets fóra de portas, para ninguem suspeitar dos amores em que anda enredado....
Albano ficou a desempoeirar com o lenço, as incommensuraveis botas de duas solas em que velejava. E disse:
—Fui-me vêr um homemzinho áquella quinta, que passa a vida cultivando rosas. Typo curioso de velhote, amador de boas loiças, todo requintado, hei de apresentar-te. Imagina que tudo é do seculo passado em casa d’elle, mobilia, porcelanas, creados, musica, até os gatos. Mas boa gente! Então carregam-me sempre de rosas. Repara que vem aqui soberbos exemplares, hein? E elle, uma paciencia!... Sorvia o perfume das flôres uma por uma, dando pequeninas aspirações sem contacto nas petalas, saltitando d’esta para aquella, como se andasse a educar uma pituitaria intelligente, afim de extremar gradações n’um mesmo perfume subtil. As rosas eram deslumbrantes na verdade, pelo tamanho, pela côr, pelo capricho das volutas petalares, exquisitas nuances de tecido, e caricioso setim dos ninhos interiores, descerrados como escrinios de duqueza ao peso das gottas d’agua que a manhã, boa amiga, lhes chorára no seio ao passar. As escarlates eram colossaes como dhalias, d’um funebre velludo se olhadas de través, com manchas de pellucia cereja destacando das convexidades á luz, e longinquos perfumes onde a narina se embotava e perdia. Uma graça aristocratica idealisava as amarellas, perfumadas de violeta e chá hysson, côr de gemma nos seios, e com petalas quebrando polyedro á volta dos estames, velados n’uma cupula trifoliar de pequeninas peças. E as brancas então, que virginaes!... Pareciam esgotar-se em esforços, ainda as mais abertas, para conservarem fórmas pudicas de botão. E retrahindo-se, tinham castidades de rapariga nua, que depois do banho, toda em perolas d’agua, contra si mesma se cerra, e defende e furta ao amor mythologico dos cysnes. No coração d’essas maravilhosas Ophelias, arfavam roseos tons de carne viva, ondulações molles de femea, e immaculadas frescuras de adolescencia loira, dirieis uma coquetterie de donzella ao apear no primeiro baile. Arthur ia cortar uma das brancas, quando o estudante detendo-lhe os dedos, disse bruscamente:
—Essa não. A outra escarlate é mais bonita, corta.
Mas Arthur preferia aquella branca, qualquer outra, não se importava, mas branca. Não havia de ir pela rua com um paspalhão côr de baeta na botoeira. Albano porem, insistia birrento:
—Corta uma amarella, dizia elle, leva duas mesmo, ess’outra vermelho-esmaiado, mas nas brancas não toques.
Arthur teimando a querer uma rosa branca, perguntava-lhe rindo:
—Trata-se de entretecer corôa mystica para alguma irmã hospitaleira da tua paixão? Mas que extraordinario scelerado!
Houve mesmo uma lucta entre os dois.
—Larga! implorava Albano. Tenho apenas seis rosas brancas. Uma que leves faz falta.
—Mas porque essa avareza?—E o esculptor a insistir, a não largar! Albano vencido, tomou-lhe o braço, mas sem deixar cortar a rosa. Era o cahir da tarde, foram conversando em direitura ás portas, já o sol amarellecia nas arvores.
—Homem, disse Albano, pondo o lenço em torno ao pé das suas preciosas flores, é que se dá uma coisa singular.
—Por exemplo? fez Arthur como quem se não deixará embair.
—Não me dirás, porque é que pondo nós hombro a hombro de todos os sêres que nos são uteis, um medico que lhes vigia os menores actos, desde que nascem até que morrem, não dispendemos eguaes cuidados no que toca á nossa propria conservação? Por mil sabios artificios de cruzamento e alimentação, chegamos a conglobar n’um cavallo as qualidades de força, elegancia, ligeireza e bravura, que separadamente faziam as caracteristicas de muitas castas diversas. Ha botanicos que se esgotam a procurar em flôres, em tuberculos e fructos, os effeitos de coloração e turgecencia mais inesperados. Conheces a lenda das tulipas azues, tens já visto peras de seis kilos, sabes d’aquella casta ingleza de bois quasi exclusivamente feitos de musculo, e não te são estranhas por certo essas maravilhosas aristocracias de cães, pombos viajantes e animaes ferozes convertidos á domesticidade, traduzindo o resultado de dezenas e mesmo centenas d’annos, da tenacidade e sciencia do homem.
Pois emquanto dos typos estancados, das fórmas envelhecidas, e da nutrição quasi morta, fazemos jorrar impetos de seiva nova, forjamos modêlos viris de raça, e nucleos de mundo capazes de viverem outra eternidade, nunca pensámos seriamente em restaurar, decrepitas gentes que somos, a pobre familia humana, pelo mesmo processo por que depuramos um cavallo, uma tulipa, ou crystallisamos artificialmente um diamante.
—Os elementos de ensaio tão passivos abaixo de nós, não offerecem a mesma docilidade no bicho homem, disse Arthur, e o estudante encolheu os hombros sem se importar com isso.
—Resulta que a depauperação dos sangues, a senilidade dos corpos, e envilecimento consequente de tudo aquillo que originava força, andam tão horrivelmente adiantados, que em breves seculos meia familia greco-latina ter-se-ha extinguido inteiramente. Por agora desapparecem familias e classes; mais tarde irão na voragem nações e povos inteiros, pela immobilidade das allianças e acção corrosiva das aptidões morbidas, que todos os dias engrossam de numero e violencia. Já olhaste bem Lisboa? Vale a pena como estudo de monstruosidade. Por cem mil habitantes, trezentas mil enfermidades, tres enfermidades por habitante. Velhas molestias do tempo das Conquistas, trazidas de todo o mundo em despojo de vassallagem, copulando ha quatro seculos através da nossa pobre raça, teem gerado uma tropa extravagante de males que pullulam com vida propria, divergindo conforme a cachexia do tronco que apodrentam, multiplicando-se, resistindo á therapeutica, disfarçando as suas operações, indo a degenerar por graus e descobrindo n’uma recahida, a guela hiante das baterias, dando cabo de nós com tanta elegancia, tão scientifica, tão precisa, tão artistica, tão mathematicamente, que achamos graça á partida, e ao carrasco sorrimos de gratidão, no ultimo alento.
Todos os annos esta aprazivel cidade brinda os seus habitantes com uma febre nova, e á similhança das publicações com gravuras, que distribuem chromos no fim dos volumes, anda ella preparando para d’aqui a tempos tambem, a sua febre colorida, venho a dizer amarella.
Em doenças nervosas, vê tu a inesgotavel variedade e a exhuberancia de padrões! É tudo que vae do tic nervoso, tão patusco, as convulsões macabras da eclampsia. O divertido é então approximar duas affecções pelos reophoros, isto é, um macho e uma femea, para depois ir estudando a incommensuravel progenie resultante. Conforme estatisticas, Lisboa tem hoje por este processo dez vezes mais doidos que pessoas de siso, e mais ha quem chame idiotia ao siso d’essas pessoas.
—Exige-se em resumo que o medico intervenha, vamos, disse Arthur que não tinha prestado attenção.
—Tal qual! affirmou o estudante. Hygiene em scena, para refazer o homem senil, couraçal-o n’uma energia d’aço, estriar-lhe musculos, engrossar-lhe os ossos, agigantar-lhe a estatura, e pôr-lhe o cerebro alli bem lucido. As exhuberancias da saude fal-o-hão moralmente grande, sagaz e leve, com o sentimento viril da honra, susceptibilidades no brio, benevolencias para os fracos, e olho vivo para descortinar ao longe os perigos. Emfim, hygiene, para garantir o futuro do mundo. Até aqui os governos tem posto cada miseravel que nasce, entre o padre e o cabo de policia. O padre faz d’elle um idiota e um cobarde—o cabo de policia reverte a coisa que fica n’um contribuinte. Precisamos mandar á tabúa o reverendo, e pôr a distancia o esbirro; depois do que, o medico dará o braço ao misero explorado, para lhe ensinar a ser um homem. Constituido em dictador, o medico crearia a phalange lacedemonica da Hellade, adaptada á vida moderna, prescrevendo aos fortes o programma d’educação de Gargantua, e pondo o resto em tratamento.
—Esse resto, por signal que te havia dar cuidados, disse Arthur bocejando.
—Não conseguiria talvez regenerar engoiados, mas havia de pôr embargos á propagação dos aleijões e contagio dos virus. Antes de lançar o que chamam tributo de sangue, a lei diz ao conscrito: despe-te! Eis o que eu faria tambem, antes de dar ingresso na vida social a qualquer trocatintas.
—Vago, disse o artista. Em conclusão, pareces-te diabolicamente com o menos fluente dos parlamentares que achincalhas. Escusas de proseguir, sei o que vaes dizer—e foi volubilmente arengando— que o problema era fazer sabios em hercules; d’ahi para cima não custava crear sociedades modêlos. Admittamos! Uma vez extremados os fracos dos fortes, creada a tal guarda lacedemonica com o seu espirito de casta assente na força e no saber, urgia só pôr de observação os sêres inferiores, para lhes extrahir pacientemente, as parcellas de utilidade que os desalmados tivessem a habilidade de dar. A vêr como? Vigiando de perto esse burgo suspeito, como a Judeia vigiava os leprosos. Fazendo essas entidades mortificadas voltar pela descendencia ás fórmas modêlos, que a hygiene houvesse imposto em craveira, antes de conferir diplomas de cidadão a alguem. Oh! dirias tu, nada mais simples de conseguir. A sciencia é muito explicita n’este ponto. E citarias apparatosamente. Se por um lado, os principios morbidos de dois sêres que procriam, vão multiplicar-se no feto e não sommar-se; por outro, os elementos morbidos de qualquer dos progenitores pouca preponderancia alcançarão na progenie, se o progenitor restante possuir em excesso perfeições, que por hereditariedade fossem capazes de neutralisar a doentia acção d’aquelles elementos. Seguir-se-hiam exemplos tirados de fontes insuspeitas e puras. Conta Chiara que M.elle X, 38 annos... O grande Perroud constata que n’um logar dos Alpes, um couple da melhor saude... E mais o doutor este, e alienistas, hygienistas, facultativos militares, um pandemonio de principes da medicina! Podias mesmo aproveitar de Balzac, trechos arrancados á Physiologia do Casamento, sobre o instincto da mulher procurar marido nos temperamentos oppostos ao seu, a sua habilidade genetica de corrigir nos filhos a saude dos paes, e certos vicios mesmo de conformatura, a menos que se não trate de qualidades exclusivas ao homem, como fórmas d’esqueleto, estreitura nas cadeiras, pernas direitas, força muscular, coragem... E para cortejo, sendo preciso, versos de Horacio espremidos no proposito de escorrerem fulminantes conceitos sobre os maus cruzamentos, nebulosas do Hamlet ditas a Ophelia no mesmo sentido, emfim a cavalgata de logares communs que os eruditos gostam de vêr piaffar nas memorias e conferencias.
—Bem bom! dizia Albano, bem bom!
—D’aqui, um mundo de leis a catalogar para uso dos vauriens do teu lazareto. Exemplos. Quanto germina, quer solo estrangeiro. Brada aos ceus propagar monstros, até as artes soffrem com isso. Assim, ordenarias pelas allianças, grandes transfusões de sangue primitivo, rutilante, fecundo em ímpetos. Angariar colonos nas boas raças estranhas e novas, magnificos escocezes de seis e sete pés, camponios do Wurtemberg, lombardos e tyrolezes filhos dos colossaes modêlos de Buonaroti e Bandinelli, e negralhões do Cabo, que tu affirmas serem brancos engraxados, por birra de fazer divergir, na fachada ao menos, a civilisação africana das mais. E punir de morte casamentos entre primos ou individuos com elemento anatomico do mesmo signal, já que de constituições identicas só brotam degenerados e monstros. Nervoso que desposasse nervosa, zás! cabeça fóra. Primo que aza arrastasse á prima, costa d’Africa com elle, não é verdade? Mas, notou Arthur com modulações comicas de phrase, palavra de honra que não vejo em tudo isto, coisa que justifique a tua ignobil avareza de rosas brancas para um velho amigo, que tem por essas maravilhosas flores uma fraqueza das mais irresistiveis. Calculaste mal, meu velho! A divagação de hygiene não deu para me engodares até casa, e eu não vou d’aqui com a lapella desmobilada. Uma rosa, vá!
—Meu pae, proseguiu tranquillamente o estudante parecendo não ter ouvido o que o esculptor dissera, era um nervoso de humor oscillante, cheio de feítios bizarros, susceptivel d’estomago, vivendo de palpitações bruscas, e com dias de não fallar a ninguem.
Confesso-te que me custava a soffrer ás vezes, pobre homem! Então repentes, um domingo rasgou o papel da sala, escarlate, porque diz que lhe estava a arrancar os olhos por dentro do craneo, e eram dôres horriveis. Superficies polidas, muito vastas, allucinavam-n’o, punha-se aos gritos, inteiriçado n’uma convulsão; e em cincoenta annos de vivo não foi senhor de correr a mão por velludo, que a syncope logo o não castigasse. Só a musica domava esses estados, cahia em somnolencias, lingua traçada, era atroz! Quanto a minha mãe, é a mulherzinha que tu sabes, semanas inteiras preoccupada com as mentiras lugubres dos jornaes, chorando o infortunio de toda a gataria dos visinhos, psalmejando rezas nos dias aziagos, e não comendo carne por ser crime matar animaesinhos de Deus. Accrescenta a isto irritabilidades e niquices do mais doloroso hysterismo, explicadas sempre pelo que a superstição tem de mais phantasmagorico no sacco; terás a pobre senhora! Ouve agora a descendencia d’este casal singular: entre a Judith e eu, viram a luz tres pimpolhos. Um que morreu á nascença; outro surdo-mudo, com uma cabeça medonha, esteve doze annos n’um grande berço de verga, até que se foi. Mas o terceiro está vivo e escorreito, e vae deitando um corpo! Por exemplo, fez dezeseis annos hoje. Vemol-o tres vezes por semana, pódes vir comnosco um dia, é aqui perto...
Estavam a meio da avenida Estephania, escurecera—e corriam terras de cada banda, alteando aqui, socavando alem, esfumadas n’um vapor sepulchral que o gaz estrellejava. Á esquerda, na planura que declina cingida em altos gradeamentos, como iam entrando na cidade, viram a mole do hospital Estephania boquiaberta de janellas, flambar por dentro a vida lugubre da enfermaria, como um Molloch punico, digerindo ao rubro algum sacrificio humano. Da direita era um muro de hospicio, fechando terrenos carcomidos, onde muito para lá, na impassivel sombra, um gigantesco dado dormia. N’isto vieram de lá grandes vozes de clamor, elles tinham-se parado a ouvir. Eram cantigas n’um tom destoado, arrastando-se, esguichando em uivos, rouquejos sanguisedentos, brados de gente que pede soccorro, e esse rir imitando o rir humano, sardonico mas inconsciente, que faz arripiar os cabellos. Arthur surprehendido, perguntou que seria.
—São as jaulas de Rilhafolles, disse Albano, é talvez meu irmão a festejar os dezoito. Deixei-o agitado hontem, o director mesmo fallou em lhe reprimir as vivacidades com um certo collete, que me parece ter grandes sympathias na casa. É a primeira vez que lh’o vestem. Nem admira, a gente está em uso de estreiar fato novo pelos anniversarios. Elle põe um bello collete. Bem bom! pobre rapaz, bem bom!
—Que? Está além doido? disse o outro.
—Sim, fez com uma affectação de indifferença o estudante; mas ha já tempos, tanto que nos acostumámos. O vaidoso persuadiu-se uma occasião que era el-rei D. Diniz, e ateimava que era, e partia tudo apesar de o acreditarmos; d’uma vez lá em casa, teve uma furia que ia estrangulando as mulherzinhas. De então para cá, essas convicções teem descido com o hospital. Agora imaginando-se milho, foge das gallinhas para não ser tragado. Mas cuido que as metempsicoses não param aqui, porque se declara amphora de vidro, chá preto, uma infinidade de coisas, conforme as luas. Ora não me chamarás orgulhoso, ouvindo da minha propria bocca que sou o filho mais bem conformado de meus paes. Olha bem p’ra mim, tens por amigo um velho de nascença. Quanto a minha irmã... —Arthur pozera-se pallido, e por seu lado Albano mirava cuidadosamente o esplendido ramo de rosas.
—Essa tem saude, ao menos, aventurou o esculptor.
—Saude! Terá; o certo é que fazemos prodigios todas as manhãs, para ella tomar uma chicara de leite e dois biscoitos. Porque nunca tem vontade de comer, nunca!—Mas logo, mas ao jantar, mas eu não posso, mas se me faz mal; um desespero, homem! A outra mulherzinha chora, e eu alli feito carrasco, para ella ter medo e almoçar. Hein? Se elles me vissem a metter pedacinhos de biscoito pelo bico do canario a dentro...
—Que ha de a gente fazer, disse Arthur.
—Sim, tornou Albano, toma-se amor a estas bagatellas, por mais que se não queira. A Judith, tu não imaginas, pesa tanto como uma penna. Depois seccuras sempre, noites de ficar anichada n’um capote meu, ao pé da mãe, com medos de tudo. E allucinações então, não se falla. Enfia altas horas pelo quarto da outra, por um estalo que ouviu no sobrado, os olhos do gato ás escuras, qualquer badalada na Estrella; precocidades, umas melancolias que eu nem sei... São os paes conspirando no sangue para darem com ella na cova, como acabaram com os outros!
E ahi está no que dão allianças degeneradas. Aquillo vae-se definhando, definhando, e verás que me morre um dia, ámanhã, sei lá, quando mal me descuide...
—Diabo, disse Arthur fazendo ares joviaes para lhe afastar os maus sonhos, estás lugubre como um cangalheiro. Sabes lá que vae succeder, sabes lá nada! Ora fallemos d’esse ramo de rosas que evitas como um escolho de palestra, e eu persisto em não largar. Desde que nos encontrámos, te fiz saber que não passaria sem uma grande rosa branca esta noite. Tens cinco minutos, vá!
—Ah, sim, as rosas, tornou o estudante. Aquillo é antes um insecto que uma rapariga, não queres saber? Vive de rosas.
—Todas as raparigas vivem de flôres, mais ou menos.
—Effeitos poeticos no caso! Com a differença que a Judith mastiga n’ellas, engole-as, suga-as com um deleite inexprimivel. É mesmo o unico prato para que não perdeu o appetite. Isto de pequenina; mas o vicio tem ido a crescer. Talvez lhe evitem hemoptyses, por isso lh’as deixo comer: tudo tem as suas compensações. Desde que está nubente, nos periodos criticos, sabes, certos dias de raleira, ou em tendo febre, aquillo torna-se n’uma sofreguidão feroz, uma voluptuosidade de larva horticola, e põe-se a devorar cabazes de rosas como uma esfomeada. Em casa fazemos provisões, deves ter notado. Por exemplo, nunca ficamos sem ellas de noite. É como quem sustenta um passaro. Mas custa caro esse luxo excentrico. Por vezes o mercado está exhausto. Immediações de bailes ricos, ou vesperas de dia santo, pedem um dinheirão por meia duzia de flôres fanadas. Então a mãe vem dizer-me: se fosses vêr os Fonsecas, eram velhos amigos de teu pae, inda assim não estejam doentes...
E ahi venho em peregrinagem á quinta do meu amigo do seculo passado, aturar-lhe as manias, ouvil-o sobre porcelanas, familia rosa, familia verde, as cinco côres de Ming, e revestiduras craquelées, e as cascas d’ovo, e potiches du Barry, e um labyrintho de classificações, de fôrmas extravagantes, de fabricas, de seculos e biographias de fabricantes celebres, de fazerem bocejar o mais authentico christão. Então pergunto pelas collecções de roseiras, fallo do tempo que faz, finjo interessar-me todo em coisas de jardim, aterro-me das bichas-cadellas comerem os pobres botõesinhos novos, digo especies ao acaso...—E a Judithzinha, quer saber a velha Fonseca, inda gosta muito de rosas?—Oh, sempre!— Fonseca, o teu braço, diz a boa matrona. Ouves? Inda gosta muito, pobre menina! Vá, mandemos-lhe um bom ramo, que fazem as rosas n’essas roseiras?—E os dois adeante, ajoujados como quando eram novos, borboleteando pelas ruas da quinta, parando em frente das roseiras mais raras, colhem, colhem.—Se eu tivesse uma filha! medita em voz alta a velha n’um suspiro esteril, e o Fonseca todo risonho vae-lhe dizendo que aguarde, tudo póde ser... Ella tem o seu riso doloroso de senhora só, e pondo-lhe no hombro, coquettemente ainda, a touquinha branca, muito florida de laços roxos, diz-lhe n’uma censura amigavel:—Promessas sempre tu tiveste. Mas só promessas, grande mau!—E trago de lá um soberbo braçado de rosas frescas, com muitos beijos e muitos recados para as mulherzinhas, chova ou vente, seja inverno ou seja verão. Que diabo, não te rirás, mas fico contente comigo, parece que ganhei o meu dia. A gente tem pieguices tambem, uma ou outra vez. Judith terá hoje uma bella ceia. Bem bom! Judith vae regalar-se por dois dias com as melhores rosas de Portugal. Até me ponho somitego, todas as rosas me parecem poucas para ella.—E pondo-lhe o ramo deante: vá, corta a tua rosa branca, a Judith é mesmo uma perdição que tem pelas brancas. Eu até faço experiencias. Quando ella fica uns dias sem rosas, appareço-lhe com uma no casaco, casualidade, assim como não tendo feito reparo. Nos primeiros momentos desvia os olhos, conversamos, vou-me demorando, porque assim, porque assado, e vejo-a erguel-os de repente sobre a flôr, scintillantes de gula; ora experimenta um dia! A palestra vae sobre mil coisas pueris, e ella agitada já, a não estar dois segundos no mesmo ponto, a piscar as palpebras com os primeiros symptomas d’uma fascinação quasi toxica. Quer então abalar desgostada, sabendo que estou alli para a vêr debater-se nos seus nervos, mas a rosa é mais forte que ella, muito mais, muito mais. E vem tocal-a com piparotes amaveis, vae, vem, anda á roda de mim borboleteando, a fingir que está bem, e a rosa lhe não deu mau olhado. Repara-lhe nos olhos, de coisas medonhas que dizem, voracidades, furias, todos irritados de fluido, lampejantes, dando punhaladas na flôr! Mas a rosa vence-a, pobre Judith, vence-a de todo, e vem tirar-m’a da casa subtilmente, põe-se a cortar-lhe as petalas ás dentadinhas: está prompta! Depois o paladar mais scientifico, um sentimento da equivalencia sensorial nos varios sentidos... Dás-lhe uma rosa ás escuras, ella mastiga-a, e diz-te logo a côr que era, o grupo que a flôr marcava n’alguma grande familia, tudo. Mas morre, verás, aquillo morre. Fortunas minhas! Nem de rosas se póde viver, que eu saiba.
Enfim, disse elle estendendo o ramo para Arthur, tira lá uma, tira.
—Não, fez o esculptor bruscamente.
—És tolo, gritou Albano, corta essa tal rosa branca, vão muitas aqui para a ceia d’ella.
—Palavra que não quero, insistiu Arthur. Era graça, gosto lá de flôres!
Albano teve um riso nos cantos da bocca, disse bem bom! bem bom! no entono de quem fica rosnando, e foram subindo a Alegria caminho de casa.
O esculptor marchava distrahido, um pouco atraz do companheiro, mãos nos bolsos, cachimbo apagado, absorto n’aquella doentia singularidade de Judith comer rosas, tão extraordinaria, ligeira, graciosa e poetica, que dirieis um episodio de lenda mystica, pintado por algum veneziano da edade gothica, em fundo de oiro byzantino.
Pela mente do artista alava-se essa vaporosa e singular creança, como o colibri mais ligeiro e a borboleta mais velludosa, na metamorphose do insecto que espaneja pedrarias das azas, e no perfume dos calices orvalha a bocca em sede.
Sob a algidez d’um raio de lua, vel-a-hia volitar de cabellos esmanchados pelos rosaes do paraiso, entre flocos de neve, levada no rythmo das walsas do Freyschutz, toda pallida n’um sudario luminoso, e com a belleza morta d’essa Mathilde que o Dante evoca trazendo flôres no regaço, dolorosa e vaga, nos tercetos do Purgatorio. Adejaria entre rosas, pousando os labios na viva caricia d’esses corações vegetaes, toda banhada n’um rosicler de pureza infinita. E a cada passo, bemfazejas e candidas, ondulariam flôres em saudações amorosas, supplicando a esmola d’ella as colher na passagem.
Junquilhos haviam talvez bordar-lhe grinaldas de noivado, na fimbria austera da tunica; lilazes e jasmins de neve viriam pelos seus cabellos rolar, na audacia de lhe sorverem os celestes perfumes; lirios brancos e palmas lhe brotariam do peito immaculado; humildes floritas viriam adoral-a á flôr das relvas, para morrer sob os seus pés, depois de lhe haverem beijado as frias mãos d’estatuela, admiraveis e brancas.
E esquecendo as mais flôres, sempre preferindo as rosas, indo por entre ellas n’uma via lactea de perfumes, e colhendo-as com dolencias musicas de gestos, para encher regaçadas, coroar a fronte, ou debical-as uma a uma, com a sua graça d’insecto, Judith iria atravez os interminaveis jardins da bemaventurança, serenamente, ligeiramente, transfigurada n’uma expressão divina de repouso, plastica e impalpavel a um tempo, no manso vôo espiritualisado e extatico d’uma Assumpção do Veronezo, sempre, sempre...
Entanto chegavam á porta do Albano, que disse ao esculptor para subir. Mas passava de nove horas, Arthur vinha um pouco fatigado, e separaram-se. Seguia o esculptor caminho de casa n’uma prostração doentia, cabisbaixo e lento, quando ao voltar da rua esbarrondou com um par amoroso, que ao rez das paredes, buscando o auxilio immoral das sombras, velejava cochichando no melhor aconchego.
Casualmente Arthur voltara-se, e pôde vêr uma grande dona de saias bufantes, em passo de carga, dando o braço a um louva-a-Deus de grenha espessa.
—Eh Flores! fez elle sobre o par que se ia escamugindo já por uma travessinha mais aphrodisiaca. Eh Flores!—E como o par fazia não ouvir, e Arthur necessitava de fallar ao ártista, foi-lhe na esteira com grandes brados—Eh Flores! Eh Flores!
Monteado por tão insolita maneira o jacobino fez alto, poz a dona n’um recanto, e veio parlamentar com o perseguidor, bastante mal humorado.
—Diabo, diabo! Que systema pessimo rebater as asserções d’um homem que vae espairecendo com sua dama um bocado. Que me quer vossê a estas horas?
—Quem vem a ser aquella nau?
—Que? Nau! Aquella é a grande Barbara de Loures, que vendo-se adorada por um homem das classes superiores, não pôde resistir-lhe.
E baixando a voz n’uma lascivia desordenada e surda: de encher a cama, c’um raio! Em eu as vendo de barba, hum! já sei—com’as castanhas, muito boas e muito quentes. Diz que só ajuntando-se... Mas ando a vêr se a atraco pela politica. Que a gaja é uma republicana escamadissima. Para embrulhos não quer senão o Facho. Ai, mas que carninhas!
—Pois é matriculal-a, disse Arthur.
—Hein? fez amigo Flores espinoteando, como beliscado no posterior das zonas medias.
—N’um club jacobino, está visto.
—Ando a pensar em servir-me d’ella para tornar os mercados republicanos. Isto, passada a lua de mel! fez elle com grande ostentação. Olhe que se angariam n’aquella Praça magnificos correligionarios, gente destemida, malta de pulso, arruaceiros! Entre as mulheres sobretudo. Porque as mulheres são uma força desaproveitada, já ousei dizel-o no famoso comicio de 24! Ellas muito serviçaes, muito sinceras! e nas bernardas, olhe que não sei! Em summa, Alcantara com dois ou tres clubs de femeaço, dá brado. Se tal metto em cabeça á grande Barbara, ella por um lado, eu por outro, e não dou á caranguejola do throno um mez para se mandar mudar. Que eu tive já esta ideia para creadas de servir. Mas vossê sabe, a municipal incute-lhes respeito ás instituições. Emquanto estiver a guarda, podemos contar que a creada de servir é pela monarchia.—E circumvagando olhares desconfiados, poz-se mysteriosamente a dizer que o não largavam, malandros! não era senhor de fazer um passo na rua.
—Mas quem? perguntou Arthur.
—A policia, homem! Como lhes faço medo, mandam-me guardar á vista. Erros do paço. Pois vou-me. Não sabem elles que a obra da revolução é fatal como a das tempestades. Até sempre. Marcha-se porque se marcha; é boa essa!
—Espere cá, espere cá, disse Arthur que não tinha podido sustar-lhe a verborrhêa de Quixote vingador. Preciso de vossê, appareça de manhã. Quero sessenta roseiras do melhor, custe o que custar. Pés com flôr, o mais vigoroso que houver. Ámanhã sem falta então. Conhece vossê quem venda?
—Eu não, mas a grande Barbara deve ter noticia d’esse ramo de commercio. Não gosto de rebater asserções de ninguem, mas é muito, sessenta roseiras. Dará vossê baile?
—Não, dou de jantar a alguem, d’aqui por deante.
—Caspite, provaremos dos vinhos. Então casa armada? Se vossê faz gosto, pintamos-lhe frescos na casa de jantar. Alguma coisa no genero Pompeia, como se não conhece por cá.
—Não, não, disse Arthur. Só necessito as roseiras.
—Concedido. Adeusinho. Soube vossê da grande manifestação republicana do Mortalha e Onça em Caparica? Anda tudo ahi cheio, guarda reforçada. E o ministerio cae!
Imagine que eram os clubs todos, mais de trinta pessoas, tudo em grande burricada, com barretes phrygios e cannas verdes, cantando a Marselheza. O Trinta botou artigo de fundo. Ah, foi imponente! Ao jantar vieram felicitações dos democratas da Amora. D’esta vez o rei embarca! O meu discurso vem no Facho, vossê deve ter lido.
—Não li.
—Vossê não é homem que se instrua com jornaes. Indole molle. Faz mal. Eu cá, sempre na brecha!
—Olá! disse a matrona com grandes berros de impaciencia. Despachar, gentes.
—Adeusinho, que a dama desafina. E os malandros a rondarem-me os passos. Eu vos direi, tyrannos! clamou elle mostrando punhos ameaçadores ás esquinas desertas. Então de manhã. Eu indago das roseiras. Saudinha. E trate de me vêr aquelle discurso, homem. Vem no Facho de hontem, terceira pagina, ao alto da quarta columna. Lá verá asserções que ninguem póde rebater.—E foi-se a passos tragicos, com as abas do frac avoejando.
Em tres dias fez-se uma revolta em casa do esculptor. Veio terra vegetal para grandes canteiros talhados de redor das paredes, e em volta ás arvores; um jardineiro plantou com mão profusa as roseiras compradas a Campo d’Ourique, no Petit, ou remettidas pelo Loureiro do Porto. Ao mesmo tempo adquiria Arthur dois grandes volumes de floricultura, disposto a estudar a fundo o problema das rosas. Muitos exemplares que não cabiam no jardimzito, povoaram o atelier, alinhavam-se no corredor, e dir-se-hia velarem o somno do pobre rapaz, espreitando para dentro da alcova. A residencia então tomou um ar permanente de festa, onde os perfumes erravam de em torno ás estatuas, n’um mysterio nupcial que fazia inda mais triste o artista. Da janella, toda friorenta n’um chaile, Judith tinha assistido aos trabalhos, com uma sollicitude attenta e silenciosa. Albano não apparecia, por seu lado.
—Então faz-se agora jardineiro? disse ella quando uma noite o esculptor lhe trouxe o primeiro bouquet de rosas brancas. Elle balbuciou confuso o quer que fosse em explicação—que as manhãs eram longas, tinha agora pouco trabalho, era um meio de entreter tempo. Depois adorava as rosas. E aqui fez por exaltar-se, tivera predilecção por aquellas flôres desde pequeno. E como ella mordendo as petalas devagarinho, uma a uma, o mirava com os seus olhos attentos, Arthur cada vez mais escarlate balbuciou coisas vagas, e a voz perdeu-se-lhe. Essa vez fallaram pouco. A mamã dormitava no seu quarto, o irmão sahira para um leilão de livros.
Ella tinha uma roupa escura muito simples, cingida ao corpo e cahindo em pregas amplas, onde a brancura das mãos ficava luminosa apertando o bouquet. Pareceu-lhe mais alta, nunca elle a vira tão pallida, e d’um austero tom cahindo para rigido, quando se faziam silencios entre os dois. Puzera uma romeira branca collada ao pescoço n’um desenho monacal. E contou a Arthur que se sentira doente n’aquelles dias, um frio nos ossos, pequenas tosses que a fatigavam, de noite mesmo sonhara coisas funestas.
—Porque não veio cá? disse ella em queixume. Foram uns serões tão tristes!
—Outro dia larguei Albano tarde. Podia incommodar, não subi.
—Incommodar! fez ella com um modo admirado. E voltando á sua ideia negra contou d’umas borboletas sombrias, que a mamã vira entrar pela janella á noitinha. E o tempo mais frio, sempre nuvens, parece que tudo chora...
Ia comendo irresistivelmente as rosas, toda disfarçada e a medo, como uma creança que faz uma maldade.
Á porta da escada, quando Arthur já se ia embora, ella com modos acanhados disse que lhe queria pedir uma coisa, mas tinha vergonha, receava que elle se puzesse a rir.
—Oh não, disse o esculptor todo serio. Que é?
—Guarde este dinheiro, tornou Judith muito baixinho, guarde, foi d’umas rendas que fiz para o armazem. E entregou-lhe dez tostões —Agora oiça cá, é muito serio, sim, muito serio. Alli defronte ha uma capella, mande lá dizer duas missas, no altar de Nossa Senhora do Rosario, minha madrinha; prometta, ande.
—Mas prometto.
—Diga ao padre que é por intenção d’uma pessoa doente, que necessita muito de viver. Diz, sim?
—Digo.
—Eu estarei na janella da sala rezando. Sabe rezar? perguntou ella ingenuamente.
—Meu Deus, ensinaram-me.
—Inda bem, Nossa Senhora ha de ouvil-o. Tudo o que eu fôr ganhando será para ella, coitadinha, que é pobre. E não diga a ninguem, nem á mamã, nem ao Albano.
—Posso saber, disse elle, por quem faz esses sacrificios?
—Nada, respondeu ella baixando a vista. Vae sendo velhinha a mamã, e depois Albano não vive senão com livros. Para lhes tratar da roupa com amor é preciso ser da familia. Uma estranha não quer senão que lhe paguem. Quem havia cuidar d’elles se eu morresse!
Aquella infantil preoccupação fez pena a Arthur, que lhe beijou respeitosamente as mãos, pela primeira vez.
—Gosta de mim? disse ella olhando-o de face com grandes olhos ingenuos, em quanto lhe prendia na casa uma d’aquellas rosas brancas do ramo.
—Mas muito, juro, muito!
—E foi por minha causa que mandou vir as roseiras?
—Não, não, palavra.
—Shut! foi tal. Albano deu a entender. Eu mesma adivinharia. Hemos sempre ser amigos, quer? Se Nossa Senhora fosse servida dar-me saude, quem sabe ainda... Mas sinto-me tão fraca, e o tempo muda, depois...
Fez com o polegar na ponta do queixo, o gesto d’uma coisa que se aniquila. E chorava. Foi como Arthur a viu em sonhos d’alli por deante. Todas as manhãs lhe mandava rosas em grandes corbeilles. Mas nunca mais aquella visão de flôr, que emmurchece e pende, se lhe apagou do espirito.
Por esse tempo de feito, Judith adoeceu. Havia uns mezes que ella andava pallida, com o bistre das olheiras mais fundo e mais largo, recolhimentos religiosos, certos langores de cabeça, uma tristeza nos dias de frio. Á noite, Arthur vinha lêr alguma coisa, fallar do que corria, e saber como estavam. Via-lhe sempre um riso de esmalte amoravel, os cabellos enrolando muito baixos, no occiput, em duas rosaceas de oiro baço, um bocado de pescoço flaccido, e essa pallidez de mãos, cerosa e diaphana, que põe em cuidados os medicos. Como symptoma inquietante, nada. Nem dôr, nem prurido, nem ardencias de febre. Uma fraqueza crescente, um emmagrecimento sem causa, fastios, e em certos dias, cansaço. Consultado pelo artista, Albano ficou calado—e pela primeira vez não rematou com o bem bom! do estribilho.
N’esse calvo gasto de toda a emoção, envelhecido antes de feito, com postiças indifferenças pela familia, cynismos de philosopho e superioridades de sabio, via Arthur surdamente ir-se mostrando a alma mais affectuosa, á medida que Judith desfallecia. Elle que até alli tratára a irmã como uma cadellinha de collo, correndo uma vez por outra a sua velha mão pelos cabellos d’ella, com benevolencias de pedagogo e sobrancerias de senhor, descia agora do seu sotão de anachoreta nos entre-actos dos livros, com a rabeca debaixo do braço, calva pensativa, e os myopes olhos perscrutando atraz dos oculos fixos. E alli sentado aos pés d’ella com um ar de artificial expansão, tocava-lhe os bocados de que Judith mais gostava, Schubert, Massenet ou Haydn, em cuja musica ha tremulinas de lua no azul dithyrambico dos lagos, por onde arfa a neve dos cysnes, em tapeçarias de nenuphares. A Célèbre Rêverie fazia-a chorar, assim como uma queixa de creança abandonada, por um caminho que mergulha nos bosques, sinuoso, e se perde em subsolos de floresta—e a voz esmorecendo a distancia, na noite, no desamparo, na fome... A espaços, inda ella chora na aura que faz ondular a herva dos descampados. É um dulcissimo e vago suspiro, uma supplica de alguem que embalde esmola por esses montes á chuva, á procura de cabana onde passar a noite, d’um ninho de ave onde dormir, da saccola do velho mendigo ao menos, para repousar a cabeça...