A Filha do Cabinda

Alfredo Campos · Capítulo 19 de 22

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A Filha do Cabinda

Capítulo XVIII

Assim, emquanto que Luiz ia ganhando novas esperanças, emquanto atravez das nuvens que lhe toldavam o horisonte ia como que descortinando a luz brilhante, formosa e esplendida da felicidade que tanto sonhára, ia o mulato convencendo-se de que a Providencia vela sempre pelos bons e pelos justos, de que o mal tem sempre o seu castigo do mesmo modo que todo o bem é premiado.

Para um iam desabrochando, embora receiosas e timidas, as flores, cujos perfumes embriagam a vida.

Para outro, os espinhos que magoam, e ferem, e doem a todos os momentos.

E Magdalena, o nosso anjo, Magdalena, a formosa, esperava no entanto, cheia d'anciedade, pela chegada dos dous e pelo resultado d'aquella conferencia que ia ter logar agora.

O que lhe dizia o coração nos sobresaltos com que a agitavam?

O que lhe dizia a alma na esperança que a enflorava?

Tudo lhe dizia amor, ventura e ternuras!

Tudo lhe fallava de felicidades, porque era bondosa, meiga, innocente, candida, e sobretudo, porque era boa filha, porque nunca déra um desgosto áquelle que a mirava doudo d'amor!

 

XVIII

Muito terrivel é a situação de quem espera, esperando debaixo do pezo d'uma duvida!

A duvida dá ao coração as alternativas da esperança e do receio; da esperança, que faz das horas seculos, do receio, que faz das horas instantes rapidissimos; da esperança, que arrebata com sonhos de dourado enlevo, do receio, que fere com os espinhos d'uma perspectiva má e triste.

Esperar, d'este modo, é esperar entre a lucta de dous sentimentos oppostos, que se degladiam heroicamente, braço a braço, corpo a corpo, sem se fatigarem, sem succumbirem, sem cederem um ao outro um palmo de terreno, ambos egualmente potentes, ou egualmente fracos, porque nem um cede, nem o outro vence, e porque um e outro exercem egual predominio no espirito, embora oppostamente.

O coração prende-se, durante um momento, nos arrobos da esperança, nas delicias suaves de quem vê realisado um desejo muito grande de grande ventura, para no momento immediato se embrenhar nas mil veredas tortuosas, nos muitos pezares e na grande tristeza em que se desata a ideia, o receio de que aborte essa esperança, de que não tenha uma realidade a aspiração que lá se gerou e n'elle vive, como pomba dentro do seu ninho.

Magdalena estava sentindo tudo isto, esperando por Luiz e Americo, que seu pae mandára chamar, depois d'aquella scena de lagrimas em que a vimos.

Tinha d'um lado a esperança de que tudo se harmonisaria, e satisfatoriamente para todos, e que seu pae lhe restituiria Luiz, que ella amava ainda muito, apezar de tudo, e com elle a ventura, o affecto, os carinhos, o socego, as meiguices, os extremos, por que tanto almejava o seu coração, tão viçoso e tão sedento!

Do outro, o receio de que essa esperança não germinasse um unico encanto, um unico perfume; de que o sonho ridente da suspirada felicidade se esvaecesse, como nuvem de fumo leve nas azas da viração do sul!

No meio de tudo isto, Jorge pensava na felicidade da filha, como pae mais que muito affectuoso, e no meio decente de castigar dos dous, d'Americo e de Luiz, aquelle que fosse criminoso perante o tribunal e o juizo recto da sua impolluta consciencia.

Os dois associados do honrado capitalista e negociante, vinham, separados, a caminho do Botafogo, phantasiando o que iria passar-se, embrenhando-se em mil conjecturas, sobre diversos assumptos, como causa provavel do seu chamamento, mas sempre fugindo-lhes o espirito para a ideia de que ia tratar-se do succedido, com relação á formosa Magdalena.

Até o velho Cabinda, que acompanhava Luiz no vapor da carreira, até esse ia embebido com a ideia da ventura da sua filha querida, da sua adorada senhora moça, que era n'este mundo a ideia que mais o prendia, enlevava e dominava!

O pobre do negro consentiria tudo; no que não consentiria de modo nenhum, e para isso era até capaz de dar a vida, era em que o mulato vencesse Luiz, em que Americo conseguisse os seus intentos, não só porque, por uma d'estas immensas sympathias, que se não podem explicar, era altamente affeiçoado a Luiz, ao branco, como elle dizia, senão tambem, porque, oppostamente, odiava Americo com odio de morte, sobretudo depois dos ultimos acontecimentos, e talvez por motivos de antipathia e de raças.

Os tres, Luiz, Americo e o cabinda, chegaram ao Botafogo, por volta das oito horas, e quasi ao mesmo tempo. O negro e Luiz foram os primeiros, mas o mulato não se fez esperar.

O velho escravo dirigiu-se para a cosinha, pela escadaria da rectaguarda do palacete, emquanto Luiz era introduzido na sala, e encontrou na varanda Magdalena, que o esperava n'uma indescriptivel anciedade.

Magdalena tinha ainda nos olhos os vestigios das lagrimas recentes, no rosto a pallidez do desgosto que soffrêra, e a expressão do seu estado d'excitação, e nas ondulações do seio os signaes evidentes do agitamento das ondas interiores.

No entanto, bella sempre, sempre formosa, sympathica, attrahente!

Apenas avistou o negro, correu pressurosa a vir esperal-o ao topo da escadaria.

Elle sorriu-lhe n'uma expressão de dedicação.

--Então, cabinda? interrogou ella subitamente.

--O branco veio, senhora moça,

--E aonde está?

--Na sala grande que deita para o jardim.

--E vem contente?

--Ha-de estal-o. O coração do negro não mente nunca.--Vieste com elle?

--Vim, minha filha.

--E Americo?

--Tambem vem! O mulato brigava com o branco no escriptorio, quando o negro chegou, mas o cabinda prendeu-o pelo pescoço e deitou-o ao chão.

--Ao mulato? perguntou assustada.

--Sim.

--Mataste-o?

--Não, senhora moça, mas o negro estrangula-o se o mulato continua!...

--Eu quero-te prudente, cabinda!

--E o negro quer feliz o branco e a sua senhora moça!

--E elle? interrogou Magdalena com anciedade.

--O branco? não soffreu nada. Mas para que a cobra não assalte o ninho da jurity ou do beija-flor, é preciso esmagal-a ou mandal-a para longe. A minha filha comprehende?

--Comprehendo, cabinda. Meu pae lá está; a verdade ha-de brilhar como o diamante na mina, e Deus ha-de castigar o culpado.

--Oh! exclamou o negro, ébrio d'alegria; oh! e como o negro ha-de rir de contente, quando a senhora moça lhe disser que é feliz! O cabinda até ha-de dançar o batuque!--Velho tonto! exclamou Magdalena risonha e altamente enthusiasmada com o jubilo do bom escravo.

Emquanto, porém, este colloquio tinha logar na varanda da rectaguarda do palacete de Jorge, entrava Americo para a sala da frente, onde Luiz permanecia só, esperando pelo capitalista.

Os dous estavam de novo, frente a frente. Ambos opprimidos, receiosos ambos, sem a certeza do que se ia passar, do que se ia decidir alli, olharam um para o outro, ambos n'uma expressão de duvida, mas sem trocarem uma unica phrase, uma unica palavra.

O receio, pelo qual, cada um d'elles, era dominado, tinha origens diversas e faceis de explicação.

Luiz não receiava pelo seu procedimento, porque bem alto lhe fallava a sua consciencia; temia, sim, que de todo se perdesse a melhor occasião, qual a que se lhe proporcionava, agora, de realisar o sonho ardente da felicidade por que suspirava com tanta loucura.

Americo, esse receiava o castigo da sua infame tentativa, porque uma voz intima lhe segredava que todo o seu procedimento era reprehensivel, indigno e injustificavel.

Ainda assim, nem um nem outro tinham a certeza do negocio que alli os reunia, e isto dava ao mulato a esperança de que se agora não fosse fulminado, ainda poderia tentar o conseguimento dos seus fins, ou pelo menos indispor de todo Luiz e Magdalena.

Estava uma tarde explendida.

Os raios do sol vivo, que docemente ia descendo ao seu occaso, projectavam-se brilhantes no jardim, sobre que abriam as janellas da sala, onde esperavam Americo e Luiz, e imprimiam nas rosas brancas e nos jasmins perfumados uns reflexos da sua côr avermelhada e tropical.

Zumbiam as vêspas nos trançaes dos maracujás, volitavam rapidos, de flôr em flôr, deixando beijos em toda a parte, uns mimosos e pequeninos beija-flores, e cortavam o espaço, em mil caprichosas linhas, ora subindo, ora descendo, ora rapidas, ora vagarosas, algumas borboletas de tamanhos variados e côres vivas e formosas.

Lá ao longe, entre as folhas verdes do capim, andavam arraiando amores as juritys mimosas.

Luiz e Americo, cada um em sua janella, parecia estarem ambos embebidos na silenciosa contemplação das bellezas da natureza, do explendido quadro que tinham diante dos seus olhos, expressivamente scismadores. Longe, porém, e muito longe, estavam elles, dos encantos que alli se desenrolavam, e que, sem duvida, inspirariam muito a alma sensivel e contemplativa d'algum poeta ou d'algum artista.

Estavam, pois, assim, quando de subito se abriu uma porta, que, da sala espaçosa, ricamente mobilada e adornada, dava passagem para o interior da casa.

Os dous voltaram-se immediatamente, e ao mesmo tempo, dirigindo-se ao personagem que entrava.

Era Jorge de Macedo.

Trazia no rosto a expressão da affabilidade, mas ainda assim, carregada com as linhas sombrias d'uma severidade mal disfarçada. Quatro olhos se cravaram nos d'elle, como para traduzirem alguma cousa, os olhos de Luiz e d'Americo.

Seguiram-se os cumprimentos indispensaveis, de respeito e de boa cortezia.

Os dous, cada um pelo seu lado, haviam percebido que Jorge de Macedo não estava no seu estado normal, e os traços de mudança que lhe soletraram no semblante, mais se inclinavam para uma certa tristeza, para uma vaga melancolia, para o que quer que é d'um desgosto, embora pequeno ou mal traduzido, do que para a indicação d'uma irritação, d'uma exaltação, que rompesse em asperezas ou se desatasse em colericas insinuações.

Agora é que mais que nunca o receio os dominava. E o mulato, se não fôra a lembrança de que commetteria um acto d'inqualificavel cobardia, que mais provaria ainda contra o seu procedimento, decerto teria fugido, para nunca mais apparecer.

Teve tentações de fazel-o.

Era a propria consciencia que o estava accusando d'aquelle modo! Bastava a presença do juiz que ia julgal-o para o fazer tremer!

Luiz esperava receioso, mas resignado. E diante dos seus olhos surgia ainda formosa, explendida, encantadora, a imagem de Magdalena, que elle adorava muitissimo.

E na sua consciencia só tinha o espinho d'um remorso a magoal-o! Era o de haver tão impensadamente, quasi que insultado a mulher a quem desejaria agora lançar-se aos pés, implorando, humilde, um perdão para os arrebatamentos que lhe fizeram, a ella, derramar tão amargas e sentidas lagrimas.

E Magdalena?