A formação cultural dos jovens do MST: a experiência do assentamento Mário Lago, em Ribeirão Preto
4 A consciência dos jovens sobre a experiência construída no assentamento Mário Lago e no MST
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
4 A consciência dos jovens sobre a
experiência construída no
assentamento Mário Lago e no MST
A vida cotidiana no assentamento Mário Lago:
constrangimentos, alegrias, sentimentos, valores
e referências coletivas
Márcia Regina de Oliveira Andrade, em estudo realizado na Unicamp intitulado A formação da consciência política dos jovens no contexto dos assentamentos do MST, abordou o processo formativo com o intuito de apreender os meandros de sua construção e as maneiras diferenciadas de sua configuração. No referido trabalho, a autora procurou refletir as categorias fundamentais do psiquismo humano, da consciência, da identidade e atividade, baseada em dois procedimentos metodológicos: relatos orais e formação artificial de grupos, a fim de apreender a dinâmica entre a consciência individual e a coletiva. As reflexões de Andrade situam se entre os estudos que buscam compreender a relação entre indivíduo e meio social. Nesse horizonte, a consciência é um fenômeno psicossocial que emerge da relação do indivíduo com o mundo social, como construção de representações sociais formadas na interação entre indivíduos. Trata se de uma vertente dos estudos oriunda da psicologia, denominada interacionismo (cf. Andrade, 1998, p.4 9).
Para a autora, os assentamentos do MST proporcionam espaços privilegiados para a ocorrência das práticas coletivas, por meio da criação de instrumentos de organização da comunidade, como reuniões políticas, mutirões para realização de determinadas ativi -dades e assembleias. Nesses espaços, os jovens formam suas consciências políticas, o que, no entanto, não reflete um movimento linear, como já advertimos. Assim, para a autora, emergem três tipos de consciência: uma "consciência fragmentada", marcada por percepções configuradas a partir do universo social, reduzida à rotina da vida e à produção de representações apoiadas pela condição espontânea e "natural" do modo de ser e de agir como agricultor, a partir da qual se afirma que os jovens são desprovidos da capacidade de compreender e refletir as contradições que os envolvem. Uma "cons ciência transformadora", que diz respeito aos jovens que conseguem visualizar a luta de classes e, com isso, expressar sentimentos de indignação e compreender a necessidade de mudanças na ordem social. Por último, uma "consciência possível", que se refere aos jovens com "estado psíquico suspenso", que necessitam de apoio externo, do outro, para que a consciência política se desenvolva. Com base nessa classificação, conclui a autora:
A heterogeneidade encontrada entre os jovens nos mostra que
a condição de pertencer ao MST, ou mesmo ser um assentado,
não garante o desenvolvimento de uma consciência política,
uma vez que os processos de conscientização estão
diretamente imbricados não só a determinantes objetivos, mas
também aos determinantes subjetivos. (Andrade, 1998, p.243)
Nosso horizonte teórico não trata de classificar, segundo critérios positivistas, níveis distintos de consciência política ou mesmo sua suposta inexistência. Antes, procuramos demonstrar que a cons -ciência emerge como um movimento descontínuo, não linear, dado pelo confronto daquilo que os jovens experimentaram em suas vidas até aquele momento, segundo o lugar que ocupam na divisão social do trabalho, o lugar que ocupam como categoria social, o lugar que ocupam no MST, pois, apoiados em Gramsci, consideramos que, no campo das experiências concretas, no embate com os projetos políticos dominantes, o sujeito toma consciência de si e do mundo e, dialeticamente, elabora concepções, valores, sentimentos que o orientam na prática social.
Voltamo nos às manifestações conscientes de 24 jovens, identificando referências coletivas construídas na vida com a família, com outros jovens, com a comunidade, com o MST. Noutros termos, como tratam aquilo que vivem e como reelaboram simboli camente as estruturas materiais, produzindo, reproduzindo, transformando e criando valores, práticas sociais distintas daquelas empreendidas nas cidades ou nos lugares de onde vieram e, assim, projetam seu futuro como expressão e síntese da experiência do grupo.
Partimos das falas dos jovens que, refletidas criticamente, possibilitaram que trouxéssemos os principais temas e concepções que expressam a consciência do grupo de jovens formado no interior do assentamento Mário Lago. Os depoimentos dos jovens estão expostos, formalmente, com recuo de margem à esquerda, sem referências pessoais, a fim de preservar suas identidades – primeiro, por este ter sido um compromisso assumido por nós com cada um deles; segundo, já que, em alguns casos, são jovens menores de idade.
Os jovens que participaram de nossa pesquisa, na maioria dos casos, são nascidos e criados no interior do Estado de São Paulo. Outros, são oriundos de Minas Gerais:
Eu vim de Franca (SP).
Sou natural de Franca, nascida em Franca.
Eu morava aqui em Ribeirão Preto, no [bairro] Salgado Filho,
mas nasci em Sertãozinho (SP).
Eu nasci e vivi aqui em Ribeirão Preto, no [bairro] Jardim
Progresso.
Eu sou aqui de Ribeirão Preto mesmo, do [bairro] Salgado Filho
I.
Eu sou de Ribeirão Preto mesmo.
Eu vim aqui de Ribeirão Preto mesmo. Vim do bairro Simioni.
Sou de Ribeirão. Nascido e criado em Ribeirão Preto, na
periferia.
Eu sou de Serrana (SP). Nascido e criado lá.
Eu sou da cidade de Serrana.
Eu sou nascido e criado na cidade de Cravinhos (SP), aqui
pertinho de Ribeirão Preto.
Eu nasci em Paracatu, em Minas Gerais.
Eu nasci em São Paulo, só que quando eu tinha um ano a
gente se mudou para Minas Gerais; aí eu morei em várias
cidades de Minas Gerais, nas redondezas de Belo Horizonte.
Eu nasci e cresci em Minas Gerais, no norte do estado.
Eu sou de Serra Azul, aqui perto de Serrana.
Nasci em Serra Azul, mas cresci na cidade de Serrana.
Eu sou da cidade de Batatais (SP). Fui criado lá e vim para
Ribeirão Preto por causa do assentamento.
Eu sou de Batatais.
Eu sou de Campinas.
Eu vim de Pitangueiras (SP) para Ribeirão Preto. Nasci lá e
depois vim para cá.
Eu nasci em Botucatu (SP). Eu nasci em Botucatu, morei lá oito
anos. Aí eu vim para Araraquara com a minha irmã. Depois
morei em Américo Brasiliense (SP) e vim pra Ribeirão Preto.
Eu nasci em Montalvânia, perto de Montes Claros, em Minas
Gerais. Depois vim para Ribeirão Preto, com a minha família.
Eu morava em Minas, no vale do Jequitinhonha, quase divisa
com a Bahia.
Eu sou de Mogi das Cruzes (SP). Eu nasci lá, depois eu morei
uns dois anos no Paraná, vim para Ribeirão Preto, fiquei mais
um ano, aí fui para São Paulo, voltei para o Paraná e vim para
cá [Ribeirão Preto] de novo. Fui de cidade em cidade, tipo
cigano. Aí meu pai ficou sabendo do acampamento, aí eu vim
para cá. Já faz uns quatro anos que a gente está aqui.
São filhos de trabalhadores. Os pais de muitos deles têm origens no campo, no espaço rural. Todos os jovens, porém, foram criados na cidade, no espaço urbano, em periferias pobres, mesmo aqueles que nasceram no espaço rural:
Meu pai morou na roça e minha mãe também. A minha mãe,
ela de vez em quando fazia faxina, o meu pai fazia bico
também, não tinha emprego certo, servente de pedreiro, depois
foi cortar cana. Minha mãe também cortou cana.
Meu pai era pedreiro e minha mãe do lar mesmo. Eles
moravam numa fazenda, trabalhando lá, mas aí foram
mandados embora e foram pra cidade.
Eu nasci e cresci na cidade, apesar do meu pai e da minha mãe
serem de fazenda.
Meu pai trabalhava numa fazenda [...] Depois teve que ir
embora e foi trabalhar de vigia, em uma usina e minha mãe só
cuidava da casa, na cidade.
Meu pai era pedreiro e minha mãe do lar mesmo. Antes disso,
ele [pai] colheu café desde criança.
Minha mãe sempre ficou cuidando da casa, da gente, e meu pai
trabalhava [...] Meu pai foi de fazenda, meus tios, tudo, mas eu
não. Eu sou da cidade mesmo.
Eu nasci na cidade e fui criado no bairro. Meu pai sempre fez
bico: uma hora ia cortar cana, depois ia trabalhar de ajudante
de pintor, depois trabalhou também numa usina. Era assim.
Eu já morei em um monte de cidade no Estado de São Paulo,
no Paraná. Cigano, sabe?! Sempre procurando coisa melhor
para a gente.
Eu nasci na fazenda, mas logo fui morar na cidade, porque meu
pai foi mandado embora e aí a gente foi para a cidade.
Meu pai era tratorista de uma fazenda. Mas aí acabou e ele
teve que procurar na cidade, mas ficou desempregado, fazendo
uns "bicos", só.
Meu pai trabalhava de empregado numa fazenda. Ele conta que
quando era criança ele morava no sítio, com meu avô e minha
avó, mas depois eles perderam o sítio e foram trabalhar numa
fazenda. Aí, bem depois, ele foi pra cidade, casou com minha
mãe. Eu nasci na cidade.
Meu pai, depois que foi morar na cidade, trabalhava de funileiro
e depois ele passou a trabalhar de motorista.
Os dois [pai e mãe] eram do campo, mas foram morar na
cidade, porque a coisa ficou difícil. Meu pai já fez de tudo. Já
cortou cana, já trabalhou de servente de pedreiro, tudo.
Minha mãe só ficava em casa, meu pai era servente de
pedreiro.
Meu pai era servente de pedreiro, depois trabalhou de ajudante
numa fábrica. Era isso. [...] Na cidade, eu morava na cidade.
Cresci na cidade, né?!
A gente morava no campo, quando eu era bem pequenininha.
Eu nem lembro, para falar a verdade. Depois nós mudamos
para a cidade.
Minha mãe era trabalhadora rural. Trabalhava de empregada
numa fazenda. Depois saiu e foi trabalhar de empregada
doméstica, na ci dade.
Pedreiro. Meu pai, a vida inteira foi pedreiro. Antes de eu
nascer, ele trabalhava em uma fábrica de costura. Aí, depois
que eu nasci, fomos para São Paulo, passamos dificuldade, aí
ele começou a trabalhar como pedreiro.
Eu morava na cidade mesmo. Cresci na cidade. Meu pai ainda
está lá, trabalha na Prefeitura...
Quando a gente veio pra cá, a gente estava na cidade que eu
nasci.
Eu vim de fazenda, mas cresci na cidade. Morei em favela
também.
A gente morava na cidade. Todo mundo. Meu pai e minha mãe
cortaram cana, porque eles são de fazenda, né?! E não sabe
trabalhar de outra coisa.
Minha mãe era empregada doméstica e o companheiro dela
fazia bico. Tudo na cidade. Eu fui criada na cidade, na periferia.
Na quase totalidade dos casos, os jovens que integraram nossa pesquisa foram trazidos pelos pais ou vieram com eles dias, semanas, meses, em alguns casos um ano ou dois depois do movimento de ocupação. Em todos os casos, quando chegaram, a primeira ocupação, ainda no Sítio Braghetto, já havia acontecido.
A dinâmica da chegada dos membros das famílias ao acampamento do MST não é idêntica, embora apresente regularidades. Os jovens acompanham o(s) integrante(s) da família com quem estabelecem maior vínculo afetivo. Dominantemente, embora não exclusivamente, é com as mães que estabelecem esses vínculos mais estreitos:
A gente veio depois de um ano depois da ocupação. Meu pai
veio primeiro, montou o barraquinho e depois eu vim com a
minha mãe.
Acho que um ano depois que [minha avó] estava aqui, um ano
e pouco, ela chamava minhas tias, minha mãe para vir morar
aqui com ela, para conhecer. Aí, minha mãe veio uma vez para
conhecer e voltou e buscou a gente para vir morar aqui.
Meu pai veio para a ocupação, mas não trouxe a gente nesse
dia. A gente veio uma semana depois, minha mãe, minha
irmãzinha e eu.
Minha vinda para o movimento foi junto com um tio meu. Ele já
fazia parte do movimento, desde a ocupação do [bairro]
Flamboyants. Eu fui lá visitar ele, já na Fazenda da Barra, junto
com o meu avô e outro tio meu, aí acabei... fui lá, conheci a
vida dele como era e fiquei.
A gente começou morar aqui depois de dois anos. Faz três
anos que a gente mora aqui definitivamente, morar mesmo. E
daí, meu pai chamou minha mãe, mas minha mãe, no começo,
não achou uma boa ideia e nem eu e meus irmãos. Aí meu pai
falou: "Então, vocês ficam. Vocês vão ficar aqui que eu vou
para lá". Aí meu pai veio e depois minha mãe decidiu vir morar
aqui, porque meu pai chamou a gente. Aí nós viemos, todo
mundo.
Eu vim com meus pais. Quer dizer, eles vieram primeiro, aí
depois eu me interessei, aí eu vim. Vim para morar com eles,
pensando: "Ah, vou tentar construir alguma coisa para mim", já
pensando no meu futuro mesmo.
Eu cheguei em 2005. Vim com a minha mãe e minhas irmãs.
A gente veio junto para montar o barraco, mas só meu pai ficou
aqui. A gente voltou para a cidade com a minha mãe e vinha no
final de semana só. Depois que veio todo mundo para morar
mesmo.
Primeiro veio meu pai e minha mãe montar o barraco. Aí minha
mãe morava com a gente na cidade e vinha de vez em quando
ficar aqui [no assentamento] com o meu pai. Aí ela gostou,
resolveu vir de uma vez e trouxe nós, eu e meus dois irmãos
pequenos.
Em alguns casos, o grupo familiar veio de outras lutas do MST, ocorridas em outros territórios. Lutas que sofreram refluxo e, por isso, levaram o grupo, que optou pela vida em movimento, para territórios onde o MST buscava se consolidar, como foram as experiências relatadas por dois jovens, cujo processo de luta os levou, junto com suas famílias, para o município de Ribeirão Preto:
Eu morava com a minha família. Meu pai, minha mãe e nove
irmãos. Aí meu pai foi para Batatais, gostou do MST e levou
nós. Aí nós fomos para Batatais, ficamos um ano lá, aí quando
teve reintegração de posse, nós viemos para cá.
A gente estava num acampamento do MST e tivemos que sair
por causa de um despejo. Aí falaram pra gente daqui de
Ribeirão Preto, então, meu pai e minha mãe resolveram vir para
cá.
Uma experiência inusitada foi a de um jovem. Ele integrou o acampamento Mário Lago após o processo de ocupação com seu pai, o qual dias depois, optou por voltar para sua cidade, onde possuía vínculo empregatício sólido como servidor público municipal, deixando a luta por um lote na Fazenda da Barra sob a responsabilidade de seu filho:
Eu vim com o meu pai para [o acampamento], mas aí ele ficou
sabendo que não podia pegar terra, porque ele era funcionário
público [...] Ele preferiu voltar pra cidade, continuar trabalhando
e morando lá, aí eu fiquei aqui [no assentamento] sozinho e
estou aqui até hoje. Ele vem aqui me ajudar e tudo, mas eu
moro sozinho. Sozinho mas que não é bem, assim, sozinho,
né?! Porque todo mundo aqui é uma família.
Esse jovem optou pela vida na comunidade, permanecendo no movimento que, naquele momento, lutava pelas terras da Fazenda da Barra, sem quaisquer referências adultas presentes em seu cotidiano além do amparo do pai que estava na cidade e contando com a proteção e auxílio de outras famílias que constituíam o coletivo do Mário Lago. Desde logo, esse jovem assumiu as responsabilidades de construir sua vida lutando por um pedaço de terra.
Mas a opção de mudar se para o acampamento nem sempre lhes é dada. Muitos jovens ainda são menores de idade e devem, necessariamente, seguir os pais na caminhada da luta pela terra. Por vezes não querem, preferem ficar na cidade antes mesmo de conhecer o acampamento, mas, como ainda estão sob a responsabilidade legal dos pais, devem seguir a família, como expressam outros quatro jovens:
Meu pai veio e montou o barraco. Aí ele chegou em casa e
falou: "Arruma tudo e vamos embora". Eu, na hora, até briguei
que não queria vir, mas não teve jeito, eu vim com a minha
família.
Minha mãe e meu pai queriam vir, mas eu não queria não. Eu
gostava da cidade, porque tinha meus amigos lá, né?! Mas aí
eu tive que vir pra cá [para o assentamento].
Não teve jeito. Minha mãe falou: "Ou vem ou vem". Eu vim com
ela, né?! Porque deixar minha mãe também seria ruim.
Minha mãe falava que a gente vinha pra cá, mas eu não queria,
não. Eu nunca tinha vindo, mas não queria. Achava estranho.
Mas o dia que ela resolveu, eu vim, né?! É minha mãe, né?!
Os jovens tinham vínculos com a cidade, grupos de referência construídos ao longo de suas experiências, no bairro, na escola ou outros lugares que marcaram sua existência como jovens. Assim, a ida para o acampamento tem sempre um momento de estranheza, pois são grandes as transformações que ocorrem em suas vidas – aspecto, aliás, que leva muitos a desistir da vida no acampamento e voltar para suas cidades de origem ou mesmo para outras cidades, com ou sem seus pais, mães, irmãs, irmãos ou o grupo com que viveu até aquele momento. Por isso, para além da responsabi lidade formal dos adultos diante das novas gerações, é preponderante o vínculo afetivo estabelecido com seu grupo familiar ou com o qual vive, para a vinda ao acampamento e, posteriormente, para sua consolidação.
Uma vez consolidada a chegada e permanência dos jovens no acampamento, a atividade política é outro momento que pode afastar, progressivamente, os jovens do grupo com o qual passou a participar da luta pela terra, pois aqueles que, ao longo desse processo, vão se destacando pela participação em atividades propriamente políticas, passam a ser reconhecidos pela organização do mo vimento como potenciais militantes e vão viver a luta política, seus caminhos e descaminhos, de uma forma distinta dos demais, deixando, inclusive, de viver o cotidiano do assentamento Mário Lago:
Eu, particularmente, não paro no assentamento. Para mim é
meio corrido, porque na mesma hora que eu estou aqui
conversando contigo eu posso estar em outro lugar, em outro
estado, fazendo um curso, participando de alguma luta, em
algum encontro do movimento. A gente acaba se afastando um
pouco do assentamento para participar de outras lutas.
Hoje eu faço parte do setor de comunicação do movimento e
como eu estou estudando, eu fico pouco no assentamento,
porque ou eu estou estudando, fazendo o curso [...] ou eu estou
participando dos encontros do movimento ou de lutas em outras
regiões. Mesmo quando eu estou aqui em Ribeirão Preto,
normalmente eu também estou com alguma atividade fora do
assentamento.
Esses jovens têm famílias no assentamento: pais, mães, irmãos, irmãs, tios, tias, primos, primas, entre outros. Como os demais, integraram a luta junto com os pais ou com outras referências adultas. Trilharam, igualmente, caminhos e descaminhos da disputa pela Fazenda da Barra. Mas o processo de luta os destacou, revelou os para o movimento, que passou a considerá los intelectuais a serem formados. Assim, aos poucos, foram se afastando da vida em comunidade para formarem se como quadros dirigentes do MST.
Atualmente, convivem pouco com seus familiares. Passam a maior parte do tempo fora do assentamento, junto do movimento. O retorno ao assentamento é sempre em circunstâncias geradas pela luta, como atos políticos, mobilizações, assembleias, discussões com a comunidade, ou, então, para reencontrar a família, rever os amigos, quando não estão em alguma tarefa pelo MST. Esses jovens integram processos de luta em todo o país, discutem questões políticas com instâncias em várias frentes de organização po lítica interna do Movimento Sem Terra (produção, formação, cultura, comunicação...), integram lutas em solidariedade a outros movimentos sociais nacionais e internacionais, no Brasil e no exterior, ou, então, integram o coletivo de militantes dirigentes da regional de Ribeirão Preto do MST, que vive no Centro de Formação Sócio Agrícola Dom Hélder Câmara. Na regional do MST de Ribeirão Preto, aliás, três jovens cursam graduação, oportunidade proporcionada por convênios estabelecidos entre o Pronera, o movimento e universidades federais e estaduais. Dentre eles, um jovem do assentamento Mário Lago faz curso de Artes na Universidade Federal do Piauí.
A grande maioria dos jovens vive no assentamento Mário Lago: alguns trabalham ajudando os pais, em casa ou na roça, estudam, participam de atividades políticas ou culturais no assentamento e até fora dele, quando convocados; outros passam grande parte do dia na cidade, na escola ou no trabalho e têm tempo livre no assentamento...
Homens, mulheres, intelectuais em formação ou não, a expe riência da vida debaixo da lona preta é ou foi comum a todos. Para a maioria, a experiência é circunscrita ao momento em que passa a integrar as bases do MST, na luta pela Fazenda da Barra, em Ribeirão Preto. Por isso, a reflexão daquilo que experimentaram e experimentam cotidianamente, no território de sua existência, encontra bases comuns.
Aqueles jovens que se dedicam à militância e hoje integram os quadros políticos do movimento de luta já viveram no acampamento Mário Lago, ao lado de seu grupo familiar ou de referência e não perderam a memória. Refletem, por isso, a experiência da vida cotidiana e manifestam, junto com os demais jovens, a falta de estrutura, as "coisas boas" do assentamento, como dizem, as dificuldades da vida debaixo da lona preta, as alegrias, os constrangimentos, a diferença entre viver no assentamento e na cidade, bem como onde preferem construir sua vida.
Os jovens atribuem à falta de estrutura (ou infraestrutura) no assentamento as principais dificuldades e constrangimentos que experimentam cotidianamente no processo de construção do assentamento rural em que vivem/viveram. A falta de água, de energia elétrica e moradia precária tornam a vida cotidiana, por vezes, sofrida:
O difícil aqui é a falta de água, a falta de luz e casa da gente,
que é ruim, né?!
Água é difícil. Vem de 15 em 15 dias, então, é difícil. A casa é
muito difícil. Viver em barraquinho é muito complicado. Em dia
de chuva você fica com medo de cair tudo, então, é muito
complicado.
Água e luz. Isso é que é bem difícil. Do resto é bom, mas água
e luz é difícil.
Nós temos dificuldade com água. Luz também não tem. Para
você lavar uma roupa é complicado. Tem muitas pessoas que
vêm para o sem terra e já desistem porque chegam, vem para
cá e acham que vão ter água, vão ter luz, tudo certinho. E não
é.
Olha, num é fácil não. É difícil, a casa de lona, vinha o vento e
rasgava, tinha que segurar a lona debaixo de chuva. É difícil.
Tinha que ter força, senão, não ficava aqui não.
Morar em barraquinho não é fácil não. E quando chove?!
Quando chove tem que segurar para não voar tudo.
Água aqui é duro, viu?! Dá um trabalhão. A prefeitura entrega,
mas nem sempre é suficiente. Aí tem que buscar na mina lá
embaixo. É uma tristeza.
É uma vida difícil. Tem muita dificuldade: às vezes falta água; a
lona, às vezes, esquenta um pouco. Não tem energia elétrica.
Em época de chuva, se você quer sair para algum lugar, às
vezes fica meio ruim, por causa da estrada, barro, essas coisas.
Dificuldade a gente tem sim. Aqui tem um monte de coisa boa,
um monte, mas água, luz, essas coisas não tem, né?! Nós
temos um problema sério de água aqui.
Certamente, a ausência de infraestrutura provoca constrangimentos, decorrentes dos limites objetivos da experiência dos jovens na comunidade do assentamento Mário Lago. O assentamento depende dos serviços de fornecimento de água oferecidos pelo governo municipal e estes nem sempre são suficientes, o que faz com que os assentados tenham que buscar água em uma mina encontrada na área. Com isso, a água é escassa para tudo: para o preparo de alimentos, para o banho, para a irrigação daquilo que conseguem plantar em seu lote, para a higienização do lar... As casas são barracos, construções artesanais feitas a partir da improvisação de madeiras e plásticos pretos ou lonas. O piso é a própria terra, chão batido. No inverno, quase não se consegue conter o frio. Em períodos de chuvas e ventos, as estruturas sempre são abaladas, deixando os assentamentos em estado de alerta permanente. Energia elétrica não há. Algumas famílias contam com pequenos geradores de energia movidos a combustível, mas, ainda assim, é bastante precário, já que nem sempre se tem dinheiro para comprar o combustível. A reclamação feita pelos jovens pela falta de energia elétrica está associada, em primeiro lugar, à privação dos meios de comunicação, como afirmam alguns:
A gente sente bastante falta de algumas coisas aqui. Por
exemplo: o que eu sinto mais falta é a energia [elétrica], ter um
[aparelho de] som, uma televisão, uma água gelada, sabe?!
Essas coisas. [...] Lá em casa tem um gerador, então, quando a
gente quer assistir uma novela, assistir um jogo, tem que ficar
comprando gasolina e se não tiver dinheiro para comprar não
assiste. Então, é uma coisa muito ruim.
O ruim aqui é a falta de energia [elétrica], porque não dá para
ligar a TV, o [aparelho de] som.
Eu sinto muita falta da luz, por causa da televisão. A televisão
faz falta. Eu gosto muito de ver filme.
Eu gosto de assistir jogo [de futebol], mas aqui não dá. Isso é
ruim, né?!
Lá em casa, o que a gente mais sente falta é da energia
elétrica. Água também é difícil, tem que ir buscar na mina ou
esperar o caminhão da prefeitura, mas a luz é difícil, porque a
gente gosta da novela e não pode acompanhar.
Olha, eu vou te falar que a coisa ruim aqui é a falta de luz, viu?!
A gente quer assistir uma televisão, fica difícil. Quando está de
folga, quer ver uma novela, também é difícil.
A televisão "faz falta". E diante dessa carência sentida por eles encontram se algumas limitações do MST para com os jovens.
Além da reclamação em virtude da ausência de infraestrutura, que torna a vida debaixo da lona preta difícil, os jovens têm seu tempo livre fluido, correndo de forma espontânea, uma vez que não há política cultural voltada para esse grupo, mas apenas atividades intermitentes, descontínuas.
Alguns deles rememoram momentos de sua história em que a atenção de suas lideranças era maior para com as novas gerações, objetivando promover sua integração e formação cultural. Para alguns jovens, o MST deveria voltar mais esforços para o que consideram atividades "próprias de juventude":
No começo, a gente tinha vários projetos: tinha projeto de uma
horta, tinha projeto de campo de futebol, tinha vários projetos.
Mas só depois não teve aquele apoio para a juventude, assim,
aquele apoio dos acampados [...] Aí os jovens começaram a
dispersar, sair para um lado e para o outro, aí acabou e hoje
não tem nada ou só tem de vez em quando.
Tem a ciranda infantil que eu vou de vez em quando. Tem as
festas que a gente participa. Mas não tem nada, assim, "direto"
para os jovens que moram aqui fazer, tipo, uma quadra, um
divertimento mesmo, aquilo que os jovens gostam, como um
futebol. Teve a rádio aqui antigamente, era uma delícia, porque
a gente se envolvia muito com a rádio, mas agora não tem
mais.
Eu lembro que teve uma época que tinha cinema pra gente
"direto". Agora é só muito de vez em quando. É ruim, né?! A
gente tem que inventar coisas para fazer, tipo, um campo de
futebol não tem. Bola para a gente jogar é sempre difícil
também.
Uma coisa ruim aqui também é que não tem muita atividade
para a gente. A gente fica meio perdido, solto mesmo, sabe?! Aí
acaba ficando cada um para o seu lado. Uns vão inventar de
jogar bola, outros vão fazer outra coisa, enfim.
Hoje, assim, as coisas que mais tem, tipo atividades, assim,
eles pensam mais nas crianças. Por exemplo: há pouco tempo
teve uma atividade de ir no bosque e vários jovens foram no
bosque e era para as crianças. Até discutiram isso na reunião,
mas o bosque era para as crianças, mas e os jovens?! Então, a
gente vai sendo esquecido, eu acho que é assim, no meu modo
de pensar é isso. Porque aí, está bem, leva as crianças para o
bosque, aí algumas atividades a gente não pode ir. O que é que
fica pra gente?
A ausência de incentivos públicos para o assentamento é, sem dúvida, uma força que atua no sentido contrário aos esforços de mobilização dos jovens do assentamento Mário Lago, como afirma Kelli Mafort:
falta muita coisa no assentamento: não tem quadra, não tem
escola, não tem incentivo para a produção [...] Tem muitas
questões materiais, objetivas que estão ligadas à sobrevivência
que interferem muito [...] Isso faz com que a juventude passe a
participar pouco não só das reu niões, das atividades, das lutas,
como dos próprios lotes de suas famílias. (Mafort, 2008)
Sirlei Moreira, em entrevista ao autor, aponta as dificuldades objetivas do MST em mobilizar capacidades juvenis para a vida em comunidade, em razão da ausência de estrutura nos assentamentos, oriunda do descaso público para com esses grupos de famílias que integram as bases da luta promovida pelo MST. Referindo se ao assentamento Mário Lago, o militante afirma que a ausência de recursos materiais para desenvolver atividades vol -tadas para jovens, como oficinas, cursos, atividades culturais, de esporte e de lazer, dificulta o trabalho de "conscientização do jovem do MST".
Sobre a ocupação do tempo livre dos jovens, Augusto Caccia Bava faz importantes considerações, ao criticar severamente a concepção neoconservadora que afirma, em primeiro lugar, que o tempo livre ou de ócio dos jovens é homogêneo e, em segundo lugar, que pressupõe que sua ocupação profissionalizante esteja sempre vinculada a processos formativos. Para o autor, "o ócio dos jovens integrantes de famílias cujo orçamento é precário e que vivem nos bairros chamados periféricos tem conteúdos distintos e formas distintas do ócio dos jovens de bairros de famílias das chamadas classes médias". Assim, se, para os primeiros, a rua é referência de espaço de convivência e até mesmo de formação cultural, para os segundos, são shopping centers, cinemas, clubes, bares. Os jovens moradores de periferias pobres das cidades "ocupam terrenos que se transformam em campos de futebol, quadras para prática de dança, para empinar pipa, rodar pião, [...] integram se a grupos de hip hop e dançam, cantam, desenham" (Caccia Bava, 2006, p.69 70). No assentamento, os jovens criam linhas imaginárias ou demarcam, nos vastos espaços, campos de futebol com galhos de árvores; brincam de esconde esconde, sobem e descem de árvores, banham -se nos rios e nascentes, cantam e dançam ao som de suas vozes, pulam corda, namoram... É comum encontrarmos manifestações musicais associadas ao hip-hop; jovens que jogam capoeira; outros que dançam e cantam, dentre inúmeras formas de manifestação artístico cultural.
Trata se de um conjunto de experiências, trazidas e criadas pelos jovens, que poderiam ser consideradas como momentos de formação cultural e ética, constituindo se em bases para a intervenção permanente e contínua das instâncias de organização do assentamento, por meio da implementação de políticas culturais para os jovens, a fim de atender a suas expectativas no que diz respeito a "atividades próprias de juventude".
Para tanto, é preciso, como afirmou Augusto Caccia Bava, superar a dimensão institucional, funcional, sistêmica e mercantil contida no conceito de lazer – trazido pelo MST na própria denominação do setor responsável pela difusão de práticas culturais junto aos jovens, "esporte, cultura e lazer". Para esse autor,
Cultura [...] jamais pode ser "ofertada" ou "localizada em
espaços", como não há como baratear custos de manifestações
culturais. Agora, para difundir a cultura brasileira regional, sem
dúvida há necessidade de investimentos em grupos
constituídos e projetos que objetivem a potencialidade das
experiências desses grupos, que ao consumidor pode se
apresentar como prática de lazer. Mas só ao consumidor, não
aos grupos que desenvolvem suas práticas culturais. (2006,
p.75)
Os jovens, em suas falas, porém, não encerram o assentamento Mário Lago em dificuldades, constrangimentos ou ausências. Ao contrário, indicam capacidades em reconhecer referências concretas, no âmbito de sua própria experiência, no território em que vivem, no MST, de construção de relações sociais num padrão ético acima do que experimentaram na cidade. Assim, em seus depoimentos, emerge também um repertório que podemos chamar de envolvimento afetivo, ligado à proteção da existência e desenvolvimento dos jovens na comunidade do assentamento Mário Lago.
Para eles, a vida é difícil, no entanto, tem "coisas boas", como expressam as falas que trazemos a seguir:
Eu gosto daqui por causa da luta que o MST faz. Eu acho uma
luta muito bonita. Aqui também é gostoso, entendeu?! Eu gosto
de terra, eu gosto de mato, é isso.
Aqui [no assentamento] a gente pode viver da terra. Na cidade
você pode viver da terra? Tem terra pra você viver? Tem nada.
Não tem nem casa pra gente morar.
Aqui é um silêncio só. Não tem barulho de tiro. Isso é bom,
muito bom.
Ah, aqui [no assentamento] é demais, cara. Aqui é um lugar,
assim, onde que você pode opinar na comunidade, pode dar
sua opinião mesmo, falar o que você sente, o que você acha,
se você está concordando com aquilo; pode falar suas
propostas, é bem diferente.
O bom é que não tem barulho, não é perigoso como lá fora na
cidade. Porque aqui é sempre tudo calmo. Não tem perigo.
Aqui tem a união das pessoas, tem um lugar que você sabe que
você vai plantar, que você vai colher, que você vai comer dali,
vai sobreviver dali, entendeu?! Você mora numa organização
familiar, de família, de tudo. E você tem uma segurança aqui
que você vai plantar, que você vai colher, que você vai viver
daqui, da terra.
A gente é feliz, porque aqui você planta, você vende. As
relações que se tem aqui, nossa! Isso na cidade a gente não
tem.
Aqui é tranquilo, né?! Eu mesmo gosto de preservar muito a
minha vida, porque lá na cidade você só pega amizade com
bandido... na rua não tem jeito. Se não é bandido, está fumando
maconha, então é difícil. Daí que eu vivo muito essas coisas
também, mas depois que eu peguei uma certa idade, de uns
vinte anos para cima, aí já vi que tinha outras coisas na vida pra
fazer que eram muito melhores, né?! O clima da roça também é
diferente. Eu gosto de morar aqui.
Pode comer uma fruta, uma verdura sem agrotóxico. Pode
conviver com a terra. Pode comer uma galinha do "terreiro" sem
ter tanto hormônio na galinha.
Os jovens dizem, para usar sua expressão, "o que é bom" no assentamento, o que o distingue das experiências que tiveram até então: é a luta do MST, são os instrumentos de participação política criados para organizar a vida em comunidade, com os quais nunca tinham tido contato algum; a tranquilidade e a falta de perigo que não experimentaram na cidade; a união das pessoas, que torna o assentamento uma organização familiar acolhedora, protetora; a felicidade por poder reproduzir a existência material.
Quando indagamos qual a diferença entre viver na cidade e viver no assentamento, os jovens reafirmam as ausências do assentamento, como a falta de água e de energia elétrica e a moradia precária, porém, expressam valores e sentimentos que Maria de Fátima da Fonseca consideraria "opostos e desprezados pela sociedade produtivista e consumista" (2006, p.112).
No assentamento, a noção de segurança emerge como uma das primeiras referências dos jovens, ganhando sentido perante a situação de violência generalizada nas cidades brasileiras. Noção, aliás, já tratada por Sérgio Adorno, como distante dos horizontes das classes sociais no Brasil, que passam a experimentar, cotidianamente, o sentimento de medo, insegurança e desproteção. Segundo Adorno,
a despeito das conquistas democráticas, a sociedade brasileira
vem explodindo em múltiplas formas de violência, muitas das
quais consubstanciadas em graves violações dos direitos
humanos, comprometendo a vida de segmentos muito
significativos dessa sociedade. (2000, p.98)
Para alguns jovens sem terra de nossa pesquisa, o assentamento Mário Lago representa a superação do medo, da insegurança e da desproteção, inaugurando relações que consideram "livres":
É aquele negócio: nós temos liberdade. Aqui [no assentamento]
não tem cerca para separar um vizinho do outro. Nós damos
um grito no vizinho e ele já está ali. Nós fazemos um
"carrerinho" pelo meio do lote e já estamos na casa do vizinho.
Não precisa nem passar pelo meio da estrada. Agora lá [na
cidade], você ainda tem que colocar um ca deado e ficar
prisioneiro, limitado entre um muro e outro. A única liberdade
que você tem é do portão da sua casa para dentro, porque se
você sair na rua você não tem a liberdade de verdade,
entende?! Agora, aqui não.
Na cidade a gente é livre, solto demais, mas não é uma
liberdade igual à que a gente tem aqui, porque aqui a gente tem
norma pra seguir, mas aqui [no assentamento] que a gente é
livre de verdade mesmo.
A diferença entre viver no acampamento e viver na cidade é
que na cidade eu não tenho uma liberdade dessas não. Na
cidade, se você sair de casa fora de hora, é arriscado tomar um
"pau" na rua, tomar uma bala. Aqui não. Apesar de que nós
estamos do lado da cidade e pode ocorrer do mesmo jeito
também, mas você sabe que está seguro aqui, você sabe que
tem pessoas 24 horas olhando por você aqui. Não é um que vai
chegar aqui de outra cidade ou de outro, sei lá, e te meter uma
bala na cabeça.
Aqui você é livre, tem seu sossego, sua paz, você pode andar
sem ter medo de nada.
Para além da defesa da integridade física, da segurança e da liberdade, esses depoimentos trazem, como expressam outros jovens, uma dimensão afetiva, quando o sentido de proteção, de tranquilidade e, mais ainda, quando o estabelecimento de outro padrão moral de relações sociais é posto em relevo:
A cidade hoje, em qualquer lugar da cidade, você corre perigo,
você não sabe o que vai acontecer. Aqui não. Você pode andar
tranquilo para lá, para cá. E também tem o ar que é bem
diferente. Para dormir também é "dez", não tem aquela
barulheira. Aqui você pega, deita e acabou.
Na cidade a gente não sabe o que vai acontecer hoje. Por
exemplo, se eu estivesse na cidade, eu podia estar envolvida
com droga, com prostituição, com um monte de coisa que tem
na cidade e que ninguém faz nada para acabar. Aqui não. Aqui
tem norma pra tudo: não pode usar droga, não pode ter briga,
não pode essas coisas, então, é melhor.
Não tem droga, não tem traficante, não tem aquela correria da
cidade, aquela barulheira. É tranquilo. Outra: você pode criar
um animal, uma galinha, um porco, um cavalo, igual você
mesmo viu ali. E lá na cidade você vai criar o que dentro da sua
casa?! Um cachorro e olhe lá. E para cuidar da sua casa
quando você sai. Aqui não, você pode criar uns dez cachorros,
porco, galinha, cavalo, gato.
No primeiro dia aqui você já conhece todo mundo. Na cidade,
uns conversam, outros nem olham na sua cara, outros só
querem briga. Aqui dentro não. Todo mundo "zua", mas pediu
para parar, "os moleques" param, é tudo no respeito. Na cidade
não.
Para Maria de Fátima da Fonseca, "interpretar o medo dos jovens como habitantes da cidade é perceber a hostilidade da cidade". Assim, "quando o jovem revela as situações das quais sente medo [ou insegurança], isso pode significar que ele não está conseguindo ter afetividade com as diferentes pessoas que também residem na cidade". Em tom conclusivo, afirma a pesquisadora, "o medo compreendido desse jeito, como sua reação à negação de um direito, aponta para a dificuldade de obtenção de realização pessoal – satisfação da convivência amigável e cuidadosa entre as pessoas" (2006, p.140).
Sobre o tema da segurança urbana, Augusto Caccia Bava vem desenvolvendo ampla pesquisa com a finalidade de reconhecer experiências localizadas no interior da sociedade civil que apresentam alternativas às situações de insegurança dos jovens e garantia de direitos sociais. Em sua produção, encontramos o projeto "Segurança urbana e direitos sociais dos jovens", que data de 2001. Nele, o pesquisador envolveu cerca de setecentas famílias de jovens para que indiquem alternativas aos poderes públicos de superação das situações de violência que ocupam a cidade de Ribeirão Preto. As generalizações feitas pelos jovens sobre as formas de violência que as relações sociais contemporâneas assumem dizem respeito à formação de gangues nos bairros, grupos violentos em portas de escolas, a presença de tráfico de drogas nas ruas dos bairros onde vivem, e outros problemas. Segundo o pesquisador, "os jovens afirmam cons tância dessas práticas violentas que se sobrepõem a práticas de solidariedade, de cooperação pacífica, entre outras". A essas si tuações, "os jovens revelam sua capacidade de indicar alternativas para o desenvolvimento da segurança urbana em seus bairros", ainda que de "forma elementar". Dentre elas, a suspensão de bebidas alcoólicas para menores de idade, campanhas de conscientização, palestras educativas, oferta de empregos, mais educação, etc. (Cac -cia Bava, 2004, p.59 60).
Para os jovens sem terra, igualmente, a cidade é o lugar da insegurança, lugar de violência, de miséria, de degeneração da formação ética e moral do indivíduo. O assentamento Mário Lago é, para esses jovens, a alternativa às situações mencionadas. A consciência do grupo emerge entre os jovens associada à vida conjugada com a terra e com seus iguais, à criação de condições materiais para a reprodução da existência física no presente e no futuro, à solidarie dade, aos princípios políticos e organizativos do movimento de luta que integram, à participação política nas decisões sobre a comunidade, ao contato com e à discussão de temas até então desconhe cidos ou obscurecidos pelos grupos e/ou instituições que tinham como referência (escola, meios de comunicação, grupos de amigos, entre outros).
O assentamento é o lugar dos limites éticos, onde a ordem comercial, mercantil, não é prioritária. Os jovens destacam elementos que, para eles, são os constrangimentos de viver na cidade. Constrangimentos que levam todo o grupo de jovens sem -terra que participaram de nossa pesquisa a optar pela vida no assen tamento, afirmando sua importância como meio de superação da insegurança urbana, ou seja, dos aspectos que marcam a existência constrangida das classes subalternas nas periferias pobres das cidades:
Aqui [no assentamento] a gente tem com quem contar para
tudo. Não tem violência e tem terra pra gente plantar, pra gente
viver sem passar fome.
A vida no assentamento tem suas dificuldades, mas é uma vida
boa para mim. Uma que você já se livra da cidade, aquele
barulho de carro, aquela barulheira toda já não existe mais.
Aqui você tem que começar a trabalhar e pensar no trabalho
coletivo e tem que trabalhar na roça para tirar seu sustento,
senão você não tem recurso para sobreviver ali, né?! Mas é
uma vida muito boa, uma vida digna. Não tem ninguém para te
mandar fazer nada, não tem ninguém te enchendo o saco para
acordar de manhã para ir trabalhar, não. Você acaba tendo sua
vida independente.
Aqui você está num lugar que você tem reunião, que você tem
um regimento para você cumprir, que se roubar, ou acontecer
alguma coisa que prejudique o movimento, a pessoa é expulsa
e aí não tem direito de ficar aqui. E também não é só o direito
pela terra, mas o direito que o cidadão tem hoje, tipo, direito de
ter um país que ajude mais.
Na cidade a visão é outra. Quando eu morava na cidade eu não
tinha essa visão que eu tenho hoje. Na cidade eu queria ser
mais outra pessoa, ter as coisas que, hoje, se você for na
cidade você tem vontade de ter, porque, hoje, viver na cidade é
[...] não se vive na cidade sem dinheiro, né?! Tem que ter
dinheiro para comprar as coisas que você necessita. Precisa de
arroz, precisa disso, tudo que você tem na cidade, você tem
que ter dinheiro para você ter. Aqui já é diferente. Você quer
comer uma fruta, não precisa roubar, é só arrumar uma
semente e plantar, vai crescer. Você pode esperar muito tempo,
mas você vai ter aquela fruta e ainda vai ser orgânica. Igual,
você vai na cidade, você compra e ainda compra transgênico.
Isso eu estou aprendendo também. Isso é ruim para a
sociedade, também.
Ah, na cidade a gente não se preocupa muito com esse negócio
de política. É mais cada um no seu cantinho cuidando da sua
vida. Aqui você já fica por dentro de alguns assuntos de política
que eu não tinha nem noção que existia antes de morar aqui.
Tipo, o Lula, o que ele faz, o que não faz; a questão do
agronegócio; a cana.
Antes eu via esse monte de cana e não estava nem aí se tinha
[cana] ou não. Hoje você fica já "meio assim", porque por todo
lado que você passa é cana, sabe?! Aí o pessoal já fica
preocupado.
Ah, aqui tem mais espaço, tem mais liberdade. Na cidade você
é muito preso. Você não tem terra nem para plantar uma flor.
Aqui não: você pode plantar flor, plantar árvore. Você vê o fruto
daquilo ali. Agora, na cidade, não: você planta uma florzinha na
calçada, vem a molecada e acaba com tudo. Aqui é melhor
também por causa de sossego. Na cidade é muito bagunçado
A superação da fome, o rigor na conduta ética e moral, a soli -dariedade e a cooperação, a organização política e a luta por direitos coletivos/sociais, o lugar para trabalhar livremente, sem as amarras impostas pela lógica da produção do lucro são aspectos que, para esses jovens, diferenciam a vida no assentamento da vida na cidade, ou a vida no campo, tal como a constroem, da vida no espaço urbano.
Priscila Bagli tratou as categorias "rural" e "urbano" traçando marcos de distinção, pontos de junção e disjunção, contradições. Definiu, assim, os tempos e temporalidades de uma e outra. Para a autora, no espaço urbano, o cotidiano é construído sobre um tempo mecânico, descompassado das transformações naturais; seu ritmo é concatenado pelas relações sociais de produção de mercadoria. "O tempo é movimento no urbano, e é sobre esse constante movimento que são construídos referenciais, hábitos e costumes." Por isso, afirma que "trabalho, descanso, compras e lazer são cadenciados pelo compasso da lógica do capital de maneira mais efetiva". Diferentemente, embora não exclusivamente, no espaço rural, "as relações cotidianas são construídas sobre um tempo mais ligado a uma lógica territorial que se consolida por meio da intensa relação com a natureza [...] Existem outros tempos, outros horários. As pessoas estão imbuídas por uma outra lógica" (2006, p.83), o que não significa uma relação de dicotomia entre o espaço urbano e o espaço rural, mas alguns aspectos de um e outro lugar que demarcam parte de um conjunto de diferenças que podem ocupá los.
No caso dos jovens sem terra, as referências coletivas que ganham através da organização de luta somam se aos aspectos constitutivos/estruturantes das novas relações sociais que estão construindo. Embora estejam política, cultural e geograficamente bastante próximos, estabelecendo amplas relações, quando veem a cidade a partir do assentamento, os jovens estabelecem importantes marcos de distinção entre uma e outro, delimitando, com isso, as fronteiras entre as experiências.
António Sousa Ribeiro faz importante reflexão sobre o conceito de fronteira, percorrendo tópicos da teoria estética para afirmar va lores éticos e políticos. Para o pesquisador português, o conceito de fron -tei ra só se torna operativo na medida em que está para além da deli mitação territorial; estabelecer fronteiras é, ao mesmo tempo, cons truir o outro; "a fronteira começa por ser, antes do mais, a linha ima gi nária sobre a qual se projecta a noção de diferença e a partir da qual se torna possível a afirmação da identidade" (2002, p.481). Desse modo, os conceitos de cultura e de fronteira não podem ser separados.